Quando vires uma criança com telemóvel, lembra-te

Quando vires uma criança com telemóvel a jantar num restaurante, antes de julgares, lembra-te que não sabes nada sobre aquela família.

Não sabes quando foi a ultima refeição quente daquela mãe. Quando foi a ultima conversa ininterrupta que os pais tiveram. A que horas a família se levantou, nem a que horas se vão deitar.

Não sabes se a criança come bem ou passa dias sem levar comida à boca. Ou quantas vezes os pais tiveram que sair de locais públicos para que as birras da criança não incomodem os outros.
Não sabes quantos meses se passaram, sem que fossem a lado nenhum.

Não sabes quantas horas de trabalho carregam nos ombros. Nem que tretas aturam ao longo do dia. Ou quanto ansiavam por uns momentos de sossego.

Lembra-te que não sabes nada sobre aquela família e isso tira-te o direito de julgar.

Não sabes se a criança raramente pega no telemóvel. Se os pais passam horas por dia a brincar com os filhos. Se normalmente a criança janta sem nenhum aparelho electrónico por perto (nem mesmo a TV para os pais verem as “noticias”).

Não sabes quantos livros a mãe leu à criança.

Não sabes que pais são aqueles, e que criança virá a ser a que vês.

Sabes um momento. Apenas um único momento de toda uma vida. E esse momento não vale nada!
Por isso, quando vires uma criança com telemóvel, a jantar num restaurante, pensa duas vezes antes de largares as tua pedras, lembra-te que também tens telhados de vidro, e que na verdade não sabes nada!

“Se usada com bom senso a tecnologia pode ser uma ótima ferramenta… A negociação, mais do que a exigência unilateral, deve existir. O uso de tecnologias na cama é um enorme problema (presente na casa de muitas das crianças que acompanho). Pelo impacto negativo que tem no sono da criança/adolescente. “

Comecemos por refletir sobre quando deve a tecnologia ser apresentada aos mais pequenos e sob que forma…

Crianças pequenas, particularmente nos primeiros dois / três anos de vida, necessitam da exploração do mundo com as suas mãos. Necessitam da interacção social com cuidadores da sua confiança para o seu desenvolvimento cognitivo, motor, social e emocional. O seu cérebro é ainda muito imaturo, com competências limitadas quanto ao pensamento simbólico e à capacidade de concentração. Sendo os aparelhos digitais um fraco veículo de aprendizagens, quando comparados com as interacções com outros significativos. Nesse sentido, a exposição em idades precoces a aparelhos tecnológicos não acrescenta qualquer valor.

O contacto com os aparelhos tecnológicos deve depois ir sendo guiado, com bom senso, pelos pais e cuidadores. Evitando recorrer às tecnologias como amas tecnológicas, para manter as crianças quietas.

A melhor forma de pais e educadores conhecerem, controlarem e perceberem a adequação dos conteúdos é sentarem-se junto do filho e acompanharem o visionamento do vídeo, programa ou jogo, de modo a inclusivamente poderem dar resposta a questões que possam surgir. No caso da televisão pode ser útil limitar o acesso da criança apenas a canais cujo conteúdo seja conhecido e, à partida, ajustado ao nível de desenvolvimento da criança. No caso de sites a estratégia pode ser semelhante. Os videojogos, em princípio, serão mais fáceis de controlar dado que ou são os pais a comprar. Caso sejam oferecidos, antes de luz verde para serem usados, os pais poderão fazer uma pesquisa sobre os mesmos.

É possível que a criança não fique obcecada com a tecnologia?

Se uma criança for, desde pequena, educada no sentido diversificar os seus interesses e os seus passatempos e se a televisão e videojogos não tiverem sido usados como “amas tecnológicas” não é expectável que haja, à partida, um uso abusivo da televisão/computador/outras tecnologias. Também é importante o adulto recordar-se que é um modelo. Pelo que o uso que ele faz das tecnologias servirá de modelo à criança/adolescente. De que serve pedir que largue o telemóvel ou desligue a televisão se os pais estão “constantemente” dependentes dos mesmos?

Tecnologia no quarto? Talvez seja melhor não…

Mas tudo depende do uso que lhe é dado. Se uma televisão ou consola funcionar como uma ama tecnológica, para entreter a criança, para não incomodar os pais enquanto os pais fazem qualquer outra coisa, isso é errado. Se a criança na ausência da consola ou da TV não sabe como se entreter e fica com alterações bruscas e intensas de humor é porque algo de errado aconteceu no decorrer no processo de “apresentação” das tecnologias às crianças.

O uso ou presença de tecnologias no momento de fazer TPC é um grande problema.  

Dificultando a capacidade de concentração e diminuindo a motivação e eficácia do estudo.

O uso de tecnologias na cama é um enorme problema (presente na casa de muitas das crianças que acompanho). Pelo impacto negativo que tem no sono da criança/adolescente. Atrasa o momento de ir dormir e a luz, especialmente a radiação azul emitida pelos ecrãs, diminui a produção de melatonina, a hormona que induz o sono, controlando o ciclo sono-vígilia, dificultando o adormecer. Adicionalmente, o sono pode ser interrompido por alarmes de mensagens, por exemplo. Ora uma criança que não dorme o número de horas adequado à sua idade, ou que não descansa de forma conveniente, é uma criança com maior dificuldade em regular o seu comportamento e as suas emoções. Com maior dificuldade em concentrar-se e, consequentemente, poderá começar a manifestar dificuldades de aprendizagem.

Mas é possível haver negociações?

Se usada com bom senso a tecnologia pode ser uma ótima ferramenta. Contudo, dado que as crianças têm maior dificuldade em gerir o seu tempo e em regular os seus comportamentos é mesmo fundamental que o adulto ajude a gerir o uso das tecnologias de forma consciente e ajustada às necessidades e idade da criança. A negociação, mais do que a exigência unilateral, deve existir. A criança acaba por se sentir envolvida e mais responsável no uso das tecnologias. Havendo flexibilidade no momento de definir regras razoáveis do uso das tecnologias evita-se cair em “o fruto proibido é o mais apetecido”.

O excesso de horas de ligação à tecnologia interfere significativamente na vida dos mais novos…

Saliento três pontos:

1 – o uso abusivo, pode conduzir ao isolamento social e ao sedentarismo, com impacto na saúde física e emocional;

2 –  o uso em momentos desajustados. Como durante períodos de estudo ou na cama antes de se ir dormir, conduz a dificuldades como as anteriormente descritas;

3 – a exposição a conteúdos desadequados para o nível de desenvolvimento. Não conseguindo a criança elaborar/compreender os mesmos, pode gerar confusões, dúvidas e receios.

Com limites razoáveis e alguma flexibilidade a relação das crianças e jovens com a tecnologia não tem de ser difícil.

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imagem@the educator

É sempre uma forma de violência. Um crime que merece castigo, mas que, não raras vezes, resulta impune. Não deixa de ser uma tortura, exercida por contacto interpessoal, ou através de meios mais sofisticados, como a internet. Em inglês, o termo “bullying” derivada da palavra “bully”. Significa tirano, brutal.

O cyberbullying é um tipo de bullying que tem aumentado com a expansão das tecnologias de informação. Antes da Internet, as crianças eram vítimas de violência sobretudo na rua, na escola, na paragem do autocarro, no caminho para casa, entre outros. Mas, quando chegavam a casa, normalmente, o bullying parava. Há, todavia, casos, e não são poucos, em que as crianças são, também, vítimas de bullying por parte das próprias familias.

Agora, com as novas tecnologias, o cyberbullying pode acontecer em qualquer lugar a qualquer momento. 1 em cada 10 crianças portuguesas já sofreu ofensas através da internet. O número de casos reportados cresce ano após ano. Saiba o que fazer para proteger as crianças.

O que é Cyberbullying?

O cyberbullying caracteriza-se pelo ataque através de insultos, difamação, intimidação, ameaça ou perseguição intencional e sistemática na Internet.  Não acontece apenas entre jovens. É feito com intenção de prejudicar, recorrendo a tecnologias online.

Hoje, as crianças usam as redes sociais, mensagens de texto e e-mail para conversar com os amigos. Isto significa que o cyberbullying pode acontecer facilmente. Mensagens cruéis ou fotos pouco favoráveis podem ser enviadas a uma escola inteira com apenas um clique, de casa, na rua, a qualquer hora, dia, seja fim de semana ou feriado. O agressor costuma agir na sombra, através de um perfil falso, ou uma conta fictícia de e-mail. Fique atento.

Às vezes, o cyberbullying acontece de quem menos se espera. Não escolhe rostos, nem religiões. Uma criança solitária, por exemplo, pode transformar-se num agressor ou vítima, sem que os pais em casa sequer imaginem. Mas, o cyberbullying também, pode ser exercido por um grupo de crianças que decidem publicar textos cruéis e prejudiciais sobre outras crianças.  Rapidamente, essas mensagens multiplicam-se como um vírus pelas redes sociais e, depois…já é tarde. O mal está feito e as consequências podem ser devastadoras para as vítimas, refletindo-se ao nível do desempenho escolar e, no limite, provocar depressão e até mesmo suicídio.

O cyberbullying pode acontecer de várias formas. Eis alguns exemplos:

  • Enviar emails, textos ou mensagens instantâneas.
  • Enviar mensagens neutras a alguém até ao ponto de assédio.
  • Publicar conteúdos prejudiciais sobre alguém nas redes sociais.
  • Espalhar online rumores ou falsidades sobre alguém.
  • Denegrir a imagem de alguém através de conversas online, acessíveis a várias pessoas.
  • Atacar ou matar um personagem de um jogo online, constantemente e de propósito.
  • Fingir ser outra pessoa através de um perfil online falso.
  • Ameaçar ou intimidar alguém online ou através de mensagens de texto.
  • Tirar uma foto ou vídeo embaraçoso e compartilhá-lo sem permissão.

É importante saber que nem todos os conflitos online entre crianças são cyberbullying.

Às vezes, as crianças entram em discussões acesas nas redes sociais. A maior parte são conversas inofensivas, apenas de brincadeira, mas podem ser confundidas. Provocação e bullying são coisas diferentes.

Há maneiras de determinar se um comportamento configura um crime de bullying.  Se uma criança envia mensagens prejudiciais de propósito e de forma regular, então poderá ser considerado um ataque cibernético.

Cyberbullying e crianças com problemas de aprendizagem e atenção

Todas as crianças podem ser cibercriminadas. No entanto, crianças com problemas de aprendizagem e atenção enfrentam riscos especiais. Significa que são mais propensos a ser cibercéticos do que os seus pares.

Por exemplo, crianças que recebem apoios escolares ou estatais podem ser um alvo mais fácil, simplesmente, porque podem ser olhados de maneira diferente, quer em termos sociais como académicos.

As mensagens online podem ser complicadas para crianças com problemas de aprendizagem e atenção. A maioria das comunicações através da internet depende do texto, o que constitui uma dificuldade acrescida para alguém, por exemplo, que se debate com problemas de leitura e escrita.

Crianças com fracas aptidões sociais podem interpretar mal os e-mails ou os textos. Podem não entender o contexto de uma publicação nas redes sociais. Crianças com problemas de impulsividade ou PHDA podem reagir mal a uma mensagem.

Note que há também casos reportados de crianças com problemas de aprendizagem e atenção que, em vez de vítimas, assumem, também, o papel de vilão.

Como prevenir o ciberbullying

A melhor maneira de prevenir o ciberbullying é preparar a criança para saber interagir no mundo online. Negoceie regras de utilização da internet. Se não deixamos os nossos filhos andar sozinhos na rua, que sentido faz se os deixarmos em casa com a porta da internet escancarada, sem nenhuma proteção?  Eis algumas estratégias que podem ajudar:

  • Fale com a criança sobre o que é o ciberbullying.
  • Discuta com ela o que fazer se ela alguma vez for vítima.
  • Pratique as habilidades sociais do mundo real com a criança, verá que estará a ajudá-la online.
  • Mantenha linhas de comunicação abertas com a criança.
  • Ensine o respeito e a empatia pelos outros nas redes sociais.
  • Compreenda quais dispositivos, aplicativos e tecnologia que costuma  usar, guardando, por exemplo, as passwords de acesso às redes sociais.
  • Mantenha a tecnologia fora do quarto da criança, onde, poderá ser usada sem supervisão.
  • Use um contrato de telemóvel para ajudar a gerir o uso de tecnologia por parte da criança.
  • Mude o número de telemóvel, email, passwords, sempre que suspeitar que a criança é vítima destas situações.
  • Não partilhar informação pessoal, número de telemóvel, fotos, escola e/ou locais que frequenta.
  • Nas redes sociais, adicionar só as pessoas que conhece, ao vivo e a cores, e manter o perfil restrito.

Cada vez se ouvem mais notícias de crianças e adolescentes que se perderam por causa da net.

Não sejamos tendenciosos que não é só desde o aparecimento da web que temos perdido filhos. Antes disso também acontecia.

Mas antes perdíamos os filhos nos rios, nas estradas, nos mares, e hoje perdemo-los dentro do quarto!
Quando brincavam nos quintais ouvíamos as vozes deles ao longe, as conversas e, mesmo à distância, sabíamos o que se passava naquelas cabeças. Quando entravam em casa não havia uma televisão em cada quarto, nem gadgets nas suas mãos. Quero deixar bem claro que não sou contra tudo, nem excluo da vida dos meus filhos, apenas modero. Mas meus queridos, sejamos sinceros: temos vindo a perder o equilíbrio.

Hoje não ouvimos as vozes deles, nem ouvimos os seus pensamentos e fantasias. As crianças estão ali, dentro dos seus quartos e por isso acreditamos que estejam em segurança. Que imaturidade a nossa.

Fechados nos quartos de phones nos ouvidos, trancados nos seus mundos, a construir saberes sem que saibamos quais são… nem tão pouco orientados por nós.
Alguns têm perdido literalmente a vida, mas há tantos outros que ainda aí andam vivos fisicamente, mas mortos nos seus relacionamentos com os pais, fechados num mundo global de informação e estímulos, de ídolos do youtube, de modas passageiras que em nada contribuem para a formação de crianças seguras e fortes, e se tornam crianças sem qualquer capacidade para tomar decisões moralmente corretas e de acordo com os seus valores familiares.

Dentro dos próprios quartos perdemos os nossos filhos que já não sabem quem são nem qual a sua identidade familiar… Tornam-se numa mescla da informação adquirida em vídeos, personagens e ideias que os influenciam lentamente, até ao dia em que nós, os pais, nos apercebemos que já não reconhecemos os nossos filhos.

Agora podes ler este texto, gostar e taggar amigos. Podes reconhecer aqui verdades e refletir sobre elas. Podes rever-vos nestas palavras. Isso já será excelente.

Desafio Filhos do Quarto

Mas como Psicopedagoga tenho visto tantas famílias com filhos “mortos” dentro do próprio quarto, que vou deixar aqui um convite, e espero que aceites: convido-te a tirares o teu filho do quarto, do tablet, dos phones; convido-te a comprar jogos de mesa, tabuleiros e a ter os teus filhos na sala, ao teu lado no mínimo duas noites fixas todas as semanas  (para além do sábado e domingo). E joga, diverte-te com eles, ouve as suas vozes e falas, os pensamentos e aproveita a grande oportunidade que é  tê-los vivos física e espiritualmente, a dar o trabalho que os filhos dão a educar. Os teus filhos vão aprender a viver em família e vão desenvolver o sentimento de pertença pela família e lar, e não precisarão de se aventurar em “Baleias Azuis” e afins para se sentirem aceites ou para sentirem um pouco da adrenalina que antigamente tínhamos com as brincadeiras na rua!

Adaptação de texto original de Cassiana Tardivo, por Up To Kids®

imagem@ontslog

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É frequente ouvirmos o quanto as crianças de hoje são diferentes das crianças de há uma ou duas décadas atrás e como tem sido difícil adaptar relações, educações e o próprio sistema de ensino, que se mostra cada vez mais desadequado aos interesses e vontades desta nova geração. Na verdade, se educar já era por si só um grande desafio, com todas as alterações desta geração que nasce de olhos abertos e pronta para a vida, tornou-se uma tarefa especialmente delicada.

São realmente muitas as mudanças que esta geração do novo século apresenta. Embora por vezes seja difícil para as famílias compreenderem esta nova forma de se ser criança e jovem, diria que em muitas coisas mudaram para melhor. Maior consciência de si próprios, maior liberdade de ação e menos preconceitos! Que bom, que esta geração nos trouxe essa maravilhosa capacidade de aceitação da diferença, que reflete sempre uma maior possibilidade de aceitação de nós próprios. Este seria um passo gigante para a felicidade do ser-humano, se não tivesse sido acompanhada pelo desenvolvimento de um novo tipo de relacionamentos, infelizmente bem menos saudável e por uma compreensão distorcida do que realmente é liberdade.

O mundo virtual alterou por completo a forma como as pessoas se relacionam e atualmente estamos a assistir a uma espécie de “solidão acompanhada”. Os pais estão pouco em casa, as famílias alargadas são cada vez mais uma raridade, as crianças já não brincam na rua e acabam fechadas em quatro paredes à espera que alguém chegue a casa e lhes dê alguma atenção. Sem tempo, cansadas e sem paciência as famílias acabam por incentivar os ipads, as playstations e as redes sociais porque assim também têm algum sossego. Na verdade não há tempo nem disponibilidade para estar em relação.

O que são as “Relações líquidas”?

Nesta conjuntura assistimos cada vez mais ao desenvolvimento de “relações líquidas”, nas quais a confiança, a intimidade, a presença e o olho no olho, escorrem por entre os dedos das mãos e não permitem que se solidifiquem as relações.

Comprometemos o vínculo na união entre as pessoas e sem vínculo desenvolvemos relações frias, distantes, mais robotizadas e bem menos sentidas. Estamos mais permeáveis à imagem e aos “likes”, numa superficialização das relações que não pode ser reconfortante para ninguém. Vivem na ilusão de estarem acompanhados, sempre no burburinho e corre corre das redes sociais, mas na verdade sentem-se muito sozinhos.

Nesta solidão social e familiar, facilmente percebemos a razão da tristeza, abatimento, falta de energia, falta de motivação e depressão que avassala a vida de muitas crianças e jovens.

Esta semana numa consulta de acompanhamento familiar uma jovem dizia exatamente isso à sua mãe: “Não percebes porque é que eu estou sempre no telemóvel? Eu sinto-me sozinha, muito sozinha! Não compreendes a minha agressividade?! Nós nem conseguimos jantar em família a horas decentes, mas consegues ter tempo para me chatear constantemente com a arrumação do quarto e com as notas dos testes. Imagina então que eu sou como uma mesa. Quanto mais forte lhe bates mais te dói a tua própria mão… Se lhe bateres devagar a tua mão não te vai doer!

A verdade é que as redes sociais, a internet e os jogos de computador têm sido os verdadeiros refúgios desta geração, que se sente acima de tudo sozinha… As redes sociais permitem-lhes manter algum contacto com o mundo e com as pessoas, ainda que virtual, mas distorcem a noção de relacionamento interpessoal e aumentam o medo e a ansiedade das relações próximas, intimas, verdadeiras…

Como dizia Fernando Pessoa no seu poema Solidão – “sinto-me livre mas triste, vou livre para onde vou, mas onde vou nada existe”!

Não, não vamos voltar atrás no tempo, mas por favor vamos cuidar das nossas relações!

imagem@delfi

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Chupeta digital – os pacificadores dos nossos dias

Chupeta em inglês diz-se “pacifier” – pacificador – e na realidade é exactamente isso: um pacificador.

A necessidade de lidarmos com as emoções existe desde que a Humanidade existe e de alguma maneira todos nós arranjamos maneira de as gerir, ou eu não estaria a escrever e vocês não estariam a ler-me.

Diz-se que os bebés em África não choram e quando choram isso é visto como não habitual, porque a proximidade entre mãe e bebé é tão grande (pelo menos tradicionalmente) que as suas necessidades são satisfeitas à medida que surgem, sem recurso a uso de, por exemplo, chupetas.

Antigamente usava-se uma “boneca” – pequena bola  de  pano  com  açúcar ou mel,  que  se dava  às  crianças  para  elas chuparem – com o objetivo de as acalmar. Mais tarde surgiram as chupetas de látex e de silicone, usadas com o mesmo fim.

O Bebé e a comunicação

Quando um bebé chora, o que está a acontecer é comunicação. O bebé diz-nos que tem uma necessidade não satisfeita e cabe-nos a nós mães, pais, cuidadores satisfazê-la. Os bebés são tão bons comunicadores que quem deles cuida consegue distinguir os seus choros, os seus ruídos, a forma como se movem, como abrem os olhos (ou não), etc., e satisfazer a necessidade específica comunicada. Na realidade, o choro comunica algo e a eliminação do choro sem satisfazer a necessidade da criança serve para pacificar os pais que sentem dificuldade em gerir as suas emoções perante o comportamento dos filhos.

Com a agitação das nossas vidas, é preciso muito foco na nossa intenção como pais e educadores. É essencial não nos distrairmos, deixando de perceber como  satisfazer as necessidades das nossas crianças, garantindo o seu desenvolvimento de forma natural e que proporcione aprendizagem.

A escolha das formas que usamos para pacificar as crianças ao nosso cuidado deve ser feita com consciência, não perdendo de vista uma das grandes intenções na educação e que é, como atrás referido: promover aprendizagem. Se de cada vez que uma criança chora lhes oferecemos uma chupeta e essa é a resposta imediata para todas as necessidades, para todos os choros, para todas as birras, estamos a dizer-lhe que não precisa de ser tão específico na comunicação da necessidade porque a resposta será no imediato aquela e é quase como se também lhe disséssemos: “eu é que sei o que se passa contigo… o que precisas é de uma chupeta”. É neste processo, em que, apesar de fazermos o nosso melhor, investimos muitas vezes muito pouco na ligação, em que as nossas crianças aprendem o que lhes ensinamos sem satisfazer objetivamente as reais necessidades, que os tornamos ávidos por tudo o que lhes satisfaça de forma mais plena as necessidades que apenas foram apaziguadas.

Na nossa ânsia de cumprir calendário e de sermos altamente funcionais para proporcionar o melhor às nossas crianças, esquecemos muitas vezes que o melhor, o essencial, somos nós próprios, é a ligação que criamos, é o porto seguro que construímos, é a comunicação que se estabelece muitas vezes sem necessidade de palavra e que promove o maior ensinamento de todos: o de saberem que são vistos, que são ouvidos e que nós estamos naquele momento disponíveis.

Uso dos equipamentos digitais como forma de acalmar as crianças

Hoje temos à nossa disposição muitos pacificadores para além da chupeta: a televisão, o computador, as consolas, os smartphones (sempre à mão) e, em simultâneo, temos pais e cuidadores que, devido às exigências do ritmo de vida dito moderno, nesta agitação, fazendo o melhor que podem, escolhem “controlar” as suas crianças com um dos pacificadores disponível, muito mais eficaz que uma chupeta. Têm imagem, som, são sensíveis ao tato, são interativos, são quase uma ama eletrónica e satisfazem muitas necessidades ao mesmo tempo e por isso são tão populares.

A Humanidade está, neste momento, ligada aos equipamentos digitais e aos benefícios que nos trazem, sendo a quantidade de uso que deles fazemos uma escolha nossa, que deve ser feita com consciência das suas implicações e da sua real utilidade.

Por um lado, sabemos que os equipamentos digitais, ou melhor, os jogos, as redes sociais, o youtube, etc., podem causar dependência equiparável à do álcool ou das drogas, no entanto, sabemos também que a dependência surge quando existe espaço para tal. Quando existem necessidades não satisfeitas de alguma outra forma alternativa.

Sabemos que a maioria das crianças e adolescentes sente um enorme apelo pelos jogos, pela internet, pelas redes sociais, etc., tal como eu senti pela televisão quando apareceu e os meus avós sentiram pelo rádio e tudo isto é natural e, arriscaria até desejável. O nosso mundo está construído sobre a premissa da simplificação através da utilização de meios eletrónicos, logo, quando as crianças os usam, estão a treinar competências que lhes serão necessárias quando forem adultos e quando começarem a comandar autonomamente as suas próprias vidas. Então qual é o problema?

O problema é que vemos os gadgets, a serem utilizados como pacificadores e, como agravante, desde muito cedo, sem que sejam oferecidas muitas vezes alternativas reais que promovam ligação entre pais e filhos, porque também nós andamos constantemente a utilizar os nossos equipamentos. E nesta azáfama digital perdemos o contacto connosco e com os nossos filhos se não mantemos a consciência e foco na nossa intenção de aumentar sempre a conexão, a partilha, a interacção e a cumplicidade.

Então, afinal, sim ou sopas? Eu diria que sim e sopas! Ou seja, os equipamentos digitais fazem parte do nosso mundo, da forma como nos relacionamos, da forma como aprendemos e da forma como produzimos e isto é um facto. Mesmo que decidamos ir viver para uma comunidade afastada dos avanços do mundo e da produção em série, provavelmente, vamos pesquisar na net algo sobre permacultura, sobre eco-sanitas, sobre como fazer sabonete e champô, ou sobre a forma natural de resolver este ou aquele problema. No entanto, os equipamentos só em caso de necessidade extrema devem ser usados como pacificadores.

O que é que acontece quando usamos os equipamentos digitais como pacificadores?

O que é que acontece quando os oferecemos às crianças nos momentos em que têm de ser confrontadas com a necessidade de ter paciência, de gerir a frustração ou outra emoção dita negativa? O que acontece é que estamos a criar uma associação entre essas emoções e distração. Estamos a ensinar ao seu cérebro que é muito mais tranquilo distrair-se, pois não tem de gerir a paciência ou a frustração. Estamos programados para escolher as respostas que nos permitem gastar menos energia, e assim, a distração passa a ser a resposta preferida para gerir as emoções mais desafiantes. Esta fórmula pode ser usada sempre que sentimos desconforto… estou triste, então distraio-me porque sei que diminuo a intensidade da emoção que estou a sentir, estou farto de estar numa aula de noventa minutos e a minha resposta a essa insatisfação é… a distração. Neste processo, estamos a perder a oportunidade de aumentar a literacia emocional das crianças e de as ensinar a gerir as emoções, ao escolhermos não ativar o modo cuidador, mas sim o modo coexistente.

Há uns dias, um pai dizia-me que geria o tempo e os momentos em que permitia que o filho usasse o seu smartphone, o tablet e o computador. Disse-me que à mesa, durante as refeições nunca permitia, nem quando estava a brincar com a criança, que a tecnologia se interpusesse na sua relação. Curiosa, perguntei a idade da criança… tinha dois anos e meio…

Muitos estudos têm sido feitos, e com resultados quase opostos, sobre a utilização dos equipamentos, sobre os seus benefícios e prejuízos e, na falta de ciência inquestionável. O que é, no entanto, inquestionável é que a chave da nossa felicidade e da dos nossos filhos, a chave do seu desenvolvimento harmonioso a par de uma autoestima saudável reside na ligação que com eles estabelecemos, no nível de conexão que resulta da forma consciente como nos dispomos a estar presentes nas suas vidas.

Por Maria José Pita, coach e facilitadora de Parentalidade Consciente

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Meu querido,
eu sei que me estás a julgar. Quando te sentas com o nosso filho a brincar depois do jantar, eu vejo a cara que fazes quando eu me estou a rir para o telemóvel. Eu ouço os sons que fazes quando me vês a dar banho ao bebé de telefone na mão ou quando estou a descansar com o mais velho enquanto escrevo mensagens. Eu reconheço o meu vício, mas há muito a dizer quanto à minha dependência deste pequeno aparelho.
Eu admito: eu sou viciada no meu telemóvel. Já falamos sobre o assunto e já lemos artigos sobre o horrível que isto pode ser para uma pessoa enquanto individuo, pior ainda enquanto casal. Também estou ciente do péssimo exemplo que transmito aos miúdos. Eu sei que estabelecemos objectivos relativamente ao uso excessivo dos gadgets, mas eu falhei redondamente. Eu tento não abusar do telemóvel quando estou com os nossos filhos mas como mãe a tempo inteiro, o meu dia-a-dia é muito diferente do teu. Eu não converso com adultos regularmente, e as minhas únicas companhias são um miúdo de 2 anos, um bebé e um cão.
Lembras-te quando passávamos os fins-de-semana completos com amigos?
Desde que me lembro de mim, a minha vida eram festas de pijama e acampamentos. Depois de acabar o curso, casamo-nos, mudamos de estado e tivemos filhos. A minha vida social deixou de existir. Hoje em dia não consigo estar com amigas tanto quanto preciso, por isso, conversamos nas redes sociais e por mensagens.
Lembras-te de como eu sou extrovertida? Eu sei que sabes disso, mas não sei se compreendes realmente o sentido disso. Eu sinto-me feliz por estar com pessoas, de preferência pessoas com mais de 5 anos. Quando passo muito tempo sozinha com os miúdos, o que é maravilhoso mas muito solitário, fico impaciente e arranjo desculpas para sair de casa só para falar com adultos. Já conheço metade das caixas do supermercado. Mesmo uma conversa de circunstância, neste momento, sabe-me bem.
Há 11 anos atrás, quando me tornei mãe, os grupos de mães das redes sociais foram a minha salvação. Hoje, com três crianças, nada mudou. Estas mulheres mudaram a minha vida em vários sentidos, apesar de não passar muito tempo com elas pessoalmente. É nelas que me apoio quando preciso de saber que sopas já posso dar ao bebé, ou se reconhecem aquelas borbulhas misteriosas na perna do de dois anos. Também são elas que me apoiam quando tenho um dia verdadeiramente desastroso com os miúdos, porque elas sabem exactamente o que estou a sentir. Conhecem as minhas frustrações porque já percorreram o mesmo caminho.
Não é que não queira estar mais presente quando estamos todos juntos, mas ser prisioneira de uma casa deixa-me com ganas de ter mais vida social. Eu estou sozinha e isolada e sair de casa com três crianças a reboque, mesmo que seja só para fazer um recado, requer tanto esforço que, às vezes, não compensa. Às vezes é mais fácil render-me ao meu café frio, e amamentar o bebé de pijama enquanto trato da casa. Às vezes estou a morrer de vontade de me sentir mais eu, mais a mulher que sou, mas é tão desgastante que acabo por desistir.
Quando me vês, sempre ao telemóvel, normalmente estou a pedir conselhos a algumas amigas ou simplesmente estou a rir-me dos disparates que dizemos em privado. O meu sistema de apoio é virtual e apesar disso ter as suas desvantagens também é extraordinário. Eu sei que te sentes frustrado por estar muito no telemóvel, mas quando não estás, eu estou com os miúdos, não estou com o telemóvel. Quando te vejo com eles, é a altura que posso pôr-me a par do que se passou todo o dia. Sei que ficas preocupado e valorizo a tua opinião. Mas estes grupos tornaram-se mesmo importantes para mim porque tem sido difícil adaptar-me a esta vida, a este papel de mãe (que amo ser), mas que às vezes parece ser tão inadequado para mim. E é óptimo ter alguém que nos diz que estamos a fazer um bom trabalho, e eu preciso de ouvir isso de fora, não é só de ti.
Eu não espero que percebas exactamente como me sinto, mas acredita que eu estou a tentar. Estou à espera que um dia eu comece a dormir melhor, recupere forças e me sinta de volta outra vez.
Até lá o meu café é frio, a minha paciência curta, e a minha vida social cabe no bolso de trás das calças.

 

Por Jessica, para Scary Mommy, traduzido e adapatado com autorização por Up To Kids®

 

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O meu nome é Uva Passa, sou mãe, e sou Dependente.

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Hoje em dia, a tecnologia e as redes sociais fazem parte do nosso quotidiano. As comunicações pessoais à distancia tiveram uma grande evolução nas últimas décadas. No meu tempo só existia telefone fixo com fio e cabines telefónicas na rua (não existia telemóvel ou internet), e a comunicação escrita era feita por carta.

Na minha infância e adolescência, passei muitas horas a brincar e a conversar na rua com amigos e em casa com a família. Quando alguém estava presencialmente com outra pessoa havia muito pouca distração. Tínhamos de investir no relacionamento “ao vivo”, demonstrar sentimentos, conquistar a simpatia dos outros. Hoje em dia estima-se que uma pessoa passe, aproximadamente, de três a quatro horas por dia on-line o que reduz muito sua convivência física com amigos e familiares.

Estamos a esquecer-nos de como amar

Fico impressionada quando vejo o desenvolvimento de formas de demonstrar emoções on-line (emojis, “a sentir-se” memos, etc. Será que isso não é reflexo da dificuldade de expressarmos as nossas emoções pessoalmente? Estamos a tornar-nos ótimos no marketing emocional externo, mas esquecemo-nos de como manifestar o afeto. Como ser carinhosos, como olhar nos olhos e dar atenção a quem está à nossa frente.

Será que não é medo de nos expormos, de revelarmos as nossas fraquezas? Digo isto, porque apesar da internet ser um meio real de conhecimento pessoal e um local onde se pode comunicar/dialogar, há um fator limitante que tendência esta experiência a ser uma ilusão: eu mostro apenas o que quero que vejam. Já no convívio direto os meus gestos, a minha entoação de voz, a linguagem corporal, a resposta imediata frente aos estímulos e minhas atitudes reais tornam-me muito mais vulnerável a ser realmente conhecida tal como sou.

Consequências da ausência dos pais

Claro que essa desconexão dos relacionamentos concretos é um problema. E torna-se muito mais grave (e com fortes repercussões) quando a conexão enfraquecida é o laço familiar os filhos, quer sejam crianças ou adolescentes. A criança nasce completamente dependente da atenção dos pais. À medida que vai crescendo, vai aprendendo a ter autonomia e tornando-se mais independente.

No entanto, a atenção real dos pais é indispensável para o saudável desenvolvimento emocional dos filhos. Vários estudos mostram que as consequências da ausência dos pais são graves e podem causar agressividade, tristeza, desenvolvimento de tiques e inclusivamente pode refletir-se na vida social e no desempenho escolar.

Presentes e ausentes ao mesmo tempo

Muitos pais estão presentes e ausentes ao mesmo tempo, ou seja, estão presentes fisicamente, mas estão constantemente on-line . A criança sente-se ignorada emocionalmente. Os pais passam muito tempo ligados a outras distracções, nomeadamente, Telemóvel, Ipad, notebook, TV…  Corpo presente, mente e atenção noutro lugar, com outro foco. Esta falta de atenção gera o sentimento de não se ser importante. De não se ser suficientemente amado para ter a atenção da mãe e do pai. Os filhos precisam de sentir que há envolvimento dos pais, que sentem o prazer da sua companhia, que se estão a divertir quando brincam ou fazem uma actividade em conjunto. O contacto físico e o carinho representam estabilidade e segurança para que os nossos filhos aprendam o que é um relacionamento afetivo.

Degraus do amadurecimento humano

Sabemos que a vida passa a correr, e por isso mesmo é preciso que o tempo designado para estar com os filhos seja de grande qualidade. São preferíveis trinta minutos de exclusividade do que o dia todo ao lado deles, mas constantemente nas redes sociais. Um dos grandes degraus do amadurecimento humano é aprender a dar importância ao que é importante. Eu sei que os teus filhos e a tua família são importantes para ti, por isso assume a tua posição e está presente. Presente de verdade, por inteiro e entregue aos teus filhos. Vais ver que te vais surpreender com a resposta deles quando te entregares por completo. Encontrar filhos abandonados emocionalmente pelas famílias é uma dura realidade. Não queiras fazer parte dessa estatística.

 

Por Roberta Castro, revista Canção Nova, adaptado por Up To Kids®

 

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A casa da árvore foi substituída pela TV

A afirmação “as crianças já não brincam nas ruas” parece um lugar-comum que diariamente ouvimos aqui e ali ou lemos numa qualquer revista ou livro pedagógico para pais, mas a verdade é que esta frase é mesmo realidade. As crianças de hoje refugiam-se nos seus ninhos (quartos) rodeados de tecnologia onde podem criar a sua própria realidade virtual, através de jogos e da omnipresente internet. Normalmente fazem-no sozinhas. A socialização, se é que lhe podemos dar esse nome é feita a olhar para um quadrado (TV ou PC) e o desafio de arriscar, ou não, em subir uma árvore foi substituído pelo premir, ou não, de um botão do computador. Nesta alteração comportamental não existe um culpado, se existisse seria o progresso com tudo o que tem de bom e mau, contudo existem aspectos que merecem ser explanados para posterior reflexão.

tecnologia

Os pais têm naturalmente medo que os filhos brinquem nas ruas e podem favorecer um ambiente especialmente propício à individualização exagerada das suas crias, que pode contribuir para que se tornem adultos inseguros que não só desconhecem como não sabem lidar come o risco. Brincar na rua também implica fazer novos parceiros de brincadeiras de uma forma mais livre do que aquela imposta pelos recreios das escolas e arriscar mais nos próprios jogos, lidando assim com situações de desafio. Por outro lado, na rua efectivamente existem perigos, não só o excesso de viaturas, principalmente nos centros urbanos, como também os perigos que as noticias diariamente nos fazem chegar criando, desta forma, um medo justificado. Os parques são poucos e nem sempre de fácil acesso a todos, mas mesmo quando os pais levam as crianças, os seus olhos não se desviam dos seus filhos e estão lá para quase que brincarem por eles não os deixando, mais uma vez, arriscar.

A verdade é que brincar na rua contribui para o desenvolvimento cognitivo, emocional e ajuda na criação de relações entre crianças mas o tão famigerado medo e cansaço dos pais faz com que os seus filhos fiquem em casa, em silêncio, a olhar para a TV – precisamente dos poucos sítios onde não aprendem a interagir e a partilhar. “Pelo menos estão seguros”, pensarão muitos pais, ao mesmo tempo que no fundo sabem que ficarão também mais sedentários e isolados. De que segurança estamos então a falar?brincar-na-rua

Há cerca de 40 anos atrás era perfeitamente normal as crianças com 10 anos de idade irem sozinhas para a escola, algo que hoje é quase impossível. Não se trata de recuperar a velha máxima “antigamente é que era bom”, mas a verdade é que antes o ambiente circundante, principalmente nas cidades, era mais propício a estas liberdades saudáveis.

Conjecturas à parte, efectivamente o ideal seria conseguir-se o equilíbrio: um pouco de rua para ajudar a criança a conectar-se com o espaço envolvente e para exercitar-se e um pouco de tecnologia, com o devido peso e medida, para estar conectado com uma realidade imprescindível do século XXI. Por exemplo, aos fins-de-semana, ir ao parque pela manhã, um que tenha café em que os adultos possam estar calmamente a disfrutar do seu sossego e também a olhar para os seus filhos, deixando-os livres, mas com a supervisão e à tarde, ajustar uma hora ou duas para as tecnologias, permitindo-lhes criar um tempo previamente agendado com os pais para o efeito. Assim, até a noção de responsabilidade de cumprimento de agenda começa a ganhar contornos. Podemos, assim ter o melhor dos dois mundos.

O bom senso e o instinto parental são a melhor balança que se pode ter, mas isto é apenas a minha opinião até porque, eu sou “apenas” uma mãe.

Por Rita Pablo, CEM

 

“Qual é o limite sadio entre a simples supervisão e o
controle
exagerado das atividades dos filhos?”

Estímulos a mais Concentração a menos. Estamos a enlouquecer os nossos filhos

Vivemos tempos frenéticos. A evolução, sobretudo tecnológica, tem sido tão rápida que quando olhamos para há dez anos atrás parece que passaram 30. A distância existente entre hoje, e a forma como vivíamos nessa altura é abismal. E não é só a nível empresarial. É a todos os níveis.

O mundo infantil foi atingido em cheio por esta evolução. As mudanças são totais: já não se educa, brinca, alimenta, veste, entretém, cuida, consola, protege, ampara e satisfaz crianças como antigamente: os gadgets, por exemplo, são agora companheiros imprescindíveis nas refeições de milhares de crianças; Em muitas casas as televisões (sim, plural…) ficam ligadas o dia inteiro nos canais infantis  – naqueles cujo volume aumenta consideravelmente durante os intervalos – mesmo que as crianças estejam a almoçar com o iPad  à mesa;

Muitas e muitas crianças têm atividades extra curriculares pelo menos três vezes por semana, somando, por vezes, cerca de 50 horas semanais entre escola, cursos, desportos e explicações.

Existe, em quase todas as casas, uma profusão de brinquedos, aparelhos, recursos e pessoas disponíveis a tempo inteiro para garantir que a criança “evolua” e não “morra de tédio”;

O ensino pré-escolar apresenta, em muitas escolas, metodologias de ensino  idênticas às do 1ºciclo.

Estamos a educar para que no fim, possamos ocupar, aproveitar, espremer, sugar, potencializar, otimizar e capitalizar todo o tempo disponível para impor às nossas crianças uma preparação praticamente militar, visando seu “sucesso”.

O ambiente familiar onde essa preocupação é latente chega a ser denso, tal é a pressão que as crianças sofrem para desenvolverem estas competências competitivas.

No entanto, o excesso de estímulos sonoros, visuais, físicos e informativos impedem que a criança organize o seu pensamento e os seus actos: o ambiente é muito disperso e os sinais que chegam ao cérebro são confusos e superficiais. A criança muitas vezes não consegue descrever o que acabou de ouvir, ver ou fazer.

Além disso, aptidões que devem ser estimuladas estão a ser descuradas. As crianças não sabem conversar, não olham os interlocutores nos olhos. Não conseguem focar –se numa brincadeira ou atividade só – tendência é estarem a ver televisão e a brincar ao mesmo tempo, por exemplo. São impacientes, não sabem esperar. Não conseguem ler um livro, por mais pequeno que seja. Não reconhecem a autoridade, e nem respeitam as regras.

A concentração, a comunicação, a interacção, o afeto, o respeito, a autonomia de acção e a organização, são algumas das competências  fundamentais na construção de um ser humano íntegro, independente e pleno, e devem ser aprendidas em casa nas suas rotinas do dia-a-dia.

Há que parar e olhar à volta.  Tirar as mãos do telemóvel  e do volante do carro, e pôr as mãos na consciência: estamos a enlouquecer os nossos filhos e a impedi-los de aprender a lidar com as suas vontades, as suas qualidades e talentos. Estamos a roubar o tempo precioso que os nossos filhos tanto precisam para processar a quantidade enorme de informação e de estímulos que nós e o mundo lhes estamos a dar.

Há que ter calma. A parentalidade não é uma corrida. Temos de parar de entregar gadgets aos nossos filhos sempre reclamam ou que dizem que “não têm nada para fazer”. O “tédio”, não é mais que a oportunidade de estarmos em contato connosco, de estimular o pensamento, a fantasia e a concentração. As crianças precisam de aprender a entreter-se. A ser criativas e brincar ao faz de conta. A ler um livro.

Um dos problemas é que os nossos filhos lêem cada vez menos. Muitos livros infantis já estão disponíveis para tablets e iPads, cuja resposta é imediata ao menor estímulo e descaracteriza a principal função do livro: parar para ler, para fazer a mente respirar, aprender a juntar uma palavra com outra, paulatinamente formando frases e sentenças e finalmente, concluir um raciocínio ou uma estória.

Cerquem os vossos filhos de livros e leiam com eles, por amor. Deixem que se esparramem em almofadas e façam sua imaginação voar.

Mais tempos livres, mais criatividade, mais livros e por favor, menos obrigações, menos tecnologia, menos avaliações, menos resultados e menos competições. Vamos desligar os estímulos excessivos e usufruir de uma tarde improvisada em família, neste dia de chuva. Vai ver que valerá a pena!

O ambiente de casa agradece!

Adaptado do texto original de  , em Pais que educam

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