Pode parecer estranho. Muitas vezes uma condição cerebral incompreendida. Não é preguiça mental nem falta de motivação. É considerado uma perturbação neurológica. Afeta especialmente a capacidade de entender, trabalhar com números e conceitos matemáticos. Se for o caso do seu filho, não desespere! Há formas de o ajudar.

Conheça os sinais da Discalculia  Uma criança com esta perturbação tem dificuldade em quantificar as coisas. Tende a apresentar dificuldades ao nível da perceção real entre o número e a quantidade. Como se 8 canetas fossem 15 ou 20. Apresenta dificuldades em compreender, por exemplo, que 8 é o mesmo que 4+4, ou 7+1.

São sinais que podem indiciar uma disfunção neurológica. Quanto mais cedo o diagnóstico, maiores as probabilidades de a ajudar.

Preste atenção ao comportamento do seu filho – Tome notas. Observe e registe as suas dificuldades. Tenha em conta que a Discalculia pode causar várias dificuldades, não apenas ao nível dos conceitos matemáticos. Esta Perturbação Específica do Cálculo também tende a manifestar-se através de dificuldades na noção do tempo e nas medidas de grandeza.

Discuta a vida escolar – Pergunte ao professor de matemática se o seu filho tem manifestado problemas na aprendizagem dos conceitos. Se a resposta for afirmativa, pergunte se está a implementar estratégias de ensino compensatórias. Os apoios informais também podem ser um importante contributo.

Crianças com Discalculia costumam ainda apresentar outras dificuldades de aprendizagem e também, de atenção. Considere solicitar uma avaliação educacional (nas áreas da psicologia e/ou psicopedagogia). As informações obtidas podem ajudar o seu filho. Marque de seguida uma reunião na escola. Apresente as respetivas conclusões aos professores que poderão ponderar a criação de um Plano de Educação Individualizado.

Fale com o médico do seu filho – Discuta todas as dúvidas e preocupações, sem a presença da criança. Transmita ao pediatra as notas diárias que foi recolhendo. Questione as opções de tratamento, incluindo a terapia psicomotora. Alguns alunos com discalculia têm dificuldades visuo-espaciais na leitura e escrita de números. Não se sabe, ao certo, qual a causa concreta da Discalculia. Alguns investigadores acreditam que poderá estar relacionada com vários fatores: herança genética, lesões cerebrais, nascimento prematuro, pouco peso e, por exemplo, exposição ao álcool durante a gestação.

Discalculia dura para a vida mas não impede o sucesso profissional. É possível minimizar as dificuldades com o acompanhamento certo e estratégias compensatórias. Todas as crianças com este distúrbio podem destacar-se em outras áreas.

Explore as capacidades do seu filho. Poderá surpreender-se.

Pais que “mimam” os filhos estão a criar um geração de adultos deslocados e incapazes de lidar com frustração

À mesa do restaurante, o João faz uma fita a exigir o telemóvel da mãe para se distrair durante o almoço. A Maria atira-se para o chão da loja de brinquedos porque quer que o pai lhe compre aquela boneca, agora. E, sentado no sofá de casa, o Pedro irrita-se com os pais porque quer uma resposta urgente sobre poder ou não ir à festa dos amigos no sábado à noite. Todos eles, independentemente da idade, têm algo em comum: vão tornar-se adultos “mimados”, incapazes de lidar com as frustrações do mundo.

A culpa do destino destes três, João, Maria e Pedro, é do imediatismo que rege as relações atualmente. Temos, enquanto pais, dito muitos “sim” aos filhos quando na verdade, o ideal seria dizer mais “não sei” ou “vou pensar”. Como explica a psicóloga e educadora Rosely Sayão, essa atitude traz como maior prejuízo uma alienação em relação à realidade.

— O adulto que tem o culto do imediatismo, em vez de ser uma pessoa controlada, tem dificuldade em aceitar as situações e inserir-se no mundo.

Pressionados a responder às demandas dos filhos imediatamente, os pais acabam por soltar as respostas impensadas, e a consequência, na visão da coach de vida e carreira Ana Raia, é a criação de jovens pouco preparados para lidar com a vida.

Os pais atualmente não aguentam não ceder ao imediatismo. No passados os pais permitiam-se em deixar os filhos insatisfeitos por muito tempo. Hoje em dia, com o stress, acabam por ceder à pressão rapidamente, criando assim um dos maiores desafios na educação das crianças e jovens: o imediatismo.

Ana Raia acredita que a tecnologia contribui para o imediatismo, uma vez que, ao toque de um dedo no ecrã, a resposta para qualquer pergunta ou busca de informação podem ser obtidas em pouquíssimos segundos. Temos o mundo dentro de nossa casa, dentro da nossa carteira, dos nossos bolsos.

Não conseguimos sustentar uma dúvida por muito tempo, um incómodo, uma pulga atrás da orelha. Não sabemos lidar com um mal-estar num mundo onde a felicidade é imperativa.

E a dúvida, explica Rosely Sayão, é preciosa, assim como a espera e o pensamento porque ajudam a criança a crescer e a amadurecer. Crianças que não têm momentos de “mente vazia”, por exemplo, poderão sofrer graves consequências na vida adulta.

Alguém que está sempre entretido terá para sempre a necessidade de entretenimento constante, alerta o médico Daniel Becker, criador do projeto Pediatria Integral. Defende que, para ser criativo, o cérebro humano precisa da criatividade.

— São necessários momentos de engajamento externo e momentos  de ócio em estado de contemplação. Quando uma criança tem o seu tempo completamente controlado com atividades como escola, inglês, natação, Facebook, Instagram, WhatsApp, etc, acaba por ficar incapacitada de desenvolver processos interiores profundos e importantes.

Becker acrescenta que crianças que não interagem com os seus pares ou mesmo com adultos porque passam o dia com gadgets na mão, desenvolverão menos a inteligência emocional, a empatia e a capacidade de comunicação quando crescerem.

Se este não fosse já um bom argumento, ainda haveria a opinião de outros especialistas, que encaram o hábito dos pais entregarem telemóveis e tablets às crianças, como algo benéfico apenas para os adultos.

Na opinião de Rosely Sayão, dar um gadget à criança em momentos onde seria suposto sociabilizar com a família e os amigos, não é um carinho, mas sim, um comodismo.

— O telemóvel e o tablet nestas situações têm a função do “fica sossegado”, e nada mais.

Mas, então, o que devemos fazer quando estamos a almoçar com amigos ou em família, e os miúdos não param de chatear para irmos embora?

O pediatra Daniel Becker diz que:

“As pessoas esquecem-se que as crianças sabem conversar e que podem fazer pequenas conversas. Mesmo as mais pequenas têm esta capacidade de compreensão. Basta dizer ao filho que, nos momentos em que estiverem a conversar em família, ele não terá o tablet, mas que, quando os pais estiverem a falar só com os seus amigos, ele poderá jogar por 15 minutos. Assim, alcança-se um equilíbrio.

Soluções como esta são recursos para que os pais lidem não só com o imediatismo das crianças, mas também o deles que, de forma não intencional pode servir de exemplo negativo aos filhos, que acabam por copiar as atitudes da família.

Para o pediatra presidente do Congresso Brasileiro de Urgências e Emergências Pediátricas, Hany Simon, a ansiedade e a angústia na adolescência e na vida adulta podem ser resultados do imediatismo paterno presenciado na infância. E, como reforça Rosely Sayão, viver de forma “urgente” só traz impactos emocionais negativos nas crianças.

— Somos escravos do imediato desde que nascemos. Choramos para mostrar rapidamente que estamos vivos, somos atendidos e temos as nossas necessidades básicas saciadas. Com isto, vem também uma sensação de prazer, que vamos desejar para sempre. No entanto, não é o princípio do prazer que vai reger a nossa vida mas sim o princípio da realidade. O papel dos pais é mostrar aos filhos a realidade do mundo.

imagem@umcomo.com

Publicado em R7, adapatado por Up To Kids®

O Bullying é uma forma de agressão que se caracteriza pela existência dum padrão de ações violentas frequentes dum agressor sobre uma vítima (Besag, 1989; Olweus, 1991). Nesta relação, o agressor faz uso do seu poder de modo a intimidar a vítima (Smith & Sharp, 1994).

Tipos de Agressão

Que comportamentos caracterizam o Bullying?

Existem diferentes formas de se exercer o bullying:

– Agressão física (por ex.: empurrar, bater, destruir bens da vítima, assaltar, etc.)
– Agressão verbal (por ex.: gozar, chamar nomes, espalhar rumores injuriando a vítima, etc.)
– Exclusão social (por ex.: impedir a participação da vítima em atividades de grupo, ignorá-la, etc.)
– Intimidação emocional (por ex.: fazer ameaças à vítima, que comprometem o seu bem – estar e/ou o da sua família, etc.)

O Agressor: Quem é?

– Os agressores são maioritariamente rapazes, podendo atuar sozinhos ou em grupo.
– Normalmente, partilham a mesma faixa etária da vítima, embora possam ser mais velhos.
– Verifica-se que os agressores são muitas vezes da mesma turma que a vítima, e conhecem-na bem.
– As agressões ocorrem maioritariamente no interior da escola (com maior frequência no recreio, seguindo-se os corredores, salas de aula, refeitório e casas de banho), ou no caminho para a escola.

O Perfil do Agressor

  1. O Agressor não valoriza os sentimentos dos outros.
  2. Maltrata as vítimas, retirando daí um grande prazer.
  3. É egoísta.
  4. Tem frequentemente poucos amigos.
  5. Não respeita a autoridade.
  6. Quer deter sempre o controlo de todas as situações.
  7. Goza e humilha os outros, incluindo crianças mais pequenas.
  8. Envolve-se em conflitos.
  9. São muitas vezes crianças que provêm de famílias problemáticas, onde recebem pouco carinho e atenção.

(Smith & Hoover, 1999)

Porquê o meu filho?

– Qualquer criança pode ser uma vítima.

– Têm sido identificadas várias motivações dos agressores na escolha das suas vítimas:

  • Aparência física frágil
  • Temperamento tímido ou introvertido, que não oferece resistência às agressões
  • Sensibilidade
  • Roupa
  • Excesso de peso
  • Bom desempenho académico
  • Grupo de amigos
  • Religião
  • Ser portador de deficiência física ou psicológica, ou doença crónica

Details

Como diria Eduardo Sá, “a família é mais importante do que a escola e brincar é, pelo menos, tão importante como aprender”.

Mas afinal porque é que brincar é tão importante?

Os benefícios acontecem tanto a nível emocional como cognitivo e são tantos que podíamos ficar aqui até amanhã! Mas o objetivo, é que quando acabe de ler este artigo vá brincar com os seus filhos, sobrinhos ou vizinhos. Assim, vamos ser rápidos!

  • Benefício nº1: Desenvolve a criatividade e agilidade mental

É importante deixar as crianças explorarem e questionar-se sobre as coisas! É através dessas reflexões que elas vão perceber melhor o mundo e é também esta exploração que serve de inspiração para as suas fantasias.

  • Benefício nº2: Prepara para a vida em sociedade

Não é possível viver sem interações e por isso é importante que as crianças vão aprendendo como lidar com o próximo. Brincar é uma forma para aprender a confiar nos outros, a partilhar, a esperar e a trabalhar em equipa. Até mesmo a liderança e o pensamento estratégico podem ser desenvolvidos em simples brincadeiras como “O rei manda”.

  • Benefício nº3: Fortalece a relação com os pais, irmãos, amigos

Brincar é o tempo em que as crianças estão mais descontraídas e por isso estão mais propensas a estabelecer relações com quem brincam. Quem não se lembra das brincadeiras que tinha com a irmã mais velha ou os primos em casa dos avós? São estes momentos felizes que ficam facilmente na memória e que ajudam a fortalecer as relações.

  • Benefício nº4: Melhora a motricidade fina e capacidade motora

Brincar pode e deve ser didático e instrutivo, mas como em tudo na vida é preciso um equilíbrio. As crianças não podem só estar habituadas a jogar PlayStation e jogos educativos. É preciso correr, sair, pular, andar de bicicleta, pintar! Todas estas atividades melhoram os seus movimentos e tornam-nos mais “desenrascados”!

  • Benefício nº5: Aumenta a imunidade

É saudável as crianças saberem brincar sozinhas, mas a maioria das vezes a brincadeira é com outras crianças e muitas vezes não é no ambiente conhecido da própria casa. Ao ir para um jardim, para casa de um amigo ou para a escola e ao estar em contacto tanto com pessoas diferentes, mas também com ambientes diferentes, a imunidade acaba por ser reforçada.

E então, já se está a preparar para uma boa brincadeira?

Não são precisos grandes brinquedos nem muito tempo! É preferível ter meia hora de brincadeira por dia do que duas horas só ao fim de semana. E quanto aos brinquedos, às vezes nem são necessários, a verdade, é que qualquer coisa serve para brincar desde que exista interesse e criatividade!

  • Esteja presente!

imagem@altoastral

A criança e o corpo humano

Uma criança considera o seu corpo como sendo igual ao de outras pessoas, e parte, portanto do princípio de que todas as outras crianças têm um corpo como o seu. A mãe e o pai são considerados da mesma maneira, são eles mesmos, e a criança não vê qualquer semelhança entre os corpos grandes e peludos e o seu próprio corpo, pequeno e macio.

As primeiras perguntas aparecem normalmente quando a criança repara numa outra criança, do seu sexo oposto, despida. “O que é aquilo?”. Perguntará então, e tudo o que ele quer é que lhe digam o nome (vagina) e talvez o nome correspondente para aquilo que ele próprio tem (pénis).

Não há motivo nenhum para que este assunto seja abordado com uma excessiva carga de embaraço ou atrapalhação por parte dos pais. Procure, portanto, aceitá-lo com calma e concentrar-se de modo a conseguir dar ao seu filho uma informação simples e precisa que responda exatamente à pergunta específica que ele lhe fez. É evidente que não terá de «pôr todo o assunto a nu», contando-lhe tudo, até aos mais pequenos pormenores.

É preferível deixar que a criança vá fazendo as perguntas sobre as partes que ainda não compreende à medida que ela própria sente que há ainda  mais qualquer coisa por explicar. Não será, senão por volta dos cinco, seis ou sete anos que o seu filho lhe fará a tal pergunta crucial: “Como é que o pai põe a semente na mamã?” Ao fim de anos de respostas curtas, mas sempre específicas, verá que lhe é perfeitamente fácil de responder.

Se deixar que se forme uma atmosfera estranhamente «especial» de cada vez que o seu filho lhe dirige uma pergunta qualquer respeitante ao sexo, acabará por se ver arrastada para uma pura farsa.

Cada família a sua educação

Algumas famílias acham que é preferível permitir que os filhos vejam o pai e a mãe nus para que possam ter a possibilidade de ver a diferença entre os sexos quando adultos. Outros pais acham que é preferível exatamente o contrário, isto é, não permitir que os filhos os vejam despidos. No que diz respeito ao sexo e às crianças pequenas, provavelmente a melhor atitude é não fazer da questão um problema de grandes proporções. Não interessa saber se a criança vê ou não os pais nus, desde que a atmosfera seja simples, descontraída e perfeitamente normal. Uma timidez exagerada que a leva a soltar um grito e a agarrar apressadamente numa toalha de cada vez que o seu filho entra inesperadamente na casa de banho só fará com que a criança se admire e pergunte a si mesma por que motivo a mãe terá ficado embaraçada.

Da mesma maneira, uma «passagem de modelos nus» cuidadosamente preparada irá, muito possivelmente, deixar a própria criança embaraçada, porque não saberá como é que os pais querem que ela reaja.

Portanto, comporte-se como sempre se comportou e não procure ser deliberadamente «antiquada» ou conscientemente «moderna».

 

Paula Norte, psicóloga na Psicomindcare para Up to Kids

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Sou pai. O teu pai.
Saboreio com receio que me escape por entre os dedos o teu crescimento.
Num piscar de olhos, fazes três anos. Já devia ter aprendido com os outros dois, que o tempo é cavalo bravo à solta no campo da nossa existência!
Sou pai. Sou o teu pai. E tu cresceste tão rápido. Os teus irmãos ajudam-nos muito a educar-te. Eles são a prova da passagem do tempo. Ainda ontem eram como tu.
Já não me lembro se foste planeada. Não me lembro do dia do teu primeiro sorriso. Não me lembro…
E tenho medo de não me lembrar do teu sorriso dos três anos. Quero olhar para ti e fotografar-te com os olhos. Para que cresças, claro, leve, livre, solta para o mundo, mas que ao mesmo tempo sejas essa menina muito tempo.
Sou pai. Sou pai e não sou dono das noites que não dormimos. Não sou dono das palavras novas que aprendes todos os dias.
Só sou pai. As tuas Educadoras ajudam-te tanto. Eu, sou só pai. E tento não pensar que falhei. Tento esquecer os atrasos. Os dias corridos sem te poder levar à escola.
Sou pai, só o teu moço pai, sou pai na mercearia, na igreja, no parque, no baloiço, na mensagem que gravei para ouvires no telefone da mãe. Sou pai e ouço o brummm desta locomotiva. Rápida. Esta passagem do tempo.
Num piscar de olhos, estarás mais e mais crescida. Hoje disseste que o pai estava velhinho. Sua marota.
Velhinho como o avô Jaime. Tens cada uma Maria .
Só sei ser o teu pai. Não posso parar as estrelas. Não sei desligar tempestades. Mal sei trocar uma lâmpada. Mas serei só pai. Contarei histórias de dormir. Contarei histórias de acordar. Ficarei feliz por cresceres. Mas não dá para o tempo parar?
Parabéns Maria! Três anos. E eu, só estou a tentar aprender a ser teu pai. E é tão bom

Os miúdos são uns bichos estranhos não são?

Sinto-me muitas vezes como naquele filme, o Divertidamente, presa dentro da cabeça dos meus filhos a tentar perceber o que se passa lá dentro.

Os miúdos crescem, de repente deixam de ser aqueles bebés bolachudos que comem, dormem e brincam o dia todo e passam a ser pessoas em miniatura que, mais que frio ou fome, sentem emoções. Alegria, ciúmes, tristeza, medo, euforia, raiva e em nós, pais em construção, cresce a preocupação de tentar perceber o que é que eles estão a sentir e o que isso diz sobre a personalidade que estão a desenvolver.

O meu filho não apanha os brinquedos do chão porquê, se ainda agora estava a arrumar as peças do puzzle? Esta birra que a minha filha está a fazer é de sono ou será que está triste com alguma coisa que se passou na escola?
Porque é que o meu filho tem tanto medo do cão da vizinha e ao mesmo tempo adora correr atrás dos pombos?
A minha filha está outra vez com ciúmes do irmão, porquê?
Será que estamos a dar-lhe menos atenção?
Porque é que o meu filho nos desafia e não sai de frente da televisão e depois chora assustado quando deixa cair sem querer um copo de água no chão?
A minha filha que ainda agora estava a dançar no meio da sala, está a chorar compulsivamente porque ainda faltam muitos dias para o aniversário dela, porquê?
Porque é que a minha filha tem tanta consciência dela própria e isso a impede de se divertir?

Não sei.

Fico perdida com tantos estados de alma diferentes num curto período de tempo. A mesma ação gera em momentos diferentes reações diferentes, não há um guião, nem um botão como no filme, para impedir que a vida não lhes sorria sempre. Deixa-me um sabor agridoce vê-los a gerir as emoções e as relações com os outros, porque se, por um lado, precisam de liberdade para desenvolver a sua personalidade, por outro, obriga-me a deixá-los lidar sozinhos com situações que como mãe-leoa gostaria de poder resolver a gritar com alguém.

A partir do dia em que tomei consciência que os meus filhos fazem parte do mundo e que se vão relacionar com os outros, o meu coração ficou mais exposto. O mundo às vezes é um lugar feio. E nasceram em mim novas perguntas. Será que alguém os magoa? Será que têm as ferramentas necessárias para lidar com os outros? Que emoções são aquelas que aparecem a cada birra? O que se passa naquelas cabeças?

 

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Educar uma criança significa conduzir a criança, o que prossupõe uma relação entre um adulto, que sabe conduzir, e uma criança, que precisa de ser conduzida, de um patamar de saber insuficiente para um de conhecimento aumentado. Esta relação deve ser benéfica para a criança e não deve ser assente na crença de que o adulto conduz altivamente a criança e que esta se deixa conduzir passivamente.

Aprender tem origem na palavra apreender que implica o uso das mãos. Aprender vem de prender, isto é, de ligar, unir o que estava separado. Com as mãos se estabelece ligações afectuosas, o primeiro aprender que temos na vida veio do agarrar afectuoso das nossas mães.

As primeiras aprendizagens são feitas pelas interacções afectuosas entre a mãe e o seu bebé.

Para uma criança estar disponível para as aprendizagem escolares e para que possa ter sucesso, os saberes básicos tem de estar consolidados. Estes saberes assentam no diferenciar entre o que é presença e o que é a ausência; entre o bem-estar e o mal-estar; entre o feio o belo; entre o bom e o mau, entre o amor e o ódio, entre construir e destruir; entre verdade e mentira; entre liberdade e opressão; entre mulher e homem; entre pais e filhos; entre gratidão e inveja; entre o que causa mal-estar e o que causa alivio, entre outros.

Os saberes básicos transformam-se em aprenderes fundadores que devem ser feitos sempre através de interacções afectuosas, pois são saberes que provocam muitas angústias e se estas não forem contidas, em vez de estimularam o crescimento paralisam-no. Em vez de termos um aprender claro que promove o crescimento saudável das crianças temos um aprender confuso que vai comprometer o crescimento e o desenvolvimento saudável da criança. Esta vai ficar presa nesse nível onde surgiu a confusão.

Quando os aprenderes da vida ou aprenderes fundadores ficam bem consolidados, a criança está preparada para os aprenderes escolares. Se houver uma falha num aprender isso implica que houve falhas anteriores nas dimensões de acolhimento, suporte, contenção, organização e estimulação no processo educativo da criança.

Não podemos esquecer que existe uma ligação entre a saúde mental e a saúde pedagógica e aceitar que para aprender bem é preciso pensar bem, e para pensar bem é preciso estarem completos os aprenderes fundadores baseados em distinções de afetos.

Quando as confusões da criança diminuem, as angústias ficam suportáveis, a tristeza atenua-se, o pensar torna-se mais claro e eficaz, os aprenderes quer escolares quer os básicos, acontecem. A criança que consegue pensar bem aprende bem e o aprender bem leva a um pensar ainda melhor.

Segundo João dos Santos a educação deve inspirar-se numa pedagogia de relação. A escola se proporcionar um ambiente de pedagogia de relação poderá criar condições para desbloquear aprenderes fundadores que ficaram bloqueados. João dos Santos e os seus educadores acreditavam que quando criavam um ambiente de acolhimento em que a criança, desvalorizada e bloqueada, sentia que existia um interesse real por ela enquanto pessoa, fazia com que a criança se valorizasse aos seus próprios olhos centrando-se nas suas habilidades e capacidades atuais, e não nas suas dificuldades, insuficiências e insucessos. Este bom acolhimento permitia retomar a aprendizagem dos aprenderes fundadores que falharam ou ficaram bloqueados.

Uma pessoa só aprende quando encontra suporte e contenção suficiente e sobretudo se se sentiu estimulado. As crianças na escola precisam de encontrar professores que lhe ofereçam suporte, contenção e estimulação.

A escola deve ser vista pela criança como um local de aventura onde o professor é o guia.

A família e a primeira responsável pela consolidação dos aprenderes fundadores quando estes falham vai ser difícil para a criança aprender os saberes escolares. Por isso família e escola devem caminhar lado a lado.

Joana Duarte, psicóloga clínica

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Não desisto de ti!

Avisaram que os três anos seriam mais complicados do que os dois.

Com o meu pensamento positivo recebi os três anos de braços abertos, fosses tu a excepção ou a regra, meu amor.

E, meu amor, confirma-se que os teus três anos não estão a ser “fáceis”, que há um desafio constante, uma procura do teu lugar no mundo, uma falta de controlo das emoções, uma frustração muito presentes nos teus dias.

Todos os dias têm sido uma lição. Há momentos em que saio da sala e vou chorar baixinho para a cozinha para me acalmar, momentos em que não sei qual a resposta certa para tantas dúvidas. Sigo o meu instinto, sigo o meu coração, eles raramente me deixam ficar mal.

Acima de tudo, continuo do teu lado como se as tuas palavras e as tuas atitudes não me ferissem por dentro e, muitas vezes ferem.

Tens APENAS três anos. É o mantra que repito para mim mesma, quando levantas a mão ou dizes algo que não deves. É com esse mantra no fundo do pensamento que tento ensinar-te a diferença entre o bem e o mal, como devemos tratar os outros, principalmente, os que nos são mais queridos.

Sei que até ao cinco anos está provado que há uma incapacidade de gerir alguns sentimentos, alguma frustração e tento acompanhar-te nisso sem fazer cara feia, mas por vezes não consigo. Por vezes preciso que entendas que todas as tuas atitudes têm uma consequência e que essa consequência muitas vezes se manifesta na relação que os outros terão contigo. Explico, tento não levantar a voz, tento que te encontres no meio do caos. Tento e por vezes falho. E sei que faço o melhor que consigo.

Há quem diga que sou demasiado branda, que deveria pespegar-te duas palmadonas à primeira coisa errada, mas eu sou tua mãe. E isso significa que te conheço como ninguém. E que sei diferenciar falta de educação de desafio, personalidade de birra. Se fosse seguir a corrente da palmada no rabo estarias negra e na mesma. Na mesma sei que não pois o teu porto de abrigo, aquele que deveria indicar-te o caminho seria para ti a figura que ao primeiro erro te castiga em vez de te ensinar.

Tenho o meu jeito de fazer as coisas e não acho que seja melhor ou pior do que os dos outros pais. Acho que é o que faz com que consigamos seguir em frente tendo uma relação que se baseia no amor e não no medo (da palmada, do castigo, do grito). Depois dos momentos mais complicados passarem conseguimos conversar sobre eles, entender as lições. E irei fazê-lo mesmo que o coração se aperte cá dentro porque estás a fazer algo que eu nunca fiz e que desejo que nunca tivesses feito, como levantar a mão a um avô. Não olho para o lado, não finjo que não acontece, deixo que os envolvidos resolvam o conflito e no fim acrescento o que acredito que falta, se faltar alguma coisa.

Lembro-me agora de uma viagem de metro que fizemos no mês passado. Estava alguma gente e estavas a portar-te lindamente, o que é a regra. Um senhor que estava junto a nós meteu-se contigo e, apesar do teu comportamento exemplar, disse: “vais ser má e eu vou estar cá para ver”. Se me dissessem que isto  ia acontecer teria sido a primeira a dar certezas de como reagiria. Reagi dizendo “ela vai ser o que for e EU vou estar cá para ver”, sempre com um sorriso no rosto. Mais tarde interroguei-me sobre o que teria visto o senhor para fazer uma afirmação tão séria. E por que motivo não me tinha abalado o uso do adjectivo “má”. Acredito que é por saber, bem cá no fundo, que não é algo que eu controle. Serás, efectivamente, o que fores e há uma hipótese de o senhor vir a ter razão. E se fores uma miúda má, uma adulta má, serei a primeira pisar os teus calcanhares durante todo o teu caminho para te mostrar que não tem de ser assim. Que te conheço o suficiente para saber que há mais bondade dentro do teu coração do que muitas pessoas têm a oportunidade de sentir na ponta dos dedos. És intrinsecamente boa e amo-te por isso. Como te amaria se não o fosses, porque sou tua mãe. E como tua mãe não desisto de ti.

Continuarei a mostrar-te o caminho, mesmo que te desvies dele.

Chamar-te-ei à atenção, mesmo que teimes em não me ouvir.

Amar-te-ei sempre, para que haja nem que seja uma dúvida dentro de ti: para quê ser má quando o mundo é tão melhor quando somos bons?

Não te preocupes, traga o amanhã o que trouxer, eu estou aqui.

imagem@weheartit

Esta é má e fria, não gosta de ninguém” – foi assim que uma mãe descreveu a filha a uma amiga que acabara de encontrar. A menina, com pouco mais de 1 ano, estava sentada no carrinho e ignorava a amiga da mãe, desejando apenas continuar a brincar com um coelho de peluche que trazia na mão. A amiga da mãe tentava desvalorizar, referindo que as crianças são assim, mas a mãe continuava: “esta miúda é parva, nunca cumprimenta ninguém! Olha, Joana, és feia, não gosto de ti!“. Confesso-vos que fiquei incomodada ao ponto de sair disparada da loja e as palavras me terem ecoado na cabeça durante a tarde toda.

As crianças não são feias, más, nem tão-pouco parvas

Em primeiro lugar, ninguém é, as pessoas estão a ser! Existe uma grande diferença entre “é” e “está a ser” – o “é” envolve rigidez, passa a mensagem de que será sempre assim e por isso não há possibilidade de mudança, criando um rótulo definitivo de “és isto” (esta expressão promove a rigidez cognitiva em que as pessoas analisam as situações em termos de tudo-ou-nada, não existe meio-termo); o “está a ser” transmite a ideia de que o comportamento depende das circunstâncias e que por isso pode alterar-se – numa situação, em determinado contexto, és assim, noutra já poderás não o ser – o que facilita a flexibilidade cognitiva (de pensamento), característica fundamental no bem-estar psicológico. Mais, o “é” cria uma determinada expectativa de comportamento tanto na criança como nos outros – a criança sabe que esperam que seja, por exemplo, agressiva e por isso tenderá a reproduzir esse género de comportamentos; os outros esperam ver agressividade na criança e por isso a sua atenção estará direccionada para isso (a chamada atenção selectiva em que o nosso cérebro, para poupar recursos, procura informação que se encaixe naquilo que procuramos; tal como quando entramos numa loja em busca de um vestido vermelho, se nos perguntarem se existiam muitos vestidos azuis não iremos conseguir responder, a nossa atenção foi canalizada apenas para a primeira cor).

Enquanto cuidadores existem comportamentos que consideramos mais e menos aceitáveis de acordo com as nossas crenças e aquilo que a sociedade defende. Reparem que comportamentos está a negrito pois é isso que está em causa, não a criança em si. Quando digo “já não gosto de ti” a uma criança que faz algo que considero menos adequado não estou a focar o seu comportamento, coloco-a integralmente em causa, o que abrange até as suas qualidades – parece-vos justo?

E se os nossos companheiros dissessem que já não gostam de nós porque não lavámos a loiça do jantar? E se a nossa mãe deixasse de nos amar devido à discussão que tivemos a semana passada? Repito: o que está em causa é o comportamento e podemos expressar o nosso desagrado relativamente a isso – “a mãe não gosta que te ponhas em cima da cadeira” – não em relação à criança em si.

Comunicar positivamente

Existem palavras cuja única função é magoar, nada se constrói com base nelas. “Feia, má, parva, burra” são apenas alguns exemplos de palavras que destroem a auto-estima de qualquer um, sobretudo quando proferidas por pessoas significativas cuja opinião é importante para nós. Além disso, são altamente subjectivas, difíceis de decifrar, e por isso em nada promovem a aprendizagem – O que torna uma criança feia? Que comportamentos levam a esse título? Será que a mensagem que queremos transmitir é que tem de se tornar bonita?

Sejamos objectivos no que queremos para que a criança se possa regular – “não quero que estejas em cima da cadeira pois podes magoar-te, fico preocupada contigo“. Depois disto é fundamental apresentar uma alternativa para onde a criança possa canalizar a sua energia – “vamos descer da cadeira, podemos ir brincar a saltar do chão para o tapete”.

Os elogios podem e devem ser aplicados sempre que se justifique. Noto que muitas vezes os pais passam grande parte do tempo a apontar os defeitos dos filhos em público, eu própria já me senti tentada a fazê-lo apenas por estar habituada a que seja esse o registo. Novamente, remetendo para nós próprios, gostaríamos que o nosso companheiro encontrasse um amigo na rua e começasse a apontar os nossos defeitos? Por que o fazemos com aqueles que mais amamos?

Que estes momentos sirvam para desabafar, e aqui podem expressar-se algumas preocupações, mas sejam sobretudo uma oportunidade de reconhecimento público do valor que os nossos filhos têm, daquilo que mais gostamos neles. Como referi, estamos a criar expectativas e isso irá moldar o comportamento da criança, além de promover o seu auto-conceito (como se caracteriza) e a sua auto-estima (como valoriza as suas características).

Por último, as crianças (felizmente) não são mini-adultos! Não esperem que uma criança prefira estar a interagir com uma desconhecida (no caso da amiga da mãe) do que com um brinquedo, não esperem que as crianças expressem afecto por encomenda (podem pedir, eu peço sempre que ela cumprimente as pessoas, mas sei que é natural que tal não aconteça), não ambicionem uma criança robótica que faz tudo que desejamos (se o faz hoje também o fará no futuro e aí já não terá tanta piada).

Percebam e respeitem a essência das vossas crianças, tal como elas aceitam diariamente a nossa.

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