A febre no bebé e na criança é um sintoma extremamente comum e o principal motivo de consultas médicas de urgência em Pediatria. Por ser tão frequente, é importante perceber porque surge e quando é realmente preocupante.

Febre no bebé e na criança – o que fazer?

O primeiro conceito a reter é que a febre não é uma doença. É um sintoma, que geralmente surge associado a algum tipo de “agressão” externa, mais frequentemente uma infecção. A definição de febre depende do local onde a temperatura é medida, podendo ser utilizados os seguintes valores:

  • rectal (medida no rabinho) – acima de 38 graus
  • timpânica (medida no ouvido) – acima de 37,6 graus
  • axilar (medida debaixo do braço) – acima de 37,5 graus
Trata-se de um mecanismo de defesa do organismo, que serve essencialmente para ajudar a combater essa “agressão”, através dos seguintes mecanismos:
– melhoria da capacidade de resposta do organismo. Alguns dos nossos mecanismos de defesa ficam optimizados com a subida ligeira da temperatura corporal
– inactivação de alguns microrganismos. A elevação da temperatura faz com que alguns microrganismos percam agressividade, ajudando assim a combatê-los

Assim, é fácil perceber que, apesar de causar muitas preocupações aos pais, a febre em si pode até ser benéfica. Por esse motivo, há até quem defenda que não precisa de ser tratada, caso a criança esteja bem disposta. Na verdade, não se deve tratar a febre em si, mas sim o desconforto que esta provoca. A temperatura corporal não sobe indefinidamente e, mesmo sem tratamento, acaba por voltar a descer.

Quando se dá algum tipo de medicamento nessas situações, é importante realçar alguns aspectos:

  • o tempo médio para começarem a actuar é de 30 minutos a 1 hora, pelo que não é esperado que haja uma resposta imediata
  • a resposta esperada é que a temperatura desça 1-1,5 graus, pelo que não é suposto que desça sempre para os 37 graus

Relativamente aos tradicionais banhos de água tépida e outras medidas de arrefecimento corporal:

– Convém reforçar a ideia de que nem sempre são boa opção.
– Só devem ser utilizados quando a temperatura já está a baixar, o que geralmente se percebe porque a criança fica com a pele mais vermelha, quente e transpirada.
– Devem ser evitados quando a temperatura está a subir, ou seja, quando a criança está com as mãos frias, a pele mais pálida, os lábios arroxeados e com tremores

Nesta época do ano aprecem as gripes, constipações e tantas outras doenças que se podem fazer acompanhar por febre.

E quando a febre surge, acaba muitas vezes por ser quase um drama para os pais, quando não sabem exactamente o que fazer.

Nesse sentido, e sendo este um tema tão comum nesta época do ano, este post vem tentar dar uma pequena ajuda. Não se pretende substituir nenhuma observação médica, apenas tentar capacitar um pouco mais os pais para este tema, e transmitir algumas noções importantes.

Ainda para mais porque as ajudas existem, nomeadamente normas e folhetos da Direcção Geral de Saúde (sobre este e outros temas) dirigidos aos pais, e onde foi baseada a maior parte da informação deste post (podem consultar o folheto da DGS aqui )

Então, vamos por partes.

Primeiro, o que é a febre?

De forma simplista, a febre, não é uma doença, mas sim uma manifestação do organismo, que resulta na elevação da temperatura corporal habitualmente em resposta a uma infecção.

A partir de que temperatura consideramos febre?

A temperatura varia consoante a localização onde é medida.

– Assim, se for avaliada a temperatura rectal, considera-se febre quando acima dos 38ºC.

– Quando se avalia a temperatura axilar, apenas se considera febre acima de 37,6ºC.

– Quando avaliada a temperatura timpânica (no ouvido), considera-se febre acima dos 37,8ºC.

Como deve ser medida a temperatura?

É importante ter a noção de que existem vários termómetros no mercado e que é fundamental uma utilização adequada dos mesmos. Apesar de já existirem outras opções no mercado, os mais frequentes, e por isso aqueles que irei abordar, são o  termómetro galinstan, o termómetro digital, e o termómetro timpânico (habitualmente utilizado nos serviços de urgência por maior rapidez e comodidade). Atenção que em seguida estão resumidas as principais indicações de uso, no entanto é fundamental lerem sempre primeiro o folheto informativo que acompanhe o termómetro que adquirirem.

Termómetro digital
Termómetro Galinstan

 

Termómetro timpânico

 

TEMPERATURA RECTAL
Quando se avalia a temperatura rectal,(já agora, é este o método mais rigoroso para avaliação da temperatura corporal), deve introduzir-se a ponta flexível do termómetro  em cerca de 3 cm no ânus, num trajeto paralelo às costas da criança. Se usado o termómetro digital, a temperatura é avaliada ao sinal sonoro. Quando utilizado o termómetro galinstan, a temperatura deve ser avaliada após 3min.

TEMPERATURA AXILAR
Quando se avalia a temperatura axilar, o termómetro deve ser colocados na axila, mantendo-se o braço firmemente encostado ao tronco. Se usado o termómetro digital, a leitura, mais uma vez, é dada aquando do sinal sonoro. Quando utilizado o termómetro galinstan, a leitura deve ser realizada ao fim de 5 minutos.

TEMPERATURA TIMPÂNICA
Quando se avalia a temperatura timpânica, a sonda deve ser orientada para a membrana do tímpano e não para a parede do canal auditivo. Devem ser sempre realizadas 3 determinações seguidas e deve adotar-se o valor medido mais elevado.

Já agora, a “mão da mãe” acaba por ser também um método muito fiável para perceber se existe ou não febre, apesar de não conseguir quantificar a mesma.

Sinais de alerta

Quando uma criança tem febre, quais são os “sinais de alerta”?

Existem sinais que, apesar de nem sempre traduzirem doença grave, nos alertam, e que obrigam, quando presentes, a que a criança seja rapidamente observada por um médico.

Assim, é importante estar atento a:

– Sonolência excessiva ou incapacidade em adormecer;

– Face/olhar de sofrimento;

– Irritabilidade e/ou gemido mantido;

– Choro inconsolável; não tolerar o colo;

– Dor perturbadora;

– Convulsão;

– Aparecimento de manchas na pele nas primeiras 24 a 48 horas de febre;

– Respiração rápida com cansaço;

– Vómitos repetidos entre as refeições;

– Recusa alimentar completa superior a 12 horas;

– Sede insaciável;

– Lábios ou unhas roxas e/ou tremores intensos e prolongados na subida da temperatura;

– Dificuldade em mobilizar um membro ou alteração na marcha;

– Urina turva e/ou com mau cheiro;

– Febre com duração superior a 5 dias completos.

Na presença de um ou mais destes sinais de alerta, a criança deve recorrer a um serviço de saúde.

Sinais “Tranquilizadores”

Quando uma criança tem febre, quais os sinais ”tranquilizadores”?

Estão de seguida descritos aqueles sinais que habitualmente nos tranquilizam dado que estão, em regra, associados a doença que, apesar de poder ser incomodativa e poder necessitar de observação médica, habitualmente não se faz acompanhar de grande gravidade:

– A criança brinca e tem atividade normal;

– Come menos mas não recusa os alimentos líquidos;

– Tem sorriso aberto ou fácil;

– Acalma ao colo e fica com um comportamento quase habitual;

– Tosse seca e irritativa muito frequente, sendo o sintoma que mais perturba a criança, mas sem quaisquer outros sintomas respiratórios nem sinais de dificuldade respiratória;

– Dor a engolir associada a congestão nasal, a olhos vermelhos e/ou a tosse;

– Diarreia ligeira (ou moderada) sem sangue, muco ou pus e sem vómitos;

– Manchas vermelhas dispersas que desaparecem quando comprimidas, que surgem só a partir do 4º dia de febre.

O que fazer para ajudar a criança/adolescente com febre?

– Oferecer água e/ou leite; adequar o vestuário e a roupa da cama à sensação de frio ou de calor; respeitar o apetite;

– Se está confortável não é preciso baixar a temperatura, mas sim vigiar se surgem os “sinais de alerta” anteriormente descritos;

– Se está desconfortável, deve tomar um antipirético (que também é analgésico, pelo que também aliviará a dor);

– Não se deve fazer arrefecimento (banho, compressas, ventoinhas) para baixar a temperatura dado que não contribui nem para a resolução da doença nem para o bem estar da criança;

– Se necessário, contactar a linha 24 (808 24 24 24), ou requerer observação médica.

Antipiréticos

No que concerne aos antipiréticos a administrar, habitualmente são administrados, segundo a posologia e indicação prescritas pelo médico, paracetamol ou ibuprofeno. Não me vou debruçar muito sobre este tema, mas gostaria no entanto de deixar duas informações importantes.

  1. Não se deve dar ibuprofeno nas seguintes situações:

– idade inferior a 6 meses;

– na varicela;

– perante diarreia e vómitos moderados a graves;

– se a criança tiver uma alergia a qualquer medicamento anti-inflamatório;

  1. O objetivo do antipirético é acima de tudo aliviar o desconforto da criança e não eliminar a febre a todo o custo. Mesmo não medicada, a temperatura acabará, em regra, por baixar espontaneamente algumas horas depois. Mas voltará a subir ao fim de poucas horas, e assim sucessivamente, até a doença passar.

Quando é que uma criança/adolescente deve recorrer a um serviço de saúde em caso de febre, sem outros sintomas acompanhantes?

– Se idade inferior a 3 meses de idade (de idade corrigida se nasceu prematura);

– Se idade inferior a 6 meses com temperaturas rectais iguais ou superiores a 40,0°C;

– Em qualquer idade se tiver temperaturas axilares superiores a 40,0°C ou retais superiores a 41,0°C;

– Na presença de um ou mais “sinais de alerta”;

– Se tem uma doença crónica grave concomitante;

– Se tem febre há 5 ou mais dias, ou se a febre reaparecer após 2 a 3 dias de temperaturas normais.

Esperemos que este post vos tenha ajudado. Um bom resto de estação a todos, e sem febre!!!!!

O que é a meningite?

A meningite é a infecção das meninges, que são uma espécie de capa que reveste o cérebro e a medula espinal. Pode ser provocada por vírus ou bactérias e o seu prognóstico é completamente diferente nessas situações. No primeiro caso, trata-se de uma situação mais “tranquila”, com uma taxa de complicações extremamente baixa. No segundo, há um risco muito maior para os indivíduos afectados, podendo levar a situações de extrema gravidade.

A maior arte das meningites bacterianas em Portugal são provocada por um microorganismo chamado meningococo.

O que é o meningococo?

O meningococo é uma bactéria que pode ser muito agressiva para as nossas células. Existem 13 estirpes deste microorganismo, mas a quase totalidade das infecções são provocadas pelas estirpes A, B, C, W, X e Y.

O Homem é o único ser vivo que funciona como reservatório desta bactéria, que pode habitar na garganta de pessoas saudáveis por períodos variáveis de dias a semanas. A maior parte destes portadores assintomáticos são os adolescentes e adultos jovens, sendo que o meningococo pode depois disseminar-se para outras pessoas através de goticulas respiratórias.

Em 2002 foi introduzida no mercado português uma vacina contra o meningococo C, que passou em 2006 a ser incluída no nosso Programa Nacional de Vacinação. Desde então, a taxa de infecção por esta estirpe diminuiu drasticamente, sendo hoje em dia praticamente inexistente no nosso país. Actualmente, a estirpe mais frequente em Portugal é a B, sendo responsável por mais de 60% dos casos.

Quais são os sintomas da meningite?

Os sintomas clássicos de meningite são a febre elevada, dores de cabeça, vómitos e mau estar geral. Podem ainda surgir manchinhas na pele, que caracteristicamente são escuras e não desaparecem quando se carrega.

No entanto, estes sintomas nem sempre são evidentes logo no início do quadro, o que pode dificultar o seu diagnóstico. Trata-se de uma doença que pode evoluir muito rapidamente e que, se não tratada, pode causar a morte ou deixar sequelas graves.

O tratamento assenta num diagnóstico precoce e o estabelecimento urgente de tratamento antibiótico endovenoso adequado. Só assim e consegue evitar a progressão da doença e as suas consequências.

É possível prevenir esta infecção?

A única forma de prevenir a infecção pelo meningococo é através da vacinação. A vacina contra o meningococo C já está incluída no Programa Nacional de Vacinação, mas a vacina contra o meningococo B não. No entanto, encontra-se disponível no mercado português e pode ser adquirida por quem tiver essa vontade. Trata-se de uma vacina que está recomendado pela Sociedade Portuguesa de Pediatria e que deve ser dada a todas as crianças abaixo dos dois anos, dado ser o principal grupo de risco para desenvolver este tipo de infecção. Acima desta idade, está também recomendada, como forma de proteção individual. Para além disso, existem estudos para tentar avaliar se interfere também com o estado de portador. Se se comprovar esse efeito, consegue-se impedir a disseminação da bactéria é bloquear a propagação da doença, mas é algo que não está ainda estabelecido. Neste caso, a vacinação dos adolescentes e adultos jovens seria ainda mais importante, visto serem os principais vectores de disseminação do meningococo.

 

Por Hugo Rodrigues | Pediatra no Hospital de Viana do Castelo, autor do blogue Pediatria para Todos e autor dos livros Pediatra para Todos e Primeiros Socorros – Bebés e Crianças