Fecho os olhos e consigo voltar àquele momento, no quarto da maternidade, em que éramos só nós as duas. Tu ainda mal te apercebias do que te rodeava, estavas adormecida como defesa dos estímulos constantes do mundo onde vieste parar… e eu aninhava-te no meu colo e ficava a ouvir-te respirar, a conhecer cada centímetro teu que antes só conhecia nos meus sonhos e nos movimentos que fazias cá dentro.

Passou mais de um ano e meio desde esse dia. Ainda temos este ritual em que te aninhas em mim e eu me deixo levar pela tua respiração… mas os teus olhos estão abertos e espertos e já sabes muito, bastante do que te ensinámos e outro tanto do que foste descobrindo sozinha.

Levas a mão ao peito instintivamente quando há um barulho súbito e declaras “shush”, que é como quem diz “ai que susto”.

Comes sozinha com a colher e a maior parte das vezes dispensas qualquer tipo de ajuda.

Sabes como colocar as fraldas nas tuas bonecas, mesmo que na maior parte das vezes não consigas fazê-lo sozinha.

Andas no baloiço enquanto te empurro, sem que seja preciso segurar-te.

Dizes “tá tá” quando termino de te secar o cabelo, anunciando que “já está”.

Usas a expressão “mais!” como gente grande e sempre no contexto correcto.

Identificas todas as pessoas da família e amigos mais próximos. Sabes que avô ou avó vamos visitar assim que entramos no átrio do seu prédio, percebes perfeitamente com quem falas ao telefone.

Cumprimentas as pessoas (e as árvores, e os cães e muitas vezes até os brinquedos) com um “olá, olá” contagiante.

Chamas quase diariamente a tua prima (“Nô!”) e só descansas quando te mostro a fotografia dela ou quando estão juntas e a abraças com um enorme sorriso nos lábios.

Despedes-te dos teus dois bonecos de estimação que te acompanham nas refeições com um beijinho antes de ires dormir.

Percebes perfeitamente tudo o que te dizemos, mesmo quando finges que não nos ouves.

Não te esqueces de nada nem de ninguém. Se alguém te encontra e cheira as mãos e diz que são muito cheirosas, no próximo encontro és tu quem estica de imediato as mãos para que chegue o elogio.

Tens um amigo de sempre na creche, que conheceste aos quatro meses e meio e é o teu companheiro de brincadeiras. Se o vemos ao longe a encaminhar-se com a mãe para a creche, pedes-me para ir para o chão e segues a correr.

Adoras livros e gostas de os ler e procurar os símbolos conhecidos e descobrir alguns que ainda não te tinham saltado à vista. Gostas de me chamar para que os veja e para que te possas sentar ao meu colo, no puff.

Adoras carrinhos e bolas de futebol e não tens medo nem vergonha de te intrometer no jogo de meninos mais velhos.

Arrumas o que desarrumas.

Cantas.

Ris com os olhos.

Já chegaste muito longe e o teu desonvolvimento encanta-me, surpreeende-me e deixa-me cheia de orgulho.

Vou continuar a puxar por ti para que dês sempre o melhor que tens e és.

Mas prometo não me esquecer que mesmo fazendo tudo isto és um bebé. Dezoito meses parecem muito para um bebé, mas tens direito aos teus limites e juro que não vou exigir mais de ti do que podes dar.

Somos uma equipa.

E em breve as nossas conversas ficarão mais claras pelas palavras que conseguirás usar, mas continuarão a dispensar qualquer floreado. Falamos mais com o coração, o olhar e o sorriso do que com sons.

Como no primeiro dia.

Como estás crescida, meu amor…

Todos catalogamos pessoas ou situações na nossa vida, desde pessoas que conhecemos e nos damos no dia-a-dia, como verdadeiros amigos e família. Há os amigos e depois os conhecidos; há gente porreira e gente chata; aqueles a quem sorrimos, mas rezamos a todos os santos não os reencontrar na próxima ida ao supermercado ou quando vamos buscar os nossos filhos à escola. Catalogamos relações amorosas desde aquelas que gostaríamos que se repetissem uma vez terminadas, às ‘love is in the air’, para nojo dos solteiros à sua volta. Depois, há as relações – ‘onde é que eu tinha a cabeça’ – e a ‘credo Nossa Senhora de Fátima’ –  acho que sabem do que estou a falar.

Depois temos, e é onde quero chegar, o catalogar a família. Hoje em dia existe diferentes tipos de família, e é importante para cada uma delas, estar catalogada. porquê? Porque não estando parece um tipo de família incompreendido, não aceite e até marginalizado. Seria como não pertencer a grupo nenhum!
Quando era miúda havia a família nuclear. Pergunto eu, ora quem teve a brilhante ideia de lhe dar este nome? (eu sei que tem a ver com núcleo e tal….). Mas eu associo mais a bomba! Bomba: tens que ter um pai, depois uma mãe, depois um ou dois irmãos, e com sorte e tal como nos desenhos dos livros da escola primária da altura, havia ainda também dois pares de avós com ar fim do século dezanove. Porque o avô era sempre careca e a avó tinha sempre um novelo de lã com agulhas espetadas no cabelo (não me perguntem!).

Conforme fomos crescendo, habituamo-nos a ver cada vez mais separações e divórcios. Mas, e quanto às famílias compostas por mães ou pais solteiros e a sua prole? Bem, essas não existiam oficialmente. Para mim, que cresci com  avós divorciados e uma avó super independente, isto era uma realidade. Mas só quando eu própria me tornei mãe é que comecei a olhar para esta realidade de outra forma.

Agora temos um nome, somos famílias monoparentais! Mas isto irrita-me imenso, porque quando ouço as famílias do mesmo sexo serem chamadas de famílias Arco-Iris ou Rainbow Families fico com uma inveja difícil de controlar… existe nome mais bonito? Senão vejamos: temos a família ‘nuclear’ que já não ‘bomba’ tanto como antigamente; depois temos as famílias do coração (outra que me dá dores de cotovelo); depois temos as famílias numerosas, que são, bem…numerosas! E nós? As famílias de pais solteiros? Mães e pais solteiros com filhos a seu cargo? Sim, porque as mães solteiras que não têm os filhos consigo, são…mães desnaturadas? E os pais solteiros que têm os filhos a cargo da mãe são o quê? Pais, só pais. Não querendo entrar muito pela discussão sobre género, a verdade é que as famílias monoparentais são olhadas hoje com alguma compaixão ‘força, deve ser duro!’ seguido daquela expressão de lábios virados para baixo e olhos de peixe mal morto.

É verdade, não estou a exagerar. Mesmo tendo havido evolução, e não querendo dizer menorizar as dificuldades, para alguns de nós o papel dos dois pais está somente num par de ombros. Mas esta compaixão ou mesmo pena, que ainda hoje se vê pela mãe solteira ou pelo pai solteiro, embora de formas diferentes, não ajuda em nada à independência e afirmação destes pais.

Um pai solteiro é um coitado, porque a ‘gaja’ não quis ter nada a ver com a criança e é uma mãe desnaturada e ele coitado ‘teve’ que ficar com as crianças. O que não está aqui latente neste tipo de atitudes e afirmações é que hoje apesar dos papéis terem-se alterado de forma drástica, a verdade é que a sociedade em geral ainda não assimilou o que isso implica.

A mulher ganhou maior importância no mercado de trabalho, embora ainda esteja a lutar por equidade de salário. Por outro lado, o homem desenvolveu ao longo do tempo, sendo ainda uma minoria em países como Portugal, um lado mais ‘maternal’ no sentido ‘antropológico’, mais virado para a família e para o lar em geral, e ainda bem. Contudo, estas mudanças não alteram, em nada, a forma como, ainda, são vistas as mães solteiras, muitas vezes rotuladas de “as coitadas” ou “sacrificadas”.

Assim que engravidei assumi de imediato esse papel ‘na boa’.  Talvez porque dentro de mim havia e há pouco espaço para preconceito em relação ao próximo, e as mães solteiras, para mim, são simplesmente mães independentes. O facto de estar solteira ou não, pode mudificar de um dia para o outro, apenas depende da fase da vida da pessoa. No entanto, tinha na verdade também uma imagem romântica deste meu novo papel chamando-o de uma forma quase hipster de ‘reprodução independente’ quando era mesmo somente mais uma Mãe Solteira, simples. Mas logo logo percebi que não era assim que a maior parte das pessoas me olhariam, mesmo as mais viajadas, mesmo as com mais nível de educação, mesmo as outras mães solteiras!

Um dos primeiros impactos veio de uma secretária de um Embaixador Árabe em Lisboa de quem sou amiga, que depois de me dar os parabéns me disse ’também tenho uma irmã mãe solteira…o miúdo anda num psicólogo!’ a conversa depois daí continuou deprimência abaixo, mas eu segui em frente. Isto depois do próprio Embaixador me ter perguntado ‘que boas notícias minha querida Sónia! E quem plantou nesse lindo Jardim?’ …a sério, foi assim mesmo que me perguntou. Como é Árabe e para quem conhece poesia Árabe, sabe que este sentido não é o mesmo que poderia ser se fosse numa qualquer canção popular Portuguesa. Não levei a mal, mas daria um excelente verso de música pimba, não acham? Melhor do que a tal Sopeira que tem um filho de quem ninguém sabe quem é o pai, pois é essa canção mesmo que representa bem como a sociedade nos vê em Portugal, Sopeiras! – Seja lá o que isto significa!

Numa outra situação, num almoço em que junto com os meus pais anunciei a gravidez a uma parte da família, uma tia afirmou depois de um longo silêncio ‘Os filhos de mães solteiros são criados de qualquer maneira!’ Disse isto, alguém com um casamento para lá de Bagdade? Não querendo entrar em detalhes, mas as piores afirmações vieram sempre de pessoas com casamentos ou relacionamentos desfeitos, alcoolismo, filhos com problemas graves de falta de atenção e por vezes de  amor devido à atenção em demasia dos pais em ‘segurar’ algo que nunca funcionou, estando os filhos no meio de uma guerra que não é a deles.

Mas também há a ignorância pura, como notei em duas situações com colegas de trabalho, pessoas viajadas e formadas mas que pelos vistos com ‘bagagem’ não processada. Uma colega e eu fomos almoçar a uma restaurante chique de Lisboa, depois de uma viagem de trabalho que ambas fizemos à Etiópia, estávamos a falar de trabalho, relacionamentos família etc.,e eu disse ‘como sou mãe solteira’… (tentava explicar o desafio que é para mim aceitar algumas missões em certos países e negar outras com mais risco) quando me interrompeu rapidamente ‘fala mais baixo, porque podem ouvir e depois o que vão pensar?!’ ao que eu respondi ‘vão pensar que sou…mãe solteira! Em Portugal não sou apedrejada descansa!’ e não, não estava a falar com amigas Afegãs ou Iemenitas. Era mesmo uma amiga Portuguesa!

A verdade é que a narrativa à volta das mães solteiras é sempre a mesma, de alguma admiração, porque sós ‘carregamos uma grande fardo’ e por isso merecemos a compaixão alheia. Fardo? Peço desculpa mas um filho não é fardo nenhum. Sim, nem sempre é fácil, principalmente no caso das ‘puristas’ como eu e que desde logo assumimos este projecto maravilhoso sozinhas onde não há dois salários, duas opiniões, duas soluções para problemas que vão surgindo entre outros desafios. Mas também não há dilemas, não querendo advogar este tipo de vida,  até porque acredito na diversidade. Mas a verdade é que, se há sinónimo do resultado do tipo de educação da minha filha, são os relatórios que dizem uns atrás dos outros: ’É uma criança muito equilibrada, responsável, respeitadora do outro e da diferença’ tudo porque aqui não há guerras entre pais ou dilemas semelhantes.

Neste cenário, as piores inimigas destas mães, são de facto as próprias mães solteiras que se colocam quase sempre como a vítima. Se pensam que o meu caminho tem sido fácil, estão muito enganados, e não falo do alto de um castelo perfeito. Longe disso, mas acredito mesmo que quando nos colocamos na posição de vítima dependente da benevolência ou bom senso do outro pai  ou mãe, vamos criar crianças que vão acreditar que por terem sido criados por pais solteiros, lhes faltou sempre algo, que são vítimas também. Não, não são. Só o são se o permitirem. Colocar a criança em primeiro lugar, não significa comprar-lhe as melhores sapatilhas do mercado enquanto a mãe poupa naquilo que compra para si, significa sim criar os nossos filhos com amor, claro, mas principalmente fortalecendo a sua personalidade com resiliência e carácter na diversidade e na vida respeitando o outro e sabendo que não existe nem a perfeição nem o ideal.

Até porque hoje em dia a sociedade é uma sociedade arco-íris!

 

Por Sónia Pereira de Figueiredo, originalmente escrito para o Blog Amniotico
sugerido para  Up To Kids®

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Penso muitas vezes, na bênção que é ser mãe.

Posso ter cometido alguns erros, mas se o meu maior ‘erro’ foi engravidar então sou a mulher mais abençoada que existe. Algumas pessoas podem pensar que engravidar quando se está a dar passos numa carreira que parece promissora, ou principalmente quando ainda não se é independente financeiramente seja uma loucura. Eu digo, esta é a minha história e estava escrito que a minha alma inquieta fosse encontrar a alma ponderada da minha filha, sensível e de uma empatia incrível. Costumo dizer-lhe enquanto conto a nossa história, que esta mesma história  já vem de outra dimensão, de outro tempo sei lá.

O meu amor pela minha filha é tanto que às vezes parece rebentar-me do peito. Não há nada nela que não me maravilhe. O seu olhar e introspecção, o seu amor pelo outro e como olha nos olhos um sem-abrigo enquanto lhe dá um sorriso e uma pequena esmola, O seu sentido de humor. O amor pelos animais, e como sofre quando o 10º peixe  dourado morre, dizendo ‘nunca mais vai haver um peixinho como este’. A importância de todos os momentos na vida, a família. Eu digo-lhe que ela é como o Olaf do Frozen, pois vê tudo pelo lado positivo principalmente nas pessoas. Não, não é perfeita. Mas é minha.

Esta semana uma amiga relembrou-me o caso de um pai que não esquece um filho, que é impedido de ver pela mãe. O Miguel e o Santiago. Quantos mais serão? Penso muitas vezes no que dirão essas mães e pais aos seus filhos enquanto lhe olham nos olhos para justificar essas ausências forçadas. Que não são amados? Que os pais/mães não têm tempo para eles? Para esquecer? São capazes esses pais de viver com o sofrimento dos filhos, por não serem eles mesmo felizes? Partindo do principio que estes pais não são autênticos monstros, daqueles que inundam o lado negro das noticias e que dizemos ‘isso não é um pai/mãe!’. Não, não são. Partindo do principio que a luta, é dos pais, e só dos pais, tal como a sua mesquinhez…que dizem estes pais?

Posso falar um pouco sobre isso. Quando engravidei, não foi planeado. Mas eu queria ser mãe. O pai foi convidado a participar, mas na sua cobardia e incertezas e dilemas de um ‘miúdo’ de 28 anos que só queria surf e uma guitarra, não foi capaz. Assustado, pediu-me em casamento, um pedido tão oco como a sua vontade de na altura assumir qualquer responsabilidade. Regressou ao seu país pouco depois.

Eu, não estava triste ou infeliz talvez ajudasse o facto de não o amar. Pensava que não era uma drama, e assumi tudo como se de uma produção independente se tratasse, com muito amor. Como se eu fosse de facto Islandesa, e não Portuguesa. Tive e tenho a sorte de ter tido uns pais que sempre me apoiaram, não só emocionalmente mas também financeiramente (mais do que queira admitir) e umas irmãs que têm sido mais que tias, umas mães para Ela. Mas Ela tinha e tem um pai.

Aos 3 anos, falei-lhe do pai pela primeira vez, Mostrei-lhe fotos nossas, e não fez muitas perguntas nem antes nem depois desta conversa. Dormiu com as fotos e mostrou-as a toda a gente. Era, tal como agora uma criança equilibrada e resolvida. Livre de qualquer drama sempre encarou a sua história como mais uma história e um tipo de família. Na escola haviam outros pais e mães, uns avós e outros tios. Há muitos tipos de família, a nossa, é só mais uma. O dia do pai não era especial, nem pela negativa, nem pela positiva. Era o dia em que trazia qualquer coisa da escola para o avô ou para a mãe. Simples.

Com o pai, eu ia tentando fazer a ponte, nunca fechei a porta (embora às vezes dissesse a mim mesma que não iria tentar mais). Mas não era a minha história, é a d’Ela. Nunca lhe disse que o pai não a amava, que não queria saber d’Ela, nem podia porque eu sabia que apesar de tudo essa não era a verdade. Embora aos olhos dos outros, essa fosse talvez fosse a verdade.

Quando eu falava com o pai, este dizia que a amava, mas não fazia nada para o demonstrar. A vida continuava feliz. Numa boa fase apresentei-a ao pai pelo Skype. Falaram tímidos, sorriram e riram. Mas não foi consistente. Apesar de tudo, as duas íamos falando, queria que me dissesse o que sentia e falavamos abertamente q.b. sobre o pai e eu dizia-lhe ‘sabes que ele ama-te mas é muito maluco’ e riamos de seguida quando eu imitava o seu suposto sotaque Brasileiro. Queria que soubesse, que poderia dizer-me tudo. Queria saber se sofria. Não sofria, porque eu assegurei-me de que não se tratava de um drama sem deixar de estar atenta às suas necessidades.

Nunca lhe falei mal do pai, como podia eu?  Nem eu, nem a minha familia. Ele, deu-me a maior prenda que alguém me poderia ter dado, a seguir ao meus pais terem me dado as minhas irmãs (com 11 anos de atraso diga-se!). A minha filha. Não há nada que ultrapasse isso, nada. Existe benção maior?

Em Abril do ano passado, uma nova tentativa (como podia deixar de continuar a tentar? fechar a porta? não me cabia a mim tal decisão). O pai que entretanto passara por uma experiência de vida e morte, começou a mudar. Sem interferir na nossa dinâmica, começou a falar semanalmente com Ela. Ela reagiu normalmente. Tudo isto é a sua realidade,  a sua normalidade. Embora para os outros possa parecer estranho. Não importa, cada um a sua história.

Falavam por skype, whatsapp e riam, trocavam fotos e piadas. Ás vezes não lhe apetece falar, não por o rejeitar, simplesmente porque está a dar a Violetta e nesse momento, essa é a prioridade. Entretanto, noto  que o pai quer fazer parte da sua vida embora vivam em continentes diferentes. Não faz mal, a mãe já viaja muito e isto também é normal. é como se o pai fosse emigrante. Como tantos outros.

Mas a verdade é que no Natal passado o nosso milagre aconteceu: O pai dela comprou-nos viagens.
Queria ver a filha ao vivo e a cores. No dia 1 de Janeiro o nosso milagre de Natal aconteceu. Pai e filha abracaram-se pela primeira vez.
Não importou se foi  com 9 anos de atraso, o que importa é o agora.
O que importa, é o amor.

Enquanto fazíamos as malas, nos dias que antecederam à viagem,a excitação era enorme e a alegria estava espelhada na sua carinha, afinal íamos fugir do frio a caminho do sol no Brasil onde vive o seu pai. Que criança não ficaria assim com esta possibilidade? Parece uma futilidade dizer isto assim, quando se está a falar da viagem mais importante até à data na vida de uma criança de nove anos. Sim é verdade, mas também é verdade que estamos a falar de uma criança super equilibrada, bem resolvida e de bem com a vida.

Passo a explicar o que não é nem soberba minha, nossa, nem leviandade pelos seus sentimentos. Muitas vezes ao longo destes nove anos, fui questionada inúmeras vezes, se ela não sentiria falta do pai, se perguntaria muitas vezes por ele. As pessoas que me questionaram isto apesar de bem formadas e bem intencionadas, estavam confusas e talvez perplexas pela forma como estava a criar a minha filha e como, apesar de muitas vezes ter dado jeito ter alguém extra para ajudar, éramos e somos felizes. Como é que alguém que é solteira e é mãe, pode ser assim tão segura? Ou criar uma menina, segura, equilibrada e feliz? Como é que eu não me estava a escavacar, apesar das dificuldades e golpes irreversíveis na minha carreira, por uma pensão qualquer? Como? Como é que eu tinha e tenho, o desplante de sorrir enquanto digo sou mãe solteira, sem pudor ou orgulho ferido? Como é que não ando curvada, e como me atrevo a ser tão independente de um homem qualquer? Do seu pai, ou de um outro qualquer que entretanto pudesse ter aparecido para eu em agarrar como se não houvesse amanhã? Porque, eu enquanto mulher sozinha tão desesperadamente precisaria com certeza. Com certeza, porque sozinha é difícil e a criança é coitada, Como? Como?

Eu respondo, como é que alguém sente falta de uma realidade que não é a sua? De algo que não conhece?

Quem é que sente falta de algo que nunca lhe tenha sido apontado como uma lacuna? Se sempre fomos ambas, o suficiente e mais além? O suficiente, repito. Acrescento, lamento mas estou a criar uma futura mulher segura de si, que se ama, que é mais que o suficiente, independente mas amada e com o coração no lugar certo.

Antes de partirmos disse-lhe várias vezes ‘Kika, já viste, vais conhecer o teu pai! Ao vivo!’ depois perguntava-lhe ‘O que achas de isto tudo? Pensas muito nisso?’, ela sorria-me enquanto respondia ‘não muito, mas acho que vai ser giro! Mas vou ter um bocadinho de vergonha.’. Uns dias antes, ouvira-a comentar com as amigas ‘vou até ao Brasil conhecer o meu pai’, fiquei surpreendida confesso com as reacções das amiguinhas ‘que giro!’ ou ‘que sorte!’ ou ‘ a sério?! Aproveita!’. Tão natural, como a nossa sede, mesmo. Afinal, somos nós os adultos que lhes vamos incutindo preconceitos, ou não.

No avião, estava eléctrica brincava com o Play-Doh depois com os livros, depois via os inúmeros filmes a escolher para ver durante o voo. Eu observava-a, tentava entrar na sua pele, imaginar o que sentia. De vez em quando apanhava-me a observa-la, sorria-me de volta e fazia-me uma festinha nas mãos, talvez pressentisse o meu coração de mãe que agora que se aproximava a hora H, estava mais apertado. Mas ela, ela estava tranquila e feliz. Como sempre. Tenho dúvidas, muitas vezes. Questiono-me, a toda a hora.

Mas depois ela surpreende-me com o seu carácter e força e um amor infinito pelo outro.

Quando aterramos no Rio, ambas estávamos vestidas de inverno quando nos vimos rodeadas de gente feliz e bronzeada que tinha há apenas umas horas recebido o ano novo na cidade maravilhosa. A esperança encheu-nos o coração, ano novo! Suadas fomos trocar de roupa, e agora que estava a chegar o momento, o seu semblante mudara ligeiramente. Sorria, mas estava a ficar ansiosa. Não sei o que estava a pensar, a sentir. Posso imaginar. Reverti para o humor, como sempre nas horas mais difíceis, entre piadas que íamos fazendo e rindo. O ambiente ficou mais calmo, mas o seu riso tornou-se mais nervoso, mais tímido. Quando chegamos ao destino, ao destino, depois de recolhermos as bagagens disse ‘Mãe! É agora.’ eu respondi ‘sim filha, coragem, eu estou aqui.’e ela disse-me ‘Sim, Como sempre.’. Saímos ao encontro do momento mais importante da sua vida.

Não houve lágrimas, houve risos nervosos e um abraço apertado e longo. Ambos estavam nervosos, boca seca, estavam curiosos e observavam-se. Agora pai e filha ganharam cheiro, cor e a vida não vai voltar a ser a mesma. Nada é perfeito, mas a vida é boa. A minha filha lembra-me muitas vezes disto mesmo, quando caio na realidade de adulta por vezes descrente (Graças a Deus, poucas! eheh) que há sempre o lado positivo em tudo. Esta pequena pessoa que saiu de dentro de mim, este pequeno maravilhoso milagre, esta-me sempre a surpreender, sempre a ensinar. E eu sempre a aprender.

Por Sónia Pereira de Figueiredo, originalmente escrito para o Blog Amniotico
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Desde que sou mãe que aprendo coisas novas a toda a hora. Num único fim-de-semana eu consigo aprender como curar uma ferida, como fazer bonecas de papel ou como fazer uma refeição sem legumes (visíveis).

Partilho convosco 6 coisas que aprendi com a minha filha de 3 anos e que acho que podem facilitar bastante a vida de todos os pais:

1- Verde não é uma boa cor: futebolismos à parte, toda a comida verde é má. A minha filha não pode ver nada verde no prato. Sejam vegetais, fruta, molhos, massas… Bem, se lhe derem um bolo verde ela vai pensar por uns momentos, mas provavelmente vai acabar por dizer que não gosta, mesmo sem provar.

2- Crianças com privação de sono são MESMO do pior: quando a minha filha não dorme bem à noite ou quando ela faz saber a toda a gente que já é uma menina crescida e que não precisa de dormir a sesta, já sei que terei o resto do dia arruinado. Quando isto acontece podem-se preparar para um dia de birras, gritos, corridas loucas e muitos “eu não quero” ou “eu não faço” (pelo menos cá por casa é assim).

3- Viagens em família são um projecto complicado: viajar com uma criança pequena exige uma grande preparação e muitos truques. Quando planeamos algo deste género não nos podemos esquecer de preparar: jogos, brinquedos, brinquedos com sons, brinquedos com luzes, lápis de cor, lápis de cera, papel, papéis coloridos, autocolantes, bonecas, carros, bolas… Ah, e não se esqueçam de levar alguns snacks e que tenham pouco açúcar, porque não vão querer uma criança excitada pelo consumo de açúcar durante toda a viagem.

4- Rotinas são muito importantes: não é novidade que as crianças precisam de dormir e comer a horas. Elas não podem esperar muito tempo e os pais precisam conhecer as necessidades de cada criança. O que eu não sabia, antes de ser mãe, é que algumas crianças se transformam em pequenas feras se não as alimentamos a tempo ou se deixamos a hora de dormir passar. Acreditem, pode ser mais complicado do que parece.

5- Esperar não é uma capacidade infantil: juro que costumava pensar que se eu pedisse a uma criança pequena para se sentar e esperar um minuto ou dois ela o faria. É só um minuto! Não. A minha filha ensinou-me que esperar não é um conceito que crianças de dois ou três anos entendam. Eles estão, quase sempre, com demasiada energia e não conseguem sentar e esperar.

6- Estas pequenas criaturas conseguem ser as criaturas mais amorosas do mundo: na verdade, viver com crianças e ser pai ou mãe é uma experiência incrível e eu tenho aprendido que a vida pode ser mais colorida, mais doce, mais sumarenta, mais divertida e pode ter um significado muito maior quando os mais pequenos estão por perto.

Por Tânia Almeida, para Up To Kids®
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Sempre que dizia que gostava tanto do meu pai e que tinha saudades dele, perguntavam-me porque nunca me ouviam dizer o mesmo em relação à minha mãe.

A verdade é que por não viver com o meu pai acabava por verbalizar mais esta falta, este sentimento de saudade. Em relação à minha mãe, como fomos sempre muito próximas (também fisicamente), posso dizer que comecei a sentir verdadeiramente saudades dela desde que saí de casa. E há tanta coisa que parece pequenina, mas que dou mais valor hoje do que alguma vez dei.

Sinto falta de ver a minha mãe todos os dias.

Tenho saudades de quando ela me secava o cabelo, mesmo sendo a coisa que mais detestava no mundo.

Sinto falta de estar debaixo dos lençóis, muito pequenina, e de ela me levar um biberon de Nestum com a tetina cortada para o beber ainda dentro da cama nas manhãs de inverno antes de ir para a escola.

Tenho saudades dos tempos em que nos inscrevemos no mesmo ginásio e fizemos aulas de aeróbica e éramos as duas alminhas mais descoordenadas que se viam a mexer naquela sala – e não nos importávamos nada.

Sinto falta de ir à mercearia do senhor João comprar pastilhas e saber a diferença entre nabiças e espinafres de tantas vezes que a vi a comprá-los lá.

Tenho saudades de estarmos no sofá, ao fim do dia, enroscadinhas a conversar ou em pleno silêncio.

Sinto falta de a minha mãe me perguntar por que é que, com um sofá tão grande, insistia em estar colada a ela.

Tenho saudades de ouvir a campainha tocar e saber que era para descer as escadas e ajudar a trazer os sacos do supermercado para cima.

Sinto falta de estar na cama e chamar “maímmmm!” e pedir um copo de leite com chocolate quentinho, como só ela sabe fazer, para me acalmar o corpo e a mente e poder dormir descansada.

Tenho saudades de poder pousar a minha cabeça no seu colo e a ouvir dizer que “vai correr tudo bem” enquanto me afagava os cabelos (continua a ser a única pessoa que gosto que mexa neles).

Sinto falta de fazer corridas de “golfinhos” no mar, nas férias. E de perder sempre para ela.

Tenho saudades de lhe pedir para me comprar uma bolinha com creme, mesmo sendo de tarde e estando tanto calor e ela me avisar, vezes sem conta, que era preferível comer uma sem creme.

Sinto falta de estar por casa e por isso, a “obrigar” a sair mais cedo do trabalho.

Tenho saudades de conversar com ela na cozinha, enquanto preparava o jantar e eu acabar por não ajudar quase nada porque não parava de falar.

Sinto falta de perguntar o que é que vai ser hoje o jantar (e ouvir como resposta “línguas de perguntador”).

Tenho saudades de acordar a meio da noite e ouvir barulho na cozinha e ir pé ante pé porque sabia que a encontrava, de camisa de noite, à janela a fitar as estrelas.

Sinto falta de quando ela me dizia que com as unhas pintadas daquela cor nem pensar, só para andar em casa.

Tenho saudades de irmos no carro para o Algarve e cantar todas as músicas e ouvi-la a dizer “mas como é que tu conheces isto tudo?”.

Gosto muito do facto de termos uma relação muito telepática, de estarmos constantemente a pensar uma na outra e nos ligarmos sem saber disso. De as minhas dores de cabeça passarem por te falar nelas (mesmo ficando tu com elas – ninguém acredita, mas sabemos que é verdade). Gosto de saber se vale a pena ir ver um filme ao cinema depois de ouvir a tua crítica porque é sempre certeira. Gosto que partilhemos livros. Gosto que faças jardineira nos domingos em que o mano vai almoçar e eu não porque sabes que eu não gosto muito. Gosto de poder dizer, sem hesitar, que és a melhor pessoa que conheço – sem ser para parecer bem, mas com a maior naturalidade do mundo – porque é verdade. Gosto tanto de ti. Gosto de nós.

E tenho saudades tuas, mãe, mesmo falando todos os dias contigo.

Porque sentir falta não é mau e ainda é melhor podermos matar essa saudade quando queremos.

Se me perguntarem o que é preciso para ser uma boa mãe é de ti que vou estar a falar. Sempre.

(E porque o dia da mãe se aproxima, deixo também um grande beijinho à minha “boadrasta” por tudo aquilo que sempre me deu: compreensão, tempo, carinho, paciência, a minha mana linda, amor. Por ter cuidado sempre de mim como se fosse sua. Como só uma boa mãe consegue fazer).

Sou mesmo uma pessoa de sorte – e grata por isso.

Feliz dia da Mãe!

Por Marta Coelho,
para Up To Lisbon Kids®

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