Acredito que, no fundo, todos os pais dignos dessa designação amam os seus filhos.

Alguns serão melhores que outros nesta tarefa hercúlea de educar, nutrir e encaminhar uma criança, assim como outros serão melhor nas demonstrações de afecto.

Tenho vindo a testemunhar, quer no parque, quer nas escolas, quer nos transportes, onde consigo ser testemunha involuntária, que muitos pais têm a dificuldade de transmitir amor.

Falam, chamam à atenção, encaminham e orientam mas muitas vezes falta-lhes tacto. Falta-lhes carinho. Falta-lhes ter a correspondência do que dizem na forma como o dizem. Tantas vezes oiço pais chamarem nomes carinhosos como se chamassem o táxi, palavras vãs não de sentido mas de emoção.

Ao escrever estas linhas penso naquela geração que cresceu habituada a dizer “amo-te” como se fosse pontuação de uma frase. O amor, essa coisa tão complexa e impossível de descrever, passou a estar na boca do mundo mas de amor tinha pouco. Há muitas pessoas que cresceram a ouvir que eram amadas sem nunca o terem sido.

Daí talvez esta passagem de testemunho, em que as crianças poderão recordar uma infância em que as expressões carinhosas não são tabu e estavam muito presentes, mas no fundo fica um vazio.

E um vazio num ser humano em crescimento dá espaço a ser preenchido por bem ou por mal.

Não sou profissional e a minha observação é de mãe, muitas vezes eu própria falharei na arte de transmitir amor, principalmente quando estou exasperada a ralhar, em que a paciência já ultrapassou os seus limites e há só a vontade que o choro cesse, porque a pedagogia está a perder a batalha.

Não sou perfeita e sei que todos amamos de forma diferente. Recebemos, percepcionamos, transmitimos esta coisa do amor como sabemos e podemos, como conseguimos. Muitas vezes é uma herança, de outras uma descoberta.

Gostaria de, no futuro, ver mais amor nos olhos dos pais do que nas suas bocas: ou pelo menos que estivesse tudo ao mesmo nível. É um bocadinho como a humildade, de pouco adianta uma pessoa apresentar-se dizendo que é muito humilde, essa humildade já se perdeu algures no caminho.

Amo a minha filha como posso.

Digo-lhe que a amo e tento que este amor esteja presente nas nossas brincadeiras, nas nossas rotinas e até nas nossas zangas.

Porque isto de ser pai ou mãe (biológico ou não) não pode ser dissociado de amar.

O amor pode salvar uma criança de um futuro mais negro.

O amor pode tudo.

Amemos mais.

Demonstremos mais.

Sejamos todos melhores.

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Desculpa filho, não foste planeado

Já estava doente há duas semanas. Todos os dias tinha diarreia. Hipocondríaca como sou, sabia que estava à beira da morte, só era preciso descobrir qual a doença que me iria matar. Farta de estar à espera, numa segunda-feira de manhã, depois de chegar ao trabalho e de me sentir cada vez mais fraca, fui às urgências do Hospital da Luz.

Fui atendida por uma médica que, entre várias perguntas, quis saber se eu poderia estar grávida. Respondi logo que não, acho até que gritei. Nem pensar, eu tomava a pílula. Notei-lhe um ligeiro ar de gozo. Imagino que já tivesse ouvido a mesma resposta centenas de vezes. Fiquei irritadíssima, não sou uma adolescente, caraças, eu sei o que é o planeamento familiar, tomo a pílula desde que me conheço mulher.

A minha indignação não durou as três horas que esperei pelos resultados das análises que a médica me tinha mandado fazer. Quando me recebeu no gabinete com um sorriso de orelha a orelha, já eu tinha esquecido a pergunta que me tinha feito. Mas ela não. Como não tinha ficado convencida da minha certeza absoluta e como poderia ser preciso fazer mais exames, entre as várias análises que pediu, estava um teste de gravidez.

– Parabéns, está grávida!

Raio da médica, eu estive três horas na sala de espera a ler revistas cor-de-rosa e ela esteve três horas nos copos.

Eu tomava a pílula, que parte é que ela não percebeu? Ela insistiu que o resultado era aquele e eu insisti que não podia ser. Farta de mim, ligou para a obstetrícia para confirmar se o que ela estava a ver era mesmo o que ela estava a ver, disseram-lhe que sim, ela deu-me as análises e, novamente com aquele ar de gozo, mandou-me ir à obstetrícia que já estavam à minha espera.

Enquanto eu pensava se devia ir ou fugir daquele manicómio, uma assistente segurou-me o braço e, com um sorriso típico dos hospitais privados, levou-me à obstetrícia.

Lá se tinha ido a minha hipótese de fuga.

Na obstetrícia, para não restarem dúvidas, fizeram-me uma ecografia e lá estava a confirmação: um saquinho bem redondinho dentro do meu útero. A minha cara de felicidade devia ser tão evidente que a médica me disse para ter calma, que ainda estava no início e que a decisão de continuar com a gravidez seria minha.

Eu estava calmíssima, ou pelo menos fingi bem o suficiente para me deixarem sair do hospital rapidamente.

A primeira coisa que fiz foi ligar para o meu marido. Pouco tempo antes tínhamos falado sobre ter mais filhos e ambos concluímos que dificilmente isso iria acontecer. Gostávamos de dar mais um irmão à nossa filha, (ela já tinha o mano mais velho, o meu enteado), mas ter filhos é caro, a mensalidade da creche, as fraldas, as vacinas, o pediatra, a renda da casa, a pensão de alimentos, bla, bla, bla, bla. Tomem lá e embrulhem.

O meu estado de espírito era o de quem estava a comunicar uma fatalidade, um olha não sei como é que isto aconteceu, desculpa lá qualquer coisinha e o meu marido do outro lado a rir, genuinamente feliz, que venha com saúde, disse ele. Também esteve a beber com a médica, só pode. Então e as contas? Nós fizemos contas, como é que vamos conseguir?

Quando desligámos, liguei para a minha mãe e chorei, chorei, chorei, chorei tanto. Só pensava na minha filha. Era tão pequenina, ainda era tão bebé. O que é que eu lhe fui fazer? E a minha mãe ria, genuinamente feliz e eu só me lembro de andar dentro do Colombo às voltas a chorar e a dizer-lhe para não estar feliz.

Nesse dia senti-me atropelada pela vida. Não era nada disto que eu tinha planeado, mas desde esse dia, em que a vida mandou as minhas certezas absolutas para as urtigas e escolheu outro caminho, que eu sou ainda mais feliz.

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Se, antes de ter filhos, eu soubesse;

O dia em que deixei de dizer despachem-se

Cada vez mais, as pessoas vivem constantemente apressadas. Desde que acordas até que te deitas é um desenrolar que rotinas e tarefas que só te apetece despachar tudo para poderes descansar.

Sentes que estás sempre a cumprir uma tarefa da lista, a olhar para um ecrã ou a saltar de compromisso em compromisso. Independentemente da forma como distribuis o teu tempo e do número de obrigações que realizas em multi-tasking, nunca há tempo suficiente para nada.

Isto foi a história da minha vida durante dois anos. O meu cérebro e consequentemente as minhas acções foram controlados por notificações electrónicas, toques de telemóvel e uma agenda superlotada. O militar que há em mim queria que conseguisse ter um grau de eficácia de 200% e cumprisse todas as actividades em agenda, mas nunca consegui estar à altura.

Sempre que os meus filhos faziam algo que me desviasse da minha agenda principal, eu pensava: “Não temos tempo para isto.”

Tenho 4 filhos que, como todas as crianças, não têm a noção de urgência. Podemos estar atrasadíssimos para qualquer coisa e um pede para parar para comer um bolo no café, outro quer ir ao parque brincar, pára numa montra para ver capas de telemóveis!

Quando temos de sair de casa, primeiro que consiga reunir os 4 à porta com tudo o que é necessário (mais o que cada um quer levar quer seja um brinquedo ou uma lancheira cheia de cuecas, como já aconteceu) é um verdadeiro desafio (aka caos).

Quando estou atrasada para qualquer coisa, mesmo que seja, para uma festa de anos de amigos deles (pensas que estás a favor da maré, mas não!), parece que está tudo contra nós. Até perdem tempo a pôr o cinto do carro à bola de futebol em vez de o porem a si próprios.

Se vamos a um fast-food comer qualquer coisa rápida para nos despacharmos, querem trocar o boneco 10 vezes, comer um gelado, e ficam a falar com amigos que acabaram de conhecer.

Os meus filhos, crianças felizes sem quaisquer preocupações, foram a maior chamada de atenção para o meu estilo de vida.

Eu tinha uma visão da vida em forma de túnel, como os cavalos que andam com palas nos olhos. O meu dia-a-dia era um cumprir de compromissos e obrigações, sem parar para pensar ou respirar. Qualquer coisa que não me permitisse fazer um check na minha lista de tarefas era, simplesmente,  uma perda de tempo.

Sempre que os meus filhos me faziam perder o foco da minha agenda principal, eu pensava: “Não temos tempo para isto.”

Consequentemente, a palavra que mais lhes dizia era: “Despachem-se”.

Começava o dia a dizer:

Despachem-se, estamos atrasados!
Despachem-se e vistam os casacos!

e terminava a dizer:

Despachem-se, lavem os dentes e, xixi cama!

Ainda que o reforço “despachem-se” pouco ou nada fizesse para aumentar a velocidade dos meus filhos, eu passava a vida a gritar, “DESPACHEM-SE”. Na verdade repetia mais estas palavras do que lhes dizia o quanto gosto deles. Daqui até à lua, dizem antes de dormir, sempre à espera de mais mimo e mais amor.

Despachem-se!

A verdade é difícil de reconhecer e de aceitar, mas ajuda-nos a crescer e aproximou-me da mãe que EU quero ser.

Até que em um dia fatídico, as coisas mudaram. Eu tinha ido buscar os meus filhos ao colégio e estávamos a sair do carro. Um dos meus filhos disse para o mais novo na altura (o 3º agora): “És muito lento! Estás a atrasar tudo”

Cruzou os baços e suspirou com ar de enfado. Neste momento eu revi-me ali. Foi uma sensação horrível. EU ERA ASSIM!

Eu era a bullyer que empurrava, pressionava e apressava 3 crianças (na altura), que simplesmente não estavam (ainda) minimamente formatadas para a obrigação de cumprir horários.

Foi um abre olhos; eu vi com clareza o dano que a minha forma de viver estava a causar aos meus filhos.

Com a voz trémula, olhei para o meu filho mais novo e disse: “Desculpa querido por te apressar constantemente. Eu adoro-te tal como és, leva o teu tempo e quem me dera ser mais como tu!”.

Os outros olharam para mim com um ar surpreso com a minha dolorosa confissão, mas a cara do mais novo sustentava o inequívoco brilho da aceitação e do reconhecimento.

“A mãe promete ser mais paciente a partir de hoje”, disse-lhe enquanto abraçava o meu filho caçulo. Ele estava radiante diante da promessa recém-descoberta de sua mãe.

Foi facílimo banir o “Despachem-se” do meu vocabulário.

O que não foi nada fácil foi adquirir a paciência para esperar pelos meus filhos. Para nos ajudar a lidar com o tempo que o mais novo precisa para realizar as suas tarefas, comecei a acorda-los mais cedo, a ir busca-los mais cedo e a dar-lhes os tempos que precisavam para que não andássemos todos a toque de caixa. Mesmo assim, a maior parte das vezes ainda nos atrasamos mas, pelo menos, os meus filhos não estão sujeitos a pressões constantes.

Agora, quando vamos a algum lado, deixo que o mais novo, o 4º filho, defina o ritmo. Quando pára para ver qualquer coisa (descoberta), eu simplesmente fico a estudar as expressões que faz, muitas delas que EU nunca tinha visto com olhos de ver. Adoro ver como consegue fazer tantas coisas e é tão habilidoso, apesar da idade, e do tamanho mínimo das suas mãos. Percebi que as pessoas lhe respondem quando ele pára para conversar. Raparei que todos os dias ele descobre novos insectos ou flores na rua. Ele é um miúdo observador e isso é uma qualidade a preservar. Devemos estimular essa vontade dando-lhe o tempo que precisa.

Desde este episódio, que aconteceu há cerca de 3 anos,  comecei simultâneamente a minha jornada de me soltar de distrações diárias e agarrar-me ao que importa na vida. E viver sem pressa, num ritmo mais calmo obriga a um esforço extraordinário. Os meus filhos são o lembrete vivo do porque é que tomei esta opção de vida.

E de facto, há dias, o meu filho accionou o lembrete: tínhamos ido ao parque e no fim paramos para comer um gelado. Os irmãos já tinham terminado o deles e de repente ficou a olhar para mim e perguntou: “Tenho de me despachar, não é mãe?

Deu-me vontade de chorar. Se calhar as cicatrizes de uma vida stressada nunca desaparecem completamente.

Enquanto ele olhava para mim à espera de resposta, eu percebi que tinha duas opções. Ou continuava ali sentada melancolicamente a pensar na quantidade de vezes que o apressei até hoje, ou… eu podia celebrar o facto de que hoje estou a tentar fazer as coisas de outra maneira.

Eu escolhi viver o hoje.

Não. Come o gelado com calma. Temos tempo”. O sorriso foi imediato, enquanto os ombros desciam de alivio.

Ficamos ali sentados a falar sobre coisas que, por vezes, o tempo é curto para partilharmos.

Decidi que nunca mais quero dizer: “Não temos tempo para isto”.

Pode ter sido tarde, mas percebi que esta frase basicamente assume que não temos tempo para viver.

 

 

Adaptação do artigo publicado em handsfreemama

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Sim, tu aí, tu a minha barriga, ficas a saber que não gosto de ti! Pronto, já disse!

Há muito quem aceite a barriga, quem diga que carrega a marca de um amor maior, quem diga te chame genética ou metabolismo, ou o almoço de há bocado.

Eu, pura e simplesmente não gosto de ti! Desiludiste-me! 


Nunca foste modelo de revista, eu sei… Sempre gostaste de te acumular mais um bocadinho aqui e outro ali. Nunca exibiste uns abdominais exemplares, ou uma total ausência dos doces que como.

Mas eu não fui assim tão má para ti. Nunca abusei assim tanto da alimentação, besuntei-te sempre de cremes e coisas dessas. Tentei deixar-te sempre nutrida e saudável.

Portaste-te lindamente quando carregaste o meu bebé! Agradeço o teu esforço. Esticaste até mais não e nunca cedeste. Mas lamento, não gosto de ti! Não gosto do que te tornaste!

Desiludiste-me porque demoras a voltar ao que eras, se é que algum dia vais voltar. Não gosto de ti, porque vais-me obrigar a esconder-te no verão, e escondo-te porque, lamento dizer-te: És feia!

Não gosto de ti, porque apesar de não me definires de forma alguma, fazes parte de mim, e eu não consigo mudar-te.
Não sejas presunçosa, porque não és a marca de um amor maior. Sim, carregaste o meu filho, mas qNão gosto de tiuem o ama é o coração, não tu! Tu foste uma mera ferramenta, e como estou danada contigo, vou-te chamar obsoleta!

Há quem aceite e diga que se sentem bem com o corpo que têm. Pois eu não. Não me sinto bem, não gosto de ti, e não te acho de forma alguma bonita.

A vantagem no meio disto tudo, é que não mandas em mim.  
Vou-te odiar enquanto te mantiveres assim, e vou-te deixar bem escondida.

Porque não és tu que vais definir quem sou. Não és tu que me dás alegrias, e não és tu que me vais fazer feliz. 

Sabes, no final de contas, és só uma barriga, e eu vou continuar a esconder-te e a ser feliz, longe da tua vista!

Mas ficas a saber, que não gosto mesmo nada de ti!

imagem@mdig

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As 10 coisas que eu mais detesto que os meus filhos façam:

  1. Birras;
  2. Birras;
  3. Birras;
  4. Birras;
  5. Birras;
  6. Birras;
  7. Birras;
  8. Birras;
  9. Birras;
  10. Birras.

A minha filha mais velha sempre foi especialista em birras. Desde as birras que com um mês fazia para mamar e para adormecer, às birras que faz com quatro anos porque não vê o arco-íris há muito tempo ou porque não quer ir para a escola porque está chateada com as amigas. Acorda todos os dias de mau humor (herdou os meus genes) e qualquer rabanada de vento a faz desatar num berreiro com cascatas a escorrer-lhe dos olhos.

Passou em força por todas as fases ditas terrible: terrible one, two, three e está no auge dos fucking four. Que vos digo já que dão quinze a zero aos terrible two. A parte boa é que não há birra que me surpreenda, tudo é motivo e a qualquer momento.

O que me tem lixado verdadeiramente por estes dias é que o meu filho, que de terrível só tinha o não nos deixar dormir há dois anos (coisa pouca), entrou a pés juntos nos terrible two. Um miúdo que mesmo não dormindo acorda sempre bem-disposto, que leva o dia a cantar e que tem um sorriso que ilumina o dia mais cinzento que já possam ter visto, tem ensaiado umas birras que me deixam louca.

Se por um lado as birras dos quatro anos são monstruosas, cheias de porquês e eu quero porque quero e pés a bater no chão, por outro as birras dos dois anos têm muitas lágrimas, muita baba, muito ranho e poucas palavras e eu já me tinha esquecido como era isto tentar adivinhar qual é o raio do motivo da birra.

Já vos disse que detesto birras?

imagem@sheknows

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O dia 4 de Maio de 2012 calhou a uma sexta-feira, eu estava grávida e fazia as doze semanas na segunda-feira seguinte.

Estava a trabalhar, fui ao wc, limpei-me e vi o sangue no papel higiénico. Não sei quanto tempo fiquei ali a olhar para o sangue. Era sangue vivo, era abundante.

Vesti-me, fui ter com uma colega, das poucas que sabia que eu estava grávida e pedi-lhe para ir comigo à Maternidade Alfredo da Costa. Pelo caminho liguei ao meu marido, que em pouco tempo estava lá.

Abraçámo-nos.

Existe aquele mito de que não devemos contar que estamos grávidas antes das doze semanas. Eu já tinha estado de baixa, porque às 6 semanas o feto não estava a evoluir, mas depois disso parecia tudo normal, um coração que batia forte, as medidas supostas para o tempo e eu esqueci aquele pesadelo. Estava feliz, estava grávida e notava-se.

Quando cheguei à MAC tudo me pareceu demorar uma eternidade. Eu estava a perder sangue e a calma dos outros parecia-me uma ofensa. Fazer o registo, mostrar o cartão do cidadão, o cartão de saúde, dar a morada, contactos, por favor, eu só quero ouvir um coração a bater.

Entrei para a triagem e depois das explicações habituais, mandaram-me deitar numa maca. Ali fiquei deitada, num corredor, sozinha. Ao longe ouvia o som de outros corações, portas a abrir e fechar. Uma enfermeira passava de tempos a tempos e pedia-me para ir ver se ainda perdia sangue.

Depois do que me pareceu serem cem anos, fui chamada por uma médica sorridente. Deitei-me, fez-me uma ecografia, o sorriso desapareceu e disse-me que eu tinha sofrido um aborto espontâneo.
Não percebi nada. Eu continuava a querer ouvir um coração a bater.

Rapidamente me explicou que o feto teria parado de se desenvolver por volta das nove/dez semanas e só agora o corpo estaria a tentar expulsá-lo.
É muito comum, disse-me. Alguma coisa não estaria bem com o feto e o próprio corpo impediu que se desenvolvesse, era bom sinal. Falou em percentagens, casos de sucesso após aborto e mandou-me para casa esperar que o corpo fizesse o resto do trabalho.

Contei ao meu marido, à minha mãe, mas eu só pensava que o meu corpo tinha dentro dele o que foi um filho muito desejado e tudo tinha acabado.

Não sei se chorei muito ou pouco, ou o quão dolorosa foi esta perda. Todo o processo demorou um mês, entre idas ao hospital, colocar comprimidos e mais comprimidos para provocar a expulsão, contracções dolorosas e ecografias e mais ecografias, que mostravam sempre restos, que tudo se resumia a essa necessidade de tirar o feto de dentro de mim. Não havia lugar para a dor psicológica.

Fui maltratada no hospital por não querer fazer uma raspagem, não tinha filhos, não queria arriscar. Li de tudo na internet. Tomei banhos de água quente, bebi chá de canela, perdi a conta aos comprimidos, às dores, ao sangue que perdi.

Mudei de médico, encontrei a calma, era só esperar e não fazer mais nada. E assim foi.
A 27 de Junho de 2012 tudo terminou e eu chorei de alívio.

Durante o processo percebi que a médica da MAC tinha razão, uma grande percentagem de mulheres sofre abortos espontâneos, mas não falam sobre isso. Regra geral acontecem antes das doze semanas de gravidez e a sabedoria popular diz que dá azar contar, agoira, é preciso ter cuidado com o mau olhado e as mulheres sofrem sozinhas, como se fossem culpadas ou estivessem estragadas.

Não estão e devemos falar abertamente sobre o assunto. Desmistificar.

A 12 de Setembro de 2012 voltei a ouvir um coração a bater e dessa vez a história foi feliz.

imagem@guu.vn

 

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Alguém parece ter inventado uma lista de qualidades e habilidades que se deve ter para ser uma ”boa mãe”. Nesta lista infindável, para além de saber cozinhar paleo-chic-bio-gourmet, costurar, fazer os mais variados DIY dignos de uma revista de decoração. Ir ao ginásio com regularidade, ensinar os filhos a serem extremamente precoces numa área qualquer. Levar os miúdos à piscina e sair de lá maravilhosa, e não como alguém que acabou de sair vestida da sauna. Ser capaz de apanhar todas as promoções da história versão “extreme couponing”. Encadernar primorosamente os livros da escola. Identificar TODO o material com dezenas e dezenas de etiquetas, repetindo dezenas e dezenas de vezes o nome dos pequenos catitas… (depois desta leva do regresso às aulas em que perdi a conta das vezes em que escrevi ”Guilherme”, pensei seriamente que era bem mais fácil ter-lhe chamado “Ivo”).

Ser fabulosa a ajudar as crianças com os trabalhos de casa, brincar pelo menos 30 minutos por dia com eles, enquanto se faz uma tarte veggie e meia dúzia de agachamentos. Ou seja, resumindo a “lista” é fundamental trabalhar, ser bem sucedida, uma inspiração para tudo e para todos, dormir no máximo umas 5 horas e acordar cheia de energia. Basicamente, é ser um daqueles copos da minha infância, um sempre em pé.

Quando não são os outros que nos avaliam com tamanha exigência, somos nós. Aliás, nós somos a nossa maior crítica, sempre na primeira fila a apontar o dedo. No entanto, parecemos ignorar o importante facto de todos os dias estarmos lá, a dar o nosso melhor.

Quando mães exaustas me perguntam “Estou a fazer tudo bem?” só me apetece… dar-lhes colo. Somos tão pouco tolerantes connosco. Exigimos tanto. Carregamos um peso tão grande. Queremos tanto fazer a coisa certa. Sempre.

A parentalidade é um caminho. Não há escolhas certas ou erradas. Existem as que nos levam mais perto de onde queremos chegar, e as que nos fazem dar umas voltas à rotunda.

Cada um faz o seu caminho, tal como na vida. Se o meu filho não é igual ao teu, porque é que a minha forma de lidar com ele deveria ser igual à tua? Não haverá uma forma só nossa de sermos felizes? Não haverá uma forma só nossa de sermos mães?

São esses caminhos que cada um tem de descobrir. Quando largamos a lista, o peso, a expectativa, o caminho abre-se, passo a passo, lágrima a lágrima, sorriso a sorriso.

Temos todas muitas dúvidas e medos, desde o primeiro momento. Achamos todas que a mãe que está ao nosso lado, é melhor do que nós, sabe mais do que nós, vale mais do que nós. Mas sabes, aos olhos do teu filho tu és a melhor mãe que ele poderia ter, só pelo simples facto de seres TU a mãe dele.

Sabia que este dia eventualmente chegaria.

Nunca pensei que fosse tão depressa, por isso não tinha resposta ensaiada. E ainda bem, porque nisto da maternidade já aprendi que de pouco importa o ensaio geral as coisas no dia da estreia saem sempre ao contrário.

Nunca gostei que levasses bonecos para a escola e consegui evitar até há bastante pouco tempo. Como fazemos um percurso de cerca de dez minutos a pé em que cantamos e conversamos, às vezes gostas de aproveitar a companhia do teu brinquedo preferido.

Cedi, sempre com a condição de chegadas à escola o brinquedo ficar guardado na tua mochila. Encaro a escola como um local comunitário, em que tudo é e deveria ser de todos, que todos terão de respeitar e aceitar partilhar aos poucos.

A partir do momento em que as crianças levam os seus brinquedos para a sala, as coisas são deles, criam momentos de tensão quando os outros também querem brincar e o dono não gosta ou até empresta mas o brinquedo acaba por se estragar ou perder. Acho que são situações evitáveis. A escola tem bonecos mais que suficientes e na maior parte das vezes as crianças estão entretidas com outros tipos de actividades.

Com a minha filha tem havido dias em que tenho de esperar um pouco mais pelo abraço ao boneco preferido, que lhe diga até logo para o depositar na mochila: porque por ela levá-lo-ia consigo. Entendo, dou tempo mas às vezes tenho de ser rígida e lembrar que não levamos brinquedos para a sala da escola.

E foi aí que aconteceu.

A resposta: “mas os outros levam!”. Recuei umas boas dezenas de anos, lembrei-me dos colegas que diziam aos pais que a sua má nota não era assim tão má porque mais de metade da turma se tinha saído mal no teste. E a resposta era invariavelmente: “mas a outra metade da turma não é minha filha”. Foi isso que quis responder, que os outros não são meus filhos, que é lá com eles e com os pais.

Respirei fundo e expliquei-lhe que na nossa casa são aquelas as regras. Assim ela não perde nem estraga os brinquedos na escola e brinca com todos sem se aborrecer nem fazer birras porque seria evidente que dificilmente ficaria a ver enquanto os outros queriam brincar horas sem fim com os seus bonecos. Ali todos têm de partilhar, tudo é de todos.

Ela resmungou mas aceitou, não tinha outro remédio.

Eu senti-me velha.

Foi apenas o primeiro de muitos embates que aí vêm.

E sei que serão uma infinidade deles, porque faço questão de evitar uma série de coisas que para alguns pais são corriqueiras – os doces diariamente, os tablets constantemente no colo, os gelados cheios de chocolate a toda a hora e a lista não tem fim.

Um dia em que o pai foi buscá-la à escola e a levou directamente ao consultório médico para uma vacina coincidiu com um dia de festa de uma colega. Na mochila havia um chupa-chupa miniatura e o pai achou que ela até merecia o mimo por se ter portado tão bem (e a Mariana nunca na vida comeu rebuçados ou sugos, ou chupas, foi mesmo uma estreia para ela e sim, com quase três anos?).

Ainda hoje, quando estamos a falar de comida e se lembra do chupa-chupa de laranja da festa da Leonor, diz “o meu pai deixa”. Tivesse eu outro tipo de relação com o pai e seria motivo para discórdia e discussão. Felizmente somos uma frente unida e entendo o que ela quer dizer, mas corrijo. O que não significa que sempre que vai ter uma vacina ela não pergunte: depois vou comer um chupa?

Não vai, mas não é preciso atormentá-la com isso. Daqui a uns anos vai encher-se de porcarias se quiser, mas acredito que a educação alimentar e as bases que lhe estamos a dar a farão tomar melhores decisões no que toca a alimentação.

Mas estou a preparar-me para nos próximos tempos ter de enfrentar as suas questões.

É tranquilo, daqui a cinquenta anos acho que já me safei delas!

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Adoras aqueles episódios emocionantes que te deixam colada ao ecrã e te levavam às lágrimas cada vez que termina uma temporada? Se és mãe, tenho uma excelente notícia para ti – não precisas de esperar pelo próximo episódio! Na verdade, tu fazes parte da série. Nunca tinhas reparado?! Não faz mal, já vais perceber do que falo.

Todos sabemos que “quando nasce um bebé, nasce uma mãe“. O que poucos sabem é que as mães vivem em reinos que se distinguem pelas suas crenças e convicções. Alguns destes reinos são mais hostis, outros mais pacíficos, mas quase todos partilham uma guerra antiga – o desejo de conquistar a coroa dos 7 reinos, aquela que lhes confere o título de “Melhores Mães de Sempre”.

Talvez te estejas a questionar sobre o local  onde se dão as batalhas. Basta entrares num grupo de facebook direccionado para mães ou em páginas dedicadas à maternidade para assistires a lutas sanguinárias, daquelas em que vale tudo, até arrancar olhos, e onde um post simples como “o rabinho do meu bebé está assado, que creme recomendam?” termina com frases como “isso só aconteceu porque não teve cuidado nenhum, a culpa é completamente sua, aposto que também tem o rabo assado“.

As personagens dos diferentes reinos andam sempre à espreita, de segunda a domingo, esperando ansiosamente que surja um post que lhes permita atacar sem dó nem piedade, defendendo as cores (crenças) da bandeira do seu reino.

Provavelmente já estão a conseguir identificar alguns dos reinos rivais a que me refiro. Ainda assim, permitam-me que os (re)apresente.

1 – Reino da Amamentação vs. Reino da não-Amamentação

Estes reinos andam constantemente de costas voltadas. Num dos lados vivem as mães que de peito inchado (literalmente) defendem a amamentação, que comparam o leite materno a ouro e aproveitam qualquer conversa para mostrar que são umas survivers, que “só não dá de mamar quem não se esforça“, que as “gajas do reino ao lado são negligentes, estão a criar crianças anafadas e que irão estar sempre doentes“. No outro lado vivem as mães que dão leite artificial; estas acham as primeiras umas histéricas, obcecadas, umas imaturas que cheiram a leite (literalmente), e que no fundo têm inveja dos peitinhos firmes e orientados para Norte das mães que vivem neste reino.

2 – Reino do Parto Natural vs. Reino da Cesariana

A verdadeira mãe é aquela que vive as dores do parto, que tem de fazer força para dar à luz e que no dia seguinte tem dores em baixo e não se consegue sentar– isto são algumas das frases que ouves nas ruas do Reino do Parto Natural. Dentro deste reino existem diferentes graus de mérito – em primeiro lugar, o parto natural sem epidural e sem pontos (estas são as “máiores”); em segundo lugar, aquelas que cumpriram um destes dois critérios; por último, as que não cumpriram nenhum, vistas como as mais fraquinhas da classe. Ainda assim, nada se compara às cobardes do reino rival, aquelas dondocas que se limitam a deitar na marquesa para dar à luz, umas mimadas a quem a vida é facilitada e que não vivem verdadeiramente a experiência de ser mãe.

No Reino da Cesariana riem-se dos comentários das vizinhas e tratam-nas como umas frustradas, umas traumatizadas que sofreram horrores nos partos, umas mal resolvidas cujo pipi já deu tudo o que tinha para dar.

3 – Reino das Papas Compradas vs. Reino das Papas Caseiras

Assim que uma mãe do Reino das Papas Compradas cria um post a perguntar se determinado sabor/marca de papa comprada no hipermercado é geralmente bem aceite pelos bebés, as rivais do Reino das Papas Caseiras surgem como tubarões que cheiraram sangue, atiram-se e mordem sem grandes ponderações – chovem culpabilizações, suposições de que a criança será um obeso miserável e sem auto-estima, palavras técnicas como maltodextrina, receitas de papas caseiras, acusações de que as tipas que dão papas compradas são umas preguiçosas, e um manancial de estudos que fundamentam todas as afirmações anteriormente feitas.

No reino vizinho acreditam que as inimigas passam a vida na cozinha e que para preparar as tais papas caseiras de que tanto se gabam não têm tempo para brincar com os filhos, são uma espécie de hippies que querem tudo natural mas que provavelmente ao cair da noite se enchem de chocolates e gomas para compensar as horas de tédio passadas à procura de estudos para usar como arma.

4 – Reino do Corpinho Pós-Parto Fantástico vs. Reino do Corpinho Pós-Parto em Recuperação

“Ela é” fotos de costas a mostrar um glúteo firme ao ponto de lhe tocar na nuca, “ela é” fotos a mostrar um six-pack utilizado como base para o filhote fazer escalada, tudo isto publicado nos grupos de mães com frases do género: “saí hoje da maternidade e já estou assim“. As “amigas” do reino ao lado, cujo corpo precisa de mais tempo para se ir recuperando, trocam mensagens privadas onde abundam palavras/frases como “convencida, snobe, cuida do corpo porque não cuida do filho, assim também eu“. Do outro lado, as vizinhas que criam aquele género de posts acham as rivais umas preguiçosas, que não cuidam de si, que acham que ser mãe serve como desculpa para se desleixarem, e que por isso precisam desta motivação extra.

5 – Reino do Dorme Connosco vs. Reino do Dorme no Berço

Se o teu filhote dorme contigo, não o digas a alguém do Reino do Dorme no Berço – vão aproveitar para dizer que estás a criar uma criança dependente, incapaz de estar sozinha, um fedelho mimado que se por acaso dormir menos bem receberá logo a justificação de que “isso acontece porque não o habituaram a dormir no berço“; podem até levar-te a pensar que tens uma perturbação qualquer que te impede de te separares momentaneamente da cria.

No outro reino as críticas ao primeiro também abundam, estes defendem que os pais que não partilham a cama com os filhos não se preocupam em criar laços, são frios e distantes, estão a fomentar nas crias um sentimento de abandono e rejeição capaz de explicar várias dificuldades que estas demonstram (“se dormisse com vocês nada disto aconteceria)”.

6 – Reino do Contra Tudo e Contra Todos Só Porque Sim

Este reino está em guerra constante com os restantes. As personagens que aqui habitam não defendem nenhuma “doutrina” em específico, a sua missão é apenas lançar o caos e contrariar tudo e todos só porque sim (daí o nome do reino). Se lhes falarem nas vantagens da amamentação, estas irão apresentar 1001 argumentos contra, se lhes falarem nas desvantagens da amamentação, irão buscar estudos que abordam “as 10 grandes vantagens de amamentar”. Num mesmo dia são capazes de aparecer em diferentes locais com posições opostas, não há limites, desde que se crie uma discussão séria a sua missão está cumprida.

Frequentemente estas personagens vivem infiltradas nos diversos reinos, esperando nas sombras que surja um tópico mais polémico que lhes permita dizer “não concordo!“. Depois de lançarem o seu veneno, afastam-se de mansinho e admiram ao longe as batalhas campais entre as restantes intervenientes; quando não têm esta oportunidade, lançam o tema e esperam, montando uma teia traiçoeira onde as mães dos outros reinos caem sem que se apercebam.

7 – Reino das Mães Livres

Contrariamente aos restantes reinos, aqui não existem guerras, nem ninguém ambiciona a coroa de “Melhor Mãe de Sempre”. Pelas ruas podem-se encontrar mães que fugiram de todos os reinos (excepto do 6!), convivendo de forma saudável e feliz. Não importa se dás LM ou LA, papas caseiras ou papas compradas, se partilhas a cama com o teu filhote ou não, se o teu corpo se está a recuperar mais ou menos depressa. O lema é “só tu sabes o que é melhor para o teu bebé”, por isso ninguém se mete na vida alheia, nem vive a pretensão de se achar capaz de determinar aquilo que é ou não melhor para os outros (até porque têm vida própria e muito com que se ocupar). Se virem algo que mexe com tudo aquilo em que acreditam, percebendo que existe abertura por parte da outra mãe, partilham esse sentimento, contudo sem tentar impor a sua posição – como poderiam impor algo sem conhecer aquele bebé, aquela mãe, aquela relação, aquela família, aquele meio?

Limitam-se a viver livres de pressupostos, da necessidade de ter razão e de fazer as suas opiniões prevalecer. Apenas cuidam dos seus o melhor que podem, um dia de cada vez, sabendo que deixaram de ser mães perfeitas no dia em que o seu bebé nasceu.

imagem@fanpop.com

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Meu amor, dentro de poucos dias farás três anos.

Parece pouco, mas olhando para trás é difícil imaginar como era a vida antes de ti.

Estes três anos foram repletos de aprendizagens, de mudanças, de adaptação.

Hoje já dormes a noite toda, mas demorou a chegares aqui. Usas fralda apenas para dormir e da chucha (que só usaste para dormir) nem sinal.

Apreendes o mundo à tua volta de uma forma que por vezes me surpreende, és capaz de fazer conversas e fazer as perguntas acertadas no momento propício.

Já me sabes pedir “só mais um bocadinho”, acompanhando com o gesto dos dedos quando é hora de ir para o banho, já sabes chamar a atenção quando alguém faz uma coisa que te ensinou a não fazer: como cantar à mesa.

Aprendeste a andar e és segura nos teus passos, nas tuas descobertas. No outro dia seguiste com o olhar o tronco de uma árvore e ficaste espantada por ver que acabava tão lá em cima. “Vai até ao tecto, mãe!”. Corrigi, dizendo que ia quase até ao céu e mostrei-te que as árvores, como as pessoas, existem de todos os tamanhos. E que o que importa é a sua beleza, o que as torna únicas. “E as formigas que lá dormem”, acrescentaste. És assim, vais começando a deixar-me sem palavras.

Percebes as diferenças entre ti e os que te rodeiam e aceitas os outros como são.

És refilona, chorona, coisa que até aos quase seis meses de idade não foste. Talvez tenha coincidido com o facto de entrares para a creche. Não te condeno por isso, eu própria preferia que as coisas fossem de outra forma, mas a entrada no infantário deu-te ferramentas e vivências que eu não conseguiria proporcionar-te. O amor, esse, não deixou de estar sempre presente.

Por falar nele às vezes falas comigo e chamas-me de “meu amor”, como te chamei e chamo tantas vezes.

Brincas com as tuas bonecas com menos paciência do que gostaria: ralhando, dizendo para pararem de falar, um ai ai ai ai constante – mais uma vez uma vivência que ganhaste na escola, que vês fazerem e por isso repetes – e que eu não me canso de tentar mudar.

Será uma aprendizagem lenta mas que irás adquirir, a de não fazeres aos outros aquilo que não gostas que te façam a ti. Pergunto: “gostas quando ralham contigo para dormires? Não, pois não? Então fala baixinho, conta histórias, faz carinhos. Estás em casa, és a mãe, podes fazer tudo. Escolhe fazer o melhor, meu amor”. Olhas-me com os teus olhos grandes e sei que alguma coisa fica lá.

Temos hoje de ter cuidado com o que se diz ao pé de ti, porque tudo registas e de nada te esqueces. Bastou a bisavó ter dito uma vez que não podia jogar contigo à bola porque era “velha” (e o que eu ralhei com ela por chamar nomes, principalmente a ela mesma…) para a partir daí nunca mais te esqueceres e associares esse adjectivo à bisavó. Começaste já a perdê-lo, com muita insistência minha. Quando falamos e mencionamos o teu nome ficas de antenas no ar: ”estão a falar de mim?”.

És autónoma e independente, mas muitas vezes não gostas de prescindir da companhia.

És uma péssima ajudante na cozinha porque comes metade dos ingredientes do jantar.

Ajudas-me a preparar o pequeno-almoço, o que te ajuda a valorizá-lo quando o comes.

Levantas sempre o teu prato e és tu quem o leva para a cozinha. Ajudas a pôr a mesa.

Já não gostas de comer de babete, mas a sopa na maior parte das vezes ainda o pede.

Muitas vezes pedes “quero ir dormir”. Mas sempre depois de uma história ou de uma música de embalar cantada ao ouvido.

Há três anos mal nos conhecíamos, apesar da ligação que sempre tivemos.

O pai saía de casa para o trabalho e eu trazia-te para a nossa cama e ficávamos a namorar até ser hora de levantar e irmos sentir o mundo, os seus cheiros, as suas cores e barulhos. Para que fizesses parte dele, para que eu não deixasse de fazer.

Parece que foi ontem e na realidade foi. Porque és capaz de todas estas coisas mas, no fundo ainda és um bebé. Que precisa de apoio, protecção, muita orientação. Tolerância e paciência.

Corremos o risco de exigir demais de ti por seres tão desperta e despachada mas tento sempre lembrar-me que ainda me cabes no colo.

E lá caberás mesmo quando já não couberes. Porque o meu colo será sempre teu.

imagem@weheartit

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