Esta é má e fria, não gosta de ninguém” – foi assim que uma mãe descreveu a filha a uma amiga que acabara de encontrar. A menina, com pouco mais de 1 ano, estava sentada no carrinho e ignorava a amiga da mãe, desejando apenas continuar a brincar com um coelho de peluche que trazia na mão. A amiga da mãe tentava desvalorizar, referindo que as crianças são assim, mas a mãe continuava: “esta miúda é parva, nunca cumprimenta ninguém! Olha, Joana, és feia, não gosto de ti!“. Confesso-vos que fiquei incomodada ao ponto de sair disparada da loja e as palavras me terem ecoado na cabeça durante a tarde toda.

As crianças não são feias, más, nem tão-pouco parvas

Em primeiro lugar, ninguém é, as pessoas estão a ser! Existe uma grande diferença entre “é” e “está a ser” – o “é” envolve rigidez, passa a mensagem de que será sempre assim e por isso não há possibilidade de mudança, criando um rótulo definitivo de “és isto” (esta expressão promove a rigidez cognitiva em que as pessoas analisam as situações em termos de tudo-ou-nada, não existe meio-termo); o “está a ser” transmite a ideia de que o comportamento depende das circunstâncias e que por isso pode alterar-se – numa situação, em determinado contexto, és assim, noutra já poderás não o ser – o que facilita a flexibilidade cognitiva (de pensamento), característica fundamental no bem-estar psicológico. Mais, o “é” cria uma determinada expectativa de comportamento tanto na criança como nos outros – a criança sabe que esperam que seja, por exemplo, agressiva e por isso tenderá a reproduzir esse género de comportamentos; os outros esperam ver agressividade na criança e por isso a sua atenção estará direccionada para isso (a chamada atenção selectiva em que o nosso cérebro, para poupar recursos, procura informação que se encaixe naquilo que procuramos; tal como quando entramos numa loja em busca de um vestido vermelho, se nos perguntarem se existiam muitos vestidos azuis não iremos conseguir responder, a nossa atenção foi canalizada apenas para a primeira cor).

Enquanto cuidadores existem comportamentos que consideramos mais e menos aceitáveis de acordo com as nossas crenças e aquilo que a sociedade defende. Reparem que comportamentos está a negrito pois é isso que está em causa, não a criança em si. Quando digo “já não gosto de ti” a uma criança que faz algo que considero menos adequado não estou a focar o seu comportamento, coloco-a integralmente em causa, o que abrange até as suas qualidades – parece-vos justo?

E se os nossos companheiros dissessem que já não gostam de nós porque não lavámos a loiça do jantar? E se a nossa mãe deixasse de nos amar devido à discussão que tivemos a semana passada? Repito: o que está em causa é o comportamento e podemos expressar o nosso desagrado relativamente a isso – “a mãe não gosta que te ponhas em cima da cadeira” – não em relação à criança em si.

Comunicar positivamente

Existem palavras cuja única função é magoar, nada se constrói com base nelas. “Feia, má, parva, burra” são apenas alguns exemplos de palavras que destroem a auto-estima de qualquer um, sobretudo quando proferidas por pessoas significativas cuja opinião é importante para nós. Além disso, são altamente subjectivas, difíceis de decifrar, e por isso em nada promovem a aprendizagem – O que torna uma criança feia? Que comportamentos levam a esse título? Será que a mensagem que queremos transmitir é que tem de se tornar bonita?

Sejamos objectivos no que queremos para que a criança se possa regular – “não quero que estejas em cima da cadeira pois podes magoar-te, fico preocupada contigo“. Depois disto é fundamental apresentar uma alternativa para onde a criança possa canalizar a sua energia – “vamos descer da cadeira, podemos ir brincar a saltar do chão para o tapete”.

Os elogios podem e devem ser aplicados sempre que se justifique. Noto que muitas vezes os pais passam grande parte do tempo a apontar os defeitos dos filhos em público, eu própria já me senti tentada a fazê-lo apenas por estar habituada a que seja esse o registo. Novamente, remetendo para nós próprios, gostaríamos que o nosso companheiro encontrasse um amigo na rua e começasse a apontar os nossos defeitos? Por que o fazemos com aqueles que mais amamos?

Que estes momentos sirvam para desabafar, e aqui podem expressar-se algumas preocupações, mas sejam sobretudo uma oportunidade de reconhecimento público do valor que os nossos filhos têm, daquilo que mais gostamos neles. Como referi, estamos a criar expectativas e isso irá moldar o comportamento da criança, além de promover o seu auto-conceito (como se caracteriza) e a sua auto-estima (como valoriza as suas características).

Por último, as crianças (felizmente) não são mini-adultos! Não esperem que uma criança prefira estar a interagir com uma desconhecida (no caso da amiga da mãe) do que com um brinquedo, não esperem que as crianças expressem afecto por encomenda (podem pedir, eu peço sempre que ela cumprimente as pessoas, mas sei que é natural que tal não aconteça), não ambicionem uma criança robótica que faz tudo que desejamos (se o faz hoje também o fará no futuro e aí já não terá tanta piada).

Percebam e respeitem a essência das vossas crianças, tal como elas aceitam diariamente a nossa.

imagem@tokkoro

Cada vez se ouvem mais notícias de crianças e adolescentes que se perderam por causa da net.

Não sejamos tendenciosos que não é só desde o aparecimento da web que temos perdido filhos. Antes disso também acontecia.

Mas antes perdíamos os filhos nos rios, nas estradas, nos mares, e hoje perdemo-los dentro do quarto!
Quando brincavam nos quintais ouvíamos as vozes deles ao longe, as conversas e, mesmo à distância, sabíamos o que se passava naquelas cabeças. Quando entravam em casa não havia uma televisão em cada quarto, nem gadgets nas suas mãos. Quero deixar bem claro que não sou contra tudo, nem excluo da vida dos meus filhos, apenas modero. Mas meus queridos, sejamos sinceros: temos vindo a perder o equilíbrio.

Hoje não ouvimos as vozes deles, nem ouvimos os seus pensamentos e fantasias. As crianças estão ali, dentro dos seus quartos e por isso acreditamos que estejam em segurança. Que imaturidade a nossa.

Fechados nos quartos de phones nos ouvidos, trancados nos seus mundos, a construir saberes sem que saibamos quais são… nem tão pouco orientados por nós.
Alguns têm perdido literalmente a vida, mas há tantos outros que ainda aí andam vivos fisicamente, mas mortos nos seus relacionamentos com os pais, fechados num mundo global de informação e estímulos, de ídolos do youtube, de modas passageiras que em nada contribuem para a formação de crianças seguras e fortes, e se tornam crianças sem qualquer capacidade para tomar decisões moralmente corretas e de acordo com os seus valores familiares.

Dentro dos próprios quartos perdemos os nossos filhos que já não sabem quem são nem qual a sua identidade familiar… Tornam-se numa mescla da informação adquirida em vídeos, personagens e ideias que os influenciam lentamente, até ao dia em que nós, os pais, nos apercebemos que já não reconhecemos os nossos filhos.

Agora podes ler este texto, gostar e taggar amigos. Podes reconhecer aqui verdades e refletir sobre elas. Podes rever-vos nestas palavras. Isso já será excelente.

Desafio Filhos do Quarto

Mas como Psicopedagoga tenho visto tantas famílias com filhos “mortos” dentro do próprio quarto, que vou deixar aqui um convite, e espero que aceites: convido-te a tirares o teu filho do quarto, do tablet, dos phones; convido-te a comprar jogos de mesa, tabuleiros e a ter os teus filhos na sala, ao teu lado no mínimo duas noites fixas todas as semanas  (para além do sábado e domingo). E joga, diverte-te com eles, ouve as suas vozes e falas, os pensamentos e aproveita a grande oportunidade que é  tê-los vivos física e espiritualmente, a dar o trabalho que os filhos dão a educar. Os teus filhos vão aprender a viver em família e vão desenvolver o sentimento de pertença pela família e lar, e não precisarão de se aventurar em “Baleias Azuis” e afins para se sentirem aceites ou para sentirem um pouco da adrenalina que antigamente tínhamos com as brincadeiras na rua!

Adaptação de texto original de Cassiana Tardivo, por Up To Kids®

imagem@ontslog

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Sabia que….

– mais de 68 milhões de pessoas no mundo têm gaguez, o que corresponde a 1% da população mundial

– em Portugal estima-se que cerca de 100 mil pessoas têm esta perturbação

– a gaguez é mais comum nos homens do que nas mulheres (4 homens para 1 mulher)

– 60% dos gagos tem um familiar com gaguez

Em situações de ansiedade, nervosismo ou cansaço, é normal todos nós “gaguejarmos” um bocadinho. A estas alterações pontuais no ritmo da fala chamamos disfluências normais. Quando estas alterações são marcadas por frequentes bloqueios (pausas longas com esforço muscular: “O….João caiu”), prolongamentos (“Joooooão”) e repetições (“ca-ca-ca-ca-caiu”) ao longo do discurso, estamos perante disfluências gagas.

O discurso da pessoa com gaguez é caracterizado por alguns ou todos os tipos de disfluências gagas e pode ocorrer associado a movimentos físicos distratores para o interlocutor (por exemplo piscar repetidamente os olhos, abanar a cabeça, entre outras). Todas estas características involuntárias podem ser mais ou menos evidentes ditando assim o grau de severidade da gaguez.

“O meu filho tem 3 anos e está a gaguejar há dois meses”

Durante o desenvolvimento da criança, até aos 3 anos e meio, admite-se a possibilidade de surgir uma gaguez chamada transitória, caracterizada por hesitações, repetições de palavras ou sílabas (até 2 repetições). Tal como o nome indica, a gaguez transitória poderá desaparecer entre 6 a 12 meses desde a data de surgimento. Caso não se verifique, é possível estar perante uma gaguez não transitória.

“A minha filha tem 10 anos e gagueja desde os 8… Pensei que nesta idade isso já não fosse possível.”

A gaguez pode surgir até à pré-adolescência (dos 3 aos 12 anos de idade). Independentemente da idade da criança é importante procurar um terapeuta da fala que o ajudará a perceber melhor estas dificuldades.

“O meu pai teve um AVC e começou a gaguejar”

Após AVC (Acidente Vascular Cerebral) ou TCE (Traumatismo Crânio-Encefálico) pode surgir uma gaguez neurológica que se caracteriza por repetições, bloqueios e prolongamentos, à qual poderão estar associados alguns movimentos secundários.

Mitos e lendas sobre a gaguez

Uma pessoa NÃO gagueja porque…

…pensa mais rápido do que fala

Todos pensamos mais rápido do que falamos e nem todos gaguejamos. Esta não pode ser uma causa da gaguez.

…apanhou um susto

A gaguez é uma perturbação neurofisiológica causada por mau funcionamento de algumas áreas cerebrais, havendo também uma predisposição genética para algumas pessoas. Assim, as pessoas que gaguejam iriam gaguejar mesmo não apanhando um susto.

…é muito nervosa, tímida ou stressada

As pessoas que gaguejam podem, de facto, parecer ansiosas e inseguras. No entanto, estes são sentimentos consequentes da gaguez e não causadores! Devido às quebras que apresentam no discurso, podem ficar frustradas perante situações de comunicação e esses sentimentos poderão então agravar as disfluências.

…ouviu outros a gaguejar e ficou gaga

Apesar de termos alguma tendência para gaguejar quando a pessoa com quem falamos é gaga, não ficamos gagos. É frequente um pai pensar que o filho mais novo ficou gago porque estava a imitar o irmão que tem gaguez, porém, há efetivamente um fator genético para esta perturbação. A disfluência não se “pega” por ouvirmos outros a gaguejar.

…os pais são muito rígidos e autoritários

Os pais não são responsáveis pelo aparecimento da gaguez. A gaguez tem uma etiologia multifactorial – genética, neurológica e psicossocial. Contudo, a pressão que colocam na criança poderá agravar a gaguez. É fundamental criar um ambiente propício à fluência.

…são menos inteligentes

Não há qualquer tipo de relação entre a inteligência e a fluência. A gaguez é uma perturbação da comunicação que não afeta o QI das pessoas.

Outros lendas

Ajuda dizer à pessoa para ter calma e para respirar fundo.

Estes conselhos apenas fazem com que a pessoa se sinta mais consciente das suas disfluências, ficando muitas vezes mais ansiosa e frustrada, levando assim ao agravamento da gaguez.

Vamos ignorar, pode ser que desapareça com o tempo.

Se a gaguez existe há mais de 1 ano, é provável que não desapareça. Independentemente de há quanto tempo persiste a gaguez, consulte um Terapeuta da Fala, ele poderá ajudá-lo com várias estratégias. Ignorar, não intervir e deixar prolongar poderá valorizar e desenvolver a gaguez.

Quando canta ou imita outra voz não gagueja, significa que consegue ser sempre fluente.

Quando cantamos ou utilizamos uma voz que não a nossa, são ativadas outras zonas do cérebro diferentes da fala espontânea, levando assim o próprio a gaguejar menos. Contudo, a gaguez é involuntária, como o nome indica, não é controlável e varia perante cada situação.

 

Estratégias para falar com uma pessoa que gagueja

  1. Mantenha o contacto ocular natural e de forma interessada. Espere com paciência que a pessoa acabe de falar.
  2. Não interrompa a pessoa que gagueja, nem termine as palavras ou frases. Dê-lhe o tempo necessário.
  3. Não perca o interesse na conversa, dê importância ao conteúdo, seja ativo e escute com atenção.
  4. Não faça comentários do tipo – “Fala mais devagar”, “Respira” ou “Tem calma”, a maior parte das vezes só irá aumentar as disfluências.
  5. Responda de forma calma e sem pressa, sem parecer artificial.

A gaguez não se cura, é uma perturbação da comunicação que permanece com a pessoa que gagueja, no entanto, o terapeuta da fala pode ajudar a compreendê-la melhor e a lidar com ela através de estratégias práticas!

Por  Márcia Filipe e Susana Belo – terapeutas da fala

Bibliografia
Gaiolas, M. (2010) Gaguez da Infância à Adolescência. Vogais & Companhia: Cascais.
Rombert, J. (2013) O Gato Comeu-te a Língua? A esfera dos Livros: Lisboa.
Associação Portuguesa de Gagos – http://www.gaguez-apg.com/

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“Ele tem uma maneira muito própria de falar mas quando entrar na escola vai ficar melhor… com o meu filho foi assim!”

Muitas vezes, pais, educadores e professores são capazes de detetar que uma criança apresenta uma dificuldade, ainda que ao fazer referência a esta, não consigam identificar qual a área exata onde esta dificuldade se insere.

É importante compreender que existem diferenças entre estes três conceitos, por fim a ajudar a identificar a área em questão.

Ao falar de comunicação falamos de um processo complexo onde ocorre a troca de informação que visa influenciar o comportamento do outro. Por exemplo: o bebé chora quando tem fome ou sono, ainda que inicialmente não o faça de forma intencional, os pais acabam por dar um significado àquele comportamento. A comunicação pode ser realizada de diversas formas e através de combinações verbais (uso da linguagem – oral ou escrita) e não-verbais (olhar, expressão facial, postura, gestos e linguagem corporal).

Por sua vez, exclusivamente humana, a linguagem é o instrumento de comunicação mais importante e poderoso. É através da linguagem que conseguimos desenvolver competências linguísticas de receção, transformação e transmissão de informações. Para haver receção de informação tem de se conseguir compreender a linguagem – linguagem compreensiva; e para que haja transmissão tem de ser capaz de formular a linguagem – linguagem expressiva. A linguagem diferencia-se em três componentes principais: a forma – regras que gerem os sons, bem como todas as suas possíveis combinações (fonologia), formação e estrutura interna das palavras (morfologia), e organização das palavras numa frase (sintaxe); o conteúdo – significado das palavras e interpretação das suas combinações (semântica); e o uso – adaptação e adequação da linguagem ao tipo de contexto social (pragmática).

A fala é o ato motor que permite que ocorra a transmissão de sons, de palavras e de frases, é o modo verbal oral de transmitir mensagens que envolve coordenação neuromuscular, e que permite que se realizem movimentos orais para que se produzam sons em unidades linguísticas. A fala pode ser caracterizada quanto à articulação – produção de sons realizada pelos articuladores; quanto à ressonância – equilíbrio do fluxo aéreo entre o nariz e a boca; quanto à voz – vibração produzida pelas pregas vocais na laringe; quanto à fluência – débito; e quanto à prosódia – que diz respeito à acentuação e à entoação das palavras e das frases.

Em caso de dúvida o Terapeuta da Fala é o profissional competente que o pode ajudar a compreender, e identificar qual a área onde se insere a dificuldade observada.

Quando procurar ajuda especializada?

Se na sua família, ou mesmo no seu dia-a-dia convive com uma criança que não consegue:

  • olhar na direção que é chamada;
  • manter ou iniciar um tópico de conversa;
  • fazer ou responder a perguntas;
  • estabelece relação/conversa apenas com pessoas conhecidas;
  • evita falar optando por apontar;
  • fala de maneira diferente;
  • utiliza palavras próprias;
  • escreve à sua maneira…

então é aconselhado que procure ajude especializada!

 

Por Drª Joana Lopes, Terapeuta da Fala

imagem@fototlia

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Se até aos 2 anos a necessidade de Terapia da Fala em crianças pode não parecer clara para as famílias, quando a criança ingressa na creche ou no pré-escolar, os sinais de alerta começam a ser bastante mais evidentes.

Entre os 3 e os 4 anos, já é esperado que a criança tenha um vocabulário expressivo superior a 500 palavras, utilize, pelo menos, algumas frases simples e seja capaz de compreender ordens e pedidos complexos. Devem também começar a compreender o significado de pouco/muito ou grande/pequeno e responder, como também perguntar, questões “o quê?” e “onde?”.

Numa fase anterior, muitas crianças utilizam muito os gestos como uma forma de suporte ao discurso, algo que já não deverá acontecer nesta faixa etária. O mesmo acontece com os monólogos que as crianças muitas vezes fazem e que, nestas idades, já deverão passar a ser conversas em que é respeitada a regra de turnos de conversação – primeiro fala uma pessoa, depois a outra.

Um dos grandes sinais de alerta que também surge nesta fase é o facto de os estranhos não compreenderem a criança. É normal que a família e os amigos próximos já tenham aprendido a “decifrar” o que a criança diz – muitas vezes, nem se apercebendo de que ela não fala corretamente – mas, quando alguém que não lida frequentemente com a criança, não é capaz de a perceber, podemos estar perante a necessidade de intervenção em Terapia da Fala.

Entre os 4 e os 5 anos, a criança já deverá ser capaz de utilizar a Linguagem em contexto social, dialogando com a família mas também não sendo oposta ao contacto com estranhos. Já é esperado que saibam nomear as cores primárias e que respondam a questões mais complexas, como “o que é?”, “porquê?”, “como?” e “quanto?”.

Na faixa etária dos 5 aos 6 anos, encontramo-nos na fase de início do 1ºciclo, altura em que, caso existam ainda dificuldades, é absolutamente crucial que sejam superadas o mais precocemente possível, sob o risco de criar mais dificuldades futuramente, como na aprendizagem da Leitura e da Escrita. Nestas idades, é muito comum que a criança ainda não articule corretamente todos os sons da fala (ou acrescente/omita/troque por outros). No entanto, é por volta dos 5 anos que todos os sons devem estar adquiridos e, quando a criança não faz esta aquisição sozinha, pode precisar de um apoio profissional.

Quando a criança ainda não é capaz de contar histórias ou explicar como foi o seu dia, ainda não usa frases complexas, não usa pronomes possessivos (“é meu/é teu”) ou não compreende noções de espaço e tempo, também estamos perante a possibilidade de dificuldades ao nível da Linguagem.

Nesta, como em todas as idades, a prevenção é a palavra de ordem, permitindo à criança fazer todas as aquisições sem chegar a ter repercussões. Através de uma “brincadeira” estruturada, com vista aos objetivos traçados, a criança vai tomando consciência dos sons e das diversas componentes da Linguagem, também com a ajuda dos pais, que recebem estratégias personalizadas e direcionadas para as dificuldades específicas do seu filho, para que o trabalho tenha continuidade em casa.

Se reconhecer algum destes sinais de alerta, a Ipsis Verbis oferece a realização de um rastreio gratuito em que, de forma imediata, os pais ficam a saber se existe necessidade de uma avaliação e posterior intervenção. Todas as sessões são completamente personalizadas, baseadas no gosto da criança e, sempre que possível, realizadas com base na “brincadeira”.

A Ipsis Verbis atua ao domicílio e em escolas, no distrito de Lisboa.

Por Inês Peres Silva Terapeuta da Fala Ipsis Verbis®

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Importância dos Rastreios em Terapia da Fala

Às vezes as palavras são só palavras. Mas outras vezes tornam-se na nossa voz interior, num pilar imutável da nossa personalidade.

A linguagem é algo fascinante. Enquanto bebés, absorvemos os sons e tentamos audazmente reproduzir o que ouvimos da boca dos nossos pais, dos nossos cuidadores ou dos bonecos animados. E, um dia, aplicamos essas palavras e conseguimos exercer o seu gigantesco poder. A linguagem pode trazer alegria, pode pôr uma pessoa a rir e pode transformar uma sala silenciosa numa conversa animada. Mas, como todos sabemos, a linguagem tem, também, o poder de causar um impacto muito diferente. Pode provocar dor. Provocar lágrimas. Pode criar uma rutura entre duas pessoas que outrora se amaram. A linguagem é, na sua essência, uma arma poderosa.

Não me lembro da primeira vez que um dos meus filhos me disse “Eu odeio-te!” Posso dizer que, de vez em quando, ainda dizem e não me incomoda. Como pai, parte da minha função é fazer e dizer coisas que os meus filhos não gostam. Eu mando-os fazer os TPC antes de brincarem. Eu não os deixo comer doces antes de irem para a cama. Se eles me odeiam uma vez por outra, eu sei que estou a fazer um bom trabalho.

“Eu odeio-te, pai!” Eu consigo entender, esta é a única defesa deles quando estão irritados. Descarregam em mim e eu não me importo.

No entanto não é esta a expressão proibida cá em casa. Na semana passada o meu filho mais velho andava a trabalhar num avião de papel criado por ele. A brincar, atirou-o sem querer contra a parede, e o avião separou-se em duas partes e ficou irremediavelmente estragado. Vi-lhe os olhos a encherem-se de lágrimas.

EU ODEIO-ME!

Esta expressão arrepiou-me. Porque não foi a primeira vez que ele a disse. Preocupou-me porque a estava a usar com frequência. Como um vício linguístico mas que, pela frequência com que a repetia, corria o risco de começar a acreditar nisso.

Ajoelhei-me ao seu lado, olhei-o nos olhos e disse-lhe que nunca mais queria ouvir aquelas palavras, que não pode ser tão exigente consigo e que precisa de se respeitar. Eu duvido que ele tenha retido toda a mensagem, mas uma coisa é certa, aquela frase não seria mais tolerada.

A diferença entre o teu filho dizer que te odeia e dizer que se odeia a ele mesmo é que passados 5 minutos ele já se esqueceu de que te odeia. O ódio a si mesmo é potencialmente venenoso e pode ter efeitos secundários que permanecem até à adolescência ou à idade adulta. E isso não afeta apenas o próprio. O “auto-ódio” provoca impacto em todos os que o rodeiam porque produz um forte efeito de bola de neve.

Quando os miúdos começam a acreditar que se odeiam subestimam o seu próprio valor. Umas vezes entram em lutas para fazer novas amizades. Outras vezes não têm a confiança necessária para levantar o dedo nas aulas, mesmo que saibam a resposta. Em adolescentes evitam falar com os pares acabando por perder a hipótese de se conectarem afetivamente, porque assumem que irão ser rejeitados. E em adultos podem optar por não se candidatar a um emprego de sonho porque assumem que não são suficientemente bons para o cargo.

Eu sei que tudo isto pode e irá acontecer, porque esta é a minha história. Eu nunca fui uma criança confiante. Por isso acabei por me debater com os meus problemas de baixa autoestima em várias áreas: socialmente, academicamente e emocionalmente. Sempre evitei ser o centro das atenções, mesmo que fosse por um bom motivo, porque nunca tive a confiança necessária para lidar com isso. Hoje em dia, em adulto, quase expludo cada vez que penso no que eu era capaz de ter feito se tivesse acreditado em mim, em vez de dar ouvidos à voz interior que me dizia que eu não era suficientemente bom.

Eu não aguento ver os meus filhos sofrerem do mesmo mal. E eu acredito que não estou a fazer um bom trabalho enquanto pai se não conseguir evitar que os meus filhos cometam os mesmos erros que eu.

Às vezes as palavras são só palavras. Mas outras vezes tornam-se na nossa voz interior, num pilar imutável da nossa personalidade. Eu sei que para muitos pais o seu pior pesadelo é que os filhos os ouçam a dizer “palavrões” e os comecem a aplicar no seu discurso. Claro que eu não adoro a ideia de algum dos meus filhos largar um F%$#&% durante o jantar, do alto dos seus 7 anos, mas o meu grande medo não é o calão, a gíria, nem mesmo os palavrões, mas sim a linguagem de impacto negativo e duradouro que pode mudá-los enquanto pessoas.

Se usamos uma linguagem depreciativa e humilhante, quer para nós quer para os outros, causará um impacto que eu quero evitar para os meus filhos. Basicamente, eu não receio que os meus filhos usem linguagem forte. Eu receio que usem uma linguagem que os torne fracos.

Como disse a sábia escritora Peggy O’Mara ”A forma como falamos com os nossos filhos torna-se na sua voz interior (The way we talk to our children becomes their inner voice.)”

O meu objetivo é garantir que essa voz seja uma voz poderosa.

 

Por @JoeDeProspero publicado em The Huffington Post,

adapatado por Babelia Traduções para Up To Kids®

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Quando a nossa voz interior nos dá cabo da cabeça

Hoje dei por mim a pensar que a viagem da parentalidade é semelhante a comer um saco de amêndoas deliciosas. Uma a uma sentimos o sabor, valorizamos a experiência, queremos mais. Ficamos tão envolvidos que sem reparar comemos uma atrás da outra, até que, aparece uma bem amarga BLERGHHH!!!  Então o único sabor que fica na boca é mesmo esse, amargo. Um amargo que invade, ofuscando todos os momentos doces e as conquistas que fizemos. Daí a criar um pensamento crítico sobre nós, é um saltinho“Sou uma péssima mãe”; “Nunca estou com os meus filhos”; “A culpa é minha”; “Estou sempre a gritar”.

Estas generalizações ocupam muito espaço e sugam muita energia. São fruto de uma vozinha crítica que vive a tempo inteiro na nossa cabeça. Sabem qual é? Aquela que quando nos baldamos ao ginásio diz “És sempre a mesma coisa, não levas nada até ao fim.” Pode também usar alguma ironia, se tiver uma pontinha de humor britânico “Uauu pelo menos faltas com regularidade, isso deve queimar algumas calorias!”

Mas de onde é que ela apareceu? É que desde que me lembro, ela fala comigo. De uma forma crítica e levemente ácida diz-me que não vou conseguir, que não sou suficientemente boa ou que “isso nunca vai resultar”. O seu tom preocupado ilude, parecendo que até está ali para me ajudar.

Esta voz parece ter superpoderes visionários, muitas vezes usados pelas pais, “Olha, olha que ainda vais cair!” PUM! Criança estatelada no chão. “Vês? Eu avisei-te” sai imediatamente em tom vitorioso.

Este sabotador interno, que acha que não somos merecedores de sucesso, mesmo quando estamos a caminho do êxito dispara um “Hum, isto não vai durar”. É uma espécie de balão gigante cheio de frases desmotivadoras disparadas nas alturas em que precisamos é de compaixão e força.

Se prestarmos bem atenção vamos reconhecer essas frases. Vamos reconhecê-las nas pessoas que fizeram parte do nosso crescimento. Vamos reconhecê-las em momentos da nossa vida em que foram ditas por alguém e as tomámos como verdades. São assimiladas e transformadas na nossa voz interior. A Peggy O’Mara, resume o processo na seguinte frase The way we talk to our children becomes their inner voice.” Ena.

Mas como posso quebrar este ciclo crítico e dar ao meu filho a possibilidade de ter uma voz interior que o apoia, compreende e aceita tal como é?

1- Notando o que digo e quando o digo.
Em que situações o meu crítico está mais ativo? Perceber que triggers despoletam estes pensamentos negativos em mim e conscientemente olhar para eles com carinho. O crítico é desarmado com a compaixão.

2- Questionando.
“Porque é que eu estou a dizer isto?”; “De onde é que isto vem?”; “Acredito mesmo nisto?” Este processo permite tirar-nos do piloto automático negativo e finalmente começar a ter noção e poder sobre os nossos pensamentos.

3- Trocando pensamentos negativos por pensamentos compassivos.
Sê objectivo no que estás a ver à tua frente. Não uses julgamento mas observação isenta. “Reparei que esta semana fui ao ginásio uma vez.” É bastante diferente do “és uma baldas”. Em qual das situações ficam mais motivados para ir ao ginásio? Ah pois é. O mesmo se passa quando falamos com os nossos filhos com uma voz profundamente crítica que sublinha o erro e o falhanço. “Nunca arrumas o teu quarto. És mesmo desarrumado.”

Quando mudo a forma como falo comigo, mudo a forma como falo com o meu filho e dou-lhe a possibilidade única de ter uma voz interior que apoia o seu interior a vir cá para fora brilhar.

Uma voz interior que o recebe de braços abertos e lhe diz “Anda vamos ser felizes! Tu mereces.”

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Há pessoas que, certas de ser uma virtude, dizem tudo o que têm para dizer.

Percebe-se que não lhes importa mais nada a não ser dizer tudo aquilo que lhes atravessa a alma naquele instante. Percebe-se também que tomam o ‘dizer tudo’ como coisa boa e que experimentam alívio quando o fazem.

Esta visão do discurso inter-relacional é, quanto a mim, limitadora e passível de originar cenários destrutivos no seio de uma família – onde a diversidade de perfis e idades coexistem.

Se um filho nosso for intolerante à lactose ou ao glúten, é incontornável que, quanto à sua alimentação a nossa atitude de pais seja a escolha de alimentos alternativos que não contenham nenhum dos dois. Porquê? Porque sabemos que, se não for assim, a saúde do nosso filho sofrerá consequências indesejáveis e nós não queremos isso.

Tal como na alimentação, também na comunicação existem conteúdos, formas e momentos que causam ‘alergias’ e ‘complicações digestivas’.  Cada um de nós tem a sua resistência e sensibilidade; cada elemento de uma família tem as suas particularidades ao nível do caráter; cada um de nós pode fazer ‘reações alérgicas’ ou ficar ‘doente’ quando confrontado com determinado discurso num dado momento.

Comunicação adequada

Tendo consciência da pessoa com quem estou a falar, poderei adequar as ideias, as palavras, a forma de me exprimir e até refletir se é o momento oportuno para o fazer. A comunicação é algo magnífico que permite fazer chegar ao outro aquilo que habita em nós. Mas para comunicar é imprescindível que consigamos pôr-em-comum e isso só acontecerá se, no outro, existir a capacidade de integrar o que eu tenho para partilhar naquele momento. Assim, para que não provoquemos danos no outro por ‘alergia’ ou ‘indigestão’, é importante comunicarmos personalizadamente, ou seja, de maneira adaptada à pessoa a quem nos dirigimos.

Se, não cuidando das particularidades de que se reveste cada ser humano, eu disser tudo o que tenho para dizer sempre que me apetece, arrisco-me a ser violento e a magoar seriamente quem me rodeia. Em vez de comunicar, estarei simplesmente a debitar ideias, palavras e emoções que podem não se adequar ao contexto, à pessoa e à sua natureza. Estarei a ser egoísta e estarei a exigir que seja o mundo a adaptar-se a mim em vez de ser eu a procurar adaptar-me.

Numa família, esta atitude de vigilância quanto à comunicação faz a diferença. Seja quando falamos com outros adultos ou quando falamos com crianças, pôr-em-comum exige que se vá ao encontro do outro, que se procure conhecer o outro e se respeite a sua condição para que, revestida de compreensão, tolerância e amor, a comunicação seja efetiva e construtiva. Assim, os nossos filhos irão crescer, sabendo que existem formas saudáveis de nos comunicarmos com os outros e levarão para as suas vidas esta mais-valia tão importante nas relações.

Que nós – mães e pais, consigamos sentir a cada momento o pulsar de cada filho para, assim, conseguirmos chegar-lhes mais perto do coração e lhes sussurrarmos que para comunicar é importante saber usar o espaço, o tempo, o sol e a chuva, as palavras e o silêncio.

Vamos dar-lhes o melhor que temos – nós próprios!

 

Por Telmo Marques, para Up To Kids®

“O meu filho ainda não fala – ou fala mal -, porque é muito preguiçoso” ou “basta dar-lhe tempo e ele vai começar a falar sem ajuda” são dois mitos muito comuns e que, com certeza, já disse ou ouviu alguém dizer.

Hoje em dia, ainda há uma grande tendência para desvalorizar as questões da Comunicação, Linguagem e Fala, colocando-as num patamar inferior ao do desenvolvimento motor e à saúde em geral. No entanto, estas três áreas são da maior importância já que, quando existem dificuldades, podem prejudicar o bem-estar da criança e da família, as relações com os pares e com os adultos, a autoestima e mesmo as aprendizagens escolares (ainda que, à data das dificuldades, a criança ainda não frequente a escola).

É também comum a ideia, disseminada por alguns profissionais de Saúde, de que “fazer Terapia da Fala antes dos 3 anos – por vezes, quando a criança ainda praticamente não fala, não dá resultado”. No entanto, devemos pensar exatamente o oposto – é importante que a intervenção seja precoce, de forma a não agravar, ou mesmo criar novos problemas.

Existem sinais de alerta que podem ser observados a partir do nascimento mas, para efeitos de Terapia da Fala, os pais deverão estar progressivamente mais atentos à Comunicação e à Linguagem do seu filho a partir dos 12 meses. Nessa altura, o bebé já deverá brincar (de forma adequada à sua idade) e reagir quando brincam com ele – sorrindo ou imitando – e produzir alguns monossílabos. A partir dos 18 meses, é esperado que já compreenda instruções simples, que diga palavras simples e que faça alguns pedidos, ainda que de forma rudimentar.

A partir dos 2 anos surge a maioria das capacidades linguísticas logo, nesta idade, os pais deverão procurar um Terapeuta da Fala quando a criança:

  1. tiver um vocabulário muito inferior a 50-200 palavras
  2. usar apenas vogais ou uma sílaba para dizer quase todas as palavras
  3. disser uma palavra uma vez e raramente a repetir
  4. não apontar para partes do corpo
  5. não fazer nem responder a perguntas sim/não
  6. não juntar duas palavras para formar uma pequena frase
  7. tiver dificuldade em imitar gestos simples ou mesmo comunicar maioritariamente por gestos.

É exatamente nesta faixa etária, dos 2 aos 3 anos que, atualmente, surgem mais crianças para intervenção. Por atribuirmos um grande valor à prevenção e à Intervenção Precoce, cada vez mais surgem famílias preocupadas em resolver todas estas questões para que não haja repercussões mais tarde.

Nesta fase, o trabalho é maioritariamente aquilo a que chamamos “de chão”. Utilizando brinquedos adequados à idade, ou mesmo os brinquedos da criança, são feitas pequenas “brincadeiras”, sempre divertidas e muito dinâmicas, com a finalidade de atingir os objetivos que pré-estabelecemos. Para uma maior continuidade do trabalho, e porque este tem de ser feito em equipa, são sempre dadas estratégias aos pais para irem pondo em prática em casa. A família é sempre membro integrante da equipa!

Quando as crianças já são mais velhas, os pais deverão estar sobretudo atentos a dificuldades de Articulação, Linguagem ou Leitura e Escrita. Quando existem queixas na escola relativamente a alguma destas áreas, a forma mais simples de saber se existe algum problema que deva ser trabalhado é através da realização de um rastreio.

A Ipsis Verbis oferece rastreios gratuitos ao domicílio e em escolas, no distrito de Lisboa onde, de forma imediata, diz aos pais se existe necessidade de uma avaliação e posterior intervenção. Todas as sessões são completamente personalizadas, baseadas no gosto da criança e, sempre que possível, realizadas com base na “brincadeira”.

Por Inês Peres Silva Terapeuta da Fala Ipsis Verbis®

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São palavras e expressões que são fundamentais para o desenvolvimento das crianças. Para dizer e repetir sem medo.

Se antigamente era comum os pais serem mais severos com os filhos, gritarem e até usarem a força física como forma de educar, hoje a maneira de impor limites e mostrar de quem vem a última palavra é outra (ainda bem!). Por aqui incentivamos o diálogo e uma postura firme mas nunca violenta.

Há tempos publicamos um artigo sobre “Como comunicar com os filhos de forma positiva e eficaz”.

Hoje, partilhamos este texto que destaca as palavras ou expressões que devemos dizer aos nossos filhos sem medo:

Não

Palavra simples, direta, objetiva, mas que representa muito no processo de desenvolvimento das crianças. O “não”, quando bem aplicado, tem efeito vitalício na vida das crianças. É usual os pais ficarem inseguros ao dizer Não. Afinal, ninguém quer ouvir de um filho frases como “Já não gosto da mãe”, ou “São os piores pais do mundo”. Mas, existem situações que não são negociáveis e certos comportamentos são inaceitáveis. Portanto, não podemos ter medo de pronunciar essa palavra quando percebermos que a situação pode sair do controle.

Sim

Outra palavra simples, mas de grande valia. Mais do que representar uma permissão, o “sim” transmite confiança à criança, mostra que estamos de acordo numa determinada situação. É claro que, da mesma forma que o “não”, o “sim” também tem o seu lugar. Por exemplo, se estão numa festa e o teu filho te pede para comer doces ou beber refrigerantes – sendo uma situação esporádica, a resposta pode ser positiva. Nestes casos é importante deixar claro que existem situações em que é permitido comer doces e beber refrigerantes e que esse sim não é extensível ao dia-a-dia. O bom uso do sim, também é importante para a disciplina.

Ou

Existem momentos na vida em família em que é preciso dar opções às crianças. Nestes casos o uso do “ou” é fundamental. O Ou dá-nos opções e saber escolher é um dos degraus para o desenvolvimento da autonomia, no entanto, uma autonomia supervisionada por nós. Por exemplo, se a tua filha quer ir vestida de princesa da Disney num casamento (quem nunca passou por isso?), podes propor algumas opções de vestidos. Quem vai escolher é ela, mas com a tua autorização.

A mãe não sabe

Ninguém sabe tudo, que bom! E quando nos tornamos mães/pais este facto não se altera em nada. Existem perguntas ou situações que os filhos nos fazem e que nós não temos resposta. Não tenhas medo de dizer “a mãe não sabe”, no entanto, é preciso sinceridade. Se te perguntam algo que não tens a menor ideia do que significa, responde: “Agora eu não tenho a resposta para essa pergunta, podemos investigar isso juntos? “ – Assim não só instiga a vontade e curiosidade de saber mais sobre algo, como tb cria uma atividade conjunta, ou “Agora eu não consigo decidir isso, filho. Vamos falar com o teu pai para sabermos a melhor forma de resolver essa situação? “. Admitir que não sabemos, e que também temos de pedir ajuda, é o primeiro passo para a aprendizagem.

Agora não é a melhora altura para falarmos sobre isso

Pode até parecer uma frase má para dizer às pessoas que mais amamos no mundo. Mas há momentos em que é melhor não falar do que explodir e dizer tudo e um par de botas, e da pior forma. Dizeres-lhe que naquele momento não queres falar com o teu filho, não fará com que ele pense que não gostas dele, antes pelo contrário. Quando perceberes que estás naquele momento de ebulição em que te vais transformar em Godzila , opta por dizer com calma que estás zangada/chateada e não vais falar com ele nesse momento. É honesto, verdadeiro e educativo. (Isto não se aplica a bebés e crianças muito pequenas)

Desculpa

Mesmo quando nos apercebemos que a situação está a sair do controle e nos afastamos, muitas vezes escapa-nos um grito ou exageramos na abordagem com os nossos filhos. Acontece a todos. Se viste que exageraste no “responso”, pede desculpas. Explica que, às vezes, também te descontrolas. O mundo precisa de pessoas que saibam pedir desculpa e pessoas que saibam perdoar. Pedir desculpa e perdoar transmite empatia, solidariedade e alivia a culpa (aos dois).

Obrigado

A famosa palavra mágica que tanto obrigamos a dizer também tem de ser dita por nós. Gratidão é (ou deveria ser) um dos princípios básicos para a convivência social. Quando o teu filho ajudar a pôr a mesa agradece. Quando se comportar ou mostrar que aprendeu algo, agradece. Agradece por tudo, e agradece-lhe também por ser como é.

O que é que achas?

As crianças estão em desenvolvimento e ainda não têm muita noção da forma como as coisas funcionam, mas isso não quer dizer que não tenham opinião ou personalidade. É muito comum subestimarmos a opinião dos nossos filhos acreditando que nós somos os donos da verdade. Enquanto estiverem a conversar, pergunta-lhe o que é que acha da escola, da professora, das aulas de natação. Isso estreita o vínculo familiar e possibilita que desenvolva a sua forma própria de ver o mundo, desenvolvendo a confiança em si próprio.

Ajuda-me

Ninguém vive sozinho, pedir ajuda é perfeitamente normal. Toda a gente precisa de ajuda e se temos filhos a quem podemos recorrer, ainda melhor. Existem diferentes formas de pedir ajuda às crianças e todas são benéficas para a relação. Podes pedir que guardem os brinquedos do quarto, ajudem a pôr a mesa ou apenas brinquem em silêncio por alguns momentos. Isso mostra que existe companheirismo e compreensão entre vocês.

Amo-te/Adoro-te/Gosto de ti até à lua

Esta não precisa de explicação. Diz sempre que quiseres, alto e em bom som.
É bom para quem diz e para quem ouve. Os nossos filhos agradecem.

 

Por Márcia Orsi, psicóloga especialista em Intervenção Familiar, para Pais & Filhos Brasil,
adaptado por Up To Kids®

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