Sempre tive pouca opinião no que diz respeito à palmada.

Acredito que todos nós uma vez na vida daremos uma.

Acredito também que é como os presentes. Custa muito mais a quem dá, e depois de oferecida não há como retirar.

A palmada é por si só o descontrolo de quem deu. Porque não conseguiu gerir a zanga que sentia. Muito mais do que o pouco controlo de quem a recebeu afinal “Estava mesmo, mesmo a pedi-las.”

Muitas vezes serve para sossegar o coração de quem a dá – apenas num primeiro momento – e sentir que resolveu o problema ou a insubordinação; no fundo, fez algo a respeito.

Fugir à palmada pode ser visto como uma “moda” das novas formas e modelos de parentalidade. Afinal de contas, também todos nós já levamos uma na vida. “E nem nos fez mal nenhum!…”

Estava mesmo a pedi-las”

 Mas será que se nos zangarmos com o marido, porque ele foi mesmo mesmo inconsequente e “estava mesmo a pedi-las” sai palmada? Porque razão deve ser diferente com as crianças?

Porque nos  compete educá-las?

E “a palmada no momento certo” não faz mal a ninguém?

Mmmm…Creio que a palavra certa no momento certo também não fará mal a ninguém.

Enquanto mãe preocupa-me mais que a palmada mostre à minha filha que é desta forma que se resolvem os problemas. Porque educamos muito mais com o que mostramos do que com o que dizemos ou repetimos.

Acredito  que talvez um dia também eu dê uma palmada por não conseguir gerir a zanga que sinto. No entanto, como acredito que a palavra certa no momento certo funciona tanto como a palmada que terei dado, pedirei desculpa à minha filha e certifico-me de que entende que não é essa a forma de resolver os conflitos.

Por isso em relação à palmada, a minha resposta será sempre um “Nim”. Porque podemos fazer diferente, explorar outros caminhos. É difícil. Mas o que é a parentalidade se não um desafio constante?

Porque depois de dada, a palmada, irá doer para sempre muito mais no coração de quem a deu!

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Bater num adulto é agressão, num animal é crueldade, numa criança é educação

Ser pai e ser filho, dois desafios tão diferentes

“Aos pais se pede tanto, e se lhes dá tão pouco.

Se estas palavras da psicoterapeuta familiar Virginia Satir eram verdadeiras na década de 80, continuam tão ou mais válidas nos dias de hoje.

Aos pais pede-se­ corpo e alma na educação dos filhos, mesmo quando o corpo se desdobra e dá de si e a alma, essa essência de estar vivo, é estar vivo para os filhos e pouco mais. Do lado dos filhos, um dos grandes desafios é o aprender formas saudáveis de socializar. De estar em relação com os outros, na existência de regras e limites e, em simultâneo, afeto.

Uma coisa é certa: existem tantas formas de se ser mãe ou pai, quanto de se ser filho ou filha. Não existe apenas uma correta, mas existem formas de relação positivas entre pais e filhos que promovem um crescimento individual e relacional, outras não tão positivas e que acabam por trazer mais preocupações, mais dificuldades na gestão dos comportamentos e do reconhecimento da autoridade dos pais. A autoridade, reconhecida e não imposta, tem sido um dos desafios com os quais muitos pais lidam. Também eles trazem modelos das gerações anteriores, uns mais bem-sucedidos do que outros.

A questão mantém­-se: é possível mostrar aos filhos os limites e regras com que se vive as relações humanas sem, no entanto, recorrer à punição física?

O que sabemos sobre os efeitos da Punição Física na criança e nos pais?

“Os meus pais também me bateram quando era pequeno, e no entanto tanto eu como os meus irmãos crescemos sem problemas nenhuns”.

Este é um argumento comum que justifica, para muitos pais, bater nos filhos, com maior ou menor frequência. No entanto, bater não está associado a melhorias no comportamento ao longo do tempo. Não só coloca os pais num nível de adrenalina e stress elevado. Também transmite à criança a ideia de que o corpo não é seu, é propriedade dos pais, não podendo ser negociada a forma como querem ser tratadas.

Estudos indicam que em adultos punidos fisicamente durante a infância, a probabilidade de valorizarem positivamente um comportamento violento aumenta, seja contra o filho ou contra o atual parceiro (Gershoff & Grogan-Kaylor, 2016).

“Nem doeu!” ­ Uma rápida escalada, não só de violência…mas de culpa

Um dos grandes problemas da punição corporal é a facilidade com que os limites definidos pelo próprio educador são ultrapassados, sem que este sequer se aperceba. É muito frequente, nos pais com quem se trabalham estes temas, eles próprios estarem dessensibilizados para o grau de violência que utilizam. Tal acontece porque se forma um ciclo em torno do comportamento da criança e da resposta que é dada por parte do adulto.

A punição corporal leva frequentemente a que o comportamento desadequado se mantenha ou até aumente. Isto resulta num aumento da frequência do castigo corporal, levando a mais situações de comportamento desadequado.

Palmada vs alteração de comportamento

A mãe repreende o filho por correr na loja em que fazem compras. O filho não presta atenção e continua. A mãe, frustrada, dá uma palmada ao filho. Este não aprendeu necessariamente porque é que correr na loja é mau. Apenas sabe que não gosta de levar uma palmada. O comportamento vai manter-­se, se não em loja, noutros contextos. A mãe utiliza a palmada e, vendo que o comportamento continua, pode aumentar a frequência e/ou intensidade da punição até obter os resultados desejados. O comportamento do filho, no entanto, piora. É um ciclo em que violência gera violência. Mais importante, e talvez menos abordado nestes termos, o ciclo amplia as desvantagens para pais e filhos.

Os pais, cada vez menos eficazes em controlar o comportamento da criança, desenvolvem com frequência sentimentos de culpa, por não se sentirem capazes de educar os filhos sem bater. Por parte da criança, com a frequência do castigo corporal, desenvolve uma imagem negativa de si enquanto filho. Vê-se como o “mau filho” ou “o filho desobediente”, com um impacto negativo na sua auto­estima e personalidade.

No final, cada palmada ou bofetada confirma aos pais o fraco controlo e ineficácia da sua parentalidade. À criança é confirmado o fraco controlo sobre o seu próprio corpo, que pode ser invadido a qualquer altura, bem como o comportamento desadequado passa a fazer parte da imagem que têm de si mesmas.

A investigação com crianças e pais

Uma das mais importantes revisões de literatura neste campo publicada este ano, registou dados sobre punição corporal em cerca de 160,000 crianças (Gershoff & Grogan­Kaylor, 2016).

Desta revisão concluiu­-se que:

  • a punição corporal está associada a um maior risco de comportamentos agressivos e antissociais.
  • mais problemas de saúde mental.
  • e uma relação pais-filhos mais negativa.

Este é um resultado explicado, em grande parte, pelo facto de os pais serem os principais responsáveis por ensinar aos filhos formas de se relacionar com os outros (e.g., Maccoby, 1992).

Talvez o resultado mais importante desta revisão tenha sido o de que, mesmo quando removidas as formas de punição mais severas e o abuso físico, deixando apenas a punição corporal nos seus moldes mais simples (palmadas nas nádegas, por exemplo), esta se revela associada a resultados negativos para as crianças. Ou seja, mesmo a palmada, pode ter efeitos negativos no desenvolvimento saudável da criança.

Porque é que bater persiste?

Nas palavras da Doutora Maria Amélia Azevedo, coordenadora do Laboratório de Estudos da Criança (LACRI):

“Bater num adulto é agressão, num animal é crueldade, como você pode dizer que bater numa criança é educação?”.

O castigo físico persiste, por ter resultados aparentemente imediatos (cessa o comportamento da criança) e por ser fácil de aplicar. No entanto, punições corporais não oferecem à criança oportunidade de refletir sobre as suas ações. Nem ensinam a distinção entre o certo e o errado, levando-­a a agir (ou não) apenas por medo da punição. A investigação demonstra que apesar de conduzir a uma obediência imediata, existe um decréscimo na obediência a longo prazo (Gershoff, 2002).

Só a convivência e o tempo investido pelos pais no diálogo possibilita uma base afetiva em que os filhos reconhecem nos pais alguém que se preocupa, que ouve e, mais importante, um modelo a seguir. Isto é importante pois ao longo do desenvolvimento do seu filho, ele precisa de aprender a decidir e a regular o seu próprio comportamento.

Quais são as possíveis alternativas à punição corporal?

Aqui ficam algumas sugestões para pais, mães, ou responsáveis pela educação e desenvolvimento de uma criança:

– Utilize o diálogo sempre que possível.

Falar com uma criança sobre que comportamentos são aceitáveis e quais não são tem, de longe, muitos mais benefícios do que a punição corporal. Garanta que lhe explica o porquê de um comportamento ser desadequado ou perigoso. Ao fazê-­lo está também a transmitir-­lhe uma mensagem importante: o diálogo é uma ferramenta crucial para resolução de problemas, ao contrário da violência, que cria distância entre as pessoas.

– Crie oportunidades educativas.

A existência de diálogo não invalida que se sigam outros métodos de disciplina eficazes. Se tiver de disciplinar, procure castigos não físicos e crie, se possível, oportunidades educativas. Por exemplo, dar ao seu filho tarefas domésticas extra ou colocá-­lo a arranjar algo que tenha quebrado.

Talvez uma das técnicas mais utilizadas e familiar aos pais seja o retiro de benefícios (não jogar durante uma semana). Não há nada de errado com esta forma de disciplina. Os resultados podem ser melhores se a aplicação for ponderada e firme. Se proibiu o seu filho de utilizar o computador durante uma semana, já terá pensado sobre quão adequada é a duração do castigo. É recomendado que o mesmo seja cumprido nos moldes por si definidos.

– Utilize consequências como uma forma eficaz de disciplina.

Tal como os adultos, as crianças aprendem com base no que experienciam. As consequências das suas decisões, quando vividas, possibilitam oportunidades de aprendizagem únicas para o desenvolvimento de responsabilidade. Tal exige que os pais permitam aos filhos experimentar as consequências naturais destas decisões (ex. Se não comes o que tens no prato, eventualmente ficarás com fome; se estragaste os teus brinquedos/computador, não poderás divertir­-te com eles).

Em várias ocasiões os pais protegem os filhos, no entanto algumas formas de proteção podem privá-­los de oportunidades para serem responsáveis e aprenderem que as suas ações têm consequências. Ao deixá-lo experienciar as consequências das suas ações está a dizer-­lhe que é capaz de tomar as suas próprias decisões.

Não deve utilizar este método de disciplina se colocar em risco a saúde ou segurança da criança.

Cabe­-lhe a si decidir que consequências naturais dos atos do seu filho serão uma boa oportunidade de aprendizagem. A chave é manter­-se calmo e não se envolver demasiado, deixe que o seu filho experiencie as consequências que decorrem naturalmente dos seus comportamentos. Por fim, seja paciente pois nem sempre os resultados são imediatos, mas quando surgem são duradouros!

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Pais violentos deixam marcas para toda a vida

A nossa vida social começa na infância, na companhia dos irmãos e dos pais, mas é o exemplo dos pais que definirá o nosso futuro. Por esse motivo, quando os pais são violentos definem padrões e condutas que irão nos afetar para toda a vida.

Considera-se um pai violento?
Sabe como identificar um?

Definir a violência

Geralmente associamos o termo “violência” com a agressividade física, no entanto, não devemos esquecer-nos da violência psicológica. A violência psicológica manifesta-se através de palavras que ferem moralmente, atitudes que procuram menosprezar os outros, e através da indiferença. Todas estas atitudes acabam por ferir os nossos filhos, quer seja de forma consciente, ou não.

Por que são os pais violentos com os filhos?

As razões para estes comportamentos são várias, e muito particulares em cada caso, mas as mais comuns são:

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A maioria dos pais querem o melhor para seus filhos. Mas, quando se trata de disciplina, alguns equivocamente usam a força física para punir ou intimidar. Sejamos honestos: nada justifica bater e magoar desnecessariamente as crianças e nem sequer é aceitável.

O governo australiano ratificou a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança (1989). Ou seja, a Austrália coloca as crianças como pessoas com direitos. Chegou a vez do governo Australiano juntar-se outros 33 países “esclarecidos” do mundo, e banir o castigo físico de crianças em todas as suas formas.

A proibição bem sucedida na punição física das crianças deve ser acompanhada de uma campanha de sensibilização para apoiar e educar os pais que batem nos filhos a mudar a atitude ultrapassada da “palmada”.

Os malefícios do castigo físico

O castigo físico, mesmo quando é chamado de “disciplina” ou “palmadas”, pode causar danos a curto e longo prazo nas crianças. Hoje em dia sabemos, com base em investigações rigorosas, que a punição física e a adoção de comportamentos agressivos e violentos está directamente relacionada com alterações comportamentais e de saúde mental das crianças.

Sabemos também, intuitivamente, que bater e ferir pessoas desnecessariamente afeta o relacionamento social e a autoconfiança de um indivíduo. As nossas crianças são os adultos do futuro. A forma como tratamos os nossos filhos agora, irá afetar a sua saúde, autoestima e noção de bem-estar futuramente.

Mudar o comportamento

A Austrália tem estado na vanguarda de muitas reformas da saúde e segurança pública, tais como o uso dos cintos de segurança nos carros, o controlo do tabagismo e uso de preservativo, mas falta dar um safanão no que toca à punição física.

Mas o que fazer para que os pais mudem o seu comportamento – ou seja, parar de dar “palmadas” nos filhos?

Campanhas recentes e alternativas, tais como o grande sucesso animado educativo “Maneiras idiotas de morrer”, é um bom exemplo de como uma campanha de sensibilização pode ajudar a mudar mentalidades, atitudes ultrapassadas e comportamentos de risco. Neste caso, o vídeo promove a segurança ferroviária para os jovens através de anúncios em jornais, rádio, outdoors, redes sociais, etc. A campanha visa “envolver um público que não quer ouvir qualquer tipo de mensagem de segurança”.

Uma campanha de educação deste género, com apoios e incentivos para encorajar os pais a adotar métodos disciplinares positivos, poderia ser o suficiente para mudar comportamentos de risco na educação infantil.

Esta campanha poderia ser tanto contundente quanto inspiradora; retratando os impactos imediatos e possíveis do castigo físico através de palavras e imagens. Fornecer informações importantes sobre o desenvolvimento da infância e maneiras positivas de interagir e estabelecer limites razoáveis ​​para as crianças poderia ser um caminho.

Na Suécia, os castigos corporais e outras formas de tratamento humilhante a crianças foram proibidos em 1979, e foram distribuídos flyers informativos a todas as famílias e colocada a informação relevante nos pacotes de leite incentivando o diálogo entre pais e filhos.
Conclusão? A maior parte das famílias suecas praticam disciplina positiva, sem violência. As crianças são respeitadas, e os pais são valorizados e apoiados no seu importante papel como modelos para os seus filhos.

Alterar a lei

Alguns adultos responsáveis ​​irão voluntariamente modificar as suas atitudes e comportamentos à luz da evidência que os motiva. Mas a mudança comportamental, por vezes, só ocorre em resposta a legislação ou reforma da mesma.

Criar legislação pertinente em cada um dos estados e territórios da Austrália pode ser um caminho para remover explicitamente a “correção legal” e enviar uma mensagem clara aos pais de que o castigo físico já não é uma forma justificável de disciplina ou controle das crianças. As crianças terão a mesma proteção contra a agressão que os adultos.

Esta lei, exceptuando trivialidades, pretende proteger contra a criminalização dos pais que, ocasionalmente, dão uma palmada nos filhos, mas a punição física será fortemente desencorajada.

Dar voz às crianças

Bater e desnecessariamente e magoar as crianças degrada-as. Foi-lhes dada a oportunidade de comentar sobre a punição física, e as crianças dizem que dói fisicamente e emocionalmente.

Ao mesmo tempo, as crianças simpatizam com os pais que estão cansados ​​e stressados e que perdem o controle. Aceitam, mas questionam  a crença dos pais de que bater-lhes ensina-lhes lições positivas.

Muitos pais têm manifestado arrependimento por terem batido nos seus filhos – eles preferiam ter apicado meios alternativos de disciplina que não se transformam em raiva, lágrimas e ressentimento. Em casos extremos, o arrependimento dos pais é inútil, quando seus filhos ficam gravemente feridos – e alguns terminam com a morte da criança – porque um ensinamento não correu bem.

Recolhemos alguns comentários das crianças sobre o assunto que se revelaram muito esclarecedores. “Como os adultos são mais velhos, eles pensam que sabem mais coisas, mas às vezes não… Às vezes eles estão enganados” – 8 anos. Outra criança sugeriu que os adultos não “têm que bater, porque têm opção de escolha”.

Incentivar as crianças a falar sobre estas questões e ouvir o que têm a dizer, deve levar-nos a questionar as nossas perspectivas. Podemos até aceitar o que disse uma criança de 12 anos: “Não se devia bater nas crianças porque há uma maneira melhor…do que magoar alguém”

O castigo físico de crianças continuará a ser tolerado até que adultos esclarecidos reconheçam que as crianças não são menos dignas que os adultos.

As crianças têm direitos humanos relativamente à dignidade e ao respeito iguais aos de qualquer adulto, e merecem, no mínimo proteção igual ou até maior à agressão.

 

Em MedicalExpress, traduzido e adaptado por Up To Kids®, Todos os direitos reservados

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No meio das pressões e preocupações diárias de “adulto” com a saúde, a economia, o trabalho, com o parceiro, com as consultas para quais estás atrasado, com as coisas que te esqueceste de fazer, com aquelas emergências que têm que ser feitas “ontem”,… aparece de repente o teu filho.

Perdeu um sapato, não quer vestir aquele casaco, quer outro, precisa de um caderno novo para a escola hoje e só se lembrou antes de sair de casa, briga com o mais novo por causa de um brinquedo ou simplesmente não quer fazer o que lhe pedes. Esta intromissão “inoportuna” na tua lista interminável de afazeres salta para a frente do teu carro na autoestrada do pensamento, enquanto ias a 200 à hora. E aí, acontece o inevitável: perdes o controlo.

Sabes perfeitamente que, num estado de calma em que tudo está a decorrer sem imprevistos, consegues lidar com qualquer desafio parental. Umas vezes com mais humor, outras vezes com mais seriedade, mas consegues responder com respeito, falar calmamente, explicar, ensinar e até brincar. Mas quando acontece esta quebra inesperada no filme que se desenrola na tua cabeça (“Tenho que fazer aquilo e depois aquilo e ainda estou atrasado para …”), desnorteia-te e sentes-te como que no direito de estar zangado. “Como é que o meu filho pode ser tão irresponsável/ despreocupado/mal agradecido? Não percebe que estou tão ocupado(a) a fazer coisas para ele??”

A verdade é que, por muito grave que consideras o seu comportamento, esse não é a causa do teu pensamento e da tua resposta irritada.

O que acontece por trás da tua resposta é um processo muito mais complexo e profundo.

O mecanismo automático da reação
Os teus sensores recebem o sinal (“Perdeu o sapato!”), captam a mensagem e transmitem-na ao cérebro. O cérebro reconhece o padrão e encaminha o pensamento (“Outra vez!” Vou chegar atrasada(o)!”), que desencadeia outros pensamentos semelhantes (“Estou a falhar nas minha tarefas!” ou “Falhei como mãe/pai!” que trazem o Medo ou a Culpa. E o cérebro decide defender-se dando o comando: “Reage. Luta. Defende-te”).

Este encadeamento de pensamentos é instantâneo e acontece de forma automática. E, num segundo, o teu carrinhosolta-se numa montanha russa das emoções, provocando um turbilhão interior para onde és sugado de repente. É tão rápido, que nem tens tempo de conscientizar ou pará-lo. Bum! Já foste!

E lanças-te enfurecido a atacar a quem percepcionas como tendo sido os causadores desta viagem desenfreada – os teus filhos.

No entanto… embora pode ter sido o comportamento dele que parece ter iniciado este processo, não é ele a verdadeira causa da tua reação. Qualquer questão que te leva a reagir desta forma vem de dentro de ti e muitas vezes tem raízes profundas, que vão até à tua própria infância.

A verdadeira causa da tua reação
Os pais têm frequentemente a sensação que os filhos parecem saber perfeitamente quais são os seus pontos fracos. Os psicanalistas chamam este fenómeno de “fantasmas do berçário” (Selma Freiberg) – os filhos conseguem despertar nos pais conexões cerebrais e emoções intensas, de eventos e acontecimentos que foram gravados nas suas mentes quando eles próprios eram crianças.

As emoções mais fortes que sentiste em criança, criaram ligações tão profundas, “caminhos” tão marcantes no teu cérebro, que quando foram usados muitas vezes, tornaram-se “avenidas” principais. Sempre que sentes estas emoções, estes caminhos são novamente ativados.

Quando o cérebro recebe um determinado “sinal” – encaminha-o automaticamente pelo caminho mais batido, pelas avenidas mais antigas e mais marcantes que existem no teu cérebro. E na sua passagem, o impulso elétrico criado arrasta com ele outros impulsos habituais… encadeando uma rede específica de pensamentos conexos – outras conexões/caminhos pré-existentes que foram criados juntos. E torna-se tudo numa espécie de bola de neve que vai crescendo, crescendo e ganhando mais velocidade à medida que percorre a larga avenida. Até culminar com a decisão final: Luta ou Foge.

Os medos, a culpa e outras emoções semelhantes sentidas com frequência na infância, deixam marcas tão profundas e poderosas no nosso sistema, que muitas vezes dominam-nos inconscientemente em adultos. A resposta que damos perante estes sentimentos, depende das “avenidas” e dos caminhos conexos que foram marcados no nosso cérebro.

Compreender este mecanismo e o seu funcionamento, assim como refletir e escolher alternativas mais responsáveis de reação é a nossa responsabildiade. Porque, a nossa forma de (re)agir nestes momentos tem um impacto a longo prazo nos nossos próprios filhos.

Agir ou REagir
Há uma diferença entre agir e REagir. Reagir – quando respondes a um comportamento de outra pessoa, em vez de decidires por ti próprio como deves agir. Ou seja, reagir (agir novamente, da mesma forma) é algo que acontece de forma instintiva, muitas vezes involuntária e inconsciente. Agir, pelo outro lado, é quando tomas as rédeas e decides como queres que aquela situação se desenrole.

Se percepcionas o teu filho como alguém que te provoca e irrita constantemente, então ele torna-se o teu “inimigo”. Tudo que ele faz provoca-te e cada vez que faz alguma coisa vais percepciona-la como sendo negativa, ameaçadora, embora pode não a ser verdadeiramente. E isto vai despoletar uma ação ou uma reação da tua parte. A decisão de agir ou reagir pertence-te a ti e só a ti.

Sem a tua intervenção consciente, o cérebro irá escolher o caminho mais rápido para reagir. Quando existe um caminho já traçado para lidar com este sentimento e este caminho é “reagir através de uma resposta enfurecida” (porque viste isto ou aprendeste pela experiência desde cedo na tua vida), então o cérebro escolha esta via rápida para responder automaticamente.

Embora, conscientemente, saibas que não é no teu melhor interesse, nem no do teu filho. Reagir é uma resposta automática, que segue caminhos pré-existentes, e que apenas tu a podes influenciar.

O que acontece no teu filho quando reages automaticamente a gritar ou bater?
Imagina o teu parceiro a perder a cabeça e gritar contigo. Agora imagina que é três vezes maior que tu, inclinado de forma ameaçadora por cima da tua cabeça. Imagina que estás completamente dependente desta pessoa para sobreviveres – receber comida, abrigo, segurança, proteção, afeto, preparação para a vida. Agora pega neste sentimento e multiplica-o por 1000. Isto dá-te mais ou menos a ideia do que se passa na cabeça e no coração do teu filho quando te zangas com ele

Claro que por vezes pode acontecer algo que despoleta em nós sentimentos há muito guardados e vamos sentir que estamos a fervilhar. Mas é da nossa responsabilidade controlar a expressão desta fúria interior e agir de forma equilibrada e respeitadora, minimizando assim um eventual impacto negativo.

Chamar nomes, gritar ou outras formas de agressão verbal em que os pais falam de forma desrespeitadora com os filhos, tem um custo pessoal acrescido, uma vez que a criança é dependente dos pais na sua própria existência. E, está comprovado, que as crianças que sofrem de violência física, incluindo palmadas,  sentem efeitos negativos que afetam todos os cantos das suas vidas, mesmo que inconscientemente.

Se o teu filho pequeno não parece ter medo da tua raiva, é sinal que já viu/sentiu demais e tem desenvolvido defesas para ela – e para ti. O resultado incontornável destes factos é uma criança que não vai quer fazer nada que te agrade e vai estar muito mais suscetível às influências dos amigos. Isto significa que terás muito trabalho de reparação a fazer.

Quer demonstrem quer não a raiva dos adultos é assustadora para as crianças. (e quanto mais nos zangamos mais as crianças se defendem criando os seus próprios padrões de reação que irão usar mais tarde)

Como agir?
Decidir agir (em vez de apenas reagir) é a melhor forma de lidar com as tuas reações automáticas.

Tomar esta decisão implica estares ciente da sua necessidade e dos seus benefícios. Implica decidir que queres fazer diferente. Esta decisão é o teu primeiro passo. E deve ser um compromisso contigo mesmo.

  1. Torna-te consciente da forma como reages, do mecanismo que está por detrás da tua reação, da tua reação despoletada, dos eventos que te provocam e puxam os teus gatilhos.
  2. Compreende a tua raiva sempre que ela aparece, em vez de te deixares controlado por ela. Qual é a sua causa interna? O motivo que a causa é algo mesmo muito importante para ti? Ou é algo que talvez, mais tarde, já não fará sentido? Existem alternativas? Como podes prevenir estes momentos?
  3. Estabelece alternativas para lidar com as emoções negativas ANTES de elas acontecerem. Pensa na forma como gostarias de reagir quando sentes algo negativo. É mesmo necessário zangares-te? O que podes fazer para agir da forma como queres?
  4. Escreve uma lista de formas aceitáveis para lidares com a tua raiva. Podes incluir ações como: respirar fundo várias vezes, fechar os olhos e pensar em algo agradável, afastares-te para acalmar, relaxar, ignorar o assunto por uns tempos, meditar etc.
  5. ESPERA E PENSA antes de agir. Nunca tomes decisões com base na tua raiva. Quando estás num estado alterado, as decisões tomadas raramente serão sensatas e terás que voltar atrás mais tarde. Espera pelos momentos mais calmos antes de decidir.
  6. Lembra-te que “expressar” a raiva dá-lhe mais força ainda. Quando falas de forma zangada sobre o que te incomoda por mais tempo que necessário, multiplicas a energia negativa e continuas a alimentar o teu corpo com ela.
  7. Considera que fazes parte do problema e também da solução – quando algo que acontece provoca uma explosão dentro de ti, liberta uma emoção e o corpo reage. Não é o evento que causa a tua emoção, ela já lá estava. Pensa como podes alterar este encadeamento, para que os eventos externos deixam de te controlar e ditar as tuas reações. Torna-te parte da solução, agindo em vez de reagir.
  8. Se mesmo assim continuas a não conseguir controlar a tua raiva, procura apoio mais especializado, para o teu bem e o dos teus filhos.

Encontrares formas positivas para lidar com a tua raiva é um dos melhores presentes que podes dar aos teus filhos: em vez de os magoares, vais oferecer-lhes um modelo a seguir. A tua forma mais responsável e calma de lidar com aquelas situações vai ensina-los que também o podem fazer, quebrando este ciclo.

O que é que queres ensinar: Queres ensinar-lhes que a força faz a lei? Que os adultos lidam como conflito gritando ou batendo? Ou queres ensinar-lhes que a raiva faz parte do ser humano e que aprender a geri-la de forma responsável faz parte do processo de crescer e amadurecer?

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