Eu vejo-te. São mais os dias em que estás exausta do que os que estás bem. E não há café no mundo que te consiga espevitar. E quando já não aguentas e estás prestes a passar a pasta ao teu marido,… ah espera, és só tu! Tu és os dois!

Há alturas em que nada parece justo, e sabes que mais? É porque provavelmente não é mesmo. Mas tu consegues levantar sempre a cabeça, dê por onde der.

Às vezes questionas-te se é humanamente possível uma pessoa fazer tudo o que tu tens de fazer. Se o teu corpo estará fisicamente preparado para tal. Mas no fim, arranjas sempre uma maneira.

Há serões, quando tudo está em silêncio em casa, que sentes não só uma sensação de alívio mas também a dor do silêncio ensurdecedor. Parece inconcebível viver estes dois sentimentos em simultâneo, mas não é. Eu sei.

Há manhãs que desejas ter só mais uns minutos para ti, mas é impossível. Estes pequenos humanos estão a pé, prontos, à tua espera. E dependem de ti. Quando és chamada ao serviço, não há quem te substitua.

Há situações em que paras, de rastos e pensas: “Por quê…?”, seguido de um rápido “E como é que vou…?” E apesar de não chegares a conclusão nenhuma, vais buscar forças sabe Deus onde, pões um pé a caminho, e lá vais tu.

És uma pessoa só para um trabalho que exigia quatro como tu.

És um cuidador que anseias pelo dia que cuidem de ti também. Mas até lá, vais continuando.

És uma fonte de rendimento a viver numa economia onde seriam precisas duas fontes de rendimento para cobrir as despesas todas.

És um único progenitor, que contra todas as probabilidades, fazes o que por vezes é difícil quando somos dois. Eu sei que não tens uma pausa e que todos os dias, a todas as horas fazes das tripas coração para que nada falte aos teus filhos.

Mas apesar de seres só uma, estás a conseguir! Há dias mais difíceis, mas tu vives um dia de cada vez, já sabes. Mesmo quando estás quase a entregar as cartas, segundos depois estás a levantar-te e a dizer: “Eu consigo”

Tu és a mãe que nunca desiste.

A todas as mães solteiras: vocês foram, são e serão sempre incríveis.

imagem@istock

Artigo publicado em Scary Mommy, traduzido e adaptado por Up To Kids®

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A mãe que hoje sou.

Carta a uma mãe de primeira viagem

Uma mãe nunca falha

 

Vou ser mãe de uma menina daqui a umas semanas. Tenho pensado muito sobre o futuro, como seria de prever. E mais ainda sobre o passado.

Nos últimos três anos na relação com o meu marido tenho dado comigo a repetir alguns dos aspectos negativos da relação que vi os meus pais terem ao longo dos anos. É certo que me conheço bem e que me é mais fácil olhar para o que é negativo do que o positivo. Sem dúvida, muito de bom aprendi porque senão não seria a pessoa equilibrada, corajosa e humana que creio ser hoje mas a realidade é que me tenho confrontado com partes de mim que sempre me recusei a vir a ser um dia.

Ok, ok, em termos intelectuais e muito racionais e até lógicos lembro-me de, desde muito nova, ter decidido “Nunca vou repetir isto ou aquilo”. Recusava-me veemente a ser submissa e ser aquilo que via como desrespeitada. E que choque tem sido, depois de tantas vezes ter debatido estas questões com amigas ao longo dos anos, ver-me igual. Ver-me ser filha da minha mãe. Ou filha de muitas mães e mulheres cujo comportamento fui assimilando.

Orgulhosamente filha da minha doce mãe, com um coração de ouro e que mostrou como se comporta uma pessoa compassiva. Filha da minha mãe que me mostrou integridade e verticalidade. E, depois outras coisas que por hábitos de gerações e gerações de mulheres têm vindo a repetir-se e tão mal me sabem na boca e no coração. Nas veias.

O que me levou a escrever este texto agora, foi o facto de acreditar que nos esquecemos facilmente da dificuldade que implica mudar hábitos antigos. Antigos meus, antigos da minha mãe. E antigos de tantas outras mulheres. Leio muitas vezes artigos sobre as coisas que NÃO devemos repetir. Que vamos ser diferentes. Mas pouco sobre a pujança feroz da repetição de comportamentos, irracionais, instintivos e enraizados. Quando me vi em situações, que não me orgulho, por revelar uma autoestima menor do que mereço. Porque sei que sou uma mulher “a sério” e merecedora do maior respeito e fiquei triste comigo. Porque temos ideias do que podemos e queremos ser.

O que me importa neste momento não é que a minha filha veja a minha força e perfeição, mas que veja a minha vontade de me desafiar a seguir em frente e alcançar os meus objetivos. Não quero que ninguém à minha volta se sinta mal por cair. Por serem dominadas por padrões de comportamento antigos.

O que tem sido realmente bom é que, em momentos de dúvida, sobre se estamos certas ou erradas, há algo dentro de nós que sabe “isto não é certo PARA MIM“. E que, por mais vezes que repitamos maus hábitos que nos magoam e se espalham com tanta facilidade, todos os dias esta voz fica mais forte e acabamos por mudar. Acabamos por ser quem de facto queremos ser. E se insistirmos, mais cedo ou mais tarde, chegamos onde queremos.

Talvez me seja difícil pôr em palavras o desafio interno que se manifesta e transformar em acções que transformem o passado num novo presente. Mas vou tentar. Ainda que estes hábitos estejam tão enraizados e talvez me pudessem levar a calar-me e a não refutá-los, a minha voz faz-se, sempre, ouvir. Verbalizo o que sinto. Mostro a minha indignação. Tenho coragem de ser transparente e de mostrar quem sou. Agora falta-me a consistência de ser mais firme. De levar até ao fim a pessoa que realmente sou e criar uma verdadeira transformação. Por mim, pela minha filha e para criar novos ciclos de relações saudáveis e de companheirismo.

Estamos a caminho de um futuro melhor. De um futuro em que não ensino através das palavras ou conselhos, mas através de novos comportamentos. Sou filha da minha mãe. Mãe da minha filha.

Obrigada mãe pelo caminho que fizeste até aqui. Agora agarro eu.

Por Ana Calha, Blog Prá Vida Real

imagem@topsyone

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Arriscar Viver

A Corda Bamba da Vida

Consciência do potencial inato o mais cedo possível, vida bem sucedida

 

Querida filha:

Ontem zangámo-nos a sério.

Mantive a calma, coisa que nem sempre consigo fazer quando começas a espernear e a gritar à saída da escola, incapaz de ouvires o que te estou a dizer. Tentei acalmar-te, tentei fazer-te ouvir a razão, tentei distrair-te, tentei até ignorar os gritos que davas na esperança que chegando a casa te acalmasses.

Custa muito, deixa-me que te diga, que algumas vezes o simples facto de eu estar ali, a falar contigo, não seja suficiente para te acalmares. Sei que estavas cansada (apesar da boa sesta), porque brincaste muito, e sei que a certa altura entras numa espécie de transe em que não ouves nada, a não ser o que o teu cérebro te grita e que mimetizas reproduzindo esses gritos terríveis que não te assentam nada bem.

Depois de resolvermos o assunto, já em casa e depois de me ter zangado muito a sério, sentei-me no sofá. Sentei-te ao meu colo. Ficaste encostadinha a mim, a ouvir o meu coração, em silêncio, enquanto te limpava as lágrimas.

Perguntei-te se querias ir brincar com as tuas coisas ou ficar ali e quiseste ficar. Ao meu colo. E assim ficámos mais de meia hora, num silêncio em que as tuas lágrimas já limpas puxavam as minhas e eu me esforçava para que não caíssem.

Há dias em que nada resulta, em que me esforço ao máximo por não atribuir culpas – nem a ti, nem a mim – em que só quero que se vire a página para conversarmos. E conversámos, e ficou tudo bem.

Ontem zanguei-me a sério contigo porque sabes que as birras não funcionam e, mesmo assim, de vez em quando insistes em tentar. Porque sabes que não negoceio, que quando já disse que uma coisa tem de ser feita de uma maneira, ela vai ser feita assim – porque, acredita, se te digo que tens de vestir o casaco quando estão oito graus e o sol começa a esconder-se, então é porque é o melhor para ti. Mesmo que não fosse, não está aberto a discussão (já sabes responder quando te pergunto: “Mariana, quem é que manda?”, dizes “o pai e a mãe”), quanto muito está aberto a conversa – e noutras alturas, já começaste a perceber que se conversares e te explicares eu oiço-te. Oiço-te sempre. Só tens dois anos e meio e nem sempre consegues expressar-te. E os gritos custam, mas sei que no fundo não gostas mais deles do que eu. Ninguém prefere estar desconfortável, completamente sem chão e sem controlar o que sente.

Por isso, prometo-te mais uma vez que vou estar sempre aqui. Mesmo que me afastes e mandes embora, que me grites porque não estou a fazer o que gostavas. Irei fazer-te chegar à razão, demore o tempo que demorar. E vai custar não te ter calma sempre, mas a vida já me ensinou há muito tempo que nem tudo é como queremos nem quando queremos. Um dia chegarás lá.

Ontem zangámo-nos a sério, mas fizemos as pazes. Ajudaste-me a fazer “arroz amarelo” para o teu jantar, misturaste o açafrão e sorriste quando viste o branco dar lugar a uma nova cor. Ficaste contente quando acertei nas perguntas que fizeste na hora da história (“boa, mãe!”). Quiseste ajudar-me a lavar os dentes enquanto te ajudava a lavar os teus.

Hoje vai ser um dia bom.

E se não for, vamos encontrar novas estratégias para comunicarmos cada vez melhor.

Porque não gosto de me zangar.

Porque prefiro o teu sorriso e as tuas gargalhadas, os teus dedinhos a apontar o gafanhoto que invariavelmente encontramos no caminho.

Vamos tentar ser melhores? As duas?

Vamos!

E vamos conseguir!

A mãe que hoje sou é uma.
A mãe que eu achava que ia ser é outra.
A mãe que eu serei daqui para a frente outra será.
Todas nós já enchemos, pelo menos uma vez na vida, o peito e dissemos, do alto da nossa segurança, que não iríamos ser como “aqueles pais”. “Filho meu não fará aquilo” ou “eu não serei assim”. Depois, na prática, muitas coisas mudam. Antes ainda de os conhecermos, o quarto deles ganha forma, compra-se o berço, monta-se a estante e erguem-se, também, muitas teorias de como iremos reagir, educar e orientar.
Depois, quando eles nascem e a nossa vida muda, caem também por terra muitos dos preconceitos que criámos. Passamos a entender outras escolhas, passamos a compreender que há excepções à regra e que se calhar, daquela vez, naquele restaurante, estávamos perante uma excepção ou daquela vez, no supermercado, aquele pai falou mais alto para o miúdo, excepcionalmente. Descobrimos que, afinal, também nós gritamos. Mesmo que excepcionalmente. E que isso é humano.
Seja porque tentámos outras opções e todas elas falharam e queremos testar também essa (mesmo que não nos faça muito sentido, mas já estamos por tudo), seja porque nem sempre conseguimos ser a melhor versão de nós próprios e também erramos, os pais que somos afastam-se – às vezes até demais – daquilo que delineámos.
A mãe que eu achava que ia ser é diferente da que hoje sou. Achei que fosse ser mais paciente, achei que nunca iria mandar a minha filha parar de chorar (e já o fiz, várias vezes até), achei que – vejam só o optimismo [e puro desconhecimento das fases de crescimento de uma criança] – a minha filha não faria birras.
A mãe que hoje sou é uma mãe com mais experiência, mas com muito por aprender.
A mãe que serei daqui para a frente será uma mãe mais confiante, mas cheia de dúvidas. Porque já percebi que estes pólos vivem lado a lado, sempre, pela vida fora.
A mãe que serei daqui para a frente é alguém em permanente melhoria, mas alguém que já decidiu deixar de tentar ser perfeita, simplesmente porque isso não existe.
Agora? Julgo menos, muito menos.
A Mãe que sou e que serei?
Uma mãe cheia de amor para dar.
Cheia de empatia, carinho e mimo.
Cheia de “sins” e de alguns “nãos”, os que forem precisos.
Uma mãe que fala baixo, que desce ao nível delas, que olha nos olhos, mas que às vezes também solta um ou outro grito.

 

Artigo publicado originalmente em A mãe é que sabe

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Antigamente era mais fácil ser mãe

Se, antes de ter filhos, eu soubesse

Será que sou má mãe?

 

Lembro-me perfeitamente do momento em que a professora de inglês nos pediu para escrever uma composição sobre os nossos “role models”, as pessoas em quem nos inspirávamos, as que admirávamos, e porquê.

Lembro-me perfeitamente de a minha melhor amiga da época ter escrito sobre mim e de me ter sentido importante, no sentido em que alguém via qualidades em mim, qualidades a que eu não dava grande importância.

Hoje considero que, de facto, sou boa ouvinte, mas o resto talvez estivesse a ser empolado pelo facto de naquela idade, aos quinze anos, sentirmos tudo a mil porcento.

Pensava eu sobre isto quando me dei conta de que hoje, aos quase trinta e um, sou uma role model. E das a sério. Daquelas que deixam marcas. Das que podem influenciar o futuro. Das que podem dar confiança ou retirá-la para sempre.

Sou mãe.

E para a minha filha, não há quem a inspire mais que eu. E não há vaidade nestas palavras, simplesmente eu e o pai somos o porto mais seguro que conhece e, por isso, os seus modelos de eleição. Bem sei que as pessoas que a rodeiam têm a sua influência, mas ninguém tem a importância que nós temos.

E é aqui que me preocupa pensar o que há para a acrescentar à lista onde já está escrito “boa ouvinte”.

Porque quero que a minha filha, quando um dia fizer uma composição sobre mim (seja ela sobre as pessoas que admira ou simplesmente sobre a pessoa que a trouxe ao mundo), seja capaz de escrever pelo menos umas cinco coisas muito positivas sobre mim.

Isso quererá dizer que fiz um bom trabalho.

Sou o espelho das suas emoções, dos seus sonhos, das suas dúvidas. Sou eu quem lhe devolve a resposta a tudo. E tento que seja o mais positiva possível. O mais realista mas, ao mesmo tempo, a mais impulsionadora do verbo “sonhar”.

Hoje sou uma role model a sério e preocupo-me com o que vou pôr na mesa ao jantar.

Com os livros que lemos encostadinhas uma à outra.

Com as corridas que fazemos no corredor.

Com as flores que apontamos no jardim, com os animais que conhecemos pelo nome.

Com as músicas que ensino e as que já vou aprendendo.

Com a forma como reajo em situações de stress.

Como me dirijo aos outros.

Como respondo às perguntas que a minha filha me faz.

Como ajudo quem precisa e quem não parece precisar.

Como reparo em coisas que aparentemente não têm importância.

Porque tudo conta.

Porque tudo serão referências.

Tudo fará parte da pessoa em que em já se está a tornar.

Muita pressão?

Nem por isso, basta-me querer ser a melhor versão de mim mesma.

Sei que à minha filha isso bastará.

Isso e o amor que lhe tenho.

E que sei que será para ela um exemplo.

Sempre.

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imagem@weheartit

Conversa típica com a minha filha de dois anos e meio

– Olha, Mariana, já não apanhámos o pôr-do-sol.

– Porquê?

– Porque o sol já está escondido…

– Porquê?

– Porque a noite está a chegar.

– Porquê?

– Porque o dia está a chegar ao fim.

– Porquê?

– Porque as horas passaram e está na altura de as pessoas voltarem a casa.

– Porquê?

– Porque voltar a casa sabe bem.

– Porquê?

– Porque é onde podemos estar todos juntos e conversar sobre o nosso dia, ler histórias, brincar…

– Porquê?

– Porque gostamos.

– Porquê?

– Porque nos sabe bem.

– Porquê?

– Porque o dia passa a correr e quando damos por nós é hora de ir dormir.

– Porquê?

– Porque temos de acordar cedo.

– Porquê?

– Porque vamos trabalhar e para a escola.

– Porquê?

– Porque temos de ir ganhar dinheiro para os teus iogurtes e tu vais aprender, brincar, estar com os teus amigos.

– Porquê?

– Porque os teus amigos também vão à escola.

– Porquê?

– Porque ir à escola é mesmo bom.

– Porquê?

– Por que é que ir à escola é mesmo bom, Mariana?

– Porquê?

– Ouviste a mãe? Diz-me tu, por que é que achas que é bom?

– Porquê?

– Ok… Acho que já chega, não é?

– Está bem.

É basicamente isto. Em loop, todos os dias, durante todo o dia. Começa com coisas pequenas como por que é que o senhor atravessou a rua com o sinal vermelho ou por que é que o coração faz tum tum.

Eu tento sempre responder.

Às vezes tenho de ser criativa.

Às vezes invento um bocadinho, mas não contem a ninguém.

Às vezes digo palermices para nos rirmos.

Às vezes aproveito para explicar coisas sérias.

E às vezes a lenga-lenga é mesmo só isso.

É a idade dos porquês e que boa que é.

Porquê?

Porque me perguntas a mim.

Porquê?

Porque sou a tua mãe…

Porquê?

Porque estavas na minha barriga.

Porquê?

Bem, deixemos essa para daqui a alguns anos, pode ser?

Está bem…

 

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imagem@weheartit

 

 

De mãe a Momster – Consequências de reprimir as nossas emoções

Amar o nosso monstrinho

Às vezes fico tão zangada. Zangada com uma pitadinha de danada e, uma redução de irritação fumada a sair pelas orelhas. A zanga é por vezes tão intensa que juro que me crescem garras afiadas, nos pés e nas mãos. Não são garras discretas. Nada disso. São de um vermelho vivo, quase florescente, e têm pintinhas verdes nas pontas. Assim, de certeza que ninguém se aproxima! Aumento muito de tamanho… Andar a andar, vou crescendo, crescendo até me transformar num gigantesco prédio peludo com olhos amarelos lançadores de raios fulminantes. Nesse momento, surge a pergunta “Estás bem?” e a resposta fumegante do costume: “Estou óptima!”

Desde pequeninos que aprendemos que demonstrar os nossos sentimentos mais desafiantes “é feio”. Assim, cada vez que eles aparecem escondemo-los dos Outros. Ficam arrumadinhos, bem fundo, nas caixas do “NÃO MEXER”. Os anos passam e, as caixas aumentam. Já que as temos, aproveitamos e começamos a colocar lá outras coisas, que sentimos que os Outros não vão gostar e, que fazem de nós “pessoas más”. Aquela raiva, quando o Joãozinho me passou à frente na corrida na escola. Aquela tristeza, quando as férias de Verão acabaram. Aquela revolta, quando o Pedrinho me chamou nomes e chamaram-me a atenção a MIM. O ciúme do meu irmão, o medo de cair da bicicleta, a repulsa aos brócolos da avó…Todas essas coisas ficaram nas caixinhas, sem voz, reprimidas, sem oportunidade ou espaço para virem cá para fora.

Aprendemos a esconder.

Escondemos tão bem que nos tornamos especialistas no assunto. Às vezes, ainda a emoção não tomou forma e ZUMM, já está a entrar na caixa. Mas a caixa está lá. Mesmo que eu não olhe para ela, ela está lá. Paradinha, à espera, cheiiinha até cima.

Existe, no entanto, um comando cheio de botões coloridos que permite abrir cada uma dessas caixas. E sabem onde ele está? Ah pois é! Bem na mão dos nossos filhos. Sabem como eles gostam de carregar em botões, não sabem? “Uuuuuuu e este o que é que faz? E se carregar em dois ao mesmo tempo o que acontece?” Acontece uma mãe monstrinha sem filtros.

Consequências de reprimir as nossas emoções

Reprimir as nossas emoções, principalmente na infância, além de nos tornar umas bombas relógio peludas, torna-nos incapazes perceber as verdadeiras necessidades dos nossos filhos e de aceitar verdadeiramente as suas emoções. Ou projetamos inconscientemente as nossas necessidades, aumentadas por anos de frustração, ou negamos as suas necessidades para evitar mexer na caixa nº 354.

As nossas caixas estão lá dentro e, os nossos filhos estão dispostos a ajudar-nos, para finalmente, conseguirmos abri-las. Olhar para elas e receber de braços abertos tudo o que não foi recebido, na altura, com presença e amor.

Todas as emoções são importantes, as “boas” e as “más”. Todas fazem parte de nós, mas não são “nós”. São como nuvens que passam no céu, ficam um bocadinho e flutuam para outro sítio. Porquê guardar nuvens em caixas?

Ama o teu monstrinho.

Recebe com a mesma presença as emoções pequenas e grandes do teu filho. Respira fundo e deixa-as ir quando for a altura. Mostra-lhe que o amas por inteiro, desde as assustadoras garras afiadas vermelho vivo, até ao sorriso mais doce. Mostra-lhe que ele tem um espaço seguro para ser quem ele é, onde é sempre recebido de braços abertos por um coração monstruosamente grande.

Querida filha,

Chegaste oficialmente à idade dos porquês. Chegaste também à fase em que achas que tudo será maravilhoso quando cresceres.

Dizes que quando cresceres vais pintar os olhos como eu.

Respondo-te que a beleza não está na maquilhagem que usamos, que deverás aprender a gostar de ti como és.

Dizes que vais ter barba, como o pai.

Respondo-te que o que tens dele e o que dele deverás querer honrar não tem nada a ver com isso, mas com a bondade do teu coração.

Dizes que vais andar de trotinete.

Repondo que verás o mundo com a ajuda de muitos meios de transporte, mas o que mais importa são os teus olhos: o que eles vêem, a forma como eles apreendem o que está à sua volta.

Dizes que pintarás também as bochechas.

Respondo que talvez, quem sabe se vais ligar a esse tipo de coisas?

Dizes que vais ler livros sem desenhos.

Respondo que te ajudarão a sonhar de olhos abertos, a viajar a sítios desconhecidos, a rir e chorar sozinha.

Dizes que irás de mota para o trabalho, como o pai.

Respondo que logo veremos, que o meu coração fica pequenino de te imaginar a passar por entre os carros.

Dizes que vais correr ainda mais depressa.

Respondo-te que não corras depressa demais, sob pena de perderes as coisas importantes por que vais passar.

Dizes que vais finalmente descer pelo poste que está no parque, qual bombeira.

Respondo-te que às vezes a espera sabe bem e nos faz apreciar as pequenas conquistas.

Dizes que vais conseguir andar no baloiço sem ser empurrada.

Respondo que, se fores como a mãe, gostarás dessa sensação até seres velhinha.

Dizes que vais chegar ao céu.

Respondo que tocamos o céu todos os dias, um bocadinho, quando temos a sorte de estar com quem amamos.

Contigo, chego ao céu. E estarei aqui para te ir respondendo a todos os teus porquês, para ouvir os teus planos e aquilo que acreditas que vais fazer quando cresceres. Quando lá chegares, nem te lembrarás de metade das metas que traçaste porque o segredo é viver, querida filha.

Vive.

Vive o agora.

Quando cresceres logo tens tempo de ser crescida.

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Um dia ensino-te…

Não tenhas medo

O valor das coisas

 

imagem@stocksy

Querida mãe de primeira viagem,

ainda me lembro quando estava no teu lugar. Os medos, os receios, as dúvidas, os “ses ”…

Sim, tal como tu, também tinha essa necessidade de saber todas as estatísticas e explicações para o valor de cada exame e cada análise, mas acredita, basta saberes que está tudo a correr bem, confiar no médico que te acompanha e preocupar-te com assuntos como a decoração do quarto. Podes guardar a médica e enfermeira que há em ti para quando o bebé nascer.

Vive a tua gravidez com serenidade, longe de perguntas, de medos e do Dr. Google.

Controla essa tendência de querer planear tudo: o dia em que o bebé vai nascer, o tipo de parto ou a amamentação em exclusivo. Não te preocupes com o desconhecido, há coisas que só saberás depois de acontecerem. Deixa os dias acontecerem, um a seguir ao outro, um de cada vez.

Vais ter medo da dor, do parto, da amamentação, das noites mal dormidas, da exaustão e da responsabilidade de ter de cuidar de alguém 24h por dia para o resto da tua vida. Sim, vai ser para o resto da tua vida, e ainda bem.

Quando um dia deres por ti atrás de uma porta de casa de banho a chorar e sem saber porquê, não fiques preocupada, acredites ou não, faz parte e é normal. Aos poucos, as coisas vão entrando nos eixos, começas a criar a tua/vossa rotina, vais conseguir tirar o pijama, tomar banho, dormir 3 horas seguidas, e responder a perguntas básicas como: como é que te chamas?

Não acredites que vais ter dificuldades para cuidar do teu bebé ou para manter a tua sanidade no turbilhão que é ter um bebé em casa (sim não é mito, é mesmo!). Existe uma coisa chamada instinto que nunca te vai falhar e que se vai manifestar em TODOS os momentos que precisares.

Também vais morder a língua: todas nós mordemos em algum momento, mas também está tudo bem, até porque não podes nem deves cobrar-te nunca. Não deves ler tudo o que existe, nem absorver tudo o que ouves sob pena de enlouqueceres com tanta opinião, conceitos e valores que muitas vezes nem vestem a tua pele, mas como a vizinha fez também vou fazer.

Não vais nada!

Tenho a certeza que tu vais construir a tua própria maneira de viver a maternidade e acredita que será única, pessoal e intransmissível.

Ah sim, claro que vais andar cansada, aliás, esgotada é o termo mais apropriado, e se deres por ti a perguntar-te: “O que eu fui fazer da minha vida?” também é normal.

Vais conseguir superar os dias difíceis e saborear os bons, até porque, quando aquele gordo mais querido cor de rosa solta um gemido e encosta a sua mão minúscula de pele macia e cheirosa na tua pele, o teu mundo vai parar e vais esquecer tudo ali, naquele momento.

O tal amor arrebatador, incondicional, encantador, total, absoluto e integro que tudo explica é o único sentido de toda esta experiência.

E lembra-te, as horas podem parecer muito longas, os dias podem parecer intermináveis, mas confia em mim quando te digo que os anos são curtos. É mesmo, mas mesmo verdade, que passa e crescem num instante.

Boa viagem!

Vais ser capaz ♥️

imagem@fotolia

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Visitar o bebé à Maternidade! Não obrigada!

A minha maternidade não é igual à tua

É hora! O que levar para a Maternidade?

Amei-te na primeira vez que te vi.

Quando te segurei junto ao peito e fechei os olhos, agradecida por teres chegado.

Quando apertaste o meu dedo entre as mãos e senti o cliché que é saber que me procuravas para te saberes segura.

Amei-te quando tinha de te acordar para comeres, porque estavas mais interessada em descansar.

Quando deste o primeiro sorriso, quando me viste realmente pela primeira vez.

Quando vi o amor que do pai te enchia o coração.

Cresceste e amei-te sempre, cada dia, todos os dias.

Amei as tuas conquistas, os teus medos, o teu olhar.

Amei-te com todas as minhas forças quando me chamaste mãe.

Quando me ensinaste a ver melhor, a ser melhor, a parar. Para reparar, para sentir, para ponderar, para agradecer.

Quando me fizeste sentir que não estava à altura do papel que se materializou graças a ti.

Quando percebi que estar à altura é querer sempre o melhor, é corrigir o que está errado, é não exigir o que não é possível. É simplesmente amar.

Quando me ensinaste a apaziguar os meus receios.

Quando tornaste os meus dias bons só por existires.

Quando me fizeste esquecer os problemas com um sorriso.

Quando ouvi as gargalhadas que dás, tão genuínas e puras que procuramos que as repitas uma e duas vezes… (serão sempre umas trezentas, aqui entre nós).

Amei-te quando me desafiaste.

Quando fizeste a tua primeira frase completa, quando agradeceste e pediste desculpa.

Quando perguntaste porquê.

Quando aceitaste as minhas respostas, mesmo que não te satisfizessem a curiosidade.

Quando acreditaste em tudo o que te disse.

Quando te riste da minha piada.

Quando me deste um beijinho de todas as vezes que me magoei, para passar mais depressa.

Quando me “obrigaste” a voltar a ler a mesma história pela quarta vez.

Quando pediste ao pai que voltasse atrás quando estava de saída porque não me tinha dado um beijinho de até logo.

Quando choraste à noite e te perguntei o que se passava e foste sincera: “nada. Queria a mãe”.

Quando ralhei contigo e começaste a chamar o pai para interceder por ti. (às vezes ainda não compreendes que somos mais que uma equipa, somos uma frente unida, mas enternece-me de todas as vezes que chamas um ou outro como advogado de defesa. Em breve aprenderás que tens de te defender sozinha e enfrentar quem quer que te esteja a ralhar e perceber o porquê do que está a acontecer).

Quando me deste a mão à mesa, só porque sim.

Amei-te sempre.

Amar-te-ei para sempre.

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