Eu pai. Eu psicólogo.

O dia do Pai chegou e para assinalar esta data que se esforça por recordar aos pais a importância do seu papel na educação e vida dos filhos, mas que também, curiosamente, se esforça por incentivar os filhos a dizerem o quanto gostam e amam os pais, foi-me pedido um pequeno texto com o título “eu Pai, eu Psicólogo”. Logo eu, cuja experiência em ambas as facetas é ainda tão jovem.

Não considero que ambos os papeis sejam comparáveis e se o são, são-no tanto ou tão pouco como a experiência de escrever algo (de opinião) através do qual me irei expor a tantas outras perspetivas e opiniões. Um pouco como pai, que acaba por aqui ou ali ficar debaixo do olho de quem observa a “arte de quem educa”, principalmente quando a exigência das circunstâncias assim a dita (refiro-me aquelas desconfortáveis experiências que, imagino que a tantos pais também, e mães, nos reportam e quase transportam para uma vivência emocional quase adolescente).

A responsabilidade entre escrever um texto e educar uma criança só seria próxima se eu fosse um género de Dalai Lama, ou Papa Francisco, que quando falam tocam milhões. Lembro-me de ter assistido num documentário (não me lembro qual nem quando), que estimava o número de pessoas que em média uma pessoa conhece em vida (também não me recordo quantas). Onde quero chegar é que uma criança tem um potencial tremendo, e como pai sinto-o como uma responsabilidade enorme que de certa forma tenho de relativizar para não cair em dramas. Enquanto psicólogo, a responsabilidade é igualmente grande, ou não existiria um código ético e deontológico que procura nortear a prática, nem uma vontade interior de fazer a diferença na vida de pessoas que de certa forma não estão a conseguir melhor (por si ou por meio de outras estratégias). É certo que se vejo um filho meu como criança com potencial tremendo, assim o vejo toda e qualquer outra criança, e ter assumido o papel de psicólogo de crianças, jovens e adolescentes…. Acho que o fiz com a mesma ideia que tinha quando enquanto adolescente dizia convicto “Eu? Quero ter uns 5 filhos!”. Que vontade de rir me dá agora ?

Pensar no ter sem pensar na manutenção que esse algo que se tem implica pode revelar-se uma verdadeira aventura. O pânico que senti quando soube que vinha o segundo (sim, porque nenhum dos dois foi planeado), bateu numa parede que soou a música para os meus ouvidos e algodão doce para o meu coração “Na vida tudo se cria!”. Que bom, talvez a filosofia Carpe Diem se aplique à parentalidade como uma luva.

Como psicólogo, a responsabilidade que sinto ainda não encontrou parede semelhante. Antes pelo contrário! Sedento de Agostinho da Silva por quanto mais o conhecia, que acabei, durante a formação, perante um enorme precipício. “A psicologia é uma ciência pela qual tive sempre a maior das desconfianças porque sempre me pareceu uma detestável e condenável intervenção na vida alheia, uma quebra do que existe de mais sagrado, a intimidade espiritual de cada um.” Que tinha feito eu ao escolher tal via profissional? Que papel poderia eu desempenhar que melhor serviria a determinadas necessidades da criança, que os pais não pudessem suprimir?

A responsabilidade para com os pais sinto-a como um enorme desafio. Responsabilidade pelo respeito à individualidade de cada um e à sua historia. Respeito porque quando percebo… tenho os meus telhados de vidro. Deparar-me com crianças com as mais diversas dificuldades, sejam sociais, comportamentais, psicológicas ou emocionais, e constatar que tantos dos pais procuraram e procuram dar o melhor de si, numa luta que se estende a tantos outros dos seus papeis. Pai e mãe, marido e esposa, trabalhador e trabalhadora, homem e mulher, filho e filha… Hoje li que pai presente será sempre um herói para o seu filho (Acho que queriam escrever presente com letra maiúscula). Assim o será cada mãe, e provavelmente com poderes mais complexos e polidos.

Que erros estarei eu a cometer enquanto pai achando que estou a fazer o melhor? E como psicólogo? Sim, porque um psicólogo também é pessoa e também erra. Ainda que agarrado à responsabilidade e brio de querer e fazer por ser melhor profissional a cada dia.

Como psicólogo, gosto de me ver como um facilitador da condição humana.

Como pai, não consigo encontrar as palavras. Talvez, e lá está o drama, como um corajoso que diariamente procura estar para eles (são dois, um de 3 anos e meio e outro de 5 meses). Serei também aqui um facilitador da condição humana?

De certa forma soa a redutor num papel de pai. Mas não será mesmo isso ainda que numa escala diferente?

Como pai e como psicólogo, espero estar a contribuir para um mundo melhor. Sem grandes certezas, o que me recorda uma passagem do livro A insustentável leveza do ser de Milan Kundera. “O homem, porque não tem senão uma vida, não tem nenhuma possibilidade de verificar a hipótese através de experimentos, de maneira que não saberá nunca se errou ou acertou ao obedecer a um sentimento. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado” … e continua “Nunca saberemos, de facto, se a intuição que nos determinou seguir certo sentimento foi correta ou não. Não há tempo para essa verificação. Por isso, precisamos de cuidar as nossas emoções com um carinho muito especial”

Não quero concordar ou discordar, mas a reflexão leva-me a que podemos e devemos fazer o nosso trabalho de casa para que enquanto pais e profissionais consigamos antecipar a antecipável.

Enquanto pai e enquanto psicólogo, cuidar das minhas emoções com um carinho muito especial, sem esquecer, cuidar dos outros com a mesma dedicação.

Um feliz dia do pai a todos os pais!

Um feliz dia a todas as mães!

Um feliz dia a todos!

Por Nuno Duarte

Sebastian tem dois anos e, tal como o seu pai, é um fã incondicional de Star Wars.

Um dia o pai resolveu pregar uma partida ao filho: mascarar-se de Darth Vader, encarnar a personagem e acordar o pequeno Sebastien de sabre de luz na mão!

Planeou tudo: preparou o fato, arranjou um aparelho para modificar a voz, obteve uma autorização assinada da mãe avançar com a brincadeira, montaram-se as câmaras de vídeo e escolheu-se a manhã em questão.

Os pais estavam expectantes para ver a reação do Sebastien, mas o que aconteceu foi muito melhor do que qualquer um poderia ter imaginado.

O pequeno Sebastien mostrou ao comum dos mortais como se trata do Darth Vader em poucos minutos.

Veja o vídeo!

Costuma dizer-se que os homens são todos iguais.

E os pais? Será que se pode afirmar que, também, são todos iguais? É sabido que, se uns são severos, outros são mais descontraídos. Uns são sérios e mantêm sempre a compostura, outros são brincalhões, pregam partidas e estão sempre prontos para jogar ou brincar com os miúdos. Uns dedicam mais tempo à família, outro dão (ou têm de dar) preferência ao trabalho. Mas a pergunta que se impõe é, será que os homens enquanto pais partilham as mesmas preocupações? O mesmo discurso para os filhos?

Deixamos aqui 15 frases que acreditamos que todos pais dizem aos filhos:

  1. Quando eu tinha a tua idade… ou,  No meu tempo…

    Sempre, no início de qualquer sermão. Está para os sermões como o Era uma vez para a histórias de fadas.

  2. Isto não é o portão da quinta!

    Quando alguém bate a porta do carro ou de casa com um bocadinho mais de força do que aquele mísero encostar que o pai faz.

  3. Sabes lá o que é cansaço! ou, Sabes lá o que é trabalhar!

    Sempre que um filho se queixa de estar cansado ou ter muitos trabalhos de casa! Sim porque o único que sabe o que é trabalhar lá em casa… é o Pai!

  4. Só te faz é bem!

    Sempre que os miúdos se queixam de qualquer coisa: de algum trabalho que tenham tido, algum esforço que fizeram, ou até da molha que apanharam quando começou a chover no caminho para casa. É a regra do “O que não te mata, faz-te mais forte

  5. Não me faças parar o carro.

    Quando vão a implicar uns com os outros no banco de trás, a empurrar-se, a beliscar-se ou simplesmente com uma birra qualquer sem sentido. É desta que o Pai encosta o carro e deixa um ou dois no Km 8 da autoestrada.

  6. Enquanto viveres debaixo do meu tecto…

    Quando os miúdos querem fazer alguma coisa à sua maneira, ou chegar a casa nos horários que lhes apetece. Este chavão os pais usam mesmo que os filhos já tenham 30 anos. Desde que ainda vivam debaixo do tecto dos pais, é sempre válida

  7. Estás de castigo… 6 meses! Ou 6 anos! Ou para sempre!

    Normalmente os pais não são muito realistas a aplicar castigos. “Estás de castigo. Nunca mais sais à noite!” – Hummm?? Como assim? N-u-n-c-a não será tempo a mais?

  8. O dinheiro não cresce nas árvores!

    Sempre que os miúdos pedem para comprar mais um pacote de cromos, sempre que perdem mais um par de sapatilhas na ginástica, sempre que deixam brinquedos espalhados a estragarem-se, enfim… Sempre que o pai sente o império ameaçado

  9. Não se come no carro!

    O automóvel é que não! Até já podem ter rebentado com a casa toda, mas o carro tem de andar impecável!

  10. Juízo!

    Juízo e cabeça fresca, são as palavras de ordem de qualquer pai preocupado com uma saída dos filhos!

  11. Sozinha? Nem pensar!

    E não mesmo. Nem que o pai vá também para que os outros miúdos saibam que não és orfã!

  12. Os outros não são meus filhos…

    Esta sai sempre que os miúdos se tentam defender com  o argumento de comparação “Mas os meus amigos também fazem assim!

  13. Agora, está a dar o jogo…

    Quando os filhos pedem qualquer coisa ao Pai. Obvio que está a ver o jogo…. E parece que há jogo todos os dias! Irra!!

  14. Vai perguntar à mãe!

    A resposta mais usada dos pais, a seguir à:

  15. Onde é está a mãe?

    No sitio do costume, mas é sempre mais fácil perguntar que procurar!

 

Claro que se pedia uma abertura com espírito infantil. Não gosto de ti. Adoro-te! É assim, com alma de eterna criança que fico quando penso em ti pai.

Sou pai há 12 anos. Mesmo assim acho que nunca vou ter altura para entender o mistério. Não vou ter palavras para definir. Nem há medidas para tal quantidade de sentimentos.

Aprendi tanto contigo, pai. Mas gostava de deixar aqui registado a lista das dez coisas mais inesperadas que me transmitiste.

1 – Quando pediste ao avô para me levar até ao fim da rua numa volta mágica de carro, para que tu e a mãe tivessem tempo de deixar a árvore de natal repleta das prendas desejadas, ensinaste-me o valor do onírico, o desejo de sonhar, a vertigem do inesperado cheio de humor. Ainda hoje sinto o coração a vibrar quando me lembro da cena.

2 – Quando me perguntaste quais eram as minhas intenções com aquela que veio a ser a mulher da minha vida, ensinaste-me a responsabilidade, a gentileza e o respeito.

3 –  Quando me perdoaste rápido pelo erro grave naquele local onde treinavas, senti a segurança eterna e blindaste-me. Esse amuleto, trago sempre comigo. Para sempre comigo.

4 – A tua caixa de madeira com moedas raras, os teus perfumes, os teus isqueiros, ensinaram-me o valor dos hobbies para a vida plena. A tal vida abrupta e, por vezes, indecorosa  capaz de roubar o tempo e a presença dos nossos mais preciosos amados. A tal vida que merece ser placada com inteligência. Placada com prazeres e interesses.

5 – Quando te vi no hospital a olhar para a tua neta mais nova com o mesmo brilho com que olhaste para a primeira, ensinaste-me a acordar com força, a investir contra o cansaço, a olhá-la também com esse brilho, com essa ternura.

(Sabes, tenho que fazer um parêntese. Hoje li, sem querer, o bilhete que o teu neto me está a escrever para o dia do pai. Estava em cima da secretária dele. Acho que ele partilha connosco alguma fantasia. Ele dizia que eu era o melhor pai do mundo, que não interessavam os erros (acho que a frase é tua). Dizia que a nossa estrada é infinita, que nós estamos lado a lado numa mota em direção ao infinito. E que vamos conduzir para sempre. Não é bonito? Adorei. Depois mostro-te quando ele me der).

6 – Quando partilhaste comigo o teu ritual dos domingos, reconheci o futuro e uma fórmula para perpetuar vínculos e laços. Hoje também exerço esse ritual. Eu e o teu neto. Por vezes, eu e a tua neta.

7 – Quando me ias buscar de surpresa à escola, senti surpresa. Depois, anos mais tarde, senti que era mais do que um acaso. Era proximidade. Era prevenção.

8 – Quando te telefono e ouço o tom com que me chamas “filho”, reconheço a distância. Essa cruel distância que nunca irá ganhar, simplesmente porque não existe. Não lhe damos confiança. Entre nós não há dessas coisas.

9 – Quando me contaste a história para adormecer, nem sonhava com o seu poder. Poder de transformar uma cama num barco, um quarto numa selva, um sonho no sonho e um choro num sorriso.

Como este sorriso que tenho ao escrever-te. Como este sorriso por descobrir a ausência do ponto número dez.  Não o vou escrever. A lista é interminável. Vou reescreve-la todos os anos por este dia. E pararei sempre no número dez. Porque ser teu filho é uma história interminável, uma aprendizagem incomensurável, um amor inabalável.

O teu neto tem razão. Também acho que a nossa estrada é infinita, que nós estamos lado a lado numa mota em direção ao infinito. E que vamos conduzir para sempre. Vamos embora?

Por Alfredo Leite, Mundo Brilhante, 
para Up To Lisbon Kids®

Todos os direitos reservados

image@shutterstock

Há um fenómeno conhecido por gravidez histérica, ou psicológica, em que os sintomas da gravidez se manifestam numa pessoa não grávida. É mais comum em animais como cães ou ratos, mas também ocorre em mulheres e homens.

Eu não tive uma gravidez histérica. Espero eu, até porque passei nove meses a beber álcool pelos dois, o que faria de mim uma péssima grávida histérica. Mas, em retrospectiva, é bem possível que tenha tido uma ligeira depressão pós-parto histérica. Mesmo sem que a minha mulher tenha tido depressão pós-parto. É que é difícil explicar algumas atitudes que tive naqueles meses iniciais.

A verdade é que, durante os primeiros meses de vida do meu filho, esta casa não foi só pós-grávidas emotivas, mamilos em sangue e um bebé que dormia mal. Também havie eu. Um tipo cujas faculdades de bom senso se desvaneceram no ar. Sim, esse tipo era eu, e estas são as seis maneiras em que, tenho de admitir, me comportei como um atrasado mental nessa altura:

#1 – Anunciar que não queria ter mais filhos

Não há nada de chocante em alguém dizer que só quer ter um filho. A não ser que sejamos extremamente católicos, ou extremamente patrióticos, mas, nos tempos que correm, numa perspectiva pró-natalista, ter só um filho ainda é melhor do que não ter nenhum.

Sempre que era obrigado a ter a conversa dos filhos, eu concordava que, se fosse para ter, preferia ter mais do que um. Sempre se entretém um ao outro. Mas é possível que essa opinião se tenha alterado temporariamente passadas umas semanas depois de ser pai. E que essa opinião tenha sido transmitida à minha mulher, com ar de lunático e certeza maníaca, em palavras não muito distantes de É QUE NEM PENSAR QUE VAMOS TER MAIS FILHOS NÓS NÃO VAMOS CONSEGUIR PASSAR OUTRA VEZ POR ESTES TORMENTOS E ANSIEDADES CONSTANTES  É IMPOSSÍVEL E A RESPONSABILIDADE? IMPOSSÍVEL! OUVISTE? IMPOSSÍVEL!

E também é possível que esta demonstração de profundo terror pela ideia da paternidade não fosse a coisa mais inteligente, sensível e humana de transmitir a alguém que estava a viver a maternidade de forma apaixonada e natural (e que não sabia ter casado com um lunático).

#2 – Ser irritante com a desarrumação da casa

O regresso ao trabalho depois do primeiro mês não foi fácil. Ter de passar a maior parte do dia longe do filho e da mulher, depois de quatro semanas em que se começa a criar a primeira ideia de uma família maior que dois, é duro.

O que também não foi fácil foi ter sido precisamente nesse fase de transição que o meu eu obcecado por limpezas (um indíviduo que nunca tinha tido o prazer de conhecer) fizesse questão de aparecer. Aparentemente, o choque de voltar a trabalhar, chegar a casa cansado, e deparar-me com um cenário apocalíptico de roupa, fraldas e toalhitas, sujas ou não sujas, e outros objectos espalhados por cadeiras, móveis e sofás, provocou em mim um trauma de alguma severidade. Como naqueles filmes toscos dos anos 80 em que alguém batia com a cabeça e mudava de personalidade, fez surgir em mim um obsessivo compulsivo que, sempre que chegava a casa, fazia questão de passar a primeira hora a apontar objectos e coisas fora de sítio.

Este tipo obcecado nem me deixa perceber que o melhor era deixar-me de merdas, e entender que estar sozinho em casa com um bebé um dia inteiro é um actividade esgotante e que o tinha de fazer era aproveitar aqueles momentos para estar em paz e sossego com a sua família. Ainda que fosse no meio da porcaria.

#3 – Pensar que o bebé veio matar todos os sonhos que nunca tive

A crer pelos argumentos de alguns filmes e pela conversa de bêbado de alguns amigos meus, há muitas pessoas que casam com  a sensação de não terem aproveitado a vida ao máximo, de terem ainda coisas para viver e experienciar, sonhos e projectos incompatíveis responsabilidades e compromissos duradouros.

Não tive nenhuma dessas sensações quando casei, mas como o cérebro é um crápula que nos ataca sem aviso essas sensações apareceram logo na altura da paternidade. E como aos 33 anos já não tinha idade para poder sonhar com uma carreira de sucesso como desportista, músico ou youtuber juvenil, o meu cérebro decidiu lamentar coisas bizarras, como já não poder viajar como um nómada pelo mundo inteiro, coleccionando experiências de vida e tendo pensamentos profundos.

E este é o mesmo cérebro que, nas vezes em que cheguei a viajar sozinho, se entretinha a passar os dias a encher-me a cabeça de estupidezes a tal ponto que voltava dessas viagens sempre farto de mim. Isto para não referir que discutíamos sempre ao jantar, eu e o meu cérebro, nestas viagens solitárias (hoje em dia, com smartphones, a coisa fica mais fácil).

#4 – Achar que tinha direito a dormir noites inteiras

O acordar durante a noite nunca foi uma questão muito relevante dado o facto do Mexicano a) ser amamentado, b) ter completo e total desprezo pelos padrões naturais de sono, e  c) ter completo e total desprezo  pelos padrões naturais de sono dos pais. Isto implicava que a mãe tivesse de estar muito mais atenta ao choro nocturno, excepto se fosse claro e necessário que o problema implicasse uma mudança de fralda ou outra coisa que não fossem seios lactantes.

Sabendo disto, a poucos dias de regressar ao trabalho, houve um dia em que eu resolvi escalar um nível de anormalidade a tudo o que já aqui foi exposto, e anunciei solenemente à minha mulher que: “Agora que vou voltar a trabalhar, é apenas justo e natural que fiques tu e somente tu responsável por qualquer actividade que implique sair da cama à noite”. Vejam só a moral de um tipo que passa o ano a dormir uma média de 5 horas por semana para depois querer acordar às 13 horas de um Domingo, se virar para uma mulher que está a passar pelo que é provavelmente um dos meses mais exigente da sua vida, onde depois de uma sessão de tortura de oito horas que culminou com a expulsão de uma espécie da cabaça através da bacia óssea, se vê mergulhada em várias semanas de privação de sono.

#5 – Culpar a minha mulher por se sentir cansada

O facto de ser um idiota não quer dizer que não seja bem-intencionado, mas um idiota bem-intencionado não deixa de ser um idiota.

Perante a imagem de uma mulher sujeita às duras realidades da privação do sono, incapaz de dormir mais do que três (quatro numa boa noite) horas seguidas, e condicionada ao longo do dia por uma roleta russa de sestas que oscilavam entre os 15 minutos e uma hora, achei por bem partilhar – mais do que uma vez – a seguinte pérola de sabedoria: “é natural que te sintas cansada, não estás a aproveitar os momentos em que ele dorme para aproveitares para dormir também!”.

O que, no fundo, também poderia querer dizer: “além de implicar que consegues adormecer sempre que for necessário, tens de abdicar que qualquer momento que possas querer reservar para ti, seja para tomar banho ou fazer o almoço, ou consultar o facebook, e passá-lo a dormir para recuperar o tempo perdido – É LÓGICO!

#6 – Comportar-me como um vilão de telefilme de domingo à tarde

Quando estava a falar à Ana nas ideias principais deste post, entre risos (mútuos) e pedidos de desculpa reiterados (meus), ela relembrou-me um episódio de que eu tinha feito todos os possíveis para apagar da memória (não em lembrava mesmo dele), e que é bem capaz de significar o ponto alto destes processos de tumultos mentais. Eu estava no computador a tentar perceber em quantas facturas de atraso é que já ía o Meo, e a Ana pediu-me para segurar o Mexicano  com alguma urgência, porque tinha de fazer qualquer coisa, ao que eu respondi que não podia porque estava ocupado.

Perante a insistência dela e aquele tipo de pergunta meio incriminadora de ”podes por favor pegar no teu filho?”, eu terei – alegadamenteexclamado vociferado algo do género: “não, agora não posso porque o meu filho não paga contas!”.

É verdade que nunca me tinha sentido muito preparado para ser pai, mas lembro-me de ter passado os nove meses da gravidez a interiorizar que muita coisa ia mudar, que os primeiros meses iam ser terríveis, dramáticos, repletos de privação de sono e ânimos sensíveis. Mas o que acabei por subestimar foi mesmo o impacto emocional da paternidade. O peso de um amor que começa por tomar uma forma mais instintiva do que pessoal (no meu caso), e o peso de uma responsabilidade brutal que também vem amplificar angústias, medos e fragilidades do ser humano.

Eu também gostava de não pensar tanto nas coisas, mas há alturas em que é mais difícil . Só que depois o miúdo espirra, ri-se ou estende os braços na nossa direcção, e percebemos que há mais uma enorme razão no mundo para que tentemos ser o melhor de nós próprios, e é uma razão que nos enche de coragem, força e calma. E há uma pessoa ao nosso lado que nos percebe, e nos ajuda. Não tenho dúvidas de que passámos (e sobrevivemos) estes dias, que também tiveram muitos bons momentos, mais fortes, mais unidos. Como uma família

Por André Lapa, originalmente postado em à Paisana,
autorizado para publicação em Up To Lisbon Kids®

Todos os direitos reservados

imagem capa@pixgood.com

Carta de um filho ao pai desempregado

Pai, hoje recebi na minha Escola um convidado. Foi uma atividade organizada pela Biblioteca, pelas Professoras de Português. Às vezes até tenho muitas dúvidas sobre se tu e mãe têm noção da quantidade de atividades que há na Escola.

Mas não era sobre isso que queria falar contigo hoje.

O senhor falava de uma forma muito intensa, às vezes falava baixo, para logo depois levantar a voz. Não entendi se estava a fingir, ou se sentia sempre aquilo que dizia. Acho que gostei. Pelo menos, ainda me lembro da sessão e de algumas coisas que ele dizia. O problema foi quando ele falou no desemprego. Sei qual era a ideia. A ideia era dar-nos algumas pistas sobre quais são as profissões do futuro, dizendo também que nos dias de hoje são tão importantes as atitudes como os comportamentos. E foi aí que fiquei triste. E baralhado. Será que tu estás desempregado porque estás a falhar?

O senhor ainda não tinha ido embora e falei com ele. Ele tentou tranquilizar-me. Falou das dificuldades vividas até pelos grandes profissionais. O desemprego está a tocar a todos. Licenciados, não licenciados, homens, mulheres, pessoas com e sem capacidades de “comunicação interpessoal”…ele falava muito nestas palavras. Comunicação interpessoal…

Gostava de te dizer que é natural estares triste. É natural estares zangado. É comum essa mistura de sentimentos. E toda a nossa família está em choque com a situação. Acredita pai. Mas há uma coisa que gostava de te pedir. Nunca me mostres que estás “descontrolado”. Preciso que tenhas esperança. Vou alimentar a minha esperança na tua esperança. Vou ter força na tua força. Vou ter fé na tua fé.

Gostava de te dizer que é uma injustiça.

Depois de tudo o que passaste, depois da tua dedicação. Mas há outro pedido. Vamos sair juntos desta situação? Por favor levanta-te cedo e veste-te bem bonito como só tu sabes. Faz a tua barba e põe aquele perfume que a mãe te deu. Se puderes, levas-me à Escola. E depois fazes o teu trabalho! O teu trabalho agora é, infelizmente, procurar trabalho.

Procura pai! Com força! Com brilho nesses teus olhos castanhos. Sei que não é fácil. Ou melhor, não sei. Mas acredita, tento imaginar.

Gostava de te dizer que o mundo parece estar de cabeça para baixo. Porquê a nós? Vai ser para sempre? Sei que gostas de ver o Benfica, sei que é importante teres algo com que te distrair mas procura organizar-te, pesquisa mais uma vez. Preciso que sejas o meu farol, o meu abrigo.

Gostava de te dizer que às vezes me apetece chorar. E também já vi a mãe a chorar. Caramba! Mas também preciso lembrar-te da tua frase preferida. Dizes que a mãe é a mulher da tua vida. Ajuda-a a ajudar-te pai. Lá em casa também há coisas que podes fazer.

Sei que deve ser aborrecido, mas depois quando o emprego vier, vais sentir falta do tempo disponível para arranjar o candeeiro do meu quarto, a minha escrivaninha, ou a casota do cão.

Gostava de te dizer que não concordo com o avô quando ele diz que “as pessoas não querem trabalhar”. Tu esforças-te tanto. Mas é importante teres essa firmeza e esperança. Acho que até pode ser bom para as entrevistas de emprego. Não achas pai?

Vou tentar ser ainda melhor aluno, vou tentar ler mais.

Vou tentar desenvolver também os meus valores, aquelas coisas capazes de nos dar norte quando estamos perdidos. Aprendo tanto contigo pai. E não gosto de te ver triste. Também não concordo com a tia Dolores quando ela diz “os homens não choram”. Choramos. Mas não quero chorar mais por te ver desorientado. Preciso de segurança.

Gostava de te dizer que às vezes nos sinto sozinhos. A quem podemos pedir ajuda? Sem medo. Sem orgulho. Vamos por o orgulho de parte e vamos pedir ajuda. Talvez, como uma boa conversa, o avô Geraldes possa ajudar.

Já agora, quero também agradecer-te. Sei que nem é preciso. Mas o esforço que fizeram para eu poder ir à visita de estudo, foi excelente. O empenho quando me ajudas a fazer a mala para a escola. As perguntas “vê lá se te falta algum livro”, “vê lá se é preciso dinheiro para o lanche” dão-me um conforto gigante. Assim do tamanho do meu amor por ti.

Sei que ainda pensaste abrir um negócio. Será mesmo verdade que os bancos só emprestam aos ricos? Bem, se isto for verdade, fico desmotivado.

Será por seres um pai desempregado?

Se mesmo estudando posso vir a ser um sem abrigo (eu sei que posso) então de que adianta? Preciso de esperança. Se os bancos só emprestarem aos ricos, se estivermos “tramados” como ouvi no outro dia, se a única solução “é sair o euromilhões”, se a única saída for “sair do país”, como vou ter força para estudar e para ultrapassar as minhas dificuldades?

Sonhei que domingo de manhã fomos dar um passeio em família. A mãe tinha feito refresco de café e levámos umas batatas caseiras. Sonhei com o teu sonho recuperado, a tua fé restabelecida, essa montanha escalada, esse sorriso de novo no teu rosto. Sonhei com raiva, com tristeza, mas nunca com desorientação. Sonhei com o céu pintado de um azul esverdeado. Azul esperança. E eu que até nem gosto do verde. Nem do azul. 🙂

 

Por Alfredo Leite, Mundo Brilhante, texto fictício
para Up To Lisbon Kids®

Todos os direitos reservados

Naquela manhã não houve espaço para “ah e tal, não festejo, é só consumismo” muito menos para “ah e tal, eu não sou crente…“.
Naquela manhã, aquele pai sentiu fundo, qual revelação, algo transformador. Sentiu que alguns lugares comuns têm muita razão de existirem. A vida passa a correr. A vida são dois dias. A época natalícia é especial. É verdade!

Por isso, tudo ganhou novo brilho. As luzes na rua, as luzes nos olhos...

As canções já não eram repetidas, o Pai Natal já não era vermelho e branco, a rena já não era patrocinada e o coro de Santo Amaro de Oeiras soou como há muitos anos não soava.

E falava-se do menino.

A partir daí,  essa manhã começou a ser chamada por esse pai de “a tal manhã”.
Na tal manhã, ele foi para um promontório ali para os lados do Guincho e fez uma lista. A lista.
Diz-se que tinha 4 páginas, talvez uma para cada área da vida, ou para cada membro da sua família nuclear. Não se sabe ao certo. Até porque também não é certo o conceito de família nuclear. Enfim, o importante é a circunstância da folha ter sido resgatada.
Naquela folha lia-se uma lista.
12 Presentes que vou dar ao meu filho no Natal
1 – Outra bola
Ele gosta. E esta vai ter truque. Vai ter magia. Terá que ser usada por mim e por ele, num jogo partilhado, pelo menos uma vez por semana. Se não, vai explodir.
2 – Uma máquina fotográfica
Com magia também. Tem que nos tirar uma foto, onde estejamos sujos de terra, pelo menos de 15 dias em 15 dias. Se não, ela explode também.
3 – Uma faca
Porque sou daqueles pais que acha que não se deve criar filhos de forma demasiado “asséptica”. Eles têm de ter noção dos perigos. Pronto, não é um facalhão. É um canivete. E esse canivete tem viagens marcadas para Monsanto. Tantos passeios para fazer com o meu filho…eu, ele e os respetivos canivetes nos bolsos. Não vá aparecer um tigre. 
E se ficarmos mais de um mês sem uma caminhada em Monsanto, já se sabe, acontece magia e o canivete transforma-se numa praga de formigas (só para não repetir o “explodem”).
4 – Um espelho
Esta já a vi na lista dele. Nem preciso explicar. Ele tem pinta, gosta de se vestir bem, de se arranjar, de se pentear, de colocar o seu gel e o perfume próprio para os seus 8 anos. E a minha vertente de psicólogo, claro que é capaz de fazer uma metáfora à volta do espelho e da auto-estima.
E sabemos que gostar de si mesmo é mais de meio caminho para gostar dos outros.
E precisamos tanto de pessoas capazes de gostar dos outros. 
5 – Um telefone Móvel
Dois copos, um fio, cera de vela…
Sabem fazer, certo ? Caso não saibam…fico preocupado. E lá está, excelente metáfora para a comunicação, ao mesmo tempo um hino à reciclagem.
E precisamos tanto de pessoas ocupadas com o ambiente.
6 – Uma rosa 
Para ele dar à mãe. Ao respeitar a mãe, vai respeitar todas as mulheres. Assim espero. Eu junto outra rosa e dou também. Assim ele vê-me a respeitar a mãe (não pela rosa, mas pela atitude diária!) e fica mais capaz de respeitar todas as mulheres da vida dele. E essas rosas têm magia. Não são flores de dentista, como diz o mundano Gladíolo no Rapaz de Bronze. A magia é murcharem. Desta forma lembram-nos que temos uma renovação a fazer. A renovação é diária. No Natal reforçamos essa necessidade. Nascimento. Renascimento. Murchar, renovar…
7 – Um “Sim”
Sim, traz o teu amigo para dormir cá. Sim, podes ir com os avós. Sim, gosto muito de ti. Sim, és sensível. Sim, és muito querido. Sim, vou deixar-te ter vitórias próprias. Sim, tenho orgulho na surpreendente criança, capaz de me deixar a transbordar de orgulho. És tu, meu filho.
8 – Um “Não”
Um não, sem hesitar. Com firmeza. Não, não podes falar assim para a tua irmã. Não falas assim para ninguém. Não podes esquecer a importância dos educadores formais, como os teus professores. E dos outros educadores, como o Senhor Pedro (e o Senhor Mário), por exemplo, capazes de te receber à porta da Escola com um sorriso. Ou da senhora da secretaria de quem não me lembro o nome, mas cuja importância é enorme e o empenho é excelente. 
9 – Umas Cartas (que tu gostas e eu não me lembro do nome)
Há espaço para o fútil, desde que haja espaço para os valores. Porque também não acredito em pais assépticos. 
10 – Roupa nova
Roupa nova daquela mágica. A roupa mágica, quando entra na gaveta, faz a roupa usada (e em bom estado) ser doada. 
11 – Decorar
Vou decorar uma música de Natal, um onze ideal, uma passagem de um livro que me inspire, um Salmo, o nome do tal amigo que está prometido vir cá dormir um dia destes. E depois digo-te filho. Ah, e decoro também o nome das senhoras da secretaria! 
12 – Um x num mapa
E esse x vai marcar o local onde o meu avô me levou a passear, para fazer tempo, enquanto os meus pais enchiam a árvore de Natal com amor. Vai marcar o local onde estão enterrados os nossos mortos. Porque a memória deve ser alimentada. Vai marcar o local onde arranquei o meu primeiro pinheiro. Vai marcar o local onde me ensinaram noções ambientais e onde chorei porque não se arrancam pinheiros. 
Está frio neste promontório. Prometo trazer-te cá. Se calhar até vai ser na tal noite.