“Adoro-te filho … mas tenho que ir preparar o jantar. Esqueci-me de descongelar qualquer coisa e tenho que improvisar, vou fazer uma sopa com o que tiver no frigorífico, mas prometo que antes de ires dormir vejo isso com calma.”

Adoro-te filho, mas já estou atrasado para ir trabalhar.

Tenho de ganhar dinheirinho para pagar a renda, comprar comida e aqueles brinquedos que tu gostas. Mas logo à noite prometo que vejo isso com calma.

Adoro-te mau filho, mas tenho que ir preparar o jantar. Esqueci-me de descongelar qualquer coisa e tenho que improvisar, vou fazer uma sopa com o que tiver no frigorífico, mas prometo que antes de ires dormir vejo isso com calma.

Adoro-te mas tens que ir dormir porque amanhã tens de acordar cedo e não podemos chegar atrasados à escola. Mas ao pequeno almoço prometo que vejo isso com calma.

Adoro-te filho, mas adormeci e agora tens de ir a comer pelo caminho. Escolhe lá um iogurte e eu preparo-te uma sandes. Hoje devo sair mais cedo do trabalho e prometo que vejo isso com calma.

Adoro-te filho, mas chamaram-me para uma reunião quando estava mesmo a sair e já não consegui vir mais cedo. Agora vamos a correr para casa e prometo que vejo isso com calma.

Adoro-te, mas a avó ligou a desabafar por causa do avô e tive que a animar.  Vamos tomar banho num instante, jantamos e depois prometo que vejo isso com calma.

Adoro-te filho, não percebo porque é que agora me tratas assim, com tanta indiferença. Porque é que não queres estar comigo nem tens tempo para vermos isto com calma. Eu que te adoro tanto e que fiz tudo por ti.

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Um dia acordas e o tempo passou assim…

Um dia esse monte de roupa por passar irá desaparecer. Muitas dessas peças já não farão parte da tua vida, estragar-se-ão ou serão doadas, deixarão de ser importantes para ti.

Um dia não terás pilhas de roupa para lavar. Terás a louça ordenadamente arrumada nos armários ou deixará de ser usada quando forem menos aí por casa.

Um dia, os brinquedos que hoje tens espalhados pela sala, estarão todos guardados em caixas devidamente identificadas, num canto escondido da tua casa e da tua memória.

Um dia a casa deixará de ter vestígios das migalhas que teimam em espalhar-se pela casa, esse ser pequenino que por aí circula.

Um dia o teu filho deixará de fazer birras.  Irás apenas recordá-las quando sentada num banco de jardim vires outra mãe a passar pelo mesmo.

Um dia não terás problemas de logística para sair de casa. Serás só tu e a tua bolsa. Chegarás rapidamente onde desejas, sem interrupções, e nessa altura perceberás como uma vida livre de imprevistos pode ser tão monotona.

Um dia o teu filho dir-te-á que é demasiado crescido para colo e que um abraço rápido é suficiente. Nessa altura tudo o que te irá restar será a nostalgia do tempo aproveitado ou o arrependimento por não teres aproveitado melhor esse tempo.

Um dia poderás dormir a noite a fio e acordar sem despertador. Por vezes ficarás sem pregar olho, irás pensar em como trocarias essas horas de sono por mais uma noite acordada/o com o teu filho junto ao peito.

Um dia o teu filho deixará de chamar por ti a toda a hora. Terás de te concentrar para conseguir recordar aquela voz que tão carinhosamente te procurava. O som daqueles pezinhos que te seguiam por toda a casa. A época em que eras tu o centro do seu mundo.

O tempo de contacto próximo com um filho passa assim – acordamos um dia, e já foi.

Enquanto os temos junto a nós podemos decidir viver este amor de duas formas – focados no que há para fazer ou focados no que jamais poderá ser feito, o essencial.

Porque na vida tudo tem um tempo e eu quero viver cada segundo deste nosso tempo.

Qualquer dia não irei mais queixar-me do barulho que fazes e da desarrumação que lanças por onde passas. Nem do tempo passado à mesa quando não queres comer.

Qualquer dia não irei queixar-me das noites mal dormidas. Nem das tuas constantes reclamações por teres de ir tomar banho ou das vezes que tenho de repetir a mesma história.

Qualquer dia não terei de me levantar para fazer outro biberão porque afinal querias mais um bocadinho. Não terei de demorar uma eternidade a chegar a qualquer lugar porque paraste vezes sem conta para admirar o que te rodeia.

Qualquer dia não irás chamar por mim repetidamente, vezes sem conta..

Qualquer dia vou estar em silêncio, com a casa arrumada, a fazer as refeições rapidamente e sem dramas. Vou deitar-me sem horários nem rotinas, vou ser capaz de me despachar num ápice.

Porque na vida tudo tem um tempo e eu quero viver cada segundo deste nosso tempo.Qualquer dia não irei mais queixar-me do barulho que fazes...

Nesse dia irei perceber que deixei de reparar nos detalhes que aprendi a apreciar nas milésimas vezes em que me fazias parar. Irei perceber que ter a casa arrumada afinal não é tão gratificante e que o silêncio, que tanto desejava, pode ser ensurdecedor.

Nesse dia, irei perceber que não chamares por mim constantemente chega a doer no peito .

Antes que esse dia chegue vou encher-te de beijos. Vou dar-te todo o colo de que precisas, vou olhar-te nos olhos e dizer-te como te amo. Antes que esse dia chegue vou saborear o som da tua gargalhada, vou brincar contigo sem olhar para o relógio e valorizar a doce bagunça que lanças pela casa.

E vou repetir tudo quantas vezes precisares. Vou educar-te com todo o amor que tenho.

Porque na vida tudo tem um tempo e eu quero viver cada segundo deste nosso tempo.

 

Às vezes basta estar presente

A felicidade da minha filha de quase quatro anos é algo “fácil” de alcançar. Basta a perspetiva de uma ida à praia, de um passeio de barco, de irmos visitar a bisavó, de iniciarmos a leitura de um livro novo antes de deitar, de contar os dias para os quatro anos para poder ter um passe para usar no metro…

Tento que a felicidade lhe surja devido aos sentimentos que tem quando está a fazer alguma coisa ou na presença de alguém.

Tento que valorize os abraços tanto quanto uma ida ao teatro.

Tento que goste de estar com as pessoas, mesmo que não haja grandes planos de saída de casa.

Gosto que venha brincar comigo para a cozinha quando preparo o jantar e, para isso, venha carregada com a artilharia de brinquedos para ficarmos bem rodeadas as duas enquanto conversamos.

Gosto que fique feliz quando me digo orgulhosa de uma sua conquista.

Quando me vê chegar à escola. Quando vê que o lanche é maçã, que era mesmo o que lhe estava a apetecer.

Quando consegue subir sozinha para o baloiço e baloiçar sem ajuda, ainda que não consiga chegar ao chão e me vê aplaudir e ficar feliz também.

Tento que se lembre que acordar de manhã junto a quem gosta dela, a abraça e a beija é suficiente.

Que entenda que nada lhe falta e, por isso, é sortuda.

Que é bom conversar, verbalizar o que sente, mas que não quero que se preocupe com o que não tem de se preocupar: para ser adulta estou cá eu.

Orgulho-me de a ver feliz a correr na relva, a subir às árvores, a comer um pedaço de pão. A encontrar um amigo no jardim e a fazer conversa. A oferecer os seus brinquedos e a combinar brincadeiras sem ser preciso incentivar.

A lembrar-se da prima quando lhe dou algo do Frozen e me pergunta se não posso comprar igual para ela, porque ela gosta mesmo muito da Elsa.

Que as pessoas que nos encontram no caminho para a escola sorriam ao vê-la cantar, alegre, logo pela manhã e lhe digam que esperam que ela continue bem disposta e feliz.

Porque ela é.

Com as pequenas e com as grandes coisas.

Espero continuar a ter um papel activo para que não se esqueça da importância das primeiras e a aprender a relativizar as segundas.

A felicidade está no que fazemos com o que temos, o que somos, o que a vida nos dá.

Às vezes bastava que nos lembrássemos de dar a mão a quem está ao nosso lado.

Porque tantas, tantas vezes, a felicidade é apenas estar lá.

Sem tempo para ser mãe

Provavelmente sempre que te imaginavas a ser mãe projectavas-te a dar colo ao bebé. Vias-te presente nas suas primeiras conquistas, a alimentá-lo, a partilhar momentos de ternura e carinho. A incentivá-lo a explorar o meio, a protegê-lo nos momentos em que se sentisse inseguro, a consolá-lo quando chorasse.

Acreditavas que estarias sempre lá, para amar e cuidar, sem restrições.

Provavelmente à noite deitas a cabeça na almofada e choras por não estares a cumprir o que prometeste. Cada lágrima tem o seu motivo – uma por não estares lá quando deu os primeiros passos, outra por teres perdido aquele momento em que se riu vezes sem conta. Mais uma por não teres sido tu a dar colo quando se assustou e chorou. Ainda outra por teres chegado cansada e teres ralhado desnecessariamente. Por fim um mar delas por sentires que estás a falhar enquanto mãe. Sentes-te sem tempo para ser mãe.

Provavelmente acreditas que não estás a ser quem deverias ser. Que trabalhas demasiado, que estás sempre ocupada com outras coisas, que dás tudo de ti em tarefas que não são essenciais. Não estás onde queres, não vais para onde queres, não fazes o que queres, não és quem queres ser. És aquela mãe sem tempo para ser mãe.

Entre chegar a casa, dar banho, fazer o jantar e preparar as coisas para o dia seguinte, ficas com a sensação de que não estiveste verdadeiramente com o teu filho, quase como se vivesses a realidade em modo automático. Dás por ti a pensar que o tempo passa a correr. Que os momentos são únicos e que não podem ser recuperados. Que a melhor parte da tua vida não está a ser vivida. Que te está a escapar por entre os dedos, que estás a permitir que o dinheiro se sobreponha à felicidade.

Provavelmente és perseguida pela culpa, aquela que te bate constantemente à porta.

A que durante o dia te sussurra ao ouvido que, naquele exacto momento, o teu filho deve estar a aprender uma coisa nova e que, mais uma vez, não estás lá para assistir. Porque te sentes sem tempo para ser mãe.

Ao vê-lo dormir, tão sereno e inocente, sentes uma vontade enorme de lhe pedir desculpa por tudo e, ao mesmo tempo, por nada. A raiva apodera-se de ti – Estou farta desta vida injusta! Por que não tenho direito a viver o papel de mãe?

Provavelmente existe um desequilíbrio entre a mulher e a mãe. – A mulher, mais especificamente trabalhadora, está a sufocar a mãe, ocupando mais espaço e  roubando-lhe a oportunidade de se desenvolver e afirmar.  É esta repressão da mãe que faz com que te sintas insatisfeita. Afinal, não vives em pleno todos os teus papéis!

Provavelmente gostavas que no final do texto aparecessem algumas dicas mágicas de como mudar a situação.

A única coisa que está ao meu alcance é dar-te algumas certezas que talvez te aliviem.

A primeira é que somos muitas a sentir o mesmo, a pensar o mesmo e a viver o mesmo. Acho que esta é uma espécie de condição inerente ao papel de mãe – a culpa e a maternidade tendem a andar de braço dado.

A segunda certeza é a de que não estás a falhar. A culpa não é tua, fazes certamente o que tem de ser feito com as oportunidades que acreditas ter.

A última certeza, e na minha opinião a mais importante, é a de que quando estás com o teu filho dás o teu melhor e é isso, mais do que a quantidade de tempo que passam juntos, que fortalece o vínculo (relação) que vos une. É um cliché, eu sei, mas realmente aplica-se a velha máxima de que a qualidade é melhor do que a quantidade.

Acredita que se naquele tempo em que estão juntos, ainda que seja pouco, o teu filho sentir que as suas necessidades são escutadas, que as suas vontades são compreendidas (ainda que não sejam cumpridas),que as suas limitações são respeitadas, que lhe é dado incentivo para explorar o meio e ao mesmo tempo um porto seguro para onde regressar caso deseje, ele terá a confirmação de que realmente é amado e está seguro.

Tal como todas nós, estás a dar o teu melhor. Não te culpes por isso, orgulha-te!

O tempo de qualidade é feito de rotinas, de momentos simples, de gargalhadas, de conversas, de amor, todos os dias.

Existe um mito que diz que os pais não passam tempo de qualidade com os filhos. E o que é isso do tempo de qualidade? Mais uma merda que alguém inventou para encher os pais de culpa. Como se o tempo de qualidade fosse apenas feito de experiências épicas ou de pais sentados no chão a brincar com os filhos de cronómetro na mão.

Não é.

Tempo de qualidade é quando estamos a tomar o pequeno-almoço no sofá e temos os miúdos à nossa volta a comer do nosso pão. É quando o pai está a pentear a mais velha com a delicadeza que eu não tenho, enquanto o mais novo lava os dentes sozinho. É vê-los a descer as escadas ao colo do pai e eu a pedir para falarem mais baixo porque os vizinhos estão a dormir.

Tempo de qualidade é quando chegamos a casa e os deixamos ver a Patrulha Pata e o Ruca e a Masha, enquanto o pai faz o jantar e eu lhes preparo o banho.
É dar banho aos dois ao mesmo tempo, lavar a cabeça dela, enquanto ela lava a cabeça do irmão, é tirá-los do banho e vesti-los na nossa cama.
Tempo de qualidade são as conversas com a mais velha durante o jantar ou quando jogamos à bola na sala antes de eles irem para a cama.
É estarmos as duas no sofá a colar cromos na caderneta da Bela e o Monstro ou vermos o E. T. até ao fim ou quando ela nos diz que sabe cantar em inglês as músicas do Música no Coração.
Tempo de qualidade é vê-los correr na praceta a chamarem os gatos da rua ou irmos ao parque dar pão aos patos. É vê-lo destemido a descer o escorrega pela primeira vez. Ou vê-la de caracóis ao vento no baloiço que a leva até à lua.

O tempo de qualidade é feito de rotinas, de momentos simples, de gargalhadas, de conversas, de amor, todos os dias.
Era bom que percebessem isso e deixassem de lixar a cabeça aos pais. Esta merda já é difícil o suficiente sem dedos apontados.

“Pensa nos teus filhos.” Quem nunca ouviu esta frase quando diz um ai?

Tenho mau humor pela manhã (e muitas vezes o dia todo), discuto sempre com o despertador e custa-me horrores não ceder à preguiça e sair da cama. Esqueço-me muitas vezes de tomar a medicação para a tiroide e quando vou a sair de casa volto atrás para meter perfume ou para ver se estou penteada. Tenho dezenas de cabelos brancos e a tinta para os pintar fica semanas à espera de energia para o fazer. Faço planos para cortar o cabelo ou arranjar as unhas e só o faço realmente em ocasiões especiais. É a minha filha que muitas vezes me diz que gosta dos meus pelos das pernas e com isso me lembra que é melhor fazer a depilação. Vou-me repetir: durmo mal há mais de dois anos. Faço o caminho de casa para o trabalho em piloto automático e dou por mim a dormir em pé no metro. Sinto-me horrivelmente desmotivada no meu emprego e pico o ponto com grande sacrifício. Há dias em que só queria que os miúdos tomassem banho, jantassem e fossem para a cama sozinhos, para eu poder enfiar a cabeça na areia como uma avestruz.

Não me recordo da última vez que peguei na máquina e saí para fotografar. Li apenas um livro este ano, o que deve ter sido mais que no ano passado e não faço ideia de que séries são essas de que todos falam. Não há dia em que não pense que depois de os deitar me vou sentar a escrever e quase todos os dias adormeço no sofá sem o fazer. Sinto-me muitas vezes cansada, esgotada, no limite. Também faço birras e tenho estados de alma. Sou impaciente, resmungo e detesto pessoas. Tenho medos. E são tantos. Desde ficar doente a andar de avião. Tenho desejos por realizar e às vezes os meus desejos passam simplesmente por dormir. Quando atravesso o rio e olho a minha outra margem sinto sempre saudades da minha mãe e dos meus irmãos. Às vezes preciso do colo da minha mãe. Também tenho saudades do meu marido e vejo-o todos os dias. Sinto falta dos nossos jantares demorados, das conversas pela noite fora, do sexo a qualquer hora.

Ser mãe é a mais incrível das viagens, com todas as suas aventuras e desventuras, dá-nos força para lá do imaginável. O mais difícil é não nos esquecermos de existir para além dos filhos, por isso quando alguém diz “pensa nos teus filhos”, devia antes dizer “pensa em ti”.

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A casa pode esperar, a minha filha não!

Foi facílimo escrever este título, saiu naturalmente, sem precisar de pensar muito. Contudo, posso-vos dizer que foi das aprendizagens mais duras que fiz.

Como se não fosse suficientemente exigente ser boa mãe, companheira, irmã, filha, amiga, entre outros, ainda esperam que sejamos excelentes donas de casa (às vezes não são os outros, somos nós).

No meio das horas a dar de mamar ou a preparar refeições com o equilíbrio perfeito de nutrientes e sabor, a mudar fraldas, a dar banho, a lutar para pôr o soro, a inventar brincadeiras super giras em que fazemos vozes e caras que até aí desconhecíamos ser capazes de fazer, a pensar nas melhores maneiras de estimular o seu desenvolvimento cognitivo e motor, a dar mimo, a embalá-los, a embalá-los e a embalá-los (para captar o número de horas que passamos nisto acho que tinha de escrever esta palavra pelo menos mais 52 vezes), ainda pensamos ou fazem-nos pensar que temos de ter a casa impecável, como se ao final do dia fosse aparecer aquele senhor do anúncio que passa uma luva branca no móvel para verificar se existem resíduos de pó.

Talvez algumas pessoas entrem em nossa casa e pensem  que “esta esteve o dia todo em casa e não fez quase nada“. Que “a maternidade a deixou desleixada“. Que “a Dona Maria da Luz tinha 5 filhos, vivia sem água potável e mesmo assim tinha  a casa sempre a brilhar“. Na verdade, pouco importa.

Lá em casa a felicidade mede-se pelo brilho dos olhos da minha filha, não pelo brilho do chão. Essa é a prioridade, a nossa missão!

Se isto não chega, vamos a factos!

Já alguma vez pensaram na duração do ciclo de vida de um filho? Imaginem um gráfico em que o número de horas de convívio começa bem lá em cima, mas depois disso vai descendo gradualmente até chegar à adolescência, altura em que desce a pique por, naturalmente, os pares (amigos, colegas, namoricos) passarem a ser prioridade.

Ainda que actualmente os jovens adultos vivam mais tempo com os pais, acabam por passar pouco tempo em casa. Bem espremido, isto talvez nos dê um total de 25 a 30 anos de convívio diário, sendo que apenas  12 ou 14 desses anos – na melhor das hipóteses – são de grande contacto; depois disso claro que continua a existir proximidade, mas não nos mesmos moldes.

Nessa altura, sabem quem é que estará à vossa espera? As tarefas de casa!

Essas vão conviver connosco até ao final dos nossos dias. Teremos montes e montes de tempo para elas. Até demasiado, e contrariamente ao que acontece com os nossos filhos, estas não se sentirão pouco amadas.

Ainda que por vezes te possa custar olhar para a roupa por passar, para a loiça do almoço por lavar, para aquele cotão no cantinho da porta que está sempre a aparecer lembra-te que é uma fase.

Acredito que a maternidade exija que façamos esta aprendizagem de viver feliz no meio do caos.

Mais para a frente terás milhões de horas para investir em ti enquanto dona de casa para andar a esfregar os cantos da banheira com uma escova de dentes.

A casa não sente a tua falta, não chora por ti, não vai um dia, dizer em voz alta que lhe proporcionaste uma excelente infância, não vai cuidar de ti quando um dia precisares.

Estás a investir em ti enquanto mãe, no teu bebé que precisa de tanto de ti para se sentir amado. Estás a construir uma relação sólida (vinculação) que determinará o futuro do teu filho de uma maneira que talvez nem antecipes. Estudos mostram que o vinculo dos pais com a criança condiciona a relação que esta irá estabelecer em adulto com os outros. Como irá lidar com adversidades, e moldará as expectativas relativamente ao mundo. Se é um lugar que nos acolhe cheio de potencialidades, ou um lugar assustador, recheado de obstáculos.

No fundo, diariamente ajudas alguém a construir-se, a descobrir-se e a descobrir o mundo, vives com o futuro nas mãos. Em relação ao resto das tarefas, amanhã também é dia! A casa pode esperar, a minha filha não!

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Fala-se muito em tempo de qualidade, mas os pais acabam por se ver enredados em tanta coisa do seu dia-a-dia que, às vezes, passam 1 hora ao lado dos filhos, mas com a  atenção no seu mundo, naquilo que deixaram por fazer, naquilo que ainda têm de executar, no chefe que estava mal disposto … Em tudo, menos na criança que está ao lado.

Na realidade, vale mais menos tempo, mas de total atenção.

Agora só tenho olhos para ti

Tente fazer isso durante uma semana todos os dias, peço-lhe apenas 15 minutos do seu dia. Se tem vários filhos pode fazer ao mesmo tempo com todos eles, o que é mesmo importante é que nesse momento seja mesmo você e eles, não há telemóveis, televisão, cozinhados, arrumações. Você está ali para eles, não importa o que faz, importa que está numa escuta ativa.

Conselho da semana

Nestes momentos repita a informação que eles lhe deram por outras palavras, por exemplo “Que bom, então deves estar mesmo contente com a novidade que o Miguel te deu isso é mesmo importante”. Nesse momento o seu filho pensará “uau, a mãe está mesmo a ouvir, não respondeu apressadamente Boa, boa, que giro”.

 

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“Então as aulas acabam as 16.30, correto?”

“Sim, mas depois ele segue para o ATL”

“Certo, e se marcássemos a sessão para as 18.00 então?”

“Não pode ser, ele a essa hora está a ir para a natação…”

“Então, a que horas poderia ser?”

“Não sei, mas provavelmente entre a aula, o balneário e o trânsito… Por volta das 19.30?”

“A essa hora o serviço já está a fechar e possivelmente fica muito tarde para depois o menino sair daqui as 20.30 e ainda ir jantar, brincar um pouco e dormir… Se calhar a outro dia da semana, o que acha?”

“É um pouco indiferente sabe, é que tem a natação as terças e quintas, depois tem o futebol às quartas e sextas, e tem dias em que depois ainda tem o piano e a explicação… Normalmente só estamos a jantar as 21… E é sempre uma correria, fica impossível a correr de um lado para o outro… Estar na cama às 22.00 é sempre um desafio…”

“Então quando é que ele brinca?”

Silêncio…

Esta conversa não é nenhuma conversa em particular, mas podia ser tanta conversa que tenho tido com diversos pais neste início do ano. Praticamente todos. Quase todos os pais que contactei no início deste ano letivo me disseram que o horário que preferiam seria o horário das 19.00 às 20.00, dado à indisponibilidade das crianças.

Então decidi fazer algumas contas: a maioria das crianças está na escola a ter aulas entre as 8.30 e as 16.00, sobrando depois o lanche que dura até as 16.30. Após este período costumam ir diretos para o centro de estudos ou para o ATL onde ficam, de novo a estudar, a fazer TPC ou outras tarefas académicas, até as 18.00. Após este período quase todos eles costumam ter atividades desportivas ou culturais que se prolongam até as 19.30. Se analisarmos bem estamos a pedir às nossas crianças que tenham um dia de trabalho entre as 8.30 e as 19.30. Isto significa 9 horas de trabalho intensivo, a crianças que frequentemente não têm mais do que 10 anos.

Pior, ainda pedimos isto às nossas crianças obrigando as mesmas a estar a maioria do tempo em silêncio, paradas e concentradas. E quando no final do dia a energia extravasa questionamos sobre o porquê.

A realidade é que algures no tempo nos esquecemos do que significa ser criança e da sua principal obrigação: brincar. Hoje tenho crianças em consulta que não sabem escolher uma brincadeira, que não sabem dizer qual o seu jogo preferido ou qual a parte da semana que gostaram mais.

Apesar de termos anos de investigação em educação e desenvolvimento infantil, continuamos a querer a toda a força que as nossas crianças sejam pequenos adultos que obedecem a horários laborais.

Compreendo e aceito perfeitamente a necessidade de praticar atividades extracurriculares. Aliás, enquanto terapeuta até aconselho diversas segundo o perfil das crianças e comprometo-me a falar deste tema com mais calma futuramente.

Mas temos de nos lembrar que estas atividades, junto com um ATL e uma escola não podem roubar o tempo de exploração de uma criança. Como já aqui disse, a criança aprende a explorar o ambiente, e esta estará altamente condicionada se  não lhe for permitido sair para o meio envolvente.

Outro problema prende-se com a formação da personalidade da criança. A criança precisa de não fazer nada. Este tempo é fundamental para que ela aprenda a tomar decisões sobre o que quer fazer. É preciso deixar as crianças aborrecerem-se para que estas mesmas crianças aprendam do que gostam de fazer e o que gostam de explorar, sem que isto lhes seja imposto por um horário rígido e sem tempo para ela própria.

Ainda, é impossível pedirmos a crianças que aprendam quando o cérebro delas está constantemente em esforço. A nós adultos acontece o mesmo. Quando temos um dia inteiro de frente para um ecrã torna-se altamente difícil estar concentrado e ser produtivo e nós já temos mecanismos que nos permitem lidar com esse tipo de frustração. Mas se para nós é difícil, imaginem para uma criança que ainda está a aprender a regular-se.

Sei que as obrigações do quotidiano e dos nossos horários condicionam os das crianças. Mas vamos permitir que as crianças tenham o direito a ser crianças, ou teremos uma geração de adultos que não vai compreender o quão bom é brincar.


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