Sabia que….

– mais de 68 milhões de pessoas no mundo têm gaguez, o que corresponde a 1% da população mundial

– em Portugal estima-se que cerca de 100 mil pessoas têm esta perturbação

– a gaguez é mais comum nos homens do que nas mulheres (4 homens para 1 mulher)

– 60% dos gagos tem um familiar com gaguez

Em situações de ansiedade, nervosismo ou cansaço, é normal todos nós “gaguejarmos” um bocadinho. A estas alterações pontuais no ritmo da fala chamamos disfluências normais. Quando estas alterações são marcadas por frequentes bloqueios (pausas longas com esforço muscular: “O….João caiu”), prolongamentos (“Joooooão”) e repetições (“ca-ca-ca-ca-caiu”) ao longo do discurso, estamos perante disfluências gagas.

O discurso da pessoa com gaguez é caracterizado por alguns ou todos os tipos de disfluências gagas e pode ocorrer associado a movimentos físicos distratores para o interlocutor (por exemplo piscar repetidamente os olhos, abanar a cabeça, entre outras). Todas estas características involuntárias podem ser mais ou menos evidentes ditando assim o grau de severidade da gaguez.

“O meu filho tem 3 anos e está a gaguejar há dois meses”

Durante o desenvolvimento da criança, até aos 3 anos e meio, admite-se a possibilidade de surgir uma gaguez chamada transitória, caracterizada por hesitações, repetições de palavras ou sílabas (até 2 repetições). Tal como o nome indica, a gaguez transitória poderá desaparecer entre 6 a 12 meses desde a data de surgimento. Caso não se verifique, é possível estar perante uma gaguez não transitória.

“A minha filha tem 10 anos e gagueja desde os 8… Pensei que nesta idade isso já não fosse possível.”

A gaguez pode surgir até à pré-adolescência (dos 3 aos 12 anos de idade). Independentemente da idade da criança é importante procurar um terapeuta da fala que o ajudará a perceber melhor estas dificuldades.

“O meu pai teve um AVC e começou a gaguejar”

Após AVC (Acidente Vascular Cerebral) ou TCE (Traumatismo Crânio-Encefálico) pode surgir uma gaguez neurológica que se caracteriza por repetições, bloqueios e prolongamentos, à qual poderão estar associados alguns movimentos secundários.

Mitos e lendas sobre a gaguez

Uma pessoa NÃO gagueja porque…

…pensa mais rápido do que fala

Todos pensamos mais rápido do que falamos e nem todos gaguejamos. Esta não pode ser uma causa da gaguez.

…apanhou um susto

A gaguez é uma perturbação neurofisiológica causada por mau funcionamento de algumas áreas cerebrais, havendo também uma predisposição genética para algumas pessoas. Assim, as pessoas que gaguejam iriam gaguejar mesmo não apanhando um susto.

…é muito nervosa, tímida ou stressada

As pessoas que gaguejam podem, de facto, parecer ansiosas e inseguras. No entanto, estes são sentimentos consequentes da gaguez e não causadores! Devido às quebras que apresentam no discurso, podem ficar frustradas perante situações de comunicação e esses sentimentos poderão então agravar as disfluências.

…ouviu outros a gaguejar e ficou gaga

Apesar de termos alguma tendência para gaguejar quando a pessoa com quem falamos é gaga, não ficamos gagos. É frequente um pai pensar que o filho mais novo ficou gago porque estava a imitar o irmão que tem gaguez, porém, há efetivamente um fator genético para esta perturbação. A disfluência não se “pega” por ouvirmos outros a gaguejar.

…os pais são muito rígidos e autoritários

Os pais não são responsáveis pelo aparecimento da gaguez. A gaguez tem uma etiologia multifactorial – genética, neurológica e psicossocial. Contudo, a pressão que colocam na criança poderá agravar a gaguez. É fundamental criar um ambiente propício à fluência.

…são menos inteligentes

Não há qualquer tipo de relação entre a inteligência e a fluência. A gaguez é uma perturbação da comunicação que não afeta o QI das pessoas.

Outros lendas

Ajuda dizer à pessoa para ter calma e para respirar fundo.

Estes conselhos apenas fazem com que a pessoa se sinta mais consciente das suas disfluências, ficando muitas vezes mais ansiosa e frustrada, levando assim ao agravamento da gaguez.

Vamos ignorar, pode ser que desapareça com o tempo.

Se a gaguez existe há mais de 1 ano, é provável que não desapareça. Independentemente de há quanto tempo persiste a gaguez, consulte um Terapeuta da Fala, ele poderá ajudá-lo com várias estratégias. Ignorar, não intervir e deixar prolongar poderá valorizar e desenvolver a gaguez.

Quando canta ou imita outra voz não gagueja, significa que consegue ser sempre fluente.

Quando cantamos ou utilizamos uma voz que não a nossa, são ativadas outras zonas do cérebro diferentes da fala espontânea, levando assim o próprio a gaguejar menos. Contudo, a gaguez é involuntária, como o nome indica, não é controlável e varia perante cada situação.

 

Estratégias para falar com uma pessoa que gagueja

  1. Mantenha o contacto ocular natural e de forma interessada. Espere com paciência que a pessoa acabe de falar.
  2. Não interrompa a pessoa que gagueja, nem termine as palavras ou frases. Dê-lhe o tempo necessário.
  3. Não perca o interesse na conversa, dê importância ao conteúdo, seja ativo e escute com atenção.
  4. Não faça comentários do tipo – “Fala mais devagar”, “Respira” ou “Tem calma”, a maior parte das vezes só irá aumentar as disfluências.
  5. Responda de forma calma e sem pressa, sem parecer artificial.

A gaguez não se cura, é uma perturbação da comunicação que permanece com a pessoa que gagueja, no entanto, o terapeuta da fala pode ajudar a compreendê-la melhor e a lidar com ela através de estratégias práticas!

Por  Márcia Filipe e Susana Belo – terapeutas da fala

Bibliografia
Gaiolas, M. (2010) Gaguez da Infância à Adolescência. Vogais & Companhia: Cascais.
Rombert, J. (2013) O Gato Comeu-te a Língua? A esfera dos Livros: Lisboa.
Associação Portuguesa de Gagos – http://www.gaguez-apg.com/

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Dificuldades alimentares na 1ª infância… o Terapeuta da Fala pode ajudar!

Sabia que…

  • a boca é o órgão com maior número de recetores sensitivos, com várias funções, como a receção dos alimentos e a proteção e controle do sistema respiratório e digestivo?
  • o comportamento de levar a mão à boca, que está presente a partir da 9ª semana gestacional, constitui uma das primeiras demonstrações da existência de integração sensório-motora precoce, através da qual o bebé irá obter não só uma forma de alimentação e de fala adequadas, como também reconhecer o seu próprio corpo e discriminar as características dos objetos?
  • as experiências sensoriais obtidas, quer durante a alimentação através da ingestão de alimentos com diferentes consistências, texturas, sabores e temperaturas, quer na exploração oral de objetos e da mão contribuem para um adequado desenvolvimento da musculatura orofacial e dento-esquelética e previnem a ocorrência de alterações no sistema estomatognático?
  • entre 25% a 35% de crianças com desenvolvimento normal apresentam dificuldades alimentares? Esta percentagem aumenta exponencialmente (65% a 75%) quando falamos de crianças com patologias do neurodesenvolvimento. – (Rudolph & Link, 2002)

As etiologias destas dificuldades são variadas, mas entre as mais comuns temos a predisposição genética, as complicações durante a gravidez, a prematuridade, a insuficiente estimulação ou experienciais táteis e orais desagradáveis. (- Dias, 2015)

O desenvolvimento sensório-motor oral (SMO) inicia-se no período intra-uterino, no qual o feto experimenta diferentes estímulos. A exposição a diferentes estímulos neste período é fundamental para a programação sensório-motora envolvida nas funções orais como a sucção, deglutição e respiração do neonato e posteriormente, na mastigação e na fala da criança. O desenvolvimento SMO irá depender das experiências sensoriais intra-uterinas, da maturação do sistema nervoso central (SNC), da herança genética e dos estímulos ambientais ao longo da vida, sendo os primeiros anos essenciais. (Medeiros, 2007)

O desenvolvimento SMO tem vários marcos importantes:

  • Entre 3º e o 6º mês de vida
    Há uma maior dissociação entre sucção e deglutição e
as competências motoras orais e globais facilitam a introdução da colher;
  • Do 6º ao 9º mês de vida
    Surgem os primeiros dentes; o bebé baba-se muito;
há uma participação do lábio superior na retirada do alimento na colher e surge a integração do reflexo de morder na mastigação;
  • Do 9º ao 12º mês de vida
    Começa a beber pelo copo com ajuda, come a bolacha e o pão sozinho, fazendo um prévio reconhecimento táctil dos alimentos;
  • Do 12º ao 15º mês de vida
    Tenta comer sozinho com a mão e com a colher; mastiga bem alimentos que não sejam muito duros; nesta fase ainda pode apresentar dificuldades na mistura de texturas dos alimentos;
  • Do 15º mês ao 18º mês de vida
    Baba-se frequentemente por não conseguir controlar várias tarefas simultaneamente; alimenta-se pela colher e pelo copo, com pequenas ajudas;
aceita alimentos com diferentes sabores, texturas e consistências com possibilidade de os manipular (importante para a integração sensorial);
  • Do 18º ao 24º mês de vida
    Há um aperfeiçoamento das capacidades miofuncionais orais; mastiga e bebe autonomamente de forma adequada; aceita duas texturas na boca. (Dias, 2015)

Alimentação Restritiva? Alimentação Seletiva? Alimentação exigente? Recusa Alimentar Crónica? Neofobia de alimentos? Qual o perfil alimentar? Dificuldades alimentares de base sensorial? Defensividade Oral? E agora?!

O Terapeuta da Fala pode ajudá-lo com as dificuldades alimentares do seu filho.

A Estimulação Sensório Motora Oral (ESMO) realizada pelo Terapeuta da Fala, quando introduzida precocemente e de forma a garantir o sucesso no aleitamento materno, favorece a introdução dos semi-sólidos e sólidos na idade adequada e de forma prazerosa e proporciona a realização de determinados tipos de movimentos dos órgãos fonoarticulatórios, essenciais para a maturação e desenvolvimento do sistema sensório-motor oral da criança.

O desmame precoce da amamentação pode levar à rutura do desenvolvimento motor-oral adequado, provocando alterações na postura e na força dos órgãos fonoarticulatórios e das funções da mastigação, deglutição e respiração, que estão diretamente relacionadas com a introdução complementar após os 6 meses. (Ferreira et al, 2014). Assim, deve ser dada a devida importância à amamentação no desenvolvimento das competências orais do bebé e esta forma de alimentação deve sem dúvida ser privilegiada.

A ESMO no neonato e/ou a integração sensorial na criança:

  • previne a falta a privação sensorial;
  • contribui para o adequado desenvolvimento do sistema sensório-motor oral do bebé;
  • possibilita que o bebé beneficie de todas as vantagens do aleitamento materno;
  • proporciona o planeamento e coordenação oro-motoras para o desenvolvimento das funções orais ( mastigação, deglutição e fala);
  • permite ao bebé responder a cada estímulo de modo cada vez mais adequado e eficiente, organizando, assim, as suas experiências sensoriais e desenvolvendo, de forma sucessivamente mais complexa, as suas capacidades motoras, sociais e cognitivas. (kutscher & Glick, 2011).

Deste modo, na presença de qualquer dificuldade na amamentação e/ou na resistência da criança na introdução da alimentação sólida, deve sempre procurar o parecer de um Terapeuta da Fala – técnico especialista habilitado para trabalhar as funções em causa -, que poderá ajudá-lo respondendo a questões, sugerindo estratégias facilitadoras ou, se for o caso, realizar intervenção direta com os pais e com o neonato/criança.

 

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As birras fazem parte do crescimento, hão-de existir  sempre.

Não havendo uma fórmula para as evitar na totalidade, há formas de lidar com as crianças. Ensinando-as a gerir melhor as emoções conseguem  acalmar as suas próprias ansiedades.

Ficam três dicas simples que o vão ajudar:

  1. Antecipar

Antecipar alguns momentos do dia-a-dia é fundamental para que tudo aconteça duma forma mais tranquila. Se vai a casa dos avós e tem de sair mais cedo explique-lhe o que vai acontecer de preferência antes de sair de casa. Planeie o dia para que o seu filho não seja apanhado de surpresa. Quanto mais as crianças tiverem o seu dia planeado, também elas gerem melhor o que sentem. Caso contrário, vai estar a brincar com os primos e, de repente, os pais dizem: “vamos embora”. Para a criança é um atentado à diversão e gera-se um problema. No entanto, se já estiver preparada irá lidar melhor com o que sente e mesmo que faça uma birra, não sente que foi uma traição dos pais.

  1. Olhos nos olhos

Quanto tempo consegue falar com o seu filho a olha-lo nos olhos? Sem as distrações do telemóvel, da televisão, da máquina da roupa ou o jantar para fazer? Criar o hábito de ter um espaço de conversa com o seu filho vai dar-vos uma oportunidade de se conhecerem melhor, de partilharem o que pensam e sentem e, acima de tudo, vai passar a mensagem ao seu filho de que se preocupa com ele. Quanto mais cedo na relação houver este espaço mais fácil será a comunicação entre os dois. Se a criança for muito pequena, esta conversa pode ser uma brincadeira com um simples brinquedo, de forma a que a atenção não seja exclusiva para o brinquedo mas sim para a relação entre os dois.

  1. Atenção

Se o seu filho está a fazer uma birra porque quer um brinquedo, uma ida ao parque ou a casa dos avós, está a exigir atenção. A melhor forma de o fazer entender que não é possível satisfazer o seu desejo nessa altura é baixar-se, colocar-se ao nível dele, olhá-lo nos olhos e falar com um tom de voz calmo.

Lembre-se que se responde com frustração ou impaciência vai gerar ainda mais frustração. O que o seu filho lhe está a dizer é “nunca olhas para mim, nunca queres saber de mim, só fazes o que tu queres”. Mantenha-se calmo e devolva-lhe aquilo que ele sente. “Eu sei que estás chateado comigo porque queres ir ao parque, mas neste momento não vai ser mesmo possível porque tens de ir tomar banho e jantar”.

Não prometa ir no dia seguinte porque os imprevistos acontecem e as crianças não se esquecem do que lhes foi prometido.

Este tema surge muitas vezes nas sessões de psicologia com os pais. As birras são uma situação recorrente nas famílias e de difíceis contornos quando já está instalada. Isto provoca um desgaste emocional muito grande para todos. As birras são naturais, a não ser que se tornem muito repetitivas e persistentes. Nesse caso poderão ser um sintoma de que algo está a correr menos bem.

O mais importante é apostar na relação de confiança e partilha. Garantir que os pais são o adulto na relação (muitos pais acabam por ceder às birras cabendo no fim o poder de decisão à criança), ter calma suficiente para lidar com os imprevistos, e incluir o seu filho nos planos preparando-o para a dinâmica dos vossos dias.

 

 

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