Dias em que, de repente, dás meia volta e desces da cama sem pedir ajuda, sem grandes alarmes.
Dias em que, de repente, passas a dormir sestas grandes, como os outros meninos da tua sala.
Em que quando chego à creche estás na sala dos meninos maiores a brincar com eles de igual para igual.
Em que tentas calçar os teus ténis e consegues.
Em que, no banho, descobres a maravilha de te levantares e voltares a sentar e as ondas que provocas.
Em que, de noite, choramingas só porque te destapaste e arrefeceste.
Em que acabas a sopa e ficas a pedir mais.
Em que descobres um livro que tinhas escondido na horizontal na estante e ficas radiante como se fosse a primeira vez que o tens na mão.
Em que percebes que, tal como tu, também os teus bonecos têm nariz, mão, pé e alguns também usam sapatos.
Em que me vês triste e viras a cabecinha, como se espreitasses para dentro de mim para perceber o que está errado.
Em que saltamos em cima da cama e ficamos com a barriga a doer de tanto rir – e tu com soluços.
Em que falas na tua língua misteriosa com os bonecos e te observo ao longe, imaginando o que se passa dentro da tua cabeça.
Em que cantas, sem te aperceberes.
Em que faço uma brincadeira esquecida (“eu mexo um dedo, diguidi, diguidi”) e me surpreendes com a coreografia da música.
Em que testas os limites, tentando subir à mesa de centro.
Em que estás tão cansada que adormeces na cadeira de refeições.
Em que a música de um anúncio na televisão te faz parar de brincar para veres de que se trata e dançares.
Em que mordes um balão (que ainda anda cá por casa depois da tua festa de anos) sem qualquer medo de que possa rebentar e assustar-te.
Em que pedes pão como uma menina crescida.
Em que andas pela casa a 50 km/h como se há um mês não fosses bebé de gatinhar apenas.
Há dias em que descobres o mundo e em que eu descubro mais mundo dentro do meu.
És tu, minha filha, meu amor, a causadora das maiores descobertas da minha vida, do reconhecimento das minhas limitações mas também das minhas maiores vontades.
Há dias difíceis, mas contigo aqui, com a tua inocência e a tua ternura, não trocava estes dias por nada.
Por Marta Coelho, para Up to Kids®
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