A escola quer-se um lugar onde os nossos filhos estejam e sejam felizes

“You can be the greatest , You can be the best” – Hall of Fame, The Script

As piolhas terminaram mais um ciclo de escolaridade. Com sucesso. No próximo ano letivo irão frequentar o 3º ciclo de escolaridade, numa escola secundária pública.

Mais um ciclo que se fechou, que se completou. E mais uma vez contra as expectativas e vozes de velhos do restelo que ouvíamos, fechámos um ciclo com sucesso. Sem mais nem menos do que com o recurso ao que a lei prevê para situações como as das piolhas.

Não é facilitismo!

Eu trocava já, na hora com quem quisesse, a necessidade de “ao abrigo das alíneas x y z do Decreto-Lei 54 de 6 de julho de 2018”.

Não é favoritismo!

Um aluno com necessidades específicas requer respostas igualmente específicas e adaptadas à sua realidade, às suas competências, entre outros, de forma a colmatar as suas dificuldades e ter sucesso.

Não é privilégio!

É um direito, é o usufruir dos direitos que os vários decretos, portarias e despachos normativos – e, em última grande instância, a Constituição – preveem, sem retirar direitos a ninguém, nem usar mais do que aquilo que está previsto e salvaguardado.

Não é uma competição!

Apesar das suas notas incríveis e níveis altos, quando surgia um 51%, a minha reação era a mesma “parabéns, miúda! É só um teste, não é o espelho dos teus verdadeiros conhecimentos, não mostra o trabalho/tempo/estudo que dedicaste. É positiva. Melhorará numa próxima vez.

Não é dopping!

Não há nenhuma pílula milagrosa ou medicamento para a inteligência, o trabalho, o esforço, a dedicação.

Não é influência de ninguém!

Os pais, os professores, a lua, o sol, não têm influência nas notas a atribuir. São o que são, de acordo com os critérios aprovados. Não há notas inflacionadas nem notas mendigadas nem notas forretas.

Muitos foram os que duvidaram: saberiam um dia escrever? saberiam um dia ler sem ser por associação pictórica? conseguiriam um dia resolver os mesmos exercícios abstratos que os pares também realizavam? conseguiriam um dia andar de bicicleta? teriam um dia uma aula de educação física sem saltarem à vista comprometimentos motores e de equilíbrio? teriam um dia redução de horas de terapia de fala?

Mas, muitos foram também os que acreditaram.

E que nos ajudaram em todo este caminho árduo. E que estarão sempre do nosso lado, mesmo que a acompanhar-nos à distância.

Como também costumo dizer muitas vezes, parafraseando a personagem Locke, da série “Perdidos”: “Não me digam o que não consigo fazer!

Ergo o meu copo (com uma qualquer bebida lá dentro) e digo bem alto “Cheers!” porque, contra todas essas vozes, contra muitas estatísticas, com e sem apoio, com quem sempre acreditou em nós, chegámos mais longe, fomos mais.

Brindemos às piolhas, essas miúdas incríveis!

E, para terminar, pasme-se – até porque sou professora de profissão e adoro o que faço – que eu não dê a importância exacerbada às notas que seria suposto.

Que não veja a escola como único local de aprendizagem e que encare a escola como algo muito mais que aulas e avaliações. A escola quer-se um local de várias aprendizagens, a vários níveis, com vários intervenientes (professores, assistentes operacionais, assistentes técnicos, alunos, pais). A escola quer-se um lugar onde os nossos filhos estejam e sejam felizes.

Isso, para mim, vale muito muito mais do que qualquer número marcado numa qualquer pauta.

Agora, venham as férias em pleno. Para setembro, há mais.

Os livros atuam na criança aos mais diversos níveis.  São versáteis e servem muitas funções, mas não são mágicos. Há que fazer um trabalho continuado para que os livros e tudo o que transmitem possa fazer sentido à criança e não apareça na sua vida como um pop-up sem contexto. Os livros transmitem muitas mensagens e, na maioria das vezes, até são diferentes de criança para criança. Por isso é preciso dotá-las de capacidades para a exploração completa de um livro e não o reduzir simplesmente à mensagem que nós achamos ou queremos que este passe.

Uma história por dia nem sabe o bem que lhe fazia.

Apesar do trocadilho, é bem verdade. Só ao ler, ouvir e explorar muitos, diferentes e bons livros as crianças conseguem retirar deles todo o seu potencial.

“Um livro é um brinquedo feito com letras. Ler é brincar.” (Rubem Alves).

O convívio diário com os livros nas suas diversas formas, como brinquedo, como objeto lúdico traz benefícios a vários níveis. Alargamento do vocabulário, promoção da empatia, e desenvolvimento do sentido crítico. Promove o aumento da concentração, do conhecimento do mundo e da gestão das emoções.  Aumenta a capacidade de imaginação e de outras dimensões da criança e do ser humano em geral. É importante ensinar aos nossos filhos o poder dos livros.

Acredito que o prazer na leitura. A consciência da sua importância é das ferramentas mais poderosas que podemos deixar na “caixa de ferramentas” das crianças. Para tal é importante que os adultos que fazem parte das suas vidas deem eles próprios o devido valor aos livros, uma vez que as crianças aprendem sobretudo por imitação.

Dar “acesso livre” aos livros e não os guardar como objetos preciosos que só podem ser manuseados com cerimónia é outra estratégia a ser adotada.

Por fim o que mata o gosto pela leitura é, entre outras causas, o facto de um livro ser apresentado como obrigação. (Alice Vieira)

Perturbação de aprendizagem não verbal

Já ouviu falar?

É uma dificuldade ainda pouco conhecida, mas existe.

Há crianças que leem bem e escrevem de forma correta.

Revelam uma boa capacidade de memória.

Falam bastante e, muitas vezes, numa idade ainda precoce, mostram-se muito curiosas fazendo muitas perguntas, o que os leva a serem vistos como crianças com grande capacidade de aprendizagem.

Mas, com o tempo, revelam dificuldades de compreensão, expressão e relacionamento social.

Por exemplo, leem um texto, mas têm dificuldade de resumir o essencial, de realçar o mais importante.

As ironias, ou a expressão corporal são “pedras no sapato”, tão difíceis de entender, que se transformam num obstáculo a novas amizades e ao bom relacionamento social.

Sinais a ter em atenção:

RACIOCÍNIO LITERAL

Crianças com perturbação de linguagem não verbal tendem a encarar tudo de forma literal.

Um adulto, já universitário, confessou-nos que passou muito tempo em criança assustado com a possibilidade de um dia ser deixado sozinho na linha do comboio, tudo porque, quando se portava mal, a mãe dizia-lhe: “vou-te pôr na linha”. Este tipo de compreensão à letra é próprio de quem tem dificuldades ao nível da linguagem não verbal.

A expressão corporal é outro desafio. Um sorriso nervoso, num meio de uma conversa triste, pode levar uma criança com perturbação de linguagem não verbal a rir à gargalhada porque não entende o peso do sinal que lhe foi transmitido.

Uma dificuldade que contribui, muitas vezes, para que estas crianças sejam geralmente muito dependentes dos pais, precisamente porque sentem grandes dificuldades em relacionar-se com os pares.

DIFICULDADES MOTORAS:

Problemas de coordenação e de movimento são comuns.

Geralmente estas crianças e adultos passam a ideia de “desajeitados”. Recortar um desenho com uma tesoura, por exemplo, ou até mesmo andar de bicicleta podem ser tarefas difíceis.

RELAÇÃO ESPAÇO-VISUAL:

Apesar das dificuldades de relacionamento que apresentam é comum estas crianças manterem-se demasiado perto da pessoa com quem comunicam. O que se justifica com a dificuldade que têm em relacionar o que veem com o espaço em que estão.

Pela mesma razão é bastante habitual que recordem facilmente o que ouviram, sem que o consigam relacionar com o que viram.

NA ESCOLA:

Devido à dificuldade em compreender conceitos mais abstratos são alunos geralmente com dificuldades ao nível da matemática, sobretudo na resolução de problemas com uma componente que exija uma compreensão escrita.

O que está na origem do problema e como procurar ajuda?

Por enquanto não se sabe ao certo que disfunção no cérebro provoca o Perturbação da Aprendizagem Não Verbal. Não há por isso um tratamento para o problema, mas é possível encontrar estratégias que o permitam superar da melhor forma.

Com a idade os sintomas tendem a ser mais evidentes. As crianças geralmente percebem que entendem o que os rodeia de uma forma diferente dos restantes amigos ou colegas de escola. Sem ajuda poderão desenvolver problemas de ansiedade, que no limite podem levar a comportamentos compulsivos.

Procure a ajuda de um especialista.

Um psicólogo educacional ou um psicopedagogo, será capaz de traçar uma estratégia que passará sempre por identificar quais são as maiores dificuldades do seu filho e as competências em que revela maiores potencialidades.

A intervenção envolverá sempre os pais, que querem ajudar os filhos, mas muitas vezes sem saber como o podem fazer.

Um especialista, dar-lhe-á instrumentos para que o dia a dia possa tornar-se mais fácil. Há truques de linguagem que podem, de forma imediata, levar o seu filho a sentir-se mais compreendido. O apoio especializado ajudá-lo-á também a fazer a ponte com a escola, com indicações que podem facilitar a abordagem dos professores.

Acima de tudo não desanime, ao tentar resolver um problema estará também a permitir que o seu filho descubra o que tem de melhor, uma aprendizagem que terá boas recompensas no futuro.

Dificuldades de aprendizagem na criança

Quando falamos do encaminhamento de dificuldades de aprendizagem, muitas vezes surgem dúvidas sobre a necessidade de psicomotricidade, ou qual o seu sentido. Afinal, o que estamos a dizer é que a criança não consegue ler, escrever, somar, subtrair ou decorar…

O que é que o corpo dela tem para estar relacionado com estas dificuldades?

Dificuldades de aprendizagem

Antes de passar para a analisar esta questão, sinto que é importante falarmos um pouco das dificuldades de aprendizagem em si… As dificuldades de aprendizagem, ou DA, são palavras tantas vezes ouvidas na escola, em relatórios médicos ou ditas por pais sobre crianças que tiveram más notas no teste de inglês, na ficha de leitura ou no exame de matemática. Mas na realidade, as dificuldades aprendizagem são uma área muito mais específica, alvo de inúmeros estudos, definições e de uma complexidade enorme.

Quociente de Inteligência

Parte do problema que faz a definição desta área tão difícil é o ensino e a aprendizagem de hoje estarem tão centradas no chamado Quociente de Inteligência (QI), fazendo com que muitas crianças que realmente têm DA se vejam privadas de apoio, por terem um QI dentro do esperado, e por outro lado, existirem encaminhamentos orientados como DA, quando na realidade existe uma dificuldade cognitiva maior, ou um diagnóstico ou síndrome escondido por trás de uma dificuldade específica. É importante compreender: uma criança apenas com DA é uma criança que tem dificuldade a aprender e apresenta resultados escolares mais fracos, apesar de nada no seu QI indicar que isso fosse expectável.

Assim, e apesar da sua definição estar constantemente a ser debatida e atualizada, podemos ver as DA como um grupo variado de desordens que se refletem em dificuldades significativas, tanto a aprender, como a utilizar o seu conhecimento, ao nível da compreensão auditiva da fala e leitura, da escrita e do raciocínio matemático. Estas dificuldades são da criança e estão no fundo relacionadas com uma disfunção do sistema nervoso central. É importante compreender que, apesar das DA estarem presentes em crianças com outras deficiências ou síndromes, não são o resultado das mesmas.

Tendo isto em conta, é importante ter em atenção que as dificuldades de aprendizagem são um campo efetivamente largo, levando a que cada criança apresente comportamentos ou um perfil diferente. Ainda assim, existe um conjunto de sinais psicomotores que costumam estar presentes nestas crianças, levando a que a intervenção psicomotora tenha interesse para estas crianças.

As dificuldades de aprendizagem e o sistema nervoso central

Como vimos, as DA derivam de uma disfunção ao nível do sistema nervoso central. Ora, se pensarmos, a maturação do sistema nervoso central parte do nosso desenvolvimento motor, inicialmente, passando este a ser integrado a partir do momento em que vamos crescendo e vamos sendo capazes de dar significado e de integrar novas aprendizagens. Assim, as crianças com DA têm muitas vezes dificuldades em controlar o seu tónus – tensão muscular permanente – alternando entre movimentos impulsivos e descontrolados, com uma postura completamente oposta, de quase ausência de movimento. Ao não controlarem o seu corpo na base, têm também dificuldades ao nível do equilíbrio, provocando que o seu referencial de aprendizagem não seja fixo, e dificultando ainda mais a aprendizagem.

Estas alterações na maturação do sistema nervoso central fazem como que os próprios referenciais de organização no espaço sejam percebidos de forma diferente, o que se reflete em sinais tão simples como distinguir letras ou números que sejam parecidos (como o “q” e o “p” ou o 6 e o 9).

O próprio corpo desta criança começa a ser sentido pela mesma como um corpo com dificuldades, não capaz, baixando a sua auto-estima e diminuindo a sua disponibilidade para a aprendizagem. E mesmo o movimento, tanto global, como fino, são afetados por todas as questões de base que já falámos.

E nisto, a psicomotricidade pode aparecer como uma ajuda.

Se a criança com DA tem dificuldades ao nível da percepção da informação, da memória, atenção, organização e retenção da mesma e da sua expressão, o uso do corpo pode ser essencial nas várias fases do processo ensino-aprendizagem. Com o nosso corpo podemos fazer letras, em vez de olharmos apenas para elas. Com as nossas mãos podemos contar pequenas argolas ou fazer bolas de plasticina e derrubar pinos, percebendo a noção de quantidade e relacionando com o número, em vez de olhar apenas para cadernos e ardósias. Podemos usar legos para construir palavras e tintas para memorizar sequências. Podemos usar o corpo e os materiais tanto na percepção do meio que nos rodeia, como em estratégias de chamamento e em formas de expressão.

Assim, e numa avaliação dinâmica e transdisciplinar, compreendendo a origem das dificuldades, podemos com a psicomotricidade encontrar estratégias que nos permitam ultrapassar-nos. Damos desta forma às crianças com DA uma igualdade de oportunidades para elas aprenderem, segundo o que lhes faz sentido, para que elas possam crescer, aprender e também ensinar.

A importância de ouvir as nossas crianças

Hoje trago-vos um tema um pouco diferente, que sai um tanto de dentro do nosso espaço terapêutico e abre antes as portas da sala de aula e da escola, mostrando a importância que tem escutarmos as nossas crianças no seu processo de ensino e de aprendizagem.

Mas antes de chegarmos à voz delas, importa compreender alguns conceitos primeiro.

O processo de ensino

Em primeiro lugar temos de compreender que o processo de ensino e aprendizagem não é algo tão linear e direto como poderia parecer. Numa primeira visão, temos um aluno, receptor, que escuta uma fonte de conhecimento, sendo ela o professor. No entanto, esta é uma visão unidirecional e que não reflete assim tanto o que realmente acontece numa sala de aula.

O espaço/local de aprendizagem

A sala de aula, ou escola, ou mesmo em casa e ainda a terapia, são espaços compostos por indivíduos, com as suas próprias características e oportunidades de intervenção.  No caso da escola, temos os professores, com as suas próprias características cognitivas e afetivas e com os seus atos pedagógicos e currículo para aplicar. Por outro lado, temos a criança, que tem também as suas próprias características afetivas e cognitivas, e que tem as suas necessidades de participação e as suas manifestações comportamentais.

Ou seja, temos efetivamente o professor que pretende ensinar, mas depois temos de ter em conta um conjunto de processos mediadores socioafetivos, cognitivos, motores, emocionais, até se chegar à aprendizagem da criança.

Características e envolvente

Estas características, tanto da criança, como do professor, ou do espaço e do próprio currículo podem levar a situações de maior stress ou de questionamento, sendo que algumas características podemos alterar e trabalhar, mas outras não. Ou seja, podemos mudar uma criança de lugar caso ela não consiga ver o quadro, mas dificilmente conseguimos alterar um diagnóstico que traga, ou o seu envolvimento social e económico.

Mais importante ainda, temos algumas questões que são visíveis e que reparamos logo, como por exemplo a criança ter uma cadeira de rodas, ou não vir asseada de casa, ou mesmo chegar notoriamente com fome; mas há questões que não são visíveis, que continuam a ser de extrema importância, como a briga que a criança assistiu antes de chegar à escola, ou a medicação que tem de tomar, algum diagnóstico relacionado com o seu comportamento, ou mesmo uma dificuldade que tenha na aprendizagem, e que se sinta inibida de dizer.

Neste caso, nós, enquanto adultos ou professores, temos várias escolhas.

Ser diretivo ou ouvir as crianças

Podemos optar por um processo mais fechado em que não partilhamos objetivos, em que decidimos tarefas e tempos, em que somos diretivos e em que decidimos tudo. Ou por outro lado, podemos optar por ouvir o que as crianças têm a dizer sobre as suas próprias histórias, dificuldades ou formas de alcançar os objetivos propostos.

Esta escolha, que não é linear e que não se situa no preto ou no branco, pode ser vista como uma opção por levar a criança a ser o foco do processo de ensino e aprendizagem, aumentando a sua motivação para a escola ou para a aprendizagem, e ainda tornando a mesma significativa para ela.

Criar objetivos em conjunto com as crianças

Assim, partilhando com a criança os objetivos que pretendemos que esta alcance e partilhando a tomada de decisões neste processo de ensino e aprendizagem, temos a oportunidade de apresentar tarefas que são mais desafiantes e diversificadas. Oferecemos opções de escolha e promovemos a autonomia e liderança da criança dentro do seu próprio desenvolvimento. Por outro lado, temos um processo de feedback que é individualizado e não por comparação. Aqui a própria criança também pode entrar e permite que o professor, pai, auxiliar ou terapeuta vão, junto com a criança, ajustar os objetivos intermédios e atividades consoante as suas próprias capacidades e necessidades.

Claro que este processo é um desafio, e claro que muitas vezes as próprias infraestruturas ou sistemas colocam em causa esta alteração. Mas pensemos, serve de muito pouco ensinar uma criança a escrever, se ela não vir a possibilidade que tal abre para a criação das suas próprias histórias. Serve de muito pouco aprender os números se a criança não conseguir contar as suas conquistas. E serve de muito pouco mandar uma criança sentar-se e calar-se, quando falamos do seu caminho e da sua história.

Por isso, fica o desafio:

Que consigamos ultrapassar-nos e ouvir as nossas crianças sobre algo que nos interessa mutuamente, o seu crescimento.

 

Image by mozlase__ on Pixabay 

Esta é uma página do diário da Luísa. A Luísa tem dislexia.

“Quinta feira, Março

“Desligrar”.

Hoje desliguei o alarme ao primeiro toque mas estava cá com uma preguiça para me levantar da cama… Na verdade, não sei bem se era preguiça ou se não queria mesmo levantar-me da cama. É que desde que começou o ano que oiço comentários dos meus colegas sobre a minha leitura: “Estás a ler muito devagar!”, “Não é assim que se lê essa palavra!”, “Estás a fazer uma pergunta ou uma exclamação?”… Às vezes, só de pensar que tenho de ir para a escola dá-me um aperto no estômago. Que stress!

Às 9:30 tive aula de revisões de Geografia.

O professor tinha-nos dito que o trabalho de casa de ontem era muito importante para nos prepararmos para o teste que é já amanhã. Eu tentei acabar o trabalho de casa mas demorei tanto tempo que só consegui ler alguns parágrafos. Como se não bastasse, no fim acabei por não perceber o que tinha lido. Na aula, ouvi com atenção o que o professor estava a dizer e até tirei alguns apontamentos mas nem eu própria conseguia perceber o que tinha escrito. Não vai ser fácil o teste de amanhã…

10:20, aula de Matemática.

Eu gosto das aulas de Matemática menos de resolver problemas. Demoro uma eternidade a lê-los. E quando tenho de retirar os dados mais importantes e decidir o que fazer com eles é difícil. Faço sempre os mesmos erros quando os estou a resolver: ou troco os algarismos ou não sigo os passos como dever ser. Quando vou a escrever a resposta… Erro! Mesmo tendo percebido o que era para fazer…

Eram 12:30 e tinha chegado a hora do almoço.

Almocei rapidamente porque ainda queria estudar o vocabulário de Inglês que vai sair no próximo teste e às 13:00 tinha apoio extra de Português. Eu olhei para os cartões com as palavras em Inglês, insisti, tentei outra vez, mas parecia que estava a vê-las pela primeira vez. E o mesmo acontece para as outras disciplinas. Mas porque é que eu não consigo fixar as palavras na minha memória?

A aula de Inglês começou às 14:00.

Esta foi a pior! Se eu tenho dificuldade em ler e escrever em Português, como é possível eu conseguir ler e escrever numa língua diferente, com outras regras? Mais… todos tínhamos de ler em voz alta! Quando pensei que a professora me ia chamar para ler, inventei uma desculpa e saí da sala.

Às 14:50 tive aula de Piano.

Adoro tocar piano, é o que eu mais gosto de fazer na escola. É difícil ler as pautas das músicas, mas consigo aprender a tocá-las de ouvido. Sinto-me feliz quando as pessoas dizem que eu toco muito bem piano! Mas estou preocupada porque se eu precisar de mais algum apoio extra só existe este horário e se eu não puder tocar piano a escola será um desastre total! Terminaram as aulas, começaram as mensagens no grupo do whatsapp. Demorei imenso tempo a decifrar as abreviaturas que os meus colegas estavam a utilizar. E quando ia a responder a uma mensagem, já a conversa tinha acabado…

Eram 20:30 e eu ainda estava a escrever um texto de Português no computador.

A minha ortografia não é boa por isso utilizei o autocorretor. Rever os textos também não é fácil, não me apercebo dos erros, então os meus pais leem sempre o que eu escrevo depois de acabar. Depois do jantar, fui jogar computador. Às vezes, os jogos são o meu “escape”.

Já é tarde, 22:30, e estou cansada mas enquanto jogo esqueço.

Amanhã tenho um longo dia pela frente.”

A menina que sabia usar o coração… | Chiado Books | De Persica Autora – Isabel Leal

Sinopse

Era uma vez uma menina que tinha perdido o coração… Era uma vez uma menina que não sabia onde tinha o coração… Era uma vez uma menina que sabia usar o coração. Sim sabia que onde punha o coração há um som mágico, um sorriso, o som de um golfinho ou um abraço do seu melhor amigo.
Este conto infantil feito para grandes e pequenos quer lembrar a todos como se usa o coração para que a vida seja mais alegre, bonita e bem vivida. Joana e Rui vão de mãos dadas consigo mostrar como se faz.
Deixe-se contagiar por esta bela história que de tão simples que é entra sem pedir licença e mostra que os sentimentos do coração são os mais puros, mais infantis mas os mais fortes.

Um livro para toda a família

Este livro destina-se a incentivar o tempo de leitura em família dedicado aos mais pequenos antes de dormir. Encerra um conto infantil, uma meditação infantil, um artigo sobre arte terapia – teatro e os seus benefícios, um artigo que explica como organizar, ensaiar e encenar uma peça com os mais pequenos e uma adaptação para teatro do mesmo conto.
Tire partido da adaptação da peça de teatro para brincar a sério em casa ou na escola. Viaje com a Joana e o Rui nas diversas possibilidades que este trabalho lhes oferece!

Peça de teatro

a menina que sabia usar o coração

Huawei usa inteligência artificial para ajudar crianças surdas a aprender a ler

E se o seu filho não conseguisse ouvir?

Aprender a ler é um processo difícil e demorado para a maioria das crianças. Por isso, quando os nossos filhos começam a aprender a ler, gostamos de incentiva-los a ler em voz alta. Porque sabemos que conseguir ouvir-se a ler as palavras e transformar silabas em sons, tem um papel de extrema importancia nesta evolução.

Fazer a união da língua falada com a língua escrita.

Agora imagine que o seu filho não consegue ouvir. Como será a aprendizagem da leitura de palavras escritas e a tradução imediata para língua gestual?

Para uma criança surda que já domina a língua gestual aprender a ler é como aprender uma outra língua. O grau de dificuldade é grande. O processo é ainda mais complexo e demorado do que para uma criança sem quaisquer problemas auditivos.

Estas crianças não estão diariamente a ouvir o som das palavras. Não ouvem os pais a ler-lhes histórias. Não ouvem o som dos brinquedos didácticos que repetem vezes sem contas os nomes das cores, ou dos números, enfatizando a silaba tónica sempre que se carrega num botão.

Estas crianças precisam da visão para ver e ouvir em simultâneo.

A maioria de nós, pais, nunca pensou nisso.

É importante aumentar a consciencialização sobre a questão da alfabetização das crianças surdas. É importante criar empatia e compreensão pelos desafios enfrentados em conjunto com as suas famílias.

A pensar nestas questões, a Huawei veio a desenvolver um projeto diferente e inovador. Um utilitário que vai fazer com que também os meninos surdos possam ouvir histórias antes de ir dormir.

StorySign, a app que vai ler histórias às crianças surdas

StorySign é a app gratuita desenvolvida pela Huawei que usa a inteligência artificial para interpretar em língua gestual livros infantis previamente selecionados.

Como funciona?

1º  Abrir a aplicação e clicar num dos livros disponíveis na biblioteca do StorySign. (Deverá ter uma cópia física do livro para que o StorySign possa fazer a sua magia e contar esta história em língua gestual portuguesa.)

2º. Segura o telemóvel na vertical sobre as palavras na página e a Star, a avatar tradutora, conta a história em língua gestual, enquanto as palavras escritas são realçadas. Assim a criança consegue de forma simples associar gestos e palavras de forma a facilitar a aprendizagem da leitura mantendo o seu próprio ritmo.

Star

A Star é a avatar, criada para traduzir os livros para língua gestual. Foi desenvolvida pela Aardman Animation, recorrendo a tecnologia avançada de captura de movimento, para garantir que a expressão facial e as mãos da Star comunicam em língua gestual perfeita. Assim, todas as crianças surdas e ouvintes vão adorar “ouvir” a Star a contar histórias.

 

A aplicação StorySign está disponível gratuitamente para Android através da Google Play Store e Huawei AppGallery, em dez línguas gestuais (inglês, francês, alemão, italiano, espanhol, holandês, português, irlandês, flamengo da Bélgica e alemão da Suíça).

Para a apresentação da app, a Huawei lançou o emblemático livro “Onde está o Bolinha?” de Eric Hill, que já se encontra disponível gratuitamente em Portugal.

O StorySign é apoiado por associações de caridade por toda a Europa, incluindo a União Europeia dos Surdos. Assistido pela Inteligência Artificial da Huawei, desenhado pela Aardman Animations e com livros clássicos infantis da Penguin Random House.

 

O mérito, o valor e a excelência foram convidados para a festa do ano.

Vestiram-se a rigor, puseram no rosto o seu melhor sorriso e dançaram juntos ao som de Freddie Mercury, antes de sair de casa.
Ao chegar à escola, sentiram-se ainda mais especiais. Tudo estava tão mais bonito! As flores enfeitavam o auditório, as luzes acesas iluminavam o palco. A toalha azul, a mesa de café e chá e uns rolinhos brancos com fita de cetim muito alinhados, faziam adivinhar o que de tão importante lá traziam escrito.

Todos se endireitavam, imponentes, de mãos atrás das costas para os receber: a equipa de direção, os professores, os pais e uii… imagine-se, até o presidente da câmara lá estava.

O mérito, o valor e a excelência ficaram envergonhados com tal acolhimento mas encheram o peito de orgulho por ali terem sido chamados.

À medida que a cerimónia avançava, anunciavam-se os nomes da lista dourada. Os meninos e as meninas subiam ao palco, debaixo de aplausos. Os pais, de pé na plateia, não cabiam em si de contentes. Por entre flashes de telemóvel e braços no ar, via-se uma ou outra lágrima de emoção.

O mérito, o valor e a excelência distribuíam abraços e assinavam contentes os diplomas dos alunos premiados que, assim que podiam, fugiam outra vez para os braços da família.

E mesmo no momento em que começavam a habituar-se a tão especial missão, o mérito, o valor e a excelência perceberam que os rolinhos brancos com fita de cetim haviam chegado ao fim.

O mérito, o valor e a excelência: critérios

Mas… quantos alunos tem esta escola?”, perguntou com estranheza a excelência.
“Cerca de 300!”, respondeu alguém prontamente.
“E então onde estão os outros 260?”, devolveu o mérito.
Um silêncio constrangedor tomou conta da sala. Sim, era verdade, naquela escola viviam 260 crianças que ali não tinham cadeira naquela noite.
“Ahãã…” avançou corajosamente alguém:Sabem é que os critérios este ano são apertados. É preciso ter nível 4 ou 5 a todas as disciplinas! Ah, e claro, não ter sido sujeito a nenhuma medida disciplinar…

O mérito, o valor e a excelência olharam confusos uns para os outros e perceberam, finalmente, o que por ali se passava. Não conseguindo disfarçar o natural desapontamento, baixaram os braços, deixaram esmorecer o sorriso, apagar-se o entusiasmo e, abandonaram a festa.

Já em casa e antes de adormecer, tomaram a mais sábia decisão das suas vidas: falar com a organização e propor a revisão dos critérios a concurso. Para o ano bastaria apenas o cumprimento de um, para que se excedessem todos os padrões de mérito, de valor e de excelência: Ser Criança.

E com pós de perlimpimpim, esta história chegou ao fim.

Era só isto, meus senhores. Era com esta história de encantar que hoje vos queria adormecer…

Todos somos mediadores da leitura

Há uns tempos a minha filha foi comprar uma garrafa de água e achou muita graça quando viu escrito no rótulo “és a melhor contadora de histórias mesmo que não saibas fazer as vozes” e claro que a guardou para me presentear com esta bela mensagem!

Adorei, rimo-nos todos, mas deixou-me a pensar.

Muitas vezes, nas minhas sessões com famílias, ou mesmo nas escolas muitas pessoas dizem-me “não tenho jeito para contar histórias”.

Eu sou contadora de histórias e mediadora da leitura por prazer, por vontade e com mais conhecimento, formação e experiência por o fazer profissionalmente. Mas, pais, educadores, professores e todos os adultos que contam histórias às crianças são mediadores da leitura.

Porquê?

Porque constroem pontes entre o livro e o leitor e todos aqueles que facilitam o acesso das crianças e jovens aos livros o são.

Uma das funções de um mediador da leitura é ajudar a ler por prazer, diferenciando a leitura obrigatória da leitura voluntária. Esta é uma tarefa sobretudo para pais, famílias, prestadores de cuidados, professores, educadores e comunidade escolar.

Como pais ou profissionais da educação há que estar atento na hora da escolha dos livros, escolher com critério e ter em atenção para disponibilizar às crianças e jovens livros diversificados e de qualidade. Mas, na hora de contar a história, é muito mais importante o empenho e a vontade com que se conta, o ambiente intimista e de afetividade que se cria, pois são essas as bases das pontes criadas entre o livro e o leitor. Mesmo que não saiba “fazer as vozes”, há que criar momentos de contacto entre a criança, o livro e o leitor, de afetividade e de partilha no dia-a-dia.

Boas leituras!

image@gettyimages