Sim, eu sou essa mãe horrível

Sou a mãe horrível que só entra no carro quando vos vê entrar na escola.

A que pergunta sempre que entram no carro: “têm o cinto?”

Que diz coisas como “quem manda sou eu”, “porque eu disse”, “eu que vos volte a chamar”, “vou contar até 3”.

Sou a mãe horrível que estabelece horários de uso de tecnologia e fá-los cumprir.

A que não vos deixa ir para a água antes de colocar protetor solar.

Que vos pergunta sempre se levam o telemóvel, o cartão da escola o dinheiro das refeições, a flauta ou o saco de Educação Física.

Eu sou a mãe horrível que vos obriga a vir comigo para todo o lado porque não podem estar dentro de casa, sempre, para sempre.

A mãe horrível que vos leva a repartições de serviços públicos para que possam aprender coisas como tirar tickets, esperar, desesperar, expor uma situação, lidar com burocracias.

A que quer fazer férias com e sem vocês.

Que quer ir ao estrangeiro e aos concertos sem vocês porque vocês não querem ir.

Sou a mãe horrível que depois se sente horrivelmente culpada por fazer planos que não vos incluem.

A mãe que morre de medo que aconteça alguma coisa quando está longe de vocês.

Que já sente saudades vossas quando ficam algumas horas com os avós.

Eu sou a mãe horrível que se enerva e manda uns berros e diz coisas como “desapareçam da minha vista”.

A que vos chama a atenção quando estão a portar-se mal e não vos admite faltas de educação.

Sou a mãe que vos obriga a escrever resumos para as disciplinas de história e de ciências.

A que arranjou uma hora extra nos nossos horários loucos para estudarmos um pouco de matemática.

Sou a mãe horrível que vos enche o estojo de canetas pindéricas multicoloridas.

A que vos veste de igual. E diferente e de igual mas com cores diferentes porque vocês e eu gostamos.

Que vos diz “levem o casaco porque está vento/fresco”.

Eu sou a mãe horrível que insiste em dar-vos as vacinas, as vitaminas, levar-vos às consultas e explicar-vos como todas estas coisas são necessárias.

A mãe que vos leva para as minhas aulas na academia quando não querem ficar em casa ou não temos os avós para ajudar.

A que insiste em que usem o gel para o acne porque as borbulhas já começam a aparecer.

A mãe horrível que vos preparou intensivamente para determinadas fases da adolescência.

Sou a mãe horrível que vos deixa ver as séries de comédia da Fox Comedy.

A mãe que vos fala incessantemente do Harry Potter ou do Senhor dos Anéis ou do Indiana Jones mesmo quando vocês não querem saber disso para nada.

A que daria anos de vida para perceber como funcionam os vossos cérebros ou poder trocar de lugar convosco e evitar que o autismo não vos roube mais nada.

Eu sou a mãe horrível que assume que tem pouca paciência para mariquices no boné.

A mãe que está atenta a tudo e vos protege até da vossa própria sombra se assim tiver de ser.

Que, às vezes, já não vos consegue ouvir ao fim de um dia particularmente difícil e cansativo mas não resiste a ver-vos dormir.

Sou a mãe horrível que vai sempre aconchegar-vos e senti-vos respirar antes de se deitar.

A mãe que vos chaga a cabeça se vocês pisam o risco.

A que vos vai dando corda para que um dia não precisem de mim.

Eu sou a mãe horrível que, às vezes, pensa como seria a vida sem vocês e sente imediatamente um aperto no coração.

Sou a mãe que precisa de descanso e de dormir e de relaxar e de ver TV e de ler e de ter apenas uns minutos sozinha.

A que consegue atingir velocidades incríveis a caminho da escola quando lhe ligam da escola por vossa causa.

Sou a mãe horrível que vos ensina a rir dos vossos defeitos e falhas.

A que vos diz que eu devia ser como as aquelas mães que nunca têm chatices e despejam os filhos numa escola par alguém cuidar deles quando vocês estão particularmente inspiradas para o disparate e a agitação e a parvoíce.

Sou a mãe que se arrepende de ter uma boca destravada.

Sou a mãe horrível que tem um péssimo acordar e passou essa herança para uma de vocês.

Sou a mãe que vos ama tanto tanto tanto que chega a doer.

A mãe horrível que não fazia ideia do que era ser mãe. A que tem de aprender a sê-lo, todos os dias, um bocadinho.

No fundo, obrigada por ser a vossa mãe.

Mesmo, assim, horrível.

Mães preocupadas

Queridas mães,

Se és uma mãe* preocupada, este texto é para ti.

Deixa-me que te diga que estás a fazer um magnífico caminho na educação dos teus filhos. Sei que usas todos os recursos para lhes abrires os caminhos que façam deles seres humanos felizes. Eles (os teus filhos) também sabem o tamanho da tua dedicação. Também sabem que te preocupas com muitas coisas. Que estás constantemente atenta, tão atenta que por vezes te esqueces de respirar! Sim, isso respirar!

Experimenta: respira agora!

Decidi escrever este artigo porque tenho acompanhado algumas situações e algumas publicações nas redes sociais de mães com diversas preocupações. Muitas delas com muito sentido, outras em busca de opiniões de quem já passou pela situação, outras que me levam a sentir que são gritos de ajuda. E está tudo bem.

Algumas destas preocupações passam pela idade certa para fazer determinadas coisas. Qual é a idade certa para ir para a creche, a idade certa para entrar na primária, a idade certa para deixar as fraldas, para comer sólidos, para dormir sozinho, a idade certa para o primeiro beijo e para o primeiro namoro. E algumas dessas preocupações transformam-se em desabafos “eu pensava que estava a fazer bem” ou em dúvidas “deixo ou não usar o telemóvel para que o meu filho coma, se vista, fique entretido enquanto faço o jantar”.

No outro dia num encontro de pais, uma mãe relatava que o seu filho de 2 anos largou as fraldas por decisão dele. Foi exactamente no tempo certo para ele. Esta mãe conseguiu fazer algo que está ao alcance de todas nós: conseguiu… Confiar.

Então, queridas mães, pergunto-vos:

Confias o suficiente no teu filho?

Confias que ele vai saber exactamente qual é o momento “certo” para fazer ou deixar de fazer qualquer uma das situações acima ou outra situação que neste momento te preocupa?

Um casulo precisa do seu tempo para se tornar numa linda borboleta. E é dessa confiança que estou a falar. Da confiança de que tudo acontece exactamente no momento em que tem de acontecer. Tal como a borboleta, a natureza está repleta de processos naturais. Tal como na natureza também o desenvolvimento motor, cognitivo e emocional do teu filho é feito de forma natural. O teu filho precisa que tu sejas o seu porto seguro. Precisa de alguém a partir do qual possa sair para explorar o mundo e voltar quando precisa de ajuda para lidar com os seus sentimentos, pensamentos e desafios da vida.

Sabes, mãe:

1.Tu conheces melhor o teu filho do que a educadora, o pediatra, o médico, a professora.

Tu sabes como ele é, como reage, do que  gosta e do que não gosta. Se já desempenhas o teu papel de detective diariamente, de certeza que já tens um doutoramento em “Parentalidade Consciente”.

2. Reforça a tua intenção, liga-te ao coração e ao que diz a tua intuição.

Devo ou não colocar já na escola? Vou ajudar o meu filho se o colocar já na escola? Ele pode esperar mais um ano?

A escola não é uma maratona. Não há quem chega primeiro e não há quem fique em último, o importante é a tua intenção.

E o que te diz o teu filho?

É importante escutares a opinião dele. A opinião dele tem tanto valor como a tua. Juntos vão encontrar o que é melhor para ele.

3. O que é mais importante para ti, quais são as tuas necessidades, os teus limites?

Há mães que não tem outra escolha se não colocar, desde muito cedo, os bebés na creche e as crianças na escola. E não é por essa decisão que o seu desenvolvimento vai ser afectado negativamente. Até porque o importante é o vínculo, a presença na relação com o teu filho quando estás e não estás com ele. É ele saber que pode contar contigo. Há mães que têm a hipótese de ficar até mais tarde em casa com os seus filhos, e até a essas mães eu pergunto se as suas necessidades estão a ser respeitadas. Se têm tempo para si, se têm tempo para fazer o que mais gostam. Há um equilíbrio perfeito em tudo! Só tu sabes!

4. Como é que te sentes?

Quando decides colocar o teu filho na escola sentes confortável, ansiosa, preocupada? E de onde vem essa preocupação? Faz as pazes com o que foi a tua experiência de entrada para a escola, ou até com o que ouves outras mães a contar, e simplesmente liga-te ao que estás a sentir. Reconhece o que estás a sentir, fala sobre isso. Essa é a porta para te ajudar a ultrapassar este momento.

5. Confias com razão ou confias com o coração? Confias mais no que te dizem ou confias mais no que diz a tua intuição?

Sabes querida mãe, tu sabes quais são as necessidades do teu filho. Não tenhas medo de o colocar numa escola e mais tarde considerares e decidires que afinal não é o que procuras. Não tenhas medo de falar com a educadora, com a professora sobre as tuas preocupações. Não compares os teus filhos com os outros meninos porque cada criança é única! Não o obrigues a comer colher atrás de colher quando ele te diz que está cheio. Não ignores quando vem falar contigo sobre o seu primeiro beijo, sobre o seu namoro.

Não tomes decisões que não te venham do coração!

Lembra-te que, em cada momento, tens a oportunidade única de te ligares ao teu coração!

Confia em ti! <3

 

* este texto foi escrito para mães, pois tem sido maioritariamente as mães que desabafam sobre as suas preocupações. Porém, este texto também é para os pais. Este texto é para toda a família.

Os 10 Mandamentos de uma Mãe imperfeita | Editora: Ego Editora | De Carmen Garcia, prefácio de Guilherme Duarte

SINOPSE

Era uma vez uma mãe que tinha inveja das fêmeas rato, fez cocó durante o parto, quase enlouqueceu no puerpério e escolheu dar papas industriais ao filho. Um dia essa mãe, com um cabelo sem corte e uma
camisola a cheirar a leite azedo, decidiu assumir publicamente a sua imperfeição, criou uma página de Facebook e, potenciada pela privação de sono, foi escrevendo sobre o outro lado da maternidade. E escreveu sem medos que nesse outro lado, no lado de que poucos falam, existem cansaço, saudades da vida “de antes” e a vontade de que os filhos, às vezes, tivessem um botão de pausa. Mas também
escreveu sobre as alegrias infinitas e a certeza de viver um amor maior que o mundo. Tão grande que chega a dar medo.

Este livro é uma continuação da cruzada a favor da imperfeição que a autora tem vindo a desenvolver nas suas páginas nas redes sociais. Não pretendendo ensinar nada a ninguém, até porque é a primeira a assumir que não percebe nada disto, o objectivo da “mãe imperfeita” é unicamente mostrar às mães que nunca estão sozinhas e que é a imperfeição que torna a maternidade a viagem mais maravilhosa das suas vidas.

Mesmo que as mães perfeitas insistam em dizer o contrário.

PONTOS FORTES DO LIVRO

Escrito num tom bem humorado, o livro pretende desmistificar os dogmas da maternidade, mostrando a realidade das dificuldades inerentes à educação de um filho. A autora é uma estrela em ascensão nas redes sociais. Com apenas um ano de actividade, a sua página no Facebook “A Mãe Imperfeita” conta já com mais de 35 mil amigos que seguem as suas publicações diárias.

FICHA TÉCNICA

Chancela – Ego Editora
ISBN – 978-1727814231
Preço – 13,90€
Formato – 15,5×23 cm Páginas – 134

a mãe imperfeita

As mães também choram

A maternidade é uma das coisas mais universal do mundo.

Se, por um lado, isso nos ajuda a sentir que somos como tantas outras mães, muitas vezes também sentimos que por isso, por ser tão universal e tantas mulheres o viverem os nossos dramas nos isolam. Sentimos culpa, sentimos que não devíamos sentir coisas menos positivas, que não devíamos perder a paciência, que somos mal agradecidas em algumas ocasiões.

Sermos mais uma na maioria em alguns dias faz-nos sentir pequenas.

À conversa com a mãe de um amigo da minha filha senti mais uma vez a importância de sermos sinceras umas com as outras e partilharmos também as nossas derrotas. Ela contava-me que num final de um dia mais complicado, com birras, se tinha sentado na cama e chorado. E que o marido lhe tinha perguntado por que estava ela a chorar, porque não se tinha apercebido de nada de extraordinário.

Às vezes é assim, cumprimos esta nossa missão com tamanha assertividade que é uma surpresa para as outras pessoas quando nos vamos abaixo.

Mas isso acontece e é comum a todas as mais, numa altura ou outra do seu caminho.

Há as que choram no pós parto, as que choram quando amamentam, quando deixam de amamentar. Quando têm de pôr os filhos na creche, quando os vão buscar à creche mais tarde do que gostariam, quando vêem as contas a aumentar e têm de fazer ginástica para fazer face a todas elas. Quando se separam e percebem que a vida dos filhos nunca será igual (nem a sua) à que planearam, as que choram simplesmente porque estão cansadas.

Há alguns meses eram raros os dias sem incidentes à saída da escola da minha filha. Foi uma fase de birras feias em que a maior derrotada fui eu e a parentalidade positiva. Mas aí percebi que nenhum tipo de parentalidade resultaria porque simplesmente a minha filha entrava em modo automático e não via nem ouvia nada. Era exasperante e ela acabava por adormecer no caminho de casa, exausta. E não foram raras as vezes em que acompanhei o seu sono com lágrimas silenciosas. Lágrimas que me escorriam pelo rosto enquanto revia uma e duas vezes o que poderia ter feito de outra maneira, onde podia melhorar, o que poderia fazer no dia seguinte para evitar este desgaste.

Aos poucos as coisas foram melhorando, até porque as crianças vão crescendo de dia para dia, ultrapassando as suas próprias barreiras.

Chorei em frente à minha filha – contra o que algumas pessoas me disseram que deveria fazer “para ela não perceber o efeito que tinha em ti”. Permiti-me chorar exactamente pelo contrário, para que ela pudesse testemunhar que as suas acções têm consequências. Naturalmente que não chorei para lhe imputar um sentimento de culpa, num discurso de “vês como a mãe fica quando te portas assim?”. Chorei porque não aguentava mais e em vez de ir para o quarto esconder-me, deixei que ela visse. Abri a porta ao diálogo.

E senti a empatia dela.

Ajudou-nos a falar do que tinha corrido mal.

E foi a excepção, naturalmente. Não tenho qualquer memória de ver os meus pais a chorar. E não quero que essa seja uma memória activa da infância da minha filha. Mas ali foi orgânico. Porque ao pé dela já chorei de felicidade, de emoção.

Por que motivo nos escondemos quando as nossas emoções não são positivas?

E quando a mãe do amigo da minha filha, que eu considero uma super mãe, super assertiva e firme, sempre no controlo de tudo, me disse que tinha chorado eu senti-me abraçada. Acompanhada. Compreendida. Senti que fazia parte para todas nós.

As mães mais ou menos seguras.

As mães mais ou menos disciplinadoras.

As mães mais ou menos sensíveis.

As mães.

Porque as mães choram.

E não há mal nenhum nisso.

É feio ser uma mãe real

É feio uma mãe dizer que está cansada e que precisa de tempo para si,

é feio fechar-se na casa de banho para chorar quando momentaneamente se sente saturada,

afirmar que tem alturas em que dá por si a sentir que não se devia ter metido nisto (maternidade).

É feio uma mãe gritar, ameaçar e punir,

é feio admitir que por vezes cede porque não se quer chatear,

deixar de cuidar de si e de se reconhecer enquanto mulher.

É feio uma mãe deixar o filho ver TV para ter uns momentos de sossego,

é feio não estar com o pai da criança,

não assegurar que o filho larga rapidamente as fraldas e a chucha ou que não lê assim que entra na escola.

É feio uma mãe não ser capaz de criar filhos que nunca gritam, choram e expressam frustração,

uma mãe assumir que mesmo na companhia do filho por vezes se sente só.

Numa sociedade cada vez mais hipócrita, que exige dos outros o que não tem em si – a perfeição – é feio ser uma mãe real que se cansa, que se questiona, que erra, que chora, que precisa de mais tempo para si.

Felizmente não estás só. Tal como tu, sou essa mãe que carregada de realidade age da melhor forma que sabe – com o coração carregado de amor.

 

LER TAMBÉM…

Ser Mãe todos os dias cansa!

Estou sim, bom dia, daqui fala a mãe, em que posso ajudar?

Contributos da Música na Maternidade. Musicoterapia na maternidade

Ser mãe sem ter mãe: O clube a que nunca quis pertencer

Incentivar a leitura das crianças- como, porquê, para quê e quando?

 

A mãe fica meu amor

Há catorze meses que este bebé está comigo. Nove meses na minha barriga, cinco no meu colo. Nunca me separei dele por períodos maiores que meia-dúzia de horas. Todas as manhãs o vi acordar. A maior parte dos meus dias é passada com ele no colo e, em dias mais difíceis, ando com ele na mochila para conseguir despachar as tarefas domésticas enquanto lhe vou cantando que “a barata diz que tem…”.

Conheço todas as expressões deste bebé.

Sei onde lhe tocar para o fazer rir. Sei o que lhe dizer para o acalmar. O cheiro dele é o mais perfeito dos cheiros mesmo quando se bolça e aquele travo azedo se cola na roupa. Os olhos dele são grandes, a pele absurdamente branca e o sorriso pura magia.

Sei que no momento do parto o corte do cordão umbilical separa o bebé da mãe e, em termos puramente físicos, essa é uma verdade indiscutível. Mas, para mim, o verdadeiro corte, aquele em que experimentamos pela primeira vez a angústia da separação, acontece no dia do nosso regresso ao trabalho.

É verdade que viver quase exclusivamente para um bebé é desgastante.

Mas isso não impede que o regresso à vida laboral seja de uma violência atroz. O coração de mãe aperta-se na hora do voltar à antiga rotina e a ansiedade transforma-se numa companhia permanente. Dói quase fisicamente termos que nos separar do nosso bebé, do nosso pequenino, daquele ser que é quase uma extensão natural de nós próprias.

O meu regresso ao trabalho está a chegar.

E a mãe que sou tem medo de não estar preparada. Tem vontade de bater o pé e dizer que não volta. Tem vontade de encher este filho de beijos. De o apertar nos braços e de lhe dizer ao ouvido “a mãe fica meu amor”. 

Quem me dera poder ficar.

Tempo para estar doente

O Pedro trouxe para casa um daqueles bicharocos de creche que são apenas um bocadinho incómodos nas crianças mas que metem os adultos a pensar na conversa que estão prestes a ter com S. Pedro. Esse bicharoco, que dava náuseas, dores de estômago e diarreia, atacou-me de forma certeira e eu, que nem me acho uma pessoa particularmente piegas, vi o caso mal parado e pensei que, afinal, ainda tinha que voltar ao hospital onde trabalho antes de terminar a licença de maternidade.

Hoje, passada uma semana sobre esses dias negros, já estou completamente recuperada mas decidi pegar neste tema para vos confessar que senti saudades de ter tempo para estar doente. E se isto assim à primeira vista pode até parecer esquisito, tenho a certeza que, quem é mãe, vai perceber onde quero chegar. É que outra das coisas que ninguém nos diz quando engravidamos é que o conceito de doença muda (muito!) depois da maternidade.

Sabem aqueles dias que passávamos no sofá, enroladas numa manta, numa letargia induzida pela febre?

E aqueles em que tínhamos dores de garganta e tínhamos tempo para beber um chá bem quente de limão com mel enquanto víamos um episódio da Anatomia de Grey? Pois, vão deixar de saber. Porque quando temos filhos pequenos esses dias são luxos de que não dispomos.

Porque a mãe não tem tempo para estar doente.

Quando as mães estão doentes os pais continuam a trabalhar e as crianças continuam a precisar de jantar, de tomar banho, de ir à terapia da fala e de levar lanche para o colégio.

Quando as mães estão doentes as crianças continuam a fazer chichi na fralda, a mamar de três em três horas e a querer ouvir as músicas do Panda enquanto treinam coreografias que metem taças, chaleiras, jipes e muito “style”.

E as mães agarram-se aos comprimidos, melhores amigos de ocasião, e lá se vão arrastando de pijama pela casa, arrumando aqui e ali, brincando como podem enquanto a sopa para o jantar cozinha na panela e a Xana Toc Toc canta não sei quê sobre um papagaio trapalhão. À noite, quando todos em casa dormirem, as mães hão-de beber um chá, de pé, encostadas à bancada da cozinha, e a cada gole quente lembrarão, cheias de nostalgia, os tempos em que tinham tempo para estar doentes.

 

Photo by BRUNO CERVERA on Unsplash

1 marido causa 10 vezes mais stress à mulher do que 3 filhos juntos

Cada casal é um mundo, tal como cada família.

Numa família ideal os adultos deveriam apoiar-se mutuamente e contribuir em partes iguais na criação e educação dos filhos. No entanto, sabemos que em muitos casos a realidade não é esta. Infelizmente, em muitas casas a mulher tem de assumir a responsabilidade da casa e da educação dos filhos.

E assim, um marido causa muito mais stress à mulher do que os próprios filhos.

Este foi o resultado de uma pesquisa publicada no Today Moms, realizada nos Estados Unidos com mais de 7.000  mães e que comprovou que os maridos geravam 10 vezes mais stress do que os filhos. 46% das mulheres inquiridas confirmaram que os maridos eram o seu maior gerados de stress, e não os filhos.

As expectativas não cumpridas das mães

Uma parte das mulheres da pesquisa, referiram que os maridos lhes davam “mais trabalho” do que os filhos. Que os filhos não lhes davam tantas dores de cabeça, mas as atitudes infantis dos seus parceiros é que incomodavam e desorientavam muito.

Algumas também se queixaram de que os maridos não ajudavam o mínimo com as tarefas de casa. Esta situação provoca um sobrecarregamento de um dos elementos do casal, podendo vir a desencadear a longo prazo, exaustão, depressão, esgotamento, entre outras. Tal como a privação de sono, a privação de tempo para si própria, é a chave para manter a mente saudável.

Certamente nem todas têm a sorte de ter um marido que participe ativamente nas  tarefas da casa e na educação dos filhos.

No entanto, é provável que estes estudos também incidissem sobre as expectativas das mulheres inquiridas. Por exemplo: é expectável que uma criança tenha um acesso de raiva, uma birra passageira, mas não é expectável que um adulto se comporte com uma criança.

Agir como outra criança que precisa de atenção é um dos fatores que dá pontos extras aos homens da casa. As participantes do estudo alegaram que depois de um dia inteiro de trabalho, a preocupação com as crianças e as tarefas de casa, acaba por não sobrar tempo nem disposição para se dedicarem ao marido. Isto resulta normalmente em falta de compreensão – de ambos os lados.  “É previsível que uma criança não entenda certas coisas, mas esperamos compreensão e paciência de nosso marido”.

Conclusão

Quando a pessoa fica aquém da expectativa do parceiro, não só provoca desilusão mas também frustração no outro. Estas energias negativas aumentam o stress do dia-a-dia e podem vir a ser a gota d’água de uma relação.

Pais acreditam que já fazem o suficiente e exigem mais reconhecimento

Curiosamente, noutra pesquisa realizada pelos mesmos investigadores com 1.500 pais, metade considerou que partilhava a educação e criação dos filhos com as respetivas mães das crianças.

O estranho foi constatar que das 2.700 mães inquiridas, 75% afirmaram que cuidavam sozinhas das crianças.

Muitos pais mostraram-se incomodados por serem considerados uma parte secundária da família. Dois terços dos pais disseram que gostariam que o seu esforço e trabalho fossem reconhecidos de vez em quando, nem que fosse com palavras de incentivo.

Este estudo revela que existe um problema de comunicação e de expectativas mal ajustadas em muitas (quase todas) as casas.

Alguns pais acreditam que fazem o suficiente e que não são reconhecidos, enquanto as mães acham que eles não fazem o mínimo.

De quem é a culpa?

Excluindo os casos em que um dos pais realmente não se envolve nada na criação dos filhos, o certo é que a paternidade é stressante e muitas vezes é mais fácil atribuir responsabilidade do nosso mau humor ou a nossa incapacidade para administrar a agenda quotidiana da família, a outro adulto.

Manter um relacionamento de casal também requer uma boa dose de trabalho. Frequentemente, as mulheres exigem muito de si próprias, acumulando as tarefas de ser mãe, mulher, filha e amiga perfeitas. Esta tensão em satisfazer a todos acaba por ser demais.

Mas é muito importante procurar a causa desta insatisfação, porque, obviamente vai acabar por afetar o relacionamento do casal.  Na verdade, os estudos concluíram que um casamento stressante é tão mau para a saúde como o fumo. Que aumenta as probabilidades de sofrer uma doença cardiovascular, tanto nos homens como nas mulheres.

Um estudo recente em 300 mulheres suecas concluiu que o risco de sofrer um enfarto multiplica-se por três quando estas vivem casamentos conflituosos.

Qual é a solução?

Nove em cada dez casais reconhecem que a sua relação piora com o nascimento do primeiro filho. Em qualquer caso, para evitar que um seja sobrecarregado de tarefas e desenvolva níveis de stress muito elevados, é importante que a comunicação flua em todos os momentos e em ambas as direções.

Portanto, pais e mães ficam as dicas:

  • Peça diretamente ao seu marido/mulher o que precisa, quando precisa e explique por que precisa. Não fique à espera lhe leiam os pensamentos. Não vai acontecer.
  • Não tente assumir/não assuma todas as tarefas. Não tem de provar nada a ninguém. Demonstre amor aos seus filhos todos os dias, isso já basta.
  • Fale com seu parceiro sobre os seus medos, inseguranças e insatisfações. Isso os tornará mais seguros e confiantes. Deixe claro o que espera dele/dela, sem recriminações.
  • Muita calma nos momentos de stress. Cabeça no lugar, inspira, expira, conta até 5 antes de responder.
  • Pensar sempre, mas sempre em primeiro lugar nos miúdos!

 

Publicado originalmente em The Huffington Post – Tradução e adaptação: Portal Raízes, adaptado por Up To Kids®

A minha mãe fez anos.

E nesse dia eu vi-lhe as marcas na pele, a curvatura nas costas, os cabelos cada vez mais brancos. No dia em que fez anos ouvia-a dizer que tem dores, vi as articulações dos dedos que começam a deformar e percebi que aquela mulher, que antes passava a vida a correr, agora caminha devagar.

A minha mãe fez anos.

E nesse dia eu tive saudades do rosto sem óculos, das mãos sem rugas e dos cabelos muito pretos. No dia em que fez anos lembrei-me de como me fazia sempre um ditado no final dos trabalhos de casa, porque essa era, segundo ela, a melhor forma de aprender a escrever sem erros. No dia em que fez anos recordei a mulher que sempre me pareceu forte e disponível, que cuidou dos meus avós até ao último dia e parecia nunca estar doente.

A minha mãe fez anos.

E nesse dia eu vi o rosto dela quando soubemos que a minha avó tinha partido. Lembrei-me do choro baixinho e contido e do abraço que me deu enquanto o corpo dela tremia. Antes de sermos mães somos filhas. E no dia dos anos da minha mãe eu senti um medo terrível. Senti medo do dia em que for eu a filha que perde a mãe.

O tempo é demasiado veloz.

A minha mãe que ontem carregava o mundo nos ombros tem quase setenta anos. E eu tenho medo de não lhe dizer vezes suficientes que a amo, tenho
medo que ela não saiba que me reconheço em cada bocadinho dela e que, mesmo quando a despacho ao telefone para poder cuidar dos meus filhos, o meu amor por ela é infinito. E recuso-me a imaginar que um dia possa ter que me despedir.

Sou mãe. Primeiro fui filha.

Nunca gostei da expressão “mãe a tempo inteiro”.

Por um lado parece-me que subestima as mães que não trabalham fora de casa que, de repente, mais não são que os corpos que deambulam sem vontade própria de divisão em divisão da casa com biberões em punho e crianças ao colo.

Por outro lado fico sempre com a sensação de que as mães que trabalham fora de casa são como que excluídas da maternidade incondicional, quase como se fossem um bocadinho menos mães que as outras. Ora mãe é mãe. Sempre. Longe ou perto.

A trabalhar ou em casa.

Não se deixa de ser mãe quando se fecha a porta de casa.

E nessa medida somos todas “mãe a tempo inteiro”. Porque tempo nem sempre significa presença.

Durante os últimos cinco anos tive a sorte de não estar nem num extremo nem no outro no que à definição de “mãe a tempo inteiro” diz respeito. Sempre trabalhei mas com horário flexíveis que sempre me permitiram ir buscar os meus filhos à escola, almoçar com eles, acompanhá-los quando doentes, convidar amigos lá para casa ou vê-los partir na camioneta nos passeios escolares.

Ao mesmo tempo, tive tempo e oportunidade para continuar a explorar as minhas outras facetas e papéis sociais. Cresci muito profissionalmente. Ser mãe ajudou-me até a agarrar novos desafios e a desenvolver novas ideias.

Na mesma medida em que ser mãe me ajudou a ser melhor profissional. Ter um desafio profissional ajudou-me a ser uma mãe mais feliz. Um equilíbrio perto do perfeito (perto porque a vida não é, e ainda bem, perfeita).

Em Portugal são muito poucas as mulheres que têm esta possibilidade.

É o regime do “sim ou sopas”: ou trabalhas e definem-te como um bocadinho pior mãe que mal vês os filhos durante a semana, ou não trabalhas e levas com o rótulo da mulher pouco interessante que se refugiu na maternidade.

São muitos os bons os exemplos vindos dos países nórdicos onde as mulheres são chamadas ao mercado de trabalho sem que isso estrangule a vida familiar. E que bom seria que os pudéssemos replicar  no nosso país sem olhares reprovadores.

Estou certa de que não estou sozinha nesta vontade.

Se não nos empurrarmos, se não nos boicotarmos umas às outras – ora porque estas mães que não trabalham acham que tenho a vida delas e que posso preparar bolos caseiros para o lanche para os miúdos, ora porque aquelas mães priorizam o trabalho e mal conhecem a professora dos filhos – podemos ser todas mães na nossa mais incondicional forma de o ser. Longe ou perto. Porque lá está: mãe é mãe. Sempre. Eu diria mesmo: a tempo inteiro.