A passagem ou sete questões para desinquietar

A vida pode ser só isso. Uma passagem. Ou talvez não. Nesta altura do ano, por razões óbvias, dou por mim a refletir mais sobre este assunto. Morrer, na verdade, pode não ser só morrer…

Será que a ciência pode estar de mãos dadas com a espiritualidade? Cada vez mais, sei que sim. Mas esta não é a primeira pergunta que desejo deixar nesta minha passagem por aqui…

A pergunta está relacionada com o nosso desenvolvimento como pessoas. Com o nosso contributo. Com o dar para receber. Com o dar…sem pensar em receber…

Da reflexão, vem uma prática melhor. Cá vai então:

PERGUNTA UM

Quais são as reflexões que poderíamos (até como espécie!) fazer, se considerarmos que morrer não é só morrer?

———

Há dias, falava com os meus miúdos sobre a renovação celular. Mesmo que, por vezes, seja difícil imaginarmos, as células, na sua renovação, vão-nos dando (literalmente) um corpo novo de tempos a tempos.

Isto leva-me à:

PERGUNTA DOIS:

A passagem do tempo, permite esta renovação…será que aproveitamos?

É comum escutarmos queixas sobre a velocidade. A velocidade da vida. Realmente, se não soubermos aproveitar, tudo passa (tudo passará…e nada fica…nada ficará…como dizia o cantor).

———-

A semana passada, em Guimarães, num estabelecimento de ensino de referência, com um excelente ambiente, educadores motivados, lideranças presentes, tive uma grande lição.

Não foi só a vontade de melhorar, demostrada por desejarem receber uma formação. Não foi só a maneira como se esforçaram para investir. Não foi só a forma como me receberam.

No fim de um dia de trabalho, era um grupo intenso, dedicado, atento…a minha velocidade até feriu alguns. Estavam dispostos a refletir. A ficar. A pensar. Com calma.

Educadores com vontade de deixar um legado! Esta foi a lição. Comprovei. Quando este intuito está presente de forma clara e intencional, a passagem da nossa formação é mais. É passagem, mas fica. É rápido, mas mantém-se. É curta, mas perdura assente no legado. É mais.

PERGUNTA TRÊS

Como educador, que legado quer deixar? Como mãe, como tia, como auxiliar, como porteiro, como motorista, como educador…qual será o seu legado?

Lembremos sempre: os auxiliares também educam. Também será pertinente terem um legado para deixar.

———

No outro dia reconheci uma pessoa que já tinha estado numa formação anterior. Fiquei um pouco a observar o seu rosto. A forma como me fitava, era como se me bebesse.

O seu rosto, um símbolo.

Reconheci esse símbolo.

Reforcei (ainda mais!) o meu empenho.

PERGUNTA QUATRO:

Pense na forma como tem olhado para a vida…como tem pisado no chão…qual a marca da sua passagem…pense se será clara e pertinente.

Os seus olhos querem beber a vida?

Use símbolos. Se usar os símbolos certos, no rosto, nos rituais, nas brincadeiras com as crianças, na sua privacidade, se usar os símbolos certos, a vida retribuirá com empenho!

____________

Não somos perfeitos. Pelo contrário. Temos problemas. Muitas vezes desejamos ir para a direita, mas vamos para a esquerda. Sabemos as teorias. Sabemos os ideais. E falhamos. Por isso, muitas vezes, como castigo, impedindo-nos de desfrutar a vida, impedido-nos de fazer valer a passagem, fugimos das emoções positivas.

Fugimos porque sentimos culpa.

Voltando à renovação, se eu nutrir bem o meu corpo, com a alimentação, ele sairá reforçado mais à frente.

PERGUNTA CINCO

Alimenta as suas células de emoções positivas?

Se reforçar com emoções positivas também sairá reforçado. E não precisamos de avisar o mundo! De publicitar! Não precisamos. Na penumbra, muitas vezes em segredo, é aí. Outras vezes, com uma pessoa. Outras vezes, com a pessoa. Por nós. Sem fazer mal a ninguém. E vamos sair reforçados para poder ajudar os outros mais à frente.

———

Nelson Mandela, ou mais recentemente, Malala Yousafzai, são inspiradores.

Esta última, com 11 anos, já dava sinais de resiliência e luta. Nelson Mandela, vinte e sete anos preso, soube sair um homem (ainda) melhor.

A minha mãe, impossibilitada de ir ao funeral do pai, do meu avô, mandou-me uma mensagem para eu ler no funeral. Com o coração apertado e quase sem voz, li a mensagem perto de um punhado de familiares.

O meu pai, cruzando a ponte Vasco da Gama, fala-me com tranquilidade (aparente!) da sua mudança de vida. E inspirou-me.

Foi difícil, mas inspiraram-me.

PERGUNTA SEIS:

Quem é que o inspira? Jesus Cristo?  Santa Madre Teresa de Calcutá? Princesa Diana?

Os inspiradores ajudarão nesta passagem. Tenha-os. Vivos em si.

———-

Saint Nobody, uma música de Jessie Reyez, tem um letra incrível e um poderoso vídeo clip. Ando a revê-lo.

Fala de passagem, de entrega, de dedicação, de não sermos santos, fala da importância da fé, da importância da fé em nós próprios…porque isto não pode ser só uma passagem.

Trabalhemos. Trabalhemos ainda mais. Tenhamos a noção de que acaba. Mas pode ser só o começo…

PERGUNTA SETE

Pode ser só o começo…vai deixar algo por dizer…algo por fazer?

 

Será que os meus filhos sabem disto?

Havia uma rede social nas janelas da minha rua. Será que os meus filhos sabem disto?

Havia também tempo que andava com calma. Vagaroso, sem se atropelar. Olhávamos, víamos, esperávamos pelas pessoas sem ter telefone portátil. Será que os meus filhos têm noção disto?

Não estou a ser saudosista (caso haja carga negativa no termo). Gosto de olhar para o futuro. E se o passado me pode ensinar, posso tentar usar esses conhecimentos para ser mais feliz hoje, planeando um futuro melhor amanhã.

Vou tentar ficar mais tempo sentado num muro, a ver passar.

E vou mobilizar os miúdos para me acompanharem. Terei sucesso?

Vou experimentar usar um despertador a sério, para dar ao meu cérebro uma folga do telemóvel. Pelo menos, uma folga de uma hora.  A primeira hora da manhã, pode contar a história do resto do dia. Vou sugerir à família que me acompanhe.

Havia uma magia em ouvir um disco até ao fim. De ponta a ponta. Poderei tentar fazer isso com os meus filhos? Vou tentar!

E as escadas rolantes? Ainda me lembro de fazer uma espécie de excursão a Lisboa para ir subir numa escada rolante. Hoje, confesso, faço uma certa censura aos elevadores e escadas rolantes. Ainda há dias, no prédio onde vive a nossa amiga Deolinda, convenci o mais novo, e subimos pelas escadas!

Dizem que elas são ridículas. E a parte da minha vida construída à sua volta, é do tamanho do sorriso mais sincero. Escrever à mão. Escrever cartas. Como podemos sugerir aos nossos filhos que o façam? Será útil? Serão mesmo ridículas? Contribuirão para o desenvolvimento cerebral? Escrever num teclado será igual a escrever à mão?

Quando tossia (e se eu tossia!) o remédio era um pacho de álcool no pescoço. Vim depois a descobrir que isto era ridículo. Já há xaropes. Medicamentos. Comprimidos.

Vamos lá agora andar para trás e usar remédios naturais

E porque não? Vamos experimentar! Cebola no quarto para a tosse, um golinho de água para os soluços…vamos experimentar. Claro, com responsabilidade. Mas há um saber escutar o corpo que devemos recuperar. Para conhecer o que funciona (e não connosco).

Se sofremos com remendos nas calças, também havia razão para isso. Se as calças picavam, usávamos na mesma. E hoje? Faz-se um remendo? Usamos roupa readaptada? É dar espaço à criatividade.

Sempre vi os meus avós a apanhar sol. Um, nas arcadas de um prédio onde havia um talho. O outro, no seu quintal onde regava.

E hoje, vou quebrar a rotina, vou buscar a mais nova, um pouco mais cedo, e vamos à praia. No caminho, falo-lhe dos avós. E olharemos para o futuro.

Treinar a voz interior

Se há situação em que notamos logo como é a nossa voz interior, é quando “queremos” ir ao ginásio, mas na verdade não queremos.

No meio dos vou mais ao fim do dia”, “2019 é que vai ser”, “amanhã é que há uma aula boa” e o hoje está demasiado frio”, o nosso mindset está em tenho de ir ao ginásio”.

Quando não vou, sinto-me mal comigo própria, o que resulta em ainda menos idas ao ginásio. O “tenho de ir” tem a carga da obrigação e da falta de opção, o que despoleta uma falta de envolvimento da nossa parte.

Parece que alguma força exterior me está a obrigar a fazer algo que não quero, o que também nos leva inconscientemente à procura do culpado. A nossa atribuição de culpa soa mais ou menos a isto:

“Tenho de ir ao ginásio porque fartei-me de comer no Natal!”,
“Tenho de ir arrumar a casa porque vou ter cá um jantar mais logo”,
“Tenho de ir às compras porque o meu filho come que se farta”

Isto faz com que ao executar qualquer uma destas tarefas, seja bastante difícil encontrar a mínima alegria no processo. Sentimo-nos à mercê de tudo o que temos para fazer, sem a mínima escolha.

Quando trocamos o “eu tenho de ir” por eu escolho ir”, esse poder e responsabilidade são-nos devolvidos.

O nosso envolvimento cresce, e a nossa vontade também. Mesmo que ao princípio pareça um pouco estranho, quanto mais treinares mais habitual e natural fica o processo. É um clássico e poderoso “Fake it until you make it”.

“AH! Mas eu não escolho ir às compras. Se eu não for o que é que se come cá em casa?” 

Todas as escolhas têm consequências. Se eu não comprar a comida, de facto ela não aparece. Quer dizer pode sempre aparecer uma pizza com a morada errada… mas há várias formas de comprar. Posso comprar online ou comprar no dia seguinte, e fazer o jantar com o que há em casa. Posso fazer jejum intermitente, ou acabar com todos os restos perdidos no frigorífico.

Na verdade, tenho escolha entre várias hipóteses quando escolho ir às compras, apenas no momento não estou a tomar consciência das outras opções.

Esta mudança na forma de verbalizar e ver as situações, deve ser passada aos nossos filhos desde cedo.

Uma abertura de enquadramento e tomada de consciência das opções escondidas, que é a forma de os ensinar a terem um papel activo nas suas vidas. A envolverem-se, a importarem-se, a tomarem responsabilidade, a encontrarem novas soluções, a desenvolverem o seu potencial. Ensina-os a terem uma voz interior que os apoia, e uma autoestima saudável cheia de jogo de cintura.

Ao encontrarmos o poder da escolha em nós, a nossa motivação dispara. Imediatamente. Por exemplo, eu hoje já com o saco da ginástica à porta disse para mim “Eu escolho ir ao ginásio”. Aí percebi que também me apeteciam igualmente outras opções: fazer yoga na sala, fazer uma caminhada para apanhar este sol de Inverno catita, ou fazer nada no sofá. Mas quando acrescentei:

“Eu escolho ir ao ginásio… para tomar banho SOZINHA sem ouvir ó mãeeeeeeee!”, peguei no saco, imediatamente, e saí a correr de casa altamente motivada.

Hoje fiz um amigo!

Ainda mal o ano começou, e eu já fiz um amigo!

Como diz o Sérgio Godinho, coisa mais preciosa não há. E é verdade, não achas?

Ainda não sei se digo a toda a gente ou se fica um amigo secreto…porque não? Há que ter magia, há que acreditar…há dias, eu disse que o Pai Natal não existia, porque era uma certa raiva a falar…saiu-me…estou arrependido.

O meu amigo (ou será uma amiga?!) tem mais ou menos a minha idade.

Somos parecidos, no entanto, há coisas completamente diferentes na nossa maneira de ser. Parece ser esse o sal da amizade. Como na vida!

A variedade, como o sal da vida.

Não é o quanto somos iguais. Na disputa, nas discussões e nos desacertos, há tanta luz como na luz. Talvez até mais. Haja clareza nas discussões e boa fé.

É um amigo novo. Tenho vontade de o tratar bem. Quero dar-lhe atenção plena. Quero esfregar-lhe creme nas mãos, sem que se esqueça do mais importante: a hidratação vem de dentro, há que beber água.

Vou dar-lhe pistas para o ajudar a educar os filhos! Tenho, naturalmente, as minhas dificuldades em educar os meus, mas ao ensinar com o coração, sem pretensões, vou melhorar a minha própria forma de educar.

Vou, em breve, completar um sonho. Ficar com ele debaixo de umas mantas quentinhas. Sem esquecer a rua! Lá fora é a nossa casa. A casa da aventura. No frio, no sol…

Espero partilhar aquela “técnica” dos 10 segundos…li num livro…quando a ideia de fazermos algo nos surge na cabeça, iniciamos uma contagem decrescente. Ao chegar ao zero, levantamo-nos e vamos fazer! Simples.

Vou contar-lhe uma lenda (na verdade, uma história inventada por mim).

Diz assim: Há uma jóia rara que entrou num dedo. E agora, é ainda mais reluzente. O dedo. E a jóia. Mas não o devia ter feito! Foi um erro ter entrado! Aconteceu. Agora, para retirar a jóia, implica cortar o dedo. Corta-se?

Com isto, vou ajudá-lo a entender que somos humanos. Falando vamos crescendo. O erro faz parte.

Vou ajudá-lo a dormir melhor em 2019. Insistir para que tenha uma rotina ao deitar.

Não sei se vou falar com ele hoje.

Vou perguntar a sua opinião sobre a desbunda.

Vinho. Beberei vinho com ele. Nunca sermos só os dois. Claro. Assim, não faria sentido. Mas espero ser amigo dele para sempre.  E cada vez mais. Tenho a sensação de já o conhecer há anos…terei estado zangado com ele? Teremos tido altos e baixos?

Se me estiveres a ler, meu amigo Alfredo Jaime de Oliveira Leite, também conhecido como Xanico, auto-apelidado de forma irónica de “Doutor”…tem um bom ano de 2019!

Sei. Se estivermos bem, quem está à nossa volta, família, outros amigos, desconhecidos, e, claro, outros amigos secretos, vão estar cada vez melhor! Com mais sorrisos. Este é o desejo.

Vou proteger-te meu amigo. Vamos brincar. Vamos ser crianças à vontade. Seremos amigos. A sério. Para sempre.

E tu? Contas ser teu amigo? Contas ser tua amiga? Tens sido?

Não desprezes o poder de uma boa resolução com objetivos e metas, com um bom plano. Faz-te (cada vez mais) teu amigo em 2019.

A Felicidade secundária ou pequenos prazeres da vida

As emoções positivas que procuramos nas nossas vidas, são, algumas vezes, consideradas como “felicidade de segunda”.

A maioria das vezes são os grandes marcos (casamento, nascimento dos filhos, ganhar um prémio monetário grande,…) que referimos como “os momentos” da vida.

E pela negativa, é semelhante. Dizemos que os piores momentos são os funerais, os divórcios…

Há algo perigoso nesta consideração.

Os chamados “pequenos prazeres” têm uma grande importância!

Claro que não estou a falar dos (maus) atalhos…drogas duras, sexo à balda ou comida em exagero. No entanto, aquela refeição de sushi que nos custou a conseguir (porque trabalhámos para ter verba para a pagar), o escorrega com os sobrinhos ou filhos…o treino onde superámos a nossa marca pessoal, baseado no trabalho dos treinos passados…o encontro com o amigo ou com a amiga…as conversas louquinhas à “Gato Malhado e Sinhá” em que cada um se aplica. E se dá. Com alma.

O importante é que estes prazeres depois não tragam “mal ao mundo”, como se costuma dizer.

Sabemos distinguir.

Não estamos a fazer apologia ao hedonismo, pelo hedonismo. Estamos a elogiar o prazer que vem quando, com esforço, com empenho, fazemos algumas tarefas simples. Até podem ser sem planificação. Sem premeditação. Mas há esforço. Um esforço positivo, claro. Não é estar apenas de corpo presente. É levar a alma que referi acima.

Estas emoções positivas têm lugar na vida. Óh se têm. Olhemos para elas como uma força motriz.

Como algo que nos diferencia. Como algo que melhora o mundo.

Caminhemos então no parque (em ocasiões especiais, às vezes temos mesmo pressa) olhando para a verdade das cores.

Vivamos o afeto de um abraço (que deverá ser sempre especial) como uma experiência capaz de dizer: vale a pena viver!

Passeemos no jardim, testemunhando a nossa própria presença. Como se fôssemos o nosso próprio sol.

Usufruamos de um amigo, de um sol, de uma lua, de um segredo, de uma pequena paixão,… As pequenas experiências, serão somadas na conta da nossa felicidade. E são elas que vão levar o nosso legado a bom porto.

Oremos. A sério. Como uma roda que nos eleva. Sem frases feitas ou lugares comuns. Com fé.

Só podemos trabalhar felicidade a longo prazo, a tal realização, a passagem de testemunho, a obra e a capacidade de ajudar, se olharmos para a delicada importância das emoções positivas do dia-a-dia.

Agora, começa a chuva. Há quem use guarda-chuva. Capa.

Há investigação científica que mostra que as emoções positivas também têm efeito protetor. Com consciência, joguemos-nos então neste mar misterioso de bons e saudáveis pequenos prazeres.

Isso faz de nós (mais e melhores) humanos.

 

Photo by averie woodard on Unsplash

Afinal para que serve a Escola?

Há muita gente que casa por casar. Que vota por votar. Que anda cá por ver os outros andar. Há muita gente que vive por viver.

E a escola? Porque vão à escola os nossos filhos?

Às tantas vão à escola porque nós também fomos, porque “toda a gente vai”… Não será importante pensarmos as razões que nos levam a acreditar na escola? Até há uns anos, acreditávamos que a escola traria emprego.

Hoje, num mundo em mudança, sabemos que não é bem assim. Há muitos empregos que ainda nem foram inventados. E, por outro lado, cada vez mais empresas estão atentas a algo mais do que apenas “o currículo”, na hora de escolher colaboradores.

Quando nos colocamos em bicos de pés e exigimos dos nossos filhos apenas que tenham boas notas, estaremos a pensar verdadeiramente no futuro deles? Ou será que, como adultos, desejamos ter filhos com boas notas, numa espécie de competição com outros pais?

Há muita gente que diz que deseja filhos felizes. Mas depois, exige notas. Quadros de honra e afins.

Não estou, de forma alguma, a fazer a apologia das “más notas”. Mas sei que há crianças e jovens infelizes nas nossas escolas. Sei que há crianças e jovens infelizes por causa das nossas escolas. Sei que há professores que desejavam fazer diferente. Debater mais. Falar mais da vida nas entrelinhas do currículo escolar. E sei que há pais a “apertar” com os professores por causa dos exames.

Sabemos que as máquinas, as tecnologias, estão a chegar.

Se queremos crianças com um futuro, com uma ocupação, com um trabalho, não será importante reforçar neles as características que nos distinguem das ditas máquinas? É fundamental saber. As matérias são, no geral, importantes.

E ser? E entender? E compreender o mundo? E saber pensar? E criar? Se é importante saber, então se pensarmos nestas outras competências, teremos um caminho diferente a percorrer.

Queremos que eles tenham boas notas. Neste exame que é a vida

Estaremos a preparar os filhos para a adolescência?

Pensando nesta viagem entre o planeamento do nascimento (quando o há)  até à vida adulta dos nossos filhos…

Já pensaram nesta questão em voz alta? Ou mesmo em silêncio?

Acredito que a maternidade e paternidade são muito mais do que dois cromossomas unidos e sobre isso já teci várias considerações .

A primeira infância

A primeira infância passa a correr. Entre mudas de fraldas, as primeiras colheres de sopa, algumas quedas e visitas frequentes ao centro de sáude. As febres, viroses e afins, as birras e as noites sem dormir. Passa a correr. E quando finalmente desacelaramos, a criança atingiu os dois primeiros anos de vida. Se o trabalho de casa foi bem feito (e deve ter sido), ela tem em si muitas ferramentas que facilitarão a etapa seguinte. Estou, evidentemente, a falar da estimulação do desenvolvimento global do bebé, que é crucial para o desenvolvimento futuro.

Apercebi-me, há alguns dias, que está novamente em desuso contar histórias em ambiente familiar, falar com a criança ou cantar. Permitir a brincadeira ao ar livre, as quedas, o sujar e o brincar…

Isto preocupa-me.

Entrada para a escola e 1º ciclo

Numa segunda fase, a criança transita entre o pré escolar e o primeiro ciclo e inicia-se a fase das aquisições consideradas importantes. A educação do currículo evedencia-se em detrimento das artes. Pintar, desenhar, dançar ou cantar são atividades de preenchimento de horários. Com sorte, terão pais e mães atentos que lhes permitirão trabalhar estas áreas de expressão em casa ou noutros contextos.

Surgem as atividades extra-curriculares que dão aso à liberdade da criança quando estas têm a possibilidade de as escolher por iniciativa própria e não por imposição de elites sociais, caindo no erro de não contribuírem efetivamente para as necessidades da criança.

A adolescência

O tempo passa a correr e logo o segundo e terceiro ciclo chegam e o bebé, é de repente, adolescente. E agora?
Foram criados os laços afetivos necessários na infância?
O jovem adolescente  sente a sua casa como um lar onde poderá partir e voltar, sendo acolhido nas suas escolhas?
Poderá partilhar as suas ansiedades, dúvidas e questões?
Irão respeitar o seu espaço, a sua integridade física e moral? Os seus silêncios…

Às vezes sim , outras não…E assim vamos modelando adultos que nunca ouviram um Acredito em ti , És capaz, Estou aqui se não der certo, Tenho orgulho em ti, Gosto de ti, Apesar do teu comportamento estou aqui contigo!

O verbo amar nem sempre se resuma a: tens fome, tens sede, tens escola, tens roupa, tens dinheiro…

O tic tac do relógio está a contar, já pensou neste caminho?

É igual ao seu? Talvez sim, talvez não!

O novo ano letivo já arrancou e por isso, enquanto pais, devemos começar já a acompanhar os nossos filhos. Em casa, na escola nas atividade, aqui ficam

6 formas simples de preparar o seu filho para o novo ano letivo

A emoção e a angústia são mais notórias no início do novo ano escolar. Para muitos pais e filhos o regresso às aulas depois das longas férias de Verão, é sinónimo de dificuldades: novos professores e alunos, horários fixos e maior exigência.

Mudanças que se afiguram particularmente difíceis, sobretudo para crianças e adolescentes com problemas de aprendizagem, de falta de atenção e com baixa capacidade de organização.  Há a necessidade de as preparar com antecedência para as novas obrigações académicas. Não desespere!

Há formas simples de as ajudar na transição para o novo ano letivo e que dependem apenas de si:

1- Ensine o seu filho a ser organizado.

Uma organização/calendarização das atividades eficaz, pode facilitar os primeiros dias de escola, aumentar os níveis de confiança e autoestima e serenar o habitual nervosismo. Organize o material escolar, livros, canetas e a mochila. Defina, por exemplo, as tarefas domésticas diárias em função dos horários escolares. Estabeleça períodos para as atividades extracurriculares e para o estudo em casa.

É importante que o seu filho tenha horários pré-definidos para a realização dos trabalhos de casa. Um local arrumado e silencioso para realizar as tarefas escolares pode ser determinante para obter a desejada concentração e os bons resultados no final dos três períodos letivos.

2 – Estabeleça rotinas de sono.

O descanso é fundamental para uma boa aprendizagem e melhora o desempenho escolar. Imponha horários para o seu filho ir para a cama durante o ano letivo. As necessidades e os padrões de sono variam em função da idade da criança. Não dormir o número de horas necessárias pode também ter consequências graves aos níveis emocional e comportamental.              

3 – Converse diariamente com o seu filho sobre a escola.

Mantenha uma comunicação aberta sobre as atividades curriculares, a aprendizagem e as relações com colegas e professores. É importante que os pais se envolvam nas rotinas escolares. Incentive o seu filho a partilhar os medos e receios. Identificar um problema é a primeira forma de o resolver.

4 – Motive o seu filho para a aprendizagem.

Não há sucesso escolar sem motivação. Esteja atento aos progressos e às dificuldades. Elogie os bons resultados e reforce o esforço aplicado na aprendizagem. Se o fizer estará a contribuir para promover a motivação e a confiança do seu filho. Não estabeleça objectivos demasiado elevados. Expectativas não cumpridas podem ter um efeito negativo no rendimento escolar. Ensine o seu filho a acreditar em si próprio.  Concentre-se nos seus pontos fortes e dê-lhe ferramentas para lidar com os desafios escolares de forma mais eficaz.

5 – Estabeleça estratégias para o estudo no novo ano letivo

É preferível uma hora diária de estudo a várias nas vésperas das avaliações. Comece pelas disciplinas que o seu filho tem maiores dificuldades. Deixe as que ele considerar mais fáceis para o fim. Os níveis de concentração são mais elevados no início da realização dos trabalhos de casa. Ensine o seu filho a fazer apontamentos da matéria sobre a qual incide o estudo. Em caso de necessidade pode sempre aproveitar o fim-de-semana para rever conhecimentos e pôr a matéria em dia.

6 – Ensine o seu filho a ser autónomo e responsável.

É importante que os alunos percebam que as boas avaliações dependem de si próprios, dos níveis de concentração nas aulas e do trabalho em casa. As crianças devem ser estimuladas e orientadas para estudar de forma autónoma. Isto não significa que os pais devam “estudar” pelos filhos. É um erro comum que só promove a dependência e a falta de confiança das crianças. Supervisione diariamente as atividades letivas em casa, sobretudo nos primeiros anos de escolaridade. Apoie, esclareça mas incentive-o a estudar sozinho.

 

 

 

 

E se não houver sol? Uma mão cheia de coisas…

Já todos sabemos como acabou o Gato…o Gato Malhado…lembras-te?

Mesmo assim, gostamos de reler. Talvez haja uma esperança de chegarmos ao fim e ele – o final – ser diferente, não é?

Como se reler um livro, rever um filme ou reencontrar uma pessoa, fosse capaz de trazer finais diferentes. Não. Não é capaz.

Sei que deves estar a pensar: “Então mas as pessoas não mudam?!“. Mudam. Mas pouco.

Nestas férias, temos um final à nossa espera. Voltaremos para a barriga da cascavel? Provavelmente.

A mim ninguém me tira da ideia…a cascavel tem um chocalho! Eu, se fosse o gato, teria ouvido o chocalho! E teria fugido.

O problema não é esse, bem sei. O problema era a vontade do gato! Eu não quero acabar na barriga da cascavel.

Não quero férias como uma tarde de verão.

Não desejo terra à vista, como quem grita “fim à vista”. Vou beijar demorado, vou acordar cedo, vou tentar o equilíbrio entre a rotina e a falta de regras. Vou beijar roubado, vou acordar tarde…

E vou fazer mais uma mão cheia de coisas. E se não houver sol?

Quero reencontrar-te diferente no fim destas férias porque fizeste o mesmo. Quero ler em ti outro final, porque reescreveste as tuas histórias.

Vou fazer isso também, numa mão cheia de coisas:

  1. Vou contar aos meus filhos a história de uma nuvem feia, má, triste, suja,…E vou explicar a força do vento. O vento capaz de empurrar as nuvens feias para longe. Essa força está dentro deles. Falarei de persistência, de resiliência, claro está. Mas falarei da nuvem e do vento.
  2. Vou contar ao amor da minha vida a história de uma brisa fresca, traiçoeira, aborrecida…e vou explicar a força da prevenção. Esta brisa, chamada “a idade a chegar” pode ser terrível! Mas, como me preparo, hei-de ter sempre um casaquinho. Não se pode confiar neste clima. A partir de certa idade, um casaquinho vai sempre bem. Falarei de regar o amor, claro. E de brisas que afinal, com preparação, não são alterações climáticas. São naturais.
  3. Vou contar sobre o meu sonho matinal. Sonho onde reúno os amigos (aqueles três…quatro…) com frequência. É a história de um cardume navegante, conquistador, capaz de cortar as águas porque está em grupo.
  4. Vou contar sobre o avô Jaime e sobre a forma como morreu. A forma como deixou um legado de boa disposição, de humor, de sorriso e de vinho tinto (daquele incapaz de deixar mancha). De vinho tinto capaz de deixar marca. Uma marca boa.
  5. Vou contar a história do sorriso doce mais inexplicável. A luz surpreendente, surgindo como uma música de ANAVITÓRIA, ou melhor, Rubel em “Quando bate aquela saudade”. Vou contar sobre o sonho. Sonho.

Sonho com o gato a fugir da cascavel.  Não, não chega a casar com a andorinha, mas está escrito com outro fim, com outra cor e luz. Sonho com o chocalho a avisar. Sonho com uma noite de verão que, no fim de contas, pode ser a vida toda. E se não houver sol?

Sonho que, afinal, em vez de gato, sou um sol.

Boas férias.

image@videoblocks

Somos fruto de uma soma, não de divisão

Acredito que todos temos um propósito, que viemos ao mundo – seja por quanto tempo for – para o transformar de alguma forma.

Há quem passe uma vida inteira sem perceber qual o sentido de andar por cá, sem por isso se aperceber que provavelmente está a ensinar a alguém lições valiosas.

Somos a soma do amor que em nós foi depositado, dos planos que foram feitos, mesmo quando não fomos planeados ou “desejados”.

Somos a soma das nossas experiências, das nossas escolhas, das pessoas que tivemos e temos à nossa volta.

Somos para os nossos filhos muitas vezes mais do que os nossos pais foram para nós e, outras tantas, menos.

Ensinamos como sabemos, às vezes sem saber ensinar.

Lamentamos coisas erradas, agarramo-nos a sentimentos e por vezes a coisas. Deixamo-nos ir abaixo, erguemo-nos e caminhamos, mancos ou com energia, conforme a vida e o destino nos deixam.

Cometemos os mesmos erros repetidamente, conseguimos inclusivamente saber antecipadamente que o vamos fazer e gostaríamos de o poder evitar. Noutras alturas evitamos esses erros e sentimos alguma glória nessa conquista, que nos enriquece.

Fraquejamos, rimos, choramos. Muitas vezes sozinhos.

O nosso caminho é solitário, mesmo quando temos uma família grande, quando estamos rodeados de amigos e temos filhos, um, dois ou cinco. Porque o nosso caminho é feito pelas nossas pernas e os “pesos” que carregamos por vezes fazem-nos demorar mais um pouco em alguns lugares, outras vezes permitem-nos ficar onde somos esperados. Mas o nosso caminho só pode ser feito por nós.

Temos a responsabilidade de deixar aos nossos filhos algumas respostas que os nossos pais não nos deram.

Temos a responsabilidade de, à nossa maneira, deixar o mundo diferente do que o encontrámos, preferencialmente melhor.

Temos a responsabilidade mas também temos as recompensas, se as soubermos identificar, se com elas conseguirmos sorrir e agradecer.

Às vezes esquecemo-nos de valorizar as pequenas conquistas do nosso dia a dia.

De agradecer o que de bom temos, mesmo que seja muito pouco. Porque por mínimo que seja, está lá e faz de nós humanos. Faz de nós pais que querem o melhor para os seus filhos e eles só serão seres humanos melhores que nós se lhes mostrarmos o caminho.

Em muitos casos isso não será suficiente.

Haverá filhos que não deixarão os seus pais orgulhosos.

Haverá filhos que terão caminhos que são um “retrocesso” em comparação com o que foi trilhado pelos pais (e não, não falo de conquistas financeiras, de trabalho, estudos, casas ou número de carros na garagem e carimbos no passaporte).

Haverá filhos que vieram fazer uma viagem diferente da nossa.

Com outro propósito, com outras lições.

Com uma vida aparentemente triste, por vezes.

Mas enquanto mãe, se for esse o meu caso, quero sentir que a vida que trouxe a este mundo tem um significado e o sabe. Que sabe que foi amada e o será para sempre, enquanto viverem as pessoas que cresceram do seu lado.

Que mesmo que o seu percurso não seja tudo aquilo que está escrito nas estrelas ela viveu e não ficou presa às expectativas, aos sonhos alheios, ao que a sociedade esperava que fizesse só para se encaixar no padrão.

No fundo, acho que todos viemos a este mundo com a missão de nos encontrarmos.

E alguns, os mais sortudos de nós, encontram-se uns aos outros no caminho.

E isso já valeu a pena.