A pressão para ter filhos existe e temos de falar sobre isso

Durante o nosso crescimento existem vários marcos, etapas que é esperado que alcancemos, ainda que sejamos todos tão diferentes uns dos outros.

Crescemos a ouvir a pergunta da praxe “como é que vai a escola”, sejamos bons ou maus alunos. Perguntam-nos o que queremos ser quando formos grandes só por curiosidade, tantas vezes sem haver um interesse grande no assunto, porque raras vezes essa pergunta é seguida de um “e porquê?”. Depois vem “que área vais seguir” e mais tarde o “qual o curso que vais tirar”, como se não houvesse vida para quem não quer tirar um curso ou simplesmente não faça a mais pálida ideia do que vai fazer dali a uns meses, ainda que seja das decisões mais marcantes da sua vida.

“Já tens namorados” ou “Quando arranjas um namorado?”. Se formos rapazes há tendência para se ouvir um “és muito novo para namorar tão a sério”, se formos raparigas infelizmente começam a vislumbrar-se perguntas sobre /vestidos de noiva. E depois sobre filhos. O primeiro. Se já tivermos feito check nessa caixinha, sobre o segundo e por aí fora, porque as pessoas nunca se dão por satisfeitas.

E as pessoas que nos fazem estas perguntas tão íntimas sobre a nossa vida são de um espectro vastíssimo que vai desde a nossa avó à senhora que sobe connosco no elevador uma vez por ano.

Entendo que exista curiosidade, carinho, preocupação, expectativas. Entendo mas acho que na maior parte dos casos devemos parar para pensar antes de perguntar porque não fazemos a menor ideia do que se passa do outro lado – mesmo quando são pessoas de família às vezes estão às escuras porque há coisas difíceis de partilhar, de tão íntimas e sofridas que são.

Falo-vos de um casal amigo que estava junto desde a escola secundária, casados há três anos. À volta estava toda a gente a começar a ter o primeiro filho. Lembro-me como se fosse ontem, estava eu grávida da Mariana, num jantar de aniversário de um amigo em comum e foram três pessoas que lhes perguntaram sobre quando iam eles ter filhos. A resposta foi a educada, “estamos a trabalhar nisso”. Meses mais tardes separaram-se e viemos a saber que estavam a tentar há três anos sem sucesso. Que essa luta diária trouxe para dentro de casa um stress, desilusão e culpa tão grande que o amor acabou por não ser suficiente. No caso deles havia uma razão médica para a gravidez não acontecer.

Noutro casal amigo, em vias de separação, era constante a pergunta de quando viria o segundo filho. Ninguém sonhava que estavam a atravessar uma crise e que por isso o segundo filho estava longe do horizonte.

Noutro ainda o facto de o pai querer mais um filho e a mãe não sentir que era esse o caminho também não transparecia, mas a pressão externa pouco ajudou.

E depois há simplesmente as pessoas que não querem ter filhos.

As que não querem pensar nisso para já.

As que querem mas não podem. Porque financeiramente não seria viável ou porque as suas vidas não lhes permitem ter a família que gostariam.

É por isso que nunca faço esta pergunta aos meus amigos, mesmo aos mais próximos. Porque eu posso conhecê-los bem mas não sei tudo, nem é suposto saber. Como amigos devo criar um ambiente de confiança e tocar no assunto, eventualmente falando da minha própria experiência, e deixar espaço para que se a outra pessoa quiser falar o possa fazer. Sem pressões.

Fazemo-lo com boas intenções mas há momentos em que uma simples pergunta pode provocar uma tempestade. Dentro da pessoa, dentro da sua casa.

E que temos nós a ver com o desejo de uma pessoa ter filhos, se casa ou não casa, se descasa, se compra carro ou vai a pé? Se for apenas companheirismo e preocupação, então que a façamos chegar em forma de amor e não de interrogatório.

Empatia. Pormo-nos no lugar do outro. Lembrar-nos de quando nos fizeram perguntas que preferíamos não ter tido de responder.

Ser amigos, filhos, pais, sogros, padrinhos, sem pressões.

Só amor.

Pode parecer difícil mas é mais fácil do que parece.

Gerir o divórcio com filhos: dicas para pais preocupados

Seja qual for a idade dos filhos, todos sofrem de alguma forma com o divórcio. Poderá ser no momento da separação ou uns anos mais tarde.

Apesar de todos os desencontros que a vida possa trazer, havendo filhos o divórcio deve ser sempre gerido em torno deles. Assim, seguem alguns conselhos/dicas para todos os pais preocupados:

1 – Comunicação – Fortalecer o diálogo

Os filhos devem ser informados do que se está a passar. Afinal, serão eles os principais afetados de todo o processo. Inevitavelmente um dos pais passará a estar mais ausente (nem que seja de forma alternada). Os filhos devem entender que a culpa não é sua e que os pais não passam a gostar menos deles por não estarem a viver sempre debaixo do mesmo teto;

2 – Os filhos em primeiro lugar: redobrar a atenção

Independentemente de todas as alterações, seja na morada, seja uma nova companheira do pai ou companheiro da mãe, sejam irmãos, o filho deve sempre sentir que é amado e que não foi esquecido na vida dos pais;

3 – Evitar discussões e ambientes de tensão

É importante que todos se dêem bem! – Apesar do que possa ter acontecido e da mágoa que possa ter trazido, há alguém que é fruto de um amor que já existiu e que com certeza quererá que os pais consigam ter uma relação cordial e que estejam presentes nas suas ocasiões especiais, sem rancores ou mau ambiente;

4 – Sintonia na educação

É importante que todos estejam em sintonia com a educação e decisões dos seus filhos. Os assuntos devem ser discutidos em particular para apresentar uma força unida, de forma a não confundir os filhos e não criar situações em que se possa ouvir a frase “se fosse o pai/mãe deixava”.

O divórcio é uma mudança na vida dos pais, das famílias e dos filhos. É necessário explicar-lhes que a culpa não é deles e que são igualmente amados pelos dois.

Não se deve esquecer: o divórcio é muitas vezes a rutura necessária para a construção de uma estrutura mais firme no futuro.

 

Por Catarina Marques Lobo, Assistente Social

Somos fruto de uma soma, não de divisão

Acredito que todos temos um propósito, que viemos ao mundo – seja por quanto tempo for – para o transformar de alguma forma.

Há quem passe uma vida inteira sem perceber qual o sentido de andar por cá, sem por isso se aperceber que provavelmente está a ensinar a alguém lições valiosas.

Somos a soma do amor que em nós foi depositado, dos planos que foram feitos, mesmo quando não fomos planeados ou “desejados”.

Somos a soma das nossas experiências, das nossas escolhas, das pessoas que tivemos e temos à nossa volta.

Somos para os nossos filhos muitas vezes mais do que os nossos pais foram para nós e, outras tantas, menos.

Ensinamos como sabemos, às vezes sem saber ensinar.

Lamentamos coisas erradas, agarramo-nos a sentimentos e por vezes a coisas. Deixamo-nos ir abaixo, erguemo-nos e caminhamos, mancos ou com energia, conforme a vida e o destino nos deixam.

Cometemos os mesmos erros repetidamente, conseguimos inclusivamente saber antecipadamente que o vamos fazer e gostaríamos de o poder evitar. Noutras alturas evitamos esses erros e sentimos alguma glória nessa conquista, que nos enriquece.

Fraquejamos, rimos, choramos. Muitas vezes sozinhos.

O nosso caminho é solitário, mesmo quando temos uma família grande, quando estamos rodeados de amigos e temos filhos, um, dois ou cinco. Porque o nosso caminho é feito pelas nossas pernas e os “pesos” que carregamos por vezes fazem-nos demorar mais um pouco em alguns lugares, outras vezes permitem-nos ficar onde somos esperados. Mas o nosso caminho só pode ser feito por nós.

Temos a responsabilidade de deixar aos nossos filhos algumas respostas que os nossos pais não nos deram.

Temos a responsabilidade de, à nossa maneira, deixar o mundo diferente do que o encontrámos, preferencialmente melhor.

Temos a responsabilidade mas também temos as recompensas, se as soubermos identificar, se com elas conseguirmos sorrir e agradecer.

Às vezes esquecemo-nos de valorizar as pequenas conquistas do nosso dia a dia.

De agradecer o que de bom temos, mesmo que seja muito pouco. Porque por mínimo que seja, está lá e faz de nós humanos. Faz de nós pais que querem o melhor para os seus filhos e eles só serão seres humanos melhores que nós se lhes mostrarmos o caminho.

Em muitos casos isso não será suficiente.

Haverá filhos que não deixarão os seus pais orgulhosos.

Haverá filhos que terão caminhos que são um “retrocesso” em comparação com o que foi trilhado pelos pais (e não, não falo de conquistas financeiras, de trabalho, estudos, casas ou número de carros na garagem e carimbos no passaporte).

Haverá filhos que vieram fazer uma viagem diferente da nossa.

Com outro propósito, com outras lições.

Com uma vida aparentemente triste, por vezes.

Mas enquanto mãe, se for esse o meu caso, quero sentir que a vida que trouxe a este mundo tem um significado e o sabe. Que sabe que foi amada e o será para sempre, enquanto viverem as pessoas que cresceram do seu lado.

Que mesmo que o seu percurso não seja tudo aquilo que está escrito nas estrelas ela viveu e não ficou presa às expectativas, aos sonhos alheios, ao que a sociedade esperava que fizesse só para se encaixar no padrão.

No fundo, acho que todos viemos a este mundo com a missão de nos encontrarmos.

E alguns, os mais sortudos de nós, encontram-se uns aos outros no caminho.

E isso já valeu a pena.

Quando nasce um bebé nasce, também,  muito mais do que uma vida.

Há uns dias vi uma imagem algures por aí na net dizia:

Quando nasce um bebé, nasce um coque! ”. Pensando bem, quando nasce um bebé nascem em simultâneo tantas coisas.

Nasce uma família! Todo um mundo de pessoas para conhecer e desejosos de conhecer o novo membro.

Nasce o coque. O tão prático coque, que permite mudar fraldas, pegar e evitar que eles se agarrem aos nossos cabelos.

Nascem nódoas. Um pouco por todo o lado, como se fossem cogumelos. Manchas de leite, de sopas, de fraldas sujas…

Nascem olheiras. Fruto da tão sofredora privação de sono. Do ter que estar acordada a cada 2/3 horas.

Quando nasce um bebé nasce, também, o cansaço. As obrigações são muitas e o descanso é curto, e um enorme cansaço instala-se para ficar.

Nasce um brilho nos olhos. Aquele brilho único de uma mãe que olha para o seu filho. É tão único. Tu sabes.

Nasce um encaixe perfeito. Aquele que costumo dizer: “Não há encaixe mais perfeito do que o de um bebé no colo de sua mãe”

Nascem dúvidas e incerteza. Tão características das mães, tão naturais, tão carinhosas. Afinal, estas dúvidas não são mais do que a busca do melhor para eles.

Nasce um cheiro. Aquele cheirinho que só um bebé tem, e que é tão delicioso.

Nascem novas aventuras todos os dias. Um banho salpicado, um xixi na cama, um primeiro gatinhar, uma primeira palavra, uma queda, um susto, um passeio em família… Uma nova aventura e algo para contar todos os dias.

Quando nasce um bebé nasce, também, uma mulher. Ela não sabe, mas renasce. A mulher é agora mãe, e a mãe é uma outra mulher. Uma mulher capaz de mover o mundo. Um mulher que tem a força de um super-herói e o coração a bater fora do peito.

Quando nasce um bebé nasce uma vida. O bebé! Já pensaram em tudo o que eles ainda vão viver… Tudo o que ainda vai acontecer… Haverá maior “milagre” que este?

Quando nasce um bebé, nasce um amor. O maior de todos. Sem fim, sem medidas. Incontrolável, imensurável. Tão grande e tão forte que dói, que nos faz chorar, e que faz de todas nós mães felizes, todos os dias!

imagem@comfort

Os teus filhos precisam de ti e não do teu dinheiro

Na sociedade de hoje em dia, há a ideia errada de que dar presentes é demonstrativo de amor e afeto. Assim, os gestos genuínos que representam amor e carinho são, muitas vezes, substituídos por presentes e diversas atividades.

Hoje, uma criança feliz é aquela que tem e faz de tudo, desde a natação, ao inglês, ao futebol. As nossas crianças sabem fazer muita coisa, mas têm pouco espaço dentro de suas próprias casas.

Pais demasiado ocupados para estar com os filhos e que, ao mesmo tempo, ocupam excessivamente os filhos, como forma de “suprir” essa falta. Não tentamos culpabilizar os pais, mas sim promover uma reflexão sobre a relação pais e filhos, a qual é muito importante e tem sido deixada, cada vez mais, de lado.

Porque é que os teus filhos precisam de ti

Por mais que uma criança tenha mil e uma atividades, uma conversa, um abraço e essencialmente o nosso tempo, não são dispensáveis nem substituíveis.

Nós, adultos e Pais responsáveis precisamos disso. Precisamos de saber que alguém zela por nós, precisamos de ter um lugar não só para descansar no fim do dia, mas alguém para conversar e partilhar a nossa vida.

Os filhos também precisam deste espaço. A atenção não deve ser apenas de fora, mas também (e principalmente) dos pais. Por isso, encheres o teu filho de presentes não significa necessariamente que ele se vá sentir amado. Presentes e dinheiro para comprar roupas ou ir a festas, ou simplesmente ser um pai-mãe liberal não resume, de todo, as necessidades básicas do teu filho.

Assim como uma relação amorosa não é sustentada por presentes e jantares, também as relações entre pais e filhos têm de ser diariamente regadas. É essencial dar espaço ao diálogo, permitir que os filhos partilhem histórias, medos e angústias que, muitas vezes, ficam retidos pela falta de tempo. A falta de tempo é muitas vezes falta de entrega e de disponibilidade emocional.

Por mais que os nossos filho não manifestem o desejo de se expressar, é preciso estimular estas relações positivamente.

As crianças querem ser ouvidas

A série “13 reasons why” mostra-nos a importância das relações não só no âmbito social, mas também familiar. As crianças e adolescentes precisam de ter um espaço de acolhimento dentro das suas casas. De ter alguém que os defenda em vez de apenas julgá-los e culpabilizá-los.

Vejo muitos adolescentes que têm de “tudo”. Têm o melhor telemóvel, roupa de marca, viajam por todo o mundo, mas  queixam-se de ninguém lhes dar ouvidos. Pessoas que estão angustiadas e não sabem lidar  com o seu sofrimento. Que procuram alguém com quem partilhar e acabam perdidos nesta procura incessante de alguém que os escute, e que acolha as suas angústias.

A culpa não é da família. Muitas vezes, os pais não se apercebem desta necessidade quer seja pela rotina, pela correria, ou por inúmeras razões.

O alerta vem no sentido de nos direcionarmos para estas relações. De nos empenharmos em fortalecer a relação com os filhos enquanto são crianças, não através do dinheiro, de presentes, agrados e permissões, mas através da escuta, do companheirismo e da nossa presença e empenho.

Nada disto supre a falta de um abraço caloroso. Nada paga o colo nem o ombro amigo que lhes permite chorar. Nada anula a nossa presença e o cuidado parental. Afinal, todos nós amamos sentir que alguém zela por nós, os teus filhos precisam de ti.

 

Publicado em ContiOutra, adaptado por Up To Kids®

Pedir desculpa aos filhos não nos rebaixa, eleva-nos.

Há quem diga que as crianças não merecem um pedido de desculpa. De acordo com esta perspectiva, pedir desculpa a uma criança torna-a um pequeno ser maquiavélico que tenderá a abusar e a impor-se sobre os outros; é quase como se levasse à deturpação da inocência e bondade da criança.

Habitualmente quando sinto que preciso de pedir desculpa a alguém tenho de rever internamente a forma como o irei fazer. Possivelmente por ao longo da vida me terem pedido desculpa poucas vezes e ter aprendido que é difícil fazê-lo, este comportamento não ocorre naturalmente. As únicas pessoas com quem tal não se sucede são as que já me pediram desculpa antes, com essas existe abertura e espontaneidade no pedido de perdão – óbvio ou talvez nem por isso.

Quando alguém nos pede desculpa permite-nos conhecer as suas imperfeições e mostra-nos que as reconhece. Tal leva-nos a sentir que todas as nossas características (as boas e as menos boas) também serão aceites, uma vez que não faz sentido o outro exigir mais de nós do que exige de si próprio (se ele percebe que não é perfeito, aceitará que o mesmo se passa connosco). Além disso, o esforço do outro reconhecer atitudes das quais se arrepende dá-nos sinais de valorização e estima em relação a nós, caso contrário pouco se importaria do impacto que o seu comportamento tem.

Por quantas pessoas se sentem verdadeiramente aceites e valorizados? Provavelmente pelas mesmas que já mostraram amar-vos ao ponto de reconhecerem que não estiveram bem a dada altura (por vezes chega a ser um acto de altruísmo).

Pedir desculpa aos filhos

Desde cedo comecei a pedir desculpa à nossa filha, peço-o sempre que sinto ser necessário, de forma sincera, tal como pediria a um adulto. Como resultado, ela começou a modelar este comportamento, isto é, aprendeu a imitá-lo e com o tempo interiorizou-o ao ponto de pedir apenas quando sente que o deve fazer – depois de levar algum tempo a pensar, vem ter connosco e pede desculpa sem que ninguém lhe diga que o deve fazer.

Se cada vez que peço desculpa à nossa filha ela aprende que a amo, que a valorizo, que não sou perfeita e por isso ela também não terá de o ser, que a aceito como é, que amar os outros implica colocarmo-nos na pele deles e sair da nossa zona de conforto, então esta será uma competência que farei questão que a acompanhe pela vida fora e que acredito que a levará onde quiser chegar – o amor próprio e pelos outros implícitos no pedido de perdão não nos rebaixam, elevam-nos.

imagem@guiainfantilBrasil

Crianças sem empatia

Desde que me tornei mãe há uma série de coisas que mexem muito comigo mas tudo o que diga respeito a crianças e maus tratos deixa-me de rastos.

Os maus tratos de que hoje falo não são de pai para filho, mas sim de filho para pai. Este tipo de comportamento existe e parece longe de estar erradicado.

Há, como em todo o tipo de relações, vários géneros de maus tratos, vários níveis, nenhum porém que não seja grave a meu ver.

Ontem estava no metro e entraram comigo uma senhora com os seus 40 anos e a filha adolescente, talvez de uns treze. Tinham muito bom aspecto (digo isto já porque há um preconceito, que muitas vezes também cruza a minha sensibilidade, em relação ao tipo de pessoas que está envolvida em algumas situações). Por defeito profissional estou atenta ao comportamento de quem me rodeia, gosto de “absorver” a forma como as pessoas lidam umas com as outras, o modo como o amor ou a rejeição se manifestam nas várias idades, entre pessoas diferentes, etc. Levantando os olhos do meu livro reparei que tanto a mãe como a filha estavam ambas focadas nos telemóveis. A mãe estava nas redes sociais, a filha a jogar. A primeira “chapada” que recebi aconteceu quando a filha, possivelmente ao falhar o objectivo do jogo, lançou um impropério cabeludo, daqueles palavrões que nunca a minha mãe disse ou me ouviria dizer nem que passasse uma eternidade. O meu olhar voltou-se para a mãe, que agiu como se nada se tivesse passado. Pensei que não tivesse ouvido. Fiquei a matutar e quando ambas se levantaram para sair na sua estação algo me escapou, algo que a rapariga disse à mãe e a que esta não respondeu. Recebeu como sentença:

“Para além de atrasada és surda”.

Estremeci. Fiquei paralisada no meu lugar, incrédula, à espera da reacção da mãe e não minto quando digo que esperava uma resposta do mesmo calibre. Mas não foi isso que aconteceu. A mãe demorou pelo menos trinta segundos a responder, sendo que a filha voltou a repetir a mesma frase, já numa impaciência tal que parecia que queria que toda a gente à volta dela concordasse. Por fim a mãe lá disse, num tom suave e discreto, sem qualquer sinal de estar a controlar os nervos:

-“ Vê lá se controlas a má educação, está bem? Ainda são cinco da tarde”.

E saíram.

Caramba, aquela miúda tratou a mãe abaixo de cão e ainda lhe passaram a mão pelo pêlo. Duas coisas me ocuparam de imediato o pensamento: quando é que a vida daquelas duas pessoas tinha chegado ao ponto em que era ok a filha chamar nomes à mãe? E teria havido um comportamento semelhante em que a filha se espelhasse? Se tivesse de apostar diria que sim, que a postura da mãe é passiva, que eventualmente nem nunca lhe chamou nomes ou a maltratou mas aposto que houve outra alguém (o pai, quem sabe) que terá passado a vida toda daquela miúda a rebaixar a mãe e a dirigir-lhe ofensas sempre que não correspondia ao que esperavam dela. Ou talvez nem tivesse sido assim, quem sabe? Às vezes as relações de abuso começam por a vítima mostrar uma fragilidade e o abusador aproveitar para a controlar. Mas aqui falamos de uma miúda e mexeu comigo.

São estes os filhos que quando os pais, já idosos, vão parar aos hospitais os abandonam à sua mercê? São estes os filhos que roubam os pais? São estes os filhos que maltratam fisicamente os pais, como tantas vezes vemos nas notícias, seja por violência física, seja por os deixarem à fome?

Como é que uma pessoa que não respeita a mãe (ou o pai, ou ambos) pode respeitar seja quem for na sua vida adulta? E falo de relações em que os pais merecem respeito, que também existem pais que de pais só detém o título.

Custa-me muito pensar nas memórias que estão a ser criadas, na falta de empatia que existe, porque aquela miúda não hesitou em magoar a mãe nem se preocupou sequer com o facto de estarem diante de outras pessoas. Quem faz isto de que mais será capaz?

Há todo um tipo de vivências de que estou muito distante, felizmente. Cresci num lar em que o respeito é pedra basilar, em que há amor, compreensão e sempre houve limites. É esse o mundo que estou a tentar recriar para a minha filha mas sei que irá deparar-se com pessoas com um background completamente diferente.

Pergunto-me se miúdos que têm uma relação abusiva com os pais são passivos de serem salvos mais tarde ou mais cedo, seja por força do amor, da convivência, de boas influências.

Quero acreditar que sim.

Gosto de acreditar que o bem triunfa sempre. E que aquela mãe, um dia, será amada como merece.

imagem@weheartit

Há dias em que nem os sorrisos dos filhos nos salvam.

Tecnicamente estou acordada desde as duas da madrugada.

O mais novo, como quase sempre, acordou a chorar e, como quase sempre, acordou a irmã e, como quase sempre, foram os dois para a nossa cama. O circo estava montado.

Ele vira-se de cabeça para baixo, destapa-se, deita-se em cima do pai, puxa os cabelos à irmã, nós vamos acordando e adormecendo, sem coragem para ir vendo que horas são. Resmungamos, ralhamos, batemos com a cabeça na parede. Ela tosse, eu levanto-me e dou-lhe xarope, ela continua a tossir, o pai levanta-se e volta a dar-lhe xarope. Estamos a ficar malucos. A tosse acalmou. Passo a noite toda destapada, desisti de lutar por um pedaço do edredão.

O despertador toca às seis horas e quinze minutos, desligo-o e deixo-me ficar até sentir os pés do meu marido a expulsar-me da cama. Tenho frio. Levanto-me, meto o café a fazer, enfio-me no banho, visto-me, o meu marido faz o pequeno-almoço, tomamos o pequeno-almoço sentados no sofá, enquanto vemos as notícias. Os pequenos demónios ainda dormem. E eu com uma dor de cabeça a querer rebentar. Já passa das sete horas, caraças, está na hora de irmos acorda-los.

Damos o leite, vestimos, lavamos a cara e os dentes, o pai penteia, eu faço o totó, tudo a passo de caracol. “Mãe, o que é que eu levo para comer na escola?”, vestimos os casacos, metemos os gorros na cabeça, “Está de noite, mãe?”, “Não está de noite, é o nevoeiro.” Dói-me cada vez mais a cabeça. Quando nos sentamos no carro e respiramos fundo já são oito e dez.

Adeus mãe, bom trabalho!”, “Boa escola, meus amores.” Beijos e sorrisos, até parece que dormiram a noite toda.

Chego ao terminal dos barcos e apetece-me cortar os pulsos. Centenas de pessoas do lado de fora dos torniquetes, é o nevoeiro, são os barcos suprimidos, é a porra de um gajo bipolar que manda naquela porcaria toda. Junto-me à multidão. Tomo um comprimido para a dor de cabeça. Há um homem que fuma no meio das pessoas, filho da mãe. Tomo mais um comprimido para a dor de cabeça, que o dia ainda não começou. Os torniquetes abrem, as pessoas empurram-se, pisam-se, ninguém quer ficar de fora. Os carneiros, como dizia alguém um dia destes: “Somos todos uns carneiros”. Que se lixe. Junto-me à carneirada, não me posso atrasar mais.

O barco atraca em Lisboa e vou a correr para o metro. Faltam nove minutos para o próximo metro, em hora de ponta nove minutos são uma eternidade, outro bipolar a mandar nesta porcaria. Mudo da linha azul para a linha verde. É a pior linha de todas, juro, as pessoas cheiram a areia de gato com uma semana misturado com óleo de fritar chamuças. Consigo sentar-me e tenho à minha frente dois homens saídos do “Feios, Porcos e Maus”, não sei a que cheiram, mas envolve vinho e apetece-me vomitar, levanto-me e vou em pé, com o lenço a tapar-me o nariz. Respiro o menos possível.

Chego ao destino, lembro-me para onde vou e apetece-me fazer todo o caminho de volta para casa. Arrasto-me, pico o ponto, sento-me ao computador e finjo que vou fazer alguma coisa que gosto.

Há dias em que nem os sorrisos dos filhos nos salvam.

 

Dos filhos que fomos, aos pais que somos!

Quando os pais começam a desempenhar o seu papel, para além de um bebé, há todo um conjunto de novas personagens que nascem! Em volta de um bebé, há toda uma família que se alinha e re-alinha, há uns pais que se tornam avós, há um irmã que se torna tia, há um amigo que sente saudades, há um casal que inicia uma viagem… Quando os pais se tornam pais, tudo se mistura e se conjuga, o amor não se aprende, um filho não se desliga, mas a paternidade pode ser mágica se conseguirmos multiplicar tudo o que de bom há em nós.

Cada criança tal como cada um dos pais é singular, mas todas as crianças à sua maneira refletem os lados de heróis e de vilões dos pais. Afinal, como é que um Pai se pode tornar melhor?

Um Pai tem de olhar para o Mundo colocando-se no papel da criança.

Mas, acima de tudo, tem de olhar para um filho, livre daquilo a que ao longo da vida o foi condicionando aos poucos… A forma como cada um dos pais exerce o seu papel, é condicionada pela sua história, pelas suas expectativas, pela forma como foi filho, como foi irmão, como desejou ser Pai, como foi, ou não, sendo amado ao longo da sua vida e do seu crescimento, enquanto criança e enquanto adulto.

Muitas vezes, porque fomos filhos assustados, presos a um sistema parental rígido e autoritário, procuramos exatamente o oposto para os nossos filhos e tornamo-nos pais absolutamente liberais, não introduzindo segurança, regras e limites. Ou o oposto, porque fomos filhos em auto-gestão, exercemos um controlo absolutamente fora do vulgar com os nossos filhos, não lhes dando espaço e liberdade para serem crianças à sua maneira.

O difícil na montanha russa da parentalidade é que é preciso conjugar num só, os pais que tivemos, os filhos que fomos e os pais que somos, e, às vezes, é como se cada um andasse para o seu lado, como se estivessem zangados, como se dentro de cada um dos pais vivessem muitas personagens em vez de darem vida a um Pai. Naturalmente, essas personagens fraturam-no, tornando-se incompatível o filho que se foi, com o pai que se quer ser e com os pais que tivemos.

Por isso é que às vezes, é preciso parar, olhar para dentro de nós, separar e unir mundos, para fazer as pazes com a criança e com o filho que se foi, com os pais que se teve e assim, tornarmo-nos melhores pais e ficarmos cada vez mais perto dos pais que queremos ser.

Um pai, ou uma mãe, são sempre feitos de histórias, de amores e desamores, de conquistas e derrotas. Mas, não se pode desejar que seja um filho a ligar todos os nossos mundos e fazer-nos sonhar, muito menos, podemos querer que seja um filho a concretizar todos os nossos sonhos, a sarar as nossas feridas e dar as mãos às nossas infâncias.

image@dreamstime

Por Cátia Lopo e Sara Almeida Psicólogas Clínicas

 

De que são feitas as mães?

Que ingredientes colocaram na receita, para que o amor e a paciência estivessem em equilíbrio, quando tudo o resto parece ruir?
Poucas são as vezes que vacilo no Amor Maternal.

É certo que, algumas vezes, sou uma panela com pipocas a estalar e se se abrisse a tampa seria confetis em dia de festa!
Tenho aquele ingrediente secreto que me faz estar aqui sentada no carro durante duas horas a escrever, enquanto o meu filho luta pelos seus sonhos…
Tenho a poção que me permite dar voltas nas ruas, perdendo o número de quilómetros que faço mesmo quando o corpo grita pelo sofá e tantas vezes pela cama.
Tenho o comando que controla a voz quando a minha filha me tira do sério com as suas argumentações…

Quantas mães conhecem a experiência de dar e doar tempo envolvidas no amor incondicional?

O tempo passa e eles crescem mas as mães serão sempre o exemplo, o modelo. o guia dos pequenos e grandes passos.
Encarar a maternidade como uma etapa que passa, é iludir a vida!
Uma vez mãe, para sempre unidos pelo cordão que se corta mas que não se quebra, mesmo que a vida nos arranque os filhos e filhas dos braços. E quando partirmos estaremos pendurados nas asas dos anjos, para voarmos até eles, segurando cada passo num compasso de luta e esperança.

Os meus ingredientes são o Amor e a Paciência!

E os teus? Quais são?

Image@eyeni