A criança e o corpo humano

Uma criança considera o seu corpo como sendo igual ao de outras pessoas, e parte, portanto do princípio de que todas as outras crianças têm um corpo como o seu. A mãe e o pai são considerados da mesma maneira, são eles mesmos, e a criança não vê qualquer semelhança entre os corpos grandes e peludos e o seu próprio corpo, pequeno e macio.

As primeiras perguntas aparecem normalmente quando a criança repara numa outra criança, do seu sexo oposto, despida. “O que é aquilo?”. Perguntará então, e tudo o que ele quer é que lhe digam o nome (vagina) e talvez o nome correspondente para aquilo que ele próprio tem (pénis).

Não há motivo nenhum para que este assunto seja abordado com uma excessiva carga de embaraço ou atrapalhação por parte dos pais. Procure, portanto, aceitá-lo com calma e concentrar-se de modo a conseguir dar ao seu filho uma informação simples e precisa que responda exatamente à pergunta específica que ele lhe fez. É evidente que não terá de «pôr todo o assunto a nu», contando-lhe tudo, até aos mais pequenos pormenores.

É preferível deixar que a criança vá fazendo as perguntas sobre as partes que ainda não compreende à medida que ela própria sente que há ainda  mais qualquer coisa por explicar. Não será, senão por volta dos cinco, seis ou sete anos que o seu filho lhe fará a tal pergunta crucial: “Como é que o pai põe a semente na mamã?” Ao fim de anos de respostas curtas, mas sempre específicas, verá que lhe é perfeitamente fácil de responder.

Se deixar que se forme uma atmosfera estranhamente «especial» de cada vez que o seu filho lhe dirige uma pergunta qualquer respeitante ao sexo, acabará por se ver arrastada para uma pura farsa.

Cada família a sua educação

Algumas famílias acham que é preferível permitir que os filhos vejam o pai e a mãe nus para que possam ter a possibilidade de ver a diferença entre os sexos quando adultos. Outros pais acham que é preferível exatamente o contrário, isto é, não permitir que os filhos os vejam despidos. No que diz respeito ao sexo e às crianças pequenas, provavelmente a melhor atitude é não fazer da questão um problema de grandes proporções. Não interessa saber se a criança vê ou não os pais nus, desde que a atmosfera seja simples, descontraída e perfeitamente normal. Uma timidez exagerada que a leva a soltar um grito e a agarrar apressadamente numa toalha de cada vez que o seu filho entra inesperadamente na casa de banho só fará com que a criança se admire e pergunte a si mesma por que motivo a mãe terá ficado embaraçada.

Da mesma maneira, uma «passagem de modelos nus» cuidadosamente preparada irá, muito possivelmente, deixar a própria criança embaraçada, porque não saberá como é que os pais querem que ela reaja.

Portanto, comporte-se como sempre se comportou e não procure ser deliberadamente «antiquada» ou conscientemente «moderna».

 

Paula Norte, psicóloga na Psicomindcare para Up to Kids

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Quando o Tiago nasceu, a Mariana tinha dois anos e dois meses.

Tem sido uma loucura ser mãe de dois filhos pequenos e com uma diferença de idades tão pequena. Há dias em que só o piloto automático me salva e em que basta só mais uma birra para começar a bater com a cabeça na parede, mas apesar do cansaço, do sono, da vontade constante de me atirar para o chão e por trás de uma mãe que às vezes é uma besta, existe um coração que ainda por cima é mole e no outro dia dei por mim de lágrimas nos olhos a ver os meus filhos a brincar um com o outro.

Ela do alto dos seus quatro anos dizia ao irmão ao que iam brincar e ele nos seus bem-dispostos dois anos respondia que sim. Ele era o médico, sentado na secretária pequenina, com o portátil do Ruca que nunca funcionou e ela era uma mãe que levava o seu bebé ao hospital. Ela dizia-lhe os sintomas, enquanto ele fingia que escrevia no portátil, depois examinou a bebé e no fim da consulta rabiscou um papel com a receita.

– Mano, agora sou eu a médica!

Estou a vê-los a brincar e de repente apercebo-me que já não são bebés.Como é que isto aconteceu? Os meus filhos cresceram e eu receio não ter reparado.  Este ano foi particularmente difícil, viroses a dobrar, fucking four em força, mudança de escola, birras e crises existenciais, noites sem dormir, eu a pedir socorro a toda a hora, mas o tempo não teve piedade de mim e os meus filhos cresceram.

E este sabor doce de os ver crescer, mistura-se com o sabor amargo de os ver crescer. De saber que um dia vou ter saudades do que hoje me enche de cansaço. Que a minha filha um dia já não vai fazer birras porque quer que seja sempre eu a adormecê-la ou que o meu filho já não vai acordar a meio da noite para vir para a nossa cama. Mistura-se o alívio de os ver crescer, com a tristeza de os ver sair devagarinho debaixo da minha asa até ao dia em que vão sair do ninho e voar.

Eu sei que estou a ser dramática, o meu filho ainda usa fraldas e a minha filha ainda precisa de ajuda para limpar o rabo, eles não vão já para a faculdade, nem me estão a pedir as chaves do carro para irem sair à noite, mas o tempo não tem piedade das mães e os filhos crescem sem darmos por isso.

Os meus filhos estão a crescer, juntos, ao ritmo das brincadeiras que me fazem chorar. Cresçam devagarinho meus amores.

Terapia da fala em crianças: Sinais de alerta dos 3 aos 6 anos

Se até aos 2 anos a necessidade de Terapia da Fala em crianças pode não parecer clara para as famílias, quando a criança ingressa na creche ou no pré-escolar, os sinais de alerta começam a ser bastante mais evidentes.

Entre os 3 e os 4 anos, já é esperado que a criança tenha um vocabulário expressivo superior a 500 palavras, utilize, pelo menos, algumas frases simples e seja capaz de compreender ordens e pedidos complexos. Devem também começar a compreender o significado de pouco/muito ou grande/pequeno e responder, como também perguntar, questões “o quê?” e “onde?”.

Numa fase anterior, muitas crianças utilizam muito os gestos como uma forma de suporte ao discurso, algo que já não deverá acontecer nesta faixa etária. O mesmo acontece com os monólogos que as crianças muitas vezes fazem e que, nestas idades, já deverão passar a ser conversas em que é respeitada a regra de turnos de conversação – primeiro fala uma pessoa, depois a outra.

Um dos grandes sinais de alerta que também surge nesta fase é o facto de os estranhos não compreenderem a criança. É normal que a família e os amigos próximos já tenham aprendido a “decifrar” o que a criança diz – muitas vezes, nem se apercebendo de que ela não fala corretamente – mas, quando alguém que não lida frequentemente com a criança, não é capaz de a perceber, podemos estar perante a necessidade de intervenção em Terapia da Fala.

Entre os 4 e os 5 anos, a criança já deverá ser capaz de utilizar a Linguagem em contexto social, dialogando com a família mas também não sendo oposta ao contacto com estranhos. Já é esperado que saibam nomear as cores primárias e que respondam a questões mais complexas, como “o que é?”, “porquê?”, “como?” e “quanto?”.

Na faixa etária dos 5 aos 6 anos, encontramo-nos na fase de início do 1ºciclo, altura em que, caso existam ainda dificuldades, é absolutamente crucial que sejam superadas o mais precocemente possível, sob o risco de criar mais dificuldades futuramente, como na aprendizagem da Leitura e da Escrita. Nestas idades, é muito comum que a criança ainda não articule corretamente todos os sons da fala (ou acrescente/omita/troque por outros). No entanto, é por volta dos 5 anos que todos os sons devem estar adquiridos e, quando a criança não faz esta aquisição sozinha, pode precisar de um apoio profissional.

Quando a criança ainda não é capaz de contar histórias ou explicar como foi o seu dia, ainda não usa frases complexas, não usa pronomes possessivos (“é meu/é teu”) ou não compreende noções de espaço e tempo, também estamos perante a possibilidade de dificuldades ao nível da Linguagem.

Nesta, como em todas as idades, a prevenção é a palavra de ordem, permitindo à criança fazer todas as aquisições sem chegar a ter repercussões. Através de uma “brincadeira” estruturada, com vista aos objetivos traçados, a criança vai tomando consciência dos sons e das diversas componentes da Linguagem, também com a ajuda dos pais, que recebem estratégias personalizadas e direcionadas para as dificuldades específicas do seu filho, para que o trabalho tenha continuidade em casa.

Se reconhecer algum destes sinais de alerta, a Ipsis Verbis oferece a realização de um rastreio gratuito em que, de forma imediata, os pais ficam a saber se existe necessidade de uma avaliação e posterior intervenção. Todas as sessões são completamente personalizadas, baseadas no gosto da criança e, sempre que possível, realizadas com base na “brincadeira”.

A Ipsis Verbis atua ao domicílio e em escolas, no distrito de Lisboa.

Por Inês Peres Silva Terapeuta da Fala Ipsis Verbis®

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Brincar é viver! Vamos Brincar?

Brincar é das coisas mais importantes na vida de uma criança. Uma criança que brinca é uma criança feliz. De todas as memórias infantis que nós temos, as mais felizes são sem dúvida aquelas recordações onde brincávamos.

As brincadeiras do faz de conta, com os carrinhos, com as bonecas, com os livros, no pátio da casa, na rua com os vizinhos, às escondidas, o jogar futebol. Havia tempo, havia espaço e havia sobretudo permissão.

Hoje os tempos são diferentes, as rotinas são cada vez mais exigentes. A criança chega a casa depois da escola, tem que fazer os trabalhos de casa, por vezes exagerados, jantar e dormir. Amanhã a mesma coisa. Uma semana assim. Onde é que ela brincou? No recreio da escola? Uma hora por dia? Será suficiente? Creio que não.

As crianças vivem numa rotina programada, onde parecem que vivem num mundo dos adultos, com responsabilidades iguais. São trabalhos de casa, são actividades, a escola, sobra pouco espaço para brincar. Brincar é fundamental na vida de uma criança. Faz parte do seu mundo. Brincar é viver!

Na brincadeira, a criança pode apreender o mundo real, expressar os seus sentimentos, explorar o mundo, ser mais criativo, adquirir novas formas de linguagem e de expressão corporal e motora bem como ajudar na sua socialização. Brincar nunca pode ficar para segundo plano.

É importante assegurar que a criança brinca. Que haja espaço e tempo para brincar. Sendo uma actividade que é divertida, e consequentemente a criança vai se sentir satisfeita e feliz.

Vamos fazer por isso?

imagem@alfa-imag

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Ensino Doméstico / Home Schooling, um ano letivo de crescimento

Já nos habituamos às expressões de dúvida e espanto quando dizemos que a Francisca este ano está a fazer educação doméstica (Home Schooling). “Isso é possível em Portugal?” Perguntam-nos. Sim desde 1977! Pelo menos como a conhecemos hoje.

Dados disponíveis relatam que, os números têm vindo a duplicar de ano para ano, especialmente nos primeiros anos de escola. As razões são as mais variadas: pais e alunos desiludidos com o ensino em geral, pais que viajam, alunos com as mais diversas dificuldades na escola ou por motivo de doença. O Home Schooling pode ser frequentado até ao 12º ano.

Este é o relato da nossa aventura na Educação Doméstica, onde o percurso tem sido de tentativa erro e muita vontade de aprender num sistema que apesar de o permitir, ainda não o faz adequadamente.

Durante a instrução primária fui uma mãe bastante resignada. Não me queixei de nada, conheci professores que deram o seu melhor dentro das possibilidades que tinham, auxiliares que vestiam a camisola a troco de um salário e condições de trabalho que por vezes impossibilitam a sobrevivência básica. Sempre com gesto carinhoso para com a minha filha ou um sorriso para mim, mãe! Um professor diferente por ano; professores forçados a trabalhar com problemas de saúde mental a beira de exaustão e desgaste acumulado. Matéria despejada e dada para atingir sabe-se lá que objectivos. Exames nacionais, que em nada reflectiam o que os alunos realmente aprendiam. Escolas mantidas com a boa vontade de associações de pais e pais disponíveis para pintar paredes ao fim de semana.

Isto para nós foi o que que mais nos marcou, os afectos a meio de tanta coisa a correr menos bem. Culpa, na minha opinião, de um sistema há muito com falta de atenção concreta e assertiva, de um olhar mais critico e com desenvolvimentos e acções contínuas a pensar no aluno, independentemente de vontades de governos de cores diferentes.

Durante a escola primária viajamos a meio do ano letivo, duas vezes, ambas em Janeiro. Estas viagens eram inevitáveis, mas tiveram um impacto nos resultados escolares da minha filha. No segundo e quarto ano fomos para a Guiné Bissau e Brasil respectivamente, onde eu fui trabalhar e para o Brasil, para onde fomos para a minha filha conhecer a família

Apesar de ter muita sorte por ter uma família que me dá apoio e fica com a Francisca quando me desloco em trabalho, (sendo uma família mono parental), por vezes tenho que a levar comigo. Adoro e prefiro, mas nem sempre foi possível.

No 5º ano fomos viver para Paris. A Francisca ficou numa das muitas escolas internacionais em França onde existem as chamadas secções de vários países incluindo a de Portugal. Geridas pela Fundação Camões no âmbito da Lusofonia, pelos Ministérios da Educação e dos Negócios Estrangeiros, os pais podem garantir o ensino de Português ao mesmo tempo que o Francês, gratuitamente.

Um ano numa Escola Internacional em França

Foi durante este ano, que aprendi que o ensino em geral está todo errado!

Ao chegar a uma escola nova num pais novo, intitulada como uma das melhores de França, a pressão esteve presente desde o inicio com exames vários e entrevistas. Se isto não era o suficiente, numa espécie de ameaça velada, um professor de Português disse na primeira aula aos alunos, que se não mantivessem notas altas seriam posteriormente colocados nas escolas satélites.

Como se fosse um castigo maior para quem não desempenhasse bem o seu dever de estudante. Falamos de a miúdos de 10 e 11 anos. Isto fez com que as crianças sentissem uma pressão e competição desmesurada entre alunos. Estes questionavam-se constantemente sobre sua própria prestação e desenvolveram um medo absurdo de não permanecer na escola principal, a “desejada para os melhores”, entre os melhores. Insinuar que estas escolas não eram boas resultaram num impacto negativo para a secção Portuguesa que geria, então, excesso de alunos para o espaço existente. Muitos teriam de ir para as escolas satélite – que na realidade são escolas normais e boas. Apenas, não estão inseridas no ensino regular Francês e por isso são considerada fora do elitismo que estas escola internacionais tentam manter.

No final do ano, tanto pais como alunos da secção Portuguesa não queriam os filhos nessas escolas. Essa situação seria vista como um falhanço. A secção, sem qualquer transparência ou critérios claros estipulados e publicados, decidiu. A Francisca foi uma das muitas crianças que teria de mudar de escola no ano seguinte – teve o seu primeiro grande desgosto. “Mãe, o meu trabalho e esforço, não foi o suficiente!” Disse-me com os olhos vidrados de lágrimas. Estava tudo errado neste processo.

Saia das aulas diariamente às 16h e à quarta-feira não tinha aulas a tarde. Todos os dias carregava cerca de 8 quilos as costas e nos dias que tinha aulas de Português o peso aumentava quase mais 4Kg. Os TPC eram diários, enviados por email e com data limite cerca de 15 dias, mas quem não entregasse nos primeiros dias tinha direito a uma reprimenda por mail ou verbal. “Minha Senhora, a Maria não esta a avançar o suficiente!” ou “Minha Senhora, a Maria é muito lenta, alguns dos seus colegas entregam tudo com muito tempo de antecedência” Dizia-me o professor de Francês. A pressão foi aumentando e tivemos de abdicar de tempos livres para ficar a estudar até às 22h.

As mães do liceu internacional sentam-se com os filhos a fazer os trabalhos de casa!” Disseram-me inúmeras vezes. As dificuldades de adaptação a uma língua nova numa escola nova tinha sido ultrapassada, mas com um custo – o de ser criança.Nesta escola os miúdos não tem tempo para ser crianças” Dizia-me uma mãe de um miúdo de notas excelentes mas que muitas vezes sentia o vazio da pressão e saudades de ter tempo para o desporto e para estar simplesmente com os amigos. Havia dias em que dizia à minha filha para largar o computador, e parar de trabalhar, ao qual respondia “Mas mãe, assim vão-me ralhar! E o pior é que se não trabalhar o suficiente vou para a outra escola!”. Eu sempre lhe disse “Se queres, esforça-te filha, as pessoas conseguem atingir objectivos quando se dedicam! Se no final do ano não ficares na escola mas tiveres dado o teu melhor, isso bastará para mim. Porque tu és o suficiente!”

No entanto, sentir que todo o sacrifício fora em vão e desvalorizado, foi um golpe muito duro de digerir aos 10 anos de idade. Para ajudar a aceitar, pedi ao director da secção que lhe explicasse quais eram os critérios de selecção da escola. No meio de um discurso quase desconexo de tom paroquial, não o soube fazer apenas disse, agora quase no final do ano, que afinal a outra escola era muito boa! Não ajudou, e assim decidi que não ficaríamos em Paris. Sendo este ensino o oficial, para mim não era o que precisávamos ou queríamos. O ensino é que não era o suficiente.

Home Schooling em Portugal

Antes de regressarmos já tínhamos decidido fazer educação doméstica. Liguei para o ministério da educação para me informar e inscrevemo-nos numa escola oficial. O processo demorou mais do que o previsto pois levantou-se a questão da equivalência do ano escolar. Apesar de a secção Portuguesa estar sob a tutela do Ministério da Educação, o cruzamento de informações não foi simples. Agradeço à Fundação Camões em Franca que fora extremamente prestável e célere.

Depois de a inscrever neste sistema de ensino, percebemos que tem de realizar os exames anuais a todas as disciplinas excepto a Educação Física. Isto inclui Música, Educação Visual e Educação Tecnologia, sendo que nestes testes além da parte escrita é contemplada uma parte oral e outra prática em determinadas disciplinas. No 2º ciclo paga-se uma taxa única de 10€ para a realização dos exames. Obter informação para as matérias tem sido uma luta, principalmente para as disciplinas de Musica e EVTs. Talvez por não haver directivas expressas para estes alunos, a escola apenas nos facultou cópias dos exames de 2015, último ano que tiveram uma aluna do 6º ano neste sistema.
Nos sites do Ministério da Educação a informação é escassa ou nenhuma. Na internet a informação é pouca e muitas vezes incorreta. Há um grupo de apoio a pais, mas não há neste momento nenhum movimento que pressione para que se reveja a Lei de 1977 que regula o ensino doméstico.

Nomeadamente questionar haver teste de Música e EVT. Valorizo bastante estas áreas, mas como se resumem num exame? Como é que se prepara uma criança para estas disciplinas? Parece-me ingrato e dispendioso! Se estiverem a fazer Home Schooling e a querer trabalhar de forma diferente ficam de pés e mãos atadas porque não há critérios e objectivos estipulados que dêem uma maior liberdade a pais e alunos de forma a que possam demonstrar o conhecimento adquirido nas mais diversas áreas.

Da escola Francesa aprendeu a falar e ler fluentemente, e apesar da loucura dos trabalhos, desenvolveu métodos de estudo e organização.

Passamos a tirar notas e a aprender com amor as matérias de História, Ciências e Literatura. Fazer trabalhos de pesquisa e apresentações sobre temas das várias matérias. Visitamos museus, principalmente nos dias gratuitos, porque para estes alunos não estão contemplados descontos de estudante.

Os livros foram escolhidos por matérias e sem listas fixas, em bancos de livros escolares e o restante adquirimos nas livrarias, principalmente na livraria solidaria de Cascais a Déjà Lu, onde somos também voluntárias para a despertar para a solidariedade e a ensinar a valorizar o trabalho. O exercício físico está nas caminhadas, as obrigatórias porque andamos a pé para todo o lado. O ballet é paixão da minha filha. As aulas de Matemática, matéria em que a mãe é nula, após muita procura optamos pelo Brain Alive, um espaço onde se aprende pela valorização do erro e a preços acessíveis. Aqui aproveita para conviver com outros alunos. No primeiro teste teve 20%, após 3 meses estava a vencer o desafio do mês! Ganhou autoconfiança e passou a acreditar em si e nas suas potencialidades. Sente-se um individuo com algo para dar a sociedade. Vê filmes educativos e opina sobre vários temas que começou a explorar recentemente. Usa termos e expressões pouco usuais para a sua idade, tem tempo para ler, passear a nossa cadela Concha, para brincar e criar, sonhar e ter apenas os 11 anos que tem.

O desgosto da minha filha com a escola em França, também foi uma lição que eu não poderia  nem deveria evitar. Tornou-a mais forte, mais empática e mais preparada.

Foi e tem sido um ano e meio de muita aprendizagem a vários níveis. No próximo ano penso em voltar a inscrevê-la na escola, até porque a matéria a partir do 7º ano tem que ser dada de outra forma.

Acredito no ensino, na educação e sei pelo meu trabalho as consequências da falta da mesma. Sei que há vontade de melhorar, mas tem de haver abertura de espírito e maior liberdade para incluir no curriculum outras aptidões tão ao mais importantes, para quem está a estudar em casa.

O resultado a nível de avaliações só podemos conhecer no fim do ano letivo. Para já, para mim o seu esforço, a sua atitude perante aprendizagem e o conhecimento são o que mais valorizo. Os números são importantes, mas valem o que valem. E não fazem dela nem uma melhor pessoa, aluna, cidadã e futura trabalhadora.

Agora estou neste momento a educar uma cidadã do mundo. Utópico? Sim, deixem, já há tão pouco de utopia por estes dias que eu vou aproveitar!

imagem@usnews

“O Henrique tem 4 anos acabados de fazer e, como tal, uma persistência gigante para alcançar o que quer. Hoje, no jardim-de-infância, o dia não lhe correu muito bem … Numa ida com a sua turma a uma feira temática, o Henrique encantou-se por um carrossel e quis, de imediato, andar nele. A senhora do carrossel disse-lhe que era só para meninos a partir dos 5 anos e o Henrique retorquiu, de “cara feia”: “Mas eu já sou crescido! E tenho quase 5 anos!”. A Educadora explicou-lhe, então, que sim, ele era crescido, mas que havia meninos ainda mais crescidos e que aquele carrossel era perigoso, poderia magoar-se. Além disso, havia um outro carrossel para meninos igualmente crescidos como ele, no qual os meninos mais velhos não podiam andar – era especial só para os meninos de 4 anos. O Henrique lá aceitou. No final do dia, quando a mãe do Henrique o foi buscar, ele prontamente lhe contou o sucedido, choramingando que a Educadora não o havia deixado andar no carrossel que queria. A mãe, abraçando-o e olhando para a Educadora, respondeu: “Pois é, meu fofinho, já és crescido! Sabe, nessas situações, eu costumo dizer que ele já tem quase 5 anos, porque assim pode ser que eles deixem… Depois, voltamos lá noutro dia e vemos se a senhora te deixa andar, está bem meu fofinho?”.

As crianças são muito espertas, mas isso já nós sabemos.

Sabemos também que têm um dom particular de nos levarem a fazer o que querem, a lutar com “unhas e dentes” (por vezes, literalmente) para marcar a sua posição. Conseguem levar-nos ao extremo do nosso limite de paciência, deixando-nos “à beira de um ataque de nervos”, com os cabelos em pé. Conseguem também fazer pairar na nossa cabeça um “eu queria dizer que não, mas não consigo” (cantarolado ao jeito da canção conhecida que passa nas rádios) a cada “olhar de Gato-das-Botas do Shrek” que nos lançam. É relativamente fácil sentirmos culpa cada vez que temos de as contrariar.

As palavras “Sim” e “Não”

Queremos, fundamentalmente, que as “nossas” crianças cresçam felizes, sejamos pais, cuidadores ou educadores. As palavras “sim” e “não” pertencem a essa esfera. Porém, parece-nos muito mais fácil utilizar o “sim”. Então, porque é que a palavra “não” custa tanto a aplicar? Numa perspetiva lógica e racional, a palavra “não” tem tantas letras quanto a palavra “sim” e ocupa exatamente o mesmo tempo de discurso. Já o impacto emocional e comportamental de cada uma delas é diferente.

A Bússola do “Não”

O “não” funciona como uma excelente bússola. As suas coordenadas ajudam as crianças, e também os adultos, a situarem-se a nível emocional e comportamental. Enquanto adultos, temos o dever de encaminhar as crianças no caminho certo para o seu “norte”, para os seus objetivos, para que o seu desenvolvimento ocorra da forma mais equilibrada e saudável possível. Aliás, as crianças pedem-nos essas coordenadas de crescimento a cada birra, a cada comportamento de oposição, a cada finca-pé.

Aprender a ouvir e a lidar com o “não” é tão essencial como a água para o nosso corpo. Aprendemos a relacionar-nos de forma mais adequada com o mundo que nos rodeia, melhorando a nossa tolerância à frustração (um dos segredos para seres humanos mais felizes).

Os benefícios do “Não”

São vários os benefícios que daí advêm:

  • maior resiliência
  • maior capacidade de adaptação aos inúmeros desafios da vida, em diversos contextos
  • maior autoestima
  • maior conhecimento dos limites na relação Eu-Outro
  • maior respeito pelo mundo envolvente
  • maior inteligência e equilíbrio emocional

No geral, a nossa tendência natural é querermos colocar as nossas crianças num redoma de vidro, numa espécie de “bolha de proteção mágica” para protegê-las de todo o mal do mundo. Muitas vezes de forma inocente, sem nos apercebermos das consequências futuras. Sabemos o quão desafiante pode ser a tarefa de ajudar uma criança a crescer, no meio de uma vida atarefada, agitada e igualmente exigente para nós, adultos.

Quantas vezes nos sentimos cansados depois de um longo dia de trabalho, que a nossa vontade é dizer que “sim” a tudo, talvez para compensar a nossa ausência física e afetiva e também para não termos de nos “chatear”, porque a paciência se esgota? Quantas vezes cedemos, mesmo depois de uma decisão tomada, porque nos “dói a alma” ver a criança chorar? E quantas vezes já nos apercebemos das “manhas” a que a nossa pequenada recorre para “levar a água ao seu moinho”?

As consequências do “sim”

As consequências da nossa dificuldade em dizer “não” far-se-ão sentir a cada etapa de desenvolvimento até à idade adulta, passando por adolescentes rebeldes, adultos infantilizados e desconhecedores dos limites do Outro, para quem tudo é negociável e tem de corresponder às suas exigências e expectativas, e ainda adultos acomodados às pressões exteriores, que cedem facilmente.

Colocar em prática

Como colocar, então, em prática a bússola do “não” de forma consistente e equilibrada?

Eis algumas sugestões (ter em atenção a idade da criança):

  • ser consistente, coerente e firme: não ceder constantemente à insistência da criança. A incoerência do adulto leva ao desenvolvimento de magníficas artimanhas de manipulação emocional.
  • desdramatizar ou o chamado “keep it simple: quando algo não corre como o desejado, evitar atribuir um peso emocional muito forte, conversando tranquilamente sobre o que não correu bem e pensando em estratégias para que, futuramente, corra melhor.
  • ensinar a esperar: ensinar que tudo tem o seu tempo e que, nem sempre, podemos ter o que queremos e quando queremos.
  • lembre-se: enquanto Adulto é o exemplo para a criança – é o seu modelo, funciona como espelho. A tendência natural das crianças é imitar, seguir o exemplo de quem é importante para si. É essencial adoptar um comportamente congruente, ensinando que os “nãos” e a frustração fazem parte da vida e, como tal, não são “o fim do mundo”.

É importante termos em mente que não há soluções mágicas e universais e que cada criança é uma criança e que todas merecem crescer com respeito e afecto. Merecem (e precisam!), igualmente, de balizas emocionais que as ajudem a ser mais equilibradas … porque serão, certamente, mais bem sucedidas ao longo da sua vida!

 

Por Alexandra Pinto, Psicóloga Clínica da Horas de Sonho, apoio à criança e à família, crl

 

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O FANTÁSTICO MÉTODO DE MARIA MONTESSORI

Maria Montessori foi uma psiquiatra, pedagoga, filósofa, investigadora, educadora e voluntária italiana, nascida em 1870 cujo método por ela criado transformou a pedagogia no mundo inteiro.

Se na escola do teu filho existem mesas, cadeiras e cubas pequeneninas adaptadas à altura da criança é graças a Maria Montessori. Hoje em dia mais de 20.000 escolas de todos os continentes seguem o seu método de ensino. Já o mobiliário, ou seja, a adaptação do mundo adulto à criança foi uma ideia por ela criada e seguida praticamente por TODAS as escolas.

Tudo começou com uma constatação básica da vida: a criança é um ser completo, totalmente capaz e criativo. Apenas precisam de liberdade para desenvolver as atividades que matem a sua sede por conhecimento, atividades estas que lhes desenvolvem a concentração e consequentemente a disciplinaUm indivíduo disciplinado é capaz de se guiar sozinho quando necessário e seguir as regras da vida.

Mas para que tudo isso aconteça, é necessário dar-lhes liberdade de escolha para que cada uma delas possa explorar o que quiser, e assim, desenvolver o interesse que a levará à concentração.

Uma criança que trabalha não dá trabalho

A metáfora pode dar a ideia de que se trata de trabalho infantil. Nada disso. A palavra trabalhar poderia ser trocada por brincar, mas o método montessoriano usa mesmo o termo trabalhar pois, para Maria Montessori, a criança torna-se pessoa através do trabalho.

A educadora foi a primeira mulher a concluir o curso de medicina na Universidade Sapienza em Roma e começou a trabalhar com crianças com problemas mentais. Aquelas que eram vistas e tratadas como “coitadas”, (isto no séc. XIX) “incapacitadas ou menos capazes” Maria Montessori, via como capazes e passou a tratar estas crianças como tal ajudando-as no seu desenvolvimento. “Ajuda-me a fazer sozinho” poderia ser a frase que resume todo o seu ponto de vista sobre a necessidade infantil em explorar o mundo.

Passados mais de 100 anos, o Método Montessori foi adaptado às novas tecnologias através de apps e  materiais didáticos interativos (uma das fortes características montessoriana).

Não é necessariamente obrigatório teres acesso aos materiais didáticos para aplicares o método montessori na educação do teu filho. Basta não vê-lo como incapaz ou muito pequeno para desenvolver determinadas atividades que os pais geralmente acham, por exemplo, perigosas ou difíceis. As crianças são curiosas por natureza e deixá-las explorar o mundo como elas quiserem (dentro obviamente de um limite imposto) é colocar em prática o pensamento montessoriano.

Como começar?

Podes começar por uma simples mudança: deixa a criança ajudar em casa nas tarefas diárias. Outra característica do método montessoriano é individualizar a criança, ou seja, cada criança é única: uns gostam de matemática, outros nem por isso. Com dois anos de idade a criança pode fazer as atividades aqui sugeridas ou não. Lembra-te de que cada criança é única com ritmos e gostos próprios.

Deixamos uma lista de sugestões para as crianças até aos 3 anos, e de seguida a tabela montessoriana das tarefas adequadas à à idade das crianças a partir dos 2/3 anos.:

18 meses/ 2 anos:
Ajudar a descascar bananas, amendoins, ou tangerinas… Podes supervisionar mas não pressionar. Deixa o teu filho realizar a tarefa ao seu ritmo e que descubra sozinho a melhor maneira de o fazer, independentemente de achares que de outra forma seria mais fácil e rápido. Ele descobrirá isso sozinho.

A partir dos 2 anos:
Ajudar a espremer laranjas e a pôr o sumo do espremedor no copo, a cortar uma maçã, obviamente com uma faca não afiada ou de plástico, a cortar cenouras e outras verduras cozidas. Esta tarefa pode fazer com que o teu filho se interesse mais pela alimentação e tenha mais vontade de comer o alimento que cortou, e que ganhe mais prazer pela alimentação saudável.

Dicas: Os mais pequenos poder realizar diversas tarefas dos mais crescidos, como por exemplo: ajudar a preparar a comida, por exemplo, a usar o funil (eles amam um funil); a preparar biscoitos (há lá coisa melhor do que pôr as mãos na massa?); a pôr a mesa; a limpar o pó; a limpar o chão; limpar um vidro; ajudar na jardinagem; a lavar louça (nas escolas montessorianas, existem cubas baixinhas para as crianças usarem. Em casa, que tal deixá-las lavar, por exemplo o babete, num alguidar?).

 

Tabela Montessoriana

 

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Artigo publicado em greenme.com.br, adaptado por Up To Kids®

imagem@bergamosschools

“O meu filho ainda não fala – ou fala mal -, porque é muito preguiçoso” ou “basta dar-lhe tempo e ele vai começar a falar sem ajuda” são dois mitos muito comuns e que, com certeza, já disse ou ouviu alguém dizer.

Hoje em dia, ainda há uma grande tendência para desvalorizar as questões da Comunicação, Linguagem e Fala, colocando-as num patamar inferior ao do desenvolvimento motor e à saúde em geral. No entanto, estas três áreas são da maior importância já que, quando existem dificuldades, podem prejudicar o bem-estar da criança e da família, as relações com os pares e com os adultos, a autoestima e mesmo as aprendizagens escolares (ainda que, à data das dificuldades, a criança ainda não frequente a escola).

É também comum a ideia, disseminada por alguns profissionais de Saúde, de que “fazer Terapia da Fala antes dos 3 anos – por vezes, quando a criança ainda praticamente não fala, não dá resultado”. No entanto, devemos pensar exatamente o oposto – é importante que a intervenção seja precoce, de forma a não agravar, ou mesmo criar novos problemas.

Existem sinais de alerta que podem ser observados a partir do nascimento mas, para efeitos de Terapia da Fala, os pais deverão estar progressivamente mais atentos à Comunicação e à Linguagem do seu filho a partir dos 12 meses. Nessa altura, o bebé já deverá brincar (de forma adequada à sua idade) e reagir quando brincam com ele – sorrindo ou imitando – e produzir alguns monossílabos. A partir dos 18 meses, é esperado que já compreenda instruções simples, que diga palavras simples e que faça alguns pedidos, ainda que de forma rudimentar.

A partir dos 2 anos surge a maioria das capacidades linguísticas logo, nesta idade, os pais deverão procurar um Terapeuta da Fala quando a criança:

  1. tiver um vocabulário muito inferior a 50-200 palavras
  2. usar apenas vogais ou uma sílaba para dizer quase todas as palavras
  3. disser uma palavra uma vez e raramente a repetir
  4. não apontar para partes do corpo
  5. não fazer nem responder a perguntas sim/não
  6. não juntar duas palavras para formar uma pequena frase
  7. tiver dificuldade em imitar gestos simples ou mesmo comunicar maioritariamente por gestos.

É exatamente nesta faixa etária, dos 2 aos 3 anos que, atualmente, surgem mais crianças para intervenção. Por atribuirmos um grande valor à prevenção e à Intervenção Precoce, cada vez mais surgem famílias preocupadas em resolver todas estas questões para que não haja repercussões mais tarde.

Nesta fase, o trabalho é maioritariamente aquilo a que chamamos “de chão”. Utilizando brinquedos adequados à idade, ou mesmo os brinquedos da criança, são feitas pequenas “brincadeiras”, sempre divertidas e muito dinâmicas, com a finalidade de atingir os objetivos que pré-estabelecemos. Para uma maior continuidade do trabalho, e porque este tem de ser feito em equipa, são sempre dadas estratégias aos pais para irem pondo em prática em casa. A família é sempre membro integrante da equipa!

Quando as crianças já são mais velhas, os pais deverão estar sobretudo atentos a dificuldades de Articulação, Linguagem ou Leitura e Escrita. Quando existem queixas na escola relativamente a alguma destas áreas, a forma mais simples de saber se existe algum problema que deva ser trabalhado é através da realização de um rastreio.

A Ipsis Verbis oferece rastreios gratuitos ao domicílio e em escolas, no distrito de Lisboa onde, de forma imediata, diz aos pais se existe necessidade de uma avaliação e posterior intervenção. Todas as sessões são completamente personalizadas, baseadas no gosto da criança e, sempre que possível, realizadas com base na “brincadeira”.

Por Inês Peres Silva Terapeuta da Fala Ipsis Verbis®

Imagem@depositphotos

Sobre o desenvolvimento infantil

A teoria da geração espontânea nasce das construções dos filósofos pré-socráticos e estende-se ao longo de séculos.

A ideia da geração espontânea postula que a vida pode organizar-se e criar-se de forma espontânea. Trata-se de uma ideia há muito descomprovada e descartada, como sendo o produto de falta de rigor científico e de métodos pouco apropriados de observação.

Julgo que ninguém, isento de contaminações religiosas ou mágicas, considere a teoria da geração espontânea como aceitável.

Não obstante, na prática clínica é extremamente comum observar que os pais acreditam numa espécie de mito de uma ‘geração espontânea mental’. De acordo com esta hipótese a criança terá desenvolvido, espontaneamente, um modo de funcionamento mental desadequado. Os pais mais informados tendem a pensar que a espontaneidade da organização depende dos efeitos da carga genética. Como se a mentira, a manipulação, a regulação dos impulsos agressivos ou a regulação e elaboração da angústia tivessem origens inatas e genéticas.

As construções parentais em torno do mito da ‘esponteidade’, cumprem frequentemente uma função defensiva. A ideia de que o desenvolvimento mental é estruturado a priori constitui-se muitas vezes enquanto fuga à ideia de que os pais poderão estar envolvidos na causa dos comportamentos desadequados que observam nos seus filhos.

Ignora-se a importância da história da concepção do filho, ignoram-se as fantasias e projectos que os pais fazem em relação ao bebé imaginado, ignora-se a relação entre essas fantasias e a própria história dos pais, ignora-se a importância dos meses de gestação, ignora-se o efeito das condições do parto na estruturação do psiquismo, ignoram-se os primeiros meses de vida, ignora-se a história do desenvolvimento da criança, ignoram-se os pequenos sinais da comunicação mãe-bebé, pai-bebé, mãe-pai…

Como é possível que a história da amamentação tenha um efeito sobre a criança? De certeza que ela não se vai lembrar.

De facto a criança/adolescente/adulto não tem recordações da amamentação, ou pelo menos não as tem no sentido tradicional em que as concebemos.

Trata-se de um tipo de memória automática, inconsciente, estrutural, desligada. Não se trata de uma memória associada à evocação de imagens, mas sim uma memória que se entranha na  própria forma que temos de sentir e de pensar. É uma espécie de incorporação, de internalização, de registos relacionais.

As fases do desenvolvimento infantil são inúmeras e passam por mudanças drásticas do ponto de vista maturativo e evolutivo. Estes picos de crescimento frequentemente traduzem-se numa alteração brusca no modo de funcionamento habitual da criança.

Quando ouvimos afirmações como ‘ele não era nada assim’, devemos reflectir sobre se esse aspecto da personalidade já não se encontrava, em germe, na mente infantil.

A crença, ou o mito, que se cria em torno das origens dos modos de funcionamento mental, gira, frequentemente, em torno da ideia de que o pensamento e o comportamento têm uma base inata e constitucional. A realidade é muito mais complexa. Mesmo quando existe efectivamente uma base genética ou inata ou constitucional, ela não é condição suficiente para que certas formas de pensamento e de regulação dos impulsos se origine.

Por Dr. Fábio Veríssimo Mateus

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Estímulos a mais Concentração a menos. Estamos a enlouquecer os nossos filhos

Vivemos tempos frenéticos. A evolução, sobretudo tecnológica, tem sido tão rápida que quando olhamos para há dez anos atrás parece que passaram 30. A distância existente entre hoje, e a forma como vivíamos nessa altura é abismal. E não é só a nível empresarial. É a todos os níveis.

O mundo infantil foi atingido em cheio por esta evolução. As mudanças são totais: já não se educa, brinca, alimenta, veste, entretém, cuida, consola, protege, ampara e satisfaz crianças como antigamente: os gadgets, por exemplo, são agora companheiros imprescindíveis nas refeições de milhares de crianças; Em muitas casas as televisões (sim, plural…) ficam ligadas o dia inteiro nos canais infantis  – naqueles cujo volume aumenta consideravelmente durante os intervalos – mesmo que as crianças estejam a almoçar com o iPad  à mesa;

Muitas e muitas crianças têm atividades extra curriculares pelo menos três vezes por semana, somando, por vezes, cerca de 50 horas semanais entre escola, cursos, desportos e explicações.

Existe, em quase todas as casas, uma profusão de brinquedos, aparelhos, recursos e pessoas disponíveis a tempo inteiro para garantir que a criança “evolua” e não “morra de tédio”;

O ensino pré-escolar apresenta, em muitas escolas, metodologias de ensino  idênticas às do 1ºciclo.

Estamos a educar para que no fim, possamos ocupar, aproveitar, espremer, sugar, potencializar, otimizar e capitalizar todo o tempo disponível para impor às nossas crianças uma preparação praticamente militar, visando seu “sucesso”.

O ambiente familiar onde essa preocupação é latente chega a ser denso, tal é a pressão que as crianças sofrem para desenvolverem estas competências competitivas.

No entanto, o excesso de estímulos sonoros, visuais, físicos e informativos impedem que a criança organize o seu pensamento e os seus actos: o ambiente é muito disperso e os sinais que chegam ao cérebro são confusos e superficiais. A criança muitas vezes não consegue descrever o que acabou de ouvir, ver ou fazer.

Além disso, aptidões que devem ser estimuladas estão a ser descuradas. As crianças não sabem conversar, não olham os interlocutores nos olhos. Não conseguem focar –se numa brincadeira ou atividade só – tendência é estarem a ver televisão e a brincar ao mesmo tempo, por exemplo. São impacientes, não sabem esperar. Não conseguem ler um livro, por mais pequeno que seja. Não reconhecem a autoridade, e nem respeitam as regras.

A concentração, a comunicação, a interacção, o afeto, o respeito, a autonomia de acção e a organização, são algumas das competências  fundamentais na construção de um ser humano íntegro, independente e pleno, e devem ser aprendidas em casa nas suas rotinas do dia-a-dia.

Há que parar e olhar à volta.  Tirar as mãos do telemóvel  e do volante do carro, e pôr as mãos na consciência: estamos a enlouquecer os nossos filhos e a impedi-los de aprender a lidar com as suas vontades, as suas qualidades e talentos. Estamos a roubar o tempo precioso que os nossos filhos tanto precisam para processar a quantidade enorme de informação e de estímulos que nós e o mundo lhes estamos a dar.

Há que ter calma. A parentalidade não é uma corrida. Temos de parar de entregar gadgets aos nossos filhos sempre reclamam ou que dizem que “não têm nada para fazer”. O “tédio”, não é mais que a oportunidade de estarmos em contato connosco, de estimular o pensamento, a fantasia e a concentração. As crianças precisam de aprender a entreter-se. A ser criativas e brincar ao faz de conta. A ler um livro.

Um dos problemas é que os nossos filhos lêem cada vez menos. Muitos livros infantis já estão disponíveis para tablets e iPads, cuja resposta é imediata ao menor estímulo e descaracteriza a principal função do livro: parar para ler, para fazer a mente respirar, aprender a juntar uma palavra com outra, paulatinamente formando frases e sentenças e finalmente, concluir um raciocínio ou uma estória.

Cerquem os vossos filhos de livros e leiam com eles, por amor. Deixem que se esparramem em almofadas e façam sua imaginação voar.

Mais tempos livres, mais criatividade, mais livros e por favor, menos obrigações, menos tecnologia, menos avaliações, menos resultados e menos competições. Vamos desligar os estímulos excessivos e usufruir de uma tarde improvisada em família, neste dia de chuva. Vai ver que valerá a pena!

O ambiente de casa agradece!

Adaptado do texto original de  , em Pais que educam

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