Colectânea As Crianças e o Mundo | Racismo e Intolerância, de Louise Spilsbury | Refugiados e Migrantes, de Ceri Roberts ! Ilustração de Hanane Kai

O preconceito ainda hoje existe na nossa sociedade e, no seu quotidiano, as crianças vivem ou assistem a diversas situações injustas, perguntando-se como agir.

«Racismo e Intolerância» e «Refugiados e Migrantes» transmitem aos mais novos uma mensagem relevante e sensível sobre a aceitação da diferença

A coleção «As Crianças e o Mundo» apresenta uma excelente ferramenta para pais e educadores ajudarem as crianças a compreender conceitos e a saberem o que fazer nestas situações.

«Racismo e Intolerância» e «Refugiados e Migrantes» são os dois primeiros livros desta pertinente coletânea. A Bertrand Editora faz chegar às livrarias portuguesas a 19 de outubro.

A linguagem simples e os desenhos apelativos destes livros proporcionam uma conversa delicada e importante, para que um adulto consiga explicar, de forma acessível, temas difíceis e, infelizmente, atuais. Permite às crianças entender o que significam conceitos como «intolerância» e «refugiado». E em especial perceber as dificuldades que as crianças deslocadas ou excluídas sentem.

«Racismo e Intolerância» e «Refugiados e Migrantes» transmitem aos mais novos uma mensagem relevante e sensível sobre a aceitação da diferença e a importância da amizade, ajudando-os a perceber como lidar com estas situações e para que saibam que podem fazer a diferença.

Sinopses

Por vezes, as crianças ouvem, nas notícias, palavras que não entendem e que as deixam preocupadas. Com ilustrações lindíssimas e uma linguagem acessível, Racismo e Intolerância e Refugiados e Migrantes procuram responder às suas perguntas e oferecer soluções encorajadoras.

«Racismo e Intolerância»

Louise Spilsbury é autora de livros infantis, com mais de 200 títulos publicados, todos na área da pedagogia e da educação. Já escreveu um pouco sobre tudo, desde ciência a geografia, passando por assuntos internacionais, problemas sociais, arte, história e literacia.

«Refugiados e Migrantes»

Ceri Roberts é jornalista, palestrante, editora e escritora freelancer que trabalha para vários meios de comunicação de destaque.

Sobre a ilustradora

Hanane Kai é ilustradora e designer. A sua aspiração é que as suas ilustrações toquem e dêem que pensar aos adultos e crianças que as vêem. Vive e trabalha no Líbano.

FICHA TÉCNICA

Género: Literatura/Infantil

Formato: 22 x 22 cm – capa dura

No de páginas: 32

Data de lançamento: 19 de outubro de 2018

PVP: 8,80 €

Tradução: Maria Rita Furtado

A tolerância zero que separa pais e filhos

Nos últimos dias têm-nos chegados inúmeras imagens, reportagens e relatos sobre o que se passa na fronteira do México com os Estados Unidos da América. E o que se passa é que, devido à nova política de tolerância zero, todos os imigrantes ilegais apanhados a atravessar a fronteira sem documentos ou em raids de fiscalização, e que se façam acompanhar dos filhos menores, serão levados para responderem por um crime federal. E os seus filhos serão também eles levados, em fila indiana, para tendas no deserto (onde no exterior se fazem sentir mais de 38º) ou para gaiolas de arame, sem saberem o paradeiro dos pais. Sem saberem se voltarão a vê-los. Sem saberem onde estão ou o que está a acontecer, na maioria dos casos.

Nestes campos de retenção onde as crianças aguardam um veredicto chegaram, desde Abril, mais de duas mil crianças. Antes desta política da administração Trump, o que acontecia era a deportação (dos pais e dos filhos) para os países de origem se não houvesse registo de reincidência.

A minha preocupação aqui não é política, a minha preocupação é de mãe.

E ao ver crianças de dois anos a chamarem pelos pais, pelas mães, a chorarem em desconsolo e desespero, não consigo aceitar que isto aconteça. E muito menos no tão chamado país das oportunidades. No país que encabeça a lista dos mais desenvolvidos. No país que é feito de tantas culturas, de pessoas com as mais variadas origens.

Estas crianças estão a chegar da Guatemala, das Honduras, do México, de El Salvador. Estas crianças falam, na sua maioria, espanhol. Nunca ouviram falar inglês.

E estão longe dos pais.

Não imagino o que será ter de tomar a decisão de deixar tudo para trás e arriscar. Para poder procurar um futuro melhor para os meus filhos, para lhes proporcionar paz, segurança, educação. Para sobreviver. Estas pessoas fogem da guerra, da violência armada, da fome, da pobreza extrema, da instabilidade política, da perseguição religiosa. Estas pessoas só querem poder ser pessoas, viver uma vida digna. E muitas arriscam, levando os filhos consigo.

E tantas vezes não conseguem chegar mais longe.

Bem sei que a chegada de milhares de pessoas às fronteiras levanta problemas. Nós por cá, pela europa, temos sido confrontados com a situação dos refugiados e muito se tem falado, discutido, criticado e as soluções a que se tem chegado parecem insuficientes. A mim pouco me importa a política, a mim importa-me o lado humano.

Importa-me que se separem os pais dos filhos.

Houve inclusivamente pais a tirarem a própria vida porque não concebiam a ideia de viver sem os filhos. Porque o que acontece quando forem condenados ao tal crime federal? É tudo tão complexo e injusto e nós somos apenas humanos. Cometemos erros.

“Mas os pais são criminosos!”. Aos olhos da lei até pode ser, mas então precisamos procurar soluções para que não seja preciso cometer um crime para se procurar uma vida melhor (e aqui o crime em causa é andar dias a fio sob um sol abrasador, carregando apenas os filhos, a roupa do corpo e uma esperança cega de que vai valer tudo a pena, muitas vezes pagando por documentos que nunca chegam a existir, tantas vezes extorquidos ao máximo…).

Estamos em 2018 e não é razoável que eu tenha de mudar de canal porque a minha filha percebe que algo se passa e pergunta onde está o pai daquela menina que está a chorar.

E por isso abraço-a. E repito-lhe como somos sortudas. E tento explicar que lá fora há quem tenha vidas diferentes, caminhos diferentes, pessoas a cometerem actos de loucura, de amor, de coragem, para tentarem ter aquilo que damos como garantido.

Abraço-a tanto quanto posso e prometo que se algum dia chegar a nossa vez de tomar decisões, tentarei tomar a melhor. Para que nunca tenhamos de viver separadas quando o natural é andarmos mão na mão.

Haverá sempre alguma coisa que se possa fazer.

Em relação que se passa nos EUA, ao que se passa em Itália e na Grécia, em Espanha. Por todo o mundo.

Informem-se, se acharem que é importante ajudar.

Mas, acima de tudo, abracem os vossos filhos.

Porque num destino paralelo, a esta mesma hora, do outro lado do oceano há quem tenha os seus filhos arrancados dos braços, sem piedade. Quem sabe se para sempre.

Escrevo …!

Escrevo, muitas vezes sem saber o quê!!!

Escrevo para dar voz aos rios que correm, ao amanhecer, ao sol, ao desabrochar das plantas, a Amizade, à partilha …

Mas hoje …hoje, eu quero escrever sobre algo que me atormenta e me mutila …!!!

Nos dias que correm tenho os olhos estão lassos de ver/ler a tragédia que se abate sobre todas as pessoas, que são obrigadas a abandonar a sua casa, o seu país, numa fuga desordenada, sem destino, correndo …correndo, tentando passar entre os “pingos” das balas, carregando com elas apenas uma parafernália de sentimentos onde o mais poderoso é …o medo!

Pergunto (me) …até quando? Até quando os seres humanos se vão dividir por raças, religiões, ideologia, crença, etc … sendo que o resultado dessas divisões recai sempre naqueles seres pequeninos que nada sabem, mas tudo entendem. São elas, as crianças, as principais vítimas de uma desordem gigantesca, que embrulha o ser humano. São elas, que em simultâneo com as lágrimas que derramam gritam “Quando morrer vou contar tudo a Deus”. E dizem-no em consciência de que o Todo-poderoso castigará os “maus”, os que mataram toda a família deixando-a no mais profundo desamparo, num incompreensível vazio …esse vazio, que jamais será ocupado, pois de lá foi roubado o seu direito a SER CRIANÇA.

Sozinhas no Mundo, deambulam …à mercê de todos os perigos, de um futuro incerto, de um projeto de vida, de … um colo!

Então e como deveremos nós, pais agir com os nossos filhos, frente a esta problemática? Penso que os deveremos informar, com um vocabulário adaptado à sua faixa etária. Não temos o direito de os colocar numa redoma de vidro, para que tudo que é triste, mau, negro, não os atinja. Bem pelo contrário. É nossa obrigação mostrar-lhes, que o mundo também é composto por pessoas menos boas, por cores onde o cinzento e o preto existem. Que os dias não são só de sol e que todos nós, incluindo elas próprias têm o direito de se sentirem tristes, mesmo que não saibam o porquê. Sensibilizar os nossos filhos para as problemáticas mundiais, para a fome, para a guerra, para os desalojados, para o desemprego, para a criminalidade, enfim … para tudo que se insere na parte negra do mundo, pois também ela faz parte desse mundo onde vivemos e não a podemos esquecer.

Sensibilizemos os nossos filhos, para os valores, ajudemo-los a educar o coração, a amar o Outro.

Eu sei, que muitos de nós, pais, tudo faremos para “isolarmos” os nossos filhos do mal mundial, porque são os nossos filhos e queremos que vivam felizes na sua redoma onde nada nem ninguém os possa entristecer. Mas ….CRESCER faz doer!

A nossa obrigação é … prepará-los para a vida e a dor faz parte desse processo!

“A DOR É O SAL DA SABEDORIA” – (Eduardo Sá)

Por Inês Clímaco, para Up To Kids®
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imagem@findingjustice

1. Migrantes e refugiados aglomeram-se do lado de fora da Estação Ferroviária de Budapeste.Migrantes e refugiados se aglomeram do lado de fora da Estação Ferroviária de Budapeste pela segunda noite consecutiva ontem.

Zoltan Mathe / AP

2. Mais de 150.000 pessoas chegaram à Hungria este ano, sendo que a maioria veio pela fronteira sul com a Sérvia, viajando de lugares como Síria, Afeganistão e África Subsaariana.Mais de 150.000 pessoas chegaram à Hungria esse ano, sendo que a maioria veio pela fronteira sul com a Sérvia, viajando de lugares como Síria, Afeganistão e África Subsaariana.

Zoltan Mathe / AP

3. A Hungria respondeu à crise construindo uma cerca ao longo da fronteira com a Sérvia.A Hungria respondeu à crise construindo uma cerca ao longo da fronteira com a Sérvia.

Attila Kisbenedek / AFP / Getty Images

4. As pessoas do lado de fora da estação de comboio estão atualmente num impasse com a polícia húngara, pois tentam viajar para outros países europeus.As pessoas do lado de fora da estação de trem estão atualmente em um impasse com a polícia húngara, pois tentam viajar para outros países europeus.

Petr David Josek / AP

5. Nenhum comboio internacional sairá da estação.Essa manhã, a Sky News noticiou que nenhum trem internacional sairá da estação.

Leonhard Foeger / Reuters

6. As fronteiras do país com a Áustria e a Eslováquia foram fechadas, de acordo com a CNN.As fronteiras do país com a Áustria e a Eslováquia foram fechadas, de acordo com a CNN.

Leonhard Foeger / Reuters
Pessoas pernoitam atrás de grades numa estação subterrânea próxima à estação de trem Keleti, em Budapeste, Hungria, no dia 2 de setembro de 2015.

7. Alemanha, Itália e França pediram que as leis de asilo da Europa fossem revistas, tendo em vista o despertar da crise.Alemanha, Itália e França pediram que as leis de asilo da Europa fossem revistas, tendo em vista o despertar da crise.

Bela Szandelszky / AP

8. A Grã-Bretanha foi criticada pela imprensa americana por se recusar a aceitar mais migrantes.A Grã-Bretanha foi criticada pela imprensa americana por se recusar a aceitar mais migrantes.

Laszlo Balogh / Reuters

9. Entretanto, David Cameron disse que “receber mais e mais refugiados” não é resposta para a crise.Entretanto, David Cameron disse que "receber mais e mais refugiados" não é resposta para a crise.

Bernadett Szabo / Reuters

10. A Alemanha espera receber cerca de 800.000 migrantes esse ano – a Grã-Bretanha disse que não receberá mais do que mil.A Alemanha espera receber cerca de 800.000 migrantes esse ano - a Grã-Bretanha disse que não receberá mais do que mil.

Zoltan Balogh / AP

11. Na semana passada, 71 pessoas morreram em um caminhão que viajava da Áustria a Budapeste.Na semana passada, 71 pessoas morreram em um caminhão que viajava da Áustria a Budapeste.

Petr David Josek / AP

12. Enquanto isso, milhares de migrantes têm chegado à Grécia continental.Enquanto isso, milhares de migrantes têm chegado à Grécia continental.

Visar Kryeziu / AP

13. A Macedônia declarou estado de emergência  para lidar com a crise.A Macedônia declarou estado de emergência na quinta-feira para lidar com a crise.

Giannis Papanikos / AP
Abed Hadi, de 19 anos, alimenta seu sobrinho enquanto espera para cruzar a fronteira da cidade de Idomeni, no norte da Grécia, para o sul da Macedônia.

14. Muitos dos que chegaram inicialmente nas ilhas gregas estão a tentar ir até o norte da Europa.Muitos dos que chegaram inicialmente nas ilhas gregas estão tentando ir até o norte da Europa.

Alexander Zemlianichenko / AP
Iranianos discutem com a polícia de choque grega enquanto esperam seus registros próximo a uma estação policial na ilha grega de Kos, segunda-feira, 17 de agosto.

15. A BBC informou que cerca de 44 mil pessoas viajaram pelo país nos últimos dois meses, e que arames farpados foram colocados na fronteira para evitar que mais pessoas entrem.A BBC informou que cerca de 44 mil pessoas viajaram pelo país nos últimos dois meses, e que arames farpados foram colocados na fronteira para evitar que mais pessoas entrem.

Giannis Papanikos / AP
Criança enrolada em um saco de dormir enquanto espera próximo à estação de trem de Idomeni, na fronteira norte da Grécia, em 18 de agosto de 2015.

16. Mais de 3 mil pessoas chegam às ilhas gregas todos os dias.Mais de 3 mil pessoas chegam às ilhas gregas todos os dias.

Alexander Zemlianichenko / AP
Uma mulher síria carrega seu filho após sua chegada de manhã cedo em um bote na ilha de Kos, sudeste da Grécia, na quinta-feira, 20 de agosto de 2015.

17. Pessoas que tentavam cruzar a fronteira da Grécia com a Macedônia entraram em confronto com a polícia na fronteira, de acordo com a revista Time.Na quarta-feira, pessoas que tentavam cruzar a fronteira da Grécia com a Macedônia entraram em confronto com a polícia na fronteira, de acordo com a revista Time.

Darko Vojinovic / AP
Homem e garoto presos entre a polícia de choque da Macedônia e migrantes durante um confronto próximo à estação de trem Idomeni, na fronteira norte da Grécia, em 21 de agosto de 2015.

18. O governo grego fretou navios para levarem mais de 4 mil pessoas partindo de Lesbos, conforme o The Independente.O governo grego fretou navios para levarem mais de 4 mil pessoas partindo de Lesbos, conforme o The Independente.

Visar Kryeziu / AP
Um homem chega com seu filho na costa da praia de Kaya, próximo à vila de Skala Sikaminea, na ilha de Lesbos, ao sudeste da Grécia, no dia 21 de agosto de 2015.

19. Gauri van Gulik, diretora da Anistia Internacional na Europa, disse à emissora: “As autoridades macedônias estão respondendo como se estivessem lidando com arruaceiros ao invés de refugiados que fugiram de conflitos e perseguições”.Gauri van Gulik, diretora da Anistia Internacional na Europa, disse à emissora: "As autoridades macedônias estão respondendo como se estivessem lidando com arruaceiros ao invés de refugiados que fugiram de conflitos e perseguições".Win Mcnamee / Getty Images
Um menino sírio chora enquanto seu pai o carrega em uma colina íngreme para chegar à fronteira entre Grécia e Macedônia, próximo a Idomeni, em 3 de setembro de 2015.

Alan White is a reporter for BuzzFeed News and is based in London.

I HAVE A DREAM (Martin Luther King 15/01/1920 – 04/04/1968)

Nota de autor: Escolhi o título “I HAVE A DREAM”, porque enquanto pessoa, e excluindo quaisquer convicções políticas, espero que um dia todos tenham o direito de sonhar e acima de tudo viver.

Eu podia começar assim o meu texto…
Eu tenho o sonho de que um dia o mundo se torne justo e seguro para todos. Que todos tenhamos os mesmos direitos e valores…

Estou na Sérvia. Vim ter com o meu marido que actualmente trabalha e reside aqui. No dia em que chegamos, o João estava a trabalhar e fiquei sozinha com os miúdos no apartamento, por isso decidi sair para conhecer a cidade. Até aqui parece um cenário normal, não é?
Mas o que eu vi estava para lá de longe da minha realidade diária.

O que eu vi, ao vivo e a cores, foi o que vejo na televisão, nos videos que passam no facebook e na internet, e confesso que na maioria das vezes, simplesmente, ou mudo de canal, ou nem sequer faço play no vídeo. Porque não é em Portugal e porque na grande maioria das vezes é doloroso de ver.

VI REFUGIADOS…palavra tão actual nos dias de hoje.

Mas na verdade o que vi foram mães, pais, filhos, avós, bebés, idosos…num jardim cedido pela cidade de Belgrado, mas sem quaisquer condições de higiene, em parte devido ao elevado número de pessoas que chegam diariamente a esta cidade.

Com as chuvas que se fizeram sentir na semana passada, ainda ficou mais caótico… procuraram abrigo em estacionamentos subterrâneos, provocando medos e inseguranças aos residentes, situação que não foi bem aceite por todos.

Como companhia todos carregam sacos de plástico, onde transportam os seus poucos pertences.

refugiados

E o que fazem eles aqui?

Tentei saber mais, mas não domino a língua e fui aconselhada a não os abordar sozinha. O certo é que eles estão visíveis aos olhos de todos, no Jardim Central, junto dos transportes públicos,

Belgrado é apenas um ponto de passagem, onde descansam dois ou três dias e perseguem a sua “viagem”, sendo que agora têm de ser mais rápidos, visto que a Hungria decidiu “fechar”as fronteiras, colocando arame farpado e acompanhamento policial.

Perdi-me a olhar para aqueles rostos sem expressão que, cansados, olhavam em redor, quiçá, à procura de um amigo, de um familiar, de um filho, que tenha iniciado esta viagem sem fim com eles.

Vi dor, angústia, medo, solidão, mas vi também amor, nos braços da mãe que envolvem o seu bebé ao colo, na forma como o pai leva água a boca da sua filha, na firmeza que o avô agarra na mão da avó que caminha a seu lado, no abraço dado por um grupo de amigos…

Houve um episódio que me marcou: um grupo de pessoas beijava à vez uma nota, suponho que fosse do seu país de origem. Seria a agradecer a sua chegada ali? Não sei… Fosse qual fosse o motivo, aquela conivência emocionou-me.

Mas vi acima de tudo ESPERANÇA, na sua mais pura e verdadeira forma…nos olhares brilhantes que encontrei nas suas faces sujas, porque eles acreditam, e eu quero acreditar, que a viagem há-de ter um final feliz: que irão encontrar um sítio onde vão conseguir viver em paz.

I HAVE A DREAM, de que um dia as guerras acabem, e os governantes deste mundo percebam que ele é feito de gente simples, pessoas como eles, como eu, como tu e que a única coisa que querem é ter uma VIDA…tão simples, ter direito a viver, sem medo, sem opressões.

Por quererem esse direito de viver, fugiram de um país que há muito deixou de ser seu. São famílias inteiras, separadas, são crianças sozinhas, jovens que se aventuram pelo desconhecido, tendo de lidar por vezes com a maldade humana, com pessoas que se aproveitam destas situações para escravizar homens, mulheres e crianças.

É lutar pela sua sobrevivência e caminhar sem nunca olhar para trás.  É avançar contra todas as adversidades, não saber falar a língua dos países por onde se passa, não saber onde nem quando vão poder descansar. Muitos não sabem o paradeiro dos seus pais, dos seus irmãos, dos seus filhos. Mas sejam quais forem as condições que lhes sejam dadas, serão sempre melhor do que aquilo que deixaram para trás.

I HAVE A DREAM…de amanhã ligar a televisão e esta realidade já não existir.

 

Catarina Garrau Santos, mulher, mãe, cidadã do mundo, Sérvia, para Up To Kids®
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Menores que procuram asilo correm mais riscos de serem explorados por traficantes para trabalho forçado, venda de droga ou prostituição, isto depois de sobreviverem a guerras e a viagens perigosas.

Uma das imagens marcantes de refugiados a chegar à Europa pode ser a de um pai sírio que chora ao sair de um barco e pôr os pés na Grécia, segurando firmemente os seus dois filhos, um em cada braço. Uma das histórias pode ser a de um bebé recém-nascido entre vários menores não acompanhados resgatados numa operação dos Médicos Sem Fronteiras no mar da Líbia. São imagens tiradas em apenas um momento de viagens que estão a demorar semanas ou meses, são histórias contadas a traços largos ouvidas quando ainda vão a meio. E cada vez mais, nestas imagens e nestas histórias de quem tenta chegar à Europa para fugir de guerras e perseguições, há crianças.

Vêem-se muitos rostos muito novos: saem dos barcos em Itália ou na Grécia entre os adultos, passam o arame farpado na Hungria, entram na linha de comboio em Calais, estão entre os mortos do camião na Áustria.

Viajaram sozinhos ou com alguém que morreu na viagem. Ou a família desdobrou-se e cada um procurou um país diferente, tentando aumentar as hipóteses de um deles conseguir asilo e os outros poderem apelar à reunificação familiar e juntarem-se todos de novo.

Mas as crianças e os menores são especialmente vulneráveis e ficam ainda mais sujeitos a perigos vários, desde problemas de saude, até morte, por falta de água ou alimentos, à exploração às mãos de redes de crime organizado, que os tentam usar para tráfico de droga ou prostituição.

Os números confirmam a impressão de que há cada vez mais menores, muitos ainda crianças, a fazer viagens perigosas para conseguirem chegar a países europeus sem terem consigo qualquer adulto encarregado por eles: segundo a organização Save the Children, nos primeiros meses do ano entre mais de 80 mil migrantes que chegaram a Itália, 6000 eram menores, dos quais 3830 chegaram sozinhos. Em 2014, o número de chegadas de menores sozinhos foi de 13.030, três vezes mais do que no ano anterior, acrescenta a organização.

Na Grécia, apenas em Junho, chegaram 4720 menores às ilhas em barcos vindos da Turquia. Destes, 86 viajavam sem um adulto responsável por si. Na Hungria, segundo o Alto-Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR), entre os pedidos de asilo feitos na Hungria este ano, 140 mil no total, havia sete mil de menores não acompanhados.

Muitos deles, no entanto, desaparecem dos centros governamentais nestes países de passagem muito rapidamente. Nunca se sabe se seguiram viagem para o destino pretendido, como Alemanha ou Suécia, ou se ficaram nas mãos de traficantes. Entre os menores que foram registados em Itália em 2014, 3707 desapareceram.

Em Dover, Inglaterra, onde querem chegar a maioria dos migrantes e refugiados acampados em Calais, os serviços dizem que o número de menores a chegar da Síria ou Iraque a precisar de protecção chegou a mais de 600, quando no ano anterior era de 238.

O mais novo tinha sete anos
Num centro de dia da organização Praksis, em Atenas, passam muitos migrantes e refugiados todos os dias para usufruir dos serviços: um tecto quente ou fresco conforme seja Inverno ou Verão, lavagem de roupa, cabeleireiro, televisão, computador com Internet. Alguns são crianças. “O mais novo que tivemos a passar por aqui tinha sete anos”, contou Christos Eleftherakos, psicólogo na Praksis, numa visita do Público em Junho. A organização ajuda sem pedir documentos, por isso não há números certos que permitam dizer quantos menores passaram por aqui, mas serão muitos, diz o psicólogo. As razões são diferentes: “podem-se ter perdido da família na viagem, podem-se ter separado intencionalmente para pedir asilo em países diferentes.”

Ainda assim, é muito impressionante pensar em crianças sozinhas em viagens tão perigosas e, depois disso, à deriva em grandes cidades onde tudo é estranho, desde o sistema de transportes à língua.

[fonte] Ler artigo completo aqui no Público

Em Publico/Noticia/Cada vez há mais crianças a chegar à Europa sozinhas

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