“Vou educá-la a ter esperança e força, mas a permitir-se ser frágil.
Vou tentar educá-la para que nunca se ponha numa situação de perigo.”

É cultural, foi assim que fomos ensinados e muitas vezes ainda é assim que agimos. O ditado reza “entre marido e mulher ninguém mete a colher”.

Mas os tempos são outros e se temos evoluído em tantas outras áreas porque continuamos a virar a cara em situações de abuso?

Do outro lado do oceano chegaram notícias e imagens chocantes de uma advogada, que foi filmada a ser agredida pelo marido dentro do elevador do prédio e no parque de estacionamento do condomínio enquanto gritava por ajuda. Esta mulher acabou por morrer, vítima de uma queda do quarto andar, do seu apartamento. Correcção, esta mulher acabou por ser assassinada pelo marido quando todos os vizinhos ouviram os seus apelos por ajuda. Ninguém, repito, ninguém, chamou a polícia. Entendo o medo, somos humanos e sentimos na pele o nosso medo, o medo pelos nossos, o nosso desejo de sobrevivência. Muitas pessoas tiveram receio que o marido estivesse armado e não foram até lá. Estiveram para chamar a polícia mas depois os gritos pararam. Pararam porque já era tarde demais.

Estou a relatar esta história a título de exemplo, como poderia contar outras. Todos nós conhecemos algum caso, infelizmente. E os que têm a sorte de não conhecer, leem notícias.

Como mãe de uma rapariga há muitas coisas que me apoquentam em relação ao seu futuro, mais do que se fosse um rapaz – e nisto tenho de ser sincera e crua, porque ainda é muito diferente ser rapaz e rapariga neste mundo.

Vou tentar educá-la para que nunca se ponha numa situação de perigo.

Vou educá-la para identificar uma situação de perigo caso já esteja envolvida nela. Vou educá-la a fazer ouvir a sua voz, apesar do medo – mesmo que para isso tenha de saber contornar situações de confronto e saiba pedir a ajuda a quem de direito na altura certa. Vou educá-la para não virar a cara quando for testemunha da dor de outra pessoa. A falar, mesmo que tenha medo, nem que seja para chamar a polícia. E se quando a polícia chegar ela sentir que “não serviu para nada”, que saiba que serve sempre. Nem que seja para que as pessoas envolvidas saibam que os outros sabem, reparam e vão andar de olho na situação.

Vou educá-la a ter esperança e força, mas a permitir-se ser frágil. Porque todos nós cometemos erros, porque todos nós, numa altura ou outra precisamos de ajuda, porque todos nós já recusámos ajuda quando soubemos que teria sido melhor se tivéssemos aceitado.

A violência transtorna-me e é-me difícil de compreender, mas a passividade do mundo perante a violência é algo que nunca aceitarei.

Não é esse o futuro e o mundo onde quero que os meus filhos cresçam.

Quero que seja um mundo onde se diz “lembras-te de antigamente quando as mulheres morriam às mãos dos companheiros/ex-companheiros/aspirantes a companheiros?”. Quero que sejam coisas de tempos que eles não recordam.

Educar uma criança é a missão dos pais. Estar lá, acompanhar, proteger. Mostrar a realidade e as soluções. E isto serve para os pais das vítimas e dos agressores. Quando há sinais de que algo possa não estar bem devemos ser os primeiros a agir.Para o bem dos nossos filhos e dos que com eles se relacionam.

Devemos ser o exemplo e ajudar quem precisa de ajuda. Se os nossos filhos nos virem a estender a mão, será para eles natural fazer o mesmo na nossa ausência.

Resta-nos ser bons exemplos.

Pedir ajuda.

Dar ajuda.

Ter medo e ir em frente mesmo assim.

Pais violentos deixam marcas para toda a vida

A nossa vida social começa na infância, na companhia dos irmãos e dos pais, mas é o exemplo dos pais que definirá o nosso futuro. Por esse motivo, quando os pais são violentos definem padrões e condutas que irão nos afetar para toda a vida.

Considera-se um pai violento?
Sabe como identificar um?

Definir a violência

Geralmente associamos o termo “violência” com a agressividade física, no entanto, não devemos esquecer-nos da violência psicológica. A violência psicológica manifesta-se através de palavras que ferem moralmente, atitudes que procuram menosprezar os outros, e através da indiferença. Todas estas atitudes acabam por ferir os nossos filhos, quer seja de forma consciente, ou não.

Por que são os pais violentos com os filhos?

As razões para estes comportamentos são várias, e muito particulares em cada caso, mas as mais comuns são:

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Abril  é o mês que debruçamos a atenção sobre a prevenção dos Maus Tratos sobre as crianças e jovens.

No país decorrem inúmeras atividades para sensibilizar a sociedade à necessidade de um olhar atento sobre o bem estar das crianças/jovens.

Pergunto-me se saberemos, realmente, o que são Maus Tratos?

Os Maus tratos vêm conotados de violência física sobre a criança e jovem, deixando camuflado uma série de outras atitudes que os adultos exercem, muitas vezes, sobre os seus próprios filhos.

Quando negamos o colo à criança, quando a proteção em excesso priva o seu desenvolvimento equilibrado, quando sujeitamos a criança a situações de violência doméstica, quando a criança é alvo da batalha entre pais, quando não festejamos o seu aniversário, quando não lhe damos os parabéns pelas pequenas vitórias, quando as humilhamos em público e privado, quando não damos liberdade aos jovens para fazerem as suas escolhas, quando negamos os ouvidos aos nossos filhos e filhas, quando colocamos os nossos interesses pessoais sobre as suas perspectivas de evolução e criação, quando e quando… estamos perante situações de negligência que afetam psicologicamente a evolução das crianças e consequentemente a sociedade.

Muitas crianças e jovens vivem hoje na pobreza, sofrendo as consequências da fome oculta. São inúmeras as que não tomem o pequeno almoço em casa num clima de conforto. As famílias tem dificuldades em assegurar a alimentação e o acompanhamento mínimo necessário.

Por vezes, as estruturas familiares tem alicerces débeis levando a falhas graves no acompanhamento dos mais novos.
Espera-se que a prevenção dos maus tratos aposte, também, no apoio às famílias para que se valorize a infância enquanto base da sociedade.

O ciclo dos maus tratos precisa de ser quebrado através da adoção de medidas eficazes e da desconstrução de mentalidades.

O Laço Azul poderia ser uma onda de maresia sobre o universo infantil trazendo sempre o colo, a disponibilidade e um par de braços abertos.

Por Carla Félix, Carta do leitor, para Up To Kids®
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Isto de falar sobre violência doméstica, assunto que nos toca fundo, deve ser escrito com as ideias assentes, sem dúvidas, de um modo circunscrito, balizado, incisivo, sem dar largas à especulação infantil que toca na parede mestra das liberdades e direitos, e a derruba. A leviandade com que se fala de violência é tão ou mais perigosa do que a violência em si, porque na minha opinião toca em dois pontos que não se encontram totalmente claros na cabeça de muita gente.
É muito fácil atribuir a culpa da agressão ao agredido, e neste campo são as mulheres a ganhar caminho contra outras mulheres, profícuas em proteger os homens, os filhos, os maridos, os irmãos, deitando por terra o longo e sinuoso caminho que entende a violência doméstica como consequência e não como causa.
Escrever sobre violência doméstica é perigoso. Ou o autor resvala para a autocomiseração e para a vitimização da mulher, fraca e oprimida, à mercê do macho viril qual inseto debaixo da sola, ou resvala para a culpa da mulher, que em todo o caso ‘mereceu’ a agressão, ‘estava a pedi-las’, ou calibra a violência de acordo com a situação, isto é, deixa a culpa onde o senso comum e o seu nível de preconceito se encontra melhor adaptado.
Quero com isto dizer que ou ficamos definitivamente do lado da mulher, mesmo que ela seja uma perdida, uma tonta, uma qualquer, ou lhe metemos as culpas, culpando-a por ser frágil, por perdoar, por se deixar bater, e por não reagir denunciando.
Nos caminhos que tracei como únicos (não podemos ser nim e nem Charlie) estou radicalmente do lado da mulher, mesmo que me aflorem raivinhas-de-dentes quando algumas ‘se põe a jeito’ dando uma segunda oportunidade ao agressor, mas isso sou eu a destilar o meu veneno anti-submissão, e esta derivação canina não me deixa lugar à violência, seja ela qual for, em qualquer dos casos.

Escrever sobre violência doméstica é perigoso.
Escrever sobre violência juvenil é um pântano.

As dúvidas sobre o que leva um miúdo a agredir a namorada eleva o problema a um outro patamar. Não é suposto que um miúdo com 18 anos seja alcoólatra, que esteja no desemprego, que sinta ganas de matar por ciúme, que tenha um historial frustracional capaz de partir para a violência gratuita, derivado de recalcamentos antigos, que sempre atribuímos à violência adulta.
A profundidade do pântano é desconhecida, não sabemos se a água podre se fica por ali, ou se vai desaguar em violência crescida, violência assumida, ao chegar a idade adulta.  É que vede, para mim a juventude é uma parede branca. Um inicio. Um maravilhoso inicio para tudo o que pode vir a ser, e a esperança que traz uma parede branca, imaculada, onde nos podemos perder em pinturas, quadros, estantes, ou apenas abrir nela um buraco e fazer uma janela, deve ser de todas a mais protegida. Manter a parede mestra de pé, urge. Sem parede ninguém pinta, sem parede vão-se os sonhos.
E as janelas.
A parede mestra [na violência juvenil] é aquela que divide o mais forte do mais fraco, o mais cool do mais totó, o mais abonado do mais endinheirado, o mais esperto do mais inteligente. É a que trava impulsos infantis do género tau-tau, do género filial, sem consequência ou consequência banal.  ‘Levas agora um estalo como me dava a minha mãe, que isso depois passa’. E nós a ver que não, que a raiva juvenil é como um animal acossado, e do estalo ao murro… enfim, já sabemos onde vamos bater com a cabeça.
A parede mestra que urge proteger é que evita a domesticação da violência.
O título do post: ‘bates forte cá dentro’ surgiu-me de forma espontânea quando tentava fazer a ligação entre o exemplo que retiramos diariamente dos reality shows (e das redes sociais que comentam este tipo de programas) e o aumento da violência entre namorados, por um lado, e esclarecer o leitor quanto a este meu conceito de ‘domesticação da violência’.
O que é isso de bater numa miúda em frente dos amigos? E na televisão?
O que leva um fedelho de 20 anos, que mal segura as calças nos ilíacos, a dar uma tareia na namorada, com instintos de macho alfa, entesuado por exemplos domésticos, quiçá inocentes, permitidos socialmente através das televisões e comentários na internet?
Que fraca parede foi esta, que inútil muro é este, que ao despontar da maturidade imberbe, como desponta a barba mal semeada, não foi capaz de evitar o caminho funesto da violência fortuita, experimentativa, curiosa, como o é a adolescência, e que ocupa todo o espaço da relação, caindo desamparado e deixando entulho suficiente para enterrar uma família inteira?
Poderia esculpir aqui uma teoria baseada no aumento da miséria humana, da pobreza, nas raízes secas desta gente, sem eira e nem beira, sem chão. Delinquentes, perdidos nesses bairros sociais, repletos de problemas irresolúveis, engolfados pelo sistema vigente, pobres também no espírito acomodado.
Mas cai-me por terra a parede que tento erguer entre a plebe cicatrizada e a classe menos vadia, entre o bairro social e a classe mediana do subúrbio nascido rente ao Centro Comercial, entre os mal formados e os pouco formados, entre os que se criam na rua sem muros e sem janelas, e os que se criam em casa, atrás de ‘janelas’, que partem muros e partem tudo.
Nas redes sociais não se distinguem. Escrevem todos pessimamente mal, cabeças de galinha e grandes unhas de gel apoiam com ternura um estalo bem dado a uma que já ‘andava a pedi-las’, e aplaudem a atitude correta e inevitável do namorado que deu um puxão de cabelos para dar a lição maternal, e para a ensinar ‘a ter juízo’.
Meninas, mas que é isso?
Quereis ser filhas ou mulheres?
E confundem-me, porque os que escrevem muito bem, os cultos, os interessantes, os participativos, também gostam de pancadaria, que eu bem os vejo… por aí.
Bates forte cá dentro! Pois parece que já nem o pudor e o cuidado de bater ‘como deve ser’ se fica entre quatro paredes.
E agora bates forte também cá fora!, bates forte nos comentários!, bates forte atrás do anonimato!, bates forte escondendo a cara!.
E bates forte na discoteca com um telemóvel a gravar o gajo a apertar-lhe o pescoço.

Foi-se a parede mestra.
Domesticou-se a violência.
E assim vai a juventude.
Como eu, que vim agora do Facebook, precisamente de uma caixa de comentários que comenta alarvemente a agressão ‘nada de especial’ de um rapazola à sua namorada da Casa dos Segredos, mãezinha do céu! o que para ali vai de apoio feminino ao rapaz que agrediu a miúda à chapada e de rapazolas cheios de tudo, nos peitos vazios.
Batem-me forte cá dentro, estes que no fundo andam é a bater muito mal!

Por Uva Passa, no Blog Uva Passa
autorizado para Up To Lisbon Kids®

imagem capa@dig.do

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Campanha contra a violência no namoro – Quem te ama, não te agride!
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