Não tenhas medo…

De olhar para a barriga a crescer e de sentir que ainda não te sentes preparada. Que talvez devesses ter esperado mais tempo e que ser mãe talvez tenha sido um passo precipitado.

Não tenhas medo desabafar que o parto te assusta, que tens receio da dor e/ou da recuperação.

Não tenhas medo de admitir que não foi amor à primeira vista. Que não sentiste o que supostamente toda a gente diz sentir durante as primeiras semanas de convívio com o bebé. Que precisaste de tempo para que a relação se fosse construindo e para que o amor fosse crescendo.

De dizer que estás cansada. Que tens saudades de dormir, que te doem as mamas e as costas.

Não tenhas medo de expressar como por vezes (ou muitas vezes) te sentes só.

De dar colo e de deixar o bebé dormir junto a ti.  De o transportar encostado ao teu corpo, de criar recordações e permitir que ele saiba que o amas.

De nem sempre acertar à primeira, de enfrentar palpites alheios e seguir o teu instinto.

Não tenhas medo de chorar e expressar o teu receio em estar a falhar. De por vezes dares por ti a sentir que não foste talhada para ser mãe, de te sentires enganada por nunca ninguém te ter falado do lado menos cor-de-rosa da maternidade. A dada altura todas sentimos o mesmo, no entanto a maior parte tem medo de falar sobre isso.

De pedir conselhos, delegar tarefas e aceitar apoio. Não és nem serás menos mãe por isso, serás sim uma mãe sensata que poupa recursos e os despende naquilo que realmente importa.

Não tenhas medo de contrariar os modelos parentais com que foste criada se pelo caminho descobrires outros que te façam mais sentido.

Não tenhas medo de constatar que não és perfeita, és apenas uma mãe real.

Não tenhas medo de dar o teu melhor. De admitir que apesar de tudo nunca foste tão feliz. De abraçar os teus filhos e de lhes dizer que os amas eternamente.

Não tenhas medo de reconhecer que és a melhor mãe que os teus filhos podiam ter, pois só tu (e o pai) os conheces e os amas como ninguém.

Acima de tudo, não tenhas medo de ser mãe e de sentir e expressar tudo o que faz parte da maior aventura da tua vida.

Mãe, estás contente?

Os nossos filhos vêem-nos como somos e não como achamos que somos.

Muitas vezes, ao longo da vida, enganamo-nos. Enganamo-nos para continuarmos o nosso caminho sem nos sentirmos tão culpados por aquilo que fazemos e que sabemos que deveríamos fazer de outra maneira.

Ao longo da vida enganamos os outros, voluntária ou involuntariamente, pelo simples facto de aceitarmos a opinião que os outros têm de nós sem a corrigirmos, principalmente quando essa opinião é positiva.

Com os filhos não há nada disso.

Podemos saltitar de pedra em pedra mas eles sabem que não estamos a voar.

Vêem-nos como super heróis por fazermos coisas que a eles ainda são inacessíveis, vêem muitas vezes as nossas qualidades quando duvidamos delas, e muitas vezes apontam os nossos defeitos quando menos esperamos.

“Mãe, por favor, não fiques zangada. Não quero que fiques zangada”.

Esta frase tira-me metade do coração quando a oiço.

E às vezes ela chega para me lembrar que quando chamo a minha filha à atenção ela vê o que eu não vejo, porque estou dentro de mim. Ela vê o cansaço, ela vê alguma impaciência, ela vê alguma tristeza.

Acho que é importante que ela perceba que os seus actos têm consequências, acredito que ela tem de perceber que quando me magoa deve ter à sua frente alguém que demonstra os seus sentimentos sob pena de crescer a achar que a mãe foi sempre um muro de aço perante as coisas menos boas da vida e que demonstrar os nossos sentimentos é uma fraqueza. Não é, pelo contrário.

Mas quando ela me vê naquela culpa e tristeza sinto ainda mais culpa e mais tristeza, essa sina eterna das mães.

Quero que perceba que as coisas não desaparecem segundos depois de acontecerem, mas não quero que tenha receio que eu me zangue. Quero que faça as coisas, tome as suas decisões pelos motivos certos e não com medo de me deixar triste.

Sei, também, que há alguma inevitabilidade em crescermos a não querermos desiludir os nossos pais e que isso faz parte.

E por isso, ao ver-me ao espelho quando me zango, através dela, através da forma como ela me vê, sei de imediato aquilo que tenho de tentar mudar.

E é por isso que o diálogo é tão importante.

E é por isso que a pergunta “estás zangada?” nunca é seguida de um “mas é claro que sim”, um virar de costas e ir embora.

Eu fico. Eu baixo-me para falar com ela a olhá-la nos olhos. Eu explico o que estou a sentir e porquê. Explico o que acho que devia ter acontecido de outra forma, muitas vezes inclusivamente falando do eu EU deveria ter feito de outra forma, porque aqui não há só um culpado.

E depois abraçamo-nos. E ela, sem falhar, pede desculpa se tem de o pedir e jura que não volta a fazer.

Já percebi que uma das coisas que mais desespera a minha filha é sentir que me falhou.

Mas ela não me falha. Simplesmente está a crescer. E crescer custa, dá trabalho e é um percurso recheado de bons e maus momentos.

Seguimos caminhos errados, testamos limites, somos diferentes do que esperamos que sejamos.

E isso não vai mudar, porque hoje, aos trinta e dois anos, continuo a fazer o mesmo que ela aos quase quatro.

E por isso quero que ela sinta que não vou fingir que não vejo quando ela age de forma errada, mas quero que saiba, que sinta, que não tenha  menor dúvida que, principalmente nesses momentos espero por ela para lhe dar a mão e encontrarmos uma maneira de melhorar. As duas.

Ser mãe não é fácil, principalmente porque também nós estamos a seguir o nosso percurso, a evoluir, a mudar, a encontrar novas ferramentas, novas convicções.

Ser mãe não é fácil pelo que se espera de nós, pelo que esperamos de nós.

Mas sabermos que não fazemos esse crescimento sozinhas ajuda.

E eu não estou sozinha porque a tenho a ela, a aprender comigo e a ensinar-me mais do que dezassete anos de escolaridade me ensinaram.

E não, meu amor, não estou zangada. E se estiver, passará.

Porque tudo passa, menos nós.

image@weheartit

Quando a educação dói: mães tóxicas

Neste artigo vamos falar sobre mães tóxicas. No entanto, convém frisar que também há pais e avós tóxicos. São mestres em educar as crianças sem estimular o crescimento pessoal e a segurança. Com isto, no futuro poderão ter a sua independência física e emocional bastante prejudicadas.

O papel da mãe é quase sempre mais forte na educação dos filhos. É esta que define o vínculo de carinho e afeto com a criança que, com passar do tempo, sairá dos seus braços e saberá que tem uma mãe que a ama. A criança terá sempre a referência do amor incondicional da mãe, mas de forma saudável, pois amadureceu de forma inteligente.

As mães tóxicas oferecem um amor imaturo aos seus filhos. Projetam sobre eles as suas inseguranças para se reafirmar e, assim, obter um maior controle sobre a sua vidas e a dos seus filhos.

O que está por trás da personalidade das mães tóxicas?

Por mais estranho que pareça, por trás do comportamento de uma mãe tóxica está o amor. Agora, todos sabemos que quando se fala de amor, há dois lados da mesma moeda: uma dimensão capaz de promover o crescimento pessoal do indivíduo, seja a nível de parceria ou a nível familiar, e outro lado, mais tóxico, onde um amor egoísta e interessado é exercido, por vezes de forma sufocante, que pode ser completamente destrutivo.

O factor preocupante é que as famílias que exibem estas artimanhas de toxicidade fazem-no em crianças, indivíduos que estão em processo de amadurecimento pessoal, tentando estabelecer a sua personalidade e desenvolver a sua autoestimaTudo isto vai deixar grandes lacunas e  inseguranças nos filhos que, por vezes, se tornam intransponíveis.

Vejamos as dimensões psicológicas delineadas das mães tóxicas:

Personalidade insegura

Às vezes, possuem uma nítida falta de autoestima e autossuficiência que as obriga a ver nos filhos uma “salvação”, algo que devem modelar e controlar para ter ao seu lado, para cobrir as suas deficiências.

Quando notam que os filhos se estão a tornar independentes e capazes de construir as suas próprias vidas, estas mães sentem uma grande ansiedade, pois temem, acima de tudo, a solidão. Portanto, são capazes de implantar “truques hábeis” para as continuar a manter por perto, projetando desde o início, a sua própria falta de autoestima, as suas inseguranças.

Obsessão pelo controle

Estas mães têm o hábito de controlar todos os aspectos da sua vidas, não dão ponto sem nó. Passam então, a fazer o mesmo na vida dos filhos. Não conseguem respeitar os limites. Para as mães toxicas, controle é sinónimo de segurança, algo que faz com que se sintam muito bem.

O problema, é que estas mães convencem-se que as suas atitudes são reflexo do seu amor.

“Eu vou-te facilitar a vida e controlar as tuas coisas para te fazer feliz”

“Eu só quero o que é melhor para ti e com a minha ajuda não precisas de aprender pelos teus erros ou experiencia”

O controle é o pior acto de superproteção. Evita que as crianças sejam independentes, capazes e corajosas. E impede que aprendam com seus próprios erros.

A projeção dos desejos não realizados

“Quero que tenhas/faças tudo o que eu não tive/fiz

“Não quero que cometas os mesmos erros que eu”, “

As mães tóxicas projetam nos filhos os seus desejos não realizados sem pensarem duas vezes se é isso o que ele querem, sem lhes dar a opção de escolha. Refugiam as suas opções no amor incondicional, quando, na realidade, o que demonstram é um falso amor. Um interesse amoroso.

Como lidar com uma mãe “tóxica”?

É necessário estar consciente de que tem de se quebrar o ciclo de toxicidade. Tens vivido muito tempo neste ciclo, sabes as feridas que te causou. Mas agora precisas de abrir as asas e voar. Para seres feliz. Será difícil, mas deves começar por dizer “não” para pores as tuas necessidades em voz alta e aumentar as tuas próprias barreiras, aquelas que ninguém poderá ultrapassar.

Trata-se da tua mãe, e quebrar este ciclo de toxicidade pode causar danos. Às vezes, dizer a verdade pode parecer prejudicial, mas é uma necessidade vital. Isso significa deixar claro o que permites e o que não permites. Não queres causar nenhum dano, mas também não queres sofrer mais com esta relação; isto deve estar bem claro na tua cabeça. Lembra-te que uma mãe tóxica, transforma-se numa avó tóxica.

Reconhece a manipulação.

A manipulação por vezes é tão é tão subtil que não nos apercebemos, pois pode estar em qualquer palavra, em qualquer comportamento. E, acima de tudo, não caias na “vitimização”, um recurso muito utilizado pelas mães e pessoas tóxicas. Mostram-se como as mais sofredoras, as mais feridas quando, na realidade, o mais ferido és tu. Lembra-te sempre disto.

image@Anna Radchenko

Por A mente é maravilhosa, adaptado por Up To Kids®

“Mãe!” é a palavra mais dita em todo o mundo (aposto)

Eu, que já passei dos trinta, continuo a chamar pela minha mãe quando estou feliz, triste, desanimada, desesperada, sem rumo, quando recebo boas notícias, quando não sei de alguma coisa, quando preciso apenas de falar.

E é por isso mesmo que ainda que seja exasperante compreendo a minha filha, que repete o meu título honorário como se não houvesse amanhã.

Mas, afinal, para que servem as mães?

Dizem que ter filhos é andar com o coração fora do corpo. Por essa linha de raciocínio há um coração que nunca se sente completo, porque o corpo onde ele foi gerado inicialmente tem de viver sem ele, à margem dele.

Daí talvez esta relação próxima que existe com as nossas mães, a nossa com os nossos filhos.

Fomos feitos para sermos inseparáveis mesmo quando temos de seguir caminhos diferentes.

A nossa mãe é a garantia de que nunca estaremos sozinhos, mesmo quando ela já não estiver por perto. É a certeza que por mais que a vida nos derrube, haverá sempre aquela voz, do outro lado do telefone, mesmo à nossa frente, ou em memória, que nos garante que conseguimos dar a volta. Que somos capazes. Que ela vai torcer por nós.

Quem tem, ou teve um dia, uma boa mãe tem uma herança para a vida.

Tem um exemplo, tem um caminho já trilhado para ir tirando notas sobre o que fazer e o que evitar.

Tem um admirador número um, tem alguém que nunca o quis desiludir, mesmo quando não foi capaz de ser melhor.

Uma mãe nasce quando há a vontade de se ter um filho. E a partir daí a luta é conjunta. A corrida é feita de mãos dadas, a primeira vez que há um olhar, um toque, marca o início de um amor já palpável.

O amor entre uma mãe e um filho, por mais que se tenha tentado, é impossível descrever. Ainda está por inventar uma palavra que seja sinónimo da grandiosidade deste sentimento, desta forma de pertença, desta experiência cheia de altos e baixos em que por mais que haja falhas, nunca falha o amor.

Irei chamar a minha mãe sempre, enquanto tiver o privilégio de a ter por perto. E depois irei fazê-lo baixinho (como, confesso, às vezes já faço quando não estou preparada para lhe dizer algumas coisas).

E irei sempre responder ao chamamento da minha filha.

Porque não existe outra maneira de existir.

Afinal, sou mãe.

E mãe é mãe e basta.

image@weheartit

Dia da mãe – Vale mimar-me

Começamos logo de manhã. Corre para aqui, corre para ali. Prepara isto, pensa naquilo, faz malabarismos para encaixar todas as atividades extracurriculares, o nosso trabalho, os tpcs, a comida saudável, os banhos, as horas a que os miúdos precisam de estar na cama. Ufa!

Só quando aterramos no sofá, é que notamos como estamos exaustas. E dois segundos depois, já estamos a programar tudo o que é preciso para o dia seguinte. A nossa cabeça parece o gabinete da direção de uma multinacional. Uma autêntica loucura.

Sinceramente, não sei onde vamos buscar a energia. Não sei onde vamos buscar tanto amor e colo para dar aos outros. Não sei como conseguimos ter na cabeça frações complicadas, e onde estão as bolachas na despensa. Mas sei como me sinto exausta e zangada se não cuido de mim. Foi algo que fui notando com curiosidade. Percebi que não consigo ter tanta paciência quando estou esgotada. Que me zango mais facilmente. E que muitas vezes, depois do calor do momento, percebo que não era nada daquilo que queria dizer ou fazer.

Instruções

As instruções de segurança nos aviões são muito claras nos procedimentos a seguir. Primeiro, temos de colocar a máscara de oxigénio em nós, e só depois ajudar as crianças. O mesmo devia acontecer na parentalidade. Só conseguimos dar, se tivermos algo para dar. Caso contrário, estamos em esforço contínuo. Em desgaste contínuo.

Uma mãe precisa de cuidar de si. Cuidar sem culpa. Precisa de descansar, carregar a pilha, sentir-se inteira para ser capaz de cuidar e dar aos outros. Além disso, uma mãe ao cuidar de si, inspira nos filhos o autocuidado e a auto-valorização.

Pensei com carinho, no que te podia oferecer para começares a cuidar de ti. Pouco a pouco. A mimares-te como mereces. A sentires como faz toda a diferença.  Que isto do “cuidar de mim”, não faz de ti uma má “mãe”, mas sim uma mãe humana.

Pensei e decidi dar-te momentos. Momentos de auto-mimo para cortares, usares e mimares-te.

Lembra-te, vale mesmo a pena cuidares de ti todos os dias, e não só no dia da mãe.

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A solidão de ter um terceiro filho

Estou grávida. Estou grávida do terceiro filho.

Quando temos o primeiro filho a alegria é contagiante mesmo que não tenha sido planeado, mesmo que ainda tivesses planos para concretizar ou que não te sintas preparada,. Quando acontece ficas como que anestesiada, não sabes o que vai acontecer, não sabes como é, só sabes o que toda a gente à tua volta te diz, que é maravilhoso, que é lindo. Algumas pessoas assumem que não é fácil, mas todas elas concordam que é o melhor da vida. Quando ficas grávida pela primeira vez vives tudo intensamente, sentes-te acompanhada e nunca estás sozinha.

O segundo filho é sempre uma escolha tua, pode ser logo de seguida, podes esperar uns anos  mas é aquilo que  toda a gente espera de ti. O segundo filho. Acontece e novamente a onda de calor, de amizade de alegria gira à tua volta. É claro que tens medo, é normal. O primeiro ainda é pequeno, ainda precisa de atenção. Vais para a maternidade e deixas as gavetas etiquetadas e a roupa separada para um mês. Vais para a maternidade ter o segundo mas não consegues deixar de pensar no primeiro.

Aquilo por que não esperavas é que a intensidade de amor que tens pelo teu primeiro se multiplique pelo teu segundo. Não conhecias em ti a capacidade de amar tanto.  E não conhecias em ti a capacidade de aceitar o amor sem fronteiras, sem limites, sem prerrogativas que todos os dias recebes das pequenas criaturas de quem cuidas.

Voltas à rotina.

Ao trabalho, foco na carreira agora, aquela que deixaste em suspenso, tentas  ser o que eras mas nunca mais serás a mesma. Porque inevitavelmente as tuas prioridades mudaram. E aceitas. Aceitas que não consegues ser excelente, que talvez a tua evolução profissional seja mais lenta do que desejavas. Mas não sentes rancor. Tens a família que sempre imaginaste.

Um dia chegas a casa e percebes que alguma coisa está diferente e como que intuitivamente fazes um teste de gravidez. Positivo. Estás grávida outra vez. O choque é demasiado grande e choras, choras porque não planeaste, choras porque não querias, choras porque não queres deixar a tua vida perfeita para enfrentar mais desafios. Choras não sabes por quê. Pensas o que vais fazer e as opções que tens mas muito antes de tomar uma decisão o universo toma por ti, e assim de um dia para o outro, sem mais nem porquês o que encaraste como um problema deixa de existir. E assim, de um dia para o outro o que encaravas como um problema era, afinal,  tudo o que querias na vida. Um terceiro filho.

A partir desse dia passas a viver com essa ideia no coração e tu sabes que as ideias que se cravam no coração são sempre as que mais dificuldade tens em esquecer.

Mas falta-te a coragem, falta-te o apoio.

Ninguém fala sobre isso, ninguém imagina que o queiras, ninguém sabe do teu coração. Só tu.

Passam uns dias e fazes outro teste, e outro e dali a uma semana mais um… só para garantir. Dás a noticia ao teu marido num tom seco, confuso, não esperas foguetes, não esperas música, marcas consulta no médico e vais, sozinha. E é  a partir desse momento que a tua terceira gravidez te torna solitária. Solitária nas tuas escolhas, solitária nos teus pensamentos, nas tuas culpas, nos teus anseios.

Consideras todas as opções, fazes tantas contas à vida, à segunda casa que vais ter de vender, às escolas privadas que não vais conseguir pagar. Mas o amor não tem preço e não há suborno possível para a vontade do teu coração. E decides. Não sabes se bem ou se mal. Mas decides.

E suportas os enjoos, a má disposição, as quebras de tensão. Sozinha. E quando chega a hora começas a dar a notícia. Quase ninguém te dá os parabéns, quase ninguém te felicita. Mas não faz mal, ninguém sabe quando são as tuas consultas, não querem pormenores, afinal , já é a terceira. Devem pensar que foi um deslize ou que estás doida. O terceiro filho…

E nessa solidão caminhas grávida e orgulhosa. Só tu sabes.

Quando nasce um bebé nasce, também,  muito mais do que uma vida.

Há uns dias vi uma imagem algures por aí na net dizia:

Quando nasce um bebé, nasce um coque! ”. Pensando bem, quando nasce um bebé nascem em simultâneo tantas coisas.

Nasce uma família! Todo um mundo de pessoas para conhecer e desejosos de conhecer o novo membro.

Nasce o coque. O tão prático coque, que permite mudar fraldas, pegar e evitar que eles se agarrem aos nossos cabelos.

Nascem nódoas. Um pouco por todo o lado, como se fossem cogumelos. Manchas de leite, de sopas, de fraldas sujas…

Nascem olheiras. Fruto da tão sofredora privação de sono. Do ter que estar acordada a cada 2/3 horas.

Quando nasce um bebé nasce, também, o cansaço. As obrigações são muitas e o descanso é curto, e um enorme cansaço instala-se para ficar.

Nasce um brilho nos olhos. Aquele brilho único de uma mãe que olha para o seu filho. É tão único. Tu sabes.

Nasce um encaixe perfeito. Aquele que costumo dizer: “Não há encaixe mais perfeito do que o de um bebé no colo de sua mãe”

Nascem dúvidas e incerteza. Tão características das mães, tão naturais, tão carinhosas. Afinal, estas dúvidas não são mais do que a busca do melhor para eles.

Nasce um cheiro. Aquele cheirinho que só um bebé tem, e que é tão delicioso.

Nascem novas aventuras todos os dias. Um banho salpicado, um xixi na cama, um primeiro gatinhar, uma primeira palavra, uma queda, um susto, um passeio em família… Uma nova aventura e algo para contar todos os dias.

Quando nasce um bebé nasce, também, uma mulher. Ela não sabe, mas renasce. A mulher é agora mãe, e a mãe é uma outra mulher. Uma mulher capaz de mover o mundo. Um mulher que tem a força de um super-herói e o coração a bater fora do peito.

Quando nasce um bebé nasce uma vida. O bebé! Já pensaram em tudo o que eles ainda vão viver… Tudo o que ainda vai acontecer… Haverá maior “milagre” que este?

Quando nasce um bebé, nasce um amor. O maior de todos. Sem fim, sem medidas. Incontrolável, imensurável. Tão grande e tão forte que dói, que nos faz chorar, e que faz de todas nós mães felizes, todos os dias!

imagem@comfort

Quando fores mãe vais ver o mundo com outros olhos.

Vais dormir menos e pior.

Vais ouvir conselhos desnecessários e uns poucos que realmente ajudam.

Vais perder minutos do teu dia à espera de atravessar a ruas porque se ensinaste que só se pode passar quando o sinal está verde, então é isso que fazes.

Vais ter novamente cinco anos, fazer coreografias de músicas, rir como se ninguém estivesse a ver.

Vais fazer planos e perceber que às vezes o melhor é não fazer planos.

Vais cozinhar mais sopas do que as imaginavas possíveis.

Vais gabar a imaginação da tua mãe, que conseguiu sempre fazer comida diferente para pôr na mesa.

Vais desejar ser tão boa como ela (se tiveres um bom exemplo) e trabalhar para chegar lá perto (ou para seres completamente diferente, se não tiveres tido a sorte de ter uma boa mãe).

Vais sentir o peso da gravidade, não só no corpo mas porque os teus filhos invariavelmente, quando te dão a mão, têm tendência para puxar os braços (o que é que lhes dá?? ?)

Vais mudar demasiadas fraldas e bater palmas quando essa fase chega ao fim.

Vais cantar para acalmar o teu filho, por mais desafinada que seja a tua voz.

Vais dormir com sentimento de culpa mais noites do que gostarias.

Vais sentir-te a pessoa mais afortunada do planeta por que ter um filho maravilhoso.

Vais rir-te sozinha quando te lembrares das saídas que os teus filhos têm.

Vais lembrar-te de quando eras miúda e de como as coisas mudaram tanto.

Vais ter medo.

Vais ter coragem.

Vais estar muitas vezes sozinha (metafórica e literalmente).

Vais estar a maior parte do teu tempo em casa acompanhada.

Vais ser chamada milhões de vezes por dia. Assim que parares para descansar dois minutos. Assim que entrares na casa de banho. Assim que pousares o livro e apagares a luz para dormir. Assim que puseres a série no play.

Vais ensinar a andar, a correr, a levantar depois de cair.

Vais ajudar a subir ao escorrega e a descer sem medos.

Vais limpar ranhos, feridas, lágrimas.

Vais sacudir poeira, desvalorizar nódoas, autorizar brincadeiras nas poças.

Vais medir a temperatura, dar beijinhos na testa, dar colo.

Vais ralhar e apontar o dedo.

Vais mandar arrumar, mas também vais brincar.

Vais sorrir e em alguns dias esses sorrisos serão o que te salva.

Vais dar a mão. Vais receber a mão dos teus filhos na tua mesmo quando não a pedes.

Vais ser abraçada. Vais receber carinhos. Vais ser amada.

Vais amar como nunca amaste antes.

Vais defender as tuas crias do mundo.

Vais aprender a vê-las de forma imparcial e a reconhecer as suas falhas.

Vais fazer o que estiver ao teu alcance para as falhas serem recuperadas.

Vais falhar.

Vais cair.

Vais ter arrependimentos.

Vais perder a paciência.

Vais ter vontade de virar costas e ir embora.

Vais ficar.

Porque é disso que as mães são feitas.

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Gosto da mãe até à lua. Infinitos de infinitos e voltar

É inquestionável o amor que sentimos pelos nossos filhos mas e o amor que eles sentem por nós? Quantas mães não ouviram já, ou leram em cartas e recados rasurados, gosto da mãe até à lua e voltar? Infinitos de infinitos?

O amor que os nossos filhos sentem por nós revela-se em cada pormenor do seu dia-a-dia e em cada acordar noite após noite. Felizmente, no que toca a noites, falo de barriga quase cheia. Os meus três filhos dormem quase todas as noites pelo menos cerca de 10 horas seguidas.

O amor deles apresenta-se de todas as formas de arte que  conhecem e dominam.

Na arte da dramatização – com as birras de manhã para não ficarem na escola; na pintura –  com os desenhos que são, quase sempre sobre a mãe, que é, na maior parte das vezes, uma senhora alta, magra, de nariz largo e faces muito rosadas; na caça ao tesouro do conforto da cama da mãe em noites de pesadelos; no palco dos fins-de-semana por poderem ficar mais tempo na sala; na luta pelo lugar no sofá ao lado da mãe; na escrita criativa com as dedicatórias mais empenhadas e sobre avaliadas, confiantes que a mãe será sempre, ou pelo menos até serem adolescentes, a melhor mãe do mundo (esta parte da melhor mãe do mundo, sempre me deixou de consciência pouco tranquila, é só a mim?)

As manifestações de amor desaparecem com a idade

Naturalmente, com a idade, vão perdendo a vontade e o à vontade para grandes declarações de amor. Dos 3, o mais velho é o que, actualmente, menos se manifesta em relação aos sentimentos. Também eu, à medida que fui crescendo deixei de escrever notas aos meus pais a dizer o quanto gosto deles. E gosto tanto. Já não faço desenhos com a cara deles colada ao peito, os braços a saírem da cabeça e os olhos nas orelhas. Já não lhes peço colo no centro de saúde quando vou às vacinas. Nem chamo por eles em noites de trovoada. Também não lhes ligo de manhã a dizer que não me apetece ir trabalhar. Ou mesmo que gostava de ficar a dormir até mais tarde ou, simplesmente, a esborrachar o sofá lá de casa.

Na semana passada, uma criança, a um dia de fazer 4 anos, morreu nos braços da mãe, sufocada com uma bola saltitona. Não quero explorar aqui a tragédia da história em detalhes – sei que é a vida, que por oposição à morte, se revela com toda a efemeridade e fragilidade, com retalhos que não são fáceis de coser.

Basta um segundo para que tudo o que era, deixe de ser. Enquanto é, enquanto somos mães (e que o sejamos para sempre), enquanto somos filhas, netas, tias, enquanto somos sobrinhas, madrinhas e afilhadas, é dizer, falado, escrito e desenhado, as vezes que forem possíveis, com vontade e à vontade. Gosto de ti até à lua, ir e voltar, infinitos de infinitos. E mesmo depois, quando o que era já não é, vou continuar sempre a gostar de ti, até à lua e voltar, infinitos de infinitos.

imagem@MariaCarvão

O nascimento de uma mãe

No dia em que a minha filha nasceu, eu nasci outra vez. A mulher que eu era ficou na confusão do bloco de partos, esquecida entre as conversas dos médicos e a música que estava a tocar e nasceu outra mulher: a mãe.

Naquele dia, que recordo como um filme que vemos muitas vezes, nascemos as duas e temos vindo a crescer as duas. Sempre de mãos dadas. Eu dou-lhe a mão, enquanto lhe mostro os caminhos possíveis e ela aperta a minha mão com força e ajuda-me a ser a mãe que sou.

Nunca pensei que mãe iria ser, nem durante a gravidez, nem depois, não fiz planos, nem tinha certezas absolutas, não li livros, nem procurei teorias. A minha filha nasceu e eu, tal como ela, era um bebé recém-nascido a respirar pela primeira vez e tenho vindo a aprender a viver a maternidade por instinto e guiada pelo amor.

E que mãe sou eu?

Sou uma mãe imperfeita, que se assume imperfeita e que rejeita a culpa com todas as forças, faço sempre o melhor que consigo e às vezes o melhor que consigo é mesmo errar. E ajustar as velas e voltar a tentar.

Sou uma mãe corajosa e eu não era uma mulher corajosa. Transformei-me no preciso momento em que entrei na sala de partos e me senti estupidamente calma.

Sou uma mãe meio bipolar, uma mãe que grita e abraça e ralha e dá mimo e se enerva e que pede desculpa enquanto se volta a enervar.

A minha filha confia em mim cegamente para a proteger de todos os males, reais e imaginários, para a fazer sentir segura, confiante, para lhe explicar o mundo e os outros. E eu sou uma mãe leoa, galinha, ursa, loba e todos os bichos do planeta só para a proteger.

Sou a mãe a quem a minha filha abre buracos no peito quando me confidencia os segredos, as angústias, as questões existenciais e as dores de crescimento e com isso me faz crescer também.

A minha filha obriga-me a confrontar-me com a minha impaciência, com o meu cansaço, obriga-me a reconhecer os meus erros, quando falho e quando lhe exijo demais, mas aceita a minha imperfeição, amando-me. Aos olhos dela sou a melhor mãe do mundo e a mais bonita. A mãe a quem pede desculpa quando erra, a quem sussurra ao ouvido que a adora.

No dia em que a minha filha nasceu, fui abençoada com o milagre da vida e tenho vindo a ser abençoada com a beleza da presença dela nas nossas vidas, abençoada com o amor que transborda do seu pequeno coração.

Ainda hoje, cinco anos depois, olho para ela com o mesmo espanto com que a olhei pela primeira vez, acabada de sair da minha barriga, suja, inchada e cinzenta e eu a dizer-lhe:

– Olá, eu sou a tua mãe.