O grito das crianças ou será o grito dos pais?

Hoje trago-te uma partilha de uma conversa com uma mãe. Uma mãe que decidiu partilhar comigo a dor de uma criança que grita, que chora e que bate. Uma criança igual a tantas outras, com necessidades por preencher. Tal como nós, adultos.

Contava-me esta mãe que na escola da filha existia uma criança que demonstrava um comportamento totalmente descontrolado. Que fazia com que os pais das outras crianças ficassem sem saber o que fazer e demonstraram até a vontade de retirar os seus filhos daquela escola. Era uma criança com 10 anos que batia em todas as crianças e que gritava muito. Não conseguia ficar quieta e que usava frases como “Eu sou má”, repetindo vezes e vezes sem conta.

Esta escola está integrada num contexto que consegue dar às crianças todos os recursos necessários, excepto um.

O amor incondicional.

Eu consigo imaginar o sofrimento desta criança ao colocar na sua identidade esta palavra. Apesar de que eu com a idade dela era o oposto. A tímida, a caladinha, a sossegada. Palavras que ficam marcadas na nossa pele, rótulos carimbados nos nossos corações. Percebo também a insatisfação dos outros pais. Nenhum pai gosta que os filhos cheguem a casa a dizer outra criança lhes bateu. Enquanto, pais, criança, escola, educadores, pais das outras crianças se debatem em praça pública, quem mais sofre no meio disto tudo? A criança que até hoje pediu ajuda à sua forma e até agora não teve uma resposta que a pudesse ajudar. Em causa, não está o amor destes pais, também os pais precisam de ajuda.

Continuamos a conversa e dizia eu a esta mãe, que as crianças têm muitos dons e, por vezes, os filhos gritam pelos pais. Dão voz às dores internas, as frustrações, as insatisfações, aos sonhos não concretizados, à falta de auto-estima dos próprios pais. Se não queremos que os filhos gritem as nossas dores, é o momento exato de pedir ajuda.

Pais e filhos têm igual valor mas a responsabilidade por manter a relação saudável é dos pais.

São os pais que têm os recursos necessários para promover o bem-estar dos seus filhos. E está tudo na relação, os pais são a ponte para os filhos conhecerem o mundo, desde do primeiro dia. São a ponte para explorar e e a ponte para regressar quando precisam de amor, colo, cuidados e segurança.

A conversa continuou a desenvolver-se com esta mãe até que ela me questionou “Como podem outros adultos e outras crianças amar uma criança tal e qual como ela é, sabendo que tem este comportamento?”. E eu pergunto-vos, que respostas dariam? Se fosse na escola dos vossos filhos o que fariam?

A minha resposta foi, em primeiro lugar, a necessidade de toda a comunidade praticar compaixão por aquela criança e pelos pais. Perceberem que quando estão a colocá-la à margem de tudo e de todos pelo seu comportamento, não estão a ajudar a criança, pois ela própria já diz “Eu sou má”.

Se, em alguns momentos das nossas vidas, abrandássemos o ritmo, olhássemos sem julgamento e para além do comportamento, o que será que viríamos naquela criança que hoje não vemos?

Como podemos ajudar uma criança que já diz “Eu sou má”, a retirar da sua identidade palavras destrutivas?

Como podemos cuidar da auto-estima de uma criança e, até da auto-estima dos adultos?

Com palavras, amor incondicional e cuidados.

Se nos lembrarmos que a criança não é um comportamento, mas sim que a criança está a ter um comportamento, os rótulos deixam de existir e fica presente o amor incondicional. O amor incondicional é pela criança em si e não aparece e desaparece consoante o seu comportamento. Neste caso, esta criança não é sempre má, mas as palavras e o contexto fizeram-na acreditar que sim. Se não, porque repetiria tantas vezes para si própria “Eu sou má”? Nesta escola e noutras escolas, todas as pessoas conhecem os alunos “problemáticos”, só isso diz muito sobre o nosso sistema.

Que gritos internos darão estes pais? Como se sentem? Como se vêem? Que pedidos de ajuda já fizeram?

Pedir ajuda, hoje em dia, ainda é tabu, ainda nos leva a pensar o que vão pensar de nós. Enquanto que pedir ajuda devia ser visto como pedir uma mão, pedir um tempo, pedir uma pausa para escutar o que vai na alma dos pais. Por isso, é tão importante o sigilo e profissionalismo. Só assim, os pais sabem que podem contar connosco.

É necessário, cada vez mais, existir uma rede de apoio sólida e construtiva que veja para além do comportamento da criança, que veja toda a família. Quando ouvimos uma família e escutamos cada elemento, ajudamos cada um a encontrar-se no meio daquela família.

Aos olhos da Parentalidade Consciente, para além do que olhar para além dos gritos das crianças, devemos escutar com compaixão, sem julgamento, com total aceitação, o que está para além dos gritos dos pais. Pois somos nós, os adultos que mais precisamos de colo, de carinho, de afecto, de abraços, de palavras amigas e de respostas de ajuda. Isso é visível nas crianças. Não precisamos que nos digam como fazer e quando fazer. Não precisamos que nos digam que estamos a fazer mal e que há quem faça melhor. Precisamos que nos digam que estão connosco.

Quantas crianças gritam hoje em dia? Quantos pais gritam? Quantos de nós ajudamos quando nos é solicitado? E ajudar sem dizer “faz-assim-que-assim-funciona”?

Um abraço carinhoso.

Uma frase da Virginia Satir, terapeuta familiar muito reconhecida que nos pode ajudar a todos a colaborar em comunidade e em família:

“Eu quero amar-te sem te absorver,
Ver-te sem te julgar,
Juntar-me a ti sem te invadir,
Convidar-te mas sem exigir,
Deixar-te ir sem culpa,
Criticar-te sem te ferir e
ajudar-te sem te insultar.
Se eu puder ter o mesmo de ti, então podemos realmente encontrar-nos e beneficiarmo-nos mutuamente.”
– Virginia Satir

Será que os meus filhos sabem disto?

Havia uma rede social nas janelas da minha rua. Será que os meus filhos sabem disto?

Havia também tempo que andava com calma. Vagaroso, sem se atropelar. Olhávamos, víamos, esperávamos pelas pessoas sem ter telefone portátil. Será que os meus filhos têm noção disto?

Não estou a ser saudosista (caso haja carga negativa no termo). Gosto de olhar para o futuro. E se o passado me pode ensinar, posso tentar usar esses conhecimentos para ser mais feliz hoje, planeando um futuro melhor amanhã.

Vou tentar ficar mais tempo sentado num muro, a ver passar.

E vou mobilizar os miúdos para me acompanharem. Terei sucesso?

Vou experimentar usar um despertador a sério, para dar ao meu cérebro uma folga do telemóvel. Pelo menos, uma folga de uma hora.  A primeira hora da manhã, pode contar a história do resto do dia. Vou sugerir à família que me acompanhe.

Havia uma magia em ouvir um disco até ao fim. De ponta a ponta. Poderei tentar fazer isso com os meus filhos? Vou tentar!

E as escadas rolantes? Ainda me lembro de fazer uma espécie de excursão a Lisboa para ir subir numa escada rolante. Hoje, confesso, faço uma certa censura aos elevadores e escadas rolantes. Ainda há dias, no prédio onde vive a nossa amiga Deolinda, convenci o mais novo, e subimos pelas escadas!

Dizem que elas são ridículas. E a parte da minha vida construída à sua volta, é do tamanho do sorriso mais sincero. Escrever à mão. Escrever cartas. Como podemos sugerir aos nossos filhos que o façam? Será útil? Serão mesmo ridículas? Contribuirão para o desenvolvimento cerebral? Escrever num teclado será igual a escrever à mão?

Quando tossia (e se eu tossia!) o remédio era um pacho de álcool no pescoço. Vim depois a descobrir que isto era ridículo. Já há xaropes. Medicamentos. Comprimidos.

Vamos lá agora andar para trás e usar remédios naturais

E porque não? Vamos experimentar! Cebola no quarto para a tosse, um golinho de água para os soluços…vamos experimentar. Claro, com responsabilidade. Mas há um saber escutar o corpo que devemos recuperar. Para conhecer o que funciona (e não connosco).

Se sofremos com remendos nas calças, também havia razão para isso. Se as calças picavam, usávamos na mesma. E hoje? Faz-se um remendo? Usamos roupa readaptada? É dar espaço à criatividade.

Sempre vi os meus avós a apanhar sol. Um, nas arcadas de um prédio onde havia um talho. O outro, no seu quintal onde regava.

E hoje, vou quebrar a rotina, vou buscar a mais nova, um pouco mais cedo, e vamos à praia. No caminho, falo-lhe dos avós. E olharemos para o futuro.

O que é a intolerância à lactose?

A intolerância a lactose é a dificuldade em fazer a digestão do açúcar presente no leite, que se chama lactose. Para fazer essa digestão, utiliza-se uma enzima que é produzida no intestino e que se chama lactase, mas há algumas pessoas que não produzem essa enzima em quantidade suficiente.

Assim, vão ser incapazes de digerir a lactose e vão ter os sintomas derivados dessa dificuldade e que podem ser:

  • gases em excesso
  • barriga inchada
  • dor de barriga
  • diarreia frequente.
  • desconforto com o consumo de leite e derivados
Existe uma grande variabilidade nas manifestações, porque tudo depende do nível de enzima que a pessoa produz. Quem produz mais enzima vai tolerar a ingestão de uma quantidade maior de leite e derivados do que quem produz menos.

Na suspeita de haver uma intolerância à lactose a solução é só uma: reduzir a ingestão de lactose.

A maior fonte desse açúcar é o leite, pelo que se deve trocar para um leite sem lactose (seja leite adaptado ou de vaca).
Os outros produtos lácteos (iogurte e queijo, por exemplo) são fermentados e têm muito pouca lactose. Motivo pelo qual geralmente não é necessário retirá-los da dieta, exceto se causarem mal-estar quando consumidos. Se com estas medidas simples a criança melhorar, fazemos o diagnóstico. Neste caso deve manter-se a dieta sem lactose, pelo menos temporariamente (cerca de 8 semanas).
Depois desse período reintroduz-se o leite habitual da criança, sempre de forma progressiva e sob vigilância, observando se não surgem novamente sintomas de intolerância.

Trissomia 21, o que é?

A trissomia 21 (t21) ou síndrome de down caracteriza-se pela existência de um cromossoma adicional no par 21. Esta alteração genética advêm de uma divisão celular atípica que produz um óvulo ou um espermatozóide com 24 cromossomas em vez de 23. Em consequência o bebé terá 47 cromossomas em vez dos 46, como a maioria da população.

Pode acontecer a qualquer casal ter um bebé com t21 sem que esta situação possa ser evitada.

Atualmente, não é ainda conhecida a causa para a t21.

Sabe-se que em cerca de 600-800 gravidezes uma será a gravidez de um bebé com t21. No nosso país, à semelhança do resto dos países europeus, podemos observar um recuo na taxa de nascimentos de bebés com t21. O  diagnóstico prénatal cada vez mais precoce, a procura do filho perfeito e ideal tem levado a um aumento das Interrupções voluntárias da gravidez (IVG) . Estima-se que em 1000 nascimentos um bebé nasça atualmente com t21 em Portugal. A IVG de uma gravidez com diagnóstico t21 é permitida por lei até às 22 semanas de gravidez. Um bebé sem t21 a data limite de aborto são as 10 semanas.

Saiba mais Lei n.o 16/2007 de 17 de Abril / Lei da Exclusão da ilicitude nos casos de interrupção voluntária da gravidez.

Podemos afirmar que a t21 se encontra em vias de extinção. Que a vida destes bebés não tem qualquer tipo de proteção. Lamentamos que cada vez menos pais consigam aceitar um filho com t21 e dar-lhe a oportunidade de mostrar do que é capaz.

Como se reflete a t21?

A t21 reflete-se num atraso no desenvolvimento, assim como em possíveis problemas de saúde associados. Isto não quer dizer que todas as pessoas com t21 apresentem problemas de saúde.

Sabemos, no entanto, que estatisticamente a sua incidência é mais elevada. As pessoas com t21 apresentam alguma semelhança física  (fenótipo) entre si. No entanto, cada pessoa é única.  E naturalmente muito mais parecida com a mãe, pai ou avós, do que com outras pessoas com a mesma síndrome. Para além da carga genética provocada pelo cromossoma adicional,  o desenvolvimento das crianças e jovens é também influenciado pelo ambiente que as rodeia e pelos  estímulos a que estão expostas.

A t21 na criança

Os estímulos e as oportunidades influenciam o desenvolvimento cognitivo de qualquer criança, crianças com t21 não são exceção. Não nos definimos apenas pelo nosso material genético,  mas também por factores externos que nos envolvem. A criança com t21 deve ter um percurso de vida semelhante a qualquer criança. Deve visitar o infantário, fazer ginástica, praticar natação, ir à escola. É fundamental pensarmos no nosso bebé como alguém que vai crescer e desenvolver o seu próprio projeto de vida.

O bebé com Trissomia 21 é, acima de tudo, um bebé que precisa de amor e carinho da sua família. Sentir-se amado é o passo mais importante para um desenvolvimento saudável do seu  bébé

Idade escolar

Depois de frequentar o infantário a criança com t21 deve, como qualquer outra criança, fazer uma transição natural para o ensino básico. Em Portugal esta transição faz-se por volta dos 6 anos de idade. Algumas crianças poderão beneficiar de uma adiamento escolar. Manter a criança mais um ano no jardim de infância deve ser uma exceção e uma situação ponderada.

Apesar da opinião dos profissionais ser de grande importância, os pais têm sempre o poder de opinar e decidir sobre a vida dos seus filhos. A opinião dos pais é sempre soberana. Se considerar que será proveitoso para o seu filho ficar mais um ano no jardim infantil e o justificar, a decisão será sua. Aconselhamos, no entanto, que seja procurado um consenso entre todas as partes envolvidas: a escola, os terapeutas e os pais, tendo sempre como objetivo o projeto de vida delineado para a criança.

Qual o tipo de escola para o meu filho com t21?

A escola regular é o lugar ideal para que o seu filho cresça e progrida enquanto pessoa. Ao longo dos últimos anos, a nossa sociedade tem evoluído e as crianças com t21 começam a ser vistas de outra maneira. Parte dessa mudança deve-se a alterações legislativas que permitem e obrigam a uma inclusão plena nas escolas e na sociedade. (Mais informação e legislação aqui)

Adolescência

As dúvidas sobre a adolescência e da transição para a vida adulta surgem-nos  muitas vezes quando os nossos filhos ainda são pequenos. Começamos a pensar que bom que seria, se pudéssemos protegê-los para sempre. Mas os nossos filhos crescem e o tempo passa tão rápido. Sem darmos conta, temos à nossa frente um verdadeiro adolescente. E de repente apercebemo-nos que nesta coisa da adolescência são como todos os outros. E agora? (Mais informação e testemunhos aqui)

Em Pais 21

 

A Associação Pais21 – Down Portugal é uma associação de pessoas com trissomia 21, famílias e sociedade civil que desde 2008 promove a informação e a partilha de novidades relativas  à trissomia 21. A nossa associação pretende  mudar o modo como a sociedade vê as pessoas com t21,  dar um apoio individualizado aos pais, dar informação atualizada sobre as suas capacidades reais  e apoio às novas famílias.

 

Podemos confiar nos nossos Pais!

Quando pensamos em falar com os nossos Pais sobre as dificuldades na aprendizagem parece fácil mas… não é assim tanto! Às vezes, só de pensar em falar com eles sobre este assunto até dá um arrepio. Umas vezes pode ser por não querermos sentir vergonha, outras vezes por não os querermos preocupar ou até aborrecer. Mas, podemos perfeitamente confiar neles e pedir-lhes que nos oiçam e compreendam as dificuldades que temos ou estamos a passar. Falar com os Pais pode ajudar-nos muito. E eles podem ajudar-nos. Afinal, os Pais são as pessoas mais importantes das nossas vidas! Amam-nos e cuidam de nós desde que nascemos até quando já somos Pais também!

Vamos ser corajosos e falar!

Quantas vezes é que nos passa pela cabeça “se eu não falar sobre estas dificuldades, pode ser que elas desapareçam”? Muitas, mas… “arrumar o assunto na gaveta” não o resolve e não nos faz sentir mais à vontade para lhes pedir ajuda. Muitas vezes só é preciso uma conversa. Ao sermos ouvidos e compreendidos em relação às dificuldades que temos sentimo-nos melhor, mais facilmente pedimos ajuda aos nossos Pais e arranjamos formas de as superar. Por isso, vamos ser corajosos e falar!

Antes da conversa…

Podemos pensar em algumas perguntas antes de ter a conversa.

Com quem vamos falar? Com a Mãe? Com o Pai? Com os dois? Quando é que vamos falar? No caminho para a escola? Depois do jantar? Onde é que vamos falar? No quarto? No carro?

É preferível dizermos aos nossos Pais que queremos falar com eles e perguntarmos qual será a melhor altura do dia, com mais tempo, e o lugar mais apropriado.

Por onde é que começamos?

Quando não sabemos por onde começar, escrever é uma ajuda. Pode ser uma boa ideia escrevermos uma carta e mostrá-la aos nossos Pais. Como fez a Laura. Ela escreveu uma carta em que conta como é um dia na sua vida. Podemos ler a sua história e experimentarmos também escrever a nossa carta.

Um dia na vida da Laura

“O alarme do telemóvel tocou às 07:00. Tinha de tomar um duche rápido para ir para a escola pois as aulas começavam as 08:30. Pensava eu que estava na casa-de-banho há apenas uns minutos, quando o meu irmão mais novo bateu à porta:

– Vá lá, despacha-te, estás a tomar banho há 20 minutos! – reclamou, ainda ensonado. – 20 minutos? Perdi o controlo do tempo…

Já eram 09:30, tinha chegado a hora do teste de História.

Eu adoro História e estudei muito para o teste de hoje. Depois de responder a algumas perguntas, o professor indicou que o tempo tinha terminado. Não quis acreditar… Olhei para o relógio para confirmar as horas, mas demorei algum tempo e o professor recolheu a folha de teste. Fiquei na dúvida se tinha lido bem as horas…

As aulas acabaram às 12:30.

Depois do almoço fui ao bar comprar um gelado que custava 1,50€ e cinco rebuçados para o meu irmão que custavam 0,10€ cada um. Não tinha a certeza se tinha dinheiro suficiente, mas também não queria que as minhas amigas me vissem a contar o dinheiro pelos dedos. Então, dei todo o dinheiro que tinha, convencida que chegava. Pensava mesmo que chegava, e que até sobrava…

Chegaram as 14:00, a hora da aula de Matemática.

Quando olhei para os trabalhos que levava para fazer hoje em casa “entrei em pânico”. Eu sei que eu até consegui fazer alguns exercícios, mas o meu coração disparou à mesma. Voltaram os pensamentos negativos: “Eu nunca vou ser boa a Matemática!”. Então, guardei os trabalhos no cacifo antes de sair da escola. Não queria que os meus pais vissem que eu não tinha conseguido fazer todos os exercícios na aula.

Às 14:55 tive aula de Educação Física.

Tinha de dar duas voltas ao campo a correr, em um minuto e vinte e cinco segundos. Corri tão rápido na primeira volta que tive dificuldade em conseguir terminar a segunda no tempo previsto. O professor ficou surpreendido por eu não me ter lembrado do que ainda ontem tinha treinado:

– Porque é tão difícil para ti conseguires lembrar-te de “em um minuto e vinte e cinco segundos”? – desabafou.

– Em um minuto e quanto?

As aulas terminaram as 15:45.

Hoje a tarefa de dar comida aos animais era minha. Eu sabia que eram cinco colheres de comida para o cão e três para o gato. Mas fiquei na dúvida: Será que medi bem as quantidades? É que se eu der comida a mais ao gato, ele vai mandar fora, mas… quanto é “a mais”?

Já eram 21:00 e o grande jogo ia começar.

Já todos tínhamos acabado de jantar e estávamos preparados para ver o jogo na televisão. Tinha começado! Comecei a fazer perguntas também: Quem é que está a ganhar? Se a nossa equipa marcar mais um golo ganha o jogo? Foram tantas as perguntas que fiz que me cansei e fui para o meu quarto.

Como ainda não passavam das 21:30, decidi montar a estante nova que tinha chegado hoje. Desempacotei a caixa e tirei as instruções. Segui o primeiro passo, mas fiquei confusa porque as peças não encaixavam. Irritei-me e empurrei tudo para bem longe.

Quando a minha mãe chegou para me ajudar, até lhe disse que não queria mais a estante. Fui deitar-me. Daqui a pouco o telemóvel deve tocar outra vez para me levantar.”

Depois, podemos dizer aos nossos Pais o que precisamos.

Por exemplo: “Pais, preciso que oiçam e compreendam o que escrevi nesta carta sobre como é um dia na minha vida. Posso contar-vos?” A partir daqui a conversa flui naturalmente.

A conversa correu bem?

A conversa com os nossos Pais corre bem na maior parte das vezes. Mas nem sempre conseguimos ter uma boa conversa. Pode ser porque não estavam num bom dia, ou porque não estavam disponíveis por alguma razão. É sempre possível tentar falar noutra altura. Mas, quando não conseguimos mesmo ter essa conversa, podemos procurar outro familiar, um Professor ou o Psicólogo em quem possamos confiar para falar sobre as dificuldades na aprendizagem.

Quer filhos mais felizes e tranquilos? Simplifique o dia a dia deles

Sente que os horários apertados e o excesso de atividades dos seus filhos a estão a fazer perder o controlo? Sente que se está a afastar dos seus filhos? Então, é tempo de parar e simplificar.

Os benefícios de simplificar a vida dos seus filhos são muitos. E isso também pode e vai tornar a sua mais gratificante.

As crianças tornam-se criativas quando têm tempo e espaço para explorar o mundo sem estarem presos ao “excesso”. Tudo o que é em excesso é esmagador e stressante. Quer sejam coisas de mais, informação de mais, atividades de mais, escolhas de mais ou um ritmo rápido de mais. Quando se anda a correr de uma tarefa para a outra, não há um momento para relaxar ou brincar. Ter e fazer muito pode sobrecarregar uma criança e levar a um stress desnecessário que se reflete tanto em casa como na escola.

Simplificar a rotina da criança e reduzir a sua sobrecarga de informações e atividades, bem como o excesso de brinquedos e desarrumação, poderá ajudar crianças hiper-estimuladas a tornarem-se menos argumentativas e disruptivas.

Ao simplificar o dia a dia de uma criança abre-se espaço para um desenvolvimento positivo, criativo e tranquilo.

“Muitas das questões comportamentais de hoje vêm de crianças que têm muitas coisas e vivem uma vida muito acelerada”, diz Kim John Payne, autor de Simplicity Parenting: Using the Extraordinary Power of Less to Raise Calmer, Happier and More Secure Kids.

Payne diz que muitas das crianças americanas vivem numa sobrecarga sensorial com “bugigangas a mais, escolhas de mais e informação excessiva”. Se a educação dos filhos for estruturada com base na simplicidade, reduz-se significativamente o stress diário na criança. Isto poderá traduzir-se em crianças mais felizes e mais bem-sucedidas.

As crianças precisam de tempo para si próprias.

Para se conhecerem através da brincadeira e interação social. Se sobrecarregarmos uma criança com escolhas e pseudoescolhas antes que tenha a maturidade para as entender, esta aprenderá apenas um gesto emocional: MAIS!”

A melhor forma de começar é em casa.

À medida que diminuir a quantidade de brinquedos e a desorganização do seu filho, está a aumentar-lhe a capacidade de atenção e de brincar profundamente. Coisas a mais resumem-se em falta de tempo e pouca profundidade na forma como as crianças veem e exploram os seu mundo”, diz Payne.

Destralhar

Ao reduzir os brinquedos, concentre-se em manter uma mescla de brinquedos que os seus filhos gostem de forma consistente.  Aqueles brinquedos que os mantêm entretidos por longos períodos de tempo. Muitas vezes, os brinquedos favoritos das crianças são simples e clássicos, sem muitos sinos e apitos – bichos de peluche, bonecos, brinquedos de construção como Legos, comboios e carros, roupas de vestir e materiais de artesanato.

Diminua a quantidade de livros para um punhado de favoritos que podem ser saboreados. Remova o restante para criar uma “biblioteca” e encontrar novas leituras. Dê-lhes tecidos, cordel e almofadas para criarem fortes e cabanas. Depois dê-lhes tempo para se ajustarem e criarem o seu próprio mundo de brincadeiras com esta simples seleção de brinquedos.

Faça do tempo de descanso uma prioridade

Na mesma linha, simplificar a programação da sua família pode reduzir a sensação frenética de estar sempre em movimento. Os TPC, as atividades extracurriculares e desportos diários podem stressar as crianças. O seu dia a dia torna-se caótico já que lhes falta o tempo livre que precisam para brincar e explorar criativamente.  Definir limites de tempo de ecrãs também manterá seu filho livre de distrações e ajudá-lo-á a encontrar alegria no momento presente.

“O descanso alimenta a criatividade, que alimenta a atividade. A atividade alimenta o descanso, o que sustenta a criatividade”, explica Payne em Simplicity Parenting. “Cada um extrai e contribui para o outro.

Também a mãe que anda sempre a fazer de motorista se sente cansada e stressada. Reduzir para apenas uma ou duas das atividades favoritas poderá dar-lhes a liberdade não só de ter tempo para brincar e explorar, mas também de praticar e se concentrar numa atividade especificamente.

Reduzir a desorganização física, definir ritmos previsíveis e simplificar atividades trará também benefícios para os pais, e consequentemente para o equilibrio familiar. Ao simplificar, podemos concentrar-nos naquilo que realmente valorizamos.

Ter menos brinquedos beneficia a imaginação de uma criança e a sensação de calma.

A simplificação é um processo contínuo, não algo que posse ser começado e acabado numa tarde ou fim de semana. Demora tempo a reduzir, a mudar hábitos e a desenvolver novos ritmos. Não é fácil mudar de direção quando toda a sua família anda à velocidade da luz e o caos está instalado. Comece devagar, com pequenas mudanças e um olhar para o que quer que a sua vida em família seja.

Relaxar

“Nas infância o que se destaca não são as viagens à Disneylândia, mas sim as coisas comuns que se repetem. Os jantares em família, passeios na natureza, ler juntos antes de dormir, panquecas ao sábado de manhã.”

Com a simplificação, podemos trazer uma infusão de inspiração para o nosso quotidiano. Podemos definir um tom que honre as necessidades da nossa família à frente das exigências do mundo. Permitir que a fé que temos nos nossos filhos supere os nossos medos. Realinhar a nossa vida para proporcionar uma infância como deve e pode ser..

Existirá melhor lembrete de nós próprios do que os nossos filhos? O nosso ‘eu’ menos stressado e mais despreocupado?

Na inocência deles vemos a sombra do que já fomos. Quando éramos crianças, sim, mas também antes de termos filhos. Ou mesmo há duas semanas atrás antes de todo o stresse dos testes escolares, por exemplo.

Simplificar é encontrar um lugar de equilíbrio à medida que nos afastamos do “excesso”.

Com menos, as crianças podem descobrir de que é que realmente gostam e o que realmente querem.

E tornarem-se mais seguras, mais tranquilas e mais felizes.

 

 

Publicado em Want happier, calmer kids? Simplify their world, de Sandy Kreps

 

Porque é que não me convidaste para a tua festa?

Todas as pessoas com filhos conhecem o drama das festas de aniversário.

Quem é  convidado? Quem tem que ficar de fora?

Hoje em dia as festas de aniversário tem vindo a perder o seu caráter pessoal. A festa do João pode ser a festa da Maria. Muitas vezes as festas são impessoais e delegadas a empresas de eventos o que aumenta o drama da escolha. Só podem ser 20, repetem os pais, porque senão fica mais caro. Paga-se por cabeça e é preciso escolher bem. Este número pré definido acaba por ser um drama tanto para os miúdos, como para os graúdos.

É óbvio que perante esta restrição numérica as crianças sejam obrigadas a escolher e gerir o stress de convidar a, b, ou c.

Quem escolher? Aquela miúda que até se gosta, mas que não é tão popular ou optar pela miúda menos simpática, mas que todos acham fixe. As crianças desde cedo são obrigadas a escolher e a tomar decisões. É difícil, sabemos disso. É lhes difícil chegar à escola e ter que ouvir de alguém de lágrima ao canto do olho “porque não me convidaste?” ou um “pensei que éramos amigas?”.

E quando quem fica de fora é aquela miúda ou miúdo que tem t21?

Talvez nem perceba, julgamos, pelo menos não se queixa, nem implora para ir e continua a ser simpático, como se nada fosse. É preciso escolher e este miúdo embora se goste imenso dele não é a escolha a, b, ou c, provavelmente será a escolha x. Os miúdos têm dificuldade. E os pais? Que tipo de pensamento terão ao deixar de fora o colega diferente? Acharão que  para esta criança ficar de fora não será tão mau como para outra qualquer?

Nestes últimos anos tenho ouvido muitos desabafos de pais.

Os filhos não são convidados porque as pessoas têm receio. Será que gosta de pizza ou  de bolo? Será que gosta de piscina? Saberá nadar? Há coisas que nos atingem profundamente, a nós pais de crianças com t21. Não porque não saibamos que existem, mas porque nos chegam quase sempre de pessoas que julgamos informadas.

A Maria queria convidar a Sara, a colega com t21, mas não sabia se a Sara gostava de bowling. Quem diz bowling, diz outra coisa qualquer. A solução encontrada foi não convidar a Sara, a Maria e os pais da Maria não sabiam. Este episódio contou-me a mãe da Sara há alguns dias. Fiquei a pensar nisto. Será que a Maria e os pais fazem isto com todas as pessoas ou apenas com quem não queriam convidar? É o que me ocorre. Teria sido fácil perguntar aos pais da Sara, se tinham dúvidas.

Que feio que é distribuir os convites e dizer àquela criança: “não te convidei porque não sabia se gostavas”. Que feio que é justificar-se desta forma aos pais da Sara. Maneira esquisita de ser (des)convidado. Sempre pensei que primeiro se convida e depois o convidado decide se quer ou não ir, se gosta ou não.

Os miúdos com t21 também sabem fazer esta escolha.

Sabiam? E  acreditem que não gostam de tudo.  Já pensou, se fizessem o mesmo com o seu filho sem t21. Se lhe dissessem “gostava de convidar o x ou y mas não sei se gosta, por isso optei por não convidar.”

Já não devia chatear-me com estas histórias, mas fico sempre sem saber o que dizer. Como chegar aos pais dos colegas? Como combater ideias pré-concebidas?

A minha filha Vera tem 14 anos e continua a ser convidada para as festas. “Isso vai deixar de acontecer, espera que ela cresça. Os colegas já não vão querer estar com ela”, dizem-me.

Será que vai ser assim? Confesso que este pensamento me causa alguma angústia, Por enquanto, esse momento ainda não chegou, mas sei que, tal como vocês,  nunca estarei preparada para ver a minha filha sofrer.

 

Marcelina Souschek, em Pais 21

 

A Associação Pais21 – Down Portugal é uma associação de pessoas com trissomia 21, famílias e sociedade civil que desde 2008 promove a informação e a partilha de novidades relativas  à trissomia 21. A nossa associação pretende  mudar o modo como a sociedade vê as pessoas com t21,  dar um apoio individualizado aos pais, dar informação atualizada sobre as suas capacidades reais  e apoio às novas famílias.

Frustração Positiva?

Como é que um sentimento que à primeira vista é tão negativo pode ser Positiva?

“Eu não gosto de me sentir frustrado!” – É o pensamento consequente a esta afirmação.

Pois bem… É mesmo sobre a Frustração Positiva que vamos falar neste artigo.

Sobre a frustração

No senso comum, a frustração é o sentimento que ocorre quando alguma coisa que era esperada devia acontecer e não aconteceu. Quer dizer: a nossa mente previa que que acontecesse determinada coisa, e não aconteceu contrariando assim a nossa necessidade de controlar tudo o que nos rodeia.

Nós adultos ainda sofremos muito ao nos sentirmos frustrados. É natural! No entanto, é preciso observar quais são as nossas atitudes depois da frustração pois seguramente, são estes modelos mentais de como lidar com a dor, com a perda e com o erro que estaremos a transmitir aos nossos filhos.

E não adianta pensar: “Que disparate! É só um bebé, nem se apercebe do que está a acontecer!”. Grande engano! As nossas crianças entendem e sentem tudo o que ocorre e acabam por refletir nos seu comportamento ainda que, num primeiro momento seja de forma inconsciente.

Mas se as as dores, desafios, perdas e obstáculos são inerentes à condição humana, como transformar estes acontecimentos em aprendizado?

É aqui que entra o nosso conceito de Frustração Positiva.

É a habilidade que os pais e educadores devem possuir para limitar o comportamento infantil, gerando um conflito que facilite a evolução. Em traços gerais trata-se de evitar a superproteção, não privando a criança de situações aparentemente mais difíceis.  São estas adversidades que as ajudam a crescer e que permitem a aprendizagem da tolerância à frustração.

A antropologia tem uma metáfora bastante pertinente sobre a Frustração Positiva: é a do sistema imunológico psicológico. Quando a partir da vivência de situações desafiadoras a criança desenvolve novos recursos e habilidades de adaptação. E isto é tão importante!

Como diz o provérbio, “A necessidade faz o engenho”

Por isto é que os limites são tão importantes no desenvolvimento psicológico das crianças. É a partir dos nãos que oferecemos aos nossos filhos, sempre somados ao nosso gigante amor de mãe, que os vamos preparando para receber com mais equilíbrio emocional, os nãos que chegarão no decorrer da vida.

Viver essa experiência, no reduto fraterno do lar é de grande valia para crianças e adultos. Ambos têm a possibilidade de (re)construir a sua relação com frustração, alterando padrões mentais enrijecidos, na constante aprendizagem de lidar com a dor de forma positiva, resiliente e empoderadora.

Em suma, devemos exercitar-nos no aprendizado de que nem tudo está sob o nosso controle. Nem tudo acontece como planeamos. Nem todas as nossas vontades são atendidas.

E quer saber mais?

Está tudo bem!

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Menos é mais… sobretudo num livro infantil

E pronto… já passou! (Sobre)Vivemos a época festiva recheada de muitas expectativas, muitos desejos, muitas cores, muitas luzes, muitas festas, muitas animações, muito, muito, muito… Chegou finalmente o tempo de voltar a assentar, descansar e regressar à realidade que se quer muito mais calma e com muito menos estímulos. Estamos finalmente prontos para regressar à aparente calma do dia a dia. Para isso, nada melhor do que regressar às nossas conversas sobre os livros.

O livro infantil tem a tarefa ingrata de rivalizar com outros materiais de consumo mais imediato na vida das crianças. Rivaliza com brinquedos apelativos e estimulantes dos vários sentidos. Rivaliza com materiais interativos como os tablets ou as consolas de jogos. E, sobretudo, rivaliza com outros que se denominam como livros infantis mas que não são mais do que puzzles e brinquedos musicais (normalmente com pouca qualidade) com meia dúzia de letras lá pelo meio. Por isso, muitas vezes se veem em lugares de destaque das prateleiras livros de cores garridas, letras enormes ou desenhos com relevo, como tentativa de chamar a atenção do consumidor na hora de escolher o que comprar.

No que ao livro infantil diz respeito, menos é mais.

Estes não precisam de ter os atributos acima mencionados. Precisam, isso sim, de ter qualidade. Muitas vezes passam-nos despercebidos certos livros que não nos chamam tanto a atenção. É preciso estar muito atento na hora de escolher um livro infantil e ter sempre os olhos e a mente bem aberta para optar pela qualidade em vez de espetacularidade!

O conceito de qualidade é muito subjetivo, passível de ser interpretado de diversas formas.

De um modo muito geral, deixo aqui algumas considerações sobre o que ter em conta quando se procura qualidade nos livros. Esta escolha é fruto de algum conhecimento e experiência na área, bem como de pesquisas e leituras de outros autores sobre o assunto:

  • Qualidade editorial

    No sentido em que o livro pretende ser um projeto com um determinado fim. Como tal, todos os seus componentes (da capa à contracapa) têm que trabalhar para esse fim, completando-o, sem se sobreporem ou se anularem.

  • Dimensão estética

    A dimensão estética do livro, a quantidade de imagens por página ou a forma como estão organizadas ou ainda se a imagem complementa ou contradiz o texto são pontos muito importantes a ter em conta. A qualidade literária do texto não pode ser esquecida. Se este está bem escrito e organizado. Se está adequado com o objetivo do livro e a idade dos leitores. Muita atenção às traduções e adaptações dos textos.

  • rigor científico

    Quando aplicável ao livro em questão. Um livro que tenha por objetivo ensinar as cores, convém ter efetivamente as cores certas e não uma ligeira variação.

A opinião da criança é importante mas quem tem a palavra final são os adultos que estão a escolher. Nós, como adultos, temos a obrigação de orientar as crianças nas suas escolhas e ensiná-las progressivamente a ter critério.

Boas escolhas e melhores leituras.

 

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Neste artigo iremos explorar em que consiste a Disortografia, respetivos sinais de alerta, como se realiza o diagnóstico e qual a intervenção mais adequada para crianças que manifestam esta perturbação da aprendizagem.

O que é a disortografia?

A Disortografia deriva das palavras “dis” (desvio) + “ortho” (correto) + “graphos” (escrita), isto é, a dificuldade em escrever corretamente. Assim sendo, a Disortografia é uma Perturbação da Aprendizagem Específica com Défice na Expressão Escrita que afeta a precisão ortográfica, a precisão gramatical e da pontuação e a clareza ou organização da expressão escrita.

Apesar de a Disortografia poder ser uma perturbação por si só, é frequente coexistir com a Dislexia, isto é, com a Perturbação da Aprendizagem Específica com Défice na Leitura.

Sinais de alerta de disortografia?

São vários os sinais indicadores de uma possível Disortografia. Num texto típico, escrito por uma criança com disortografia podemos observar:

  1. Incorreções ortográficas diversas:

– Omissões de letras/sílabas (e.g. banco-baco);

– Adições de letras/sílabas (e.g. comer-comere);

– Inversões de letras/sílabas (e.g. barco-braco);

– Substituições de letras com sons semelhantes (e.g. verde-ferde);

– Substituições de letras com formas semelhantes (e.g. bola-pola);

– Aplicação incorreta das regras gramaticais (e.g. ajudam-ajudão);

  1. Dificuldades ao nível da pontuação:

O mais habitual é os textos das crianças com Disortografia apresentarem pouca ou nenhuma pontuação. Em outros casos, pode ocorrer uma tentativa por parte da criança, nomeadamente quando são mais velhas, de utilizarem os diferentes sinais de pontuação, no entanto nem sempre os aplicam da forma mais adequada, tornando o texto confuso.

  1. Dificuldades na precisão gramatical:

É frequente estas crianças saberem explicar com precisão as diferentes regras gramaticais de forma isolada. Contudo, no momento em que as têm de aplicar de forma autónoma (pois têm de escrever a um ritmo que não lhes permite refletir com calma nas diferentes regras), acabam por cometer esses mesmos erros de precisão gramatical.

  1. Dificuldades no encadeamento/organização das ideias:

É crucial ensinar estas crianças a planear os textos antes de os escrever. Uma das características desta perturbação da aprendizagem é exatamente a dificuldade em produzir um texto escrito com uma sequência lógica e bem estruturada ao nível das ideias (mesmo quando bem estruturadas oralmente).

  1. Ritmo lento na escrita:

Uma vez que estes alunos necessitam de recorrer a diferentes estratégias, para conseguirem escrever sem erros, para saberem qual a regra gramatical a ser aplicada, para saberem qual o sinal correto de pontuação adequado, isto ao mesmo tempo que tentam elaborar um texto com uma boa construção frásica, acabam por revelar um reduzido ritmo de produção textual.

Como diagnosticar a disortografia?

Tal como a Dislexia, também a Disortografia deverá ser avaliada por um técnico especializado em Dificuldades de Aprendizagem (Psicólogo, Psicopedagogo, Neuropsicólogo), em estreita colaboração com os pais e professores.

Como em qualquer Perturbação da Aprendizagem Específica, a criança só poderá ser formalmente diagnosticada após dois anos de estimulação formal da leitura e da escrita (o que não significa que não seja possível despistar sinais de alerta previamente) e se o seu desempenho nas competências de escrita for significativamente abaixo do esperado para o seu nível escolar (avaliado através de provas formais e informais) e não consequentes de uma deficiência auditiva/visual, de uma Perturbação Específica da Linguagem ou de uma fraca estimulação escolar.

Qual a intervenção mais adequada?

A intervenção ao nível da Disortografia consiste na reeducação e treino das competências fonológicas (características desta dificuldade de aprendizagem) e visuo-espaciais, tendo como foco principal o processamento fonológico. As sessões de intervenção ao nível da estimulação das referidas competências deverão, sempre que possível, privilegiar uma estimulação multissensorial.

É importante referir que o sucesso da intervenção será tanto maior quanto mais cedo estas dificuldades forem detetadas e intervencionadas. Tal como na avaliação, também a intervenção deverá ser realizada em colaboração com o contexto familiar e escolar.