Fecho os olhos e consigo voltar àquele momento, no quarto da maternidade, em que éramos só nós as duas. Tu ainda mal te apercebias do que te rodeava, estavas adormecida como defesa dos estímulos constantes do mundo onde vieste parar… e eu aninhava-te no meu colo e ficava a ouvir-te respirar, a conhecer cada centímetro teu que antes só conhecia nos meus sonhos e nos movimentos que fazias cá dentro.
Passou mais de um ano e meio desde esse dia. Ainda temos este ritual em que te aninhas em mim e eu me deixo levar pela tua respiração… mas os teus olhos estão abertos e espertos e já sabes muito, bastante do que te ensinámos e outro tanto do que foste descobrindo sozinha.
Levas a mão ao peito instintivamente quando há um barulho súbito e declaras “shush”, que é como quem diz “ai que susto”.
Comes sozinha com a colher e a maior parte das vezes dispensas qualquer tipo de ajuda.
Sabes como colocar as fraldas nas tuas bonecas, mesmo que na maior parte das vezes não consigas fazê-lo sozinha.
Andas no baloiço enquanto te empurro, sem que seja preciso segurar-te.
Dizes “tá tá” quando termino de te secar o cabelo, anunciando que “já está”.
Usas a expressão “mais!” como gente grande e sempre no contexto correcto.
Identificas todas as pessoas da família e amigos mais próximos. Sabes que avô ou avó vamos visitar assim que entramos no átrio do seu prédio, percebes perfeitamente com quem falas ao telefone.
Cumprimentas as pessoas (e as árvores, e os cães e muitas vezes até os brinquedos) com um “olá, olá” contagiante.
Chamas quase diariamente a tua prima (“Nô!”) e só descansas quando te mostro a fotografia dela ou quando estão juntas e a abraças com um enorme sorriso nos lábios.
Despedes-te dos teus dois bonecos de estimação que te acompanham nas refeições com um beijinho antes de ires dormir.
Percebes perfeitamente tudo o que te dizemos, mesmo quando finges que não nos ouves.
Não te esqueces de nada nem de ninguém. Se alguém te encontra e cheira as mãos e diz que são muito cheirosas, no próximo encontro és tu quem estica de imediato as mãos para que chegue o elogio.
Tens um amigo de sempre na creche, que conheceste aos quatro meses e meio e é o teu companheiro de brincadeiras. Se o vemos ao longe a encaminhar-se com a mãe para a creche, pedes-me para ir para o chão e segues a correr.
Adoras livros e gostas de os ler e procurar os símbolos conhecidos e descobrir alguns que ainda não te tinham saltado à vista. Gostas de me chamar para que os veja e para que te possas sentar ao meu colo, no puff.
Adoras carrinhos e bolas de futebol e não tens medo nem vergonha de te intrometer no jogo de meninos mais velhos.
Arrumas o que desarrumas.
Cantas.
Ris com os olhos.
Já chegaste muito longe e o teu desonvolvimento encanta-me, surpreeende-me e deixa-me cheia de orgulho.
Vou continuar a puxar por ti para que dês sempre o melhor que tens e és.
Mas prometo não me esquecer que mesmo fazendo tudo isto és um bebé. Dezoito meses parecem muito para um bebé, mas tens direito aos teus limites e juro que não vou exigir mais de ti do que podes dar.
Somos uma equipa.
E em breve as nossas conversas ficarão mais claras pelas palavras que conseguirás usar, mas continuarão a dispensar qualquer floreado. Falamos mais com o coração, o olhar e o sorriso do que com sons.
Como no primeiro dia.
Como estás crescida, meu amor…