Pais e Mães Mediadores de Serviço – Conflitos entre irmãos

Quando temos mais do que um filho queremos que, acima de tudo, os irmãos sejam amigos. Acreditamos que serão companheiros para a vida. Que juntos irão conquistar o mundo, partilhar brinquedos e experiências e ser inseparáveis para todo o sempre.

Mas a verdade é que, nem sempre as relações são perfeitas. Aliás, o mais usual é haver zangas e disputas, e ora serem os melhores amigos, ora não se podem ver pintados de cor-de-rosa.

Quando digo que tenho 4 filhos, perguntam-me logo se eles se dão bem! Óbvio que é um factor extremamente importante para todos os pais.

Joana Sardinha Zino, Advogada exercendo maioritariamente na área do direito da família, como mãe sentiu a necessidade de encontrar estratégias para evitar e resolver conflitos entre os irmãos.  Percebeu que o problema era geral em todas as famílias, e começou por desenvolver técnicas de mediação de conflitos com os seus filhos, há cerca de dois anos. Conjugou o know how da profissão com a  sua experiência de mãe e os resultados foram visíveis.

“O meu maior sonho sempre foi ser mãe e ter vários filhos, assim seguidos, como tenho… para que fossem amigos e para que se acompanhassem ao logo das suas vidas!! Até aqui tudo ok. Confere com a realidade! Mas a questão é que ninguém me avisou que eles também se iam pegar muito, que se iam zangar e que não iam querer partilhar… 

Os conflitos existem

Nenhuma relação é isenta de conflito e os conflitos entre irmãos e em família “fazem parte”, todos sabemos disso, mas, deixam de ser normais, quando alteram estados de espírito, alteram a dinâmica e comprometem a harmonia e os programas familiares. Foi quando isso começou a acontecer, que senti necessidade de trazer para dentro de casa algumas das técnicas e estratégias da minha profissão, enquanto mediadora de conflitos (familiares, civis e escolares) e comecei a observar como os miúdos começaram a ganhar maiores competências de negociação e gestão dos seus problemas, e eu pude ter mais descanso!”

Pais e Mães Mediadores de Serviço

O projeto “Pais e Mães Mediadores de Serviço” nasce da vontade de transmitir as técnicas, as ferramentas e os benefícios da mediação, e aposta no desenvolvimento de competências de cooperação para a prevenção de conflitos, a negociação, a cooperação, a comunicação positiva e a criatividade na resolução de “problemas”!

“Foi por esta paixão pela mediação que desenvolvi o projeto Pais e Mães Mediadores de Serviço – a mediação de conflitos entre irmãos e em família, para que mais Pais pudessem ficar a conhecer estas técnicas.

O que se pretende é que os pais fiquem a conhecer quem são os seus filhos perante o conflito. A mais-valia de desenvolver junto destes competências de cooperação para a prevenção de conflitos, o poder das técnicas de negociação, a comunicação positiva e dar algumas dicas criativas na resolução de “problemas” através das técnicas de mediação, ficando estes a conhecer o processo de mediação, como fazer acordos e como aplicá-lo em suas casas!

A prevenção do conflito

Considera-se assim muito importante desenvolver com os mais novos estratégias que lhes permitam crescer lidando de forma construtiva e positiva com os seus conflitos, promovendo a gestão dos mesmos.”

Joana defende que “As crianças aprendem a fazer paz, quando perante um conflito  expressam as suas necessidades, conseguem ver as várias perspectivas, conseguem negociar e conseguem chegar a um acordo que seja satisfatório para todos, um ganha-ganha.

Por isso, todo o tempo e empenho que possamos dedicar quer na prevenção, quer na mediação e resolução dos conflitos, será muito bem empregue.”

Tendo sido a primeira em Portugal a aplicar a mediação na gestão de conflitos entre irmãos, o projeto ganhou asas, e neste momento já podemos encontrar nas redes sociais a Página “Pais e Mães Mediadores de Serviço”, para que todos possamos aprender a aplicar estas técnicas dentro das nossas casas.

“A educação para a gestão positiva dos conflitos contribui para o desenvolvimento de um espírito de cidadania baseado no respeito mútuo e fundado no diálogo e contribui para termos miúdos desencucados, abertos ao diálogo, criativos, confiantes e capazes de criar memórias muito felizes e fazer da vida uma festa!

É esse objetivo… e os pais terem descanso… está claro!”

 

Joana Sardinha Zino, 39 anos, mãe da Carminho, Domingos e Graça, com 11, 9 e 7 anos. Advogada, exercendo maioritariamente na área do Direito da Família, Mediadora de Conflitos nos Julgados de Paz, Mediadora Familiar, Mediadora Escolar e Formadora.

 

Respirar Gratidão Pelas Crianças

Embora a gratidão tenha uma vibração própria, a gratidão pulsa na frequência do amor.

Quando respiramos gratidão, respiramos amor.

Um dos maiores motivadores de bem-estar, a gratidão é uma das fontes mais poderosas de conexão.

Como pais, podemos ser aprendizes incessantes, se estivermos dispostos a ouvir e a observar profundamente.

São-nos oferecidos dons preciosos e vulneráveis ​​que devemos respeitar com todo o coração, com todos os nossos actos.

A conexão profunda às vezes pode parecer um desafio. A maneira como somos programados para entender as crianças – influenciadas pela nossa própria cultura e criação – bloqueia a verdadeira percepção do reino das crianças.

Todos os dias, tentamos ao máximo orientar nosso barco na direcção amorosa e gentil, mas às vezes nosso piloto automático engana-nos e leva-nos de volta ao tipo de pais que não queremos ser.

Há momentos em que questionamos as nossas capacidades como pais, sentimos arrependimento, culpa, vergonha. Às vezes, simplesmente não entendemos porque é que não podemos ser sempre os pais que queremos ser. De tempos em tempos, experimentamos momentos de desespero. Mas, de alguma forma, temos que encontrar uma maneira de voltar e segurar o volante. Às vezes é apenas uma fracção de segundo que temos.

A gratidão ajuda-nos a colocar nosso barco de volta à nossa rota. A gratidão ajuda-nos a reconectar com nossos filhos. E com a situação com que estamos lidar.

E à medida que praticamos mais e mais gratidão, essas reconexões não são fragmentadas. Eles começam a acontecer instantaneamente.

A gratidão tem poderes profundamente misteriosos e infinitos.

Orientar os nossos filhos faz parte de nossa missão como pais. No entanto, orientar os nossos filhos também significa permitir que as crianças liderem o caminho. Permitindo-nos aprender com a sua sabedoria. As crianças sabem muito mais do que se manifestam para o  exterior.

Praticar a gratidão ancora soluções construtivas ao lidar com nossos desafios. Exercer gratidão diariamente ajuda-nos a reformular e crescer a partir de nossas experiências.

A gratidão encoraja aceitação e flexibilidade.

Uma vez que recebamos a gratidão junto com nossa respiração natural, a gratidão renova sua pulsação como um movimento abstrato puro e simples, e expande seu poder em uma parte intrínseca do nosso DNA.

Então a gratidão expande-se no ar que inspiramos e expiramos espontaneamente. E quando respiramos gratidão, amplificamo-la em todo o nosso ambiente.

Escreva ou apenas pense, neste momento, em cinco coisas sobre seus filhos pelos quais você é grato. E todos os dia pratique esse exercício.

Quando começamos este simples hábito, começamos a compreender a mudança imediata que acontece no nosso cérebro. Quando somos gratos, tornamo-nos mais conscientes das coisas verdadeiramente importantes. As nossas prioridades da vida prática são reformuladas.

Quando somos gratos, tocamos a energia do amor. E conectarmo-nos com o amor é conectarmo-nos com bondade e sabedoria. E é aí que começamos a libertar-nos da necessidade de controlo.

Quando sentimos um profundo apreço por termos os nossos filhos nas nossas vidas, os nossos olhos mudam. Os nossos olhos mudam de uma forma que acabamos por expandir a nossa percepção da verdade sobre as crianças. Sobre o que eles estão a tentar comunicar. Começamos a perceber que quando choram ou se revoltam, há sempre uma motivação para essa emoção. Mesmo que nós não a consigamos ver. E passamos a perceber que a criança precisa de ajuda. E não de uma repreensão ou de um castigo.

O nosso trabalho como pais é aceitar os nossos filhos como eles nos são apresentados.

O nosso trabalho como pais é nutrir quem os nossos filhos são.

É incentivá-los a serem sempre fiéis a si mesmos.

E essa é outra das lições que a gratidão nos ensina. A gratidão ensina-nos a aceitar o que é. Como é. Apesar do que é. O que nos faz sentir bem. O que nos deixa desconfortáveis. O que move nossas emoções mais profundas. O que move o núcleo de nossas crenças.

Tudo começa a fazer sentido no momento em começamos a respirar gratidão. O que lemos aparece-nos no momento exacto em que precisamos de lêr. Com quem nos cruzamos, aquilo por que passamos traz consigo uma lição secreta a ser aprendida.

Primeiro temos que SER. Então estaremos prontos para DAR. Só então podemos RECEBER.

Os nossos filhos são coração, corpo e alma. Assim como nós somos. E sermos gratos por eles ajuda-nos a enxergar os desafios com uma mentalidade diferente. Ajuda-nos a olhar para eles de uma perspectiva diferente.

Sermos gratos pelos nossos filhos ajuda-nos a perceber que há coisas sobre as quais temos pouco controlo.

Respirar gratidão pelos nossos filhos estimula-nos a ser mais amigos e parceiros, sermos mais pacientes, resilientes e mais gentis nos momentos mais desafiadores.

Quando inserimos o ato de sermos gratos por tudo o que acontece nas nossas vidas, começamos a abraçar cada experiência como uma oportunidade de crescer e evoluir. Isso traz à consciência coisas que precisamos de trabalhar dentro de nós mesmos.

Traz consciência de que cada circunstância é um presente.

Quando respiramos gratidão pelos nossos filhos, criamos uma nova consciência. Também aprendemos a ser mais cuidadosos com as nossas palavras, com o nosso tom. Com as nossas acções.

Mas além de tudo isso, ensinamos os nossos filhos através do nosso exemplo, a sermos gratos e a valorizar-se a si mesmos como indivíduos, apreciando as suas experiências como uma contribuição para quem eles são.

Respire gratidão pelos seus filhos todos os dias.

E isso trará benefícios para sua vida e para sua família durante toda a sua vida e além dela. Porque isso fará parte do legado que seus filhos transmitirão ao mundo e que, esperamos, se espalhe pelas próximas gerações.

A gratidão pulsa na frequência do amor.

E quando respiramos gratidão, respiramos amor.

Dos filhos que fomos, aos pais que somos!

Quando os pais começam a desempenhar o seu papel, para além de um bebé, há todo um conjunto de novas personagens que nascem! Em volta de um bebé, há toda uma família que se alinha e re-alinha, há uns pais que se tornam avós, há um irmã que se torna tia, há um amigo que sente saudades, há um casal que inicia uma viagem… Quando os pais se tornam pais, tudo se mistura e se conjuga, o amor não se aprende, um filho não se desliga, mas a paternidade pode ser mágica se conseguirmos multiplicar tudo o que de bom há em nós.

Cada criança tal como cada um dos pais é singular, mas todas as crianças à sua maneira refletem os lados de heróis e de vilões dos pais. Afinal, como é que um Pai se pode tornar melhor?

Um Pai tem de olhar para o Mundo colocando-se no papel da criança.

Mas, acima de tudo, tem de olhar para um filho, livre daquilo a que ao longo da vida o foi condicionando aos poucos… A forma como cada um dos pais exerce o seu papel, é condicionada pela sua história, pelas suas expectativas, pela forma como foi filho, como foi irmão, como desejou ser Pai, como foi, ou não, sendo amado ao longo da sua vida e do seu crescimento, enquanto criança e enquanto adulto.

Muitas vezes, porque fomos filhos assustados, presos a um sistema parental rígido e autoritário, procuramos exatamente o oposto para os nossos filhos e tornamo-nos pais absolutamente liberais, não introduzindo segurança, regras e limites. Ou o oposto, porque fomos filhos em auto-gestão, exercemos um controlo absolutamente fora do vulgar com os nossos filhos, não lhes dando espaço e liberdade para serem crianças à sua maneira.

O difícil na montanha russa da parentalidade é que é preciso conjugar num só, os pais que tivemos, os filhos que fomos e os pais que somos, e, às vezes, é como se cada um andasse para o seu lado, como se estivessem zangados, como se dentro de cada um dos pais vivessem muitas personagens em vez de darem vida a um Pai. Naturalmente, essas personagens fraturam-no, tornando-se incompatível o filho que se foi, com o pai que se quer ser e com os pais que tivemos.

Por isso é que às vezes, é preciso parar, olhar para dentro de nós, separar e unir mundos, para fazer as pazes com a criança e com o filho que se foi, com os pais que se teve e assim, tornarmo-nos melhores pais e ficarmos cada vez mais perto dos pais que queremos ser.

Um pai, ou uma mãe, são sempre feitos de histórias, de amores e desamores, de conquistas e derrotas. Mas, não se pode desejar que seja um filho a ligar todos os nossos mundos e fazer-nos sonhar, muito menos, podemos querer que seja um filho a concretizar todos os nossos sonhos, a sarar as nossas feridas e dar as mãos às nossas infâncias.

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Por Cátia Lopo e Sara Almeida Psicólogas Clínicas

 

Surgiu esta semana em conversa.

“A maioria dos pais, homens, não estão presentes na vida dos filhos”.

A frase chocou-me. Ainda mais porque foi seguida de vários exemplos reveladores, lançados porque alguém com conhecimento de causa, que trabalha com famílias e em contexto escolar. Eram 8 as coisas que um Pai não faz.

Não serei o melhor Pai do mundo, longe disso, mas posso orgulhar-me por nunca ter faltado a um momento importante da vida dos meus filhos. Por vezes, com sacrifício da minha vida profissional. Mas foi sempre simples decidir, porque são eles a minha prioridade.

No dia a dia, é também para eles que reservo o tempo de maior qualidade. E isso passa também por desempenhar tarefas que, tradicionalmente, costumam ser entregues à Mãe.

Para os pais (homens) que se “esquecem” que ser Pai é mais do que pôr uma criança neste mundo, deixo o alerta. Elas precisam de mais. Aqui vão 8 coisas que a maioria dos pais (homens) não fazem… mas deviam fazer:

1 – Vestir a criança.

Ok, em princípio vai correr mal. Muito mal. Pelo menos à primeira tentativa. E à segunda. E à terceira. O babygrow está mal posto, o macacão fica largo, a camisola mal amanhada e fora das calças e os ténis não condizem com a camisola. Mas se não nos deixarem tentar, nunca aprenderemos, certo.

Por isso respirem fundo, mamãs, e deixem-nos assumir o risco. Vão ver que, com o tempo, nos tornaremos nuns verdadeiros especialistas!

2 – Mudar a fralda.

Aí está uma coisa que nunca percebi: porque é que tem que ser sempre a mãe a chegar-se à frente na hora de mudar a fralda à criança? Quando nascem, a desculpa é porque são muito pequeninos. E porque nós, homens, somos uns brutos e podemos magoá-los (já ouvi isto muitas vezes, acreditem). Mais para a frente, tudo serve de razão para o Pai se descartar. Ora é porque está a dar a bola ou um “filme” qualquer, ora é porque a Mãe “tem mais jeito para isso” ou porque “limpa melhor” o rabinho do bebé.

Verdade seja dita, a verdadeira razão para um Pai assobiar perante o vislumbre da mal cheirosa tarefa é a preguiça. Porque custa levantar o rabo do sofá depois de um dia de trabalho. E assim se perde a oportunidade de criar um momento divertido a dois. E de criar vínculo.

 3 – Cozinhar.

Porque é que pôr as mãos na massa (literalmente) continua a ser, na maior parte das famílias, um (quase) exclusivo das mães? Porque é que ainda há tanta resistência do Pai em preparar uma refeição para os filhos? Se ambos trabalham, porque é que tem que ser sempre a Mãe a chegar a casa (cansada) e a tratar do assunto?

Vá lá homens, estamos em 2017! Sejam evoluídos e dividam (também) esta tarefa. Cá em casa é um prazer que não dispenso. E os miúdos agradecem. Às vezes até já me chamam chef. E soa tão bem ?

4 – Preparar o lanche para a escola.

Não fosse a Mãe a lembrar-se de colocar na mochila o pacote de leite ou o sumo, a sandes ou a fruta para o dia seguinte, e a maioria das crianças morreria de fome na escola.

Os pais (homens) que conheço nem se lembram desta tarefa diária. E antes que sejam chamados à atenção, disparam a frase: “amor, preparas o lanche da escola dos miúdos?”. Vá lá, deixem-se disso e cheguem-se à frente!

5 – Ir às consultas.

Uma chatice. É assim que muitos pais (homens) encaram uma ida com os filhos ao médico. E evitam pôr os pés nas consultas, não porque não possam mas porque acham que deve ser “território” das mães.

“Elas é que fixam tudo o que os médicos dizem, nós não vamos ali fazer nada…”, já ouvi de um Pai. Nada mais errado. Acompanhar o crescimento das crianças também é isto, e nem tudo são rosas, ok?

6 – Ir às reuniões e eventos escolares

São manhãs ou tardes “perdidas”, acham alguns pais (homens) que conheço. Outros, percebe-se a seca que estão a apanhar pelo sorriso amarelo quando lá aparecem.

Delegar sempre na Mãe essa responsabilidade é demitirmo-nos de educar. E são oportunidades perdidas para reforçar o vínculo.

7 – Pedir guarda partilhada ou conjunta

Deixei a mais polémica para o fim. Apesar de me parecer que o paradigma começa a mudar, ainda há muito por fazer.

Porque é que a maioria dos homens que se separam (dizem-me amigos juristas, mas corrijam-me se estiver errado) continua a contentar-se em ver os filhos de 15 em 15 dias? É assim que querem criar uma boa relação com eles? E que espécie de adultos estarão a criar?

Desculpem o sermão, mas às vezes é preciso ler… para crer. Ou querer!

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Finalmente chegou o dia da reunião de família. Fazemos sempre uma, quando temos um assunto importante a tratar ou simplesmente quando nos apetece falar em modo reunião de condomínio catita e votar em qualquer coisa.

Esta era uma reunião fabulosa-especial, era a reunião onde iriam ser definidas as regras para ser feliz.

Durante uma semana, cada membro da família tirando o gato, tinha de pensar em duas regras importantes para a felicidade e bem-estar da nossa família. Estas seriam depois apresentadas e votadas na reunião pelos restantes membros. Após a reunião, seriam afixadas com lugar de destaque no frigorífico as “Regras da Casa Catita”.

O pequeno catita, em grande euforia, apresentava as suas duas propostas a serem votadas.

Regra número 1

“Número 1: Não nos podemos magoar uns aos outros, no corpo nem no coração.” 

Fiquei um bocado atrapalhada-feliz com aquela primeira regra, ao pé das minhas a dele era muito mais madura e profunda. Tinha tantos níveis implícitos do que tentamos, apesar dos mais variados trambolhões, respeitar nele e em nós… Tinha empatia, cuidado com o outro, noção de que o coração se magoa tanto ou mais do que o corpo… Pensei que em vez de regra da casa, devia era ser regra do Mundo.

Sem qualquer tipo de dúvida, a regra número 1 foi aprovada por unanimidade!

Regra número 2

“Número 2” gritava entusiasmado “Respeitar o tempo e o trabalho de cada um.” Ora bem, quem és tu e onde está o meu filho?! Os miúdos têm esta característica fabulosa de nos surpreender. Desde sempre que lhe explico como é importante termos o nosso tempo, darmos tempo e respeitarmos os outros no que estão a fazer. Refiro a importância de passarmos tempo sozinhos, de estarmos na nossa própria companhia e de fazermos o que nos entusiasma para carregar a nossa pilha interior. Ele parecia não ouvir NADA do que lhe estava a dizer. E do nada, vem a regra número 2 cheia de respeito e consideração pelo outro. Foi neste momento, que pensei em dizer que o gato tinha comido o meu TPC das regras.

Regra número 3

Seguiu-se o pai catita com a regra número 3 “Todos os dias, passar 20 minutos em família.” Não temos todo o tempo do mundo, mas temos aqueles 20 minutos. Até podem ser passados no carro parados no trânsito a fazer coreografias idiotas com as músicas que estão a dar na rádio. Ou a dobrar os lençóis da cama, enquanto o pequeno catita mergulha animado por baixo deles. São 20 minutos em que estamos lá todos, juntos. Totalmente presentes.

Regra número 4

Regra número 4 “Não podemos ir dormir chateados uns com os outros”. Esta regra foi a única que definimos quando eu e o pai catita começámos a viver juntos. Nos dias em que ainda estávamos chateados na hora de dormir era MUITO incómoda, mas é tão importante para os sentimentos e pensamentos enrolados não crescerem dentro de nós como ervas daninhas que nos separam um do outro. É uma espécie de restart do computador, em vez de levar a noite toda com um murro no estômago e vontade de morder em alguém. Antes de dormir, tínhamos de falar e resolver a situação. Ou pelo menos dar o primeiro passo, ou o primeiro abraço.

Regra número 5

Já eram quatro as regras aprovadas em família. A regra 5, surge de uma antiga e acarinhada tradição cá de casa. “Fazer uma refeição na mesa e uma no sofá, sempre juntos.” Ora na mesa, ora acampados no sofá com tabuleiros. É a nossa versão de pic-nic na sala. O importante é estarmos todos JUNTOS e a conversar!

Regra número 6

Regra número 6 “Contar sempre as coisas como elas aconteceram” . O ano passado, percebi que o pequeno catita não me contava filme todo. Usava uma versão trailer dos acontecimentos com os ingredientes que achava pertinentes e úteis para a sua versão. Para o ajudar a ser mais claro na sua comunicação e versão dos factos, inventei o jogo Contar as coisas como elas aconteceram”, que vai trabalhando de uma forma divertida o primeiro passo da comunicação não-violenta, a observação sem julgamento. Olhar com olhos de polícia para os acontecimentos, e apenas referir o que foi visto e ouvido. Para além do ajudar a ser mais objectivo e verdadeiro, trabalha a naturalidade de nos contar o que se passa na vida dele, criando e fortalecendo o canal de comunicação. Esta regra estendia-se agora a toda a família, por isso os “tu nunca lavas a loiça” e “chegas sempre atrasado/a” iriam ser substituídos por observações neutras que promovem o diálogo e não o ping-pong de acusações.

A reunião acabou e todos se sentiam entusiasmados com as novas regras. Nos dias seguintes, perante alguma situação menos consciente, o pequeno catita referia que cá em casa cumprimos as regras, e apontava para o frigorífico.

Sabes, quando as crianças se sentem parte do processo a sua vontade de colaborar é gigantesca porque sentem-se vistos, reconhecidos e ouvidos. Sabem que contam, e que nós também contamos com eles e com os seus pequenos dedinhos para nos apontarem o caminho para as regras mais importantes, as regras que nos fazem felizes.

Todos os pais querem dar a melhor educação aos seus filhos. Mas não existem receitas mágicas para criar melhores adultos. Errar é humano e não há pais perfeitos. Nem é possível evitar que, em algumas ocasiões, lhes saia da boca frases menos felizes, que podem ter um impacto negativo no seu desenvolvimento.

Muitas vezes caímos na tentação de dizer frases feitas, algumas até que ouvimos também em crianças. E que, sem nos apercebermos, desmotivam, afectam a autoestima e dificultar a relação pais-filhos. Mas não se martirize. Afinal, quem nunca se deixou vencer pelo cansaço depois de um dia de trabalho? Quem nunca desesperou com as tarefas que ainda o/a esperam em casa ou com “aquela” birra que “parece mesmo de propósito”?

“Somos humanos e é normal que cometamos erros. O importante é saber pedir desculpa, algo que custa a muitos pais. Além disso, se o fazemos, estamos a dar-lhes um grande exemplo”, explicou ao jornal El Mundo María Rueda, uma reputada psicóloga espanhola.

“Não se trata de nos retratarmos, nem tão pouco devemos compensá-los com carinho e palavras bonitas. O que fizeram é errado e devemos explicar-lhes para que aprendam a tomar melhores decisões da próxima vez. Além disso, devem saber que as suas acções têm consequências”, sublinhou ainda. Em suma: é preciso corrigir comportamentos, mas sempre de um ponto de vista construtivo e empático.

Para os especialistas, estas são as frases que qualquer pai deve evitar na comunicação com os filhos:

 1. “Se não fizeres o que te mando, ficas de castigo”

As ameaças utilizam o medo e podem afectar a confiança que as crianças depositam nos pais. Para além disso, “com o nosso exemplo, estamos a ensinar-lhes que para conseguir o que querem é legítimo fazê-lo através da intimidação”, diz Rueda.

2. “Se te portares bem, compro-te…”

Por vezes, os pais utilizam este estilo de comunicação para fazer com as crianças uma espécie de chantagem emocional. Desta forma, corre o risco de que ela não aprenda o porquê de ter que fazer o que lhe pedem, mas sim que o faz para obter um determinado fim.

3. “Não tens vergonha de te portares assim?”

Tal como a expressão anterior, que promove a culpa, esta fomenta a vergonha. Alguns pais impõe a disciplina desta maneira, principalmente diante de outras pessoas, “mas é melhor evitar as críticas que não sejam construtivas ou apenas conseguirá humilhá-los e minar a sua autoestima”, argumenta Rueda.

4. “Fazes o que te mando porque eu digo e pronto!”

Nós, adultos, tendemos a pensar que somos donos da verdade absoluta, se o nosso interlocutor é uma criança. E quando a discussão chega a um ponto em que já estamos cansados de argumentar, recorremos a esta frase para a dar como terminadas. Mas ser imperativo por ser imperativo só vai minar a relação pai-filho se não lhes explica porque devem fazer o que lhes é pedido.

5. “Vais enlouquecer-me!”

“Utilizar a culpa para motivar o seu filho não é o melhor método para mudar o seu comportamento. Além disso, pode gerar impacto negativo na sua relação com eles”, afirma Rueda. “Estamos a transmitir-lhes a ideia de que os nossos problemas são culpa deles, e isso pode gerar uma grande ansiedade“, acrescenta Inma Marín, consultora pedagógica e presidente em Espanha da Associação Internacional pelo Direito das Crianças a Julgar.

6. “Não chores, não é razão para tanto”

“Muitas vezes tendemos a sub-valorizar os sentimentos dos nossos filhos. Podem ter guerreado com um amigo na escola e isso para nós não tem importância, mas para eles tem e não devemos desvalorizar”, considera Marín. “Também é habitual usar a frase com a intenção daquilo que os magoa para que se sintam melhor, mas essa não é a maneira mais adequada de os ajudar. É melhor ajudá-los e consolá-los, para que saibam que quando lhes acontecer algo mau, os pais os entenderão e estarão ali para eles”, prossegue.

7. “Deixa estar que eu faço”

A mensagem que passa quando utiliza esta expressão é clara: “Não vais ser capaz de fazê-lo”. E se os pais acreditam nisso, a criança também acreditará, chegando à seguinte conclusão: “Para que é que me vou esforçar da próxima vez?”.

Ao actuarmos assim, estamos também a impedir que aprendam por si mesmos, tornando-os pessoas dependentes e inseguras.

8. “Não fazes nada bem”…

… ou “não sei quando vais aprender” são outros exemplos de frases pouco construtivas, já que “não valorizam o esforço, mas o resultado obtido”, assegura Marín. A evitar!

9. “Estou farta/o de ti”

Quando usa esta expressão, numa situação limite, não tem certamente a intenção de ferir os sentimentos do seu filho, mas é preciso estar ciente das possíveis consequências de um comentário destes. Pode fazer com que ele acredite que é algo que sente realmente, não só naquele momento mas sempre, e provocar um impacto negativo. “O amor de um pai por um filho é incondicional, e isso é algo que devemos mostrar-lhes a todo o momento”, afirma Marín.

10. “És má/mau”

“É um erro dizer isto a um filho, porque este poderá pensar: ‘Ok, sou assim e não posso fazer nada para mudar’”, explica Rueda. Os especialistas aconselham a ser preciso na hora de lhes explicar o que é que fizeram mal e a censurar as suas acções. “Em vez de lhes dizermos que são maus, é melhor centrar a atenção no que podem mudar para conseguir um resultado mais positivo. É mais construtivo usar outras expressões como: ‘Não gosto quando fazes…’ para explicar-lhes porque é que o seu comportamento não é aceitável e oferecer-lhes alternativas.

11. “És preguiçosa/o e não vais ser ninguém na vida”

As notas escolares são um dos principais focos de conflito entre pais e filhos adolescentes. Os primeiros querem que os segundos percebam que, se não estudarem, não terão um futuro risonho e que se arrependerão das decisões erradas que tomaram. Mas em vez de provocar neles uma reacção positiva, este tipo de frases danificam a relação entre pai e filho, provocando nos jovens uma sensação de frustração e desinteresse.

12. “Aprende com o teu irmão”

Cuidado com as comparações! É muito fácil cair nelas quando se tem mais do que um filho. Mas há que ter cuidado, porque “geram rivalidades na família e são muito prejudiciais a longo prazo”, alerta Rueda. A criança verá o irmão como modelo que nunca conseguirá alcançar e isso afectará a sua autoestima, por considerar que os pais gostariam que fosse diferente.

O poder de ser desobediente

Confesso, tenho 39 anos e sou desobediente. Quando estou na fila do supermercado e vejo alguém com uma única compra na mão, deixo passar à minha frente. Às vezes até deixo passar só porque está com um ar cansado ou apressado. Quando coloco moedas no parquímetro e me sobra mais de 30 minutos de estacionamento, ofereço o talão a um estranho. Depois há os dias em que está friooooo e como não tenho nada para fazer, fico de pijama o dia TODO, a rebolar de um lado para o outro. Às vezes como comida com a mão, mesmo que não esteja na Índia, sabe ainda melhor se estiver sentada no sofá a ver qualquer coisa catita.

Não consigo seguir receitas, invento todos os pratos que cozinho, para grande alegria e tristeza do meu marido, porque nunca consigo repetir nenhum sucesso culinário. Preciso de saber o porquê de tudo, e questiono sempre quando me dizem para fazer alguma coisa que sinto que não quero fazer.

Ser obediente não é aquela característica fabulosa que todos pensam. Às vezes, ser desobediente pode salvar-te a vida. Como quando és adolescente e tens um macho alfa a dizer-te para fazeres algo profundamente idiota. Ou quando tens um chefe sem escrúpulos que quer que faças algo ilegal.

Ah! Então agora era a anarquia e cada um fazia o que queria? Claro que há regras que devem ser seguidas, regras de segurança e sociais, mas não é dessas que estamos aqui a falar.

Ao contrário do que muitos pensam, as crianças querem naturalmente colaborar com os pais. Querem sentir-se vistas, amadas e reconhecidas. O seu comportamento é apenas uma manifestação do que se passa dentro delas. Também tu quando te sentes mal, te portas mal. Se olhares com atenção vais ver MUITOS adultos durante o dia de hoje a fazer grandes birras, basta ires a uma repartição de Finanças ou passar alguns minutos no trânsito.

Se o comportamento do teu filho te mostra que algo não está bem, investiga. Descobre o que se passa com ele, o que ele te está a tentar comunicar. Investiga também o que se passa contigo, o que TU estás verdadeiramente a precisar. Se apenas mudas o seu comportamento, sem tentar compreender a necessidade que não está a ser preenchida, vais para sempre fechar um importante canal de comunicação.

Investiga, também, quais são os teus limites, e como os estás a comunicar.

A obediência consegue-se, com meia dúzia de técnicas, meia dúzia de recompensas, castigos, ou 7 minutos a pensar no cantinho da vergonha. Mas senta-te lá tu. Senta-te e sente o que vai dentro de ti quando tens 7 minutos para pensar como és uma “má” pessoa. Sente o que aprendes. Ouve a voz crítica que começa a crescer como uma erva daninha dentro de ti, a raiva que te arranha a garganta, e a tristeza que te salta em cascata dos olhos. Sente como algo se quebra em ti. Ali sentado, calculo que tenhas vontade de obedecer, mas a que custo… Ao teu custo.

Há uma outra forma. A construção da relação entre pais e filhos. Não é rápida, tal como não o é nada que valha mesmo a pena. Não é apenas pintar a fachada de uma casa a cair, é construir fundações, estruturas fortes, olhar com compaixão para tudo o que precisa mudar, e ter a coragem para o fazer. É uma mudança de dentro para fora. Uma mudança que faz toda a diferença num mundo que precisa de pessoas que pensem com todo o coração e não que sigam apenas ordens cegamente.

Sê o exemplo que queres ver crescer no teu filho. Se valorizas a generosidade, sê generoso. Se valorizas a comunicação, a colaboração, a simpatia, a ordem, a organização, é só viveres isso no teu dia a dia.

E sabes porque isso é fantástico? Porque as crianças aprendem pelo exemplo e não pelas palavras que são gritadas. Porque quanto mais de te conheces, aceitas e és coerente com o que vai dentro de ti mais reconstróis a tua autoestima. E sabes o que um pai que constrói, dia a dia, uma autoestima saudável faz a um filho? Inspira-o a fazer o mesmo. É super, não é?

Publicado originalmente em Mãe Catita

O Castigo e a consequência. Como estamos a educar as crianças?

“Qual é a diferença entre o castigo e a consequência ”, perguntou-me uma mãe, preocupada com a forma como está a educar os filhos. A fronteira entre o castigo e a consequência é ténue, por isso é natural a dúvida.

Castigamos com a intenção de mudar o comportamento da criança, para que passe a agir como queremos, e para a punir, para fazer com que “pague” pelo que fez, fazendo-a sentir vergonha, dor e/ou culpa.

O castigo não tem relação, um nexo de causalidade, com a ação, no fundo não é mais do que uma consequência… disfarçada. Por exemplo, quando mandamos a criança para o quarto ou lhe dizemos que já não vai à festa porque se portou “mal”, estamos simplesmente a agir de forma autoritária e punitiva, sem que haja uma relação entre o ato e o castigo.

Já as consequências estão diretamente relacionadas com o ato em si, são uma decorrência lógica dele, há um nexo de causalidade entre o ato e o resultado. Por exemplo: se a criança deixou cair a comida ao chão, a consequência lógica é limpar, (o que até pode acontecer com a ajuda dos pais, dependendo da idade); se não fez os trabalhos de casa na hora combinada, a consequência lógica poderá ser ter de os fazer na hora em que iria ver TV; se partir algo a consequência poderá ser ter de a consertar (dependendo da idade) e se bater no irmão a consequência poderá ser pedir-lhe desculpa…

Ao contrário do castigo, que apenas funciona a curto prazo (porque põe fim ao “mau” comportamento no imediato) mas tem consequências negativas no longo prazo, as consequências lógicas (que não devem nunca pôr em causa a segurança dos mais pequenos!) permitem ensinar às crianças a lidarem com o resultado do seu comportamento, de forma a que desenvolvam responsabilidade (algo que não acontece com o castigo, que apenas cria medo e rebeldia). Às vezes a diferença está, também, no mero tom de voz…

Curiosamente, a Disciplina Positiva apenas sugere a aplicação de consequências lógicas como um dos últimos recursos. Procurar a razão por detrás do comportamento, para depois atuar de forma positiva (com firmeza e carinho ao mesmo tempo), apelar à cooperação envolvendo-as em atividades úteis, passar tempo de qualidade com elas, estimular a responsabilidade, a autonomia e a auto-estima, por exemplo, são “ferramentas” mais úteis e efetivas

Perde a cabeça durante uma birra? A culpa é do seu cérebro

A caminho do metro cruzei-me com uma mãe que ralhava com o filho de 8 ou 9 anos. “Não voltas a falar assim, ouviste?”, ameaçou, fora de si. E antes que o menino dissesse alguma coisa, levou uma chapada na cara.

Segui viagem mas fiquei a pensar naquilo. Em como poderia aquela mãe ter (re)agido caso tivesse conseguido acalmar-se primeiro e voltado a reintegrar-se, acedendo à parte “racional” do cérebro. Parte “racional”? Sim…

E se eu lhe disser que a “culpa” das suas reações ao “mau” comportamento das crianças é, em primeiro lugar, do seu cérebro?

Perder a cabeça

O que é que acontece quando teve um dia complicado, em que discutiu com o colega do lado, levou uma reprimenda do chefe, não dormiu o suficiente ou, simplesmente, está cansada/o? E em que, para além disso, chegou a casa e os seus filhos fazem uma birra daquelas…? Perde a cabeça. Salta-lhe a tampa.

Isto acontece porque, nos momentos de tensão, não consegue aceder à parte “racional” do seu cérebro: o cortex pré-frontal. Que é a área que regula as emoções, as suas relações com os outros, a flexibilidade de resposta às situações, a moral e intuição, a forma como apreende o que a/o rodeia e a consciência de si mesma/o. Ao não ter a capacidade de regular tudo isto, nem sequer se dará conta do quanto está a ser desrazoável com os seus filhos.

Quando chega a casa naquele estado, o que é que se vai passar com os seus filhos? Que também podem ter tido um dia cansativo, como o seu. Entrarão em choque consigo, claro. Isto porque têm neurónios espelho, como todos nós. E refletem o que veem.

Essencial manter a calma!

E se em vez de reagir de forma intempestiva, conseguisse manter a calma? De que forma (re)agiria? E que atitude acha seria mais provável ver no seu filho?

Pense nisto: o que a/o ajuda a acalmar-se? O que pode fazer para se tranquilizar? Contar até 10? Ir à casa de banho? E por que não sair de cena durante uma birra, por exemplo?

Entender o que passa connosco quando nos tiram do sério, é meio caminho andado para melhorarmos a relação com os nossos filhos. E com os outros.

Ter a capacidade para se tranquilizar antes de (re)agir significa voltar a integrar-se. E permitir que o cérebro “funcione” novamente. Sei que nem sempre é fácil, mas é algo que pode treinar-se.

A ideia não é que não volte a perder a cabeça, porque isso é impossível. Todos continuaremos a fazê-lo. O desafio é darmo-nos conta do que está a acontecer, e de forma mais rápida, para depois atuarmos com firmeza e respeito ao mesmo tempo. São estes os conceitos-chave da Disciplina Positiva.

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Adultos desatentos precisam de crianças atentas

Estava presente para o meu filho. Estava fisicamente presente, por isso estava presente. Chegava a casa e satisfazia as suas necessidades básicas. Significava que estava presente: atenta. Pensava eu.

Mas hoje sei que, na verdade, não estava presente, não estava atenta. Estava em casa, sim. O meu corpo realmente estava em casa mas a minha cabeça, o meu sentir, vagueava por outros lugares: o trabalho, os objetivos, as metas, as contas para pagar, a barriga gorda, os comentários dos outros e por ai fora. Encontrava-me entre os problemas do passado e as antecipações de cenários dantescos do futuro. Mas a verdade é que não estava em casa. Não estava ali, presente, inteira. Não olhava para os seus olhos, não conhecia os sinais o seu corpo, não me espantava com as suas conquistas, não me apercebia dos seus pedidos de ajuda. Estava desatenta. Não sabia quem era o meu filho. Não conseguia ver o que verdadeiramente importava. Só lhe dava ordens e lhe dizia como devia ser e fazer.

Um dia o meu filho mostrou-me um desenho e eu, de forma automática, disse – lhe “que bonito!”. E ele, muito dececionado, respondeu: “mãe, são só riscos!”. Acho que tive tipo uma mini epifania nesse momento porque ainda me lembro disto hoje. Tocou-me profundamente.

No infantário começaram os alertas que se prolongaram até à escola: o seu filho é muito agitado, impulsivo, ansioso, desatento. Fiquei fora de mim. O meu filho não podia ser assim. Não podia! Irritava-me tanto. Ficava fora de mim. “Tens estar mais quieto, atento, calmo!”.

A mãe desatenta precisava de um filho atento. À força! Sim, ele tinha de estar quieto, ser bem comportado e ter bom desempenho escolar. Ele tinha de mostrar que eu era a mãe perfeita e extremosa. (“O que os outros iam pensar?”). Mas não: ele mostrava o contrário. A minha autoestima ficou um caos. Mesmo. Mas a culpa não era minha, não, nem pensar, a culpa era dele. Especialistas, despistes, correrias.

Comecei a procurar fora uma resposta mas nenhuma me satisfazia por completo. Algo começou a corroer-me. Comecei a sentir que podia fazer algo mais do que simplesmente culpá-lo ou deixar o trabalho para as mãos de outros. Não ia abandonar a ajuda dos especialistas, é certo, mas senti que tinha de começar pelo princípio (que é como quem diz: olhar para mim).

Mas custava tanto…

No entanto procurei ajuda e assim comecei a desenrolar o novelo. E perguntas inconvenientes começaram a aparecer. Onde teria estado nos seus primeiros anos de vida? E como estava emocionalmente? Numa espiral de ansiedade, medo, culpa, irritação.

Até que percebi. Mãe Desatenta Precisava de Filho Atento. Aqui entre nós, que grande incongruência não é?

A criança precisa de alguém que a veja, que a ouça, que a reconheça, que esteja verdadeiramente presente! Que se ligue a ela. E assim sente-se segura e coopera. E assim sente-se vista, fica atenta e aprende. Esta foi a minha história. Esta é a história dos pais que acompanho.

Quando finalmente parei, despertei! Eu não estava atenta, eu não estava presente. Eu pensava que estava mas não estava. Eu estava em luta. O sofrimento tinha-se tornado a minha zona de conforto e eu pensava que a única saída que tinha era ficar por lá. Mas não. Existe outra: dá mais trabalho, é certo, mas é uma oportunidade maravilhosa. Uma oportunidade para nos voltarmos a encontrar.

Acredito que o primeiro passo para as crianças estarem atentas é olharmos para nós: que exemplo estamos a dar?. E às vezes até podemos estar a fazer tudo para ajudar os nossos filhos, mas mesmo essa ocupação de fazer tudo pelos nossos filhos, também nos leva a ficar desatentos, ou seja, andamos tão ocupados em ajudar, desvendar, resolver, fazer alguma coisa, que nos esquecemos de simplesmente ESTAR com eles de forma inteira, plena. Andamos em modo “Fazer” e esquecemo-nos de “Estar”.

Há algo que não nos podemos esquecer: comportamento gera comportamento, atenção gera atenção, desatenção gera desatenção.

E agora vamos para a escola, outro sistema importante que a criança frequenta. Vamos dar um passeio à escola. Ouve-se que as crianças estão desatentas, agitadas, mais violentas. É um facto. A questão é: o que é que estamos fazer para que elas aprendam a ser atentas, calmas, empáticas? Gritos, castigos, irritação, violência, cansaço são as palavras que se ouvem por parte dos que frequentam este ambiente. E atenção: a minha intenção não é culpar ninguém, acredito que todos estão a fazer o seu melhor que podem com os recursos que têm, mas a verdade é que, de uma forma geral, os adultos que por ali andam estão emocionalmente debilitados: esgotados, cansados, frustrados. Estão a precisar de ajuda! Estão todos a precisar de ajuda! A nossa forma de estar reflete-se nas crianças.

Esqueçamo-nos da guerra de quem tem culpa. Isso só nos desvia do que é realmente IMPORTANTE: o olhar para nós. Cada um de nós pode fazer diferença, cada um de nós terá a sua quota de responsabilidade. Na verdade estamos todos no mesmo barco, pais e filhos, professores e alunos: todos queremos ser vistos, ouvidos, reconhecidos, amados, olhados com Atenção. Certo?

Eu exigia ao meu filho atenção mas vivia desatenta. Acredito num caminho mais consciente para responder à desatenção e do que daí advém, como por exemplo, a chamada “má educação”. Se sempre consigo? Não, não consigo por isso continuo no caminho de reeducar-me para ser uma pessoa, mãe, mulher mais inteira e presente.

Não podemos exigir às crianças aquilo que não somos, simplesmente por uma razão, que apesar de óbvia nos esquecemos muito facilmente: Educamos Por Aquilo que Somos! Pelo exemplo!

O que estarão as crianças desatentas a precisar?

Crianças Desatentas precisam de Adultos Atentos.

Vamos olhar para nós sem julgamentos mas com verdade? À primeira vista pode até surgir o medo mas, acreditem, é tão libertador …

 

Por Carla Patrocínio do Blog Meus filhos meus mestres, visite a página do Facebook da especialista em Parentalidade Consciente

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