Os teus filhos precisam de ti e não do teu dinheiro

Na sociedade de hoje em dia, há a ideia errada de que dar presentes é demonstrativo de amor e afeto. Assim, os gestos genuínos que representam amor e carinho são, muitas vezes, substituídos por presentes e diversas atividades.

Hoje, uma criança feliz é aquela que tem e faz de tudo, desde a natação, ao inglês, ao futebol. As nossas crianças sabem fazer muita coisa, mas têm pouco espaço dentro de suas próprias casas.

Pais demasiado ocupados para estar com os filhos e que, ao mesmo tempo, ocupam excessivamente os filhos, como forma de “suprir” essa falta. Não tentamos culpabilizar os pais, mas sim promover uma reflexão sobre a relação pais e filhos, a qual é muito importante e tem sido deixada, cada vez mais, de lado.

Porque é que os teus filhos precisam de ti

Por mais que uma criança tenha mil e uma atividades, uma conversa, um abraço e essencialmente o nosso tempo, não são dispensáveis nem substituíveis.

Nós, adultos e Pais responsáveis precisamos disso. Precisamos de saber que alguém zela por nós, precisamos de ter um lugar não só para descansar no fim do dia, mas alguém para conversar e partilhar a nossa vida.

Os filhos também precisam deste espaço. A atenção não deve ser apenas de fora, mas também (e principalmente) dos pais. Por isso, encheres o teu filho de presentes não significa necessariamente que ele se vá sentir amado. Presentes e dinheiro para comprar roupas ou ir a festas, ou simplesmente ser um pai-mãe liberal não resume, de todo, as necessidades básicas do teu filho.

Assim como uma relação amorosa não é sustentada por presentes e jantares, também as relações entre pais e filhos têm de ser diariamente regadas. É essencial dar espaço ao diálogo, permitir que os filhos partilhem histórias, medos e angústias que, muitas vezes, ficam retidos pela falta de tempo. A falta de tempo é muitas vezes falta de entrega e de disponibilidade emocional.

Por mais que os nossos filho não manifestem o desejo de se expressar, é preciso estimular estas relações positivamente.

As crianças querem ser ouvidas

A série “13 reasons why” mostra-nos a importância das relações não só no âmbito social, mas também familiar. As crianças e adolescentes precisam de ter um espaço de acolhimento dentro das suas casas. De ter alguém que os defenda em vez de apenas julgá-los e culpabilizá-los.

Vejo muitos adolescentes que têm de “tudo”. Têm o melhor telemóvel, roupa de marca, viajam por todo o mundo, mas  queixam-se de ninguém lhes dar ouvidos. Pessoas que estão angustiadas e não sabem lidar  com o seu sofrimento. Que procuram alguém com quem partilhar e acabam perdidos nesta procura incessante de alguém que os escute, e que acolha as suas angústias.

A culpa não é da família. Muitas vezes, os pais não se apercebem desta necessidade quer seja pela rotina, pela correria, ou por inúmeras razões.

O alerta vem no sentido de nos direcionarmos para estas relações. De nos empenharmos em fortalecer a relação com os filhos enquanto são crianças, não através do dinheiro, de presentes, agrados e permissões, mas através da escuta, do companheirismo e da nossa presença e empenho.

Nada disto supre a falta de um abraço caloroso. Nada paga o colo nem o ombro amigo que lhes permite chorar. Nada anula a nossa presença e o cuidado parental. Afinal, todos nós amamos sentir que alguém zela por nós, os teus filhos precisam de ti.

 

Publicado em ContiOutra, adaptado por Up To Kids®

Pedir desculpa aos filhos não nos rebaixa, eleva-nos.

Há quem diga que as crianças não merecem um pedido de desculpa. De acordo com esta perspectiva, pedir desculpa a uma criança torna-a um pequeno ser maquiavélico que tenderá a abusar e a impor-se sobre os outros; é quase como se levasse à deturpação da inocência e bondade da criança.

Habitualmente quando sinto que preciso de pedir desculpa a alguém tenho de rever internamente a forma como o irei fazer. Possivelmente por ao longo da vida me terem pedido desculpa poucas vezes e ter aprendido que é difícil fazê-lo, este comportamento não ocorre naturalmente. As únicas pessoas com quem tal não se sucede são as que já me pediram desculpa antes, com essas existe abertura e espontaneidade no pedido de perdão – óbvio ou talvez nem por isso.

Quando alguém nos pede desculpa permite-nos conhecer as suas imperfeições e mostra-nos que as reconhece. Tal leva-nos a sentir que todas as nossas características (as boas e as menos boas) também serão aceites, uma vez que não faz sentido o outro exigir mais de nós do que exige de si próprio (se ele percebe que não é perfeito, aceitará que o mesmo se passa connosco). Além disso, o esforço do outro reconhecer atitudes das quais se arrepende dá-nos sinais de valorização e estima em relação a nós, caso contrário pouco se importaria do impacto que o seu comportamento tem.

Por quantas pessoas se sentem verdadeiramente aceites e valorizados? Provavelmente pelas mesmas que já mostraram amar-vos ao ponto de reconhecerem que não estiveram bem a dada altura (por vezes chega a ser um acto de altruísmo).

Pedir desculpa aos filhos

Desde cedo comecei a pedir desculpa à nossa filha, peço-o sempre que sinto ser necessário, de forma sincera, tal como pediria a um adulto. Como resultado, ela começou a modelar este comportamento, isto é, aprendeu a imitá-lo e com o tempo interiorizou-o ao ponto de pedir apenas quando sente que o deve fazer – depois de levar algum tempo a pensar, vem ter connosco e pede desculpa sem que ninguém lhe diga que o deve fazer.

Se cada vez que peço desculpa à nossa filha ela aprende que a amo, que a valorizo, que não sou perfeita e por isso ela também não terá de o ser, que a aceito como é, que amar os outros implica colocarmo-nos na pele deles e sair da nossa zona de conforto, então esta será uma competência que farei questão que a acompanhe pela vida fora e que acredito que a levará onde quiser chegar – o amor próprio e pelos outros implícitos no pedido de perdão não nos rebaixam, elevam-nos.

imagem@guiainfantilBrasil

Surgiu esta semana em conversa.

“A maioria dos pais, homens, não estão presentes na vida dos filhos”.

A frase chocou-me. Ainda mais porque foi seguida de vários exemplos reveladores, lançados porque alguém com conhecimento de causa, que trabalha com famílias e em contexto escolar. Eram 8 as coisas que um Pai não faz.

Não serei o melhor Pai do mundo, longe disso, mas posso orgulhar-me por nunca ter faltado a um momento importante da vida dos meus filhos. Por vezes, com sacrifício da minha vida profissional. Mas foi sempre simples decidir, porque são eles a minha prioridade.

No dia a dia, é também para eles que reservo o tempo de maior qualidade. E isso passa também por desempenhar tarefas que, tradicionalmente, costumam ser entregues à Mãe.

Para os pais (homens) que se “esquecem” que ser Pai é mais do que pôr uma criança neste mundo, deixo o alerta. Elas precisam de mais. Aqui vão 8 coisas que a maioria dos pais (homens) não fazem… mas deviam fazer:

1 – Vestir a criança.

Ok, em princípio vai correr mal. Muito mal. Pelo menos à primeira tentativa. E à segunda. E à terceira. O babygrow está mal posto, o macacão fica largo, a camisola mal amanhada e fora das calças e os ténis não condizem com a camisola. Mas se não nos deixarem tentar, nunca aprenderemos, certo.

Por isso respirem fundo, mamãs, e deixem-nos assumir o risco. Vão ver que, com o tempo, nos tornaremos nuns verdadeiros especialistas!

2 – Mudar a fralda.

Aí está uma coisa que nunca percebi: porque é que tem que ser sempre a mãe a chegar-se à frente na hora de mudar a fralda à criança? Quando nascem, a desculpa é porque são muito pequeninos. E porque nós, homens, somos uns brutos e podemos magoá-los (já ouvi isto muitas vezes, acreditem). Mais para a frente, tudo serve de razão para o Pai se descartar. Ora é porque está a dar a bola ou um “filme” qualquer, ora é porque a Mãe “tem mais jeito para isso” ou porque “limpa melhor” o rabinho do bebé.

Verdade seja dita, a verdadeira razão para um Pai assobiar perante o vislumbre da mal cheirosa tarefa é a preguiça. Porque custa levantar o rabo do sofá depois de um dia de trabalho. E assim se perde a oportunidade de criar um momento divertido a dois. E de criar vínculo.

 3 – Cozinhar.

Porque é que pôr as mãos na massa (literalmente) continua a ser, na maior parte das famílias, um (quase) exclusivo das mães? Porque é que ainda há tanta resistência do Pai em preparar uma refeição para os filhos? Se ambos trabalham, porque é que tem que ser sempre a Mãe a chegar a casa (cansada) e a tratar do assunto?

Vá lá homens, estamos em 2017! Sejam evoluídos e dividam (também) esta tarefa. Cá em casa é um prazer que não dispenso. E os miúdos agradecem. Às vezes até já me chamam chef. E soa tão bem ?

4 – Preparar o lanche para a escola.

Não fosse a Mãe a lembrar-se de colocar na mochila o pacote de leite ou o sumo, a sandes ou a fruta para o dia seguinte, e a maioria das crianças morreria de fome na escola.

Os pais (homens) que conheço nem se lembram desta tarefa diária. E antes que sejam chamados à atenção, disparam a frase: “amor, preparas o lanche da escola dos miúdos?”. Vá lá, deixem-se disso e cheguem-se à frente!

5 – Ir às consultas.

Uma chatice. É assim que muitos pais (homens) encaram uma ida com os filhos ao médico. E evitam pôr os pés nas consultas, não porque não possam mas porque acham que deve ser “território” das mães.

“Elas é que fixam tudo o que os médicos dizem, nós não vamos ali fazer nada…”, já ouvi de um Pai. Nada mais errado. Acompanhar o crescimento das crianças também é isto, e nem tudo são rosas, ok?

6 – Ir às reuniões e eventos escolares

São manhãs ou tardes “perdidas”, acham alguns pais (homens) que conheço. Outros, percebe-se a seca que estão a apanhar pelo sorriso amarelo quando lá aparecem.

Delegar sempre na Mãe essa responsabilidade é demitirmo-nos de educar. E são oportunidades perdidas para reforçar o vínculo.

7 – Pedir guarda partilhada ou conjunta

Deixei a mais polémica para o fim. Apesar de me parecer que o paradigma começa a mudar, ainda há muito por fazer.

Porque é que a maioria dos homens que se separam (dizem-me amigos juristas, mas corrijam-me se estiver errado) continua a contentar-se em ver os filhos de 15 em 15 dias? É assim que querem criar uma boa relação com eles? E que espécie de adultos estarão a criar?

Desculpem o sermão, mas às vezes é preciso ler… para crer. Ou querer!

imagem@jetosoft

Desculpa, desculpa, desculpa filho! Milhões de vezes desculpa.

Até diria que nem mereço que me perdoes, porque tu, és tão puro e inocente que nem sentes que precisas me perdoar. Tu és tão incondicional que és meu, com todos os meus defeitos… Ainda assim, quero pedir-te desculpa!

Desculpa por todas as vezes que me pediste colo e eu não to dei. Nada justifica não o dar. Tu não vais ser mimado, não vais ficar mal habituado, e eu nem estou assim tão cansada. A verdade é que um dia muito em breve, já não vais querer o meu colo, e eu vou estar ainda mais arrependida pelas vezes que não to dei.

Desculpa por todas as vezes que te falei mais alto. Pela paciência que me faltou, pelos afazeres que me exacerbaram e que me fizeram falar-te mais alto e de forma impaciente. O certo é que tu recorreste a mim, e eu não te correspondi.

Desculpa pelo cansaço… pela exaustão que às vezes toma conta de mim e que não me deixa acompanhar as tuas correrias, as tuas emoções ou a tua alegria! Nunca deixes de ser assim. Mesmo que a mãe te diga que está cansada, não desistas de mim.

Desculpa por ter que trabalhar. Por te deixar a maior parte do dia com pessoas que não sou eu. Por apenas estar contigo um par de horas por dia. Por não conseguir estar mais tempo contigo e acompanhar mais o menino em que te estás a tornar. Eu prometo que tento, e que estou contigo todos os minutos que consigo.

Desculpa por ter sono quando ao Domingo de manhã queres ir jogar à bola. Por ir muitas vezes ainda meio ensonada e a esfregar os olhos, e muitas vezes tentar dissuadir-te da ideia.

Desculpa por ter muitas coisas para fazer. Roupa, loiça, pó… E ainda que tente sempre fazer disso uma brincadeira, se eu pudesse as nossas brincadeiras seriam sempre outras.

Desculpa filho, se a vida é injusta! Se o mundo não está preparado para me deixar ser completamente tua mãe! Muito disto não é a minha culpa, mas ainda assim, tu és o mais importante da minha vida, e o que lhe dá sentido. E por isso mereces o meu pedido de desculpa, hoje e sempre, mesmo que não o queiras.

Finalmente chegou o dia da reunião de família. Fazemos sempre uma, quando temos um assunto importante a tratar ou simplesmente quando nos apetece falar em modo reunião de condomínio catita e votar em qualquer coisa.

Esta era uma reunião fabulosa-especial, era a reunião onde iriam ser definidas as regras para ser feliz.

Durante uma semana, cada membro da família tirando o gato, tinha de pensar em duas regras importantes para a felicidade e bem-estar da nossa família. Estas seriam depois apresentadas e votadas na reunião pelos restantes membros. Após a reunião, seriam afixadas com lugar de destaque no frigorífico as “Regras da Casa Catita”.

O pequeno catita, em grande euforia, apresentava as suas duas propostas a serem votadas.

Regra número 1

“Número 1: Não nos podemos magoar uns aos outros, no corpo nem no coração.” 

Fiquei um bocado atrapalhada-feliz com aquela primeira regra, ao pé das minhas a dele era muito mais madura e profunda. Tinha tantos níveis implícitos do que tentamos, apesar dos mais variados trambolhões, respeitar nele e em nós… Tinha empatia, cuidado com o outro, noção de que o coração se magoa tanto ou mais do que o corpo… Pensei que em vez de regra da casa, devia era ser regra do Mundo.

Sem qualquer tipo de dúvida, a regra número 1 foi aprovada por unanimidade!

Regra número 2

“Número 2” gritava entusiasmado “Respeitar o tempo e o trabalho de cada um.” Ora bem, quem és tu e onde está o meu filho?! Os miúdos têm esta característica fabulosa de nos surpreender. Desde sempre que lhe explico como é importante termos o nosso tempo, darmos tempo e respeitarmos os outros no que estão a fazer. Refiro a importância de passarmos tempo sozinhos, de estarmos na nossa própria companhia e de fazermos o que nos entusiasma para carregar a nossa pilha interior. Ele parecia não ouvir NADA do que lhe estava a dizer. E do nada, vem a regra número 2 cheia de respeito e consideração pelo outro. Foi neste momento, que pensei em dizer que o gato tinha comido o meu TPC das regras.

Regra número 3

Seguiu-se o pai catita com a regra número 3 “Todos os dias, passar 20 minutos em família.” Não temos todo o tempo do mundo, mas temos aqueles 20 minutos. Até podem ser passados no carro parados no trânsito a fazer coreografias idiotas com as músicas que estão a dar na rádio. Ou a dobrar os lençóis da cama, enquanto o pequeno catita mergulha animado por baixo deles. São 20 minutos em que estamos lá todos, juntos. Totalmente presentes.

Regra número 4

Regra número 4 “Não podemos ir dormir chateados uns com os outros”. Esta regra foi a única que definimos quando eu e o pai catita começámos a viver juntos. Nos dias em que ainda estávamos chateados na hora de dormir era MUITO incómoda, mas é tão importante para os sentimentos e pensamentos enrolados não crescerem dentro de nós como ervas daninhas que nos separam um do outro. É uma espécie de restart do computador, em vez de levar a noite toda com um murro no estômago e vontade de morder em alguém. Antes de dormir, tínhamos de falar e resolver a situação. Ou pelo menos dar o primeiro passo, ou o primeiro abraço.

Regra número 5

Já eram quatro as regras aprovadas em família. A regra 5, surge de uma antiga e acarinhada tradição cá de casa. “Fazer uma refeição na mesa e uma no sofá, sempre juntos.” Ora na mesa, ora acampados no sofá com tabuleiros. É a nossa versão de pic-nic na sala. O importante é estarmos todos JUNTOS e a conversar!

Regra número 6

Regra número 6 “Contar sempre as coisas como elas aconteceram” . O ano passado, percebi que o pequeno catita não me contava filme todo. Usava uma versão trailer dos acontecimentos com os ingredientes que achava pertinentes e úteis para a sua versão. Para o ajudar a ser mais claro na sua comunicação e versão dos factos, inventei o jogo Contar as coisas como elas aconteceram”, que vai trabalhando de uma forma divertida o primeiro passo da comunicação não-violenta, a observação sem julgamento. Olhar com olhos de polícia para os acontecimentos, e apenas referir o que foi visto e ouvido. Para além do ajudar a ser mais objectivo e verdadeiro, trabalha a naturalidade de nos contar o que se passa na vida dele, criando e fortalecendo o canal de comunicação. Esta regra estendia-se agora a toda a família, por isso os “tu nunca lavas a loiça” e “chegas sempre atrasado/a” iriam ser substituídos por observações neutras que promovem o diálogo e não o ping-pong de acusações.

A reunião acabou e todos se sentiam entusiasmados com as novas regras. Nos dias seguintes, perante alguma situação menos consciente, o pequeno catita referia que cá em casa cumprimos as regras, e apontava para o frigorífico.

Sabes, quando as crianças se sentem parte do processo a sua vontade de colaborar é gigantesca porque sentem-se vistos, reconhecidos e ouvidos. Sabem que contam, e que nós também contamos com eles e com os seus pequenos dedinhos para nos apontarem o caminho para as regras mais importantes, as regras que nos fazem felizes.

Todos os pais querem dar a melhor educação aos seus filhos. Mas não existem receitas mágicas para criar melhores adultos. Errar é humano e não há pais perfeitos. Nem é possível evitar que, em algumas ocasiões, lhes saia da boca frases menos felizes, que podem ter um impacto negativo no seu desenvolvimento.

Muitas vezes caímos na tentação de dizer frases feitas, algumas até que ouvimos também em crianças. E que, sem nos apercebermos, desmotivam, afectam a autoestima e dificultar a relação pais-filhos. Mas não se martirize. Afinal, quem nunca se deixou vencer pelo cansaço depois de um dia de trabalho? Quem nunca desesperou com as tarefas que ainda o/a esperam em casa ou com “aquela” birra que “parece mesmo de propósito”?

“Somos humanos e é normal que cometamos erros. O importante é saber pedir desculpa, algo que custa a muitos pais. Além disso, se o fazemos, estamos a dar-lhes um grande exemplo”, explicou ao jornal El Mundo María Rueda, uma reputada psicóloga espanhola.

“Não se trata de nos retratarmos, nem tão pouco devemos compensá-los com carinho e palavras bonitas. O que fizeram é errado e devemos explicar-lhes para que aprendam a tomar melhores decisões da próxima vez. Além disso, devem saber que as suas acções têm consequências”, sublinhou ainda. Em suma: é preciso corrigir comportamentos, mas sempre de um ponto de vista construtivo e empático.

Para os especialistas, estas são as frases que qualquer pai deve evitar na comunicação com os filhos:

 1. “Se não fizeres o que te mando, ficas de castigo”

As ameaças utilizam o medo e podem afectar a confiança que as crianças depositam nos pais. Para além disso, “com o nosso exemplo, estamos a ensinar-lhes que para conseguir o que querem é legítimo fazê-lo através da intimidação”, diz Rueda.

2. “Se te portares bem, compro-te…”

Por vezes, os pais utilizam este estilo de comunicação para fazer com as crianças uma espécie de chantagem emocional. Desta forma, corre o risco de que ela não aprenda o porquê de ter que fazer o que lhe pedem, mas sim que o faz para obter um determinado fim.

3. “Não tens vergonha de te portares assim?”

Tal como a expressão anterior, que promove a culpa, esta fomenta a vergonha. Alguns pais impõe a disciplina desta maneira, principalmente diante de outras pessoas, “mas é melhor evitar as críticas que não sejam construtivas ou apenas conseguirá humilhá-los e minar a sua autoestima”, argumenta Rueda.

4. “Fazes o que te mando porque eu digo e pronto!”

Nós, adultos, tendemos a pensar que somos donos da verdade absoluta, se o nosso interlocutor é uma criança. E quando a discussão chega a um ponto em que já estamos cansados de argumentar, recorremos a esta frase para a dar como terminadas. Mas ser imperativo por ser imperativo só vai minar a relação pai-filho se não lhes explica porque devem fazer o que lhes é pedido.

5. “Vais enlouquecer-me!”

“Utilizar a culpa para motivar o seu filho não é o melhor método para mudar o seu comportamento. Além disso, pode gerar impacto negativo na sua relação com eles”, afirma Rueda. “Estamos a transmitir-lhes a ideia de que os nossos problemas são culpa deles, e isso pode gerar uma grande ansiedade“, acrescenta Inma Marín, consultora pedagógica e presidente em Espanha da Associação Internacional pelo Direito das Crianças a Julgar.

6. “Não chores, não é razão para tanto”

“Muitas vezes tendemos a sub-valorizar os sentimentos dos nossos filhos. Podem ter guerreado com um amigo na escola e isso para nós não tem importância, mas para eles tem e não devemos desvalorizar”, considera Marín. “Também é habitual usar a frase com a intenção daquilo que os magoa para que se sintam melhor, mas essa não é a maneira mais adequada de os ajudar. É melhor ajudá-los e consolá-los, para que saibam que quando lhes acontecer algo mau, os pais os entenderão e estarão ali para eles”, prossegue.

7. “Deixa estar que eu faço”

A mensagem que passa quando utiliza esta expressão é clara: “Não vais ser capaz de fazê-lo”. E se os pais acreditam nisso, a criança também acreditará, chegando à seguinte conclusão: “Para que é que me vou esforçar da próxima vez?”.

Ao actuarmos assim, estamos também a impedir que aprendam por si mesmos, tornando-os pessoas dependentes e inseguras.

8. “Não fazes nada bem”…

… ou “não sei quando vais aprender” são outros exemplos de frases pouco construtivas, já que “não valorizam o esforço, mas o resultado obtido”, assegura Marín. A evitar!

9. “Estou farta/o de ti”

Quando usa esta expressão, numa situação limite, não tem certamente a intenção de ferir os sentimentos do seu filho, mas é preciso estar ciente das possíveis consequências de um comentário destes. Pode fazer com que ele acredite que é algo que sente realmente, não só naquele momento mas sempre, e provocar um impacto negativo. “O amor de um pai por um filho é incondicional, e isso é algo que devemos mostrar-lhes a todo o momento”, afirma Marín.

10. “És má/mau”

“É um erro dizer isto a um filho, porque este poderá pensar: ‘Ok, sou assim e não posso fazer nada para mudar’”, explica Rueda. Os especialistas aconselham a ser preciso na hora de lhes explicar o que é que fizeram mal e a censurar as suas acções. “Em vez de lhes dizermos que são maus, é melhor centrar a atenção no que podem mudar para conseguir um resultado mais positivo. É mais construtivo usar outras expressões como: ‘Não gosto quando fazes…’ para explicar-lhes porque é que o seu comportamento não é aceitável e oferecer-lhes alternativas.

11. “És preguiçosa/o e não vais ser ninguém na vida”

As notas escolares são um dos principais focos de conflito entre pais e filhos adolescentes. Os primeiros querem que os segundos percebam que, se não estudarem, não terão um futuro risonho e que se arrependerão das decisões erradas que tomaram. Mas em vez de provocar neles uma reacção positiva, este tipo de frases danificam a relação entre pai e filho, provocando nos jovens uma sensação de frustração e desinteresse.

12. “Aprende com o teu irmão”

Cuidado com as comparações! É muito fácil cair nelas quando se tem mais do que um filho. Mas há que ter cuidado, porque “geram rivalidades na família e são muito prejudiciais a longo prazo”, alerta Rueda. A criança verá o irmão como modelo que nunca conseguirá alcançar e isso afectará a sua autoestima, por considerar que os pais gostariam que fosse diferente.

O poder de ser desobediente

Confesso, tenho 39 anos e sou desobediente. Quando estou na fila do supermercado e vejo alguém com uma única compra na mão, deixo passar à minha frente. Às vezes até deixo passar só porque está com um ar cansado ou apressado. Quando coloco moedas no parquímetro e me sobra mais de 30 minutos de estacionamento, ofereço o talão a um estranho. Depois há os dias em que está friooooo e como não tenho nada para fazer, fico de pijama o dia TODO, a rebolar de um lado para o outro. Às vezes como comida com a mão, mesmo que não esteja na Índia, sabe ainda melhor se estiver sentada no sofá a ver qualquer coisa catita.

Não consigo seguir receitas, invento todos os pratos que cozinho, para grande alegria e tristeza do meu marido, porque nunca consigo repetir nenhum sucesso culinário. Preciso de saber o porquê de tudo, e questiono sempre quando me dizem para fazer alguma coisa que sinto que não quero fazer.

Ser obediente não é aquela característica fabulosa que todos pensam. Às vezes, ser desobediente pode salvar-te a vida. Como quando és adolescente e tens um macho alfa a dizer-te para fazeres algo profundamente idiota. Ou quando tens um chefe sem escrúpulos que quer que faças algo ilegal.

Ah! Então agora era a anarquia e cada um fazia o que queria? Claro que há regras que devem ser seguidas, regras de segurança e sociais, mas não é dessas que estamos aqui a falar.

Ao contrário do que muitos pensam, as crianças querem naturalmente colaborar com os pais. Querem sentir-se vistas, amadas e reconhecidas. O seu comportamento é apenas uma manifestação do que se passa dentro delas. Também tu quando te sentes mal, te portas mal. Se olhares com atenção vais ver MUITOS adultos durante o dia de hoje a fazer grandes birras, basta ires a uma repartição de Finanças ou passar alguns minutos no trânsito.

Se o comportamento do teu filho te mostra que algo não está bem, investiga. Descobre o que se passa com ele, o que ele te está a tentar comunicar. Investiga também o que se passa contigo, o que TU estás verdadeiramente a precisar. Se apenas mudas o seu comportamento, sem tentar compreender a necessidade que não está a ser preenchida, vais para sempre fechar um importante canal de comunicação.

Investiga, também, quais são os teus limites, e como os estás a comunicar.

A obediência consegue-se, com meia dúzia de técnicas, meia dúzia de recompensas, castigos, ou 7 minutos a pensar no cantinho da vergonha. Mas senta-te lá tu. Senta-te e sente o que vai dentro de ti quando tens 7 minutos para pensar como és uma “má” pessoa. Sente o que aprendes. Ouve a voz crítica que começa a crescer como uma erva daninha dentro de ti, a raiva que te arranha a garganta, e a tristeza que te salta em cascata dos olhos. Sente como algo se quebra em ti. Ali sentado, calculo que tenhas vontade de obedecer, mas a que custo… Ao teu custo.

Há uma outra forma. A construção da relação entre pais e filhos. Não é rápida, tal como não o é nada que valha mesmo a pena. Não é apenas pintar a fachada de uma casa a cair, é construir fundações, estruturas fortes, olhar com compaixão para tudo o que precisa mudar, e ter a coragem para o fazer. É uma mudança de dentro para fora. Uma mudança que faz toda a diferença num mundo que precisa de pessoas que pensem com todo o coração e não que sigam apenas ordens cegamente.

Sê o exemplo que queres ver crescer no teu filho. Se valorizas a generosidade, sê generoso. Se valorizas a comunicação, a colaboração, a simpatia, a ordem, a organização, é só viveres isso no teu dia a dia.

E sabes porque isso é fantástico? Porque as crianças aprendem pelo exemplo e não pelas palavras que são gritadas. Porque quanto mais de te conheces, aceitas e és coerente com o que vai dentro de ti mais reconstróis a tua autoestima. E sabes o que um pai que constrói, dia a dia, uma autoestima saudável faz a um filho? Inspira-o a fazer o mesmo. É super, não é?

Publicado originalmente em Mãe Catita

Estou sim, bom dia, daqui fala a mãe, em que posso ajudar?

Os filhos são muito parecidos com os clientes. Pensam que têm sempre razão e, quando os argumentos falham, fazem birras. Em desespero, usei com os meus filhos as técnicas de atendimento ao cliente que aprendi em tempos ao trabalhar num call-center. Continuou sem resultar, mas eu diverti-me. Deixo-vos alguns exemplos:

Autoridade

  • Lamentamos que as regras de adesão ao serviço Os Pais É Que Mandam não lhe tenham sido devidamente explicadas, mas podemos garantir que os benefícios associados ser-lhe-ão úteis a longo prazo.
  • Compreendemos o seu desagrado, mas o contrato que mantém com a empresa Pai & Mãe, Lda. tem a vigência mínima de 18 anos, durante os quais as condições do mesmo poderão ser alteradas sem aviso prévio. Caso pretenda, poderá encaminhar o seu pedido de esclarecimentos para o endereço de e-mail: naoqueremossaber@quemmandaaquisomosnos.pt.

Refeições

  • O que me está a indicar é que não vai comer os brócolos até que eu a obrigue, entendi bem?
  • Peço-lhe que não fale com a boca cheia, não consigo entender o que me está a indicar.

Hora do Banho

  • Infelizmente a campanha “Não tomar banho” encontra-se descontinuada, no entanto temos em vigor a campanha de última hora “Vai tomar banho já antes que eu te arraste por um braço”.
  • Compreendemos a sua insatisfação por ter de deixar de ver televisão para ir tomar banho, mas o nosso serviço não disponibiliza o jantar enquanto o banho não for tomado.

Dormir

  • Neste momento são 21 horas e não é possível aderir ao pacote “Não dormir e dar cabo da cabeça aos meus pais”. Pode, no entanto, escolher a opção “Adormecer com o pai em 5 minutos” ou, em alternativa, “Adormecer com a mãe em 3 horas e 15 minutos”.
  • Lamento informar que já esgotou o plafond de histórias, a partir deste momento as luzes serão apagadas e agradeço que durma uma noite descansada.

Birras

  • A Senhora M. é uma cliente muito importante da nossa empresa e temos como objetivo manter a sua satisfação. Garantimos que faremos o que estiver ao nosso alcance para ultrapassar os constrangimentos relacionados com o processo negocial em curso.
  • Compreendo que esteja insatisfeito, mas os seus gritos impedem-me de perceber a totalidade dos seus argumentos.

Vestir

  • Peço-lhe que aguarde um momento, voltaremos a esta discussão sobre que sandálias vai levar para a escola dentro de 5 minutos.
  • Agradecemos desde já que tenha sujado pela terceira vez a camisola que tinha vestida, nada nos deixa mais satisfeitos que ter de lhe mudar a roupa quando estamos com pressa para sair de casa.

Os porquês

  • Trabalhamos constantemente para dar resposta aos seus porquês e procuramos melhorar os tempos de espera. Contamos desenvolver a capacidade de resposta a trinta porquês por minuto dentro de duas a três semanas.
  • Terei de encaminhar a sua questão para o departamento técnico e dar-lhe-ei uma resposta ao seu porquê o mais breve possível.

 Doenças

  • Eu também preferia não ter de aspirar os macacos do seu nariz, mas se o deixar ir para a escola com o nariz cheio de ranho corro o risco de chamarem a Segurança Social.
  • Agradecemos o seu empenho em vomitar na sanita e não no chão, para mostrar o nosso apreço, vamos oferecer-lhe uma Barbie. Esteja atenta à caixa do correio.

 Irmãos

  • Solicitamos que não puxe os cabelos do seu irmão, as penalidades por incumprimento desta cláusula incluem não ver televisão durante dois dias.
  • O período de garantia do boneco da sua irmã já foi ultrapassado, se lhe arrancar a cabeça o mesmo não será substituído.

As possibilidades são infinitas, tal como as birras. Os resultados, esses, são quase sempre os mesmos: uma enorme dor de cabeça.

Todos nós precisamos de coisas diferentes. Por exemplo, eu preciso das minhas canetas para escrever e o meu filho precisa delas para construir foguetões. De todas elas. Eu preciso do meu computador para editar as minhas crónicas e o meu filho precisa de ver documentários sobre construção de motores. Ao mesmo tempo que eu preciso de trabalhar.

Muitas vezes situações como esta podem transformar-se num dilema. Ou numa fonte de conflito.

No entanto, como adulto responsável, cabe-me a mim escolher se quero transformar este momento numa luta de poder. Ou simplesmente parar, olhar para o grande plano das coisas por um segundo – em vez de reagir imediatamente – e decidir em consciência.

Isto significa que as crianças não tenham limites?

Não. Mas significa que os limites devem ser passados de forma tranquila, com base na empatia, na conexão.

Ao dizer: Estou a escutar que gostavas de…. Mas não vai ser possível… porque | Quem me dera… | Como é podemos fazer? | Estou aqui. Vejo que estás aborrecido. Queres ajuda? estamos a escolher compreender o que a criança sente antes de estabelecer o limite. Mesmo que não possamos satisfazer a necessidade ou vontade imediata da criança, ela vai receber que somos compreensivos em relação às suas emoções e às suas vontades.

As crianças, tal como nós reagem muito melhor a uma energia de conexão. Se nos conectarmos primeiro com os sentimentos da criança, distanciando-nos das nossas próprias necessidades, conseguiremos ajudá-la a construir uma auto-imagem positiva e um verdadeiro sentido de valor.  E isso constrói-se momento após momento.

Isto quer dizer que devemos deixar as crianças fazerem tudo o que querem?

O mais possível. Sou uma defensora do sim. Mais do que do não. O sim expande. O não limita. E se queremos educar uma geração melhor, precisamos aprender a expandir com eles.

Verifico que passamos a grande maior parte do tempo a barrar. A travar. A limitar. E tenho observado que o fazemos por medo. Por um caleidoscópio de medos. Normalmente medos que residem dentro de nós e que ainda não libertámos. Ou medos relativamente ao exterior. Medo que caiam. Medo que cheguem atrasados. Medo que fiquem doentes se não comerem a sopa toda. E medos relativamente às expectativas dos outros. Da sociedade. Do mundo.

Todas as crianças precisam de sentir-se amadas. Ouvidas. Vistas. Acarinhadas. Apoiadas.

Quando nós adultos temos dificuldade em gerir, controlar as nossas próprias emoções, abrimos portas e janelas que dificilmente se voltarão a fechar facilmente. Com as palavras que usamos e com o tom que as empregamos. Confundimos facilmente firmeza com agressividade, definição de limites com hostilidade.

Nós próprios precisamos de fazer o único trabalho de casa realmente relevante: trabalhar as nossas próprias emoções. Sarar as nossas próprias feridas. Fazer um trabalho de alma profundo. Ganhar uma nova consciência. Voltar ao coração.

É certo que todos nós precisamos de coisas diferentes, no entanto todos operamos muito melhor num ambiente de apoio, aceitação e compreensão. Especialmente nos nossos momentos mais difíceis. Quando estamos à espera da resposta de um trabalho que nunca mais chega. Quando queremos sair de casa para dar uma voltinha, mas acabamos por ir para a praia com os três baldes, quatro pás, uma mochila cheia de ovos cozidos e hambúrguers em fanicos, um podengo e um basset hound completamente alucinados que mais parecem leões enjaulados quando encontram outros cães.

Todos nós precisamos de coisas diferentes.

É certo. Mas quantos de nós precisamos de sermões, opiniões, conselhos ou o ponto de vista de outros quando estamos a ter um momento menos bom? Quando estamos frustrados, ansiosos ou confusos? Quando somos tratados de uma forma que não merecemos? Quando nos sentimos injustiçados?

É certo que todos precisamos de coisas diferentes. Por exemplo, quando vivíamos em casa dos meus pais, a minha irmã precisava de ter as coisas arrumadas e eu desarrumava tudo. Não era por mal. Simplesmente não sou um ser humano organizado.

Mas todos funcionamos melhor – e nos sentimos melhor –  quando nos sentimos compreendidos, apoiados e aceites.

Por vezes somos mal interpretados por pessoas que não nos conhecem tão bem ou não conseguem compreender o nosso mundo interior. Por exemplo a minha irmã nunca compreendia porque razão arrumava o lavatório da casa de banho e dois dias depois já estava tudo completamente desarrumado. Como a compreendo agora!!!

Posso nunca ter sido um ser humano organizado, mas sempre consegui encontrar-me na minha desorganização. Quer dize, na maioria das vezes. Mas por precisarmos de coisas diferentes ou funcionarmos de formas diferentes, isso significa que estamos errados? Que merecemos menos?

Um dos maiores desafios da vida é saber respeitar os outros como eles são. Mas aprendi que isto talvez aconteça porque também não sabemos ainda bem como respeitar-nos e aceitar-nos a nós próprios, na nossa totalidade. Vivemos ainda num mundo de separação e julgamento.

Todos precisamos de coisas diferentes, mas quando estamos cansados, angustiados, frustrados, aflitos ou zangados precisamos de alguém que nos oiça. Que nos escute activamente. Sem condicionantes. Sem moralismos. Sem cobranças. Alguém que reconheça a nossa dor interior e nos dê a hipótese de falar ou desabafar da maneira que precisamos. Só isso tantas vezes ajuda a que fiquemos menos confusos, menos ansiosos e mais aptos a lidar com os nossos próprios sentimentos e resolver o nosso problema.

O processo não é diferente com as crianças. Sem tirar nem pôr. Para conseguirem aprender a encontrar soluções para lidar com os seus sentimentos, as crianças precisam do nosso apoio, a nossa aceitação e o nosso carinho. Não precisam de castigos, repreensões, lições de moral ou sermões.

É imperativo aprender a linguagem das crianças, como se voltássemos a aprender a ler e a escrever.

Estudar essa linguagem abre-nos caminhos mágicos na arte de educar. Aprender a descodificar cada momento menos bom e saber ler o que está por detrás de cada emoção, de cada explosão. De cada manifestação.

Em todos os momentos, verbal ou não verbalmente, a criança tenta comunicar. Tenho vindo a compreender cada vez mais que para conseguirmos ter uma relação saudável com os nossos filhos, precisamos aprender a compreender como funcionam. Para conseguirmos dar-lhes o que realmente precisam para crescerem de forma saudável. Aprendi que só alterando a forma como olhamos, percebemos e tratamos as crianças é possível criar novas gerações de adultos mental e emocionalmente saudáveis.

O stress matinal está a prejudicar os momentos em família?

Oito e meia da manhã, o relógio a dar horas, o pequeno-almoço por tomar, a roupa por vestir, gritos, choro, birras, “não posso mais com isto!”, “despacha-te!”, “anda lá!”. Um stress. Cenário comum e que se repete em dezenas de lares portugueses. Rotina que se repete dia após dia. Será que passa com os anos? Será que os miúdos melhoram com a idade? Dúvidas, irritabilidade, culpa… E assim está montado o cenário perfeito para que a família comece a sentir que está a viver em stress constante.

Para os pais, há ainda o acumular das tarefas profissionais e de manutenção da casa. Para os miúdos, o acumular dos conflitos na escola, da dificuldade em algo que está a ser ensinado e dos trabalhos para casa.

Mas será que de alguma forma os comportamentos de cada membro da família acabam por alimentar o stress familiar?

Sim e com certeza!

Os filhos frequentemente testam os pais para verem até onde podem ir, e frequentemente exigem atenção através de coisas que irritam profundamente os pais. Por sua vez, os pais que se sentem soterrados em obrigações, frequentemente dão uma ordem acabando por contraria-la, ou seja, pedem para os filhos que executem determinada tarefa, e acabam por fazê-la.

Anda lá! Calça as sapatilhas! Temos que ir!” E… dois segundos depois está o pai ou a mãe em stress a calçar os miúdos.

Como estas situações alimentam o stress familiar?

Simples, os pais, enquanto adultos, passam num simples comportamento a mensagem de que ela não tem capacidade de se calçar sozinha, que receberá muita atenção se fizer fitas a vestir-se, e que tampouco precisa de obedecer porque, a tarefa vai aparecer feita na mesma. E assim a mesma cena perpetua-se manhã após manhã.

Mas, como resolver essa situação?

Com treino. Treino dos pais e treino dos miúdos. Num dia calmo em que não tenham horários a cumprir (como um fim de semana, por exemplo), tenha uma conversa honesta com os pequenos e proponha uma competição contra o relógio “tive uma ideia para que nós não tenhamos que discutir pela manhã!”, por exemplo: “Vou colocar aqui o alarme e quando tocar tens que estar já vestido(a) e com as sapatilhas calçadas. Se conseguires terminar antes do alarme, vais ganhar um prémio!”. Para tal, coloque um tempo no alarme que saiba que será viável para o seu filho realizar a tarefa com sucesso (5 min a 8 min). O que queremos aqui é que ele se sinta capaz de executá-la. Ah! Mais importante ainda, não ajude! Deixe que ele faça sozinho, incentivando-o a cada etapa concluída com sucesso “Boa! estás mesmo rápido, já conseguiste vestir a camisola! Fixe!! Agora já calcaste as meias!!”.

O prémio a ser dado, nesse caso, pode ser algo tão pequeno como um autocolante ou carimbos numa folha. Depois, podem ser estabelecidas metas para a semana juntamente com os miúdos (a começar por metas mais fáceis). Se os pequenos conseguirem vencer o alarme três vezes na semana ganham três autocolantes e esta soma de conquistas pode ser trocada por um prémio maior (um kinder surpresa, a escolha da sobremesa para o jantar, um jogo mais barato que queiram, enfim, algo que não tenha um valor elevado mas que seja do interesse deles). Esses pequenos prémios vão promovendo motivação para a realização de tarefas e o desafio deve ser aumentado a cada conquista. Após duas semanas, conseguindo vestir-se sozinhos e vencendo a meta de três vezes na semana, pode aumentar-se o desafio para conseguir fazê-lo os cinco dias da semana.

Este tipo de intervenção pode ser feita também para tomarem o pequeno-almoço ou para realizar qualquer outra tarefa, incentivando-os sempre com algum prémio pelo sucesso na execução e claro, com muita atenção!

A verdade é que as birras e a postura opositiva não passam com os anos, nem com a idade. Muito pelo contrário, a tendência é piorar se não for tomada nenhuma atitude pró-ativa por parte de quem cuida. O que faz os comportamentos mudarem são 4 coisas:

  • Treino, consistência por parte dos pais, regras e ordem.

Nesse sentido, os pais tem de ter atenção para não transmitirem exatamente aquilo que não pretendem.

Há pais que gritam frequentemente com os filhos pedindo para que estes não gritem.

Ora, quando gritas, o que estás a ensinar, é que ganha quem grita mais alto… Em vez de ensinar que com gritos não se ganha nada, ensinas que gritar é o importante. E, acredita, os miúdos vão aprender a gritar!

O que devemos fazer é exatamente o oposto: oferecer um elogio assim que a criança para de gritar “Fixe! Estou mesmo orgulhosa(o) de ti! Conseguiste acalmar-te e parar de gritar!”, assim conseguimos ensinar que gritar não serve de chamada de atenção, mas que parando de gritar se ganhar atenção e elogios dos pais!

Essas dicas funcionam muito bem quando bem executadas de forma consistente. É claro que algumas crianças são mais desafiadoras, mas há sempre maneiras de ajuda-las a compreender as regras e autoridade de forma positiva e não autoritária.

Quem poderá ajudar com mais precisão é um psicólogo especialista em atendimento infantil e de pais. Para além de promover rotinas menos conturbadas, um bom profissional ajuda na criação e manutenção de laços afetivos positivos nas famílias, mesmo perante os momentos de crise.

Se sente que sua rotina está a dar cabo do seu dia e da energia da sua família, procure ajuda. Acredite, as coisas não vão melhorar sozinhas e nem com o tempo. É necessário fazer modificações de forma organizada, consistente e coerente, e com ajuda profissional tudo fica mais claro e fácil.

imagem@trudnoca

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