Saudades do tempo presente

Andava há alguns dias a adiar a tarefa de guardar a roupa de Verão dos miúdos, mas as notícias da vaga de frio polar que se aproxima fizeram-me parar de procrastinar e avançar para as gavetas. E caramba, que difícil foi…

Tantas e tantas memórias que passaram por mim naquela hora em que carinhosamente guardei fofos, calções, e babygrows de Verão… Se a roupa do Pedro foi menos difícil de guardar porque sei que ainda verá a luz do dia no corpo do João, já a roupa do mais pequeno foi embalada com lágrimas, sorrisos e com um coração apertado.

Sei que não voltarei a ter bebés cá por casa. Estas duas gravidezes, tão difíceis e tão próximas deixaram marcas, e não pretendo voltar a colocar-me numa posição tão frágil novamente. Pelos meus filhos e por mim. E é por isso que embalar a roupinha do João é uma espécie de despedida. A partir de agora não haverá mais recém-nascidos, mais mãozinhas minúsculas e fraldinhas de pano. A partir de agora o tempo começa a sua contagem impiedosa e os meus bebés passarão a meninos e, depois disso, a homens.

Eu sei que agora ainda estão aqui comigo, que precisam muito de mim, mas já temo pelo dia em que o meu colo ficar vazio.

Quem me dera que houvesse um comando para controlar o tempo. Era hoje, agora, neste momento, que carregaria no botão de pausa e aqui permaneceria. Sem medo que tudo fosse demasiado rápido.

Sem medo que as gargalhadas felizes que ouço agora se perdessem. Sem medo que este cheirinho a bebé não fosse mais do que uma lembrança de dias felizes.

Nunca fui de viver agarrada ao passado; sei que a vida ainda tem muito para nos dar mas quem me dera que o tempo andasse mais devagar, quem me dera ter todo o tempo do mundo para eternizar estes instantes.

Será assim tão estranho já sentir saudades do momento presente?

 

Não falamos muito dos nossos mortos

Não falamos muito deles, pois não? Dos nossos mortos.

Às vezes, durante o banho, vem uma sensação de que não morreu.

Outras vezes, à noite, choramos sozinhos com saudade. Outras ainda, sonhamos um sonho real em que estão vivos. Tinha sido engano. Depois, quando acordamos, a verdade chega outra vez.
Um dia, pareceu-me que esperava que telefonasse. Que, simplesmente aparecesse. Não falamos muito deles. E dói.
Este dia repete-se.
Mas não queremos chatear. Desejávamos saber mais. Lembrar mais.
Este não querer chatear os outros, não querer partilhar, deixa os nossos mortos só para nós.
Ninguém imagina a falta.
Às vezes, tento pensar nas últimas palavras que trocámos. Às vezes, em vão…
E aí, resolvemos abraçar os que estão. Dizer o que falta. Que fazem falta.
E às vezes não falamos muito com eles, pois não?
Quando morrer não gostava que dissessem que parti. Não usem eufemismos. Digam morreu. Digam, lá está ele com aquelas coisas. Mesmo assim deitado, lá está ele.
E falem de mim.
Não me guardem.
Abracem quem amam.
Não me culpem. Já não vai valer a pena. Não usem frases feitas e aborrecidas*. Comam.
Não te culpes, claro. Como às vezes fazemos com os nossos mortos.
Sei que sofres mais do que eu. É assim mesmo. Há sempre alguém que sofre mais.
Mas isso não ilegítima a nossa dor.
Às vezes, no sonho, não queremos acordar.
Só às vezes.
*Amanhã é outro dia.

image@AdrianMurrey

 

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A morte contada às crianças

Morreu. E agora? Como vou dizer ao meu filho?

Mas, quando eu morrer, como é que vos encontro, como?

As mães também têm medo

 

“Comportamo-nos como se as pessoas de quem gostamos fossem durar para sempre. Em vida não fazemos nunca o esforço consciente de olhar para elas como quem se prepara para lembrá-las. Quando elas desaparecem, não temos delas a memória que nos chegue. Para as lembrar, que é como quem diz, prolongá-las. A memória é o sopro com que os mortos vivem através de nós. Devemos cuidar dela como da vida. ”  Miguel Esteves Cardoso

 

Olá bebé lindo da mãe!

Quando me leres já não serás um bebé, mas por agora ainda és… e na verdade, para mim, serás sempre o meu bebé!

Completaste 1 ano de vida! E já completaste tanto!

Cresces a cada dia, e constantemente aprendes uma nova gracinha, um novo desafio, uma nova competencia!

Adoro ver-te crescer, mas ao mesmo tempo adorava parar o tempo, porque sei que vou ter saudades!
Vou ter saudades do cheirinho de bebé! Aquele cheirinho inconfundível, e irreproduzível que só mesmo os bebés têm. Um cheirinho delicioso que me sabe a calor, a conforto e a amor.

Vou ter saudades do teu sorriso desdentado! Esse sorriso lindo de onde só espreitam pontinhas de pequenos dentes que já te cresceram, mas que fazem esse sorriso tão inocente e puro

Vou ter saudades da forma como me agarras… Como me agarravas os dedos quando eras mais pequeno, e como me agarras agora a mão, ou os braços, ou quando te empoleiras em mim para te levantares… vou ter saudades desta forma que me agarras…

Vou ter saudades que adormeças no meu colo. Aconchegado, quentinho, confortável… aninhado em mim… sabes que não há encaixe mais perfeito que uma mãe e seu filho… Vai deixar saudades….

Vou ter saudades da forma como ficas surpreendido com a mais pequena coisa… como tudo para ti é novidade, e da forma como me procuras para mostrar o que de novo descobriste!

Vou ter saudades desses passos atabalhoados que dás agora que ainda estás a aprender… São atabalhoados mas tão deliciosos…

Vou ter saudades de ter ver com fralda! Ficas tão giro com essas pernocas gorduchas, e essa fralda que te dá esse ar de bebé.

Vou ter saudades dos teus beijinhos cheios de baba! Os beijinhos babados são mil vezes melhores porque são os primeiros.

Vou ter saudades de todas as primeiras vezes que passamos juntos. Os primeiros passeios, as primeiras comidas, as primeiras gracinhas… deste mundo de primeiras vezes…

Vou ter saudades das gargalhadas de bebé que dás! São tão contagiantes, tão deliciosas…

Vou ter saudades de tantas coisas… vou ter saudades que sejas bebé. Vou ter tantas saudades…

Vou ter saudades que sejas só meu, quando um dia te tornares do mundo, porque para mim, serás sempre o meu bebé. Mas o meu bebé está a crescer… e eu vou ter saudades!

imagem@70tt

 

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O que os meus filhos irão esquecer

Filhos, cresçam devagarinho!

Um brinde a nós, mães.

 

 

Um adeus ao meu filho

Passei pelo quarto do meu filho e vi-o a dormir. Entrei para desligar a luz, e quando alcancei o interruptor, olhei para a pessoa que estava deitada na cama e percebi: ele já é um jovem. Já não é um miúdo, é um jovem com tamanho de adulto.

Calma. Pára, respira. Precisei de um segundo para me recompor. Precisei de um momento para me despedir. Para dizer adeus.

Eu sei que não posso parar o tempo e, que aquele miúdo que ainda vivia preso entre o mundo infantil e a adolescência, ia crescer. Tem sido sempre assim. De um bebé pequenino que cabia de corpo inteiro na palma de uma mão, a uma criança sorridente que para onde ia queria levar o Comboio Thomas ou o Faísca McQueen, até ao estudante robusto que andava sempre em corridas, e que me provocou ataques cardíacos consecutivos – eu amei cada fase da maternidade, cada estágio da sua infância, e chorei muitas vezes a perda do que deixamos para trás.

Saber crescer, saber envelhecer

Há pouco tempo, eu pedi a Deus que me desse mais um verão com ele enquanto criança. Eu precisava só mais uns meses do meu filho pequenino. E aconteceu. Ainda tive um verão perfeito com o meu filho criança mas pouco depois, inevitavelmente, ele cresceu. E eu cresci com ele. Não temos escolha. Ou crescia, ou ficava para trás.

E mesmo agora, eu vejo como tudo tem sido maravilhoso. Eu vejo o adolescente incrível em que ele se está a tornar. Há tantas mudanças diárias na vida dele. Parece que cresceu 20 cm numa semana, e de repente tem uma voz profunda e um riso diferente. Até a maneira de pensar mudou. Discutimos politica, por-amor-de-Deus, e ele sabe o que diz.

Ele está a crescer, a seguir em frente, a deixar a infância para trás e a alcançar o todo o seu potencial. Tal como é suposto. E eu estou a fazer alguma coisa bem, porque o meu filho é uma pessoa incrível. Vai ser um homem magnífico.

Eles crescem e a saudade fica

Eu acho que vou sempre ter saudades daquele miúdo de 6 anos com um sorriso apaixonante, com ideias mágicas, e coração de ouro. Ao dizer adeus a cada fase sua, eu despeço-me do que vou deixar para trás mas preparo-me para o que vem a seguir. O meu filho está a crescer e é maravilhoso, é mágico. Ainda temos tantas aventuras pela frente.

Tenho sorte porque ele ainda me acha divertida na maior parte do tempo. Ou, pelo menos finge. E ainda quer sair comigo. Ainda é o meu companheiro de aventuras, mas agora, é ele que sugere os programas. Ele sai com os amigos, mas dar-me sempre um beijo de despedida antes de sair de casa e responde-me  “eu também” sempre que lhe digo que o adoro, independentemente de quem estiver por perto.
Ele ainda me pede opinião, e depois forma a sua própria.

Às vezes ainda me dá a mão ao atravessar a estrada. Só não sei se é para se sentir seguro, ou para me proteger. Seja qual for a razão, eu dou sempre de volta.

 

Wendy Del Monte, para ScaryMommy,
autorizado para, traduzido e adaptado por Up To Kids®

 

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O Avô não volta

O ciclo da vida determina que um dia tudo acabará. Morrer deveria ser tão natural como nascer. No entanto, não é.

Para nós adultos, falar de morte é algo difícil. Não sabemos como abordar o tema e muitas das vezes mudamos de assunto para evitar explicações mais demoradas. É como falar de sexualidade,… ou talvez não! Este já não é um assunto tabu.

Na semana passada partiu o avô paterno dos meus filhos e pela primeira vez em muitos anos tive de enfrentar o medo. Talvez eu sentisse mais medo que eles… Os mais velhos já antecipavam o que estava para acontecer e embora a experiência de vida os tenha poupado destes momentos, já possuem bagagem para enfrentar a situação. O mesmo não acontece com a mais nova. A doença do avô era algo curável aos seus olhos e a morte não era algo viável no seu pensamento. Estava tão longe.

Durante algumas horas pensei em varias formas de lhe contar, de abordar o assunto, sabia que a notícia não seria de fácil gestão.

Não havia volta a dar. Por mais horas que demorasse a dizer, teria de fazê-lo… A voz tremeu e o som saiu… A primeira reação foi a negação e em tom de riso afirmou que eu estaria a brincar. O silêncio reinou e por momentos a brincadeira parecia negar os acontecimentos…

À noite tudo parou e ai surgiram as dúvidas… Não volto a ver o Avô?  Não posso falar com ele e abraçá-lo? Ele já não sente e já não ouve? Tantas perguntas surgiram e eu não estava preparada para responder… Sabia que a frieza das minhas respostas não correspondia ao que ela queria ouvir… Teria de fazê-la sofrer… A única solução era minimizar o seu sentir com a ilusão da estrela brilhante no céu. Da alma que parte e que apenas deixa guardado na terra um corpo imóvel. Por entre soluços adormeceu e passados alguns dias diz que ainda está triste e que a dor não passa… Como mãe tive lhe de dizer que demora uns dias a sentir-se melhor, às vezes mais… Que as memorias perduram no tempo…

Como criança que sonha ela incorporou a missão de diminuir a dor da perda dos que ama e a experiência fez-la crescer. E nós adultos, temos muito a  aprender, todos os dias, com as crianças. Pois o impossível para elas, é apenas uma questão de minutos…

imagem@livrosefatos

Dizem-nos, ao longo da vida, que para sermos felizes devemos olhar em frente. Projectar no futuro, planear e trabalhar no sentido de alcançar aquilo a que nos propomos.

Não tenho nada contra essa máxima, mas tenho uma característica, talvez se possa tratar mesmo de um defeito, de olhar bastante para trás. Ajuda-me a ver de onde parti, o que vivi, o que aprendi e sem essa espreitadela metódica que vou fazendo aqui e ali parece-me difícil programar o que está por vir.

Lembro com muito carinho, e bastante saudade, a minha infância. Tenho memórias tão boas que gostaria que pudessem ser revividas hoje, sempre que eu quisesse. De certa forma é isso que faço quando as revisito.

Lembro-me de estar debaixo dos cobertores, de manhã cedo, antes de ir para a escola e beber o meu biberon com Nestum aquecido ainda de pálpebras pesadas.

De dançar com os meus pés pousados nos pés do meu avô e olhá-lo cá de baixo sem perceber como é que alguém podia ser tão alto.

De o meu outro avô me torcer a orelha para se meter comigo, sem nunca me magoar, e isso ser a coisa mais divertida de sempre.

De ver o meu pai engraxar os seus sapatos com uma dedicação incrível aos sábados à tarde enquanto dava o hóquei na dois.

De ao domingo almoçarmos bacalhau depois de ver a Fórmula 1.

De irmos andar de bicicleta ou de patins a Belém sem pressas.

De esperar que o telefone de casa tocasse a avisar que não havia escola porque estava a nevar – e esse dia nunca chegou.

Dos dias que íamos passar ao escritório dos meus avós, nas férias escolares e dos lanches que nunca me souberam igual: pão-de-leite misto com néctar de pêra.

De fingir que estava a dormir quando chegávamos de um jantar fora de casa só para me levarem ao colo.

De estar na cozinha enquanto a minha mãe cozinhava e contar-lhe todas as aventuras do dia – e acrescentar ponto atrás de ponto.

De escrever postais nas férias e muitas vezes regressar antes de estes serem entregues nas respectivas moradas.

De esperar ansiosamente pelas sextas-feiras para poder ver mais um episódio dos Ficheiros Secretos.

De encher o quarto de posters dos meus ídolos.

De gravar cassetes directamente da rádio e ouvi-las até à exaustão.

De me pintar com a minha prima e fazermos espectáculos para a minha avó com as músicas que estavam na berra na altura.

De admirar as unhas dos pés da minha outra avó, que estavam sempre impecavelmente pintadas e sonhar com o dia em que poderia fazer o mesmo.

De roer as unhas às escondidas e de as pessoas me dizerem que não se notava nada porque não tinha os dedos cabeçudos.

De perguntar “falta muito?” quando estávamos a caminho de algum lugar muito desejado.

De jogar à bola com o meu irmão no corredor. E andar de skate. E vê-lo a jogar ao guelas. E ouvi-lo reclamar porque eu perdia as vezes todas quando jogava Sega. E porque não sabia cantar em inglês as músicas que passavam no rádio e mesmo assim insistia em cantá-las.

De ver as provas de natação do meu irmão e ficar desejosa de partilhar os queques e as pipocas doces que lhe davam no final.

De ler os livros da Sophia e ficar fascinada com aquela dança de palavras, com a melodia das histórias que cresciam dentro de mim.

De ir ao circo e maravilhar-me com os trapezistas.

De subir à árvore antes da catequese e conseguir sempre não arranhar os sapatos nem estragar a roupa.

De ir à praia no Baleal e andar de bicicleta sem rodinhas.

Lembro-me destas e de tantas, tantas outras coisas.

Lembro-me também de não ver esforço nos meus pais. Não se esforçavam para termos programas, não se esforçavam para nos fazerem felizes, não se esforçavam para termos o que fazer. Simplesmente as coisas aconteciam naturalmente, sem forçar nada, só porque assim é que deve ser.

É assim que quero que a minha filha veja a sua infância. Como algo bom, positivo, que desperta saudades. Em que nada foi forçado, em que o amor existiu naturalmente.

Sempre.

imagem@weheartit

As Saudades apertam nesta altura do ano, mas penso em ti todos os dias!

Querida avó,

O Natal passou! Estamos quase, quase, quase num novo ano que nos trará, dizem, mais 366 oportunidades de sermos felizes!

Este é o terceiro Natal que passo sem ti! E, em tudo, continuo a sentir a tua falta!

Lembro, com tanta graça, o quanto detestavas o Natal! Sei que não era propriamente o Natal que estava em causa, mas sim “esta coisa dos presentes”, do “fazer de conta” que a família é perfeita, do fingir que, de repente, as dores que doeram todo o ano desapareceram! Dava-te alguma razão… com pena!

Compravas chocolates para todos, que variavam entre Ferreros, Mon Cheri e aqueles de frutos do mar! Para todos, menos para mim! A mim sempre me coube alguma coisa que me “fizesse falta”. E, assim, lá vinhas comigo comprar umas botas ou umas calças ou qualquer outra coisa, em que davas a tua opinião, sentadinha num qualquer banco, de uma qualquer loja, porque já não tinhas “idade para estas andanças”!

Lembro-me do quão fechada e pouco divertida era a tua cara durante os jantares e almoços, e também me consigo lembrar do quão apurado era o teu sentido de humor, quando te permitias soltar um pouco de dentro de ti! Essas recordações valeram-me umas risadas na ceia deste Natal!

Lembro-me do casaco de peles que vestias em todas as consoadas e de como ficavas linda com ele! E não tenho a certeza de to ter dito as vezes suficientes! Agora que não estás mais comigo, penso sempre que houve palavras que ficaram por dizer, beijos por dar e abraços por abraçar!

Lembro-me do teu “gostei” em cada regresso a casa depois do jantar com a família! Nunca percebi se seria para nos convenceres a nós… se seria para te convenceres a ti mesma!

Ensinaste-me tanto de Amor, apesar de nunca te teres sentido verdadeiramente amada e querida na tua vida (espero que o meu Amor por ti tenha atenuado algumas mágoas em ti!)!

E, talvez por isso, vais-me fazer falta em todos os Natais! E em todos estes novos 366 dias que aí se avizinham! Porque guardo em mim tanto de ti! Porque esta ausência de ti será para sempre trilhada de altos e baixos… de risos das nossas lembranças ou de lágrimas que deixarei rolar, sempre que o teu colo me fizer falta!

Gosto muito de ti!

Um beijo da tua querida neta!

Por Sara Ribeiro

imagemcapa@duitang

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Coisas que aprendi com os meus avós

Os avós nunca morrem, apenas ficam invisíveis

A importância dos avós

(TRABALHO PARA DISCIPLINA DE CIDADANIA)

Metade da minha família vive em Angola. Umas dessas pessoas são os meus avós paternos.

Como muita gente, eles tiverem que emigrar para terem uma vida melhor e um melhor emprego. Eles já lá estão há cinco anos. Há cinco anos que eles não me vêem crescer, que não passo um fim-de-semana com eles, que não vão a uma festa de anos minha.

Tenho muitas saudades deles e eles minhas, quando eles vêm cá passar férias sinto que já não os conheço muito bem e sinto que eles também já não me conhecem muito bem. Mas é normal, eles foram para Angola quando eu tinha sete anos, agora tenho doze anos, já não sou nenhuma criança, já tenho outro comportamento.

Como eles estão longe não me vêem a crescer e não percebem muitas vezes porque ando mais com o telemóvel, porque é que tenho “instagram” e outras coisas.

Gostava muito que eles estivessem comigo e que me ajudassem a crescer e a tornar-me uma boa cidadã. Para eles também não deve ser nada fácil não verem os netos a crescer.

Apesar de eles estarem longe, falo muito com eles e conto-lhes o que se passa na minha escola e como vão as minhas notas. Claro que preferia poder falar sobre isto pessoalmente.

Eu e o meu irmão estamos-lhes sempre a perguntar quando é que vêm para cá, eles nunca nos dão uma resposta concreta. Eu acredito que qualquer dia eles vêm.

Queria muito tê-los ao pé de mim, mas a vida é mesmo assim.

Longe ou perto vão ser sempre os meus avós e vão estar sempre prontos a ajudar-me

 

RESPOSTA DO PAI (O FILHO DOS AVÓS)

Obrigado filha por teres escrito tão bem. Lembraste-me de tantas coisas importantes. Lembraste-me de estar mais atento aos teus silêncios. Os silêncios dos pré-adolescentes. Não falando, dizem tanto. Pensam tanto. Sabem tanto. Os pais devem estar alerta!

Os teus avós, como a maioria dos emigrantes, são das pessoas com mais fibra, porque nos ensinam que nunca é tarde. Ensinam-nos a importância de lutar. Dão um exemplo de persistência. Demonstram capacidade para perseguir sonhos. É o que devemos fazer.

Os avós estão “na terra”. Uma “terra” agridoce, mas a “terra”. Persigamos a nossa!

Tu lembras-te pouco da tua vida até aos sete anos, mas acredita que é uma fase muito importante do desenvolvimento. Uma grande base para a vida. E eles estiveram sempre. E bem. Muito bem! Aprendi muito com eles e hoje sou melhor pai por isso.

E temos que ver isso do telemóvel. Como diz a músic: “ Também não exageres…”

Adoro-te. E também sinto a falta deles. É, no fundo, bom sinal. Longe ou perto, vão estar sempre prontos a ajudar. Tens razão. E qualquer dia eles vêm.

20 coisas que os meus filhos nunca vão perceber. Bem vindos aos anos 80/90!

Quando era mais nova lembro-me dos meus pais me contarem episódios que começavam com “No meu tempo…” Cheirava-me logo a anos 40/50, a histórias longínquas e desatualizadas, com o encanto de imaginar o meu pai com 6 anos, em África, a brincar na rua, tal como via na fotografia na sala de nossa casa. Parecia que, da infância deles à nossa, tinham ficado centenas de histórias por contar.

Hoje, dou por mim a começar frases da mesma maneira. “No meu tempo…”

Os meus filhos gostam de saber.

Com os olhos a brilhar tentam adivinhar o que vou eu contar: serão aventuras como andar de bicicleta sem que ninguém soubesse do nosso paradeiro, ou serão coisas que me passam pela cabeça como “Menina, que polos conhece? – Polo Norte, Polo Sul e Polilon!”. 1, 2, 3, diga lá outra vez: de onde vem esta famosa frase?

 

A pensar nestas conversas, resolvi compilar 20 coisas que os meus filhos nunca vão perceber… Bem vindos aos anos 80/90!

 

1.A Televisão era a preto e branco.

Só tinha dois canais, e o mais parecido com controlo remoto para os nossos pais éramos nós: “Vai lá ver o que está a dar no 2”. Não existia zapping, e se algum visionário se lembrasse de alternar entre canais fazia, quando muito, ping pong.
tv2

Mais tarde um asterisco que piscava no canto do ecrã indicava que estava a começar um programa no outro canal.

2. Fazer viagens Lisboa-Algarve pela Estrada Nacional.

Sem cintos atrás, e ficar horas no trânsito com temperaturas a roçar os 40 graus, sem ar-condicionado. A paragem obrigatória era em Canal Caveira ou Mimosa e não era para fumar um cigarro. Os cigarros fumavam-se dentro do carro, ao longo da viagem. Para os mais novos, cigarros de chocolate para agarrar entre dedos e ir comendo, powered by “próprios pais”.

3. TV a cores e Eurovisão

Assistir pela primeira vez ao festival da canção numa televisão a cores com toda a família e os amigos dos pais.

Sim, marcavam-se convívios para viver momentos especiais, e este foi um deles.

4. A mira da televisão antes de abrir a emissão

Acordar ao sábado de manhã para ver bonecos animados, e o desapontamento de ficar 1h a olhar para a mira da RTP porque a emissão ainda não tinha começado.

mira

A excitação do início da emissão era tanta que até dançávamos ao som da orquestra de abertura (Este video é mais antigo, mas não arranjei com a mira dos anos 80, gozem só a orquestra).

 

Falar ao telefone sem poder sair do mesmo sítio e enrolar o dedo à volta do fio durante a conversa.

Quando a ligação não estava boa, trocávamos o telefone de orelha. Quando queríamos telefonar para casa de um amigo, tínhamos de saber falar ao telefone: cumprimentar, identificarmo-nos, e perguntar, “A Ana está?”

5. Colecionar borrachas com cheirinho, folhas queridas, caricas, berlindes, latas de bebida, ou pedras.

vorrachas6. Querer telefonar para os amigos e ter um cadeado no telefone. Sim, já nos bloqueavam o teclado na altura, o método é que era um bocadinho diferente.cadeado

7. Para brincar bastava termos vontade.

Éramos pequenos Macgyver a improvisar brinquedos: fazíamos fisgas, cabanas, e arcos e flechas. Com pedras jogávamos à mosca, com um canivete (ups!) jogávamos ao mundo, com um elástico ou uma corda saltava-se. Com um fio fazíamos manobras de mãos e jogávamos ao pé de galo. Faziamos 3 covas e jogávamos Bilas ou Guelas.Só tinhamos de decidir se valia palmo e ganso ou não. Éramos incansáveis.  Sabíamos que os presentes se recebiam nos anos e no natal, e vivíamos bem com isso. A moeda que a Fada dos dentes deixava dava para comprar pastilhas Gorila, e era fantástico! (Até porque, também, colecionávamos os cromos dos aviões)
gorila

8. Saber esperar

Marcar encontros no cinema ou no café sabendo que não haveria hipótese de desmarcar caso surgisse um imprevisto. Esperávamos até que o outro aparecesse. Às vezes, quando o atraso era grande, íamos a um café ligar para casa:  “Quanto é que é cada impulso para chamada local?” – “Dois e quinhentos”. Nessa altura falávamos em escudos.

9. Assistir ao telejornal até ao fim, para ver as sessões de cinema que passava logo de seguida.

10. Load aspas aspas Enter.

Rezar que o jogo “entre”. Quando caía, afinava-se um parafuso no gravador e tentava-se novamente. Depois esperávamos uns 2 a 5 minutos para descarregar o jogo, numa espécie de hipnose provocada pelas riscas e sons que eram produzidos na televisão.


Poder jogar Pacman em casa… e depois Mrs. Pacman.

11. Ter uns headphones da Sony amarelos e rebobinar as cassetes com uma caneta bic para não gastar pilha.sony-walkman

11. Revelar fotografias

Pôr as fotografias das férias finalmente a revelar, esperar uma semana para levantar, pagar os olhos da cara, e não haver uma foto que se aproveite. O rolo tinha a “asa” errada e ficou com muita ou com pouca luz. Ou simplesmente abrimos a tampa antes de rebobinar, e ficou todo queimado!kodak

12. Gravar musicas da rádio

Esperar ansiosamente que passe a música preferida no rádio para pôr a gravar, e alguém falar a meio. Ou estar a gravar uma música e a cassete acabar: virar rapidamente para o outro lado, pôr no Rec e apanhar a parte branca da fita até ao fim da música.rec

13. Linhas cruzadas

Arranjar uma extensão de telefone gigante para conseguires falar com alguma privacidade. Estar ao telefone e ouvir um “arfar” na linha. Alguém em tua casa estava a ouvir a conversa no outro telefone (Esta para eles parece muito à frente!)

14. Trabalhos escolares (Calma, os TPC já existiam, só davam um bocadinho mais de trabalho a realizar)

Fazer um trabalho de pesquisa, para a escola, na biblioteca. Ter de consultar vários livros, e criar a apresentação em acetatos! (Graças a Deus já existia o retro-projetor!)retroprojetor

15. Videoclubes sem ser on-line

Esperar meses para que aquele filme que perdemos no cinema chegasse ao clube de vídeo. Conseguir alugá-lo ao fim de duas semanas esgotado, chegar a casa ansioso para ver, e a fita não estar rebobinada!
vhsOu gravar um filme no vídeo, e no dia que vamos ver… alguém gravou outro programa por cima.

16. Passar bilhetinhos nas salas de aula.

17. A primeira ligação à internet.

Aproveitar a extensão do cabo de telefone para fazer a ligação à internet no computador. O som que a internet fazia a ligar. O tempo que a internet demorava a ligar. A meio alguém resolvia fazer um telefonema, e adeus internet.

18. Ver a astrologia e os jogos no teletexto. (Isto já foi muito recente)teletexto

Lembra-se de todas estas coisas? De longe e de olhos vendados? Então vamos lá experimentar, feche os olhos e descubra de que são os 8 sons que estão na seguinte gravação! A seguir, faça o mesmo exercício com os seus filhos.

Veja quantos destes sons eles reconhecem!
Deixe o seu comentário!

Pontuação Filhos:
Até 2 respostas certas | Fantástico – Já andaste a ver vídeos no youtube sobre o século passado…!
2 a 4 | Afinal quantos anos tens?
4 a 6 | Uaaaauuuuu! Com esta pontuação também te deves lembrar da “Amiga Olga”, não?
6 a 8 | Agora a sério. Pontuação dos FILHOS! Não é a dos pais. Mas boa tentativa.

 

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Sempre que dizia que gostava tanto do meu pai e que tinha saudades dele, perguntavam-me porque nunca me ouviam dizer o mesmo em relação à minha mãe.

A verdade é que por não viver com o meu pai acabava por verbalizar mais esta falta, este sentimento de saudade. Em relação à minha mãe, como fomos sempre muito próximas (também fisicamente), posso dizer que comecei a sentir verdadeiramente saudades dela desde que saí de casa. E há tanta coisa que parece pequenina, mas que dou mais valor hoje do que alguma vez dei.

Sinto falta de ver a minha mãe todos os dias.

Tenho saudades de quando ela me secava o cabelo, mesmo sendo a coisa que mais detestava no mundo.

Sinto falta de estar debaixo dos lençóis, muito pequenina, e de ela me levar um biberon de Nestum com a tetina cortada para o beber ainda dentro da cama nas manhãs de inverno antes de ir para a escola.

Tenho saudades dos tempos em que nos inscrevemos no mesmo ginásio e fizemos aulas de aeróbica e éramos as duas alminhas mais descoordenadas que se viam a mexer naquela sala – e não nos importávamos nada.

Sinto falta de ir à mercearia do senhor João comprar pastilhas e saber a diferença entre nabiças e espinafres de tantas vezes que a vi a comprá-los lá.

Tenho saudades de estarmos no sofá, ao fim do dia, enroscadinhas a conversar ou em pleno silêncio.

Sinto falta de a minha mãe me perguntar por que é que, com um sofá tão grande, insistia em estar colada a ela.

Tenho saudades de ouvir a campainha tocar e saber que era para descer as escadas e ajudar a trazer os sacos do supermercado para cima.

Sinto falta de estar na cama e chamar “maímmmm!” e pedir um copo de leite com chocolate quentinho, como só ela sabe fazer, para me acalmar o corpo e a mente e poder dormir descansada.

Tenho saudades de poder pousar a minha cabeça no seu colo e a ouvir dizer que “vai correr tudo bem” enquanto me afagava os cabelos (continua a ser a única pessoa que gosto que mexa neles).

Sinto falta de fazer corridas de “golfinhos” no mar, nas férias. E de perder sempre para ela.

Tenho saudades de lhe pedir para me comprar uma bolinha com creme, mesmo sendo de tarde e estando tanto calor e ela me avisar, vezes sem conta, que era preferível comer uma sem creme.

Sinto falta de estar por casa e por isso, a “obrigar” a sair mais cedo do trabalho.

Tenho saudades de conversar com ela na cozinha, enquanto preparava o jantar e eu acabar por não ajudar quase nada porque não parava de falar.

Sinto falta de perguntar o que é que vai ser hoje o jantar (e ouvir como resposta “línguas de perguntador”).

Tenho saudades de acordar a meio da noite e ouvir barulho na cozinha e ir pé ante pé porque sabia que a encontrava, de camisa de noite, à janela a fitar as estrelas.

Sinto falta de quando ela me dizia que com as unhas pintadas daquela cor nem pensar, só para andar em casa.

Tenho saudades de irmos no carro para o Algarve e cantar todas as músicas e ouvi-la a dizer “mas como é que tu conheces isto tudo?”.

Gosto muito do facto de termos uma relação muito telepática, de estarmos constantemente a pensar uma na outra e nos ligarmos sem saber disso. De as minhas dores de cabeça passarem por te falar nelas (mesmo ficando tu com elas – ninguém acredita, mas sabemos que é verdade). Gosto de saber se vale a pena ir ver um filme ao cinema depois de ouvir a tua crítica porque é sempre certeira. Gosto que partilhemos livros. Gosto que faças jardineira nos domingos em que o mano vai almoçar e eu não porque sabes que eu não gosto muito. Gosto de poder dizer, sem hesitar, que és a melhor pessoa que conheço – sem ser para parecer bem, mas com a maior naturalidade do mundo – porque é verdade. Gosto tanto de ti. Gosto de nós.

E tenho saudades tuas, mãe, mesmo falando todos os dias contigo.

Porque sentir falta não é mau e ainda é melhor podermos matar essa saudade quando queremos.

Se me perguntarem o que é preciso para ser uma boa mãe é de ti que vou estar a falar. Sempre.

(E porque o dia da mãe se aproxima, deixo também um grande beijinho à minha “boadrasta” por tudo aquilo que sempre me deu: compreensão, tempo, carinho, paciência, a minha mana linda, amor. Por ter cuidado sempre de mim como se fosse sua. Como só uma boa mãe consegue fazer).

Sou mesmo uma pessoa de sorte – e grata por isso.

Feliz dia da Mãe!

Por Marta Coelho,
para Up To Lisbon Kids®

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