Querido filho adolescente,

Quero que saibas que nem sempre uso as palavras corretas para te dizer aquilo que penso e sinto, e que isso te pode fazer sentir triste, zangado ou inseguro…

A minha intenção é sempre fazer-te perceber o que é melhor para ti, mas também sei que quando te digo “tens de fazer isto porque eu mando”, tu ficas sem vontade de cumprir, sentes que não tenho em conta as tuas necessidades e a comunicação entre nós fica bem mais difícil. Talvez sintas muita pressão quando te digo “Devias ter sido tu a fazer isto” e a tua forma de te protegeres é argumentares dizendo que não percebes porque é que tens de ser tu.”

Às vezes dou-te sugestões sobre como deves resolver os teus problemas e digo coisas como “se eu estivesse no teu lugar eu fazia desta forma” ou “mas porque é que não fazes antes como te estou a dizer”, e digo-te sempre isto com boa intenção, mas pensando bem posso estar a transmitir-te a ideia de que tu não és capaz de resolver os teus problemas e tornares-te demasiado dependente de mim para os resolveres no futuro.

Por isso, vou tentar dizer-te mais vezes que gostei de determinada atitude que tiveste, que adoro o teu esforço para alcançares os teus objetivos. Vou também tentar perguntar-te mais vezes se precisas da minha ajuda e oferecer-me para, em conjunto, encontrarmos uma solução, em vez de te dar a solução que me parece melhor, pois penso que assim te vais tornar mais autónomo e vais sentir que estou por perto sem me estar a impor.

Também quero que sintas que presto atenção ao que sentes e que experimentes o cuidado que tenho para contigo, e por isso vou dizer-te mais vezes coisas como “compreendo como te deves estar a sentir” ou “deve ser muito difícil passar por essa situação, se precisares de ajuda diz”.

Tudo o que faço é porque te amo, e isso para mim é tão óbvio, que penso que também o é para ti, e por isso, muitas vezes, esqueço-me de te dizer diretamente o quanto gosto de ti, mas sei como é importante ouvires estas palavras, e por isso vou dizer-te mais vezes “gosto muito de ti” e “é muito bom estar contigo”.

Não sou perfeito (há alguma pai/mãe que seja?!), mas vou tentar ser, a cada dia, um bocadinho melhor e ajudar-te a crescer mais feliz, confiante e tranquilo, começando pelas palavras que usarei contigo.

Por Cátia Teixeira, Psicóloga Clínica

imagem@gettyimages

LER TAMBÉM…

Mensagem que deixei ao meu filho adolescente.

Medo e Ansiedade: Crianças e Adolescentes na hora de ir para a cama

10 pistas para pôr um adolescente a falarem

“As Educadoras de Infância vivem um desafio ao nível das relações interpessoais materializado na dinâmica Educadora-Auxiliar, uma máquina que tentam ter sempre oleada.”

Somos Psicólogos, somos Pais, somos Formadores e desempenhamos um trabalho forte no Desenvolvimento de Competências, onde as Educadoras de Infância são um dos fascinantes públicos com quem trabalhamos. Também trabalhamos Professores, Pais e Alunos, claro. Ensinamos muitas pistas práticas nas (trans)Formações e Worshops Brilhantes, mas naturalmente, também aprendemos muito com as Educadoras de Infância.

Aprendemos de forma fantástica com a sua postura. Alguns dos ensinamentos, nem conseguimos colocar por palavras. Elas são assombrosas, como todas as pessoas que sonham e acreditam no seu trabalho.

Hoje é sábado, não há Escola, nem Pré-Escolar…pode ser uma boa hora para relembrar:

  1. A Educação Pré-Escolar não é Escola. (E ainda bem) É fundamental, porque é a preparação, o lançar das bases emocionais e sociais.
  2. Atenção Pais! Deixem as crianças terem as suas próprias conquistas. As Educadoras de Infância ensinam-nos que cada vitória é uma pedra para a auto-estima da criança.
  3. As Educadoras são muito ativas no delinear estratégias, para não serem “queimadas etapas”. As crianças têm os seus ritmos, os objetivos devem ser esgrimidos com gentiliza e sabedoria.
  4. Por vezes, certos pais, (uma minoria, sejamos optimistas), ainda não entendem a profundidade deste trabalho. Um trabalho onde a relação entre as crianças é uma base incrível!
  5. As crianças são todas diferentes e nas inter-relações que surgem, há muito valor para ser capitalizado.
  6. “OCEPS” não é um palavrão esquisito, são as Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar . Estas foram recentemente remodeladas para estarem mais de acordo com a realidade cultural e histórica.
  7. Para as crianças evoluírem, as Educadoras de Infância reúnem muito e trabalham em equipa, planificando e estando sempre à procura de novas ideias.
  8. Por vezes, pensam que os Pais ficariam de boca aberta se pudessem espreitar o dia-a-dia das suas crianças. Elas superam-se, elas cantam, elas brincam, elas defendem-se, e, como não podia deixar de ser, elas também atacam.
  9. As Educadoras de Infância vivem um desafio ao nível das relações interpessoais materializado na dinâmica Educadora-Auxiliar, uma máquina que tentam ter sempre oleada.
  10. As Educadoras de Infância, trabalham inseridas numa instituição com as suas regras, planos e direções. Isto é bom. Mas também pode ter factores negativos, quando a direção limita a sua ação.
  11. Embora possa ser complicado para alguns Pais, o progresso de cada criança é individual. Não é suposto avaliar nem classificar a criança na Pré-Escolar.

Assim, Pais, reforcemos todos este fascínio por esta profissão que vai deixar marcas positivas no desenvolvimento das nossas crianças.

Deixamos em sua homenagem e para inspiração dos Pais, estas palavras:

O importante é ler, escrever e contar
O importante é ter, olhar e ouvir
Mas o mais importante, é ainda mais que isso
O mais importante, é ainda mais que isso

Há que recuperar o espaço para sonhar, cantar e brincar
Porque crescer não é apenas para o ar
Queremos crianças a crescer no interior,
onde o crescer atrai esperança e valor

O mais importante é crescer em relação, viver nas diferenças
O importante é crescer e saber que o importante é
Ser, observar e escutar   
O mais importante é ser, observar e escutar

imagem@rodavivagoiana

LER TAMBÉM…

Alfabetização precoce é perda de tempo

O jardim de infância é mais importante que a faculdade

Ingressar no 1º ano com 5 anos ou aguardar um ano no pré-escolar?

 

As crianças de hoje são os adultos de amanhã

De há uns anos para cá, frases como: “ A juventude está perdida”; “ Os jovens de agora não sabem o que querem”; “ Eles (os jovens) não percebem o que é a vida”, têm sido muito frequentes nas bocas dos “mais velhos”, ainda que sempre tenham sido proferidas ao longo dos tempos, nas mais diversas épocas geracionais. Há uma ideia construída ao longo das diversas gerações de que na actualidade (nas suas diversas actualidades) a juventude estará a incorrer numa série de comportamentos menos positivos. Contudo e até agora, nunca tínhamos realmente verificado algumas dessas ideias, e muito menos, as repercussões das mesmas na saúde mental das crianças e jovens.

A depressão infantil é um exemplo dessas repercussões. Segundo dados do National Institute for Health and Care Excellence (NICE), no Reino Unido, já são mais de 80 mil crianças diagnosticadas anualmente, 8 mil delas menores de 10 anos. Em maio, a Organização Mundial da Saúde (OMS) revelou que o transtorno depressivo é a principal causa de incapacidade de realização das tarefas do dia a dia entre jovens de 10 a 19 anos. No Brasil por exemplo, estima-se que a incidência do distúrbio gire em torno de 1 a 3% da população entre 0 a 17 anos, o que significa, mais ou menos, 8 milhões de jovens. Estes indicadores verificam-se igualmente em Portugal, com o mesmo tipo de preocupação. Em paralelo, o isolamento social, situação grave que afasta as crianças e jovens da integração social e afectiva ( que supostamente deveria ocorrer desde cedo e de forma constante), e que anda naturalmente a par com a depressão, vai provocando um afastamento dos parâmetros sociais naturais nos seres humanos, tais como a relação com o próximo, como se faz essa relação, como comunicar com o outro, como lidar com o conflito, como gerir o mesmo, como lidar com a relação amorosa com o outro, etc. Por outro lado, junta-se ainda o aumento da falta de acompanhamento de alguns pais, nalguns casos e não tão poucos assim, a alienação parental completa, cujas razões são diversas, umas compreensíveis outras nem por isso, mas que no fim, todas têm repercussões no desenvolvimento emocional e psicológico da criança e jovem.

A verdade é que os problemas referidos acerca das crianças e jovens são cada vez mais verificados e comprovados. Isto traz-nos uma preocupação acrescida não só do ponto de vista da saúde mental e emocional destas crianças e jovens, mas também, da reflexão de como será a sua inserção num mundo cada vez mais exigente, mais implacável e mais limitativo. Parece que após um longo período ditaturial, a noção de direitos do cidadão na sociedade que foi felizmente conquistado, veio dissociado da noção de obrigação do cidadão para com mesma.  A verdade é que na construção da identidade humana ( personalidade), as regras, normas, limites têm uma função avassaladoramente importante, construtiva, orientadora e securizante. Saber aceitar o não de alguém, de algo, tem o mesmo valor que saber dizê-lo. Mas a sociedade, de forma inconsciente, tem vindo a desresponsabilizar as crianças e jovens, fazendo com que as normas sociais, limites éticos, responsabilidade para com o espaço vital de cada um, respeito pela diferença, motivação para o trabalho, cumprimento de regras, resistência à frustração de não conseguir as coisas à primeira, entender que nem sempre quando nos esforçamos vamos conseguir, pareça coisa de ficção científica. O que para uns (pré-ditadura e talvez a primeira geração pós 25 de Abril) conquistar algo exigia determinação, esforço, dedicação, sacrifício, sabendo que nada seria imediato, nalgumas crianças e jovens  da actualidade recente (grande maioria) a quem chamo de “geração pipoca” ( pois tudo tem de ser feito/adquirido de forma imediata),  querem tudo para ontem, com pressa, sem resistência à frustração por não terem logo o que desejam, sem que façam esforço para tal, sem que trabalhem para tal, sem que se sacrifiquem para tal.

Apesar das dificuldades, trabalho ( tal como muitos dos meus colegas) todos os dias para que estas crianças e jovens sejam amanhã adultos felizes, realizados e trabalhadores e  para que cada vez mais os pais se disponibilizem para entender de que este não é o caminho ideia para os seus filhos hoje, cidadãos amanhã.

Por Patrícia Câmara Pestana, para Up To Kids®

LER TAMBÉM…

As crianças precisam de aprender a esperar

Depressão na adolescência

Nós somos as mães dos homens de amanhã: educar para a igualdade de género

 

imagem@allevents

Uma criança não nasce para estar sentada a ver televisão ou agarrada aos gadgets. Uma criança não quer estar calada o tempo todo.

Uma criança saudável é espontânea, barulhenta, inquieta, emotiva e colorida

As crianças gostam de se mexer, de explorar, de experimentar coisas novas, criar aventuras e descobrir o mundo que as rodeia. Estão a aprender e são como esponjas, são brincalhonas natas, caçadoras de tesouros e potenciais furacões.

As crianças são livres, são almas puras que tentam voar e não querem ficar num canto amarradas ou com algemas. Não as façamos escravas da vida adulta, da pressa e da nossa escassez de imaginação.

Não as apressemos para o nosso mundo de desencanto. Tentemos potencializar a sua capacidade de se surpreender. Precisamos de garantir que tenham uma vida emocional, social e cognitiva rica de conteúdos, de perfumes de flores, de expressão sensorial, de alegrias e de conhecimentos.

O que se passa no cérebro de uma criança quando brinca?

Brincar traz benefícios para as crianças a vários os níveis (fisiológico-emocional, comportamental e cognitivo).
De facto, podemos falar de diversas repercussões inter-relacionadas com o brincar:

  • Regula o estado de ânimo e ansiedade das crianças
  • Favorece a atenção, a aprendizagem e a memória.
  • Reduz a tensão dos neurónios, favorecendo a tranquilidade, o bem-estar e a felicidade.
  • Magnifica a motivação física, e graças a esse factor, os músculos reagem dando mais motivação para continuar a brincar.

Isto favorece um estado ótimo para a imaginação e a criatividade, ajudando-as a aproveitar a fantasia que as rodeia.

A sociedade tem vindo a alimentar a hiperparentalidade, ou seja, a obsessão dos pais para que seus filhos alcancem habilidades especificas que garantam uma boa profissão no futuro. E enquanto sociedade e educadores, acabamos por nos esquecer de que o valor humano não se mede pelas avaliações escolares, e que se não abrandarmos o nosso empenho de priorizar os resultados, estamos a descuidar algumas habilidades de grande importância para a vida.

Os nossos filhos são pessoas pequenas que precisam de ser amadas independentemente de tudo. Não se definem pelas suas conquistas nem fracassos, mas sim por elas mesmas, únicas por natureza.

Enquanto crianças não somos responsáveis pelo que recebemos na infância mas, como adultos, somos totalmente responsáveis pelo que proporcionamos aos nossos filhos.

Simplificar a infância da criança, educar bem

A expressão “cada pessoa é única” precisa urgentemente de ser interiorizada. É uma expressão muito aplicada, mas na prática o que se verifica é uma tentativa de educar todas as crianças segundo as mesmas regras.
Este erro é muito generalizado, muito comum e nada coerente com a expressão oral aplicada.

Kim Payne, professor e orientador norte-americano, afirma que estamos a criar os nossos filhos com base em quatro perigosos pilares:

  • Excesso de Informação
  • Excesso de coisas
  • Excesso de Opções
  • Excesso de Velocidade

Impedimo-los de explorar, refletir ou libertarem-se da pressão imposta pela vida quotidiana. Estamos a empanturra-las de tecnologia, de brinquedos e de atividades escolares e extracurriculares.
Estamos a distorcer a infância e, o que é mais grave, é que estamos a impedir os nossos filhos de brincarem e de se desenvolverem.

Atualmente, as crianças passam menos tempo ao ar livre (muito menos). Por quê? Porque as mantemos “entretidas e ocupadas” noutras atividades que achamos mais necessárias, procurando que fiquem limpos e não se sujem de barro. Isto é inaceitável e, acima de tudo, extremamente preocupante. Analisemos algumas razões pelas quais precisamos mudar:

  • O excesso de higiene aumenta a possibilidade de que as crianças desenvolvam alergias, tal como demonstrou uma pesquisa do hospital Gotemburgo, na Suécia.
  • Não permitir que brinquem ao ar livre é uma tortura que enclausura o seu potencial criativo e de desenvolvimento.
  • permitir que se mantenham colados aos gadgets é tremendamente prejudicial a nível fisiológico, emocional, cognitivo e comportamental.

Podíamos continuar, mas realmente neste ponto, acredito que a maioria de nós já tenha encontrado inúmeras razões que mostram que estamos a destruir a magia da infância.

Como afirma o educador Francesco Tonucci:

“A experiência das crianças deveria ser o alimento da escola: a sua vida, as suas surpresas e as suas descobertas. O meu professor pedia sempre que esvaziássemos os bolsos antes da aula começar. Porque estavam cheios de testemunhas do mundo exterior: bichos, cordas, cromos, berlindes, etc que seriam potenciais distratores durante a aula. Atualmente devíamos fazer o oposto: pedir às crianças esvaziassem os bolsos na mesa da sala de aula. Assim seria possível integrar as crianças com os seus conhecimentos e trabalhar à sua volta”.

Esta, sem dúvida, é uma forma muito mais sadia de trabalhar, de educar e de garantir o seu sucesso. Se em algum momento nos esquecermos, deveríamos ter a seguinte nota mental muito presente: “Se uma criança não precisa de tomar banho com urgência mal entra em casa, é porque não brincou o suficiente”.

Esta é a premissa fundamental de uma boa educação.

 

Por Raquel Brito, publicado em A mente é maravilhosa

LER TAMBÉM…

Brincar devia ser obrigatório

Brincar Livremente e ser feliz

É urgente ensinar as crianças a aprender a brincar

 

“Então as aulas acabam as 16.30, correto?”

“Sim, mas depois ele segue para o ATL”

“Certo, e se marcássemos a sessão para as 18.00 então?”

“Não pode ser, ele a essa hora está a ir para a natação…”

“Então, a que horas poderia ser?”

“Não sei, mas provavelmente entre a aula, o balneário e o trânsito… Por volta das 19.30?”

“A essa hora o serviço já está a fechar e possivelmente fica muito tarde para depois o menino sair daqui as 20.30 e ainda ir jantar, brincar um pouco e dormir… Se calhar a outro dia da semana, o que acha?”

“É um pouco indiferente sabe, é que tem a natação as terças e quintas, depois tem o futebol às quartas e sextas, e tem dias em que depois ainda tem o piano e a explicação… Normalmente só estamos a jantar as 21… E é sempre uma correria, fica impossível a correr de um lado para o outro… Estar na cama às 22.00 é sempre um desafio…”

“Então quando é que ele brinca?”

Silêncio…

Esta conversa não é nenhuma conversa em particular, mas podia ser tanta conversa que tenho tido com diversos pais neste início do ano. Praticamente todos. Quase todos os pais que contactei no início deste ano letivo me disseram que o horário que preferiam seria o horário das 19.00 às 20.00, dado à indisponibilidade das crianças.

Então decidi fazer algumas contas: a maioria das crianças está na escola a ter aulas entre as 8.30 e as 16.00, sobrando depois o lanche que dura até as 16.30. Após este período costumam ir diretos para o centro de estudos ou para o ATL onde ficam, de novo a estudar, a fazer TPC ou outras tarefas académicas, até as 18.00. Após este período quase todos eles costumam ter atividades desportivas ou culturais que se prolongam até as 19.30. Se analisarmos bem estamos a pedir às nossas crianças que tenham um dia de trabalho entre as 8.30 e as 19.30. Isto significa 9 horas de trabalho intensivo, a crianças que frequentemente não têm mais do que 10 anos.

Pior, ainda pedimos isto às nossas crianças obrigando as mesmas a estar a maioria do tempo em silêncio, paradas e concentradas. E quando no final do dia a energia extravasa questionamos sobre o porquê.

A realidade é que algures no tempo nos esquecemos do que significa ser criança e da sua principal obrigação: brincar. Hoje tenho crianças em consulta que não sabem escolher uma brincadeira, que não sabem dizer qual o seu jogo preferido ou qual a parte da semana que gostaram mais.

Apesar de termos anos de investigação em educação e desenvolvimento infantil, continuamos a querer a toda a força que as nossas crianças sejam pequenos adultos que obedecem a horários laborais.

Compreendo e aceito perfeitamente a necessidade de praticar atividades extracurriculares. Aliás, enquanto terapeuta até aconselho diversas segundo o perfil das crianças e comprometo-me a falar deste tema com mais calma futuramente.

Mas temos de nos lembrar que estas atividades, junto com um ATL e uma escola não podem roubar o tempo de exploração de uma criança. Como já aqui disse, a criança aprende a explorar o ambiente, e esta estará altamente condicionada se  não lhe for permitido sair para o meio envolvente.

Outro problema prende-se com a formação da personalidade da criança. A criança precisa de não fazer nada. Este tempo é fundamental para que ela aprenda a tomar decisões sobre o que quer fazer. É preciso deixar as crianças aborrecerem-se para que estas mesmas crianças aprendam do que gostam de fazer e o que gostam de explorar, sem que isto lhes seja imposto por um horário rígido e sem tempo para ela própria.

Ainda, é impossível pedirmos a crianças que aprendam quando o cérebro delas está constantemente em esforço. A nós adultos acontece o mesmo. Quando temos um dia inteiro de frente para um ecrã torna-se altamente difícil estar concentrado e ser produtivo e nós já temos mecanismos que nos permitem lidar com esse tipo de frustração. Mas se para nós é difícil, imaginem para uma criança que ainda está a aprender a regular-se.

Sei que as obrigações do quotidiano e dos nossos horários condicionam os das crianças. Mas vamos permitir que as crianças tenham o direito a ser crianças, ou teremos uma geração de adultos que não vai compreender o quão bom é brincar.


Veja o vídeo: Melhores recreios, melhor rendimento escolar!

Filhos perfeitos, crianças tristes: a pressão da exigência

Os filhos perfeitos nem sempre sabem sorrir, nem conhecem o som da felicidade.

Temem cometer erros e nunca alcançam as expectativas elevadas dos seus pais. A sua educação não se baseia em liberdade e reconhecimento mas sim na autoridade de uma voz rígida e exigente.

Segundo a APA (American Psychological Association) a depressão nos adolescentes é atualmente um problema muito grave. Uma exigência desmedida por parte dos pais pode derivar facilmente na falta de autoestima, ansiedade, e num elevado mal-estar emocional.

É preciso salientar que essa exigência na infância deixa marcas irreversíveis no cérebro do adulto. O indivíduo cresce a achar que nunca é suficientemente competente ou perfeito no cumprimento dos ideais que lhe foram incutidos. É preciso cortar esse vínculo limitante que veta a nossa capacidade de sermos felizes.

Filhos perfeitos: quando a cultura do esforço é levada ao limite

É frequente ouvirmos que vivemos uma cultura que baseia a sua educação na falta de esforço, na permissividade e na pouca resistência à frustração.
No entanto, esta constatação não é de todo verdadeira, principalmente em tempos de crise em que os pais procuram a “excelência” dos filhos.

Se uma criança obtém 17 valores em matemática é pressionada para alcançar um 20. As suas tardes são preenchidas com aulas extracurriculares e seus momentos de ócio são limitados à procura do desenvolvimento de competências. Na maior parte das vezes isto resulta em crianças stressadas, esgotadas e vulneráveis.

“The Price of Privilege” é um livro interessante publicado pela doutora Madeleine Levine. Explica que a necessidade de educar filhos perfeitos e aptos para o futuro, culmina em criar filhos “desligados da felicidade”.

Consequências por exigir demais das crianças

Enquanto pais e educadores devemos ter em consideração que educar os nossos filhos na cultura do esforço tem um limite.

A barreira, que deveria ser intransponível é a de acompanhar a exigência com  uma igual ou superior dose de amor incondicional.

Por outro lado, os nossos filhos perfeitos serão crianças tristes que evidenciarão as seguintes dimensões:

  • Dependência e passividade

Uma criança habituada a receber muitas ordens deixa de decidir por conta própria. Assim, procurará sempre a aprovação externa e perderá a sua espontaneidade e a sua liberdade pessoal.

  • Falta de emotividade

Os filhos perfeitos inibem as suas emoções para se ajustarem ao que “tem que ser feito”e toda essa repressão emocional traz graves consequências a curto e longo prazo.

  • Baixa autoestima

Uma criança ou um adolescente habituado à exigência externa não tem autonomia nem capacidade de decisão, desenvolvendo uma autoestima muito negativa.

A frustração, o rancor e o mal-estar interior podem traduzir-se muito bem em instantes de agressividade.

A ansiedade é outro fator característico das crianças educadas na exigência: qualquer mudança ou uma nova situação gera insegurança pessoal e uma elevada ansiedade.

Pais exigentes Vs pais compreensivos

A necessidade de educar “filhos perfeitos” é uma forma subtil e direta de dar ao mundo crianças infelizes. A pressão da exigência irá acompanhá-las sempre, principalmente se a sua educação for baseada na ausência de estímulos positivos e de afeto.

Fica claro que como mães/pais todos queremos que nossos filhos tenham sucesso, mas acima de tudo que sejam felizes.

Ninguém quer que os filhos desenvolvam uma depressão na adolescência ou que sejam tão exigentes consigo próprios que não se permitam a aproveitar, a sorrir ou cometer erros.

Características gerais

  • Os pais muito exigentes e excessivamente críticos apresentam uma personalidade insegura que precisa de sentir controlo sobre tudo.
  • Os pais compreensivos “impulsionam” seus filhos para a conquista, permitindo explorar, sentir e descobrir. São guias e não colocam fios nos seus filhos para movê-los como marionetes.
  • O pai exigente é autoritário e leva um estilo de vida rigoroso, com horários definidos e invioláveis. Indica regras e decisões para economizar tempo através do “porque eu sei que é melhor para ti”, ou “porque eu sou o teu pai/mãe”.

Concluindo: educar é exercer a autoridade, mas com bom senso. É usar o afeto como antídoto e a comunicação como estratégia.

 

Por Valeria Amado, em A mente é maravilhosa, adaptado por Up To Kids®

imagem@etsy

Era tão bom que a vida fosse como nos ensinaram quando éramos crianças, quando pegávamos no dente-de-leão e soprávamos para pedir um desejo.

Quando éramos crianças, tínhamos sonhos guardados no bolso e os dentinhos debaixo da almofada para a fadinha dos dentes os levar.

Quando éramos crianças, vivíamos despreocupadas no mundo cor-de-rosa do faz de conta. Ontem, era uma princesa. Hoje, já podia ser a cabeleireira.

Quando éramos crianças, o vento tocava no cabelo, enquanto descíamos de bicicleta a rua da casa da avó.

Quando éramos crianças, sorriamos de forma tão sincera que, por dentro, sentíamos raios de luz.

Quando éramos crianças, adorávamos o sabor do tulicreme, num pão daqueles pequeninos, enquanto assistíamos aos desenhos animados da altura. As gargalhadas eram sonoras, sem vergonhas. Vivíamos despreocupados com o que outros pensavam.

Quando éramos crianças, os pirilampos eram mágicos e as cores tinham mais vida. Não havia horas contadas, nem preocupações que não nos deixassem dormir.

Dizem que o mundo é das crianças e eu acredito que sim. Acredito tanto que sim, na inocência aliada a uma sinceridade, num mundo faz de conta que é tão verdadeiro.

Tenho saudades. Saudades de calçar os saltos altos da minha mãe e de correr pela casa a fazer de conta que era adulta. Hoje, sou adulta e só quero calçar uns ténis confortáveis e fazer de conta que sou uma criança a viver aventuras num mundo de imaginação.

LER TAMBÉM…

Brincar ao Faz de Conta

O jogo simbólico e a sua importância no Desenvolvimento Infantil

20 coisas que os meus filhos nunca vão perceber

 

As princesas dos nossos dias

Hoje os contos de fadas mudaram, as princesas mudaram de atitudes.

Espantem-se só, hoje em dia já não existe uma Cinderela em casa, a lavar e a esfregar o chão à espera que o príncipe encantado a venha salvar de um trágico destino.

Já não existe a Rapunzel presa numa torre, deixando o seu cabelo crescer até mais não para servir de corda para o seu príncipe a salvar de uma vida de prisioneira.

Já não existe a Branca de Neve, que limpa a casa aos sete anões, lava, cozinha, passa a ferro enquanto foge da malvada madrasta, esperando o beijo do príncipe encantado.

Todos os contos que representavam o fantástico, a magia, o “ser feliz para sempre”, a salvação da princesa (mulher) pelo príncipe encantado, mudaram. Tal como mudou a importância dada à beleza feminina e o grande final: o casamento “e viveram felizes para sempre”.

Deixaram de ser frágeis, submissas, encantadoras, assertivas, ingénuas, doces e conformadas com o destino, acalentando a esperança de serem salvas, libertadas, por um príncipe.

Hoje os contos de fadas são mais reais, colocando a princesa como salvadora de si mesma. Como lutadora. Corajosa. A que sai do castelo sozinha para se salvar. A que bate o pé para falar, mostrando ter opinião própria.

Hoje temos a princesa Mérida de cabelos ruivos que mostra que a mulher pode ser o que ela quiser, protagonista dos seus sonhos.

A Fiona, que é dona do seu próprio destino, da sua vontade, forte e independente. Que come o que lhe apetece, que até dá uns arrotos e se ri de si mesma. Que não tem medo de um sapo!

As princesas Elsa e Anna do filme Frozen, independentes e alegres, que não precisaram de encontrar o príncipe encantado para serem felizes.

A princesa Mulan, que se descolou de todos os estereótipos criados para as princesas, cortando o seu cabelo para ir para a guerra, fingindo ser homem, não esperando que alguém a salve, lutando por aquilo que quer.

Hoje em dia, sim aos contos de fadas, que estão a mudar. Que são mais reais.

A representação, o imaginário, o faz de conta, o “era uma vez” é tão importante na vida de uma criança. Elas precisam de exemplos com os quais se possam identificar e inspirar. O que queremos ouvir de uma menina quando perguntamos “o que queres ser quando fores grande?” Uma princesa? Sim. Que seja! Que vista os vestidos cor-de-rosa e que tenha também a “espada na mão” para ir à luta.

Assistimos então ao desenvolvimento do termo princesa e a adequação à realidade dos nossos dias quando a princesa não espera sentada que o seu príncipe a salve, porque ela hoje salva-se a si própria.

LER TAMBÉM…

Mãe, obrigada por não teres criado uma princesa

Mulheres que marcaram a história (em versão Princesas da Disney)

Porque nem todas as “Madrastas” são como a da Cinderela

 

 

A nossa tarefa principal enquanto pais é conseguir que as nossas crianças se tornem adultos capazes de se desenvencilhar no vasto mundo que existe para além das nossas paredes. Tudo o que lhes fazemos – alimentar, vestir, proteger, mimar, educar,… -, é com esse propósito.

Queremos que elas consigam um trabalho que as sustente, que as façam felizes, que consigam ter a sua própria família (se o quiserem, claro), que se rodeiem de pessoas que lhes queiram bem e que consigam realizar tudo o que se desejam. E começamos esse trabalho, consciente ou inconscientemente, desde que elas são pequenas.

Não é uma tarefa fácil. Requerer, tantas vezes, uma paciência que achamos que não temos. É certamente mais fácil dar a comida à boca da nossa criança do que deixá-la tentar acertar sem entornar tudo.

Mas o mais espantoso é que ela rapidamente será um ás na arte de comer sozinha! E será com um grande orgulho que ela o quererá mostrar a todas as pessoas. Claro que também será com muito orgulho que ela irá querer mostrar o domínio da arte de pintura com marcadores – e aí geralmente a tela escolhida será a parede da sala…

À medida que a criança cresce, mais complexas serão as tarefas a si atribuídas, desde vestir-se, tomar banho sozinha, pôr a mesa, escolher a sua roupa, alimentar os animais de estimação, limpar o pó, pôr a loiça na máquina até ir fazer umas pequenas compras na mercearia da esquina. E deixá-la fazer tudo isso, e errar tantas vezes quantas as necessárias, é prepará-la para ser um adulto saudável. Claro que devemos sempre ter em conta sua idade e maturação e evitar dar-lhe tarefas que a frustrem demasiado ou que a possam pôr em perigo: ninguém espera que uma criança de 6 anos consiga fritar um ovo sem ajuda, da mesma forma que ninguém espera que uma de 16 anos não o consiga fazer.

Continuará a ser mais cómodo, rápido e simples fazer as coisas por elas, especialmente quando estamos atrasados, cansados, irritados, com pressa.

Mas vê-los a crescer de forma responsável e saudável, valerá, certamente, mais esse sacrifício.

As tarefas domésticas são atividades essenciais na educação de crianças independentes, organizadas e responsáveis. Ao incluir os seus filhos nestas tarefas desde pequenos está a educá-los para a vida, ensinando-lhes a importância da organização e da cooperação.

Os benefícios de envolver as crianças nas tarefas domésticas vão desde a disciplina à solidariedade – aprendem a trabalhar em equipa, com os pais ou irmãos, para o objetivo comum que é manter a casa organizada. E ao ser-lhes atribuída uma responsabilidade relacionada com tarefas fora do universo infantil, as crianças também ganham autoconfiança e desenvolvem a sua autoestima.

Dependendo da idade, há diferentes tarefas que podem ser introduzidas no quotidiano de uma criança.

2 a 3 anos

São crianças ainda pequenas, mas já podem começar a ajudar com as tarefas mais simples. Os pais precisam apenas de estar disponíveis para lhes ensinar todos os passos com calma e de ter alguma paciência.

  • Arrumar os brinquedos, livros e jogos depois de usados.
  • Ajudar a fazer a cama.
  • Limpar o pó de móveis ao seu alcance.
  • Varrer a cozinha com uma vassoura pequena.
  • Ajudar a limpar bebidas entornadas ou comida espalhada.

tarefas domesticas crianças

4 a 5 anos

Nesta idade as crianças já começam a assimilar melhor a importância da organização e limpeza. Os pais podem introduzir, além das tarefas anteriores, outras tarefas de mais responsabilidade e que as crianças possam fazer com menos supervisão.

  • Ajudar a alimentar e a cuidar dos animais de estimação.
  • Pôr e levantar a mesa às refeições.
  • Colocar a roupa suja dentro da máquina de lavar.
  • Ajudar a lavar o chão com uma esfregona.
  • Ajudar a guardar as compras do supermercado.

uptokids-tarefasdome_sticas3

6 a 8 anos

Estas crianças já estão na escola, já começam a saber ler e escrever e precisam de tarefas domésticas mais estimulantes, que possam iniciar e terminar sozinhas, para não perderem o interesse em ajudar os pais em casa.

  • Separar a roupa suja. (Pode consultar os símbolos de lavagem na Cleanipedia.)
  • Dobrar e guardar a roupa lavada.
  • Arrumar e ajudar a limpar o quarto.
  • Ajudar a preparar refeições (fazer sandes, lavar legumes, fazer bolos).
  • Deitar o lixo fora.
  • Ajudar a lavar a loiça.

tarefas-criancas

9 a 12 anos

Nesta fase as crianças sentem-se mais independentes, confiantes e orgulhosas de partilhar as tarefas domésticas com os adultos. E como são mais velhas requerem uma aprendizagem mais avançada, por isso os pais já podem ensiná-las a trabalhar com alguns eletrodomésticos, por exemplo.

  • Aprender a usar a máquina de lavar roupa e a de lavar loiça.
  • Mudar os lençóis da cama.
  • Ajudar a estender e a apanhar a roupa.
  • Ajudar a limpar a cozinha e a casa de banho.
  • Ajudar a lavar o carro.

E se precisa de mais dicas para estimular a organização nos seus filhos leia Como estimular a organização nas crianças!

 

Por Joana Teixeira para Up To Kids®

Imagens@pixbay/stocksnap