No meio das pressões e preocupações diárias de “adulto” com a saúde, a economia, o trabalho, com o parceiro, com as consultas para quais estás atrasado, com as coisas que te esqueceste de fazer, com aquelas emergências que têm que ser feitas “ontem”,… aparece de repente o teu filho.

Perdeu um sapato, não quer vestir aquele casaco, quer outro, precisa de um caderno novo para a escola hoje e só se lembrou antes de sair de casa, briga com o mais novo por causa de um brinquedo ou simplesmente não quer fazer o que lhe pedes. Esta intromissão “inoportuna” na tua lista interminável de afazeres salta para a frente do teu carro na autoestrada do pensamento, enquanto ias a 200 à hora. E aí, acontece o inevitável: perdes o controlo.

Sabes perfeitamente que, num estado de calma em que tudo está a decorrer sem imprevistos, consegues lidar com qualquer desafio parental. Umas vezes com mais humor, outras vezes com mais seriedade, mas consegues responder com respeito, falar calmamente, explicar, ensinar e até brincar. Mas quando acontece esta quebra inesperada no filme que se desenrola na tua cabeça (“Tenho que fazer aquilo e depois aquilo e ainda estou atrasado para …”), desnorteia-te e sentes-te como que no direito de estar zangado. “Como é que o meu filho pode ser tão irresponsável/ despreocupado/mal agradecido? Não percebe que estou tão ocupado(a) a fazer coisas para ele??”

A verdade é que, por muito grave que consideras o seu comportamento, esse não é a causa do teu pensamento e da tua resposta irritada.

O que acontece por trás da tua resposta é um processo muito mais complexo e profundo.

O mecanismo automático da reação
Os teus sensores recebem o sinal (“Perdeu o sapato!”), captam a mensagem e transmitem-na ao cérebro. O cérebro reconhece o padrão e encaminha o pensamento (“Outra vez!” Vou chegar atrasada(o)!”), que desencadeia outros pensamentos semelhantes (“Estou a falhar nas minha tarefas!” ou “Falhei como mãe/pai!” que trazem o Medo ou a Culpa. E o cérebro decide defender-se dando o comando: “Reage. Luta. Defende-te”).

Este encadeamento de pensamentos é instantâneo e acontece de forma automática. E, num segundo, o teu carrinhosolta-se numa montanha russa das emoções, provocando um turbilhão interior para onde és sugado de repente. É tão rápido, que nem tens tempo de conscientizar ou pará-lo. Bum! Já foste!

E lanças-te enfurecido a atacar a quem percepcionas como tendo sido os causadores desta viagem desenfreada – os teus filhos.

No entanto… embora pode ter sido o comportamento dele que parece ter iniciado este processo, não é ele a verdadeira causa da tua reação. Qualquer questão que te leva a reagir desta forma vem de dentro de ti e muitas vezes tem raízes profundas, que vão até à tua própria infância.

A verdadeira causa da tua reação
Os pais têm frequentemente a sensação que os filhos parecem saber perfeitamente quais são os seus pontos fracos. Os psicanalistas chamam este fenómeno de “fantasmas do berçário” (Selma Freiberg) – os filhos conseguem despertar nos pais conexões cerebrais e emoções intensas, de eventos e acontecimentos que foram gravados nas suas mentes quando eles próprios eram crianças.

As emoções mais fortes que sentiste em criança, criaram ligações tão profundas, “caminhos” tão marcantes no teu cérebro, que quando foram usados muitas vezes, tornaram-se “avenidas” principais. Sempre que sentes estas emoções, estes caminhos são novamente ativados.

Quando o cérebro recebe um determinado “sinal” – encaminha-o automaticamente pelo caminho mais batido, pelas avenidas mais antigas e mais marcantes que existem no teu cérebro. E na sua passagem, o impulso elétrico criado arrasta com ele outros impulsos habituais… encadeando uma rede específica de pensamentos conexos – outras conexões/caminhos pré-existentes que foram criados juntos. E torna-se tudo numa espécie de bola de neve que vai crescendo, crescendo e ganhando mais velocidade à medida que percorre a larga avenida. Até culminar com a decisão final: Luta ou Foge.

Os medos, a culpa e outras emoções semelhantes sentidas com frequência na infância, deixam marcas tão profundas e poderosas no nosso sistema, que muitas vezes dominam-nos inconscientemente em adultos. A resposta que damos perante estes sentimentos, depende das “avenidas” e dos caminhos conexos que foram marcados no nosso cérebro.

Compreender este mecanismo e o seu funcionamento, assim como refletir e escolher alternativas mais responsáveis de reação é a nossa responsabildiade. Porque, a nossa forma de (re)agir nestes momentos tem um impacto a longo prazo nos nossos próprios filhos.

Agir ou REagir
Há uma diferença entre agir e REagir. Reagir – quando respondes a um comportamento de outra pessoa, em vez de decidires por ti próprio como deves agir. Ou seja, reagir (agir novamente, da mesma forma) é algo que acontece de forma instintiva, muitas vezes involuntária e inconsciente. Agir, pelo outro lado, é quando tomas as rédeas e decides como queres que aquela situação se desenrole.

Se percepcionas o teu filho como alguém que te provoca e irrita constantemente, então ele torna-se o teu “inimigo”. Tudo que ele faz provoca-te e cada vez que faz alguma coisa vais percepciona-la como sendo negativa, ameaçadora, embora pode não a ser verdadeiramente. E isto vai despoletar uma ação ou uma reação da tua parte. A decisão de agir ou reagir pertence-te a ti e só a ti.

Sem a tua intervenção consciente, o cérebro irá escolher o caminho mais rápido para reagir. Quando existe um caminho já traçado para lidar com este sentimento e este caminho é “reagir através de uma resposta enfurecida” (porque viste isto ou aprendeste pela experiência desde cedo na tua vida), então o cérebro escolha esta via rápida para responder automaticamente.

Embora, conscientemente, saibas que não é no teu melhor interesse, nem no do teu filho. Reagir é uma resposta automática, que segue caminhos pré-existentes, e que apenas tu a podes influenciar.

O que acontece no teu filho quando reages automaticamente a gritar ou bater?
Imagina o teu parceiro a perder a cabeça e gritar contigo. Agora imagina que é três vezes maior que tu, inclinado de forma ameaçadora por cima da tua cabeça. Imagina que estás completamente dependente desta pessoa para sobreviveres – receber comida, abrigo, segurança, proteção, afeto, preparação para a vida. Agora pega neste sentimento e multiplica-o por 1000. Isto dá-te mais ou menos a ideia do que se passa na cabeça e no coração do teu filho quando te zangas com ele

Claro que por vezes pode acontecer algo que despoleta em nós sentimentos há muito guardados e vamos sentir que estamos a fervilhar. Mas é da nossa responsabilidade controlar a expressão desta fúria interior e agir de forma equilibrada e respeitadora, minimizando assim um eventual impacto negativo.

Chamar nomes, gritar ou outras formas de agressão verbal em que os pais falam de forma desrespeitadora com os filhos, tem um custo pessoal acrescido, uma vez que a criança é dependente dos pais na sua própria existência. E, está comprovado, que as crianças que sofrem de violência física, incluindo palmadas,  sentem efeitos negativos que afetam todos os cantos das suas vidas, mesmo que inconscientemente.

Se o teu filho pequeno não parece ter medo da tua raiva, é sinal que já viu/sentiu demais e tem desenvolvido defesas para ela – e para ti. O resultado incontornável destes factos é uma criança que não vai quer fazer nada que te agrade e vai estar muito mais suscetível às influências dos amigos. Isto significa que terás muito trabalho de reparação a fazer.

Quer demonstrem quer não a raiva dos adultos é assustadora para as crianças. (e quanto mais nos zangamos mais as crianças se defendem criando os seus próprios padrões de reação que irão usar mais tarde)

Como agir?
Decidir agir (em vez de apenas reagir) é a melhor forma de lidar com as tuas reações automáticas.

Tomar esta decisão implica estares ciente da sua necessidade e dos seus benefícios. Implica decidir que queres fazer diferente. Esta decisão é o teu primeiro passo. E deve ser um compromisso contigo mesmo.

  1. Torna-te consciente da forma como reages, do mecanismo que está por detrás da tua reação, da tua reação despoletada, dos eventos que te provocam e puxam os teus gatilhos.
  2. Compreende a tua raiva sempre que ela aparece, em vez de te deixares controlado por ela. Qual é a sua causa interna? O motivo que a causa é algo mesmo muito importante para ti? Ou é algo que talvez, mais tarde, já não fará sentido? Existem alternativas? Como podes prevenir estes momentos?
  3. Estabelece alternativas para lidar com as emoções negativas ANTES de elas acontecerem. Pensa na forma como gostarias de reagir quando sentes algo negativo. É mesmo necessário zangares-te? O que podes fazer para agir da forma como queres?
  4. Escreve uma lista de formas aceitáveis para lidares com a tua raiva. Podes incluir ações como: respirar fundo várias vezes, fechar os olhos e pensar em algo agradável, afastares-te para acalmar, relaxar, ignorar o assunto por uns tempos, meditar etc.
  5. ESPERA E PENSA antes de agir. Nunca tomes decisões com base na tua raiva. Quando estás num estado alterado, as decisões tomadas raramente serão sensatas e terás que voltar atrás mais tarde. Espera pelos momentos mais calmos antes de decidir.
  6. Lembra-te que “expressar” a raiva dá-lhe mais força ainda. Quando falas de forma zangada sobre o que te incomoda por mais tempo que necessário, multiplicas a energia negativa e continuas a alimentar o teu corpo com ela.
  7. Considera que fazes parte do problema e também da solução – quando algo que acontece provoca uma explosão dentro de ti, liberta uma emoção e o corpo reage. Não é o evento que causa a tua emoção, ela já lá estava. Pensa como podes alterar este encadeamento, para que os eventos externos deixam de te controlar e ditar as tuas reações. Torna-te parte da solução, agindo em vez de reagir.
  8. Se mesmo assim continuas a não conseguir controlar a tua raiva, procura apoio mais especializado, para o teu bem e o dos teus filhos.

Encontrares formas positivas para lidar com a tua raiva é um dos melhores presentes que podes dar aos teus filhos: em vez de os magoares, vais oferecer-lhes um modelo a seguir. A tua forma mais responsável e calma de lidar com aquelas situações vai ensina-los que também o podem fazer, quebrando este ciclo.

O que é que queres ensinar: Queres ensinar-lhes que a força faz a lei? Que os adultos lidam como conflito gritando ou batendo? Ou queres ensinar-lhes que a raiva faz parte do ser humano e que aprender a geri-la de forma responsável faz parte do processo de crescer e amadurecer?

imagem@tomitipi

“Passei então a marcar, com uma caneta verde os grafismos mais perfeitos para que se pudesse concentrar nas suas vitórias e não nas derrotas.”

Princípio da caneta verde

A minha filha não foi para a escola na infantil e pré-primária como a maioria das crianças. Ficou comigo em casa, e eu própria desenvolvi diariamente os conteúdos pretendidos, em casa.

Quando começamos a trabalhar os grafismos na motricidade fina, apercebi-me de que, ao corrigir os seus trabalhos com uma caneta vermelha estava a valorizar os seus erros, e não aquilo que estava correto. Aquilo que tinha conseguido realizar com esforço e concentração.canetavermelha

Passei então a marcar, com uma caneta verde os grafismos mais perfeitos para que se pudesse concentrar nas suas vitórias e não nas derrotas.

Ela gostou muito disso. Queria sempre melhorar e quando acabava de preencher uma linha com um grafismo ou uma letra, perguntava-me qual era a letra mais bonita da linha. E ficava ainda mais feliz quando me via a rodear a letra perfeita com a caneta verde.

Qual a diferença entre as duas abordagens?

No primeiro caso estamos a concentrar-nos no erro. Ora, uma criança com uma memória visual aguçada está a reter uma imagem errada no seu subconsciente e a assimilar que é errado, para não voltar a repetir. Ou seja, a criança vê-se obrigada a ter uma atitude diferente daquela que memorizou e que sabe estar errada. Vai da próxima vez, tentar evitar o erro. Mas há infinitas maneiras diferentes de errar… A aprendizagem nem sempre funciona por exclusão de partes.

No segundo caso estamos a concentrar-nos no objetivo. A criança memoriza o símbolo ou letra, e tenta reproduzi-la o mais idêntico possível. Ou seja, em vez de tentar evitar um erro, irá tentar alcançar um objetivo.
Parece a mesma coisa, mas a emoção e perceção da criança é totalmente diferente. Trata-se de uma motivação própria e não o desejo de evitar um erro. Se procurarmos estimular a criança a repetir algo bem feito, os resultados serão muito positivos.

Como é que esta abordagem de evidenciar os erros pode (e vai) influenciar futuramente na vida de adulto?

A resposta é óbvia: desde crianças que somos habituados a concentrar-nos naquilo que está errado. Na escola corrigem-nos os erros a caneta encarnada, em casa somos chamados a atenção quando não arrumamos os brinquedos, e quando crescemos, sabemos que se falharmos seremos apontados por isso. No entanto, raramente somos parabenizados por tudo o resto que fazemos corretamente.

 

Veja a última linha da imagem acima: das 18 bolinhas desenhadas, a tendência é marcamos apenas uma. Ou seja, 19 estavam corretas e apenas uma não estava. Vale a pena concentrarmo-nos nela?

Destacar o erro

Destacar o erro é uma abordagem que está tão intrínseca na nossa cultura e educação, que dificilmente nos livramos dela na idade adulta.  Esta é uma das razões da nossa sensação de insatisfação na vida. 

Este exemplo pode ser extrapolado para a vida de um casal, por exemplo. O seu marido tem 19 características incríveis, mas vão acabar por discutir porque você está constantemente a destacar aquela que não gosta, e que acha errada. Esta é uma das causas do insucesso das relações e do aumento exponencial dos divórcios.

É normal moldamos a vida dos nossos filhos com o mesmo molde que usaram connosco, sem pensar muito na questão e isso nem sempre é positivo.

Se colocar em prática o método da ’caneta verde’, vai ver que não precisa de mostrar aos seus filhos os erros dados, pois por vontade própria, com esforço e dedicação da criança, estes acabarão por desaparecer pouco a pouco. Notará diferenca ao níel do empenho e da auto-estima deles. Experimente!

 

Por Tatiana Ivanko, publicado originalmente em Real Parents

Traduzido e adaptado por Up To Kids®.
Todos os direitos reservados

 

 

 

Nós somos as mães dos homens de amanhã: educar para a igualdade de género

Criamos hoje os homens de amanhã. É uma realidade. Será que estamos a criar os homens de amanhã na igualdade de género? Fica a reflexão e algumas notas de ação.

Em primeiro lugar, é necessário compreender que o maior princípio de igualdade é que se trata de forma igual o que é igual e diferente o que é diferente. Pode parecer óbvio mas nem sempre é claro na educação das nossas crianças.

As diferenças de género são inquestionavelmente saudáveis e naturais. Não podem é ser motivo de discriminação. Ora o combate à discriminação de género começa em nossa casa:

Exemplo

Se o pai nunca lava a louça e mãe nunca leva o carro à oficina, é difícil induzir atitudes de igualdade. O exemplo familiar é que mais influência tem na aprendizagem das crianças. Por isso, não adianta falar se não se praticar.

 

Tarefas iguais para meninos e meninas

  • É simples: meninos e meninas ajudam na cozinha; meninos e meninas jogam futebol.

Libertar as brincadeiras

  • Não é por uma menina brincar com carros que vai diminuir a sua feminilidade! Não é porque o menino gosta de brincar na casinha que vai diminuir a sua masculinidade!

Combater o preconceito

  • O combate ao preconceito e ao estereótipo tem que ser feito no momento: é o azul para o menino e o rosa para a menina. É a boneca e a bola. É o carro e a cozinha. Porque não verde, amarelo e laranja para todos? E bonecas, bolas, cozinhas, carros, camiões, legos, bicicletas!

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As crianças não fazem birras

A nossa cultura ensinou-nos a ver as crianças como nossas adversárias.

As crianças fazem birras, as crianças portam-se mal. As crianças só sabem chatear. Desafiam-nos, testam-nos, desarrumam tudo. Estão aí para nos levar ao desespero.

Não me parece.

Mas a verdade é que acreditamos nisto – a agimos sobre esta premissa diariamente – de tal forma que se torna mais do que óbvio – e incompreensível que haja alguém que não o faça – que tenhamos de puni-las, de afastá-las, de deixá-las sozinhas quando não correspondem aos comportamentos esperados, quando se exaltam ou perdem o controlo das suas emoções por alguma razão.

Acreditamos que estão a ser mal-educadas, que nos estão a faltar ao respeito, quando a bem da verdade, lhes estamos a passar a mensagem de que não têm direito a exprimir as suas emoções negativas. Temos de saber ensinar-lhes paciente e generosamente como exprimir essas emoções. Desde cedo. Porque essas não são para bloquear.

Da minha pesquisa e das minhas experiências pessoal e profissional, as crianças não fazem birras. As crianças não se portam mal.

As crianças são crianças. Onde é que, ao longo do caminho, nos esquecemos que fomos nós que as quisemos?

As crianças manifestam as necessidades, vontades, medos, cansaço  e sentimentos gigantes que têm da melhor forma que sabem e podem. Passam por emoções que nem imaginamos, vivem e assistem a situações que muitas vezes não sabem – nem conseguem – processar. Isso não faz delas mal comportadas, chatas, birrentas ou bebés. Faz delas pessoas (pequenas) num mundo tantas vezes assustador.

O mundo é feito de pessoas e se as pessoas que têm o privilégio de formar pessoas mais pequenas as souberem formar e educar de uma forma pacífica, gentil, ensinando desde a primeira infância os limites de forma empática, conectando-se e ligando-se às suas crianças de forma generosa, compreensiva nos momentos mais difíceis, serão adolescentes e mais tarde adultos assim que teremos.

E será esse o mundo que estaremos a criar. Quer acreditemos nisso quer não. A responsabilidade é nossa.

É uma questão cultural que tem passado de geração em geração que nos tem ensinado – e feito crer dogmaticamente – que a única forma de educar pessoas responsáveis, cumpridoras e bem sucedidas é sendo pais e professores exigentes, inflexíveis e firmes.

Como se isso fosse o mandamento mais imperativo.

Não é.

O mandamento mais imperativo a ter em atenção na formação do ser humano é a formação saudável das emoções. Dos vinte anos que trabalhei com crianças, não encontrei uma – uma única! – que conseguisse bons resultados na escola quando as suas emoções estavam desreguladas, destruídas até, em alguns casos. Muitos.

As crianças constroem a sua auto-imagem através dos inputs implementados desde o nascimento, pelos adultos.

São as emoções dos adultos, em primeiro lugar – os estados de espírito, as frustrações, a sua própria auto-imagem, os seus traumas, as suas crenças, – que lideram a forma como estes interagem com as crianças, a forma como lidam com elas, como as tratam.

Aprendemos que as crianças nos desafiam, que querem controlar e ter tudo à sua maneira. Nós acreditamos nisto e as nossas relações com os nossos filhos sofrem com isto. Aprendemos que temos de controlar as suas birras e que é obrigatório zangarmo-nos quando não correspondem às nossas expectativas, chegando até a magoar o seu corpo e ferir a sua alma para marcar a nossa posição de poder.

Desunimo-nos delas, desconectamo-nos nos momentos em que mais precisam que nos liguemos a elas, que as apoiemos. Isto passa-se em casa, na escola. Nos locais que deveriam ser lugares de referência, onde as crianças se devem sentir acarinhadas, respeitadas, seguras.

Aprendemos a criticar as crianças, a julga-las, a castigá-las, em vez de  escutá-las, compreendê-las  – mesmo que a situação nos desconforte –  de aceitá-las. Esquecemo-nos de que educar é passar um legado diário de amor, de compreensão, de motivação positiva, de empatia sob todas as suas formas, em todos os momentos, em especial aqueles que são mais difíceis de gerir pela criança ou pelo adolescente.

E aqui cometemos um grave engano.

Confundimos educação com imposição de autoridade, julgamos que temos de ser reis absolutistas no nosso castelo e que as crianças têm de ser submissas às nossas vontades, ordens e desejos, descurando-nos de negociar em vez de exigir aquilo que elas não nos podem dar, esquecendo-nos de ser tolerantes em vez de criticar, esquecendo-nos de ensiná-las  – liderando pelo exemplo e não pela imposição-  tendo em conta o seu funcionamento natural e orgânico, neurológico, físico e emocional.

Se esses factores não são respeitados, não é responsabilidade da criança. É de quem é responsável pelo seu percurso educativo. Seja em casa ou na escola.

Toda a aprendizagem deve ser feita de forma orgânica e natural. Não imposta. Não coerciva.

Uma família de seis filhos ou uma turma de vinte alunos, terá o número de personalidades, necessidades, carências e potencialidades em proporção ao número de crianças que aí existirem. E todas têm valor. Todas têm potencial. Cabe ao adulto estimulá-las e motivá-las de forma positiva. E não uma vez. Em todos os momentos. Um educador, seja um pai, uma mãe, um avô, uma avó, um professor, educador infantil ou auxiliar educativo, deve ser, acima de tudo, um mentor.

As crianças e os adolescentes são pequenos humanos que fazem o seu melhor com o que têm, que só querem ser amadas e respeitadas pelo que são, sentir-se seguras, protegidas, façam o que fizerem, digam o que disserem.

Quando aprendermos isto e agirmos sobre isto, deixará de haver lugar para gritos, rótulos, vergonha, castigos e todos construiremos uma relação melhor e mais forte com os nossos filhos.

Como afirma Rebecca Eanes, as crianças não são nossas adversárias. Elas são a nossa maior dádiva. Tratemo-las como tal.

 

Nos dias que correm, fala-se muito de comunicação positiva com a criança e do exercício de uma parentalidade com maior respeito pelos filhos e pelas suas necessidades. A forma como os pais exercem o seu papel está, desde há cerca de 50/60 anos, em profunda transformação. O que, com tudo de bom que possa ter (e tem!), traz consigo algumas armadilhas.

Hoje, o medo de ser (ou parecer) autoritário é tão grande que os pais têm imensa dificuldade em contrariar os filhos. Seja por receio de fazer deles crianças inibidas e prejudicar a sua livre expressão, seja para evitar o conflito ou por medo de “perder” o seu amor. De repente, fica no ar a ideia de que ser democrático, respeitar a criança, é convencê-la a fazer as coisas sem imposições. Mas fazer isto, visto assim, não é tarefa fácil. A sedução surge como a forma de “salvar” a situação. E, inadvertidamente passamos de um registo com consequências negativas, para outro igualmente mau e gerador de desequilíbrios.

Nas relações de sedução, os adultos pedem à criança “provas do seu amor”, como forma de eles mesmos continuarem a amar os seus filhos. Trata-se de condicionar o comportamento da criança de forma subtil, criando nela o desejo de agradar e corresponder. Tanto pais e criança sentem uma grande necessidade de constantemente agradar o outro. São usadas frequentemente expressões como “faz isto por mim”, “se fizeres isto és linda/o…”, “é para o teu bem…” e “vou ficar muito feliz/ triste se fizeres isto…”. São também usados elogios como “linda/o menina/o” ou pequenas chantagens como “se fizeres isto, dou-te x” para recompensar os comportamentos desejados.

Por que razão não deveremos fazer isto?

  1. Continua a ser uma forma de uso de poder e força (neste caso psicológicos) sobre a criança. É estabelecida uma relação pais-filhos de grande manipulação. É uma forma de submeter o outro às nossas necessidades, sem que ele assim o entenda. Uma forma de controlo.
  1. Aprisiona. Cria nos pais a expectativa de que o “bom filho” é aquele que continua a cumprir e a agradar. Cria na criança a necessidade de corresponder a essa expectativa sob pena de desiludir os pais e perder o seu amor. É penalizante para ambos os lados, porque não é possível, nem desejável, agradar e “cumprir” sempre (pelo menos sendo-se verdadeiro).
  1. Cria sentimentos de medo e culpa na criança, por sentir que não é “suficientemente boa” para ser amada pelos outros. O Amor é visto como condicional.
  1. A criança aprende a relacionar-se desta forma e vai ter dificuldades em estabelecer relações saudáveis com outras pessoas (que não aceitem essa forma de relacionamento). Pode, por um lado, reproduzir o modelo, tentando estabelecer relações de domínio sobre os amigos e namorados ou, pelo contrário, submeter-se aos desejos dos outros (amigos, namorados/as, chefes), para continuar a ser apreciada por eles. No futuro, as decisões que tomar para a sua vida estarão mais focadas no que os outros desejam para eles, do que naquilo que realmente gosta ou quer para si.
  1. Dá à criança uma ilusão de controlo sobre os limites. Acredita que quando cede, é porque ela assim o quis, e não porque tinha mesmo de ser. O que terá consequências difíceis para ela de suportar, quando perceber, fora da estrutura familiar, que na realidade o que não pode fazer, não pode mesmo. E que não passar de certos limites não se trata da criança decidir, ou não, agradar o outro.
  1. A manipulação inibe a criançade agir livremente e de acordo com a sua natureza. Desobedecer e/ou desafiar faz parte do processo de desenvolvimento e é saudável e desejável acontecer.
  1. A criança não entende nem interioriza as verdadeiras razões pelas quais deve ou não deve ter um determinado comportamento. É o “devo fazer isto porque faz os outros felizes” e não o “devo fazer isto porque é o mais correcto “.
  1. Pode levar a que na adolescência os filhos tentam “libertar-se” do domínio dos pais de forma mais violenta.

No entanto, há que relembrar que a sedução é parte integrante das relações Humanas e tem as suas vantagens. Só é “perigosa” quando se torna a forma privilegiada dos pais se relacionarem com os filhos. Principalmente quando é usada como forma de fugir ao exercício de autoridade e à imposição de limites claros a determinados comportamentos e/ou desejos da criança.

Existem muitas coisas a autorizar e outras tantas a proibir. Fazê-lo sem sermos pais agressivos ou sedutores é difícil, mas possível. O primeiro passo, é querê-lo.

imagem capa@submarine.dk

O Poder do Exemplo

Os pais têm o maior super-poder de todos: O poder do exemplo.

O modelo mais poderoso na vida de qualquer criança são os próprios pais. Através da observação direta, com eles aprendem o melhor e o pior: observam, imitam comportamentos, ações, valores, crenças e até mesmo expressões.

A aprendizagem profunda das crianças é desenvolvida com base na observação do comportamento e da constatação das consequências das ações de outras pessoas.  As crianças observam como reagem os familiares mais próximos. Tanto nas experiências positivas como nas menos positivas.  Estas experiências tornam-se parte dos “ficheiros de referência” a que recorrem para saberem como viver as suas próprias vidas.

O melhor de tudo é o facto de os pais se encontrarem numa posição de extremo poder no que diz respeito à capacidade de influenciar o desenvolvimento dos filhos. Os pais têm o maior super poder de todos: O poder do exemplo.

A questão agora é a seguinte: “Como é que estamos a aproveitar esta oportunidade? “

Sob quantas formas está o seu comportamento a influenciar o desenvolvimento da personalidade do seu filho?

Os pais desempenham um papel fundamental durante toda a vida. Nos primeiros anos os filhos admiram-nos como se fossem os melhores do mundo. Isto é muito positivo porque eles precisam realmente de alguém que possam admirar e que os guie e ajude a superar os obstáculos.

Os modelos são importantes porque é através deles que  as crianças aprendem os valores que orientarão as suas vidas.

As ações dos pais ensinam os filhos a assumir responsabilidades pelos próprios comportamentos, escolhas, ações, pensamentos e sentimentos.

Educar crianças perfeitas seria muito simples se os pais fossem perfeitos, por isso, têm de fazer o melhor que podem, sem nunca esquecerem de que estão a ser observados a cada minuto que passa.

  • Se quiser que os seus filhos aprendam a exprimir-se, tem de criar conversas em família
  • Se quiser que os seus filhos sejam saudáveis e estejam em forma, os pais têm de ter cuidados de alimentação e fazer exercício físico.
  • Se quiser que eles lidem devidamente com a raiva, então não deve insultar o tipo que lhe roubou o lugar no estacionamento

Através das suas ações, palavras e comportamento poderá orientar os seus filhos na direção pretendida. Mostre-lhes como podem ser adultos felizes, equilibrados e realizados. Mas lembre-se que os seus filhos irão também imitar as suas imperfeições.

Os filhos podem espelhar as suas piores características, vulnerabilidades e fraquezas. Apesar do modelo mais poderoso para a maior parte dos jovens ser o progenitor do mesmo sexo, as crianças não deixam de observar muito de perto a forma como o progenitor do outro sexo trata o próximo.

Como está a sair-se como modelo?

Consegue controlar o seu próprio comportamento e as suas emoções? Está a ensinar os seus filhos a controlar os deles?

Este video fantástico ilustra muito bem tudo o que escrevi sobre o poder do exemplo dos pais.

Desafio

Aproveite esta oportunidade para refletir um pouco sobre as suas ações.  Tem de ser muito honesto consigo mesmo acerca daquilo que está a demonstrar aos seus filhos. Não pode alterar aquilo que não assumir.

Rejeite todas as atitudes negativas. Acabe com todos os padrões de comportamento auto-destrutivos e aumente as atitudes positivas. As crianças precisam que os pais as orientem o caminho e os pais têm tudo o que é preciso para serem grandes modelos para os filhos.

Nunca é tarde, basta querer!

 

Ana Alvarinho, Psicóloga e Coach Familiar
Para Up To Kids®

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