O título é provocatório! À partida todos os pais pensarão nos filhos. No entanto, em casos de separação e divórcio, nem sempre há a capacidade de “separar águas” (temas do casal e temas da parentalidade) acabando as crianças por cair numa rede densa de emoções complexas, sentindo-se desprotegidos e no meio de um campo de batalha, provocado por aqueles em quem mais confia para cuidarem dele – os seus pais.

Mas, felizmente, nem todas as situações são assim! Recebo no consultório, com alguma frequência, pais que me procuram no sentido de encontrarem orientações que os ajudem a gerir uma fase de separação, tendo como principal foco o bem-estar global dos filhos. Diria que (o simples facto de) procurarem ajuda para minimizar impactos nas crianças é, por si só, um sinal muito positivo. Um sinal de afeto e respeito pelas crianças. Isto é ainda mais válido, enquanto potencial fator de proteção, quando recebo em consulta, pai e mãe – pais que compreendem que embora deixe de existir a “figura” casal, continuará a existir, para sempre, a “figura” pais.

As questões são múltiplas: umas mais gerais e outras mais específicas àquelas famílias. E, precisamente porque cada caso é um caso, cada dinâmica tem as suas especificidades, cada família tem as suas histórias e estão em fases diferentes do seu ciclo familiar e cada elemento da família tem as suas idiossincrasias, não existem verdades únicas e absolutas. Ainda assim, há um conjunto de cuidados e de práticas que vale a pena considerar, quando se quer gerir um processo de separação, não fazendo com que as crianças se sintam inseguras, desprotegidas ou desrespeitadas.

O melhor preditor de “sucesso” num processo desta natureza, envolto sempre num turbilhão de emoções, e com vista à proteção das crianças e à promoção do seu desenvolvimento de forma harmoniosa, é precisamente a capacidade dos adultos gerirem o processo com bom senso e a capacidade de compreenderem que, embora se dissolva uma relação de casal é perentório que não se dissolva a relação de pais. Essa sintonia e capacidade de agir em prol dos filhos é determinante para o bem-estar das crianças.

Partilho algumas das muitas questões que os pais colocam em consulta e algumas orientações gerais associadas às mesmas.

No momento de lhes explicarmos o que vai acontecer que cuidados devemos ter?

Alguns cuidados a ter no momento de partilhar com os filhos as mudanças que se avizinham:

– Não associar a notícia a uma data ou época especial, como uma data de aniversário ou o Natal, por exemplo;

– Não tornar o momento de dar a notícia numa reunião familiar demasiado formal, “séria”;

– Assegurar à criança que independentemente do que se está a passar na relação dos pais enquanto casal, estes continuarão a amá-la incondicionalmente e a funcionar como uma equipa em tudo o que respeita aos filhos – os pais deixam de ser namorados, mas continuam a ser amigos e nunca deixarão de ser pais dos seus filhos e de cuidar deles;

– Usar uma linguagem simples, adequada ao nível de desenvolvimento da criança, não dando detalhes desnecessários;

– Explicar o que vai ser diferente (exemplo: duas casas) e o que se manterá (exemplo: mesmo amor dos pais, mesma escola, mesmos amigos);

– Dar espaço e tempo, mas sem pressionar, para que a criança possa fazer questões;

– As crianças sintonizam emocionalmente com os adultos. Se os adultos se mostrarem calmos, seguros, confiantes, no momento de darem a notícia aos filhos, as crianças irão reagir com maior tranquilidade.

As crianças devem participar nas mudanças?

Uma separação conduz a uma nova versão de vida familiar, diferente daquela que a criança conhecia até então. A criança poderá participar nalgumas fases da mudança mas tal depende de vários fatores, como as características da família, a idade da criança, se a criança passará a viver também, nalgum período da semana, na casa do outro pai… Pode inclusivamente, se a criança já possuir alguma maturidade, perguntar-se se ela quer participar, de algum modo, na mudança. Por exemplo, em situações em que se prevê uma regulação das responsabilidades parentais igualmente repartida, em que a criança passará a ter dois quartos, em duas casas, é bastante benéfico que ela possa participar na mudança (escolhendo alguns brinquedos ou objetos que transitam de uma casa para a outra, ajudando o pai/a mãe na decoração de alguns elementos da nova casa…)

Como devemos fazer naqueles momentos em que estávamos os dois presentes e passará a estar só um de nós presente?

Acima de tudo descomplicando e validando aquilo que a criança possa estar a sentir. É normal que sintas a falta da mãe na hora de * Queres ligar-lhe para lhe dar um beijinho? Se o adulto agir com naturalidade e confiança nas novas rotinas, a criança também se sentirá segura e conseguirá adaptar-se à nova realidade com maior tranquilidade.

Que perguntas posso esperar que ele nos faça? Quando surgem essas perguntas?

As perguntas que as crianças fazem são muito variadas, dependendo da idade e das características de personalidade da própria criança. O momento em que elas surgem pode também variar: há crianças que formulam imensas questões quando os pais partilham o que se está a passar e o que irá acontecer, há crianças que vão fazendo perguntas espaçadas no tempo, há crianças que só quando “instaladas” nas novas dinâmicas se sentem seguras para expor as suas dúvidas…

Em crianças mais pequenas tendem a surgir questões muito pragmáticas: Onde vou morar? Onde vão estar os meus brinquedos? Quem me vai buscar à escola? Em crianças mais crescidas podem surgir outro tipo de dúvidas: A culpa foi minha? Tenho de mudar de escola? Tenho de escolher com quem vou morar? Eu não quero que tenhas uma namorada. Não quero outra mãe. Vão deixar de gostar de mim? Nunca mais vou ver o pai/mãe?

Também neste caso, não existe uma forma única ajustada para se dar resposta às perguntas das crianças, mas existem alguns cuidados a considerar, aliados a muito bom senso:

– mostrar disponibilidade e dar espaço para que a criança possa expressar aquilo que pensa e sente, e para colocar as questões que quiser;

– não pressionar a criança a fazer perguntas ou comentários;

– dar respostas honestas, verdadeiras, numa linguagem simples e que seja ajustada ao nível de desenvolvimento da criança;

– garantir sempre respostas que ajudem a diminuir possíveis níveis de ansiedade.

Devemos estar à espera de algum tipo de mudanças de comportamento nesta fase?

Ajustamento das crianças a uma separação/divórcio está em larga medida relacionado com a forma como os adultos gerem o tema. Ainda assim, mesmo quando a gestão é feita de forma estruturante, é natural que, numa fase transitória, possa surgir a tristeza, a zanga, a ansiedade, a irritabilidade… Podem surgir também alterações de comportamento, como mudanças nos padrões de sono (como maior dificuldade em adormecer, pesadelos), alteração no controlo dos esfíncteres (como voltar a fazer xixi na cama), alterações de apetite. Todas estas mudanças, desde que não se prolonguem no tempo, podem ser encaradas como naturais num processo de divórcio, mesmo quando este decorre de forma tranquila.

Quando é que é necessário procurar ajuda?

Numa fase de tomada de decisão, e quando existem crianças, pode fazer sentido agendar uma consulta de aconselhamento parental, no sentido dos pais da criança tomarem maior consciência da melhor forma de abordar o tema junto dos filhos, considerando a sua fase de desenvolvimento e características pessoais e de tomarem conhecimento das reações que podem ocorrer, normativas e não normativas, e como lidar com elas, por forma a garantir o bem-estar físico e emocional das crianças.

Posteriormente, caso as reações que podem ser expectáveis se prolonguem no tempo, ou caso os pais não estejam a ser capazes de lidar com elas de forma eficaz e estruturante para a criança, é aconselhável procurar ajuda especializada, junto de um Psicólogo infanto-juvenil.

 

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imagem@psyciencia

Da separação à alienação parental!

Numa tarde de domingo, tinha eu dez anos, quando a minha mãe se sentou ao meu lado no sofá da sala e começou a chorar, para me tentar contar que o meu pai ia sair de casa e eles se iam separar. Perante aquela informação, passaram-me muitas perguntas pela cabeça, mas fiquei calado pois a minha mãe não parava de chorar e senti-me na obrigação de tomar conta dela, abraçá-la e dizer que ia ficar tudo bem. Mas não ia…! Que eles se iam separar não era novidade para mim, eu ouvia-os a discutir no quarto há meses e meses, com insultos e ameaças de separação. Depois de processar a informação que a minha mãe me tinha acabado de dar, primeiro, fiquei chateado pelo facto do meu pai não estar presente e não ter tido coragem para falar comigo sobre isso. Segundo, o que realmente eu queria saber e ouvir era: “se fui eu o culpado? ”; “o pai deixou de gostar de nós?”; “como iria ser a minha vida daí em diante ?”. As respostas a todas estas perguntas apareceram, gradualmente, muito mais tarde e não da melhor forma possível.

Aquilo que pensava ser um tormento de discussões que naquele dia teria terminado, era apenas uma ilusão porque a partir daí foi muito pior! No início, pequenas atitudes inconscientes, da parte da minha mãe, denunciavam o decorrer deste filme de terror. Atitudes como: no momento de ir para casa do meu pai, a minha mãe ficava agarrada a mim durante imenso tempo e dizia que se eu quisesse, ela ia buscar-me a casa do pai. Sem ser propositado, era como se a minha mãe estivesse a dizer que o meu pai não conseguia tomar conta de mim e que eu não ia gostar de estar com ele. Quando eu voltava da casa do meu pai, a minha mãe fazia-me muitas perguntas e todas as respostas que eu dava, ela contra-argumentava: “já vi que gostas mais de estar com o teu pai”. Estas pequenas atitudes, muitas vezes, inconscientes por parte da minha mãe, foram tomando proporções desmedidas.  As discussões pelo telefone aumentaram de tom, os insultos eram cada vez piores e agora já era sobre mim, tudo na minha vida servia de desculpa para eles discutirem, ainda mais do que antes da separação. Durante cerca de um ano, ouvia a minha mãe chorar, ouvia a minha mãe pronunciar frases do género: “o teu pai não quer saber de nós”; “o teu pai não paga nada, sou eu que pago tudo!”; “ele não quer saber de ti, só da namorada nova”; “o teu pai não gosta de ti e por isso destruiu a nossa família”. Frases como estas e outras bem piores repetiam-se vezes sem conta na minha cabeça.

À medida que o tempo foi passando fui construindo uma ideia totalmente errada e deturpada do meu pai. Não queria estar com o meu pai com medo de trair a minha mãe. Eu estava muito triste e confuso porque toda aquela informação negativa sobre o meu pai não correspondia à minha realidade. Nos primeiros tempos que estive sozinho com o meu pai aos fins-de-semana, eu adorei: passeámos muito, ele fazia-me rir e estava sempre bem disposto. Era uma sensação tão boa, que às vezes não queria voltar para casa, desejava ficar mais tempo com o meu pai. Este sentimento contrastava com toda a informação negativa da minha mãe. Eu simplesmente era criança e não percebia o que a minha mãe, por vezes também inconscientemente, me estava a fazer, a mim e a ela própria. Eu vivi aquela tristeza com a minha mãe, como se o meu pai se tivesse separado de mim também, como se o meu pai me tivesse trocado. Chorei com a minha mãe, dormi com a minha mãe muitas noites para a acalmar, por fim assumi o papel de pai e tomei conta dela.

Ao final de um ano, a angústia apoderou-se de mim. Com esta ambivalência de pensamentos e sentimentos comecei a baixar as notas. Não tinha irmãos com quem compartilhar a minha dor, tinha medo de cães por isso não havia companhia animal e tinha acabado de mudar para uma escola nova onde ainda não tinha amigos porque passava os intervalos sozinho a pensar em inúmeras coisas horríveis sobre mim e sobre a vida. Por fim, chegou o dia em que a minha mãe me levou a uma Psicóloga, que depois de avaliar o meu estado emocional resultante, segundo ela, de uma possível alienação parental, falou com a minha mãe.  A minha Psicóloga deu uma oportunidade à minha mãe para mudar a sua atitude e me colocar de novo em contacto com o meu pai. Foi um percurso longo, até tudo voltar a acalmar. Hoje tenho 18 anos e deixo vários conselhos a todos os pais que se estejam a pensar separar:

No momento de separação:

  • É importante que sejam os dois a falar;
  • Nós não queremos saber com pormenor o motivo da separação. Precisamos, isso sim, de informação reduzida e simplificada;
  • Queremos saber se fomos ou não os culpados;
  • Precisamos de ouvir que a separação é definitiva e vocês já não vão voltar mais a estar juntos;
  • Queremos ouvir que apesar de vocês se irem separar um do outro, não se vão separar de nós e vão continuar a gostar de nós;
  • Precisamos muito de saber como vai ser a nossa vida daí para frente: o que vai mudar?; quanto tempo vou passar com o pai?; como vão ser as férias e os aniversários?;
  • Por último: queremos que estejam disponíveis para esclarecer qualquer dúvida que ainda possamos ter.

Após a separação:

  • Guardem para vocês todas as coisas más que pensam um sobre o outro. Para sermos felizes precisamos de construir uma imagem positiva dos dois;
  • Quando falarem mal um do outro, com alguém ou ao telefone, tentem garantir que nós realmente não estamos ou não conseguimos ouvir;
  • Não queremos servir de “espiões” da vida de cada um de vocês e por isso dispensamos perguntas detalhadas sobre o que fizemos em casa de cada um;
  • Tudo o que está relacionado com o dinheiro, entendam-se! Quando somos pequenos, nós não precisamos saber se o pai ou mãe não pagam o que devem;
  • Nós compreendemos a vossa dor e até vos podemos ajudar nas tarefas de casa, mas vocês já são grandes para tomarem conta de vocês próprios emocionalmente, não precisamos de viver a vossa tristeza. Temos o direito de viver a nossa própria tristeza e também, precisamos de tempo para nos adaptarmos a esta nova situação;
  • Por fim, quando tiverem outra pessoa na vossa vida – namorada(o), antes de nos apresentarem, tenham a certeza de que há uma forte possibilidade de dar certo. Não precisamos de conhecer todos os vossos namorados(as) porque: não vamos querer dar confiança a uma pessoa que não sabemos se vai ou não desaparecer da nossa vida; deixamos de confiar em vocês; e sobretudo, porque deixamos de acreditar no amor!

Carta de um pai divorciado

Não foi isto que eu sonhei. Sei que o cenário do vestido branco e da festa é uma representação maioritariamente feminina. Talvez seja uma imposição cultural. Como homem, também tive os meus sonhos. Sei que posso ser um pouco conservador (às vezes os meus amigos chamam-me “careta”) mas tenho legitimidade para sonhar. Não tenho?!

Sonhei com um casamento para a vida. Pronto, já disse. Sonhei que íamos ao jardim das estrelas do nosso entendimento. Sonhei com passeios à beira mar em tardes de cinema. Passeios sempre com a temperatura amena. Brisas afáveis e doces, partilha e entendimento.
Sonhei com a concórdia na educação dos nossos filhos. Idealizei uns sogros que ajudavam.
Mas as coisas não foram assim.

Quando recebi a primeira carta do tribunal, já tudo me parecia um pesadelo. Hoje, já não me custa como no primeiro dia. A dor mudou. A dor está diferente. A dor piorou. É quase insuportável.
O pai só não pode amamentar! De resto podemos fazer tudo.
Claro que há pais que não são assim. Conheço demasiados maus exemplos. Mas eu sou diferente!

Quando recebi a segunda carta do tribunal, já nem era eu. O solavanco, as mentiras, as acusações, a maré negra de sentimentos a matar os sonhos. Quero educar os meus filhos. Estou sozinho nesta luta. Até a minha mãe diz que “os filhos são das mães”. Das mães? Os filhos são do mundo! Estou errado? Hoje sou pai em dias alternados. Há a guarda partilhada dos afetos. Há esta expressão sem sentido.

Suponho que tenhas receio que não os saiba educar. Suponho que a advogada te aconselhou mal. Suponho…e custa-me tanto. Quero ser pai a tempo inteiro, quero voltar a sonhar. Posso?

Nem quero acreditar no que me dizem. Algumas das pessoas que me rodeiam falam na hipótese de manipulação da tua parte. É verdade? Eras capaz de manipular os nossos filhos?

Espero que consigas rodear-te de amigos verdadeiros. Amigos capazes de alertar, caso comeces a falhar.

Lembro-me que os psicólogos em Portugal, uma das primeiras intervenções que tiveram, foi exatamente nas questões do divórcio. Só que isto foi há 20 ou 30 anos! Agora, no século XXI ainda há quem instrumentalize as crianças? Ainda há quem ache que a razão está só de um lado? Agora faz algum sentido, eu dar comigo a pesquisar por “Richard Gardner”? Levo os nossos filhos para férias e sinto a condescendência das pessoas. “Ai tão lindo, o pai a tratar deles todos” “Que corajoso, um pai sozinho com tantas crianças.” “Quer ajuda? Onde está a sua mulher?” E as “partilhas de amigos” que fizemos? Muitos ficaram do teu lado.

 

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Querido pai,

Sei que nunca sonhaste ter filhos, não fizeste planos nesse sentido e hoje, tantos anos depois, tens três. Deixa-me dizer-te que para quem não ambicionava tal coisa, fizeste-a bem.

O mano e eu chegámos e mudámos a tua vida. Não me lembro dessa fase, mas sinto que a vivo um bocadinho através das fotografias que vejo, das histórias que me contam.

Lembro-me vagamente da conversa que tivemos e em que explicaste que ias viver para outra casa. Na altura não o entendi, hoje aperta-me o coração entendê-lo mas tranquiliza-me saber que correu tudo bem. Que a mãe e tu fizeram um trabalho incrível em tentar que a nossa vida (minha e do mano) continuasse o máximo possível como a conhecíamos. Hoje, essa foi a vida que vivemos e mal nos lembramos de quando éramos os quatro debaixo do mesmo tecto.

Pouco importa, porque sei que a vida é assim mesmo. Tomam-se decisões, a vida avança, faz-se o melhor que se pode.

E eu sou quem sou porque vivi tudo isso, porque cresci rodeada de amor, porque, ao contrário de tantas crianças, nunca fui infeliz por ter os pais separados.

Vi-te desenrascar-te na cozinha para que o mano e eu tivéssemos as melhores refeições, as mais saudáveis e completas. Vi-te ajudar-nos nos trabalhos de casa sem os fazeres por nós. Vi-te organizares os fins-de-semana para que fizéssemos sempre qualquer coisa juntos, já que era “o nosso tempo”. Vi-te levar-nos às compras e explicar-nos o que valiam, o que custavam. Vi-te passares as tuas férias repleto de actividades que eram boas e divertidas para nós sem nunca te queixares. Nunca. Vi-te ser um bom filho e, sem saberes, a incutir-nos esses valores de respeito para com os avós. Vi-te ser um bom irmão mais velho para os teus irmãos, a ajudar sempre, a estar presente e a não deixar transparecer a dor quando a vida te roubou a oportunidade de continuares a fazê-lo para sempre. Vi-te voltar a ser pai sem que isso te fizesse descurar os filhos que já cá estavam. Vi-te ensinar a mana a comer, a falar, andar, a brincar. Vi-te protegê-la e cuidares dela, mais perto do que fizeste connosco, mas com o mesmo amor. Vi-te preocupares-te comigo e com o mano, com o nosso futuro. Vi-te ficares feliz com as nossas conquistas, com as nossas escolhas. Vi-te ajudares como podias sempre que as coisas não corriam como planeado. Vi-te sonhar os teus netos. Vi esse dia chegar uma e outra vez. Vi-te ser avô, um avô tão brincalhão e divertido como sempre foste como pai. Tão sério e correcto nas alturas certas. Tão babado que nos deixa, ao mano e a mim, babados também.

É por tudo isto que não tenho pudor nenhum em dizer que sou filha de pais separados. Tive um pai mais presente (tenho) do que muitas pessoas têm a sorte de ter, mesmo com os pais juntos.

Tenho um pai que me conhece, que não precisa de muito para saber o que se passa comigo – seja bom ou mau.

Tenho um pai como todas as crianças, independentemente do casamento dos seus pais, deveriam ter. Tenho a sorte de ter um pai. Ponto.

 

Querido pai da minha filha:

A nossa Mariana já começa a saber a sorte que tem por te ter como pai. Quer fazer as coisas em conjunto, em família. Sabe-lhe bem ter-nos aos dois presentes sempre que possível. Gosta de nos dar a mão, uma a cada um, enquanto andamos na rua. Porque é isto que nos espera: um caminho em que o ideal é caminharmos lado a lado – a três, enquanto não formos mais.

Ambos vimos de casamentos que terminaram, ambos tivemos de aprender a gerir as saudades, as expectativas. Ambos queremos que a Mariana nunca tenha de o fazer (por mais positiva que tenha sido a nossa experiência).

Sei que ela vê aquilo que eu vejo:

Um pai que, acima de tudo, é todo amor.

Um pai que a conhece e sabe como brincar com ela.

Que ensina, mas é flexível.

Que canta mesmo sem conseguir acertar nas melodias.

Que usa os truques certos nas alturas exactas.

Que tem uma cumplicidade como vemos poucas.

Que a inclui e não a trata como tontinha, que sabe que ela compreende tudo, dentro das suas capacidades.

Que a vê como uma extensão sua: com os sonhos ainda a desabrochar, com um sentido de humor apurado, com uma perspicácia incrível.

Que é um companheiro perfeito.

Está a ser uma viagem e tanto. Graças aos meus pais (ao meu e ao da minha filha) sou uma pessoa melhor. Uma mãe melhor. Uma filha melhor.

Sou, toda eu gratidão.

Obrigada, meus amores.

 

P.S. – Sei que nos processos de separação nem sempre os adultos agem como devem. Por incapacidade, por indiferença, por mágoa. O essencial, na minha experiência, é parar para pensar: se fosse connosco como gostaríamos que as coisas acontecessem? Pode fazer toda a diferença. Se se está a separar e tem filhos, procure ouvi-los. Se ainda não são capazes de se exprimir, procure compreendê-los. Procure não lhes “roubar” mais do que aquilo que inevitavelmente terá de acontecer. Se é filho, procure compreender os seus pais. Faça-se ouvir: sem exigências, sem julgamentos, sem os deixar com peso na consciência. O diálogo é a chave. E na ausência de palavras, deixemos o amor falar mais alto.

Alienação Parental!?!?

Hoje sinto-me triste, angustiada e com medo….

Que mundo é este em que em nome do amor, ou melhor, de um suposto amor que não consigo compreender, não se olha a meios para atingir fins e como se fossem máquinas trituradoras, as pessoas vão destruindo tudo o que está à volta!?

Que justiça é esta que em vez de actuar como guardiã dos direitos das crianças, protegendo-as e prevenindo o seu desgaste emocional, age com base em ideias e conceitos pré-concebidos!?

Afinal o que é isto da Alienação Parental!?

Desde que comecei a acompanhar um caso onde a “suposta síndrome de alienação parental” era referida em todos os documentos e pronunciada em voz alta como justificativa de todos os comportamentos do menor e ajudava a camuflar as acusações a que os progenitores estavam sujeitos, dei por mim a pensar muito sobre este tema….

Antes de mais sou uma convicta defensora dos direitos quer dos pais, quer das mães ao convívio com os filhos e considero que uma criança deve crescer com a presença de ambos os progenitores na sua vida, mas acima de tudo sou uma defensora dos direitos das crianças! São poucas as situações de divórcio que decorrem com a integridade, serenidade, altruísmo e bom senso que o momento exige e infelizmente são poucos os adultos que conseguem colocar de lado o seu bem-estar pessoal, as suas angústias, medos, culpas, raivas e tantos outros sentimentos que se misturam nestas ocasiões, em benefício dos menores, na proteção das suas emoções, do seu equilíbrio e da sua felicidade.

É nesta conjuntura de desarmonia que surgem conceitos como o da alienação parental – Disfunção nos relacionamentos estabelecidos no sistema familiar com ação abusiva de um dos progenitores que influencia e manipula a criança a desenvolver uma imagem negativa ou mesmo repúdio pelo outro progenitor

Este conceito introduzido por Richard Gardner em 1985 é tão complexo que a Associação de Psiquiatria Americana na sua última e recente revisão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, não aceitou, para já, incluir esta “síndrome” nos vários transtornos que o manual reconhece e caracteriza. No entanto, e embora não existam ainda critérios de diagnóstico definidos pela comunidade científica que nos permitam identificar e determinar a sua ocorrência, este conceito, tem sido amplamente utilizado pelo sistema judicial, muitas vezes com claro prejuízo das averiguações necessárias na real defesa do interesse dos menores.

Será que a Justiça Portuguesa viu neste novo conceito uma solução mais fácil e linear de resolver problemas complexos e simplificar o processo de decisão? Será que é uma forma mais simples de deliberar sobre casos para os quais na realidade não temos recursos necessários, ou não despendemos os recursos necessários, para concluir e decidir com segurança pelo bem-estar do menor?

Na verdade, aquilo que poderia parecer como algo facilitador do processo legal tem sido um obstáculo à seriedade e à verdade e temos assistido a deliberações jurídicas verdadeiramente arrepiantes. Quanto mais cresce esta moda da “Alienação Parental” mais parece que tudo encaixa nesse enorme e subjetivo conceito e pior porque parece que possibilita uma certa desresponsabilização dos diferentes intervenientes no processo, que avaliam e decidem de forma rápida, assuntos sérios e de difícil averiguação.

Alienação Parental, infelizmente existe sim, mas nem tudo é alienação parental! 

A relação terminara há muito. Nada voltaria a ser como antes e a cada dia que passava o mal-estar aumentava arrastando tudo à volta de ambos…Já não dormiam em sono profundo, já não sentiam vontade de estar um com o outro mas quando se separavam parecia que alguma coisa faltava…Os dias corriam e ninguém tomava a decisão que ambos sabiam que teriam que tomar.

A vida seguia e não era suposto viverem assim…

Ele deu o primeiro passo. Não quis conversar muito sobre o assunto, apesar de ela insistir em esclarecer aquilo que ambos conheciam de trás para a frente.

A diferença entre homens e mulheres estava muito visível neste momento. Ele poupava-os a mais conflitos, pensava… Ela ficava no vazio do silêncio.

Entrou no consultório e a primeira coisa que disse foi que não sabia viver assim… Conheciam-se de miúdos, namoraram muitos anos e o casamento era o que mais queriam naquela fase distante. Diz que com a chegada dos filhos e as responsabilidades profissionais tudo se complicou e desencontraram-se até hoje…

Acha que ainda o ama, mas não tem a certeza de saber o que isso quer dizer. Se por um lado não imagina a vida longe dele, por outro não sabe o que seria de ambos se continuassem juntos. Há anos que deixaram de fazer as coisas que os uniam, porque cresceram e os interesses mudaram ou porque simplesmente deixaram de pensar no que lhes dava prazer fazer.

Já não sabe do que gosta realmente, e acha ridículas as escolhas dele no que toca aos tempos livres. Diz que ele parece que não quer crescer…será?

Isto não é um casamento, pois não? – pergunta angustiada, sabendo de antemão a resposta.

Quando se acalma confessa que sabe que sente falta, não desta relação, mas daquela que ambos projetaram.

Para existir a possibilidade de uma reconciliação tem que haver uma vontade de ambos em reconstruir o que se perdeu aos poucos.

Com o tempo conclui que talvez tenha que investir em si própria, em recuperar o seu “eu” perdido e confessa que ainda quer ser feliz.

Ele tem feito de tudo para manter uma relação cordial com ela. Também ele está a tentar reencontrar-se. Não consegue exteriorizar o que sente da mesma forma mas vai fazendo o seu caminho. Sabe que vão ter que comunicar a bem dos filhos.

Saiu de casa e está a organizar-se para ter um espaço onde possa pela primeira vez cuidar e estar com as crianças sem o apoio dela. O primeiro fim-de-semana com os miúdos correu melhor do que esperava. Tantas vezes lhe disseram que ia ser complicado que acabara por acreditar, mas afinal percebia que não tinha que ser assim.

Sentem ainda um vazio, mas no fundo sabem que é reflexo apenas da mudança de rotinas.

As crianças estão bem. Desde que pararam as discussões parecem estar mais leves e tranquilas. Há dias em que falam abertamente sobre a separação e parecem mais adultas do que os adultos…

Ambos, ele e ela, oscilam entre dias em que acordam convictos de terem tomado a decisão certa e outros em que apetece pegar no telefone e dizer: ” Vamos fazer de conta que nada disto se passou? ”

Com o tempo encontram cada um o seu rumo. Percebem que dentro das suas cabeças existem “duas pessoas”. Uma que luta para ser feliz, andar para a frente e encontrar um equilíbrio. Outra, que insiste no ideal de um passado projetado, mas ilusório.

Quando um dia tomam consciência plena e se sentem mais fortes, escolhem ficar com a primeira, escolhem ser a primeira, escolhem viver!

imagem@themes

As situações de divórcio, como vivências de ruptura difíceis de ultrapassar requerem alguns ingredientes que ajudem a facilitar o processo a bem de todos os membros da família em questão.

Costumamos pensar que a fase em que um sai de casa e acontece a separação é a mais difícil…mas nem sempre é assim.

Depois disso várias decisões terão que ser tomadas, num rodopio de emoções nem sempre é fácil optar por caminhos certos e muitas vezes sentimo-nos rodeados de “experts” que tudo parecem saber mas que em nada nos ajudam de facto.

Muitas vezes o momento de separação é sentido como um alivio para uns, senão para todos. É a fase em que havendo “espaço” se corta com as rotinas de desgaste constante a que muitos se sujeitam, às vezes durante anos. É natural haver uma fase de quase “ressaca”, quando o período pré-separação se viveu de forma turbulenta.

As crianças também podem reagir pouco, ou de forma até aparentemente positiva nesta  fase, já que também elas passaram por momentos difíceis, dentro da dinâmica de conflito entre os pais.

Importa dizer que cada família é uma família, singular e única. Não havendo assim formulas mágicas, nem procedimentos estanques que se possam recomendar a todos.

Cada família tem a sua história, o seu percurso e cada membro da família tem por sua vez a sua experiência, e uma forma única de viver momentos de transformação.

As palavras ruptura, divórcio, separação têm necessariamente uma conotação negativa, e de facto reportam sempre a um momento difícil, de aceitação de que algo falhou.

Mas existem formas de seguir um caminho de escolhas ponderadas e tranquilas. Onde seja viável optar por tomar decisões certas e positivas. Onde seja possível vivenciar um processo de transformação favorável e evitar deixar perdurar as sequelas de um momento menos bom das nossas vidas.

Aqui aprendemos a viver (bem) um divórcio!

imagem@camillatargher

A palavra Recomeçar é assustadora…implica voltar a arrancar a uma velocidade que já não sabemos se conseguimos ou queremos acompanhar…implica assumir que alguma coisa nos fez parar onde estávamos e existe a necessidade de voltar a marcar um novo ponto de partida…

Partir para onde? Com que forças? Sem ânimo? Por obrigação…só porque sim, porque o destino assim o quis…

Faltam forças, falta entusiasmo e falta paciência!!
Até ao dia em que acordo e decido, sem saber, querer recomeçar!
Na verdade acontece por defesa, por sentido de sobrevivência, ou porque os deuses devem estar loucos! Mas é assim mesmo…
Com distância, percebemos que nada mais fizemos senão dar tempo ao tempo, dar tempo ao corpo e à mente, dar tempo à cura…
A vida só se faz com avanços e recuos, dizem!
A vida é percorrida com a “ajuda” ou o “inferno” de alguns acontecimentos inesperados, ou não…mas tiremos da cabeça a ideia de que apenas o tempo se encarrega de nos fazer ultrapassar obstáculos!!
Pensando bem, não é apenas esperando que tudo volta a parecer melhor.
É querendo, é estando atento, é aproveitando tudo o que de bom se atravessa no nosso caminho, sem medos, sem reservas. Contando com as aprendizagens do passado, tentando não cair nas mesmas “asneiras”, mas acreditando uma e outra e outra vez que é possível recomeçar…sempre que em nós haja a vontade de pôr um ponto final em tudo o que, apesar de não querermos ver…já não nos faz feliz!

Encontrar as estratégias certas nesta fase pode ser um salto gigante no ultrapassar de obstáculos que parecem teimar em ficar!!

Divorciados mas não separados

De facto deixámos de viver na mesma casa. Não partilhamos a nossa vida pessoal um com o outro desde que tomámos a decisão de nos divorciarmos.

Nunca poderemos dizer que da nossa relação restou pouco já que ela durou uma grande parte das nossas vidas, do nosso crescimento, das nossas experiências.

Para além disso, o mais importante – dos dias melhores da nossa vida nasceram os nossos filhos.

Além da existência real destes, ainda pequenos seres, ficará para sempre a memória conjunta do dia em que soubemos que iam nascer. Dos momentos em que festejámos e partilhámos com os mais próximos o grande mistério das suas vidas.

Eles não nos permitem uma separação efectiva, nem forçada nem imaginada, menos ainda desejada.

Contrariar ou negar um tempo passado com esta qualidade é o mesmo que fugir de si próprio. Fugir da sua própria vida, passado, presente e obviamente futuro…

Quando tomámos a decisão de nos divorciarmos, toda a dor sentida nos fez, eventualmente, rever os momentos maravilhosos que vivemos.  E também pôr em questão tudo o que aparentemente desaprendemos ao longo do tempo. Em vez de um rumo naturalmente esperado de evolução como um todo, sentimos que deixámos de controlar o que juntos planeámos.

Por muita dor, mágoa e arrependimento que possam ficar, ainda nos resta a possibilidade de seguirmos o rumo da parentalidade que ambos sonhámos viver. É verdade que com algumas diferenças substanciais do modelo que tínhamos interiorizado, mas a possibilidade existe!

O caminho não será tão linear, não será tão amparado; mas com amor, equilíbrio, respeito e altruísmo é um caminho possível e com tendência a evidenciar-se como positivo.

O que é ser pai hoje? Qual é o papel da mãe nos dias que correm?

E ser filho? O que é ser filho neste mundo louco em que corremos atrás da felicidade e da perfeição!?

Conseguir olhar para um filho como aquele ser que nos é colocado no trajeto de vida para encaminharmos, protegermos e prepararmos para um caminho que será só seu.

Olharmos para um filho com a responsabilidade de o vermos como um ser independente de nós. Um ser que sente por si, que vive uma experiência de vida que não deve ser a nossa, mas sim a dele.

Percebermos a importância de partilhar decisões com a pessoa com quem decidimos gerar esta vida. Trabalharmos diariamente as competências pessoais que nos permitam não nos separarmos de quem connosco partilha um papel, um lugar, uma missão que o coloca no mesmo lugar do pódio.

Partilhar para sempre o 1º prémio, sem lugar a disputas, a bem daqueles de quem nunca nos divorciaremos – os filhos!

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Residência Alternada – A instabilidade pré-concebida ou o Altruísmo equilibrado?

Pedem-me com cada vez maior frequência que me pronuncie sobre o Regime de Residência Alternada.

Que explique porque é que agora parece estar “na moda”. Porque é que de repente tem tantos defensores e parece ser um modelo ideal após a decisão de separação por parte dos progenitores.

A Residência Alternada pressupõe que após a separação dos pais, os menores estejam com ambos por períodos de tempo equiparados.

Não falamos de apenas “dar” o mesmo tempo ao pai e à mãe.

Mas falamos idealmente de uma rotina em que os menores convivam com o pai e com a mãe. Possibilitando ambos os progenitores estarem envolvidos no seu dia-a-dia, como alegadamente acontecia enquanto eram casados.

Pressupõe que as crianças vivam por períodos de tempo iguais e alternados em casa da mãe e em casa do pai.

Se à partida este cenário parece ser o ideal?

– Sim, sem dúvida – diremos todos.

Mas fora idealismos cabe-nos a consciência da realidade. Aquela que cada uma das nossas crianças vive no seu dia-a-dia, de facto.

Da experiência no trabalho diário com crianças e com os pais observo grandes dificuldades de manutenção de rotinas adequadas e equilibradas em famílias ditas “estruturadas”…

Observo muitas dificuldades de comunicação nos casais cuja missão de educar se torna cada vez mais complexa com as exigências profissionais e com a multiplicidade de tarefas que a sociedade “impõe” a cada elemento da família desde os mais novos aos mais velhos…

Observo cada vez mais a fragilidade emocional dos pais. Pais que confrontados com a necessidade de darem resposta a todas as áreas da vida pessoal, familiar e profissional delegam para ultimo plano, de forma inconsciente, aquilo que de mais relevante se apresenta para o pleno desenvolvimento das crianças – a estabilidade relacional e emocional familiar.

Ora, perante a separação/divórcio, toda a dinâmica se torna ainda mais complexa. Quando sou questionada acerca da Residência Alternada, invariavelmente caio do pedestal do ideal para a dura realidade do concreto.

Defendo que a Residência Alternada tem que ser uma opção e um ponto de partida sempre que os adultos envolvidos se dediquem a um permanente exercício de altruísmo,. Onde deixam de parte as “raivas” e se predispõem a educar em “equipa”. Deixa de haver espaço à tradicional educação em casal mas mantém-se a necessidade de um trabalho coordenado com o outro progenitor. A bem dos filhos, a bem da sua estabilidade.

Exige que ambos acordem em rotinas diárias semelhantes e que ambos comuniquem entre si de forma assertiva; exige que consigam estabelecer e manter com os seus filhos uma relação de confiança e segurança que os conduza de forma estável.

O que cria instabilidade não é o facto de passarem a viver alternadamente em duas casas, estou convicta.

O que desestabiliza é a alternância de rotinas e de expectativas; é a oscilação entre ambientes securizantes e outros desorganizados ou confusos.

Com isto, quero apenas concluir que na minha perspectiva a Residência Alternada pode e deve ser um ponto de partida. Muito mais exigente do ponto de vista da organização e da disponibilidade dos progenitores.

Será sempre bom partirmos do princípio que as crianças se adaptam bem a novas dinâmicas familiares e a novas rotinas. Sempre que os adultos estejam bem seguros dos seus papéis, e não podemos defender um modelo único para todas as Famílias, pois cada uma delas é singular.

O pai e a mãe separam-se e para agravar tudo atribuíamos um papel de pouca competência à figura paterna. Como se o pai tivesse perdido a capacidade de o ser, só porque deixou de viver na mesma casa que a mãe…

Agora que estão separados, ambos têm que proporcionar aos filhos o seu pleno direito a manterem os laços. A sentirem-se acompanhados por ambos, pai e mãe, independentemente das exigências que as novas rotinas possam trazer. Cabe aos pais definirem em conjunto em que condições.

A casa da mãe e a casa do pai podem muito bem ser o equilíbrio que antes nenhum dos elementos da família conhecia; mas para que este modelo funcione é preciso que seja desejado por ambos, pai e mãe. E da experiência que tenho é quase que obrigatório que esta adaptação se faça com acompanhamento especializado. Acompanhamento que oriente e guie os pais neste novo desafio.

Sempre que não haja a capacidade de cumprir estas regras básicas a opção pelo modelo de Residência Alternada fica comprometida. E com ela toda a possibilidade de êxito no pleno desenvolvimento dos menores.

 

Por Maria Portugal, Divórcio.com.pt

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