Será que os meus filhos sabem disto?

Havia uma rede social nas janelas da minha rua. Será que os meus filhos sabem disto?

Havia também tempo que andava com calma. Vagaroso, sem se atropelar. Olhávamos, víamos, esperávamos pelas pessoas sem ter telefone portátil. Será que os meus filhos têm noção disto?

Não estou a ser saudosista (caso haja carga negativa no termo). Gosto de olhar para o futuro. E se o passado me pode ensinar, posso tentar usar esses conhecimentos para ser mais feliz hoje, planeando um futuro melhor amanhã.

Vou tentar ficar mais tempo sentado num muro, a ver passar.

E vou mobilizar os miúdos para me acompanharem. Terei sucesso?

Vou experimentar usar um despertador a sério, para dar ao meu cérebro uma folga do telemóvel. Pelo menos, uma folga de uma hora.  A primeira hora da manhã, pode contar a história do resto do dia. Vou sugerir à família que me acompanhe.

Havia uma magia em ouvir um disco até ao fim. De ponta a ponta. Poderei tentar fazer isso com os meus filhos? Vou tentar!

E as escadas rolantes? Ainda me lembro de fazer uma espécie de excursão a Lisboa para ir subir numa escada rolante. Hoje, confesso, faço uma certa censura aos elevadores e escadas rolantes. Ainda há dias, no prédio onde vive a nossa amiga Deolinda, convenci o mais novo, e subimos pelas escadas!

Dizem que elas são ridículas. E a parte da minha vida construída à sua volta, é do tamanho do sorriso mais sincero. Escrever à mão. Escrever cartas. Como podemos sugerir aos nossos filhos que o façam? Será útil? Serão mesmo ridículas? Contribuirão para o desenvolvimento cerebral? Escrever num teclado será igual a escrever à mão?

Quando tossia (e se eu tossia!) o remédio era um pacho de álcool no pescoço. Vim depois a descobrir que isto era ridículo. Já há xaropes. Medicamentos. Comprimidos.

Vamos lá agora andar para trás e usar remédios naturais

E porque não? Vamos experimentar! Cebola no quarto para a tosse, um golinho de água para os soluços…vamos experimentar. Claro, com responsabilidade. Mas há um saber escutar o corpo que devemos recuperar. Para conhecer o que funciona (e não connosco).

Se sofremos com remendos nas calças, também havia razão para isso. Se as calças picavam, usávamos na mesma. E hoje? Faz-se um remendo? Usamos roupa readaptada? É dar espaço à criatividade.

Sempre vi os meus avós a apanhar sol. Um, nas arcadas de um prédio onde havia um talho. O outro, no seu quintal onde regava.

E hoje, vou quebrar a rotina, vou buscar a mais nova, um pouco mais cedo, e vamos à praia. No caminho, falo-lhe dos avós. E olharemos para o futuro.

Treinar a voz interior

Se há situação em que notamos logo como é a nossa voz interior, é quando “queremos” ir ao ginásio, mas na verdade não queremos.

No meio dos vou mais ao fim do dia”, “2019 é que vai ser”, “amanhã é que há uma aula boa” e o hoje está demasiado frio”, o nosso mindset está em tenho de ir ao ginásio”.

Quando não vou, sinto-me mal comigo própria, o que resulta em ainda menos idas ao ginásio. O “tenho de ir” tem a carga da obrigação e da falta de opção, o que despoleta uma falta de envolvimento da nossa parte.

Parece que alguma força exterior me está a obrigar a fazer algo que não quero, o que também nos leva inconscientemente à procura do culpado. A nossa atribuição de culpa soa mais ou menos a isto:

“Tenho de ir ao ginásio porque fartei-me de comer no Natal!”,
“Tenho de ir arrumar a casa porque vou ter cá um jantar mais logo”,
“Tenho de ir às compras porque o meu filho come que se farta”

Isto faz com que ao executar qualquer uma destas tarefas, seja bastante difícil encontrar a mínima alegria no processo. Sentimo-nos à mercê de tudo o que temos para fazer, sem a mínima escolha.

Quando trocamos o “eu tenho de ir” por eu escolho ir”, esse poder e responsabilidade são-nos devolvidos.

O nosso envolvimento cresce, e a nossa vontade também. Mesmo que ao princípio pareça um pouco estranho, quanto mais treinares mais habitual e natural fica o processo. É um clássico e poderoso “Fake it until you make it”.

“AH! Mas eu não escolho ir às compras. Se eu não for o que é que se come cá em casa?” 

Todas as escolhas têm consequências. Se eu não comprar a comida, de facto ela não aparece. Quer dizer pode sempre aparecer uma pizza com a morada errada… mas há várias formas de comprar. Posso comprar online ou comprar no dia seguinte, e fazer o jantar com o que há em casa. Posso fazer jejum intermitente, ou acabar com todos os restos perdidos no frigorífico.

Na verdade, tenho escolha entre várias hipóteses quando escolho ir às compras, apenas no momento não estou a tomar consciência das outras opções.

Esta mudança na forma de verbalizar e ver as situações, deve ser passada aos nossos filhos desde cedo.

Uma abertura de enquadramento e tomada de consciência das opções escondidas, que é a forma de os ensinar a terem um papel activo nas suas vidas. A envolverem-se, a importarem-se, a tomarem responsabilidade, a encontrarem novas soluções, a desenvolverem o seu potencial. Ensina-os a terem uma voz interior que os apoia, e uma autoestima saudável cheia de jogo de cintura.

Ao encontrarmos o poder da escolha em nós, a nossa motivação dispara. Imediatamente. Por exemplo, eu hoje já com o saco da ginástica à porta disse para mim “Eu escolho ir ao ginásio”. Aí percebi que também me apeteciam igualmente outras opções: fazer yoga na sala, fazer uma caminhada para apanhar este sol de Inverno catita, ou fazer nada no sofá. Mas quando acrescentei:

“Eu escolho ir ao ginásio… para tomar banho SOZINHA sem ouvir ó mãeeeeeeee!”, peguei no saco, imediatamente, e saí a correr de casa altamente motivada.

Hoje fiz um amigo!

Ainda mal o ano começou, e eu já fiz um amigo!

Como diz o Sérgio Godinho, coisa mais preciosa não há. E é verdade, não achas?

Ainda não sei se digo a toda a gente ou se fica um amigo secreto…porque não? Há que ter magia, há que acreditar…há dias, eu disse que o Pai Natal não existia, porque era uma certa raiva a falar…saiu-me…estou arrependido.

O meu amigo (ou será uma amiga?!) tem mais ou menos a minha idade.

Somos parecidos, no entanto, há coisas completamente diferentes na nossa maneira de ser. Parece ser esse o sal da amizade. Como na vida!

A variedade, como o sal da vida.

Não é o quanto somos iguais. Na disputa, nas discussões e nos desacertos, há tanta luz como na luz. Talvez até mais. Haja clareza nas discussões e boa fé.

É um amigo novo. Tenho vontade de o tratar bem. Quero dar-lhe atenção plena. Quero esfregar-lhe creme nas mãos, sem que se esqueça do mais importante: a hidratação vem de dentro, há que beber água.

Vou dar-lhe pistas para o ajudar a educar os filhos! Tenho, naturalmente, as minhas dificuldades em educar os meus, mas ao ensinar com o coração, sem pretensões, vou melhorar a minha própria forma de educar.

Vou, em breve, completar um sonho. Ficar com ele debaixo de umas mantas quentinhas. Sem esquecer a rua! Lá fora é a nossa casa. A casa da aventura. No frio, no sol…

Espero partilhar aquela “técnica” dos 10 segundos…li num livro…quando a ideia de fazermos algo nos surge na cabeça, iniciamos uma contagem decrescente. Ao chegar ao zero, levantamo-nos e vamos fazer! Simples.

Vou contar-lhe uma lenda (na verdade, uma história inventada por mim).

Diz assim: Há uma jóia rara que entrou num dedo. E agora, é ainda mais reluzente. O dedo. E a jóia. Mas não o devia ter feito! Foi um erro ter entrado! Aconteceu. Agora, para retirar a jóia, implica cortar o dedo. Corta-se?

Com isto, vou ajudá-lo a entender que somos humanos. Falando vamos crescendo. O erro faz parte.

Vou ajudá-lo a dormir melhor em 2019. Insistir para que tenha uma rotina ao deitar.

Não sei se vou falar com ele hoje.

Vou perguntar a sua opinião sobre a desbunda.

Vinho. Beberei vinho com ele. Nunca sermos só os dois. Claro. Assim, não faria sentido. Mas espero ser amigo dele para sempre.  E cada vez mais. Tenho a sensação de já o conhecer há anos…terei estado zangado com ele? Teremos tido altos e baixos?

Se me estiveres a ler, meu amigo Alfredo Jaime de Oliveira Leite, também conhecido como Xanico, auto-apelidado de forma irónica de “Doutor”…tem um bom ano de 2019!

Sei. Se estivermos bem, quem está à nossa volta, família, outros amigos, desconhecidos, e, claro, outros amigos secretos, vão estar cada vez melhor! Com mais sorrisos. Este é o desejo.

Vou proteger-te meu amigo. Vamos brincar. Vamos ser crianças à vontade. Seremos amigos. A sério. Para sempre.

E tu? Contas ser teu amigo? Contas ser tua amiga? Tens sido?

Não desprezes o poder de uma boa resolução com objetivos e metas, com um bom plano. Faz-te (cada vez mais) teu amigo em 2019.

A Felicidade secundária ou pequenos prazeres da vida

As emoções positivas que procuramos nas nossas vidas, são, algumas vezes, consideradas como “felicidade de segunda”.

A maioria das vezes são os grandes marcos (casamento, nascimento dos filhos, ganhar um prémio monetário grande,…) que referimos como “os momentos” da vida.

E pela negativa, é semelhante. Dizemos que os piores momentos são os funerais, os divórcios…

Há algo perigoso nesta consideração.

Os chamados “pequenos prazeres” têm uma grande importância!

Claro que não estou a falar dos (maus) atalhos…drogas duras, sexo à balda ou comida em exagero. No entanto, aquela refeição de sushi que nos custou a conseguir (porque trabalhámos para ter verba para a pagar), o escorrega com os sobrinhos ou filhos…o treino onde superámos a nossa marca pessoal, baseado no trabalho dos treinos passados…o encontro com o amigo ou com a amiga…as conversas louquinhas à “Gato Malhado e Sinhá” em que cada um se aplica. E se dá. Com alma.

O importante é que estes prazeres depois não tragam “mal ao mundo”, como se costuma dizer.

Sabemos distinguir.

Não estamos a fazer apologia ao hedonismo, pelo hedonismo. Estamos a elogiar o prazer que vem quando, com esforço, com empenho, fazemos algumas tarefas simples. Até podem ser sem planificação. Sem premeditação. Mas há esforço. Um esforço positivo, claro. Não é estar apenas de corpo presente. É levar a alma que referi acima.

Estas emoções positivas têm lugar na vida. Óh se têm. Olhemos para elas como uma força motriz.

Como algo que nos diferencia. Como algo que melhora o mundo.

Caminhemos então no parque (em ocasiões especiais, às vezes temos mesmo pressa) olhando para a verdade das cores.

Vivamos o afeto de um abraço (que deverá ser sempre especial) como uma experiência capaz de dizer: vale a pena viver!

Passeemos no jardim, testemunhando a nossa própria presença. Como se fôssemos o nosso próprio sol.

Usufruamos de um amigo, de um sol, de uma lua, de um segredo, de uma pequena paixão,… As pequenas experiências, serão somadas na conta da nossa felicidade. E são elas que vão levar o nosso legado a bom porto.

Oremos. A sério. Como uma roda que nos eleva. Sem frases feitas ou lugares comuns. Com fé.

Só podemos trabalhar felicidade a longo prazo, a tal realização, a passagem de testemunho, a obra e a capacidade de ajudar, se olharmos para a delicada importância das emoções positivas do dia-a-dia.

Agora, começa a chuva. Há quem use guarda-chuva. Capa.

Há investigação científica que mostra que as emoções positivas também têm efeito protetor. Com consciência, joguemos-nos então neste mar misterioso de bons e saudáveis pequenos prazeres.

Isso faz de nós (mais e melhores) humanos.

 

Photo by averie woodard on Unsplash

Afinal para que serve a Escola?

Há muita gente que casa por casar. Que vota por votar. Que anda cá por ver os outros andar. Há muita gente que vive por viver.

E a escola? Porque vão à escola os nossos filhos?

Às tantas vão à escola porque nós também fomos, porque “toda a gente vai”… Não será importante pensarmos as razões que nos levam a acreditar na escola? Até há uns anos, acreditávamos que a escola traria emprego.

Hoje, num mundo em mudança, sabemos que não é bem assim. Há muitos empregos que ainda nem foram inventados. E, por outro lado, cada vez mais empresas estão atentas a algo mais do que apenas “o currículo”, na hora de escolher colaboradores.

Quando nos colocamos em bicos de pés e exigimos dos nossos filhos apenas que tenham boas notas, estaremos a pensar verdadeiramente no futuro deles? Ou será que, como adultos, desejamos ter filhos com boas notas, numa espécie de competição com outros pais?

Há muita gente que diz que deseja filhos felizes. Mas depois, exige notas. Quadros de honra e afins.

Não estou, de forma alguma, a fazer a apologia das “más notas”. Mas sei que há crianças e jovens infelizes nas nossas escolas. Sei que há crianças e jovens infelizes por causa das nossas escolas. Sei que há professores que desejavam fazer diferente. Debater mais. Falar mais da vida nas entrelinhas do currículo escolar. E sei que há pais a “apertar” com os professores por causa dos exames.

Sabemos que as máquinas, as tecnologias, estão a chegar.

Se queremos crianças com um futuro, com uma ocupação, com um trabalho, não será importante reforçar neles as características que nos distinguem das ditas máquinas? É fundamental saber. As matérias são, no geral, importantes.

E ser? E entender? E compreender o mundo? E saber pensar? E criar? Se é importante saber, então se pensarmos nestas outras competências, teremos um caminho diferente a percorrer.

Queremos que eles tenham boas notas. Neste exame que é a vida

Estaremos a preparar os filhos para a adolescência?

Pensando nesta viagem entre o planeamento do nascimento (quando o há)  até à vida adulta dos nossos filhos…

Já pensaram nesta questão em voz alta? Ou mesmo em silêncio?

Acredito que a maternidade e paternidade são muito mais do que dois cromossomas unidos e sobre isso já teci várias considerações .

A primeira infância

A primeira infância passa a correr. Entre mudas de fraldas, as primeiras colheres de sopa, algumas quedas e visitas frequentes ao centro de sáude. As febres, viroses e afins, as birras e as noites sem dormir. Passa a correr. E quando finalmente desacelaramos, a criança atingiu os dois primeiros anos de vida. Se o trabalho de casa foi bem feito (e deve ter sido), ela tem em si muitas ferramentas que facilitarão a etapa seguinte. Estou, evidentemente, a falar da estimulação do desenvolvimento global do bebé, que é crucial para o desenvolvimento futuro.

Apercebi-me, há alguns dias, que está novamente em desuso contar histórias em ambiente familiar, falar com a criança ou cantar. Permitir a brincadeira ao ar livre, as quedas, o sujar e o brincar…

Isto preocupa-me.

Entrada para a escola e 1º ciclo

Numa segunda fase, a criança transita entre o pré escolar e o primeiro ciclo e inicia-se a fase das aquisições consideradas importantes. A educação do currículo evedencia-se em detrimento das artes. Pintar, desenhar, dançar ou cantar são atividades de preenchimento de horários. Com sorte, terão pais e mães atentos que lhes permitirão trabalhar estas áreas de expressão em casa ou noutros contextos.

Surgem as atividades extra-curriculares que dão aso à liberdade da criança quando estas têm a possibilidade de as escolher por iniciativa própria e não por imposição de elites sociais, caindo no erro de não contribuírem efetivamente para as necessidades da criança.

A adolescência

O tempo passa a correr e logo o segundo e terceiro ciclo chegam e o bebé, é de repente, adolescente. E agora?
Foram criados os laços afetivos necessários na infância?
O jovem adolescente  sente a sua casa como um lar onde poderá partir e voltar, sendo acolhido nas suas escolhas?
Poderá partilhar as suas ansiedades, dúvidas e questões?
Irão respeitar o seu espaço, a sua integridade física e moral? Os seus silêncios…

Às vezes sim , outras não…E assim vamos modelando adultos que nunca ouviram um Acredito em ti , És capaz, Estou aqui se não der certo, Tenho orgulho em ti, Gosto de ti, Apesar do teu comportamento estou aqui contigo!

O verbo amar nem sempre se resuma a: tens fome, tens sede, tens escola, tens roupa, tens dinheiro…

O tic tac do relógio está a contar, já pensou neste caminho?

É igual ao seu? Talvez sim, talvez não!

Vá, agora com profundidade…

Vi que foi o máximo. Foi divertido. Queres voltar e tudo.
Encolheste a barriga para aquela foto (quem nunca?!), saíste de uma face rosada sorridente e fofinha, para um estado de histerismo em menos de um segundo (entre o clique da foto e o instante seguinte).
Vi que as gambas estavam lindas na foto, mas que passaste o tempo a “chorar” porque foram caras.
Vi a foto com mais “gostos”. E lembro-me de que nem querias ir àquele local.
Vi as frases todas.
“Não há bem que sempre dure.”
“ A recarregar baterias.”
“A minha dieta são Bolas de Berlim.”
“Paraíso escondido.”
“Também mereço.”

Agora com profundidade…

Olha para as tuas férias e identifica os momentos que te fizeram mesmo crescer, descansar…

Identifica as experiências proporcionadas à tua família, às tuas crianças…

Pensa com quem estavas. O que estavas a fazer. Pensa no que foi mesmo marcante.

Às tantas, aquela dor, ou o sacrifício de uma visita a alguém que estava longe, no fim de uma estrada sem holofotes, foi o que nunca quererás apagar. Foi o marcante. Nem foi, afinal, sacrifício.

Se não fizeres a reflexão, corres o risco de, para o ano, encheres as férias com nada.

Eu já fiz a minha.
Sei o que me cansou, no bom e mau sentido. Sei o que desejo repetir. Sei com quem tive os melhores momentos. E porquê.
Sei em que fotos encolhi a barriga. Metaforicamente falando, claro. Não tenho barriga.
Sei o que foi o máximo. Divertido. Sobretudo, sei o que não quero voltar a fazer. Também sei que há coisas inevitáveis.
E sei que há acasos difíceis de repetir. Mas o importante é estarmos abertos a esses acasos. E sermos flexíveis para enfrentar o inevitável.

Gostei das partilhas. Agora, partilha contigo mesmo. Com profundidade.

 

LER TAMBÉM…

E se não houver sol? Uma mão cheia de coisas…

Já todos sabemos como acabou o Gato…o Gato Malhado…lembras-te?

Mesmo assim, gostamos de reler. Talvez haja uma esperança de chegarmos ao fim e ele – o final – ser diferente, não é?

Como se reler um livro, rever um filme ou reencontrar uma pessoa, fosse capaz de trazer finais diferentes. Não. Não é capaz.

Sei que deves estar a pensar: “Então mas as pessoas não mudam?!“. Mudam. Mas pouco.

Nestas férias, temos um final à nossa espera. Voltaremos para a barriga da cascavel? Provavelmente.

A mim ninguém me tira da ideia…a cascavel tem um chocalho! Eu, se fosse o gato, teria ouvido o chocalho! E teria fugido.

O problema não é esse, bem sei. O problema era a vontade do gato! Eu não quero acabar na barriga da cascavel.

Não quero férias como uma tarde de verão.

Não desejo terra à vista, como quem grita “fim à vista”. Vou beijar demorado, vou acordar cedo, vou tentar o equilíbrio entre a rotina e a falta de regras. Vou beijar roubado, vou acordar tarde…

E vou fazer mais uma mão cheia de coisas. E se não houver sol?

Quero reencontrar-te diferente no fim destas férias porque fizeste o mesmo. Quero ler em ti outro final, porque reescreveste as tuas histórias.

Vou fazer isso também, numa mão cheia de coisas:

  1. Vou contar aos meus filhos a história de uma nuvem feia, má, triste, suja,…E vou explicar a força do vento. O vento capaz de empurrar as nuvens feias para longe. Essa força está dentro deles. Falarei de persistência, de resiliência, claro está. Mas falarei da nuvem e do vento.
  2. Vou contar ao amor da minha vida a história de uma brisa fresca, traiçoeira, aborrecida…e vou explicar a força da prevenção. Esta brisa, chamada “a idade a chegar” pode ser terrível! Mas, como me preparo, hei-de ter sempre um casaquinho. Não se pode confiar neste clima. A partir de certa idade, um casaquinho vai sempre bem. Falarei de regar o amor, claro. E de brisas que afinal, com preparação, não são alterações climáticas. São naturais.
  3. Vou contar sobre o meu sonho matinal. Sonho onde reúno os amigos (aqueles três…quatro…) com frequência. É a história de um cardume navegante, conquistador, capaz de cortar as águas porque está em grupo.
  4. Vou contar sobre o avô Jaime e sobre a forma como morreu. A forma como deixou um legado de boa disposição, de humor, de sorriso e de vinho tinto (daquele incapaz de deixar mancha). De vinho tinto capaz de deixar marca. Uma marca boa.
  5. Vou contar a história do sorriso doce mais inexplicável. A luz surpreendente, surgindo como uma música de ANAVITÓRIA, ou melhor, Rubel em “Quando bate aquela saudade”. Vou contar sobre o sonho. Sonho.

Sonho com o gato a fugir da cascavel.  Não, não chega a casar com a andorinha, mas está escrito com outro fim, com outra cor e luz. Sonho com o chocalho a avisar. Sonho com uma noite de verão que, no fim de contas, pode ser a vida toda. E se não houver sol?

Sonho que, afinal, em vez de gato, sou um sol.

Boas férias.

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Somos fruto de uma soma, não de divisão

Acredito que todos temos um propósito, que viemos ao mundo – seja por quanto tempo for – para o transformar de alguma forma.

Há quem passe uma vida inteira sem perceber qual o sentido de andar por cá, sem por isso se aperceber que provavelmente está a ensinar a alguém lições valiosas.

Somos a soma do amor que em nós foi depositado, dos planos que foram feitos, mesmo quando não fomos planeados ou “desejados”.

Somos a soma das nossas experiências, das nossas escolhas, das pessoas que tivemos e temos à nossa volta.

Somos para os nossos filhos muitas vezes mais do que os nossos pais foram para nós e, outras tantas, menos.

Ensinamos como sabemos, às vezes sem saber ensinar.

Lamentamos coisas erradas, agarramo-nos a sentimentos e por vezes a coisas. Deixamo-nos ir abaixo, erguemo-nos e caminhamos, mancos ou com energia, conforme a vida e o destino nos deixam.

Cometemos os mesmos erros repetidamente, conseguimos inclusivamente saber antecipadamente que o vamos fazer e gostaríamos de o poder evitar. Noutras alturas evitamos esses erros e sentimos alguma glória nessa conquista, que nos enriquece.

Fraquejamos, rimos, choramos. Muitas vezes sozinhos.

O nosso caminho é solitário, mesmo quando temos uma família grande, quando estamos rodeados de amigos e temos filhos, um, dois ou cinco. Porque o nosso caminho é feito pelas nossas pernas e os “pesos” que carregamos por vezes fazem-nos demorar mais um pouco em alguns lugares, outras vezes permitem-nos ficar onde somos esperados. Mas o nosso caminho só pode ser feito por nós.

Temos a responsabilidade de deixar aos nossos filhos algumas respostas que os nossos pais não nos deram.

Temos a responsabilidade de, à nossa maneira, deixar o mundo diferente do que o encontrámos, preferencialmente melhor.

Temos a responsabilidade mas também temos as recompensas, se as soubermos identificar, se com elas conseguirmos sorrir e agradecer.

Às vezes esquecemo-nos de valorizar as pequenas conquistas do nosso dia a dia.

De agradecer o que de bom temos, mesmo que seja muito pouco. Porque por mínimo que seja, está lá e faz de nós humanos. Faz de nós pais que querem o melhor para os seus filhos e eles só serão seres humanos melhores que nós se lhes mostrarmos o caminho.

Em muitos casos isso não será suficiente.

Haverá filhos que não deixarão os seus pais orgulhosos.

Haverá filhos que terão caminhos que são um “retrocesso” em comparação com o que foi trilhado pelos pais (e não, não falo de conquistas financeiras, de trabalho, estudos, casas ou número de carros na garagem e carimbos no passaporte).

Haverá filhos que vieram fazer uma viagem diferente da nossa.

Com outro propósito, com outras lições.

Com uma vida aparentemente triste, por vezes.

Mas enquanto mãe, se for esse o meu caso, quero sentir que a vida que trouxe a este mundo tem um significado e o sabe. Que sabe que foi amada e o será para sempre, enquanto viverem as pessoas que cresceram do seu lado.

Que mesmo que o seu percurso não seja tudo aquilo que está escrito nas estrelas ela viveu e não ficou presa às expectativas, aos sonhos alheios, ao que a sociedade esperava que fizesse só para se encaixar no padrão.

No fundo, acho que todos viemos a este mundo com a missão de nos encontrarmos.

E alguns, os mais sortudos de nós, encontram-se uns aos outros no caminho.

E isso já valeu a pena.

Estarei a meio?

Estarei a meio da vida? Não estou a par das mais atuais indicações sobre a esperança média de vida. Acredito que rondará os 90 anos…

A minha idade vezes dois, aproxima-se deste número!

E agora? Que reflexão poderei fazer?

Por vezes, sinto-me menos tolerante para conversas vazias. Para dias sem gelo na bebida ou sem gindungo no prato.

Estarei a “ficar velho” no mau sentido, ou estarei mais exigente?

Será que já começo a apreciar melhor a vida, como vaticinaram outras pessoas com quem falei sobre envelhecimento?

Gostava de ir à praia mais vezes. No inverno, principalmente.

Não sei onde guardei as cartas de amor, mas vou socorrer-me delas para trazer o jovem sonhador que fui.

Ser sonhador está fora da moda? É piroso?

Piroso é querer estar na moda.

Os miúdos estão crescidos. Preciso estar mais com eles. Pensamos que crescem e pronto, mas não. Não há pronto. Há paciência para exercitar. E persistência.

Posso estar a meio, só que, sinceramente, não sinto.

Mas sinto que, demasiadas vezes, quem diz “sinceramente” está a mentir.

Preciso abrir um buraco mais fundo no meu coração para descobrir os diamantes que serão as minhas forças e virtudes. Assim, poderei alinhar a vida que falta. Alinhar nesta direção. Na direção das situações onde me sinto pleno.

Assim, estar a meio não vai assustar.

Não me assusta.

Sinceramente.

imagem@PxHere

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“Tenho tanto para aprender e o tempo passa ora muito rápido, ora lento e penoso.
Por vezes gostaria de encontrar um atalho para saber mais sobre a vida, e admito, sem egoísmo, continuo a perseguir um significado para minha própria existência e isso tem um custo elevado, às vezes me sinto já sem crédito, usando uma forma onerosa de cheque especial, já sacando a descoberto.
Essa busca não é resultado de uma crise qualquer, é bem mais antiga, remonta à minha consciência, quando comecei a perceber que havia algo além do meu quintal.
Admiro as pessoas que conseguem viver e se preocupar apenas com o dia presente, que por si só, nesse tempo onde tudo é tão rápido e complexo, já é muito.” – Paulo Afonso de Barros