Temos de pesar o que dizemos aos nossos filhos

Os nossos filhos são verdadeiras esponjas.

Crescem a cada segundo, surpreendendo-nos com as mais fascinantes tiradas, com declarações súbitas que nos demonstram que, apesar de nós, eles existem. Eles existem e bebem de tudo o que está ao seu redor, seja em forma de vivências, seja em forma de diálogo.

É por esta razão que importa cada vez mais não esquecer que tudo o que dizemos fica registado. Pode não ser transmitido de imediato, mas fica lá. Todos os comentários que fazemos à sua frente, a forma como verbalizamos as emoções, as críticas que fazemos aos outros e a nós próprios.

Há uns dias, a minha filha veio dizer-me “Sabes, mãe. A X diz que a comida que comemos vai para as pernas”. Inocente à partida, a declaração. Mas não é.

A minha leitura, depois de alguns segundos, foi a de: foi dito a esta criança que tudo o que ela come vai para o seu corpo. Mas em vez de lhe ter sido passada esta mensagem de uma forma positiva, do género todos os nutrientes, toda a comida que ingerimos vai trazer alguma coisa ao nosso organismo, é importante comer laranja ou manga por causa da vitamina C, o que lhe foi dito foi aquilo que muitas de nós ouvimos a crescer e que algumas de nós perpetuámos já em adultas; “um segundo na boca, uma eternidade nas coxas”.

Enquanto adulta eu tenho a capacidade de perceber, analisar e tirar conclusões sobre esta simples frase. Sim, aquela segunda taça de gelado provavelmente vai fazer menos bem do que deveria, e seria mais sensato parar na primeira.

Mas a uma criança está a passar todo um peso.

Um sentimento de culpa associado a algo que deveria, em primeiro lugar, ser visto como algo positivo: comer.

Educo a minha filha para ser consciente em relação à comida e ela diz muitas vezes “aquilo faz mal porque é só açúcar e não ficamos sem fome, nem tem vitaminas”. Pode ser informação a mais, mas ela apreendeu-a de acordo com a educação alimentar que recebe. E a sua conclusão tem a ver com saúde, não tem a ver com as alterações que eventualmente teria no seu corpo. Nunca ouviu nem ouvirá algo como “se comes doces vais ficar gorda”. E acho que é disto que se trata quando a tal colega lhe falou da comida ir para as pernas. Subjacente à mensagem estava lá um “vê lá o que comes se não queres ficar com pernas gordas”.

É mesmo isto que queremos passar às nossas filhas de cinco anos?

Basta da ditadura da beleza, da pressão da sociedade… Se educarmos os nossos filhos a serem gentis com eles próprios (também pela forma como encaram a comida  e a compreendem) e com os outros, certamente haverá uma geração menos focada nas diferenças e mais engajada no que realmente importa.

Dias depois desta conversa, a minha filha disse-me: “A X diz que eu sou gorda”.

Mais uma vez o peso da palavra, usada para ferir, para magoar. E a minha filha não é gorda. Tem barriga de bebé mas é toda ela músculos e agilidade, força e destreza. E mesmo que assim não fosse, custa-me que a palavra usada pela amiga tenha sido “gorda”. Como acusação.

Fiz o que senti que deveria. Desconstruí.

Tu não és gorda, Mariana. E se fosses não era nada simpático dizer-te isso para te deixar triste. Tens tantas coisas que ela podia ter apontado, mesmo que estivesse triste contigo. Coisas que tu podes melhorar. Como “às vezes falas alto comigo e eu não gosto” ou “fico triste quando não tens cuidado a brincar com os brinquedos que trago de casa”. O que lhe respondeste?”. E ela foi sucinta: “Que não era gorda. E fui brincar”.

Isto acontece porque a Mariana tem uma autoestima que lhe permite passar por cima do problema. Não a atingiu o comentário porque para ela não é relevante. Mas e se fosse? Veio de uma das pessoas de que ela mais gosta e podia deixar marcas. Aprofundar inseguranças.

Fiquei triste. Pensei que a mãe da outra menina podia melhorar a forma como comunica as suas ideias. Os seus preconceitos. Porque infelizmente a imagino a comentar o peso ou o excesso dele relativamente às outras pessoas como sendo algo do género ”não queremos ser aquela pessoa…”.

Os outros podem não ser bons connosco

Uma das autoras que mais gosto de ler (e que não escreve sobre parentalidade) fala muito da relação que tem com a filha de 12 anos e da sua vivência com as outras raparigas na escola. De como fortaleceu a confiança dela mostrando-lhe que os outros, por mais que façamos, podem não ser bons connosco. E que tantas vezes a culpa não é nossa. Não há nada que possamos fazer, simplesmente nem toda a gente vai gostar de nós. E relatava uma situação em que a bully da escola dizia à filha que a roupa dela era horrenda (para que fique registado era pura maldade, a miúda é incrível e veste-se de uma maneira original, isso sim, mas que por vezes acredito que suscite aquela inveja tola dos 13/15 anos…). A resposta da filha foi “Já eu gosto muito da tua. Acho que te fica super bem”. Para mim foi uma chapada. Achei aquilo maravilhoso. Interiorizei, acho que foi a maneira mais bonita de lidar com a situação e a mãe não estava por perto. Ela tinha aprendido aquilo com a mãe, sim, e com a forma como a mãe a ensinou a lidar com os outros.

Nem sempre é ou será fácil, mas cabe-nos a nós não criar este sistema de críticas.

Eu sei que os alunos de aparelho, de óculos, os mais gordinhos ou magrinhas, altos, com maminhas, ou falta delas, os marrões, etc sempre foram alvos. E talvez nunca deixem de ser. Mas quero acreditar que podemos mudar pelo menos o número de miúdos que vão ter dedos apontados na sua direcção.

Somos todos tão diferentes por dentro, por que razão deveríamos ser todos iguais por fora?

A diversidade é importante.

A gentileza salva vidas.

Acreditem.

Há demasiadas crianças a sofrerem depressões à conta da maldade alheia.

Há crianças que decidem acabar com a própria vida.

Quando os nossos filhos apontarem as características dos outros, tentemos que se foquem em características que realmente importam. Sem lhes tirar a oportunidade de questionar, é certo, mas abrindo a sua mente.

Por exemplo “aquela senhora tem o cabelo verde”.

Em vez de dizermos “que horror!”, poderíamos perguntar, “o que é que achas disso?” E enaltecer a coragem que é preciso para andar com um cabelo diferente na rua sem ter receio do que os outros pensam.

É um trabalho em construção.

Mas quando a minha filha ouvir que é gorda ou algum impropério do género, quero que quando já não tiver a capacidade de sacudir o pó dos ombros seja capaz de dizer  “e se for? Por que é que me estás a dizer isso?” Ou “em que é que isso muda a nossa relação?”.

Até lá continuarei a dizer-lhe aquilo que quero que nunca esqueça: é importante é ser bonito por dentro.

E essa beleza ainda falta a demasiadas pessoas…

Podemos confiar nos nossos Pais!

Quando pensamos em falar com os nossos Pais sobre as dificuldades na aprendizagem parece fácil mas… não é assim tanto! Às vezes, só de pensar em falar com eles sobre este assunto até dá um arrepio. Umas vezes pode ser por não querermos sentir vergonha, outras vezes por não os querermos preocupar ou até aborrecer. Mas, podemos perfeitamente confiar neles e pedir-lhes que nos oiçam e compreendam as dificuldades que temos ou estamos a passar. Falar com os Pais pode ajudar-nos muito. E eles podem ajudar-nos. Afinal, os Pais são as pessoas mais importantes das nossas vidas! Amam-nos e cuidam de nós desde que nascemos até quando já somos Pais também!

Vamos ser corajosos e falar!

Quantas vezes é que nos passa pela cabeça “se eu não falar sobre estas dificuldades, pode ser que elas desapareçam”? Muitas, mas… “arrumar o assunto na gaveta” não o resolve e não nos faz sentir mais à vontade para lhes pedir ajuda. Muitas vezes só é preciso uma conversa. Ao sermos ouvidos e compreendidos em relação às dificuldades que temos sentimo-nos melhor, mais facilmente pedimos ajuda aos nossos Pais e arranjamos formas de as superar. Por isso, vamos ser corajosos e falar!

Antes da conversa…

Podemos pensar em algumas perguntas antes de ter a conversa.

Com quem vamos falar? Com a Mãe? Com o Pai? Com os dois? Quando é que vamos falar? No caminho para a escola? Depois do jantar? Onde é que vamos falar? No quarto? No carro?

É preferível dizermos aos nossos Pais que queremos falar com eles e perguntarmos qual será a melhor altura do dia, com mais tempo, e o lugar mais apropriado.

Por onde é que começamos?

Quando não sabemos por onde começar, escrever é uma ajuda. Pode ser uma boa ideia escrevermos uma carta e mostrá-la aos nossos Pais. Como fez a Laura. Ela escreveu uma carta em que conta como é um dia na sua vida. Podemos ler a sua história e experimentarmos também escrever a nossa carta.

Um dia na vida da Laura

“O alarme do telemóvel tocou às 07:00. Tinha de tomar um duche rápido para ir para a escola pois as aulas começavam as 08:30. Pensava eu que estava na casa-de-banho há apenas uns minutos, quando o meu irmão mais novo bateu à porta:

– Vá lá, despacha-te, estás a tomar banho há 20 minutos! – reclamou, ainda ensonado. – 20 minutos? Perdi o controlo do tempo…

Já eram 09:30, tinha chegado a hora do teste de História.

Eu adoro História e estudei muito para o teste de hoje. Depois de responder a algumas perguntas, o professor indicou que o tempo tinha terminado. Não quis acreditar… Olhei para o relógio para confirmar as horas, mas demorei algum tempo e o professor recolheu a folha de teste. Fiquei na dúvida se tinha lido bem as horas…

As aulas acabaram às 12:30.

Depois do almoço fui ao bar comprar um gelado que custava 1,50€ e cinco rebuçados para o meu irmão que custavam 0,10€ cada um. Não tinha a certeza se tinha dinheiro suficiente, mas também não queria que as minhas amigas me vissem a contar o dinheiro pelos dedos. Então, dei todo o dinheiro que tinha, convencida que chegava. Pensava mesmo que chegava, e que até sobrava…

Chegaram as 14:00, a hora da aula de Matemática.

Quando olhei para os trabalhos que levava para fazer hoje em casa “entrei em pânico”. Eu sei que eu até consegui fazer alguns exercícios, mas o meu coração disparou à mesma. Voltaram os pensamentos negativos: “Eu nunca vou ser boa a Matemática!”. Então, guardei os trabalhos no cacifo antes de sair da escola. Não queria que os meus pais vissem que eu não tinha conseguido fazer todos os exercícios na aula.

Às 14:55 tive aula de Educação Física.

Tinha de dar duas voltas ao campo a correr, em um minuto e vinte e cinco segundos. Corri tão rápido na primeira volta que tive dificuldade em conseguir terminar a segunda no tempo previsto. O professor ficou surpreendido por eu não me ter lembrado do que ainda ontem tinha treinado:

– Porque é tão difícil para ti conseguires lembrar-te de “em um minuto e vinte e cinco segundos”? – desabafou.

– Em um minuto e quanto?

As aulas terminaram as 15:45.

Hoje a tarefa de dar comida aos animais era minha. Eu sabia que eram cinco colheres de comida para o cão e três para o gato. Mas fiquei na dúvida: Será que medi bem as quantidades? É que se eu der comida a mais ao gato, ele vai mandar fora, mas… quanto é “a mais”?

Já eram 21:00 e o grande jogo ia começar.

Já todos tínhamos acabado de jantar e estávamos preparados para ver o jogo na televisão. Tinha começado! Comecei a fazer perguntas também: Quem é que está a ganhar? Se a nossa equipa marcar mais um golo ganha o jogo? Foram tantas as perguntas que fiz que me cansei e fui para o meu quarto.

Como ainda não passavam das 21:30, decidi montar a estante nova que tinha chegado hoje. Desempacotei a caixa e tirei as instruções. Segui o primeiro passo, mas fiquei confusa porque as peças não encaixavam. Irritei-me e empurrei tudo para bem longe.

Quando a minha mãe chegou para me ajudar, até lhe disse que não queria mais a estante. Fui deitar-me. Daqui a pouco o telemóvel deve tocar outra vez para me levantar.”

Depois, podemos dizer aos nossos Pais o que precisamos.

Por exemplo: “Pais, preciso que oiçam e compreendam o que escrevi nesta carta sobre como é um dia na minha vida. Posso contar-vos?” A partir daqui a conversa flui naturalmente.

A conversa correu bem?

A conversa com os nossos Pais corre bem na maior parte das vezes. Mas nem sempre conseguimos ter uma boa conversa. Pode ser porque não estavam num bom dia, ou porque não estavam disponíveis por alguma razão. É sempre possível tentar falar noutra altura. Mas, quando não conseguimos mesmo ter essa conversa, podemos procurar outro familiar, um Professor ou o Psicólogo em quem possamos confiar para falar sobre as dificuldades na aprendizagem.

Limites na adolescência

“O meu filho não acata os meus limites!”

(Ponto de partida para este texto: os limites não se impõem. Compreendem-se, experimentam-se e constroem-se em conjunto.)

A questão dos limites e do seu (in)cumprimento por parte dos filhos é uma das dificuldades que mais as famílias partilham. E se a questão na infância era mais ou menos contornável, com maior ou menor criatividade, com maior ou menor flexibilidade, na adolescência pode tornar-se um verdadeiro desafio, sobretudo quando as ferramentas usadas anteriormente se basearam na intimidação, na ameaça ou na coação.

Sim, porque na adolescência eles já são do nosso tamanho e as características do pensamento formal já lhes permitem chegar a uma concepção das coisas e do mundo muito própria e mais refletida. E ainda bem.

Do lado dos pais, aumenta a frustração, a sensação de impotência e a reatividade, que muitas vezes se transformam em gritos, ordens e distância afetiva crescente.

Na verdade, ainda que saibamos que nada disto funciona, rapidamente corremos o risco de ficar sem recursos e entrar numa espiral de negatividade marcada por um padrão de comunicação corrosiva, que não trará com certeza bem estar a nenhum dos protagonistas desta história.

Pensar em limites na adolescência

Pensar em limites e na sua construção com os nossos filhos implica que tenhamos, antes de qualquer outra coisa, a lucidez de descobrir algumas coisas dentro de nós:

  • Reconhecer que o nosso único super poder enquanto pais é a capacidade de nos conectarmos com os nossos filhos.

Sabendo que é ela que nos permitirá criar um espaço de crescimento e entendimento conjunto, mesmo nos momentos mais desafiantes.

  • Libertarmo-nos do pensamento automático de que tudo o que nossos filhos fazem, tem como objetivo atingir-nos, desafiar-nos maltratar-nos. 

Não minha gente, não tem. Nem tudo é sobre nós. Na maioria das situações e em relação a vários aspectos, existem outras motivações por detrás do comportamento de um adolescente e elas não passarão pela maquiavélica tarefa de levar o pai ou a mãe aos arames. Desenvolver esta consciência, far-nos-á toda a diferença.

  • Saber que uma das grandes tarefas da adolescência é precisamente conquistar uma maior autonomia perante a família.

Isto permite-nos ser mais empáticos com a natural e desejável necessidade dos adolescentes de sentir que conquistam, progressivamente, um maior controlo sobre si próprios e sobre as decisões da sua vida. Da mesma forma, que saber que um córtex pré frontal ainda em desenvolvimento no cérebro adolescente interfere com a capacidade de organização e planeamento nesta fase de vida, deixando facilmente cair por terra o compromisso assumido de arrumar o quarto no dia seguinte (sem que tal tenha sido maquiavelicamente premeditado, lembra-te…). Já para não falar na também dificuldade no adiamento da recompensa (típica no cérebro adolescente), sempre que alguma atividade mais interessante se meta no caminho.

Voltamos assim ao ponto de partida deste texto: 

Os limites não se impõem.

Compreendem-se, experimentam-se e constroem-se em conjunto e enchem-se de sentido e de significado sempre que:

  • São respeitadores e espelham uma preocupação genuína:

“Reparei que estás a chegar mais tarde a casa. Para mim é importante saber que estás bem e quando te atrasas fico preocupada. Qual é a tua sugestão para consigamos respeitar-nos neste assunto?”

  • São flexíveis e resultam da nossa capacidade de sermos empáticos:

”Vejo que ontem foi o aniversário da Sara e que por estarem a divertir-se tanto foi difícil sair mais cedo. Na próxima vez é mesmo importante que me avises que é um dia especial e que têm outros planos. Assim podemos definir em conjunto qual a melhor hora e forma de regresso.”

  • São específicos e participados:

“Combinámos que tomarias o teu banho antes do jantar, pelas 19h30. Obrigada. Fico contente que tenhamos chegado a um acordo, com base naquele que é o melhor momento para ti.”

  • Recorrem ao humor e desdramatizam:

 “Olha, pareceu-me ver alguém alguém no quarto parecido com o João! Impossível, a esta hora o João já está no duche…”

Os limites e a família

Os limites são importantes às famílias porque traduzem aquelas que são as suas rotinas, tarefas ou tradições e por isso devem ser adaptados às suas características e dinâmica conjunta, atendendo também às necessidades e especificidades de cada um dos seus elementos.

A nossa reflexão enquanto pais e mães sobre os limites que reconhecemos como essenciais, permite-nos entender se efetivamente estamos em sintonia com os mesmos ou se, pelo contrário, obedecemos-lhes  e a eles recorremos apenas e só, porque os herdámos da relação com os nossos pais ou porque outro alguém os defendeu como importantes.

Aceitar que alguns deles podem não nos servir naquele que é o nosso propósito na relação com os nossos filhos e permitir que os mesmos possam ser refletidos, participados e construídos em conjunto, é o passo mais importante para que efetivamente se constituam como um bom apoio à navegação.

Afinal, não é o limite em si que garante que o mesmo seja respeitado, ou até que tenha alguma utilidade. É, sobretudo, a forma como o sentimos, como o identificamos e como o comunicamos.

É este entendimento que permite que, de uma forma conectada e respeitadora, as diferentes necessidades (de pais e filhos) possam ser atendidas.

E que todos se sintam parte importante da viagem de crescer.

E quando o Gato lhes comeu a língua?

“– Ah e tal, dizem-me que o mais importante é falar com o meu/minha filho/a.

– Verdade.

– Mas e se ele não fala comigo?

– Pois…”

A mudança nos padrões de comunicação pode ser uma realidade, mais ou menos sentida, na maioria das famílias e é reflexo das muitas mudanças ocorridas na adolescência, que implicam uma maior introspeção e a necessidade de reorganização interna.

Ora para quem se habituou a ter dos filhos respostas rápidas sempre que os questionava sobre a vida e sobre a escola, pode ser especialmente difícil obter um vago e insípido “Hum, hum…”, sempre que tenta saber mais.

Ainda assim, mesmo que às vezes seja frustrante, vale a pena insistir e comunicar, pelo que aqui vão algumas propostas que talvez ajudem.

6 dicas para habituares o teu filho a comunicar contigo

1. Banalizar os momentos de conversa.

Falar no caminho para a escola, durante o jantar, enquanto fazem compras, durante uma caminhada… torna a comunicação parte da rotina e traz a naturalidade necessária para que os temas sérios aconteçam, sem que a sua seriedade seja entendida como solene… e chata. Criar momentos e rotinas especiais com cada filho, que procurem ir ao encontro daqueles que são os seus interesses, ajuda também a que se sintam importantes e estimula a que a relação se mantenha próxima e saudável.

2. Abrir as perguntas.

Ajuda a trazer respostas mais significativas e espontâneas.
– “O que foi mais interessante no teu dia hoje?”
– “O que gostarias que tivesse acontecido de forma diferente?”
Ou, de uma forma mais criativa:
– “Se fizesses o teu próprio filme que título lhe darias?”
-“Se pudesses mudar uma coisa no mundo o que mudarias?”…

3. Partilhar quem somos.

Falar sobre nós, sobre o desafio que estamos a atravessar no trabalho, sobre a ideia de tirar um curso de pintura, sobre o restaurante novo onde fomos almoçar, etc, contribui para que se sintam mais próximos e valorizados na sua presença.

4. Sermos honestos.

“Eu entendo que agora não te apeteça falar mas eu gostava de compreender melhor o que se passa e poder ajudar. Como achas que posso fazê-lo?” Mostrar-lhes que estamos atentos será sempre positivo. Dizer-lhes que sabemos que é difícil, torna-nos mais empáticos. Pedir-lhes ajuda sobre a melhor forma de apoiar, fá-los sentirem-se respeitados.

5. Não levar a peito. 

Podem existir dias em que, mesmo que te pintes de amarelo e faças o pino, não consigas sacar-lhe um sorriso ou uma frase completa. Não é um ataque pessoal nem significa que vocês não tenham uma boa relação, pode apenas querer dizer que aquele não é um dia bom (tu também os tens). Outros dias virão e com eles outras oportunidades. Eles precisam da segurança de que tu sabes disso. E entendes.

6. Dar asas à comunicação.

A comunicação faz-se de muitas formas e se a palavra não funcionar existe sempre a possibilidade de escrever. Podem fugir das conversas “tête-à-tête”, mas gostarão de encontrar um post-it num local estratégico a dizer: “Estou tão orgulhosa/o da forma como resolveste o problema com a Joana”, ou um email a dizer que o teste de Filosofia vai correr bem. Não é o meio que usamos para comunicar que é mais importante, mas sim garantir que a informação lhes chega e não os deixa esquecer que estamos por perto e nos importamos.

7. Propor alternativas.

Uma vez que estas coisas nem sempre vão funcionar ou até porque sabemos que há assuntos que são particularmente difíceis (para nós ou para eles), é importante que existam momentos com outros adultos significativos. Um almoço estratégico com uma tia com quem se identificam e têm boa relação, um pedido de ajuda a um professor de referência ou a sugestão de uma conversa com o psicólogo da escola, podem constituir canais de comunicação importantes e extremamente protetores.

E por fim, porque tu tens em mãos a mais incrível missão, esta é para ti: Senta-te, respira e confia.

Nem sempre a estrada é fácil, nem sempre estarás preparada/o, e vais ter medo… muitas e muitas vezes. Mas no meio deste turbilhão de emoções, existe a certeza de que ajudar alguém a crescer, é uma das experiências mais extraordinárias que a vida nos pode dar.

O resto, dar-te-ão eles, no sábio retorno e na doce sensação de que vive em vós o segredo de um amor maior.

As Crianças não são pombos correio

Há, e todos sabemos, situações familiares muito complicadas.

Há situações em que o diálogo é quase inexistente, outras em que a comunicação é feita através de acusações, gritos, ofensas.

Há pessoas que estão constantemente, por causa disso, a usar os filhos/netos/afilhados/sobrinhos, como mensageiros.

“O teu pai não é capaz de fazer isto bem feito”.

“Que mania que a tua mãe tem de mandar X ou Y”.

“Diz à tua mãe que isto ou aquilo”.

Todos os exemplos dados aqui em cima são errados. São de evitar ao máximo. Põem uma carga em cima das crianças que não lhes pertence.

Nenhum miúdo, tenha que idade tiver, deve ouvir comentários menos positivos em relação aos progenitores, por mais verdade que possa haver no que for dito (e isto vale a comentários feitos em relação a avós, tios, etc).

Nenhum miúdo deve sentir que tem uma mensagem a passar à mãe/pai quando regressa de um fim de semana com o outro progenitor.

Nenhuma criança deve sequer preocupar-se com assuntos de adultos, seja o assunto divergências em relação à educação, a como é passado o tempo, aos horários praticados, à roupa que é enviada ou o estado em que regressa, à situação amorosa dos pais (seja a nova seja a antiga: reconciliação entre os pais, impossibilidade de estarem juntos sem se aborrecerem, etc), aos problemas financeiros (contribuições ou falta delas).

As crianças devem ser crianças.

E se existe uma situação em que os pais ou não estão juntos ou não conseguem entender-se isso já coloca nas crianças um peso que preferencialmente todos os envolvidos gostariam que não acontecesse. Não é justo fazer as crianças levantar os olhos dos brinquedos, do seu mundo de fantasia e afectos para os ver a observar os pais com olhos analíticos, com vozes a ressoar na sua cabeça. Não é saudável, não é justo, simplesmente não se faz – seja qual for o recado.

Bem sei que muitas vezes até nem há maldade, os adultos envolvem as crianças nos seus pensamentos, arrastam-nos achando até que podem ser eles o catalisador de uma mudança positiva. Se forem, que seja por presença indirecta e não por estarem no meio do campo de batalha com  a bandeirinha branca na mão, a ser incessantemente agitada.

Se a mãe quer dizer alguma coisa ao pai, fale com ele.

Se a avó quer dizer alguma coisa à mãe, fale com ela.

Se o pai quer dizer alguma coisa ao sogro, fale com ele.

Se o avô tem alguma coisa a dizer, fale com o filho ou a filha.

De adulto para adulto.

Nos casos mais difíceis, em que simplesmente é impossível comunicar, procure-se ajuda de um intermediário, um assistente social, por exemplo.

Nunca as crianças.

Sempre o adulto.

Deixemos as nossas crianças viverem a sua infância sendo livres, leves e apenas tendo como preocupação os que as rodeiam naquilo que é realmente importante.

Mesmo que estejamos cheios de boas intenções.

Os adultos somos nós.

Façamos um esforço.

imagem@weheartit

Inteligência Interpessoal. Teoria das inteligências múltiplas. Todos diferentes, todos especiais.

“O segredo para viver em paz com todos consiste na arte de compreender cada um segundo a sua individualidade”
– Federico Luis Jahn –

Todos nascemos diferentes e especiais. Todos temos dons para partilhar com o mundo. Todos temos características para aprender com os outros. Tal como Augusto Cury dizia, o sonho da igualdade só cresce no terreno do respeito pelas diferenças. Só quando aceitamos que são as diferenças que nos tornam únicos e especiais é que conseguimos integrar as especificidades de cada um como parte importante do todo.

Com interesses diferentes, motivações diferentes, formas de aprender diferentes, necessitamos de estímulos diferentes para avançar nas nossas descobertas, na forma como interpretamos o mundo, os outros e tudo o que nos rodeia. Uns são mais sensoriais, outros mais mentais. Há os que aprendem através da experiência no corpo, outros através da música. Uns aprendem através da lógica e da matemática, outros através dos mistérios da natureza… Se é verdade que não existem duas pessoas iguais, porque continuamos a insistir numa aprendizagem linear, “chapa 4” e homogénea?

Conhecer o que motiva as crianças de hoje em dia, o que as estimula, o que desperta a sua curiosidade ajuda-nos a escolher os melhores caminhos para chegar até cada uma delas. Se percorrer os mesmos caminhos nos leva sempre aos mesmos resultados*, o que nos impede de escolher um percurso alternativo?

No artigo anterior falei na Inteligência Corporal-Cinestésica, explicando que as crianças com este tipo de inteligência precisam movimentar-se, tocar e construir para conseguirem aprender, uma vez que processam o conhecimento através das sensações corporais. Hoje irei descrever a Inteligência Interpessoal e falar da empatia como força motora deste tipo de inteligência.

Inteligência Interpessoal

A Inteligência Interpessoal localiza-se no Lóbulo Frontal, que se encontra na parte da frente do cérebro e que tem grande importância em funções executoras, na flexibilidade mental, na resolução de problemas e é responsável por várias das características que definem a nossa personalidade. É neste lóbulo que acontece o planeamento das ações e dos movimentos, assim como o pensamento abstrato.

A Inteligência Interpessoal caracteriza-se por uma grande capacidade em sentir empatia com os outros, em compreender e interpretar as suas emoções, sentimentos, necessidades, intenções e motivações. É a capacidade de entender as outras pessoas e de trabalhar com elas, de relacionar-se com os outros e de fazer amigos. As pessoas que têm este tipo de inteligência mais desenvolvida são capazes de interagir e de comunicar de forma eficaz, utilizando uma comunicação verbal e não-verbal. Têm uma sensibilidade especial para compreender as expressões faciais, a voz, os gestos e a postura das outras pessoas, assim como uma grande habilidade para lhes responder de forma adequada, sem ideias pré concebidas. Muito empáticas por natureza, estas pessoas têm uma grande capacidade de identificar as qualidades das pessoas, encorajando-as e extraindo o melhor de cada uma delas.

Principais características das crianças que possuem a Inteligência Interpessoal mais desenvolvida:

  • Têm grandes capacidades de liderança;
  • Trabalham melhor em equipa, do que individualmente;
  • São bons comunicadores (comunicação verbal e não-verbal);
  • Bons mediadores de conflitos;
  • Criativos;
  • Gostam de cooperar;
  • Têm muitos amigos;
  • Interpretam bem as situações do dia-a-dia;
  • Preferem atividades em grupo;
  • Relacionam-se bem com os outros;
  • Conseguem “ler” bem os outros (as suas intenções, necessidades, desafios).

Como ajudar estas crianças?

Se for professor e tiver em sala uma ou mais crianças com este tipo de inteligência mais desenvolvida é importante que desenvolva dentro da sala de aula o trabalho cooperativo, em grupo, onde a criatividade e a aprendizagem ativa e divertida tenham espaço.

Estas crianças gostam de ajudar os outros.  

Assim podem ser tutores ou orientadores, ensinando os colegas mais novos ou aqueles com mais dificuldades. Se quiser trabalhar a confiança dos seus alunos fomente o trabalho em equipa: estas crianças têm grandes capacidades de liderança. Conseguem identificar e valorizar as mais-valias de cada colega. Desta forma estará também a fomentar uma auto-estima saudável nos seus alunos.

Muito empáticas e boas comunicadoras, estas crianças são boas a mediar conflitos entre os colegas. Esta capacidade em compreender o outro permite-lhes entender as diferentes posições, realçar os aspectos positivos e os mais desafiantes de cada perspectiva e comunicar de forma eficaz com cada parte envolvida no conflito. Se a sua intenção é ajudar estas crianças, coloque-as como responsáveis pela gestão dos conflitos da sala de aula. Elas irão sentir-se compreendidas, valorizadas e reconhecidas.

Para potenciar a Inteligência Interpessoal nos seus alunos aposte numa aprendizagem ativa, participativa, cooperativa e divertida, baseada em jogos. Aposte nas apresentações de grupo, pesquisas ativas, clubes académicos de discussão de ideias, reuniões sociais e partilhas criativas.

Em casa, pode ajudar as suas crianças a desenvolver este tipo de inteligência incentivando atividades com os restantes membros da família e da comunidade, tais como festas de aniversário, participação nas tarefas domésticas, em grupos juvenis, em trabalho voluntário, em festas da comunidade, grupos de escuteiros, etc.

“Diga-me e esquecerei.
Mostre-me e talvez eu me lembrarei.
Envolva-me e eu então compreenderei”
– Confúcio, 450 A.C  –

Como estimular a inteligência interpessoal em crianças onde este tipo de inteligência não está tão desenvolvido?

  • Fomentar a participação em atividades de grupo, principalmente aquelas que incentivam a cooperação como o desporto e o trabalho voluntário;
  • Incentivar a prática da escuta ativa (escutar para compreender, em vez de escutar para responder);
  • Participar em atividades que possibilitam o contato com outras pessoas como a dança, o teatro, terapia de grupo ou musicoterapia.

Professores, terapeutas, atores, médicos, vendedores e políticos são alguns exemplos de profissões que possuem este tipo de inteligência mais desenvolvida.

Acredito que é importante olhar para estas características com a intenção de potenciar mais-valias, ajudar nos desafios e integrar no todo. Todos somos necessários, todos contribuímos de forma única para a nossa realidade. Ter a capacidade de olhar para um grupo de crianças (e não só…), identificar as suas características fundamentais, e o centro de inteligência predominante (mental, emocional ou físico) ajuda-nos a conectar com cada uma delas em especial e com o grupo em geral.

*Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes
– Albert Einstein –

imagem@storyfox

Não dizemos bom dia a toda a gente?

Esta foi das últimas perguntas que a minha filha de três anos e meio me fez.

Quis saber por que razão mo perguntava, quando era óbvio para mim que a resposta a tal pergunta era um rotundo “sim”.

– Porque quando entramos no autocarro dizes bom dia ao motorista, mas as outras pessoas não.

Olhei-a. Parei e pensei. Revi as últimas viagens que fiz. E ela tinha razão. A maior parte das pessoas passa pelo motorista e segue em direcção ao seu lugar, como se ele não estivesse ali, como se fosse invisível. Eu fui educada de outra maneira e, por isso, cumprimento toda a gente: é uma questão de educação mas também de cortesia. Os motoristas de autocarro estão a fazer o seu trabalho, dão a cara, mas mesmo assim muitas vezes não são vistos. Ou só são vistos quando têm uma condução que aborrece os passageiros. E estou a falar desta profissão como poderia falar de outras, mas a verdade é que a maior parte das pessoas não quer saber.

Imagino como será ter um emprego destes, em que se vê centenas e centenas de pessoas que só falam connosco para pedir um bilhete ou para perguntar se o percurso passa pelo sítio X. Para a minha filha é estranho e fico orgulhosa que assim seja. Cumprimenta os vizinhos no elevador (com mais ou menos vergonha), o segurança do metro, a senhora que se senta ao lado dela durante a viagem, o empregado no restaurante, a menina na caixa do supermercado, o porteiro da escola. Para ela todos são iguais, todos são pessoas, todos merecem ser tratados como tal.

Acho que à medida que vamos crescendo vamos perdendo algumas qualidades. Uma delas é a forma pura como olhamos o mundo. Acrescentamos algum cinismo e muita pressa às nossas rotinas, deixamos de prestar atenção ao que realmente importa, só olhamos para o outro quando faz algo que nos incomoda, deixamos os elogios para amanhã.

Acredito que esta geração tem os dados viciados em muitas coisas, terá dificuldades que nós não sonhamos, outras que eventualmente terão sido criadas por nós, mas sinto também que é uma geração mais “humana”. Que vê o mundo com olhos de ver. Que tem tanta informação que não se cala sem obter uma resposta satisfatória.

Espero sinceramente que as novas gerações sejam capazes de acertar onde errámos, que tenha mais bondade que ambição, seja menos céptica e mais sonhadora, menos dependente e mais audaz. Levante mais os olhos do umbigo, viva mais em comunidade e olhe o outro não como competição mas como alguém a quem pode dar a mão para chegarem, ambos, mais longe.

Já dizia aquela frase “Se queres chegar rápido, vai sozinho. Se queres chegar longe, vai acompanhado”.

E, às vezes, tudo começa com um “bom dia”.

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A cena é habitual nos percursos escola-casa e casa-escola: a minha filha e eu vamos sentadas lado a lado e depois de alguns segundos em silêncio ela pega-me na mão e dá-lhe um beijinho, sem que eu faça ou diga alguma coisa. E depois acrescenta: “gosto de ti”. É uma ternura que me derrete o coração e de quem assiste.

Desta vez estava sentada à nossa frente uma senhora de cerca de 70 anos, que levou a mão ao peito. “A minha filha nunca, nem em adulta, me disse que gostava de mim…”, disse enternecida e algo triste.

Fiquei a pensar no assunto. Será esta geração, a minha, mais expansiva no que toca aos sentimentos? Falaremos mais de amor?

A conclusão a que cheguei é que depende muito das famílias, é certo, mas acredito que sim. Não é preciso recuar muito para perceber que não era habitual esta troca afectiva de palavras em público, havia muito o “não dito”, para o bom e para o mau.

Eu próprio não cresci a dizer aos meus avós que gostava deles, por exemplo. E isso não significava que não gostasse, simplesmente não era suposto dizer-se, falar-se desse sentimento… Ainda há um ano sussurrei ao ouvido do meu avô paterno o quanto gostava dele. Foi a primeira vez e infelizmente não consigo ter a certeza se ele me conseguiu ouvir. Disse-o, eventualmente, tarde demais.

Mas também cresci a acreditar que o amor é muito mais que uma palavra, que é nos gestos e atitudes que ele vive e permanece. Quantas vezes vi um “amo-te” na boca de alguém que o dizia sem o sentir? Nunca o quis para mim e para mim é sagrado: se o sinto, digo-o, mas essa aprendizagem veio com o nascimento da minha filha.

Foi ela que me ensinou a viver o amor desta forma de gritar aos quatro ventos como somos sortudos. E ensino-lhe, através do exemplo, a dizer que gosta de mim dizendo-lhe que gosto dela. Vai sempre dormir depois de ouvir que a amo. Nunca a faço dizer, nunca lhe digo que diga a alguém só para deixar essa pessoa feliz. Ela já percebeu que há um momento para o dizer e pessoas a quem o dirigir. Portanto, se somos bafejados com essa sorte, aproveitemos. Se não somos, nada de ficar tristes, todos amamos as pessoas de formas diferentes e expressamos os nossos sentimentos de formas diferentes.

Deixei de esperar pela altura certa para dizer aos que me são importantes, que o são. Acho que a bolha de amor que se cria ao saber que somos gostados ajuda à nossa auto-estima, por exemplo. Ajuda um dia cinzento a receber alguns raios de sol. Ensina que devemos priorizar o positivo em vez do negativo.

Os dias nem sempre são fáceis, mas se alguém, onde quer que esteja, nos fizer chegar a mensagem de que somos importantes para eles, então há coisas que valem a pena. Mesmo num dia mau.

Por isso, sempre que a minha filha me disse “gosto de ti”, eu responderei de volta “eu é que gosto de ti” e estaremos nesta espiral do eu gosto mais até que nos cansemos e haja beijos nas bochechas e um abraço a selar o acordo: gostamos ambas, como haveríamos de não gostar?

Porque o amor é mesmo o melhor do mundo (então na boca dos nossos filhos, torna-se o paraíso…).

Amem muito. E não deixem para amanhã se o puderem dizer hoje.

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Todos os pais querem dar a melhor educação aos seus filhos. Mas não existem receitas mágicas para criar melhores adultos. Errar é humano e não há pais perfeitos. Nem é possível evitar que, em algumas ocasiões, lhes saia da boca frases menos felizes, que podem ter um impacto negativo no seu desenvolvimento.

Muitas vezes caímos na tentação de dizer frases feitas, algumas até que ouvimos também em crianças. E que, sem nos apercebermos, desmotivam, afectam a autoestima e dificultar a relação pais-filhos. Mas não se martirize. Afinal, quem nunca se deixou vencer pelo cansaço depois de um dia de trabalho? Quem nunca desesperou com as tarefas que ainda o/a esperam em casa ou com “aquela” birra que “parece mesmo de propósito”?

“Somos humanos e é normal que cometamos erros. O importante é saber pedir desculpa, algo que custa a muitos pais. Além disso, se o fazemos, estamos a dar-lhes um grande exemplo”, explicou ao jornal El Mundo María Rueda, uma reputada psicóloga espanhola.

“Não se trata de nos retratarmos, nem tão pouco devemos compensá-los com carinho e palavras bonitas. O que fizeram é errado e devemos explicar-lhes para que aprendam a tomar melhores decisões da próxima vez. Além disso, devem saber que as suas acções têm consequências”, sublinhou ainda. Em suma: é preciso corrigir comportamentos, mas sempre de um ponto de vista construtivo e empático.

Para os especialistas, estas são as frases que qualquer pai deve evitar na comunicação com os filhos:

 1. “Se não fizeres o que te mando, ficas de castigo”

As ameaças utilizam o medo e podem afectar a confiança que as crianças depositam nos pais. Para além disso, “com o nosso exemplo, estamos a ensinar-lhes que para conseguir o que querem é legítimo fazê-lo através da intimidação”, diz Rueda.

2. “Se te portares bem, compro-te…”

Por vezes, os pais utilizam este estilo de comunicação para fazer com as crianças uma espécie de chantagem emocional. Desta forma, corre o risco de que ela não aprenda o porquê de ter que fazer o que lhe pedem, mas sim que o faz para obter um determinado fim.

3. “Não tens vergonha de te portares assim?”

Tal como a expressão anterior, que promove a culpa, esta fomenta a vergonha. Alguns pais impõe a disciplina desta maneira, principalmente diante de outras pessoas, “mas é melhor evitar as críticas que não sejam construtivas ou apenas conseguirá humilhá-los e minar a sua autoestima”, argumenta Rueda.

4. “Fazes o que te mando porque eu digo e pronto!”

Nós, adultos, tendemos a pensar que somos donos da verdade absoluta, se o nosso interlocutor é uma criança. E quando a discussão chega a um ponto em que já estamos cansados de argumentar, recorremos a esta frase para a dar como terminadas. Mas ser imperativo por ser imperativo só vai minar a relação pai-filho se não lhes explica porque devem fazer o que lhes é pedido.

5. “Vais enlouquecer-me!”

“Utilizar a culpa para motivar o seu filho não é o melhor método para mudar o seu comportamento. Além disso, pode gerar impacto negativo na sua relação com eles”, afirma Rueda. “Estamos a transmitir-lhes a ideia de que os nossos problemas são culpa deles, e isso pode gerar uma grande ansiedade“, acrescenta Inma Marín, consultora pedagógica e presidente em Espanha da Associação Internacional pelo Direito das Crianças a Julgar.

6. “Não chores, não é razão para tanto”

“Muitas vezes tendemos a sub-valorizar os sentimentos dos nossos filhos. Podem ter guerreado com um amigo na escola e isso para nós não tem importância, mas para eles tem e não devemos desvalorizar”, considera Marín. “Também é habitual usar a frase com a intenção daquilo que os magoa para que se sintam melhor, mas essa não é a maneira mais adequada de os ajudar. É melhor ajudá-los e consolá-los, para que saibam que quando lhes acontecer algo mau, os pais os entenderão e estarão ali para eles”, prossegue.

7. “Deixa estar que eu faço”

A mensagem que passa quando utiliza esta expressão é clara: “Não vais ser capaz de fazê-lo”. E se os pais acreditam nisso, a criança também acreditará, chegando à seguinte conclusão: “Para que é que me vou esforçar da próxima vez?”.

Ao actuarmos assim, estamos também a impedir que aprendam por si mesmos, tornando-os pessoas dependentes e inseguras.

8. “Não fazes nada bem”…

… ou “não sei quando vais aprender” são outros exemplos de frases pouco construtivas, já que “não valorizam o esforço, mas o resultado obtido”, assegura Marín. A evitar!

9. “Estou farta/o de ti”

Quando usa esta expressão, numa situação limite, não tem certamente a intenção de ferir os sentimentos do seu filho, mas é preciso estar ciente das possíveis consequências de um comentário destes. Pode fazer com que ele acredite que é algo que sente realmente, não só naquele momento mas sempre, e provocar um impacto negativo. “O amor de um pai por um filho é incondicional, e isso é algo que devemos mostrar-lhes a todo o momento”, afirma Marín.

10. “És má/mau”

“É um erro dizer isto a um filho, porque este poderá pensar: ‘Ok, sou assim e não posso fazer nada para mudar’”, explica Rueda. Os especialistas aconselham a ser preciso na hora de lhes explicar o que é que fizeram mal e a censurar as suas acções. “Em vez de lhes dizermos que são maus, é melhor centrar a atenção no que podem mudar para conseguir um resultado mais positivo. É mais construtivo usar outras expressões como: ‘Não gosto quando fazes…’ para explicar-lhes porque é que o seu comportamento não é aceitável e oferecer-lhes alternativas.

11. “És preguiçosa/o e não vais ser ninguém na vida”

As notas escolares são um dos principais focos de conflito entre pais e filhos adolescentes. Os primeiros querem que os segundos percebam que, se não estudarem, não terão um futuro risonho e que se arrependerão das decisões erradas que tomaram. Mas em vez de provocar neles uma reacção positiva, este tipo de frases danificam a relação entre pai e filho, provocando nos jovens uma sensação de frustração e desinteresse.

12. “Aprende com o teu irmão”

Cuidado com as comparações! É muito fácil cair nelas quando se tem mais do que um filho. Mas há que ter cuidado, porque “geram rivalidades na família e são muito prejudiciais a longo prazo”, alerta Rueda. A criança verá o irmão como modelo que nunca conseguirá alcançar e isso afectará a sua autoestima, por considerar que os pais gostariam que fosse diferente.

A criança e o corpo humano

Uma criança considera o seu corpo como sendo igual ao de outras pessoas, e parte, portanto do princípio de que todas as outras crianças têm um corpo como o seu. A mãe e o pai são considerados da mesma maneira, são eles mesmos, e a criança não vê qualquer semelhança entre os corpos grandes e peludos e o seu próprio corpo, pequeno e macio.

As primeiras perguntas aparecem normalmente quando a criança repara numa outra criança, do seu sexo oposto, despida. “O que é aquilo?”. Perguntará então, e tudo o que ele quer é que lhe digam o nome (vagina) e talvez o nome correspondente para aquilo que ele próprio tem (pénis).

Não há motivo nenhum para que este assunto seja abordado com uma excessiva carga de embaraço ou atrapalhação por parte dos pais. Procure, portanto, aceitá-lo com calma e concentrar-se de modo a conseguir dar ao seu filho uma informação simples e precisa que responda exatamente à pergunta específica que ele lhe fez. É evidente que não terá de «pôr todo o assunto a nu», contando-lhe tudo, até aos mais pequenos pormenores.

É preferível deixar que a criança vá fazendo as perguntas sobre as partes que ainda não compreende à medida que ela própria sente que há ainda  mais qualquer coisa por explicar. Não será, senão por volta dos cinco, seis ou sete anos que o seu filho lhe fará a tal pergunta crucial: “Como é que o pai põe a semente na mamã?” Ao fim de anos de respostas curtas, mas sempre específicas, verá que lhe é perfeitamente fácil de responder.

Se deixar que se forme uma atmosfera estranhamente «especial» de cada vez que o seu filho lhe dirige uma pergunta qualquer respeitante ao sexo, acabará por se ver arrastada para uma pura farsa.

Cada família a sua educação

Algumas famílias acham que é preferível permitir que os filhos vejam o pai e a mãe nus para que possam ter a possibilidade de ver a diferença entre os sexos quando adultos. Outros pais acham que é preferível exatamente o contrário, isto é, não permitir que os filhos os vejam despidos. No que diz respeito ao sexo e às crianças pequenas, provavelmente a melhor atitude é não fazer da questão um problema de grandes proporções. Não interessa saber se a criança vê ou não os pais nus, desde que a atmosfera seja simples, descontraída e perfeitamente normal. Uma timidez exagerada que a leva a soltar um grito e a agarrar apressadamente numa toalha de cada vez que o seu filho entra inesperadamente na casa de banho só fará com que a criança se admire e pergunte a si mesma por que motivo a mãe terá ficado embaraçada.

Da mesma maneira, uma «passagem de modelos nus» cuidadosamente preparada irá, muito possivelmente, deixar a própria criança embaraçada, porque não saberá como é que os pais querem que ela reaja.

Portanto, comporte-se como sempre se comportou e não procure ser deliberadamente «antiquada» ou conscientemente «moderna».

 

Paula Norte, psicóloga na Psicomindcare para Up to Kids

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