Setembro é o mês em que se inicia um novo ano letivo e com ele voltam a azáfama, as correrias, as responsabilidades…preparar os materiais, organizar o dia, estudar. Não é fácil, nem para os filhos, nem para os pais…

Por isso este ano trazemos algumas dicas para ajudar a pais e filhos a entrar com o “pé direito” neste ano letivo que agora se inicia.

  1. Escolha a mochila e materiais adequados

    A escolha da mochila e os materiais deve ser feita de forma ponderada.

    a) Mochila

    Uma mochila desadequada ou muito pesada pode causar sérios problemas. É importante que a mochila tenha as seguintes características:
    • Deve ter o tamanho das costas da criança
    • As alças devem ser largas, em formato “S” e ajustáveis
    • Forro assente às costas acolchoado
    • Deve ter cintos à altura do peito e da cintura

    A mochila deverá estar sempre ajustada para que fique junto às costas e distribuindo o peso por ambos os ombros. Para isso, é essencial que sejam utilizados os cintos de apoio e que as ambas as alças estejam postas. Quanto ao peso da mochila, este não deve ultrapassar os 10% do peso corporal da criança. Sabemos que as crianças precisam de muitos livros e que estes são pesados mas se queremos salvaguardar as nossas crianças precisamos de arranjar soluções para que não transporte peso em excesso diariamente.

    b) Materiais

    Escolha lápis que possuam formato triangular e canetas que possuem borracha na zona da pega de forma a facilitar a preensão e controlo do lápis. Já a tesoura escolhida deve ser adaptada ao tamanho da mão da criança, com um design que permita que os dedos assentem confortavelmente na tesoura e não deverá ter ponta. É importante que as crianças que utilizam a mão esquerda tenham acessos a tesouras específicas para esquerdinos.

  2. Estabeleça rotinas estáveis

    As rotinas são importantes tanto para pais como para filhos. As rotinas têm um papel organizador nas crianças e são imprescindíveis para o seu desenvolvimento.

  3. Defina tarefas de forma interativa: Quadro de tarefas

    Definir tarefas e responsabilizar os seus filhos a colaborar em casa e em fazer as suas tarefas escolares pode ser feito de forma interativa através, por exemplo, de um quadro de tarefas. Apesar de existirem já alguns quadros para venda, poderão fazer o vosso próprio quadro de tarefas (com ímanes, escrito, etc.)

  4. Crie um espaço de estudo funcional

    As características do local onde o seu filho estuda podem contribuir, de forma positiva ou negativa, para a qualidade do estudo:
    • O local de estudo deve ter boa iluminação e ter uma temperatura agradável para permitir uma melhor concentração
    • Deixe todos os materiais organizados de forma a que a criança tenha acesso aos mesmos facilmente
    • Use uma cadeira e mesa adequados ao tamanho da criança, permitindo:
    a) apoio dos pés no chão;
    b) cotovelos apoiados sobre a mesa;
    c) pernas a 90º ;
    • Incentive a manutenção da folha sempre na linha média com ligeira inclinação (para a esquerda caso a criança seja destra, para a direita caso a criança seja esquerdina).

  5. Promova pausas nos períodos de estudo

    É aconselhável que durante o período de estudo o seu filho faça pequenas pausas. Se o período de estudo for demasiado longo é provável que o rendimento diminua, sendo por isso aconselhável uma pausa ao completar sensivelmente 60 minutos de estudo. É de referir que este tempo é apenas um indicador, já que a capacidade de concentração de cada criança é variável. Os períodos de pausa devem ser curtos (cerca de 10/15 minutos) e não devem ser utilizados para fazer atividades que o seu filho goste muito, pois isso poderá fazer diminuir a sua motivação para regressar ao estudo. Estas pausas podem ser aproveitadas para fazer um bom lanche.

  6. Fomente hábitos de estudo

    As crianças devem interiorizar desde cedo que possuem controlo sobre as suas aprendizagens e que o seu sucesso escolar depende em grande parte do seu esforço. Os pais não devem “estudar” pelos filhos mas sim orientá-los no seu estudo, ajudando-os a descobrir as estratégias mais eficazes. Tirar apontamentos, sublinhar, fazer resumos e esquemas são apenas algumas das estratégias que o seu filho poderá utilizar ao estudar. Ajude também o seu filho a estabelecer um horário de estudo. Esta estratégia promove a realização de um estudo mais frequente e produtivo, distribuindo o seu tempo de forma equilibrada pelas diferentes disciplinas. (para saber mais, leia o artigo estratégias para ajudar o seu filho a estudar)

  7.  Dê tempo para o seu filho brincar

    As crianças passam muito tempo na escola, a carga horária é exigente. É imprescindível que todos os dias o seu filho usufrua de momentos em que possa (livremente) brincar. A brincar o seu filho aprende e cresce! (para saber mais, leia o artigo Crescer a Brincar)

  8. Tenha tempo de qualidade

    A maioria dos pais vive de forma intensa, e até com alguma ansiedade, o sucesso escolar dos filhos. É natural que se preocupe com o processo de aprendizagem do seu filho, contudo, faça um esforço para que as vossas interações não girem apenas em torno da Escola. Privilegie o tempo em família realizando atividades de lazer que fortaleçam a vossa relação e que lhe permitam conhecer melhor o seu filho e os seus interesses. Dê importância a outras áreas da vida do seu filho, para além da Escola. Valorize atividades extracurriculares que sejam do seu interesse, como por exemplo atividades artísticas ou desportivas.

  9. Tire tempo para si

    Ser mãe e pai não é fácil! O sucesso escolar do seu filho e a sua integração escolar é certamente algo que lhe causa muito interesse e preocupação. É natural que queira ajudar o seu filho na organização das tarefas escolares e até na planificação do seu tempo de estudo. Contudo, não deixe que a sua vida se centre demasiado nestes aspetos. Tire algum tempo para si, para fazer atividades que lhe dê prazer e que o/a façam ser bem. Só cuidando de si e sentindo-se bem consigo mesmo/a, poderá ajudar o seu filho da melhor maneira.

  10. Elogie o seu filho

    A aprendizagem escolar é um aspeto importante na vida das crianças. Como alguns pais afirmam, a Escola é o seu “trabalho”, sendo por isso natural que exijam dos filhos empenho, responsabilidade e bons resultados escolares. Tenha algum cuidado para não revelar uma exigência excessiva, estando atento às dificuldades que o seu filho possa apresentar e aos motivos que possam estar na origem do insucesso. Não aponte apenas o que vê de negativo no seu comportamento enquanto aluno e valorize o seu esforço mesmo que os resultados não sejam os desejados. Promova a sua motivação elogiando os seus progressos, ainda que pequenos, e os bons resultados obtidos pelo seu filho! Afinal de contas…quem não gosta de ser elogiado pelo seu trabalho?

imagem@MySweetWorld

Por Psicóloga Carla Pereira e Terapeuta Ocupacional Margarida Sabino

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Como as crianças vêem a escola;

 

Falas ao teu filho dos teus segredos, dos teus sentimentos, dos teus sonhos?

Falas com ele, olhos nos olhos, sobre como te sentes, como te queres sentir e o que fazes para que as coisas aconteçam? Transmites, de facto, as tuas emoções ou escondes-te atrás de um escudo que não só não vos protege, como vos afasta ainda mais?
Não esperes que ele faça o mesmo se não deres o primeiro passo, o primeiro gesto, o primeiro exemplo.
Não esperes que ele te venha dar um abraço, se não o ensinaste a receber primeiro. Não esperes, aliás, por nada.

Sê livre e espontânea, verdadeira, como és, pois só assim ele te irá conhecer realmente e amar-te pelo que és.
Não te escondas nas palavras, ditados antigos, dicas de livros ou estudos comprovados. Verbaliza o que sentes. Não deixes de ser a pessoa que és apenas porque te tornaste mãe. Se queres chorar, chora, mas primeiro, fala com ele. Ele é pequeno mas entende, mesmo que não o saiba demonstrar. Não guardes remorsos, culpa ou dor.
Explica-lhe as coisas. Ele é ingénuo mas sabe mais do que tu pensas. Abre a janela da tua mente e deixa a liberdade entrar, não a feches em ti pelos outros. Queres saltar com ele nas poças, salta. Não te importes se te julgam por isso… provavelmente quem te julga gostaria de ter metade da tua franqueza.

Fomos feitos para crescer, mas há muito em nós que precisamos de manter! Ser criança ensina-nos tanto. E nós ensinamos mais quando somos nós próprios, de verdade.

(Carta a mim própria quando me desvio daquilo em que acredito)

Por Mafalda | Meia Lua

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Olha-me aquela mãe

Carta à minha filha de seis anos

 

 

Estes adultos estão loucos

Ainda não percebi bem o que querem de mim…
Enquanto sou bebé, passo 8 ou 9 horas por dia na creche, até que a minha mãe ou o meu pai, me venham buscar.
Chego a casa cansado como os meus pais, cansados, olham para mim, dizem blá-blá-blá, eu rio-me, eles também e vou para cama.
Ando assim 5 ou 6 anos.

Depois entro na escola.
Entro logo de manhã, às vezes debaixo de chuva, vento e muito frio e estou dentro da escola, 6 ou 7 horas, até que a minha mãe ou pai me venha buscar.
Em casa, faço os TPC’s, com a ajuda possível dos meus pais, que estão cansados, frustrados, revoltados com o trabalho, que mal dá salário para vivermos com dignidade, até que chega a hora do jantar, feito pela minha mãe.
Depois olham para mim, com os olhos cansados, mas ainda com energia para dizerem blá-blá-blá. Eu ainda me rio, eles também, lavo os dentes e vou para a cama.
Ando assim mais 4 anos.

Entro na escola secundária. Tenho muitos professores e muitas disciplinas. Fico lá 6 ou 7 horas, até tocar para a saída.
Nos primeiros tempos ainda espero pelo meu pai (é ele que tem o carro), e vou para casa. Mas, alguns 3 ou 4 anos depois, já vou sozinho para casa. Apanho os transportes públicos, cheios de adultos que até me pisam para entrarem primeiro que eu, mostro o “passe” e chego a casa. Cansado!
Beijo o meu pai, também cansado, Beijo a minha mãe na cozinha, também cansada, e tento fazer os TPC’s. Por vezes adormeço. Muitas vezes não consigo fazê-los. E então já sei que os professores vão escrever um “recado” ao meu pai. E depois vou ser castigado. Mesmo que esteja cansado!
No dia seguinte, o professor grita comigo e pergunta se os meus pais não têm tempo para me dar educação.

Eu não respondo, mas apetece-me!
Alguns dos meus colegas, respondem!
E os professores dizem que não são educadores. Que os educadores devem ser os pais.
Só que os professores estão comigo 7 horas por dia, se não faltarem às aulas.
Os meus pais, estão comigo, talvez, 2 ou 3 horas por dia, o resto é para comer e dormir.

Fico a pensar, quem é que me pode educar?
Acho que os adultos estão loucos!
Vou começar a fazer birra!
Talvez me olhem de outra maneira…
Acho que vou começar a fumar nas traseiras da escola. Está lá a malta da turma.
Eles até não se importam de “partilhar aqueles cigarros que eles próprios fazem”. Eles dizem que aquilo é um paraíso.
Talvez experimente.
Os professores não vão dizer nada porque não são meus educadores.
Os meus pais não vão dizer nada porque na escola ninguém tem obrigação de me vigiar e em casa os meus pais estão cansados e só estão comigo (acordados) 2 ou 3 horas.

Os adultos dizem que eu sou mal educado mas não é verdade, eu não tenho educação nenhuma mesmo.
Porquê?
Porque os adultos não têm tempo!
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NOTA:
Não tenho nada contra os Pais ou os Professores, mas tenho contra esta Sociedade desequilibrada!
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Por João Pessoa publicado em Associação Portuguesa para a Igualdade Parental e Direitos dos Filhos

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A triste geração que virou escrava da própria carreira

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De repente cresceste, meu filho

De repente cresceste. Tanto que me disseram que o tempo passa rápido, que passou mesmo. E de repente, estás um crescido.

Aproveitei cada minuto e cada segundo. Nunca te neguei mimo ou colo, e fiz tudo para estar cada minuto possível contigo, mas mesmo assim, o tempo passou rápido e tu cresceste.

De repente, já não eras um recém-nascido, tão pequenino, tão frágil e tão dependente de mim.

Já comias sólidos, atiravas a comida ao chão e sujavas tudo à tua volta.

De repente já escolhes o que queres comer, o que gostas e o que não gostas, e não há quem te demova dos teus gostos.

De repente sentaste-te e bateste palminhas… Gatinhavas e eu corria pela casa atrás de ti…

De repente já andas, corres e exploras o mundo, e deslumbras-te com tudo o que vês.

De repente trepas tudo, cais e esfolas os joelhos. De seguida levantas-te, sacudes as mãos e continuas a correr…

De repente disseste mãe, e de repente já dizes um monte de coisas …

De repente começaste a expressar-te. Tornaste-te consciente das tuas emoções, que são tantas e tão intensas e expressas o que sentes da forma que sabes.

De repente concentras-te. Sabes o que queres fazer, e sabes focar-te na tua tarefa abstraindo-te de tudo o resto.

De repente folheias um livro e rabiscas um papel, ou uma parede do teu quarto.

De repente adoras carros, bolas, adoras marcar golos e dizer os sons dos animais.

De repente fazes birras quando não tens o que queres. Gritas, choras, e empurras-nos para demonstrar o teu desagrado.

De repente dás-me um abraço só porque sim, ou empurras-me para que continues a brincar sem que os meus beijos te atrapalhem.

De repente já não és um bebé. De repente cresceste. O tempo passou e por mais que eu queira fazer o tempo parar, não posso. E tu vais continuar a crescer, a aprender, e definir quem és! De repente deixarás de ser o meu bebé pequenino porque de repente és um rapazinho.

E eu estou tão orgulhosa de ti! E eu gosto tanto, mas tanto de ti, mesmo que de repente… tenhas crescido!

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Quando somos mães longe dos nossos, temos que aprender a arte de improvisar. Temos que aprender a relativizar e a plantar raízes muito fortes. Também pensar que se assim o é, só pode ser porque fomos feitas para ser desse jeito.

Ser mãe sem depender de ninguém [para além do pai] é ser-se mãe mais do que a tempo inteiro, é ser-se mãe num todo e num infinito de definições. É ser mãe, tios, primos e avós. Educar como pais, acarinhar como avós e cometer doidices como tios.

É ter que ensinar que se pode crescer assim sendo igualmente ou tão mais feliz. Que não se deve forçar nada que não nos faça sentido e que a saudade tantas vezes existe para se enxergar melhor o que realmente é.

Mas quando a família não está por perto, nem sempre é fácil. Há dias mais solitários e mais fragilizados. Quando a família não está por perto, há muitas coisas que não conhecemos como realidade e que por isso também não nos faz falta, mas que não é por isso que deixamos de pensar nelas.

Se foi este o rumo que escolhemos, é este o caminho que levamos, mas não esquecemos de como poderia ser, se fosse diferente.

Ser mãe longe da nossa mãe e ser mãe longe dos nossos é ter que ser mais do que já somos. É também nós sentirmos saudade de colo e não o termos quando precisamos.

É preciso o embalo da segurança, é preciso o simples conforto de saber que está ali, ao virar da esquina, mas que não está. É termos que escutar em nós essa necessidade e deixá-la silenciada por dentro. É ter que saber gerir essas emoções e até mesmo as suas próprias contradições de quando estou nem sempre quero estar.

Falta a mão que passa na cabeça, faltam as sopas quentinhas e os chás mágicos. Faltam os alguidares de água quente para massajar os pés doridos.

Faltam as gargalhadas das histórias de infância que se contam quando se compara aquele sorriso, aquele gesto, aquela traquinice.

Há o telefonema e as visitas rápidas. Há as fotografias e vídeos que se partilham. Mas não há muito mais do que isso. Não há a cumplicidade serena de quem nos conhece de verdade. Não há a compreensão de quem sabe o que somos e no que nos tornamos.

Nós já não somos os mesmos. A mãe que nasceu em mim, não é a mesma miúda que cresceu perto deles. Agora cresceu longe, diferente e distante. Poucos já a conhecem.

Sou a mãe que quero ser por completo, mas não deixo de ser a menina que está longe do que a vida a viu-se tornar.

Por Mafalda | Meia Lua

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«Estas criancinhas vão ser adultos insuportáveis», disse a senhora no seu melhor fato de domingo, com uma expressão de “nojo” no rosto, enquanto rematava para outra amiga, igual menos no tom do tecido do fato, com quem segundos antes falava sobre a missa de onde acabavam de sair.

A criancinha, no caso, era a minha. E estava entretida com um brinquedo para cães, daqueles que se apertam e chiam. É chato, eu sei. Eu própria estava a chamar-lhe à atenção pela terceira vez para que parasse, coisa que se não acontecesse me faria tomar medidas. Mas tenho de ter a tolerância de pensar que tenho comigo uma criança de quase três anos que no supermercado não tem muito com que se entreter e se vê um brinquedo, brinca. Porque é criança.

Fiquei, na altura, bastante sentida com a afirmação da senhora. Não sou pessoa de responder, odeio tudo o que é confrontos e conflitos, mas se ela não tivesse acelerado o passo, como cobardemente fez, teria certamente ouvido a minha resposta, que me fugiu dos lábios num tom bastante mais baixo do que ela merecia: “insuportável como a senhora?”.

Como disse há umas linhas a senhora tinha acabado de sair da missa. Era toda ela elegância e educação. Pois de pouco adianta ir à missa se cá fora não se tem em consideração os outros, se lança a primeira pedra e se julga só porque sente superior. Que deselegante foi aquela afirmação. Que pouco “bem”. Que desrespeitosa. Jamais a teria dito a um adulto.

Tentei imaginar os filhos da dita senhora, todos a andarem em passo acertado uns com os outros, as golas cheias de goma e sem um único vinco, crianças que ficam caladas e de costas direitas independentemente do contexto, crianças que são mini adultos. Em suma, pequenos robots.

Mas depois percebi que não era certamente esse o caso. Eu própria fui uma criança bem-comportada e no meu vestido de roda subia à árvore da igreja e fazia arranhões nos joelhos e surrava os sapatos. Também eu corria pela rua, rindo alto. Também eu era criança.

A senhora ter-se-á provavelmente esquecido de que os seus filhos foram um dia crianças. Que os netos e bisnetos falam, comunicam como sabem, muitas vezes têm comportamentos que nós, os adultos, gostaríamos que fossem outros. Quem sabe se nunca foi ao supermercado com os filhos porque os deixava com a criada em casa. Se nunca foi a um restaurante para os meninos não falarem entre si e “incomodarem” quem está à volta.

Também eu gosto de sossego e silêncio. Também eu às vezes sou confrontada com crianças que se portam pior do que o desejável e quantas vezes esse comportamento é alheio à vontade e, pasme-se, educação que os pais lhes dão. Sou tolerante, acho que é preciso termos calma e não julgarmos as pessoas. Não julgo, não gosto de ser julgada.

Lembrei-me, enquanto escrevia estas linhas, da história do menino autista no restaurante que a empregada queria insistentemente que se comportasse ou todos (pais e irmãos) teriam de sair. Que mundo é este em que não conseguimos dar espaço às pessoas?

Se a senhora em vez de fugir tivesse ficado a fazer as suas compras calmamente teria visto como me baixei ao nível da minha filha e lhe expliquei por que motivo não podia continuar a apertar a galinha de borracha, por mais divertido que estivesse a ser para ela. E ela parou. Para passados alguns minutos estar noutras tropelias, naturais da sua idade e razão pela qual raramente a tenho comigo nas compras sem ser sentada no carrinho – enquanto ainda dá.

Eu tive de ouvir os comentários pouco católicos que essa senhora estava a fazer sobre o que se passou na missa (shame on you, miss!) e depois sobre a minha filha.

Aqui fica uma novidade: crianças sossegadas não são garantia de adultos calmos, tranquilos ou educados.

Muitos dos adultos “insuportáveis” que conheço tiveram mães que apesar das aparências se achavam no direito de dizer em voz alta cobras e lagartos sobre os que estavam à sua volta, legitimando, assim, que os filhos crescessem para fazer exactamente o mesmo.

As crianças que brincam, sobem às árvores e se sujam também sabem comportar-se quando o momento o pede. Também sabem trocar as leggings pelos vestidos de folhos e dar a mão enquanto ouvem o que os adultos dizem.

As crianças, se fizermos bem o nosso trabalho, conseguirão perceber, quando tiverem idade para isso, que há lugar para tudo.

E sendo livres, sendo-lhes permitido serem crianças para aprenderem em que momento ser de uma forma ou outra, serão adultos que mais facilmente expressarão os seus sentimentos e saberão lidar com quem os rodeia.

Espero passar muitas coisas à minha filha.

Espero que ela seja boa com ela e com os outros.

Espero que ela nunca olhe para os filhos de alguém e tenha a cobardia de lhe pôr um rótulo e de lhe dar uma sentença tão triste como já lhe deram a ela.

Logo à minha Mariana, que de insuportável tem pouco.

imagem@weheartit

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A frase ecoa na minha cabeça há já alguns dias: “ O meu pai diz que faço tudo mal ”. Ouvi-a no metro, da boca de um menino que não devia ter mais de 7 anos. Falava com uma menina da mesma idade e disse-o com uma expressão triste, cabisbaixo. Apeteceu-me confortá-lo, dar-lhe um abraço e uma palavra de estímulo.

Como dizia Rudolf Dreikurs,  famoso psiquiatra educador que inspirou o modelo educativo da Disciplina Positiva, “Um joelho magoado pode curar-se, mas a autoestima ferida pode durar para a toda a vida”. Pois é.

Enquanto formador de Disciplina Positiva tenho contactado, tanto nos workshops como nas sessões de coaching parental, com pais e mães cujos filhos apresentam uma baixa auto-estima. Crianças que acham que não são capazes, por isso convencem quem os rodeia a não esperarem nada deles. Sentem-se muitas vezes inúteis, que não vale a pena tentar pois não farão nada bem.

Ajudar estas crianças (e os pais) a dar a volta ao problema não é um trabalho fácil. Exige tempo, paciência, coerência e muito reforço positivo. Mas os resultados têm sido animadores.

O sentimento de pertença

Todas as crianças precisam de se sentir importantes. E que pertencem (à sua família, escola, grupo desportivo, etc.). Para atingirem esse objetivo, optam muitas vezes pelo “mau” comportamento, que tem sempre por detrás uma mensagem que estão a querer passar.

De acordo com a Tabela das Metas Erradas, uma das principais “ferramentas” de Disciplina Positiva, a mensagem tácita que uma criança com baixa autoestima nos quer passar, com o seu “mau” comportamento, é esta: Não te dês por vencido comigo. Não desistas. Mostra-me um pequeno passo que eu possa seguir.

A chave para descodificar essa mensagem é a forma como nós, pais e educadores, nos sentimos perante esse comportamento. Depois há um caminho a percorrer, que desagua na aplicação de respostas produtivas e estimulantes. E quais são essas respostas?

Aqui ficam algumas, de acordo a Tabela das Metas Equivocadas da Disciplina Positiva:

1 – Ofereça pequenos passos

2 – Evite todo o tipo de crítica

3 – Anime em qualquer tentativa positiva

4  – Confie nas habilidades da criança

5 – Foque-se no que ela faz bem

6 – Não tenha pena

7 – Não se renda

8 – Crie ocasiões para que ela tenha êxito

9 – Ensine-lhe habilidades/como fazê-lo mas não o faça por ela

10 – Disfrute da companhia dela

11 – Anime, anime, anime

12 – Faça reuniões familiares/turma

imagem@Thinkstock

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Há dias assim. Há dias que as histórias nos aparecem como cogumelos, como se tivessem de vir ter connosco para que possam finalmente ser contadas. Hoje foi um dia assim.

De repente surge a história de uma mãe, que depois de um divórcio conturbado tem a cabeça e a vida da sua filha completamente minada pelo que o pai lhe diz. Surge em catapulta a história de outra mãe, que não tem qualquer contacto com o seu filho porque o pai condiciona a imagem que o mesmo tem da mãe. Um pouco mais tarde, recebo um telefonema de um pai que precisa de ajuda, porque a mãe do seu filho continua a dizer mal do pai ao filho. No meio destas histórias recordo uma outra, de um pai que procurava ajuda psicológica para conseguir lidar com a questão de alienação parental. Sim, a estas histórias damos o nome de alienação parental.

A alienação parental é o afastamento do filho de um dos progenitores provocado pelo outro, tendo origem no verbo latino “alienare” que significa afastar. Contudo, a  alienação parental (PAS, parental alienation syndrome, ou SAP, síndrome de alienacão parental) não é um fenómeno recente. Podemos afirmar que será tão antiga quando a existência da regulação do poder parental aquando de um divórcio. Na verdade, as feridas resultantes do rompimento duma relação conjugal são muitas vezes difíceis de ultrapassar, levando tantas outras vezes à  necessidade de magoar o outro a quem se imputa culpa na separação, e que acaba por determinar, consciente ou inconscientemente, que o  progenitor que tem a custódia do filho a usar este poder, por forma a atingir o outro progenitor,  punindo-o com o afastamento do(a) filho(a) ou incutindo neste, sentimentos negativos contra aquele.

No decorrer da vida destas pessoas que escolheram os seus companheiros com o objectivo de criarem uma família estável, organizada e cheia de amor, algures, não sabemos quando nem como, duas pessoas entraram em conflito, e uma delas, concentrada na sua frustração, focada na sua dor e mágoa, esqueceu-se que há uma criança. Uma criança que não pediu para nascer, não pediu para ter aqueles pais, e muito menos, para ter nascido numa família que, algures no tempo mais uma vez, se esqueceu que ela existia. Digo esqueceu, porque efectivamente, se tal não acontecesse, tínhamos pais que pensavam acima de tudo no bem estar desta criança e na sua saúde mental, e só depois na sua frustração, na sua mágoa, na sua dor.

Poderia centrar-me nos pais, mas não vou fazê-lo (noutro artigo o farei). Vou centrar-me nos que não escolheram esta história de vida. Nas crianças e jovens cujas cicatrizes irão ficar marcadas nas suas vidas, não pedidas, e que irão condicionar o adulto que serão no futuro. Um dia, uma destas crianças disse-me, em consulta, que eu era uma espécie de médica de cirurgia plástica da mente, porque eu “tratava de cicatrizes do coração e da cabeça”. Custa muito perceber, ainda que psicóloga, que é assim que se sentem….vazios, perdidos, confusos, mas com a noção de que nada disto seria suposto. Seria suposto sim, que esta criança ( crianças e jovens) apreendesse destes adultos significativos (seus pais), os seus super-heróis, que quando temos um conflito, conversamos, reflectimos, somos empáticos com a dor do outro, e resolvemos as coisas pacificamente. Seria suposto que estas crianças e estes jovens, apreendessem destes adultos significativos, os seus super heróis, o que é ser adulto, o que é viver em sociedade, e acima de tudo, como se relacionam com o outro.

Peço a todos os pais e mães, que ao passarem por situações de divórcio, se centrem nos seus filhos, nas suas necessidades, em não deixar sequelas nas suas vidas, no seu crescimento emocional e psicológico saudável. Peço algo tão simples como, amem os seus filhos!

Sejam verdadeiramente os super heróis da vida deles.

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Cada vez se ouvem mais notícias de crianças e adolescentes que se perderam por causa da net.

Não sejamos tendenciosos que não é só desde o aparecimento da web que temos perdido filhos. Antes disso também acontecia.

Mas antes perdíamos os filhos nos rios, nas estradas, nos mares, e hoje perdemo-los dentro do quarto!
Quando brincavam nos quintais ouvíamos as vozes deles ao longe, as conversas e, mesmo à distância, sabíamos o que se passava naquelas cabeças. Quando entravam em casa não havia uma televisão em cada quarto, nem gadgets nas suas mãos. Quero deixar bem claro que não sou contra tudo, nem excluo da vida dos meus filhos, apenas modero. Mas meus queridos, sejamos sinceros: temos vindo a perder o equilíbrio.

Hoje não ouvimos as vozes deles, nem ouvimos os seus pensamentos e fantasias. As crianças estão ali, dentro dos seus quartos e por isso acreditamos que estejam em segurança. Que imaturidade a nossa.

Fechados nos quartos de phones nos ouvidos, trancados nos seus mundos, a construir saberes sem que saibamos quais são… nem tão pouco orientados por nós.
Alguns têm perdido literalmente a vida, mas há tantos outros que ainda aí andam vivos fisicamente, mas mortos nos seus relacionamentos com os pais, fechados num mundo global de informação e estímulos, de ídolos do youtube, de modas passageiras que em nada contribuem para a formação de crianças seguras e fortes, e se tornam crianças sem qualquer capacidade para tomar decisões moralmente corretas e de acordo com os seus valores familiares.

Dentro dos próprios quartos perdemos os nossos filhos que já não sabem quem são nem qual a sua identidade familiar… Tornam-se numa mescla da informação adquirida em vídeos, personagens e ideias que os influenciam lentamente, até ao dia em que nós, os pais, nos apercebemos que já não reconhecemos os nossos filhos.

Agora podes ler este texto, gostar e taggar amigos. Podes reconhecer aqui verdades e refletir sobre elas. Podes rever-vos nestas palavras. Isso já será excelente.

Desafio Filhos do Quarto

Mas como Psicopedagoga tenho visto tantas famílias com filhos “mortos” dentro do próprio quarto, que vou deixar aqui um convite, e espero que aceites: convido-te a tirares o teu filho do quarto, do tablet, dos phones; convido-te a comprar jogos de mesa, tabuleiros e a ter os teus filhos na sala, ao teu lado no mínimo duas noites fixas todas as semanas  (para além do sábado e domingo). E joga, diverte-te com eles, ouve as suas vozes e falas, os pensamentos e aproveita a grande oportunidade que é  tê-los vivos física e espiritualmente, a dar o trabalho que os filhos dão a educar. Os teus filhos vão aprender a viver em família e vão desenvolver o sentimento de pertença pela família e lar, e não precisarão de se aventurar em “Baleias Azuis” e afins para se sentirem aceites ou para sentirem um pouco da adrenalina que antigamente tínhamos com as brincadeiras na rua!

Adaptação de texto original de Cassiana Tardivo, por Up To Kids®

imagem@ontslog

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Estou a falar com a minha filha, é favor não interromper!

As crianças são cativantes. Há crianças impossíveis de “resistir”, com as quais temos vontade de interagir de imediato, seja na sala de espera do pediatra, seja no jardim ao fim do dia.

Mas as crianças são pessoas, não nos esqueçamos. Têm direito ao seu espaço, à sua privacidade. E por que é que falo disto? Porque há sempre alguém que se sente no direito de mexer no cabelo dos nosso filhos, de fazer festinhas infindáveis sem perguntar se o pode fazer, de apertar as bochechas – e tudo isto quando ainda são bebés de colo.

Tenho uma amiga que quando estava grávida passava muito mal com o toque que as pessoas faziam questão de lhe impor. Ora, se uma pessoa está grávida, a barriga é para ser acariciada por todos, certo? Errado! Há mulheres que não gostam e têm direito a ser respeitadas. Eu aprendi a ir perguntando se posso fazer uma festinha, mas só o faço quando existe alguma proximidade entre a grávida e eu – mesmo sabendo que dificilmente a pessoa do outro lado diria “não, desculpa lá mas não vais fazer festinhas nenhumas nesta minha enorme barriga”. Seja como for, pergunto. E a pessoa sente-se consultada, como se importasse. E importa, porque o corpo é dela.

Curiosamente, esta mesma amiga teve um bebé lindo, ruivo de olhos azuis. Um verdadeiro chamariz. Na rua poucas pessoas não paravam para espreitar, falar, mexer. Ora, desculpem-me, mas isto do mexer na criança é igual a mexer-se na barriga. Se não é próximo, não toca. Se é próximo, tenha a sensibilidade de perceber se faz sentido, se é oportuno.

Porque daqui a dezasseis anos nenhuma destas pessoas vai ter a lata de chegar ao pé do miúdo no meio da rua e despentear-lhe o cabelo, dizendo que vai quebrar corações e que tem cá um olho mais lindo…

Se não o fazemos a adultos, porque o fazemos com as crianças?

Hoje, ia no metro com a minha filha e tinha o telemóvel na mão. Estava a guardá-lo na mala e ela viu-o. Pediu para segurar. Não deixei. Para mim telemóvel não é brinquedo e ela habitualmente não mexe nele. Ultimamente tenho cedido a deixá-la ver fotografias porque revive momentos que a marcaram, mas sempre comigo a supervisionar. Não tenho jogos, nem nunca tive. Sim, sou esse tipo de mãe, que nunca deu o tablet à filha nem o telemóvel para ela jogar. Mas adiante, ela ficou contrariada e começou a choramingar. Foi caminhando na plataforma, de mão dada comigo, a dizer que queria o pai. Cem vezes seguidas, sabem como é. “Quero o pai, quero o meu pai, o pai, quero o meu pai”. E a minha tolerância é grande mas sei que as pessoas à volta não têm de ser danos colaterais destas “birras”. Cheguei-me a um canto e baixei-me para estar ao nível dos olhos dela enquanto ela continuava com aquela choraminguice e estava a começar a falar com ela para a acalmar quando vejo uma sombra laranja que se aproximou e começou “Ah, que grande birra! Isso é tudo sono, queridinha? Dormiste pouco, foi?”. Interrompeu-me e não gostei. Nem olhei para a senhora, limitei-me a pegar na minha filha ao colo e avancei uns passos para poder, finalmente, falar com ela. Eis que vejo novamente a mancha laranja aproximar-se e desta vez a tocar no braço da minha filha para a ouvir com mais atenção. Mal começou a dizer “sabes uma coisa? Vem aí o homem mau e…”. Não a deixei acabar. Fiz algo que provavelmente deixaria os meus pais um pouco desiludidos, mas simplesmente afastei-me virando costas, sem olhar uma segunda vez para a senhora (nem olhei a primeira, não saberia sequer dizer que idade tinha, apenas que pela voz teria mais de cinquenta anos e, por isso, deveria saber o que estava a fazer). Fui, em marcha, a falar com a minha filha, que se acalmou e me explicou porque estava a chorar, consegui explicar-lhe por que motivo chorar quando é contrariada não ajuda, apesar de perceber que ela não consegue ainda expressar-se muito bem. Fiz ali o meu trabalho de mãe, mas muito a custo.

Não pude deixar de pensar, que a semelhança do rapaz ruivo, se fossem dois amigos de trinta anos a conversar, um deles mais abatido que o outro, a senhora JAMAIS se aproximaria e interferiria na conversa. E ainda bem.

Não tenho nada contra a interacção que naturalmente surge com as crianças, não me interpretem mal, mas se não têm nada de positivo para acrescentar, então dispenso, obrigada.

Houve muitas situações em que pessoas com boa energia se aproximaram e tentaram distrair a minha filha em algum momento, porque gostariam mais de a ver a sorrir do que a chorar. E essas serão sempre bem vindas.

Tenho sempre isto no fundo da minha cabeça quando interajo com os filhos dos outros. Saber diferenciar em que momento é apropriado ficar à distância e quando faz sentido fazer parte.

Acredito que todos juntos somos melhores. E não podemos ser melhores quando estamos rodeados de julgamentos, críticas e intervenções despropositadas.

E é esse o exemplo que devemos passar aos nossos filhos.

Para que o futuro seja bom, para que o mundo esteja cada vez mais povoado por pessoas que só multiplicam o bem.

imagem@weheartit

 

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