O Castigo e a consequência. Como estamos a educar as crianças?

“Qual é a diferença entre o castigo e a consequência ”, perguntou-me uma mãe, preocupada com a forma como está a educar os filhos. A fronteira entre o castigo e a consequência é ténue, por isso é natural a dúvida.

Castigamos com a intenção de mudar o comportamento da criança, para que passe a agir como queremos, e para a punir, para fazer com que “pague” pelo que fez, fazendo-a sentir vergonha, dor e/ou culpa.

O castigo não tem relação, um nexo de causalidade, com a ação, no fundo não é mais do que uma consequência… disfarçada. Por exemplo, quando mandamos a criança para o quarto ou lhe dizemos que já não vai à festa porque se portou “mal”, estamos simplesmente a agir de forma autoritária e punitiva, sem que haja uma relação entre o ato e o castigo.

Já as consequências estão diretamente relacionadas com o ato em si, são uma decorrência lógica dele, há um nexo de causalidade entre o ato e o resultado. Por exemplo: se a criança deixou cair a comida ao chão, a consequência lógica é limpar, (o que até pode acontecer com a ajuda dos pais, dependendo da idade); se não fez os trabalhos de casa na hora combinada, a consequência lógica poderá ser ter de os fazer na hora em que iria ver TV; se partir algo a consequência poderá ser ter de a consertar (dependendo da idade) e se bater no irmão a consequência poderá ser pedir-lhe desculpa…

Ao contrário do castigo, que apenas funciona a curto prazo (porque põe fim ao “mau” comportamento no imediato) mas tem consequências negativas no longo prazo, as consequências lógicas (que não devem nunca pôr em causa a segurança dos mais pequenos!) permitem ensinar às crianças a lidarem com o resultado do seu comportamento, de forma a que desenvolvam responsabilidade (algo que não acontece com o castigo, que apenas cria medo e rebeldia). Às vezes a diferença está, também, no mero tom de voz…

Curiosamente, a Disciplina Positiva apenas sugere a aplicação de consequências lógicas como um dos últimos recursos. Procurar a razão por detrás do comportamento, para depois atuar de forma positiva (com firmeza e carinho ao mesmo tempo), apelar à cooperação envolvendo-as em atividades úteis, passar tempo de qualidade com elas, estimular a responsabilidade, a autonomia e a auto-estima, por exemplo, são “ferramentas” mais úteis e efetivas

Perde a cabeça durante uma birra? A culpa é do seu cérebro

A caminho do metro cruzei-me com uma mãe que ralhava com o filho de 8 ou 9 anos. “Não voltas a falar assim, ouviste?”, ameaçou, fora de si. E antes que o menino dissesse alguma coisa, levou uma chapada na cara.

Segui viagem mas fiquei a pensar naquilo. Em como poderia aquela mãe ter (re)agido caso tivesse conseguido acalmar-se primeiro e voltado a reintegrar-se, acedendo à parte “racional” do cérebro. Parte “racional”? Sim…

E se eu lhe disser que a “culpa” das suas reações ao “mau” comportamento das crianças é, em primeiro lugar, do seu cérebro?

Perder a cabeça

O que é que acontece quando teve um dia complicado, em que discutiu com o colega do lado, levou uma reprimenda do chefe, não dormiu o suficiente ou, simplesmente, está cansada/o? E em que, para além disso, chegou a casa e os seus filhos fazem uma birra daquelas…? Perde a cabeça. Salta-lhe a tampa.

Isto acontece porque, nos momentos de tensão, não consegue aceder à parte “racional” do seu cérebro: o cortex pré-frontal. Que é a área que regula as emoções, as suas relações com os outros, a flexibilidade de resposta às situações, a moral e intuição, a forma como apreende o que a/o rodeia e a consciência de si mesma/o. Ao não ter a capacidade de regular tudo isto, nem sequer se dará conta do quanto está a ser desrazoável com os seus filhos.

Quando chega a casa naquele estado, o que é que se vai passar com os seus filhos? Que também podem ter tido um dia cansativo, como o seu. Entrarão em choque consigo, claro. Isto porque têm neurónios espelho, como todos nós. E refletem o que veem.

Essencial manter a calma!

E se em vez de reagir de forma intempestiva, conseguisse manter a calma? De que forma (re)agiria? E que atitude acha seria mais provável ver no seu filho?

Pense nisto: o que a/o ajuda a acalmar-se? O que pode fazer para se tranquilizar? Contar até 10? Ir à casa de banho? E por que não sair de cena durante uma birra, por exemplo?

Entender o que passa connosco quando nos tiram do sério, é meio caminho andado para melhorarmos a relação com os nossos filhos. E com os outros.

Ter a capacidade para se tranquilizar antes de (re)agir significa voltar a integrar-se. E permitir que o cérebro “funcione” novamente. Sei que nem sempre é fácil, mas é algo que pode treinar-se.

A ideia não é que não volte a perder a cabeça, porque isso é impossível. Todos continuaremos a fazê-lo. O desafio é darmo-nos conta do que está a acontecer, e de forma mais rápida, para depois atuarmos com firmeza e respeito ao mesmo tempo. São estes os conceitos-chave da Disciplina Positiva.

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Adultos desatentos precisam de crianças atentas

Estava presente para o meu filho. Estava fisicamente presente, por isso estava presente. Chegava a casa e satisfazia as suas necessidades básicas. Significava que estava presente: atenta. Pensava eu.

Mas hoje sei que, na verdade, não estava presente, não estava atenta. Estava em casa, sim. O meu corpo realmente estava em casa mas a minha cabeça, o meu sentir, vagueava por outros lugares: o trabalho, os objetivos, as metas, as contas para pagar, a barriga gorda, os comentários dos outros e por ai fora. Encontrava-me entre os problemas do passado e as antecipações de cenários dantescos do futuro. Mas a verdade é que não estava em casa. Não estava ali, presente, inteira. Não olhava para os seus olhos, não conhecia os sinais o seu corpo, não me espantava com as suas conquistas, não me apercebia dos seus pedidos de ajuda. Estava desatenta. Não sabia quem era o meu filho. Não conseguia ver o que verdadeiramente importava. Só lhe dava ordens e lhe dizia como devia ser e fazer.

Um dia o meu filho mostrou-me um desenho e eu, de forma automática, disse – lhe “que bonito!”. E ele, muito dececionado, respondeu: “mãe, são só riscos!”. Acho que tive tipo uma mini epifania nesse momento porque ainda me lembro disto hoje. Tocou-me profundamente.

No infantário começaram os alertas que se prolongaram até à escola: o seu filho é muito agitado, impulsivo, ansioso, desatento. Fiquei fora de mim. O meu filho não podia ser assim. Não podia! Irritava-me tanto. Ficava fora de mim. “Tens estar mais quieto, atento, calmo!”.

A mãe desatenta precisava de um filho atento. À força! Sim, ele tinha de estar quieto, ser bem comportado e ter bom desempenho escolar. Ele tinha de mostrar que eu era a mãe perfeita e extremosa. (“O que os outros iam pensar?”). Mas não: ele mostrava o contrário. A minha autoestima ficou um caos. Mesmo. Mas a culpa não era minha, não, nem pensar, a culpa era dele. Especialistas, despistes, correrias.

Comecei a procurar fora uma resposta mas nenhuma me satisfazia por completo. Algo começou a corroer-me. Comecei a sentir que podia fazer algo mais do que simplesmente culpá-lo ou deixar o trabalho para as mãos de outros. Não ia abandonar a ajuda dos especialistas, é certo, mas senti que tinha de começar pelo princípio (que é como quem diz: olhar para mim).

Mas custava tanto…

No entanto procurei ajuda e assim comecei a desenrolar o novelo. E perguntas inconvenientes começaram a aparecer. Onde teria estado nos seus primeiros anos de vida? E como estava emocionalmente? Numa espiral de ansiedade, medo, culpa, irritação.

Até que percebi. Mãe Desatenta Precisava de Filho Atento. Aqui entre nós, que grande incongruência não é?

A criança precisa de alguém que a veja, que a ouça, que a reconheça, que esteja verdadeiramente presente! Que se ligue a ela. E assim sente-se segura e coopera. E assim sente-se vista, fica atenta e aprende. Esta foi a minha história. Esta é a história dos pais que acompanho.

Quando finalmente parei, despertei! Eu não estava atenta, eu não estava presente. Eu pensava que estava mas não estava. Eu estava em luta. O sofrimento tinha-se tornado a minha zona de conforto e eu pensava que a única saída que tinha era ficar por lá. Mas não. Existe outra: dá mais trabalho, é certo, mas é uma oportunidade maravilhosa. Uma oportunidade para nos voltarmos a encontrar.

Acredito que o primeiro passo para as crianças estarem atentas é olharmos para nós: que exemplo estamos a dar?. E às vezes até podemos estar a fazer tudo para ajudar os nossos filhos, mas mesmo essa ocupação de fazer tudo pelos nossos filhos, também nos leva a ficar desatentos, ou seja, andamos tão ocupados em ajudar, desvendar, resolver, fazer alguma coisa, que nos esquecemos de simplesmente ESTAR com eles de forma inteira, plena. Andamos em modo “Fazer” e esquecemo-nos de “Estar”.

Há algo que não nos podemos esquecer: comportamento gera comportamento, atenção gera atenção, desatenção gera desatenção.

E agora vamos para a escola, outro sistema importante que a criança frequenta. Vamos dar um passeio à escola. Ouve-se que as crianças estão desatentas, agitadas, mais violentas. É um facto. A questão é: o que é que estamos fazer para que elas aprendam a ser atentas, calmas, empáticas? Gritos, castigos, irritação, violência, cansaço são as palavras que se ouvem por parte dos que frequentam este ambiente. E atenção: a minha intenção não é culpar ninguém, acredito que todos estão a fazer o seu melhor que podem com os recursos que têm, mas a verdade é que, de uma forma geral, os adultos que por ali andam estão emocionalmente debilitados: esgotados, cansados, frustrados. Estão a precisar de ajuda! Estão todos a precisar de ajuda! A nossa forma de estar reflete-se nas crianças.

Esqueçamo-nos da guerra de quem tem culpa. Isso só nos desvia do que é realmente IMPORTANTE: o olhar para nós. Cada um de nós pode fazer diferença, cada um de nós terá a sua quota de responsabilidade. Na verdade estamos todos no mesmo barco, pais e filhos, professores e alunos: todos queremos ser vistos, ouvidos, reconhecidos, amados, olhados com Atenção. Certo?

Eu exigia ao meu filho atenção mas vivia desatenta. Acredito num caminho mais consciente para responder à desatenção e do que daí advém, como por exemplo, a chamada “má educação”. Se sempre consigo? Não, não consigo por isso continuo no caminho de reeducar-me para ser uma pessoa, mãe, mulher mais inteira e presente.

Não podemos exigir às crianças aquilo que não somos, simplesmente por uma razão, que apesar de óbvia nos esquecemos muito facilmente: Educamos Por Aquilo que Somos! Pelo exemplo!

O que estarão as crianças desatentas a precisar?

Crianças Desatentas precisam de Adultos Atentos.

Vamos olhar para nós sem julgamentos mas com verdade? À primeira vista pode até surgir o medo mas, acreditem, é tão libertador …

 

Por Carla Patrocínio do Blog Meus filhos meus mestres, visite a página do Facebook da especialista em Parentalidade Consciente

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O que eu me ri ao ler “Mãe do Ruca, odeio-te!“. A sério. Partilhei com amigas, li em voz alta ao meu marido e ri-me de novo sozinha. Obrigada Susana Almeida.

Ao ler alguns dos comentários que foram feitos ao texto percebi que muitas pessoas se identificam totalmente com a autora, outras ainda acrescentam aspectos da vida “animada” da mãe do Ruca sobre os quais eu nunca tinha reflectido e outras até discordam por achar que a senhora mãe é um óptimo exemplo a seguir. Todas me fizeram pensar, por isso, obrigada.

No meu caso, ainda que me identifique com o incómodo que a mãe do Ruca me traz, há uma coisa que me preocupa e com a qual me debato pessoalmente e que tem sido a base para os artigos que escrevo no meu blog. Para a minha vida pessoal nos últimos sete ou oito anos e até para o trabalho que desenvolvo com os meus alunos para que, em pequenos grupos de conversação nas aulas de inglês na escola que criei, consigamos vencer em cada aula o veneno da comparação.

Que maravilha, pensei, será o momento em que a nossa comparação pela positiva ou pela negativa com a mãe do Ruca não fica cravada nos nossos corações mais do que três ou quatro minutos. E que depois avançamos totalmente confiantes naquilo que somos. Imperfeitas e verdadeiras mulheres. Aqui não me refiro a uma falsa confiança super à defesa atrás da qual nos escondemos para nos sentirmos seguras. Mas de uma confiança que vem de estarmos alegres na nossa pele. A isto voltarei um pouco mais à frente porque penso que é importante.

Pessoalmente, posso dizer que nada me é mais difícil do que isto. Cedo aprendi a comparar-me. E agora como mãe da bebé Joana percebi que em nenhuma fase nos comparamos com outras mulheres e os outros nos comparam mais do que quando somos mães. Tantas expectativas, tantos modelos, visões, opiniões que por vezes só me fazem apetecer ir viver para uma ilha bem longe.

No meu percurso pessoal para acabar com este veneno e poder viver aqui e agora no meio das pessoas, recusando-me jamais a esconder-me por trás de ideias da vida que culpam tudo e todos pelas minhas inseguranças, uma das pessoas em que me tenho apoiado é a autora norte-americana Brené Brown. Recentemente estes dois textos ajudaram-me a reposicionar-me de novo nesta história da competição.

Em relação ao vários temas que ela aborda, o que aqui mais me interessa referir é o facto de defender que apontamos o dedo crítico às pessoas nas áreas da vida delas sobre as quais nos sentimos nós mesmos mais fracos.  Aqui entra a história da mãe do Ruca e o ponto que referi antes sobre sermos sinceras connosco. De não usarmos de uma falsa confiança. Penso que vivemos tempos em que a sinceridade de sabermos porque fazemos o que fazemos é difícil. A Brené Brown sugere-nos perguntas de sinceridade interior que exigem uma pausa. Uma pausa que me tem ajudado bastante a não me esconder por trás da máscara de comentários como “ah, mas eu também não queria ser como ela”.

Que venha o dia em que abraçamos a mãe do Ruca, a mulher que se irrita com o filho no supermercado e todas as outras com quem nos comparamos. Contentes com quem somos e apoiando a mãe diferente de nós que está ao nosso lado. Porque – e agora muito sinceramente – todas as mães que conheço desde que nasci se queixam de alguém que as criticou ou que comentou a forma como educaram e como se sentiram magoadas com isso. Mas quase nenhuma vi depois a não repetir a proeza com a mãe que vem a seguir. Vou tentar, quero mesmo tentar. Porque isto dói.

 

Por Ana Calha, Blog Prá Vida Real

 

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Todos nós precisamos de coisas diferentes. Por exemplo, eu preciso das minhas canetas para escrever e o meu filho precisa delas para construir foguetões. De todas elas. Eu preciso do meu computador para editar as minhas crónicas e o meu filho precisa de ver documentários sobre construção de motores. Ao mesmo tempo que eu preciso de trabalhar.

Muitas vezes situações como esta podem transformar-se num dilema. Ou numa fonte de conflito.

No entanto, como adulto responsável, cabe-me a mim escolher se quero transformar este momento numa luta de poder. Ou simplesmente parar, olhar para o grande plano das coisas por um segundo – em vez de reagir imediatamente – e decidir em consciência.

Isto significa que as crianças não tenham limites?

Não. Mas significa que os limites devem ser passados de forma tranquila, com base na empatia, na conexão.

Ao dizer: Estou a escutar que gostavas de…. Mas não vai ser possível… porque | Quem me dera… | Como é podemos fazer? | Estou aqui. Vejo que estás aborrecido. Queres ajuda? estamos a escolher compreender o que a criança sente antes de estabelecer o limite. Mesmo que não possamos satisfazer a necessidade ou vontade imediata da criança, ela vai receber que somos compreensivos em relação às suas emoções e às suas vontades.

As crianças, tal como nós reagem muito melhor a uma energia de conexão. Se nos conectarmos primeiro com os sentimentos da criança, distanciando-nos das nossas próprias necessidades, conseguiremos ajudá-la a construir uma auto-imagem positiva e um verdadeiro sentido de valor.  E isso constrói-se momento após momento.

Isto quer dizer que devemos deixar as crianças fazerem tudo o que querem?

O mais possível. Sou uma defensora do sim. Mais do que do não. O sim expande. O não limita. E se queremos educar uma geração melhor, precisamos aprender a expandir com eles.

Verifico que passamos a grande maior parte do tempo a barrar. A travar. A limitar. E tenho observado que o fazemos por medo. Por um caleidoscópio de medos. Normalmente medos que residem dentro de nós e que ainda não libertámos. Ou medos relativamente ao exterior. Medo que caiam. Medo que cheguem atrasados. Medo que fiquem doentes se não comerem a sopa toda. E medos relativamente às expectativas dos outros. Da sociedade. Do mundo.

Todas as crianças precisam de sentir-se amadas. Ouvidas. Vistas. Acarinhadas. Apoiadas.

Quando nós adultos temos dificuldade em gerir, controlar as nossas próprias emoções, abrimos portas e janelas que dificilmente se voltarão a fechar facilmente. Com as palavras que usamos e com o tom que as empregamos. Confundimos facilmente firmeza com agressividade, definição de limites com hostilidade.

Nós próprios precisamos de fazer o único trabalho de casa realmente relevante: trabalhar as nossas próprias emoções. Sarar as nossas próprias feridas. Fazer um trabalho de alma profundo. Ganhar uma nova consciência. Voltar ao coração.

É certo que todos nós precisamos de coisas diferentes, no entanto todos operamos muito melhor num ambiente de apoio, aceitação e compreensão. Especialmente nos nossos momentos mais difíceis. Quando estamos à espera da resposta de um trabalho que nunca mais chega. Quando queremos sair de casa para dar uma voltinha, mas acabamos por ir para a praia com os três baldes, quatro pás, uma mochila cheia de ovos cozidos e hambúrguers em fanicos, um podengo e um basset hound completamente alucinados que mais parecem leões enjaulados quando encontram outros cães.

Todos nós precisamos de coisas diferentes.

É certo. Mas quantos de nós precisamos de sermões, opiniões, conselhos ou o ponto de vista de outros quando estamos a ter um momento menos bom? Quando estamos frustrados, ansiosos ou confusos? Quando somos tratados de uma forma que não merecemos? Quando nos sentimos injustiçados?

É certo que todos precisamos de coisas diferentes. Por exemplo, quando vivíamos em casa dos meus pais, a minha irmã precisava de ter as coisas arrumadas e eu desarrumava tudo. Não era por mal. Simplesmente não sou um ser humano organizado.

Mas todos funcionamos melhor – e nos sentimos melhor –  quando nos sentimos compreendidos, apoiados e aceites.

Por vezes somos mal interpretados por pessoas que não nos conhecem tão bem ou não conseguem compreender o nosso mundo interior. Por exemplo a minha irmã nunca compreendia porque razão arrumava o lavatório da casa de banho e dois dias depois já estava tudo completamente desarrumado. Como a compreendo agora!!!

Posso nunca ter sido um ser humano organizado, mas sempre consegui encontrar-me na minha desorganização. Quer dize, na maioria das vezes. Mas por precisarmos de coisas diferentes ou funcionarmos de formas diferentes, isso significa que estamos errados? Que merecemos menos?

Um dos maiores desafios da vida é saber respeitar os outros como eles são. Mas aprendi que isto talvez aconteça porque também não sabemos ainda bem como respeitar-nos e aceitar-nos a nós próprios, na nossa totalidade. Vivemos ainda num mundo de separação e julgamento.

Todos precisamos de coisas diferentes, mas quando estamos cansados, angustiados, frustrados, aflitos ou zangados precisamos de alguém que nos oiça. Que nos escute activamente. Sem condicionantes. Sem moralismos. Sem cobranças. Alguém que reconheça a nossa dor interior e nos dê a hipótese de falar ou desabafar da maneira que precisamos. Só isso tantas vezes ajuda a que fiquemos menos confusos, menos ansiosos e mais aptos a lidar com os nossos próprios sentimentos e resolver o nosso problema.

O processo não é diferente com as crianças. Sem tirar nem pôr. Para conseguirem aprender a encontrar soluções para lidar com os seus sentimentos, as crianças precisam do nosso apoio, a nossa aceitação e o nosso carinho. Não precisam de castigos, repreensões, lições de moral ou sermões.

É imperativo aprender a linguagem das crianças, como se voltássemos a aprender a ler e a escrever.

Estudar essa linguagem abre-nos caminhos mágicos na arte de educar. Aprender a descodificar cada momento menos bom e saber ler o que está por detrás de cada emoção, de cada explosão. De cada manifestação.

Em todos os momentos, verbal ou não verbalmente, a criança tenta comunicar. Tenho vindo a compreender cada vez mais que para conseguirmos ter uma relação saudável com os nossos filhos, precisamos aprender a compreender como funcionam. Para conseguirmos dar-lhes o que realmente precisam para crescerem de forma saudável. Aprendi que só alterando a forma como olhamos, percebemos e tratamos as crianças é possível criar novas gerações de adultos mental e emocionalmente saudáveis.

Não tenho muita paciência para as outras mães, mas o meu ódio de estimação é mesmo a mãe do Ruca.

A mãe do Ruca nunca se zanga com ele! – disse-me um dia destes a minha filha.

Os meus filhos adoram ver o Ruca e eu não me importava, era a desculpa ideal para os ter sossegados enquanto eu preparava os banhos. Mas, agora tinha de perceber que raio de mãe é essa que nunca se zanga com o filho. Isso existe? Com os miúdos na escola, atirei-me às gravações automáticas, peguei no meu chocolate com avelãs e dediquei-me a uma maratona de Ruca.

O que descobri foi chocante: as avelãs do chocolate do Minipreço são enormes e quase me partiram os dentes.

Quanto à mãe do Ruca, odeio-a! Episódio após episódio, birra após birra, asneira após asneira, ela não grita, ela não altera o tom de voz e o pior que a ouvi dizer foi um “Oh fofinho”. A sério? Quem é que escreve estes diálogos?

A mãe do Ruca não ralha, a mãe do Ruca não castiga, a mãe do Ruca não se enerva. Mesmo quando ele parte a chávena preferida dela ou tira os brinquedos das mãos da irmã, ela explica-lhe o que fez de errado e ensina-lhe qual o comportamento correto. É a rainha da parentalidade positiva.

E também uma fada do lar do caraças. Mesmo sem empregada doméstica consegue ter a casa limpa e arrumada, a roupa lavada e passada, as refeições na mesa a horas, faz pizzas caseiras, bolos, sumos naturais, tem o jardim cuidado e apesar de ter uma filha bebé não vi indícios de privação do sono. E, espantem-se, ainda a apanhei num episódio ou outro, sentada calmamente a ler o jornal.

O lado negro: usa sempre a mesma roupa, não sabemos quantas vezes por semana toma banho, está quase sempre enfiada em casa, é incrivelmente parecida com o marido e aquele corte de cabelo com uma bandolete azul não lembra a ninguém. E, este é que estraga tudo, aquele tom de voz de dona de casa desesperada encharcada em compridos não engana ninguém, “oh fofinho”, “parece-me tão divertido ires saltar nas poças de lama”, “cuidado que te vais ferir”, “não te preocupes que a mamã limpa”, os risinhos. A minha conclusão é só uma: a mãe do Ruca está à beira de cortar os pulsos.

Resolvi meter tudo em pratos limpos quando fui buscar os miúdos à escola.

“- Sabes filha, a mãe do Ruca não existe. Pensa bem, ela tem sempre a casa arrumada e sem pedaços de bolacha espalhados pelos móveis, ela não grita, nem se enerva e o pior que diz ao Ruca quando ele faz birras tontas é “oh fofinho”, achas que é parecida comigo?”

A minha filha fez uma cara de quem percebeu que estava lixada e pediu para ver a Masha e o Urso.

Ainda bem.

O stress matinal está a prejudicar os momentos em família?

Oito e meia da manhã, o relógio a dar horas, o pequeno-almoço por tomar, a roupa por vestir, gritos, choro, birras, “não posso mais com isto!”, “despacha-te!”, “anda lá!”. Um stress. Cenário comum e que se repete em dezenas de lares portugueses. Rotina que se repete dia após dia. Será que passa com os anos? Será que os miúdos melhoram com a idade? Dúvidas, irritabilidade, culpa… E assim está montado o cenário perfeito para que a família comece a sentir que está a viver em stress constante.

Para os pais, há ainda o acumular das tarefas profissionais e de manutenção da casa. Para os miúdos, o acumular dos conflitos na escola, da dificuldade em algo que está a ser ensinado e dos trabalhos para casa.

Mas será que de alguma forma os comportamentos de cada membro da família acabam por alimentar o stress familiar?

Sim e com certeza!

Os filhos frequentemente testam os pais para verem até onde podem ir, e frequentemente exigem atenção através de coisas que irritam profundamente os pais. Por sua vez, os pais que se sentem soterrados em obrigações, frequentemente dão uma ordem acabando por contraria-la, ou seja, pedem para os filhos que executem determinada tarefa, e acabam por fazê-la.

Anda lá! Calça as sapatilhas! Temos que ir!” E… dois segundos depois está o pai ou a mãe em stress a calçar os miúdos.

Como estas situações alimentam o stress familiar?

Simples, os pais, enquanto adultos, passam num simples comportamento a mensagem de que ela não tem capacidade de se calçar sozinha, que receberá muita atenção se fizer fitas a vestir-se, e que tampouco precisa de obedecer porque, a tarefa vai aparecer feita na mesma. E assim a mesma cena perpetua-se manhã após manhã.

Mas, como resolver essa situação?

Com treino. Treino dos pais e treino dos miúdos. Num dia calmo em que não tenham horários a cumprir (como um fim de semana, por exemplo), tenha uma conversa honesta com os pequenos e proponha uma competição contra o relógio “tive uma ideia para que nós não tenhamos que discutir pela manhã!”, por exemplo: “Vou colocar aqui o alarme e quando tocar tens que estar já vestido(a) e com as sapatilhas calçadas. Se conseguires terminar antes do alarme, vais ganhar um prémio!”. Para tal, coloque um tempo no alarme que saiba que será viável para o seu filho realizar a tarefa com sucesso (5 min a 8 min). O que queremos aqui é que ele se sinta capaz de executá-la. Ah! Mais importante ainda, não ajude! Deixe que ele faça sozinho, incentivando-o a cada etapa concluída com sucesso “Boa! estás mesmo rápido, já conseguiste vestir a camisola! Fixe!! Agora já calcaste as meias!!”.

O prémio a ser dado, nesse caso, pode ser algo tão pequeno como um autocolante ou carimbos numa folha. Depois, podem ser estabelecidas metas para a semana juntamente com os miúdos (a começar por metas mais fáceis). Se os pequenos conseguirem vencer o alarme três vezes na semana ganham três autocolantes e esta soma de conquistas pode ser trocada por um prémio maior (um kinder surpresa, a escolha da sobremesa para o jantar, um jogo mais barato que queiram, enfim, algo que não tenha um valor elevado mas que seja do interesse deles). Esses pequenos prémios vão promovendo motivação para a realização de tarefas e o desafio deve ser aumentado a cada conquista. Após duas semanas, conseguindo vestir-se sozinhos e vencendo a meta de três vezes na semana, pode aumentar-se o desafio para conseguir fazê-lo os cinco dias da semana.

Este tipo de intervenção pode ser feita também para tomarem o pequeno-almoço ou para realizar qualquer outra tarefa, incentivando-os sempre com algum prémio pelo sucesso na execução e claro, com muita atenção!

A verdade é que as birras e a postura opositiva não passam com os anos, nem com a idade. Muito pelo contrário, a tendência é piorar se não for tomada nenhuma atitude pró-ativa por parte de quem cuida. O que faz os comportamentos mudarem são 4 coisas:

  • Treino, consistência por parte dos pais, regras e ordem.

Nesse sentido, os pais tem de ter atenção para não transmitirem exatamente aquilo que não pretendem.

Há pais que gritam frequentemente com os filhos pedindo para que estes não gritem.

Ora, quando gritas, o que estás a ensinar, é que ganha quem grita mais alto… Em vez de ensinar que com gritos não se ganha nada, ensinas que gritar é o importante. E, acredita, os miúdos vão aprender a gritar!

O que devemos fazer é exatamente o oposto: oferecer um elogio assim que a criança para de gritar “Fixe! Estou mesmo orgulhosa(o) de ti! Conseguiste acalmar-te e parar de gritar!”, assim conseguimos ensinar que gritar não serve de chamada de atenção, mas que parando de gritar se ganhar atenção e elogios dos pais!

Essas dicas funcionam muito bem quando bem executadas de forma consistente. É claro que algumas crianças são mais desafiadoras, mas há sempre maneiras de ajuda-las a compreender as regras e autoridade de forma positiva e não autoritária.

Quem poderá ajudar com mais precisão é um psicólogo especialista em atendimento infantil e de pais. Para além de promover rotinas menos conturbadas, um bom profissional ajuda na criação e manutenção de laços afetivos positivos nas famílias, mesmo perante os momentos de crise.

Se sente que sua rotina está a dar cabo do seu dia e da energia da sua família, procure ajuda. Acredite, as coisas não vão melhorar sozinhas e nem com o tempo. É necessário fazer modificações de forma organizada, consistente e coerente, e com ajuda profissional tudo fica mais claro e fácil.

imagem@trudnoca

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Hoje de manhã encontrei à saída do metro um pai que participou no workshop de Disciplina Positiva que dei no início do mês.

Trocámos os bons dias e algumas palavras de circunstância, perguntei pelos filhos e quando eu me preparava para seguir caminho, percebi pela sua expressão inquieta que queria falar. Desabafar.

Não tardou a contar-me que andava a sentir-se em baixo, frustrado, desesperado. Tudo por causa dos constantes ataques de fúria do filho mais velho de 5 anos. Disse-me que já tinha tentado tudo. E que ralhar ou castigá-lo só estava a piorar as coisas.

Convidei-o para um café e expliquei-lhe que uma criança que se porta mal é uma criança desanimada. E que a melhor forma de enfrentar aquele tipo de comportamento é através do estímulo. Vi-o torcer o nariz enquanto eu falava, percebi que achou a ideia um disparate. E verbalizou-o: “Estímulo? Mas assim estarei a premiar o mau comportamento dele”. Respondi que não, que uma criança se porta melhor quando se sente melhor.

Ficou a pensar uns segundos no que lhe disse e decidiu experimentar uma sugestão que lhe dei, que tem tido bons resultados em minha casa, com os meus filhos. Combinámos falar uma semana depois, para saber como tinha corrido.

Voltámos a falar uns dias depois, como acordado. E nem foi preciso eu fazer perguntas. “Anteontem, quando o filho começou a fazer uma birra daquelas, pus-me de joelhos à altura dele e disse-lhe: ‘Preciso de um abraço!’

Perguntei-lhe como tinha reagido a criança. “Ficou surpreendido e disse-me, entre lágrimas: ‘o quê?’ Voltei a dizer-lhe que precisava de um abraço e ele, atónito, perguntou: ‘Agora?’ Respondi-lhe que sim e, a custo, lá me abraçou”.

A birra tinha terminado. E pai e filho ficaram ali, envolvidos num longo abraço.

E depois do abraço?

“E depois do abraço, o que é que faço quanto ao mau comportamento? Deixo passar?”. É a pergunta que quase todos os pais me fazem quando lhe falo desta “ terapia do abraço ”, uma das técnicas mais utilizadas na Disciplina Positiva.

Muitas vezes um simples abraço é suficiente para pôr fim, no imediato, ao mau comportamento. Mas nem sempre. Há alturas em que a criança está de tal forma alterada que não está disposta a dar ou receber qualquer tipo de estímulo. Nessas situações pode sempre arriscar dizer-lhe:  “gostava que me desses um abraço, quando estiveres pronta”.

Um abraço serve pelo menos, na maioria das vezes, para criar um ambiente mais desanuviado e motivador. E pode ser a oportunidade ideal para criar conexão – ou recuperar a conexão perdida -, fazendo perguntas, dando opções limitadas, distraindo, fazendo coisas juntos… e comprometendo-se juntos a procurar uma solução para o problema.

Atenção ao castigo!

Infelizmente, são muitos os pais acham que os filhos devem sentir na pele o mal que fizeram. E a forma que encontram para que tal aconteça é fazendo com que sintam culpa, vergonha ou dor (castigo, por outras palavras). Em vez disso, pode sempre tentar dar ou pedir um abraço.

Caso este método não funcione aí em casa, não desespere. Afinal, não há uma receita única para todas as crianças. E há outras alternativas para lidar com o comportamento dos mais pequenos, de que tenho vindo a falar (e continuarei a fazê-lo) neste site.

Se acha que tem “tentado tudo” e não consegue resolver a questão, é provável que se encontre numa luta de poderes ou num ciclo de vingança com o(s) seu(s) filho(s). O que só que aumenta neles a desmotivação. Experimente partilhar os seus erros com eles. E peça-lhes ajuda para melhorar, comecem de novo. Admitir os seus erros é uma das coisas mais estimulantes que pode haver para uma criança.

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Todos nós, pais, somos diferentes. Se, como seres humanos, não podíamos ser mais complexos, seria de esperar que nesta coisa da maternidade/paternidade fosse igual.

Por esse motivo tento ao máximo não julgar. O que funciona dentro de uma casa não é obrigatoriamente melhor do que o que se faz na outra. Sei disto e sei também que muitos de nós tomamos decisões e depois, mais tarde, olhamos para trás e pensamos que tínhamos muitas certezas na altura, mas se fosse hoje faríamos diferente.

No outro dia no parque encontrei uma senhora que tem quatro filhos e que costumamos encontrar várias vezes durante a semana. Os mais velhos têm nove e sete anos, os mais novos três e seis meses. São idades muito diferentes e não imagino o caos que muitas vezes deve acontecer dentro de casa.

Neste dia ela estava sozinha com os quatro, o mais novo a dormir no ovo, os mais velhos a saltarem no escorrega e o segundo mais novo andava a correr e a fazer disparates. A certa altura ouvi alguma comoção e prestei atenção ao que estava a acontecer. A mãe chamava o de três anos para vir ter com ela, naquele tom de “imediatamente, não me obrigues a chamar outra vez”. Sei como é, estamos juntas, adorava que a minha filha viesse só de lhe abrir os olhos como os meus pais me faziam, mas a ela falta-lhe esse chip, ou talvez me falte a mim o chip da autoridade que os meus pais tinham.

Mas o miúdo não só não ia ter com a mãe como recuava com ar de medo. Depois percebi porquê, tinha feito uma asneira grande, tinha mandado pedrinhas (que compõem o chão do parque) à cara da mãe. A mão cedeu em ir ela aproximando-se e chegando a um palmo dele, encheu a mão das pedrinhas e zumba, mandou-lhas à cara. Acompanhado de um “vê lá se gostas que te faça isso. Gostas? Não gostas, pois não? Então não faças!”.

Toda eu estremeci. Repito que tento não julgar, mas eu não o faria. Conheço quem use o método, a outros níveis, mas assim nunca tinha visto.

A verdade é que pode resultar, mas está a formatar aquele miúdo para agir assim. Há algumas crianças no parque que algumas vezes fazem exactamente isso, apanhei já uma miúda adorável que quando via os mais pequenos mandarem pedras ia atrás deles a fazer o mesmo e a dizer o tal “não gostas, pois não?”. Devem ter-lho feito a ela também.

Isto pode preparar os miúdos para o imediato, da próxima vez talvez não façam a mesma coisa, com medo que lhes venham fazer a eles a seguir, mas é o que eu considero um mau princípio.

Quando forem adultos e cometerem um erro não terão, ou não deverão ter, alguém a fazê-los passar pelo lado do outro para compreenderem. Porque não é preciso ser quase atropelado para se ter mais cuidado quando se está a passar de carro na passadeira.

Acredito que devemos ensinar a empatia. Que devemos corrigir os erros. Que devemos mimetizar as atitudes que gostávamos que os nossos filhos tivessem.

Eu sei que há dias de cão, em que o cansaço nos faz cometer erros. Talvez tenha assistido a um desses dias. Espero que sim.

Odiaria ver aquela mãe ser chamada à escola porque o filho anda a pisar os colegas, porque um deles o pisou e agora precisa de ver como é. Ou anda a dar encontrões porque lhe deram a ele. Ou a chamar nomes e dizer palavrões porque foi o receptor dos ditos.

Todos os dias são bons para recuarmos um pouco e pensarmos onde podemos melhorar.

Eu todos os dias tenho uma lista sem fim.

Mas tende a ser menor que a do dia anterior.

Que seja assim para todos nós.

 

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Resolver uma Birra

A cena parecia tirada de um filme. De terror. O meu filho, de 6 anos, aos gritos e a espernear na sala. Parecia possuído por um espírito maligno qualquer. Tudo por causa de um episódio de um desenho animado que ele queria ver e que eu não deixei, porque já era hora de ir dormir.

O episódio já tem algumas semanas, mas usei-o esta semana como exemplo, quando uma amiga me pediu conselhos sobre como lidar com as birras do filho, mais ou menos da mesma idade.

No momento apeteceu-me ralhar, ameaçar com um castigo se ele não parasse imediatamente com aquele comportamento. Mas, em vez disso, resolvi aplicar uma “ferramenta” que aprendi em Espanha, durante a formação que fiz para Educador de Famílias em Disciplina Positiva. E resultou.

Sair de cena… mas voltar ao assunto

Comecei por avisá-lo que eu estava a sentir-me irritado, pelo que iria sair da sala para me acalmar. E que falaríamos sobre o que aconteceu quando ambos nos acalmássemos.

Tive dúvidas sobre se resultaria. Fui até à cozinha, respirei fundo e um minuto depois estava de volta. Já não tinha vontade de o agredir verbalmente. Nem ele continuava com a birra. Sentei-me no chão à altura dele, e perguntei o que estava a sentir. E porque tinha feito aquela cena. Disse que não sabia. Tentei procurar as respostas. E encontrei-as. Disse-lhe que compreendia que se sentisse assim, mas tentei que compreendesse que já não era hora para ver bonecos. “Não achas?”, perguntei. Disse-me que sim com a cabeça, timidamente. “O que é que podemos fazer para evitar que isto se repita, filho?”, acrescentei, com a voz tranquila. “Ver os bonecos mais cedo?”, respondeu. Dei-lhe um abraço e fomos contar a história antes de dormir. E birras do género, nem vê-las desde então.
Não sabe resolver uma birra, saia de cena.

Sair de cena não é premiar!

Durante os momentos de conflito, voltamos a um estado primitivo com o nosso cérebro de réptil (e os répteis comem as suas crias!). Em que a única solução é discutir (luta de poderes) ou fugir (má comunicação).

E que tal se sairmos de cena até nos sentirmos melhor? Isto de forma a que possamos resolver o problema baseando-nos na proximidade e na confiança e não na distância e na hostilidade?

Imagino que para muitos dos pais que me estão a ler, provavelmente a maioria, é difícil imaginarem que uma solução destas resulte. “Então o meu filho está a fazer uma birra e eu vou-me embora?” Eu também achava o mesmo. Mas lá em casa resultou!

Sair de cena, mas avisando sempre que se vai fazer isso para acalmar, não é premiar ou deixar que eles “levem a melhor”. Às vezes bastam 5 segundos para nos acalmarmos e voltarmos ao nosso cérebro racional. Depois é tempo de voltar ao assunto e voltar a criar conexão, já com a cabeça mais fria. E isso faz toda a diferença.

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