Não é normal

#nãoénormal

O Movimento Não é Normal (#nãoénormal) surgiu na sequência de um simples pedido do comediante Diogo Faro aos seus (suas) seguidores. Estava a preparar um vídeo sobre o assédio e a sua intenção era falar do tema usando a comédia. Pedia apenas que as pessoas interessadas em participar enviassem um e-mail com a palavra “eu” se tivessem passado por alguma situação deste tipo. Nas primeiras três horas recebeu mais de 700 e-mails com relatos chocantes que o fizeram querer chamar os holofotes para o problema. Juntou-se a alguns amigos e lançou o movimento que está prestes a chegar à fala com a Secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, Rosa Monteiro.

Uns dias depois partilhei com a minha mãe que fui uma das primeiras centenas de pessoas a responder ao apelo. Como resposta vi o choque no rosto dela, acompanhado pela pergunta “mas tu foste vítima de assédio?”. Imaginei que sentiu o que eu sentiria se fosse a minha filha a dizer-me o mesmo. E limitei-me a responder “mãe, conheces alguma mulher que não tenha sido?”. E ela sabia que era verdade e concordou. Disse que ela mesma tinha passado pela última situação há apenas uns dias.

Isto significa que o assédio e o abuso diário a que as mulheres estão sujeitas caiu numa certa normalidade. “Habituámo-nos” a que faça parte do dia-a-dia, do que somos. Se não tivermos experienciado situações extremas de abuso sexual ou violência doméstica (ou de qualquer outro tipo), a verdade é que não olhamos para nós como vítimas.

Tenho muitas histórias minhas, nenhuma delas que tenha chegado a extremos. E sei de mais histórias do que gostaria.

Como a daquela miúda que vi crescer e soube que aos 14 anos disse repetidamente ao namorado que não estava preparada para perder a virgindade e ele se cansou de “esperar” e a violou, tendo acabado a tortura apenas uns minutos antes de a mãe dela chegar a casa e ele a ter obrigado a limpar as lágrimas e a ajeitar-se para que a mãe não percebesse. Com a ameaça de que faria a vida num inferno se ela contasse o que acabara de acontecer.

Ou a da rapariga da secundária que engravidou e apanhou tanto do namorado (porque a culpa só podia ser dela por estar grávida) que acabou a fazer um aborto clandestino para seguir com a vida em frente.

Ou daquela vez que uma colega minha, aos 14 anos, chegou à escola afogueada e nos contou que estava com outra colega nossa na casa de um rapaz da nossa turma, casa essa onde tantas vezes convivemos todos. E os rapazes tinham começado a brincar e a querer tocar-lhes. E ela tinha dito que não queria. E eles não pararam. E a outra colega deixou-se ficar, petrificada e com medo, porque eles eram mais, e esta tinha fugido. Tinha ido para a varanda do primeiro andar e saltado cá para baixo numa das avenidas mais movimentadas da cidade.

Na altura houve indignação e choque mas não fizemos mais que isso.

Eu deixei de falar com os rapazes em questão durante duas semanas mas depois voltou tudo ao normal. Nunca, em altura alguma, nos juntámos para lhes dizer que era imperdoável o que tinham feito. Que tinha sido uma violação da dignidade e da vontade e liberdade daquelas duas raparigas, que eram amigas deles. Nunca guardámos esse rancor contra eles e eles cresceram para se tornarem homens e provavelmente nem se lembram desse episódio. Mas aposto que elas sim. Eu nunca esqueci, também muito por causa da culpa que sinto por ter deixado isso passar, mas na altura não soube fazer mais nem melhor. Não que isso seja desculpa.

Aquela situação em específico é muito demonstrativa das duas posições de vulnerabilidade em que as mulheres ficam em situações como estas: não conseguir fazer nada, por causa do medo, e arriscar fugir, pondo-se em perigo. Porque raramente há lugar para um meio termo.

Considero que tive uma infância e uma adolescência perfeitamente saudáveis mas quando penso nestas e noutras situações (ocupariam demasiadas páginas), algumas com quase 20 anos, tenho a certeza que me marcaram. Sei que sim.

Porque ser mulher não é efectivamente o mesmo que ser homem.

Porque quando ando de metro sozinha à noite vou o caminho todo a rezar baixinho, sem conseguir relaxar, até enfiar a chave na porta de casa. E até chegar lá acelero o passo, escolho os caminhos mais iluminados e respiro com mais tranquilidade se houver gente a passar.

Porque quando preciso que vá um técnico a casa (electricista, etc) tento usar a roupa mais desinteressante do mundo porque isso me dá uma segurança, apesar de ser totalmente contra a crença de que a roupa dita o consentimento: mas a realidade é que a minha maneira de pensar não é partilhada por muitos homens e isso coloca-me numa posição de risco.

Porque quando peço uma pizza e estou sozinha em casa deixo a tv da sala ligada e em bom volume para dar a sensação de que há vida algures nas outras divisões e não estou sozinha.

Porque foram demasiadas as vezes em que tive alguém a roçar-se em mim nos transportes.

Porque ao ir para a escola, em miúda, tantas vezes apanhei com a minha melhor amiga tarados a tocarem-se.

Porque quando peço um táxi ou um uber tento organizar-me mentalmente para abrir a porta e sair assim que possível se for necessário.

Porque quando saio à noite só com amigas sei que somos um alvo fácil e raramente voltamos para casa sem alguém nos ter importunado de forma inapropriada.

Porque li algures que a maior parte dos homens heterossexuais só dá valor ao consentimento quando entra num bar gay. E isso é demasiadamente triste e verdadeiro (e até um pouco absurdo e bizarro).

Sou mãe de uma menina e tento criá-la com os princípios básicos para que se torne um ser humano decente.

Sei que vai ter de enfrentar muitas mais barreiras do que se fosse um rapaz. Que vai viver situações horríveis para as quais não a vou conseguir proteger. Sei disso porque sou mãe mas também sou filha e a minha mãe só soube de algumas das histórias que vivi muitos anos depois. Porque simplesmente há muitas coisas que não partilhamos pelas mais variadas razões.

Disse num dos e-mails que enviei ao Diogo Faro que é mais “fácil” criar uma rapariga feminista do que um rapaz feminista, por motivos óbvios.

E é por isso que ele está de parabéns, porque está a dar a cara e a fazer chegar a mensagem a muitos homens que ainda vão a tempo de mudar a nossa realidade.

Como mãe faço o que posso e desejo que todos os que estão no meu lugar façam o mesmo.

Por um mundo em que as raparigas não andem com medo na rua. Num país sem guerra. Em Portugal.

Deixo-vos o manifesto do Movimento Não é Normal para reflexão. Que subscrevo na totalidade.

Tentarei ser melhor para que haja mudança à minha volta. Porque pura e simplesmente #nãoénormal.

“NÃO É NORMAL: Um Manifesto

Não é normal deixar as coisas mal, não querer evoluir, deixar andar.

Não é normal não querer ouvir, não querer saber, ignorar ou compactuar.

Não é normal não saber, perceber e aceitar que “não” é “não”.

Não é normal forçar, pressionar, chantagear.

Não é normal assediar, ameaçar, assustar.

Não é normal agredir, humilhar, violar.

Não é normal haver tantas vítimas. Por ano, por mês, por dia, por hora.

Não é normal homens estarem contra as mulheres, nem mulheres contra homens. Tão pouco o é homens contra homens ou mulheres contra mulheres.

Não é normal o ódio ser a solução. Não é, nunca foi, nunca poderá ser.

Não é normal confundir opiniões com verdades ou ideias com factos.

Não é normal ser do contra apenas por ser, nem ser a favor só porque sim.

Não é normal não pensar pela própria cabeça nem pensar apenas sozinho.

Não é normal crianças não saberem o que é igualdade de género. Nem jovens, nem adultos.

Não é normal saber e não querer lutar por ela.

Não é normal ser demasiado insensível, não ter empatia, ser tão egoísta.

Não é normal um assunto tão certo ter um caminho tão difícil.

Não é normal aceitar que o normal seja uma anormalidade.

Não é normal, mas acontece. E isso tem de mudar.”

Façam-se ouvir. Sempre.

Criar crianças feministas

Acredito que serão precisos muitos anos até o machismo que corre nas coisas mais corriqueiras do nosso dia a dia ser erradicado. Se é que alguma vez será.

Falámos já muitas vezes na importância que a educação tem e no papel que os pais (ambos!) têm ou devem ter para que as nossas crianças sejam efectivamente a mudança.

A minha cunhada ofereceu-me no Natal um livro da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, que em português tem o título “Querida Ijeawele: Como Educar Para o Feminismo”. Recomendo a todas as pessoas que têm filhos (independentemente do género) e para aqueles que com elas lidam diariamente.

É um livro curto e que tem como contexto a Nigéria e a forma misógina como as crianças são educadas. Mas muitos dos ensinamentos e reflexões podem ser adaptados para o nosso caso.

Lembro-me de ter crescido a ouvir expressões tão simples e aparentemente inocentes como “sim senhora, cozinhaste X, já podes casar”. Isto é de um machismo intrínseco que nos passa muitas vezes ao lado. Estamos habituadas a ele, não lhe prestamos atenção e é assim que ele vai sendo perpetuado.

E porquê? Porque nunca tal comentário foi dirigido a um rapaz, como se:

1ª – A função de cozinhar fosse exclusiva das raparigas

2ª – A possibilidade de arranjar um marido estivesse directamente dependente das capacidades da dita rapariga na cozinha

3ª – Esse casamento fosse o objectivo importante da vida de uma rapariga.

Falo deste caso como exemplo, haveria muitos outros.

Mas a verdade é que ainda hoje olho à minha volta e vejo que são as mães (perdoem-me as mães de rapazes/homens, mas vão ter de concordar que é verdade) que tratam os filhos como se eles fossem diferentes das filhas. Como se não fossem capazes de tratar da própria roupa, da limpeza da casa, da comida. Quantos rapazes solteiros que vivem sozinhos conhecem que tratam destas tarefas por si? Sem empregadas? Sem as mães a lavarem, secarem e passarem a roupa (elas mesmas ou as suas empregadas)? Sem lhes fazerem comida que dura para a semana? Há, mas são a minoria.

E se olharmos em volta também podemos concluir que muitas raparigas se estão absolutamente nas tintas para as tarefas domésticas e não querem para si esta responsabilidade.

Acho que devemos ensinar aos nossos filhos, independentemente do género, as coisas básicas para que saibam cuidar de si de forma independente.

Mesmo que cresçam para ser adultos que não querem executar as tarefas. Ênfase aqui para o não querem e podem não o fazer porque podem pagar a quem o faça. Queremos mesmo que os nossos filhos, já adultos, tenham uma relação umbilical connosco que se baseia na necessidade de lhes facilitarmos a vida como se continuassem a ser crianças?

Ao escrever esta linha lembrei-me do namorado de uma colega minha, que com 38 anos, quando almoçava em casa da mãe recebia o prato de peixe arranjado por ela. Sem espinhas. Pronto a comer. 38 anos. Não é exagero. Não é anedota. É um facto. E a culpa aqui tanto é da mãe como do filho. É absurdo.

Como mãe e pais queremos estar lá para os nossos filhos. Seremos sempre que nos for possível, os primeiros a estender a mão como os nossos pais fizeram connosco. Mas ajudar não significa fazer. Se ensinamos os nossos filhos a vestirem-se sozinhos, por que motivo permitimos que essa autonomia não seja espelhada nas restantes vertentes da sua vida?

Haveria muito para dizer sobre este tema, mas acho importante reflectir. Sei que muitos dos que estão a ler pensam que no seu caso não é assim. Até pode ser, mas os vossos filhos vão conviver com todo o tipo de pessoas, relacionar-se com elas.

Muito do machismo que tenho visto ultimamente tem origem em mulheres. Seja relativamente a acontecimentos públicos graves como violações, seja nas coisas mais básicas do dia a dia.

Como educadores temos um papel determinante na forma como os futuros líderes do mundo crescem e apreendem a realidade. Se essa realidade for distorcida pelas convenções sociais (e será sempre, não vale a pena termos ilusões, somos todos condicionados por elas) temos então a importante missão de passar valores de igualmente, mérito, a dádiva de amor altruísta, solidariedade, empatia, valorização da paz…

Muitas vezes neste complexo trabalho de criar seres humanos cometemos erros. Fazemos coisas por amor que talvez não sejam as melhores para eles, para nós.

Não é fácil e sou a primeira a dizê-lo.

Estamos aqui para fazermos o melhor que conseguimos.

Mas temos de ir parando no caminho para respirar. E olhar para trás e perceber onde podemos ir melhorando.

Ajudando-nos mutuamente sem nos anularmos.

Com amor tudo se faz, mas o amor não justifica tudo.

Vamos pensar nisto?

Educamos para a igualdade?

Vamos contar-vos um episódio.

No outro dia fomos assistir a um jogo de hóquei em patins de seniores masculinos da 1ª divisão, cheio de emoção, e com os nervos à flor da pele. Era um jogo diferente do habitual: um dos dois árbitros que estavam no centro do pavilhão, era uma mulher. Existiram golos, existiram faltas, existiram calafrios por quase golos, no entanto, houve algo que não estávamos à espera de ouvir.

Já quase no final do jogo, a árbitra apita para assinalar uma falta. E, imediatamente, salta um senhor muito exaltado com a falta, que grita: ’vai é lavar loiça’. Todos nós já dissemos coisas exaltadas e estapafúrdias no calor do momento. Mas o que nos preocupa, é que na realidade, isto é o que acredita uma grande maioria das pessoas, que a mulher que estava a arbitrar bem podia estar em casa a lavar a loiça. Que a arbitragem devia estar exclusivamente destinada aos homens.

Este é um dos exemplos, que nos alerta, para a desigualdade entre as mulheres e os homens, e esta é uma preocupação cada vez mais urgente.

Sabemos que há crenças que culturalmente estão enraizadas, no entanto, ficamos apreensivas, pois uma grande quantidade de crianças que estavam a assistir ao jogo e diariamente, não só em contexto desportivo, como no seu dia-a-dia, continuam a crescer com estas crenças. Assim, crescem com a concepção que a desigualdade – nos seus mais amplos contextos – é normal.

Não são educadas para os valores, para se questionarem, para respeitar o outro. Assim, continuamos a criar uma sociedade desigual que promove a violência, ora contra as mulheres, ora contra os mais desfavorecidos e mais frágeis.

Se queremos igualdade, temos de educar para a igualdade e temos de praticar a igualdade no nosso dia-a-dia.

Continuamos a ver meninos a menosprezar meninas, continuamos a ver crianças bater sistematicamente noutras crianças, porque os sentem como mais frágeis, continuamos a assistir a violência doméstica, em qualquer dos sentidos. E no fundo, tudo isto é reflexo de violência.

Preocupa-nos que cada vez mais, assistamos, nos mais diversos contextos, a violência de forma clara e manifesta, que em nenhuma circunstância é positiva ou protetora.

Trata-se de termos consciência que as crianças absorvem tudo aquilo que vivenciam. Se, por exemplo, apenas dizemos que o mundo deve ser igual para meninos e para meninas, e não o colocarmos por acções, continuaremos sistematicamente a assistir a desigualdades.

É importante que as meninas também possam jogar à bola e os meninos brincar aos pais e as mães, se for esse o seu desejo.

É importante que a violência doméstica – quer sobre homens quer sobre mulheres – seja amplamente punida e que haja medidas de protecção robustas a todas as crianças que assistem a esses episódio.

É importante que, em cada criança, haja a noção que todas as outras, independentemente de serem meninos ou meninas, independentemente da classe social ou etnia, têm direitos e têm valor.

E é importante que todos nós exerçamos uma função reguladora e protetora sempre que assistimos a episódios de discriminação ou violência em qualquer que seja o contexto. Só assim, podemos almejar um futuro igual para todos.

 

Por Cátia Lopo e Sara Almeida para Up To Kids®

 

Image by mcconnmama on Pixabay

Colectânea As Crianças e o Mundo | Racismo e Intolerância, de Louise Spilsbury | Refugiados e Migrantes, de Ceri Roberts ! Ilustração de Hanane Kai

O preconceito ainda hoje existe na nossa sociedade e, no seu quotidiano, as crianças vivem ou assistem a diversas situações injustas, perguntando-se como agir.

«Racismo e Intolerância» e «Refugiados e Migrantes» transmitem aos mais novos uma mensagem relevante e sensível sobre a aceitação da diferença

A coleção «As Crianças e o Mundo» apresenta uma excelente ferramenta para pais e educadores ajudarem as crianças a compreender conceitos e a saberem o que fazer nestas situações.

«Racismo e Intolerância» e «Refugiados e Migrantes» são os dois primeiros livros desta pertinente coletânea. A Bertrand Editora faz chegar às livrarias portuguesas a 19 de outubro.

A linguagem simples e os desenhos apelativos destes livros proporcionam uma conversa delicada e importante, para que um adulto consiga explicar, de forma acessível, temas difíceis e, infelizmente, atuais. Permite às crianças entender o que significam conceitos como «intolerância» e «refugiado». E em especial perceber as dificuldades que as crianças deslocadas ou excluídas sentem.

«Racismo e Intolerância» e «Refugiados e Migrantes» transmitem aos mais novos uma mensagem relevante e sensível sobre a aceitação da diferença e a importância da amizade, ajudando-os a perceber como lidar com estas situações e para que saibam que podem fazer a diferença.

Sinopses

Por vezes, as crianças ouvem, nas notícias, palavras que não entendem e que as deixam preocupadas. Com ilustrações lindíssimas e uma linguagem acessível, Racismo e Intolerância e Refugiados e Migrantes procuram responder às suas perguntas e oferecer soluções encorajadoras.

«Racismo e Intolerância»

Louise Spilsbury é autora de livros infantis, com mais de 200 títulos publicados, todos na área da pedagogia e da educação. Já escreveu um pouco sobre tudo, desde ciência a geografia, passando por assuntos internacionais, problemas sociais, arte, história e literacia.

«Refugiados e Migrantes»

Ceri Roberts é jornalista, palestrante, editora e escritora freelancer que trabalha para vários meios de comunicação de destaque.

Sobre a ilustradora

Hanane Kai é ilustradora e designer. A sua aspiração é que as suas ilustrações toquem e dêem que pensar aos adultos e crianças que as vêem. Vive e trabalha no Líbano.

FICHA TÉCNICA

Género: Literatura/Infantil

Formato: 22 x 22 cm – capa dura

No de páginas: 32

Data de lançamento: 19 de outubro de 2018

PVP: 8,80 €

Tradução: Maria Rita Furtado

Respira, Marta, tu consegues manter a calma.

“Mas, mãe, eles disseram que a minha mochila não é de menina”. Eu ouvi, filha, simplesmente não queria acreditar porque sinceramente há dias em que simplesmente não há paciência. Mas tem de haver. Porque “eles” são crianças. Porque a minha filha é criança e porque é agora que se determina em grande parte o adulto que ela vai ser, assim como os seus pares.

Em relação aos filhos dos outros não há muito que possa fazer, mas é minha missão como mãe orientar a minha filha e por isso respiro fundo.

Contextualizando: a mochila em causa tem quatro cores, amarelo, laranja, vermelho e  azul claro. Tem o desenho do Pateta, Pato Donald, a Margarida, o Mickey e a Minnie sorridentes. Foi escolhida precisamente por não ser apenas cor de rosa com a Minnie, a Elsa ou a Ana, a Doutora Brinquedos ou qualquer uma das figuras associadas normalmente a raparigas. E teve esta reacção, o que é mais que justo, ainda que para mim um pouco inacreditável.

Quando comprei esta mochila para a praia tive em mente os seguintes critérios: cabe tudo o que é preciso lá dentro e não é pouco (protector, água, muda de roupa, saco das cuecas, toalha), a minha filha consegue aguentar com o seu peso nas costas e o desenho.

O desenho está em último, mas é importante, daí eu ter-me dado ao trabalho. Porquê?

Porque tento educar a minha filha liberta de preconceitos sociais para que ela possa descobrir por si quem é e do que gosta, sem que os pais a condicionem mais do que o inevitável.

Se lhe tivesse levado uma mochila da Elsa era capaz de dormir inclusivamente agarrada a ela, de tanto que ia adorar. Mas tento que ela abra os horizontes, porque se tem tantas outras coisas da Ela pode perfeitamente ter algumas menos cor de rosa, cheias de outras cores vivas com bonecos de que gosta.

Perguntei-lhe se gostava da mochila. Ela adorou e preparámos juntas tudo para o primeiro dia de praia. Note-se que este incidente aconteceu a três dias do final da praia com a escola, o que me faz lembrar os noticiários em férias em que muitas vezes passam notícias que não são propriamente notícias, mas à falta de melhor…

Depois deste episódio voltei a perguntar se ela gostava da mochila e ela disse-me que sim. E eu disse que era isso que importava.

Depois quis saber por que é que ela achava que os amigos tinham dito aquilo e ela disse que é porque tem aqueles bonecos e não é cor de rosa. E eu expliquei que as crianças, ela e os amigos, podem gostar dos bonecos que quiserem. SE o amigo X gostar de vestir cor de rosa, então que vista. Se gostar da Elsa ou de bonecas, então que goste e possa brincar com elas. Se a Y gostar de carros, bolas e super heróis então que brinque com eles.

Esta é a tua mochila e quando olho para ela penso sempre que vai contigo para a praia e guarda lá dentro as tuas coisas. E é tão gira, precisamente por causa destes bonecos e destas cores. E tu disseste-me que gostavas dela, por isso ainda bem. Quando olho para ela não vejo uma mochila de menino nem de menina, vejo a TUA mochila. Entendeste, filha?”.

Ela concordou com a cabeça e quando lhe perguntei de que era aquela mochila, ela respondeu “da Mariana”. Abracei-a e disse-lhe que às vezes as pessoas pensam de maneira diferente de nós e devemos ouvi-las para percebermos se achamos o mesmo ou não. Mas que não há mal em pensarmos de forma diferente mas não devemos mudar com medo do que os outros vão achar de nós.

É muito para absorver numa idade especialmente difícil.

Quis também dizer-lhe que nunca devia deixar que ninguém lhe dissesse que não pode ter, gostar ou ser uma coisa só porque é menina.

Vai demorar a interiorizar, mas este discurso tem de existir. Tem de fazer parte. As crianças têm de se sentir livres para gostar de coisas tão simples como uma mochila, caramba. Que futuro nos espera se estiverem sempre à espera de agradar a toda a gente?

Serão infelizes e inseguros.

Bem sei o impacto que os pares e o seu discurso têm nesta fase em que estão a formar os gostos e as personalidades.

Temos de acompanhar e intrometer-nos no essencial apenas.

É complicado, mas é para isso que aqui estamos. Para também gerirmos estas pequenas crises, para que venham a transformar-se em grandes crises.

É um processo de aprendizagem para pais e filhos e em cada casa se defenderá aquilo em que se acredita.

Pela nossa vamos trabalhando para criar uma criança com empatia, confiança qb, espaço para falar sobre os seus medos e expectativas, gostos e (o mais importante) uma opinião própria.

Temos tempo e amor para lá chegar. Do resto o tempo cuida.

Não, eu não educo os meus filhos para o feminismo.

Eu educo-os para serem corajosos, independentes, honestos e para que se respeitem e respeitem os outros.

“- Mãe, estás a fazer o jantar porquê? É o pai que costuma fazer o jantar.”

Quando alguém diz que os rapazes devem ser educados para o feminismo eu hesito entre bater com a cabeça na parede ou respirar fundo e perguntar como é que funcionam as coisas lá em casa.

Eu explico, sou mãe de um rapaz e de uma rapariga e ambos recebem a mesma educação e o mesmo exemplo. E o exemplo começa pela igualdade e o respeito entre o pai e a mãe. Em nossa casa o aspirador e o pano do pó não são propriedade da mãe, o pai lava a loiça, faz o jantar, vai às compras, leva os miúdos à escola e ao médico e trabalha, como a mãe. Não existem tarefas da mãe e tarefas do pai. Não existe a figura autoritária do pai e a figura permissiva da mãe. Não existem ameaças físicas nem psicológicas, não existe violência física nem verbal. Nunca é demais lembrar que filhos que crescem em ambientes abusivos têm grande probabilidade de se tornarem adultos agressores.

As crianças são esponjas e o respeito pelos outros e por si mesmas ensina-se pelo exemplo, por terem uma mãe que trabalha, que é independente, que se respeita e é respeitada e por terem um pai que se rege pelos mesmos princípios.

Recuso-me a educar o meu filho como futuro agressor e a minha filha como futura vítima.

Eu educo-os para serem corajosos, independentes, honestos e para que se respeitem e respeitem os outros. E estes não são princípios exclusivos do feminismo. São pilares básicos para uma sã convivência em sociedade, sem discriminações ou abusos de qualquer género.

Hoje são crianças de três e cinco anos, cujas questões nos aparecem na medida da idade que têm. Outras irão surgir com o tempo, como o valor do seu corpo, a não discriminação das mulheres no local de trabalho, a violência, o assédio, mas se as bases estiverem lá, tenho esperança de que se irão tornar em adultos responsáveis e respeitadores dos outros. E a esperança também entra nestas contas. Os pais fazem a sua parte. Esforçam-se para serem um bom exemplo, com ações e não apenas com palavras, e o resultado será uma mistura desse exemplo, da personalidade dos filhos e de uma boa dose de sorte.

Por isso, não! Não educo os meus filhos para o feminismo. Educo-os para o humanismo.

Cada passo vale por dois | Educar para a igualdade e respeito pelo outro

Esta semana pensei em como um profissional de educação aborda o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres, que se comemora anualmente a 25 de Novembro.
Contextualizando o dia, sabemos que o mesmo foi declarado em 1999 pelas Nações Unidas (ONU). A data está relacionada com a homenagem a Tereza, Mirabal-Patrícia e Minerva, presas, torturadas e assassinadas em 1960, a mando do ditador da República Dominicana, Rafael Trujillo.
Esta data visa alertar a sociedade para os vários casos de violência contra as mulheres. Nomeadamente, casos de abuso ou assédio sexual, maus tratos físicos e/ou psicológicos.
Em média, uma em cada três mulheres é vítima de violência doméstica.
Olhando para as estatísticas enquanto educadores/as de futuros cidadãos/cidadãs, os números fazem-nos refletir.
Criar uma sociedade em que não se verifique casos de violência sobre o género feminino, engloba trabalhar sobre igualdade de género, igualdade de oportunidades, valorização do papel social da mulher, valorização da liberdade individual de cada individuo, construção de uma auto-estima… Analisando os factos, o ponto de partida é construir valores morais que assentem na igualdade e no respeito pelo outro.

Como?

 Iniciamos pela desconstrução já incutida pela sociedade do rosa para as meninas e o azul para os meninos! As cores são de todos e todas! Façamos uma viagem pela casa onde pais e mães partilham tarefas. Ensinemos às crianças que nas casas não existem tarefas de homens e tarefas de mulheres. Existem sim tarefas que, por vezes, alguns membros da família tem mais facilidade em fazer. Mas todos e todas somos capazes…
Vamos respeitar o outro e aceitar o “Não” como uma decisão e não um ataque pessoal. – Às vezes não me apetece brincar com os meus amigos e eu tenho o direito de dizer que não. – Estamos a criar a liberdade pessoal! Eu quero ser apto para realizar escolhas e aceitar as respectivas consequências de forma livre e ponderada.
Vamos estabelecer limites ao redor do meu corpo. Só eu tenho o direito de escolher quem lhe toca. Vamos educar para a educação sexual. Prevenir a violência e assédio sexual. Não quero ouvir que não sou capaz, que sou um desastrado ou uma desastrada, que só arranjo problemas. Não quero ser torturado psicologicamente. Vamos construir uma boa auto estima, que criará uma barreira impedindo que se caia nas malhas do/da agressor/a.
Refletindo. São pequenos atos, pequenos alertas que entram nas cabeças de seres em construção diariamente e que no futuro vão fazer cair os números sombrios das estatísticas.”

Artigo da leitora Carla Félix

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