Vamos deixar de catalogar as crianças, se faz favor?

“És um bebé!”; “És mesmo teimoso!”; “Só fazes asneiras!”; “Não tens vergonha de ser preguiçoso?”.

O que sentiríamos, pensaríamos e decidiríamos se, no nosso local de trabalho, o nosso chefe passasse a vida a dizer “és sempre a mesma coisa!”, “não fazes nada bem!” ou “estás sempre a queixar-te!”?”

Quantas vezes brindamos os nossos filhos com estes “mimos” e outros do género? Ou ouvimos outros pais fazê-lo com os seus? E quais as suas consequências para a autoestima da criança?

Quando estamos cansados e sem paciência para procurar as razões que estão por detrás do comportamento, é mais fácil catalogar, colocar rótulos. Mas isso traz consequências negativas no futuro, sobretudo na autoestima.

“A classificação reflete a tendência de nossa identidade de se defender da diferença que o outro representa. Rotular é enquadrá-lo numa categoria que o reduza e simplifique para nós. É preciso um esforço para se afastar dos referenciais próprios e observar a beleza da diversidade”. – Eliana Braga Atihé

Reflexões sobre catalogar as crianças

Como se sentirá quem é catalogado ou rotulado?

Tentemos colocar-nos naquele lugar. O que sentiríamos, pensaríamos e decidiríamos se, no nosso local de trabalho, o nosso chefe passasse a vida a dizer “és sempre a mesma coisa!”, “não fazes nada bem!” ou “estás sempre a queixar-te!”?

Teríamos vontade de melhorar ou nem por isso?

E o que decidiríamos fazer dali para a frente?

Tal como os adultos, também as crianças agem melhor quando se sentem melhor. E às vezes é tão simples fazer a diferença. Pense nisto. 

Foto de Paula Perrier | Modelo: Max Fama/Kids)

Sempre tive pouca opinião no que diz respeito à palmada.

Acredito que todos nós uma vez na vida daremos uma.

Acredito também que é como os presentes. Custa muito mais a quem dá, e depois de oferecida não há como retirar.

A palmada é por si só o descontrolo de quem deu. Porque não conseguiu gerir a zanga que sentia. Muito mais do que o pouco controlo de quem a recebeu afinal “Estava mesmo, mesmo a pedi-las.”

Muitas vezes serve para sossegar o coração de quem a dá – apenas num primeiro momento – e sentir que resolveu o problema ou a insubordinação; no fundo, fez algo a respeito.

Fugir à palmada pode ser visto como uma “moda” das novas formas e modelos de parentalidade. Afinal de contas, também todos nós já levamos uma na vida. “E nem nos fez mal nenhum!…”

Estava mesmo a pedi-las”

 Mas será que se nos zangarmos com o marido, porque ele foi mesmo mesmo inconsequente e “estava mesmo a pedi-las” sai palmada? Porque razão deve ser diferente com as crianças?

Porque nos  compete educá-las?

E “a palmada no momento certo” não faz mal a ninguém?

Mmmm…Creio que a palavra certa no momento certo também não fará mal a ninguém.

Enquanto mãe preocupa-me mais que a palmada mostre à minha filha que é desta forma que se resolvem os problemas. Porque educamos muito mais com o que mostramos do que com o que dizemos ou repetimos.

Acredito  que talvez um dia também eu dê uma palmada por não conseguir gerir a zanga que sinto. No entanto, como acredito que a palavra certa no momento certo funciona tanto como a palmada que terei dado, pedirei desculpa à minha filha e certifico-me de que entende que não é essa a forma de resolver os conflitos.

Por isso em relação à palmada, a minha resposta será sempre um “Nim”. Porque podemos fazer diferente, explorar outros caminhos. É difícil. Mas o que é a parentalidade se não um desafio constante?

Porque depois de dada, a palmada, irá doer para sempre muito mais no coração de quem a deu!

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Promover a auto-estima, ou 10 coisas que aprendi na palestra “Saber dizer não!”

Promover a auto-estima, implica saber dizer não. Dizer bem. Dizer um “não” que desenvolve o cérebro. Assim:

1 – O Marshmallow de Walter Mischel

Na barriga da mãe, tudo está bem. Não há frustração. Só aí.  Cá fora, a vida vai trazer desafios, obstáculos e…frustrações…

O “não” ajuda a enfrentar a vida. 

2 – Procure estar com outros “pais” em contexto de aprendizagem

Os rostos variavam nas emoções transmitidas, mas havia um traço comum: a expectativa! A palestra prometia.

Será que sabemos dizer “não” aos nossos filhos? Dizemos “não” com a frequência e intensidade desejadas? 

A nossa proposta era darmos pistas para aquilo que gostamos de chamar “o não que desenvolve o cérebro”. Pistas dadas numa reflexão conjunta. 

No confronto. Com provocação. Estes “pais”, todos reunidos, melhoraram as suas competências. 

3 – Reflita com profundidade sobre as causas das suas  eventuais dificuldades em dizer “não”

Só assim, através da reflexão profunda é que podemos desenvolver ferramentas para o desenvolvimento pessoal e aproximarmo-nos da educação que desejamos, e que contempla o “não” consciente capaz de ajudar a desenvolver a auto-estima. 

4 – Uma das chaves  está na assertividade 

A vida não é feita de “nãos”, mas sem o “não” a vida não acontece. 

A relação, as relações, precisam da individualidade e a individualidade começa com o aceitarmos as nossas diferenças com assertividade. Aceitando, o próximo passo é apresentá-las aos que nos rodeiam. E essa apresentação é com os nossos “nãos”. Uma boa apresentação rima com assertividade

Assertividade, como a certa altura da palestra, e muito bem, gritou uma “mãe” na primeira fila. Ficámos felizes, porque soubemos que era professora. O professor capaz sabe o significado de assertividade. O professor fantástico, além de saber, exercita-a. 

5 -Quando diz “não” sem sentir culpa, ganha liberdade, foge da angústia

Numa “educação positiva”, o “não” também (claro!) faz parte! Lá está, é a importante questão do equilíbrio. 

Há cada vez mais Educadores de Infância a pedirem o tema “Saber dizer não!”. E cada vez mais Professores a fazê-lo também. Estaremos numa sociedade permissiva? Deixamos as nossas crianças fazer tudo o que querem? Ou será que estamos (apenas) mais atentos? 

Um pouco de ambas. Mas preocupam-me muito as duas primeiras. 

6 – Procure inspirar-se, motivar-se e agir, além de (apenas) saber 

A adesão dos encarregados de educação à palestra “Saber dizer não!” foi, mais uma vez, esmagadora. Mas, mesmo assim, antes de começarmos, a  fantástica Educadora Luísa Figueira, já me fazia um pedido, porque muitos outros pais tinham ficado de fora da sessão. Ela desejava a apresentação que eu ia utilizar. 

Não valeria de nada. A apresentação não era daquelas cheias de texto e teoria. Ela ajudava o dinamizador a…inspirar, motivar  e levar as pessoas a agir…mais do que (apenas) ensinar! 

7 – Ler, estudar, pensar…analisar…muito importante…só que não chega…treine os “nãos”

Há que haver uma comunhão. Um grupo com as mesmas necessidades que se reúne e partilha. Este pode ser o início do seu treino. Treine. Vá dizendo. É na relação que crescemos. Todos. Não podemos ficar só a ler. 

No final da palestra, uma “mãe”, acercou-se de mim e agradeceu, referindo as suas dificuldades em dizer “não” e a forma como agora se sentia mais segura. 

Senti a palestra como algo…como hei-de dizer…terapêutico! Desculpe, não sei se é a palavra certa, mas como sou médica foi isso que eu senti!”

De seguida, voltou a assumir a sua dificuldade em dizer não. E isso deixa-nos felizes! Quem abandonou as esperanças, deixa de usar o “não. E os “pais” não podem perder a esperança. Quem pensa que sabe tudo, tem caminho para o fracasso.

8 – Confiança, confiança,…

Uma criança presente na palestra, foi convidada a subir ao palco. E eram cerca de 150 pessoas a olhar para ela. Subiu, contou uma história. Ouviu as palmas. E mostrou ter algo cuja essência é, em parte , o “não”. Mostrou ter auto-estima. 

Na sua vida, de certo que ouve “nãos” da parte da família, nomeadamente dos pais. 

Mas de certo que já começa a usar os seus próprios “nãos”. E essa auto-estima será fundamental. Usará o não com os pais, com os amigos…e até com ela mesma, num exercício de autocontrole. 

Ela mostrou confiança. 

O cérebro das crianças, há que (re) lembrar, está em construção. E o “não” ajuda a esse desenvolvimento. A confiança vem também de vermos ao crescer, a confiança do adulto. O adulto que faz de…adulto! E confiança não é nunca falhar. 

9 – Dizer “não” de boca fechada

Dizer  “não” só se faz com a boca? Não. Há um “não” fundamental dito pela expressão. Expressão corporal. Expressão facial. “Cara de não”. Não confundir com cara de zangado, descontrolado ou em pânico. O adulto confiante faz a sua “cara de não”. 

Funciona bem com crianças até os 4 anos. Mas também com os adultos. Tentarei fazer a minha quando me tentaram mexer na luz da sala. Gosto de ver a cara das pessoas. Preciso. Não vou debitar. Há relação. E essa relação, tem “sins” e tem “nãos” para poder ser completa. Como a boa relação entre pais e filhos.

10 – Focar no curto prazo é um problema

Muitas vezes na relação com as crianças um “sim” é evitar um choro, uns gritos…uma briga… 

Aos adultos, cabe a capacidade de olharem para o futuro. De projectarem os seus atos no longo prazo. Não é fácil. Por isso, qualquer reflexão em cima de dados científicos, qualquer trabalho em cima do estudos do desenvolvimento cerebral, só podem ser úteis. 

Aos “pais”, cabe a responsabilidade de terem uma vida, para além do acompanhar os filhos. Viverem também a liberdade dos seus “nãos”.

Aos adultos, cabe a capacidade de olharem para o futuro, dizia eu…como a Educadora Cláudia Ribeiro, para dar um exemplo luminoso. Ou como a Educadora Andreia Salvador, para dar outro. Como tantas pessoas com responsabilidade na educação que dizem “não!” à ausência de um (bom) “não!”. 

 

Teste do Marshmallow de Walter Mischel, a explicação

Temos de pesar o que dizemos aos nossos filhos

Os nossos filhos são verdadeiras esponjas.

Crescem a cada segundo, surpreendendo-nos com as mais fascinantes tiradas, com declarações súbitas que nos demonstram que, apesar de nós, eles existem. Eles existem e bebem de tudo o que está ao seu redor, seja em forma de vivências, seja em forma de diálogo.

É por esta razão que importa cada vez mais não esquecer que tudo o que dizemos fica registado. Pode não ser transmitido de imediato, mas fica lá. Todos os comentários que fazemos à sua frente, a forma como verbalizamos as emoções, as críticas que fazemos aos outros e a nós próprios.

Há uns dias, a minha filha veio dizer-me “Sabes, mãe. A X diz que a comida que comemos vai para as pernas”. Inocente à partida, a declaração. Mas não é.

A minha leitura, depois de alguns segundos, foi a de: foi dito a esta criança que tudo o que ela come vai para o seu corpo. Mas em vez de lhe ter sido passada esta mensagem de uma forma positiva, do género todos os nutrientes, toda a comida que ingerimos vai trazer alguma coisa ao nosso organismo, é importante comer laranja ou manga por causa da vitamina C, o que lhe foi dito foi aquilo que muitas de nós ouvimos a crescer e que algumas de nós perpetuámos já em adultas; “um segundo na boca, uma eternidade nas coxas”.

Enquanto adulta eu tenho a capacidade de perceber, analisar e tirar conclusões sobre esta simples frase. Sim, aquela segunda taça de gelado provavelmente vai fazer menos bem do que deveria, e seria mais sensato parar na primeira.

Mas a uma criança está a passar todo um peso.

Um sentimento de culpa associado a algo que deveria, em primeiro lugar, ser visto como algo positivo: comer.

Educo a minha filha para ser consciente em relação à comida e ela diz muitas vezes “aquilo faz mal porque é só açúcar e não ficamos sem fome, nem tem vitaminas”. Pode ser informação a mais, mas ela apreendeu-a de acordo com a educação alimentar que recebe. E a sua conclusão tem a ver com saúde, não tem a ver com as alterações que eventualmente teria no seu corpo. Nunca ouviu nem ouvirá algo como “se comes doces vais ficar gorda”. E acho que é disto que se trata quando a tal colega lhe falou da comida ir para as pernas. Subjacente à mensagem estava lá um “vê lá o que comes se não queres ficar com pernas gordas”.

É mesmo isto que queremos passar às nossas filhas de cinco anos?

Basta da ditadura da beleza, da pressão da sociedade… Se educarmos os nossos filhos a serem gentis com eles próprios (também pela forma como encaram a comida  e a compreendem) e com os outros, certamente haverá uma geração menos focada nas diferenças e mais engajada no que realmente importa.

Dias depois desta conversa, a minha filha disse-me: “A X diz que eu sou gorda”.

Mais uma vez o peso da palavra, usada para ferir, para magoar. E a minha filha não é gorda. Tem barriga de bebé mas é toda ela músculos e agilidade, força e destreza. E mesmo que assim não fosse, custa-me que a palavra usada pela amiga tenha sido “gorda”. Como acusação.

Fiz o que senti que deveria. Desconstruí.

Tu não és gorda, Mariana. E se fosses não era nada simpático dizer-te isso para te deixar triste. Tens tantas coisas que ela podia ter apontado, mesmo que estivesse triste contigo. Coisas que tu podes melhorar. Como “às vezes falas alto comigo e eu não gosto” ou “fico triste quando não tens cuidado a brincar com os brinquedos que trago de casa”. O que lhe respondeste?”. E ela foi sucinta: “Que não era gorda. E fui brincar”.

Isto acontece porque a Mariana tem uma autoestima que lhe permite passar por cima do problema. Não a atingiu o comentário porque para ela não é relevante. Mas e se fosse? Veio de uma das pessoas de que ela mais gosta e podia deixar marcas. Aprofundar inseguranças.

Fiquei triste. Pensei que a mãe da outra menina podia melhorar a forma como comunica as suas ideias. Os seus preconceitos. Porque infelizmente a imagino a comentar o peso ou o excesso dele relativamente às outras pessoas como sendo algo do género ”não queremos ser aquela pessoa…”.

Os outros podem não ser bons connosco

Uma das autoras que mais gosto de ler (e que não escreve sobre parentalidade) fala muito da relação que tem com a filha de 12 anos e da sua vivência com as outras raparigas na escola. De como fortaleceu a confiança dela mostrando-lhe que os outros, por mais que façamos, podem não ser bons connosco. E que tantas vezes a culpa não é nossa. Não há nada que possamos fazer, simplesmente nem toda a gente vai gostar de nós. E relatava uma situação em que a bully da escola dizia à filha que a roupa dela era horrenda (para que fique registado era pura maldade, a miúda é incrível e veste-se de uma maneira original, isso sim, mas que por vezes acredito que suscite aquela inveja tola dos 13/15 anos…). A resposta da filha foi “Já eu gosto muito da tua. Acho que te fica super bem”. Para mim foi uma chapada. Achei aquilo maravilhoso. Interiorizei, acho que foi a maneira mais bonita de lidar com a situação e a mãe não estava por perto. Ela tinha aprendido aquilo com a mãe, sim, e com a forma como a mãe a ensinou a lidar com os outros.

Nem sempre é ou será fácil, mas cabe-nos a nós não criar este sistema de críticas.

Eu sei que os alunos de aparelho, de óculos, os mais gordinhos ou magrinhas, altos, com maminhas, ou falta delas, os marrões, etc sempre foram alvos. E talvez nunca deixem de ser. Mas quero acreditar que podemos mudar pelo menos o número de miúdos que vão ter dedos apontados na sua direcção.

Somos todos tão diferentes por dentro, por que razão deveríamos ser todos iguais por fora?

A diversidade é importante.

A gentileza salva vidas.

Acreditem.

Há demasiadas crianças a sofrerem depressões à conta da maldade alheia.

Há crianças que decidem acabar com a própria vida.

Quando os nossos filhos apontarem as características dos outros, tentemos que se foquem em características que realmente importam. Sem lhes tirar a oportunidade de questionar, é certo, mas abrindo a sua mente.

Por exemplo “aquela senhora tem o cabelo verde”.

Em vez de dizermos “que horror!”, poderíamos perguntar, “o que é que achas disso?” E enaltecer a coragem que é preciso para andar com um cabelo diferente na rua sem ter receio do que os outros pensam.

É um trabalho em construção.

Mas quando a minha filha ouvir que é gorda ou algum impropério do género, quero que quando já não tiver a capacidade de sacudir o pó dos ombros seja capaz de dizer  “e se for? Por que é que me estás a dizer isso?” Ou “em que é que isso muda a nossa relação?”.

Até lá continuarei a dizer-lhe aquilo que quero que nunca esqueça: é importante é ser bonito por dentro.

E essa beleza ainda falta a demasiadas pessoas…

7 Princípios para olharmos para os professores com olhos de ver

De uma forma geral, será mais produtivo olharmos para os docentes, para o seu trabalho e para a sua missão, refletindo sobre estes princípios:

1 – A educação começa na família e depois segue no sistema de ensino

O maior sinal de que uma sociedade está doente, é começar a desrespeitar quem garante o futuro dessa mesma sociedade. E a educação é a base e a rampa de lançamento do futuro de uma nação que se preze. A educação começa na família e depois segue no sistema de ensino…

2 – Desrespeitar é, por exemplo, não desmontar ideias falsas.

Há dias, em Fátima, centenas de docentes (professores e educadores de infância,…) participaram com uma entrega poderosa, numa ação de formação que dinamizei. No fim de uma semana de trabalho, ainda conseguiram motivação e espaço no cérebro para evoluir. É que, porque há muita gente (e gentinha) que se esquece: Ser docente não é pêra doce! Já vão longe (espero eu!) os mitos das “progressões fáceis”. Já dormem as falsidades sobre as “férias gigantes”. Já estão esquecidas as comparações marotas com as “Finlândias”, até porque na Finlândia, o importante é o apoio aos docentes.

3 – O desgaste, o (mau) stress e as injustiças, existem.

Muitas profissões sofrem deste desgaste, no entanto, a carreira docente tem particularidades. Em Fátima, por exemplo, os docentes observavam-me com atenção, mesmo estando cansados. Escutavam-me com desejo, mesmo havendo uma certa desilusão com o rumo do país. Interrogavam-se com fervor, mesmo não havendo comunicação social para fazer eco daquele esforço. O desenvolvimento pessoal, a formação, a busca pela actualização, é feito, muitas vezes, na sombra. A meio da sessão, recebemos um telefonema. Era o Presidente da República! Pois não era. Ninguém telefonou.

4 – Eu fui a Fátima, amanhã estarei em Setúbal e segunda-feira, ainda nem sei.

Esta instabilidade de horários e locais, faz-me empatizar com os melhores professores. Aqueles que também viajam e chegam a lugares novos quase todos os anos, mantendo a maioria das vezes o espírito positivo, porque pensam no melhor para os seus alunos (que não têm culpa). Também eu faço Palestras e (trans) Formações em salas quentes, salas frias, longe de casa, muito longe de casa, muito cedo, muito tarde,…e faço com entrega…porque penso nos melhores. Porque o mundo está numa mudança abrupta e constante.

5 – Um educador deve estar consciente dessas mudanças, e deve estar atento a métodos mais eficazes, mais atuais.

As minhas sessões nem sempre acabam com “beijinhos e abraços”. O meu trabalho não é (apenas) motivar. Procuro agitar e dar caminhos. Procuro tocar nas feridas. As feridas existem. O cérebro humano está em constante mudança, por isso a formação é fundamental. Por vezes, sou mal interpretado. Outras vezes acham que sou “demasiado duro”. Não faz mal. Porque a maioria entende que o meu objetivo é nobre, sempre focado nos alunos e nas melhores práticas…se um docente é dos que (apenas) diz que faz (mas não faz) o natural é ele sofrer nas minhas sessões. Pretendo que eles saiam mais fortes. Mais próximos de fazerem o que sabem que tem que ser feito. E a psicologia pode doer. Tentamos ir pela positiva, mas pode doer. Mas é nessa luta que os melhores se colocam. Acertar, falhar, tentar, acertar, falhar…

6 –  É fundamental darmos estabilidade.

Um docente com estabilidade, fica mais aberto para ouvir. Mais capaz de escutar. Mais próximo de limar as arestas da sua ação pedagógica. Claramente, um dos maiores desafios: a estabilidade do docente. Felizmente, vejo cada vez mais equipas de psicólogos e afins, como uma equipa excelente em Sines, por exemplo. Ou no AE Cego do Maio, na Póvoa de Varzim. Ou os profissionais do “Afirma-te” em Idanha-a-Nova. E os docentes, os pais e os alunos precisam deste esforço de todos.

7 – A esperança é a última a morrer

No fundo, eu sei que um dia as condições podem melhorar. Terão os sindicatos que melhorar também. E a classe política terá que ser mais capaz. Entretanto, alguns professores vão desistir. Outros vão adoecer. Outros vão ter um esgotamento. Outros serão perseguidos por uma turma vítima da ausência dos pais.

Mas a maioria seguirá. Sem precisar de boa imprensa, ou de um telefonema de um famoso. Mesmo com a desilusão de estarmos num país onde o tal pilar, a tal base, é tantas vezes alvo de ingratidão. Seguirá empatizando comigo, quando tento que melhorem. Seguirá buscando o seu equilíbrio, com ou sem apoio da equipa de psicologia. Seguirá buscando a estabilidade interna, no que pode controlar.

A intensidade do amor não é sempre igual.

Como a intensidade da fé também não é sempre constante. Lembrei-me disto em Fátima…

Não são constantes, mais isso não significa algum erro. É mesmo assim. Nem o sol tem sempre a mesma radiância. Agora, tem que existir amor, isso tem. E o sol não foi um sonho.E os melhores docentes lá seguirão, tentando ter uma maior quantidade de momentos onde são capazes de persistir, capazes de melhorar práticas, capazes de enfrentar injustiças, exercitando o amor à escola, aos alunos, mas, principalmente, o amor a si mesmos.

 

Imagem de Pexels por Pixabay 

 

9 frases poderosas para te conectares com o teu filho

Há momentos em que não sabemos o que dizer aos nossos filhos. Em que o conflito está ao rubro e nos sentimos impotentes, achamos que não vamos conseguir parar aquela espiral negativa.

Não é fácil recuperar a conexão perdida, recomeçar. Em minha casa tenho tentado aplicar com os meus filhos algumas das “ferramentas” práticas, que aprendi com a Disciplina Positiva. Com bons resultados.

Deixo-vos algumas frases que já experimentei dizer aos miúdos nos momentos de tensão. E que fizeram a diferença.

Da próxima vez que sentires que estás numa autêntica luta de poderes, experimenta dizer uma delas:

1. “Diz-me o que estás a sentir”

Ao mostrar interesse em saber o que está o teu filho a sentir, faz com que ele se sinta ouvido. E importante. Ajudá-lo a encontrar as palavras certas para descrever a emoção do momento – mesmo que o faça de forma curta ou meio atabalhoada – ajudá-lo-á a acalmar-se e a seguir em frente. Assim estarás também a mostrar empatia pela criança e pelos seus sentimentos, o que é meio caminho andado para retomar a conexão perdida.

Mas atenção, para que esta “estratégia” resulte, tenta descer ao nível da criança, olhá-la nos olhos e ESCUTAR realmente o que ela tem para lhe dizer.

2. “Amo-te, mesmo quando estás assim”

As crianças precisam de sentir amor incondicional dos seus pais, para que se tornem adultos estáveis do ponto de vista emocional. Esta frase mostrar-lhe-á que a ama até mesmo nos momentos em que não estão a dar-se lá muito bem.

3. “É normal sentires-te zangado, às vezes”

Como pais tentamos muitas vezes “abafar” os sentimentos dos filhos. Fazêmo-lo de forma consciente ou inconscientemente, é certo, mas é frequente. Por exemplo, quando queremos pôr termo de forma imediata a uma birra ou a uma crise de choro. Só que, ao tentarmos que a criança “abafe” o que está a sentir, o mais provável é que o “mau” comportamento se intensifique e, possivelmente, com ainda mais força.

Sentir é normal, certo? Faz parte de sermos humanos e não há distinção entre adultos e crianças. Quando compreendemos que é normal sentirmo-nos menos bem por vezes, mostramos aos miúdos que os amamos até nesses momentos.

4. “Posso dar-te um abraço?”

Quando as crianças estão no meio de uma birra, tudo à sua volta parece ser uma ameaça. Por isso reagem tantas vezes intensificando a conduta, gritando, esperneando quando tentamos ralhar com elas para que parem.

Sei que pode parecer estranho, mas dar um abraço ao teu filho durante um momento de conflito pode ser o suficiente para lhe pôr fim. “Preciso de um abraço, filho” é a frase certa e preferível a “Dá-me um abraço”, já que mostra vulnerabilidade e não autoridade, sendo por isso mais fácil retomar assim a conexão perdida.

É claro que nem sempre esta solução resulta, nem resultará com todas as crianças. Por vezes, quando a criança está de tal modo furiosa, o ideal é dizer algo como “Preciso de um abraço mas já percebi que agora não o consegues dar. Vem ter comigo quando achares que estás pronto”.

5. “Vamos respirar fundo juntos?”

Inspira, expira… Respirar fundo é para muitos pais a melhor forma para se acalmarem. E que tal propor o mesmo aos seus filhos? É um exercício simples e que acalma o stress e diminui a frequência cardíaca. Ideal para momentos de conflito!

6. “Como é que eu te posso ajudar?”

Fazer perguntas ajuda a criança a mudar o foco, a pensar em soluções em vez de se centrar na emoção negativa. Mesmo que não obtenha resposta, só o facto de perguntar, de lhe oferecer ajuda, mostra que se importa realmente com o que ela está a sentir.

7. “Podemos recomeçar?”

Esta frase funciona como uma espécie de ‘reset’. As primeiras vezes que a usar, é possível que não resultem, mas não custa ir tentando…

8. “Desculpa-me por…”

Os pais também são de carne e osso, também erram, falham, choram, sentem. Mostrar às crianças que também somos humanos não só é reconfortante para elas, como lhes passa também uma mensagem poderosa: de que pedir desculpa é normal e algo certo a fazer muitas vezes. Por isso, se gritou demasiado alto, se foi demasiado duro/a ou se ignorou sentimentos que não devia ter ignorado, não custa nada dizer “desculpa”.

9. “Da próxima vez, prometo que…”

“Desculpa se perdi a cabeça, da próxima vez prometo que vou reagir com mais calma”. Ao contrário do que possa pensar, esta frase não o/a fragiliza enquanto educador/a, pelo contrário. Mostra compromisso, compromisso de mudança, algo que é essencial quando pedimos desculpa. E ajuda a retomar a conexão perdida.

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A minha filha tem fúrias

Faço esta pergunta como mãe e ainda estou à procura de respostas.

A minha filha tem 4 anos, é um amor, carinhosa e preocupada mas também tem fúrias. Há alturas em que passa para o lado de lá da força e nessas alturas vai tudo à frente.

Há uma tendência de os pais ficarem incrédulos porque não foi assim que educaram os filhos. Ou porque simplesmente foram crianças tão diferentes deles.

Cresci a ouvir dizer que nunca tinha feito uma birra e, bem, digamos que não somos minimamente iguais.

Conheço a minha filha como ninguém mas isso não significa que saiba tudo sobre ela ou que consiga perceber tudo o que está a sentir.

Tento, é esse o meu papel, e tento também orientá-la dentro da raiva e fúria que está a sentir, a frustração que transmite no seu comportamento.

Tento que perceba que pode comunicar de outra maneira.

Uma das estratégias que encontrei foi pedir-lhe que me tente explicar o que está a sentir usando palavras. Sei que isto, para quem está fora de si, dá vontade de chutar o balde e mandar o outro para um certo lugar. E às vezes não resulta. Noutras resulta e ela vai verbalizando e eu vou tentando ajudar a falar, a exprimir, a explicar.

Mas há alturas em que nem ela sabe já o que a deixou assim e, por isso, esta estratégia não resulta.

Já fiz este mundo e o outro e tento seguir o meu instinto no momento.

É cansativo, suga-me a alma e muitas vezes acabo derrotada e a chorar por dentro (até que posso chorar para fora), mas procuro fazê-la perceber que não é assim que se resolvem conflitos ou se manifesta tristeza ou raiva. Não deveria ser.

Já li que as crianças só têm maturidade emocional por volta dos 5 anos e estou a contar os dias para lá chegar, para provar a teoria, sabendo à partida como todas as crianças são diferentes e como os timings variam de umas para outras.

Quero que sinta que se pode exprimir. Mas que entenda que nesse processo não pode magoar os outros, verbal ou fisicamente – e não se pode magoar a si.

Este processo de não desistir dela e de não a deixar por sua conta dá-lhe a segurança de sentir que, apesar de às vezes errar, não está sozinha.

Porque não está e canso-me de lho dizer.

Às vezes termina a pedir-me desculpa e a dizer “vamos voltar a ser amigas”.

Explico-lhe que nunca deixei nem deixarei de ser sua amiga porque ela age de maneira errada comigo. Porque sou sua mãe e estou aqui para a ajudar. Mas faço questão de dizer que para as outras pessoas isto pode não ser válido, porque quero que compreenda que não se pode fazer tudo aos amigos. Há coisas que simplesmente não têm perdão e não podemos esperar que nos aceitem depois de errarmos. Podemos desejá-lo, trabalhar para isso, mas não exigir isso dos outros.

Porque este amor incondicional pertence aos pais. E nós somos os primeiros a terem de ser tratados como tal.

Se desse lado também há dias cinzentos, muita força. Às vezes temos de atravessar a tempestade de mãos dadas para conseguirmos chegar juntos até ao arco-íris.

Como impor limites com amor e firmeza

Há uns anos atrás, disciplina era sinónimo de autoridade pelo medo e de punição física.

Presentemente, em algumas situações, passamos para o outro extremo, a ausência de limites, que poderá vir a ter graves consequências não só no desenvolvimento das crianças de hoje, como nos adultos de amanhã.

Torna-se essencial rumarmos agora para encontrar o meio-termo e a melhor forma de impor limites, sem recorrer à agressão física, com os contributos científicos a que temos acesso na actualidade.

Em primeira instância, é importante ter em consideração que os pais não podem ser apenas “bons” para os filhos. Os bons pais são efectivamente bondosos, mas, por vezes, também têm de ser “maus”. É fundamental ter sempre presente, que por muito desafiadora que a criança se possa tornar, quem estabelece as regras em casa são os pais!

Como impor limites

A imposição de limites começa desde cedo. A um bebé que durante a amamentação tenta morder o mamilo da mãe, pode ser dito um “não” com ternura. E este trabalho, às vezes árduo, de educar e de ir “balizando” o comportamento da criança, para que ela vá adquirindo por si própria a capacidade de auto-controlo, é um trabalho contínuo que tem de ser feito pelos pais ao longo de muitos anos.

Os limites ensinam à criança até onde ela pode ir. Dão-lhe segurança e permitem que aprenda a respeitar o espaço do outro. Futuramente, permitirão que se torne num adulto que compreende que existem regras em sociedade importantes de cumprir. A ausência de limites torna as crianças ansiosas, instáveis emocionalmente, numa busca incessante pelos mesmos. Poderá levar a que estas crianças se tornem adultos que acham que podem fazer tudo. Ou pelo contrário, adultos oprimidos que acham que não podem fazer nada.

Mas, então devo passar o dia a dizer “Não” ao meu filho?

Não! Também é importante que os pais escolham as suas “batalhas” e que não utilizem constantemente a palavra “Não”. Guardá-lo para situações que envolvam perigo ou quando está em causa o bem-estar do outro é uma possibilidade. Por vezes, consegue-se ajudar a criança a sair de situações difíceis distraindo-a ou dando-lhe alternativas, privilegiando o discurso pela positiva, em vez de pela negativa, o que será também benéfico para a auto-estima da criança.

É ainda importante, que os pais se “emprestem” como modelos, como o exemplo a seguir. As crianças são “esponjas”, absorvem e imitam tudo o que veem. Para elas, a observação é a ferramenta de aprendizagem mais poderosa. Às vezes, é necessário que os pais façam uma auto-reflexão sobre o seu próprio comportamento com as crianças. Um pai que pede a um filho para não bater nos colegas da escola e ele próprio, quando perde a paciência lhe dá uma palmada, não é uma atitude congruente com o discurso.

Ao longo da vida, o seu filho irá ouvir muitas vezes o “Não”. Se lidar com o “Não” desde cedo, irá garantir que no futuro, quando o ouvir, saberá lidar com a adversidade. Manterá o equilíbrio psíquico e poderá, de uma forma mais imediata, mobilizar recursos internos no sentido de encontrar outras possíveis respostas/soluções.

 

 

A educação dos nossos filhos começa em cada um de nós, pais.

“De onde tirámos a ideia louca de que para conseguirmos que uma criança seja boa, primeiro devemos fazê-la sentir-se mal?” A famosa frase da norte americana Jane Nelson, uma das mentoras da Disciplina Positiva, dá que pensar.

Vivemos um dia a dia tão frenético que nos resta pouco tempo para dedicar ao que deveria ser a nossa principal prioridade: a família. E quando os nossos filhos se “portam mal”, é mais fácil reagir com um grito, um castigo ou pior, uma palmada. E que tal começar por tentar perceber qual a razão por detrás dessa conduta? E se eu lhe disser que há alternativas, bem mais… positivas?

O que é a Disciplina Positiva?

Todas as crianças querem sentir-se importantes. E têm o desejo de pertencer.  À família, à escola, à equipa de futebol, ao grupo de amigos.

Disciplina Positiva não é mais do que um modelo educativo que permite entender o comportamento das crianças e oferece ‘ferramentas’ para actuar, sempre de forma positiva. Ou seja, com firmeza mas com afetividade ao mesmo tempo, sem autoritarismos ou controlo excessivo, mas sem permissividade. Baseia-se, pois, no respeito mútuo e na cooperação. A Disciplina Positiva permite também aos pais ajudar os mais novos a desenvolverem competências básicas para enfrentar o mundo lá fora. E um sentido de responsabilidade apurado.

Autoconhecimento, uma ‘arma’ poderosa para a Disciplina Positiva

A educação dos nossos filhos começa em cada um de nós, pais. Para podermos mudar comportamentos nos nossos filhos é preciso, primeiro, olharmos para nós próprios. E percebermos o que está mal e o que podemos mudar. Melhorar. Chama-se a isto autoconhecimento.

A maior responsabilidade de todas é clara: educar. Sem culpa, com amor, respeito, firmeza e amabilidade.

Sei que vou continuar a errar, neste caminho tão maravilhoso e desafiante da paternidade.

Mas eu aceito o desafio, e você?

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Mãe, estás contente?

Os nossos filhos vêem-nos como somos e não como achamos que somos.

Muitas vezes, ao longo da vida, enganamo-nos. Enganamo-nos para continuarmos o nosso caminho sem nos sentirmos tão culpados por aquilo que fazemos e que sabemos que deveríamos fazer de outra maneira.

Ao longo da vida enganamos os outros, voluntária ou involuntariamente, pelo simples facto de aceitarmos a opinião que os outros têm de nós sem a corrigirmos, principalmente quando essa opinião é positiva.

Com os filhos não há nada disso.

Podemos saltitar de pedra em pedra mas eles sabem que não estamos a voar.

Vêem-nos como super heróis por fazermos coisas que a eles ainda são inacessíveis, vêem muitas vezes as nossas qualidades quando duvidamos delas, e muitas vezes apontam os nossos defeitos quando menos esperamos.

“Mãe, por favor, não fiques zangada. Não quero que fiques zangada”.

Esta frase tira-me metade do coração quando a oiço.

E às vezes ela chega para me lembrar que quando chamo a minha filha à atenção ela vê o que eu não vejo, porque estou dentro de mim. Ela vê o cansaço, ela vê alguma impaciência, ela vê alguma tristeza.

Acho que é importante que ela perceba que os seus actos têm consequências, acredito que ela tem de perceber que quando me magoa deve ter à sua frente alguém que demonstra os seus sentimentos sob pena de crescer a achar que a mãe foi sempre um muro de aço perante as coisas menos boas da vida e que demonstrar os nossos sentimentos é uma fraqueza. Não é, pelo contrário.

Mas quando ela me vê naquela culpa e tristeza sinto ainda mais culpa e mais tristeza, essa sina eterna das mães.

Quero que perceba que as coisas não desaparecem segundos depois de acontecerem, mas não quero que tenha receio que eu me zangue. Quero que faça as coisas, tome as suas decisões pelos motivos certos e não com medo de me deixar triste.

Sei, também, que há alguma inevitabilidade em crescermos a não querermos desiludir os nossos pais e que isso faz parte.

E por isso, ao ver-me ao espelho quando me zango, através dela, através da forma como ela me vê, sei de imediato aquilo que tenho de tentar mudar.

E é por isso que o diálogo é tão importante.

E é por isso que a pergunta “estás zangada?” nunca é seguida de um “mas é claro que sim”, um virar de costas e ir embora.

Eu fico. Eu baixo-me para falar com ela a olhá-la nos olhos. Eu explico o que estou a sentir e porquê. Explico o que acho que devia ter acontecido de outra forma, muitas vezes inclusivamente falando do eu EU deveria ter feito de outra forma, porque aqui não há só um culpado.

E depois abraçamo-nos. E ela, sem falhar, pede desculpa se tem de o pedir e jura que não volta a fazer.

Já percebi que uma das coisas que mais desespera a minha filha é sentir que me falhou.

Mas ela não me falha. Simplesmente está a crescer. E crescer custa, dá trabalho e é um percurso recheado de bons e maus momentos.

Seguimos caminhos errados, testamos limites, somos diferentes do que esperamos que sejamos.

E isso não vai mudar, porque hoje, aos trinta e dois anos, continuo a fazer o mesmo que ela aos quase quatro.

E por isso quero que ela sinta que não vou fingir que não vejo quando ela age de forma errada, mas quero que saiba, que sinta, que não tenha  menor dúvida que, principalmente nesses momentos espero por ela para lhe dar a mão e encontrarmos uma maneira de melhorar. As duas.

Ser mãe não é fácil, principalmente porque também nós estamos a seguir o nosso percurso, a evoluir, a mudar, a encontrar novas ferramentas, novas convicções.

Ser mãe não é fácil pelo que se espera de nós, pelo que esperamos de nós.

Mas sabermos que não fazemos esse crescimento sozinhas ajuda.

E eu não estou sozinha porque a tenho a ela, a aprender comigo e a ensinar-me mais do que dezassete anos de escolaridade me ensinaram.

E não, meu amor, não estou zangada. E se estiver, passará.

Porque tudo passa, menos nós.

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