Era fim do dia e eu estava a ajudar o pequeno catita com os seus trabalhos de matemática da primeira classe. Mesmo no final dos trabalhos, apareceu o desafiante exercício 5 da página 14, enquanto o pequeno catita lutava para chegar ao resultado sozinho, eu mordia a língua para não lhe dar a resposta certa.

A cada minuto que passava, contorcia-me mais na cadeira. Era tão fácil. Tão óbvio. A solução estava mesmo ali. Só precisava dizer o resultado, e os trabalhos estavam acabados.

Uma parte de mim gritava para ter razão, para dar a resposta certa e durante 2 segundos ficar ofuscada com o holofote do “eu é que sei”. A outra parte, só queria ficar pacientemente calada, e dar-lhe tempo. Era de tempo e confiança que ele precisava para escrever, apagar, pensar, errar e tentar outra vez. Precisava de sentir que estava tudo bem, que eu confiava nas suas capacidades e que estava ali para o apoiar. Só assim seria possível aprender, descobrir e ganhar confiança em si próprio e nas suas decisões.

Sabes, sempre me disseram o que fazer, como fazer. Instruções e mais instruções da forma “certa” de viver a Vida. A comida certa, a roupa certa, a decisão adequada. Tudo era feito com muito amor e com as melhores intensões. Oferecido para me proteger e ajudar a ser uma “boa” menina. Mas na verdade, não ajuda nada. Tira-nos a nossa capacidade natural de caminhar pelo nosso pé. Perante qualquer pequena decisão que temos de tomar, sentimos que temos de consultar os pais, os amigos, a ajuda telefónica e meia dúzia de pesquisas no Google. Sentimos que a resposta está sempre fora de nós, e não dentro, o que nos tira um enorme poder e autonomia. Simultaneamente, se não conseguimos decidir, não somos capazes de lidar com decisões erradas. Como a decisão é sempre do outro, excluímos o nosso papel em todo o processo, o que compromete muito a nossa responsabilidade pessoal.

Ficamos à deriva, à espera da opinião mais acertada, ou da pessoa mais assertiva. E às vezes a pessoa mais assertiva, não está NADA certa.

Estamos sempre danadinhos para resolver os problemas dos outros. Para nos sentirmos úteis e importantes, necessários e admirados. A maioria das vezes, quando estamos a ouvir os problemas dos outros, disparamos mil e uma soluções milagrosas; “Tu devias…” “Se fosse eu…” “É muito simples…” Parecem ajudar, mas não ajudam. Dizem “tu não és capaz de chegar lá sozinho”. E, quando o dizemos muitas vezes, o outro lado acredita. Aí tem duas opções, ou rende-se, ou revolta-se. Nenhuma delas reforça, de todo, a qualidade da relação entre pais e filhos.

Eu sei que, tal como eu, amas o teu filho. E também sei, que é tão difícil transformar esse amor num comportamento amoroso para com ele. Há tanto que se mete no caminho… as nossas expectativas, a nossa infância, os nossos medos e os medos que temos em relação ao seu futuro. Os outros, as suas opiniões e olhares críticos. As nossas constantes incertezas de que estamos a fazer a coisa certa… de que estamos a ser “bons” pais.

Era de tudo isto que eu me estava a aperceber, enquanto mordia a língua e travava a solução do problema de matemática. Apercebia-me de que os processos e as aprendizagens são muito mais importantes do que os resultados. E, que a minha solução pode ser certa para mim, mas não ser certa para o outro. Sou eu que lhe devo dar a possibilidade e a confiança para encontrar a “sua solução”. Sou eu que devo acreditar nele, para que ele possa acreditar também.

É impressionante como quando estamos disponíveis, podemos com um pequeno exercício da primária, aprender tanto sobre a matemática da Vida.

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A experiência de ter filhos talvez seja uma das mais ricas da humanidade. É através das crianças que se perpetua o legado da humanidade tanto no sentido cultural como no que se refere à própria sobrevivência da espécie.

A sociedade consumista em que vivemos relaciona cada vez mais o amor que os pais podem ter pelos seus filhos aos bens materiais que estes proporcionam. Hoje, as crianças têm interesse e os seus “sonhos de consumo” estão muitas vezes relacionados com objetivos tecnológicos que são REALMENTE caros.

Mas a real felicidade de uma criança passa a anos-luz destas compras e, no final, o que no fundo importa para a criança é ter a presença de quem mais ama: uma presença de qualidade.

Abaixo apresentamos alguns exemplos de VERDADEIROS PRESENTES DE NATAL que os pais podem (e devem) dar aos filhos:

1. Tempo.

Um estudo publicado em childwelfare.gov descobriu que “Desde o nascimento, as crianças que têm um pai envolvido nas suas vidas, são mais propensas a ser emocionalmente seguras, a ser confiantes para explorar o que as rodeia e, à medida que crescem, têm melhores relações sociais com os seus colegas. Estas crianças são também menos propensas a ter problemas em casa, na escola ou no meio em que vivem.” Ter os pais envolvidos na sua vida é um melhor indicador social de sucesso, no futuro, do que ter dinheiro ou estatuto social. E isto já diz o suficiente.

2. Rotina.

Uma rotina estruturada, acompanhada, onde exista uma sequência organizada de atividades e em que se separa um tempo predeterminado, é de extrema importância na vida de uma criança, pois é através desta rotina que se criam vínculos afetivos, se garante saúde e se educa para a vida.

Muitos relacionam a rotina com repetição, falta de opção e monotonia, mas no dia-a-dia com crianças, as coisas têm de ser diferentes. A rotina é necessária, concordam vários especialistas.

“É importante para o desenvolvimento emocional da criança, para que ela se organize internamente”, explica a psicóloga Maria Cristina Gomes. “Sem rotina, os filhos podem transformar-se num grande problema”, diz o pediatra Glaucio de Abreu. “Ficam irritadiços, inconvenientes e chatos. Geralmente, não dormem nem comem bem, o que pode gerar problemas de saúde, como a desnutrição e a obesidade”. Mais tarde, segundo o médico, esta criança não terá uma boa produtividade, na escola, ou será um jovem com excesso de atividades, mais vulnerável ao stresse, porque não aprendeu a coordenar e administrar a vida, ou seja, todas as crianças adoram manter uma rotina estruturada, pois para elas representa segurança.

A rotina não deve ser vista como rígida e estática. Ela deverá, sim, ter uma espinha dorsal, mas com mobilidade, quando necessário.

3. Um animal de estimação

Os animais de estimação podem ensinar responsabilidade e compaixão às crianças. As crianças que possuem animais são significativamente mais empáticas e pró-sociais.

Os animais de estimação podem também proporcionar uma sensação de segurança e reduzir a ansiedade. Por estas razões, os animais são muitas vezes utilizados em terapias com crianças.

4. Um instrumento

Tocar um instrumento musical tem inúmeros benefícios para as crianças: desde melhorar a memória e capacidades matemáticas até à criatividade, à autoexpressão e à redução do stresse. Se o seu filho participar numa banda ou numa orquestra isso pode melhorar as suas capacidades sociais e ampliar o seu grupo de amigos. Alguns músicos iniciados acabam mesmo por seguir carreiras musicais.

5. Memórias

Só tem memórias quem vive e partilha momentos e, acredite, essas memórias não estão relacionadas com o valor gasto nessa ocasião. Os momentos mais felizes recordados por um adulto podem ser as lembranças dos pequenos almoços em que o pai lhe servia o leite, ou quando a mãe oferecia o colo após uma dificuldade. Não tenha dúvidas, experimente analisar as suas memórias e concluirá que, mesmo que um presente seja caro e muito atraente, nunca transmite a verdadeira mensagem que se quer pretende. Passados 20 anos, se uma criança esteve a brincar na sua praça, ou fez uma viagem à Disney, não terá a importância que parece ter hoje, desde que o tenha feito com os seus pais.

6.Limites

Ah, como os pais sofrem para dar este presente aos filhos (sofrem mais que os filhos). Lembre-se que são os limites que ensinarão os seus filhos a viver, que ensinam até onde ir sem colocar a vida em risco, ou qual o ponto que deve ser respeitado antes da pessoa se perder. Um bom pai deve entender que os limites serão os grandes alicerces que darão rumo na estruturação de uma personalidade saudável para que se forme um adulto com a capacidade de perspetivar a vida. Adultos maduros e que sabem ser mais tolerantes relativamente às adversidades da vida aprenderão, certamente, a lidar melhor com os limites.

7. Exemplos

Na função de pai ou de mãe, estamos sempre a ensinar, embora não nos demos conta. Ser honesto, paciente, tolerante, humilde, solidário, cuidadoso? Se passarmos a nossa vida a olhar para lá dos nossos próprios problemas, os nossos filhos irão certamente compreender. Não há dúvida, os filhos, na maioria das vezes, seguirão o nosso exemplo e esses exemplos serão o MAIOR e mais VALIOSO presente que qualquer pai ou mãe poderá oferecer ao seu filho.

E, é claro, se pudermos investir um pouco mais nesses contextos, será um mérito nosso e isso oferecerá a todos um maior conforto. Só não devemos inverter as prioridades!!!

Nota: ah, e um presente muito importante e que não precisa de explicações: Livros!

Imagem@wenji8

Por Josie Conti para o site Conti Outra, por Babelia Traduções para Up To Kids®

logobabelia

 

11 rastilhos para birras

Filha, vamos falar sobre as tuas birras.

Aquelas que rebentam com os nervos do pai e da mãe e te transformam num monstrinho que grita e dá pontapés no ar. Aquelas que nós pedimos tanto, mas tanto, para não as fazeres e mal acabamos de o dizer já estás tu a espernear ou a escorregar na cadeira enquanto jantamos.

Tu sabes que fazes muitas birras não sabes? Fazes birras por tudo e por nada, fazes birras de manhã, à tarde e à noite, fazes birras de sono, de cansaço e de aborrecimento. Na verdade eu acho que fazes birras porque gostas de te ver a chorar ao espelho, não é? Confessa, eu já te apanhei a sorrir para o espelho enquanto as lágrimas te caiam pela cara. Estás só a gozar comigo e com o pai, não é?

Se eu te disser alguns dos motivos das tuas birras vais-te rir ou vais fazer mais uma birra, que tu não gostas nem um bocadinho que gozem contigo, mas olha meu amor, birra por birra, que seja uma que eu já estou à espera.

Filha, tu fazes birras porque:

  1. querias os cereais na tigela roxa e eu dei-te os cereais na tigela cor-de-rosa; 
  2. pintei-te primeiro a unha do polegar em vez da unha do anelar;
  3. não vês o arco-íris há muito tempo;
  4. eu chego ao carro e digo-vos “Olá!” e vocês estavam a brincar ao silêncio;
  5. é de manhã;
  6. não te leio vinte histórias antes de dormires;
  7. o pai pegou primeiro no mano ao colo;
  8. queres comer chocolates ao pequeno-almoço;
  9. o vento despenteou-te o cabelo;
  10. se partiu o bico do lápis com que estavas a pintar;
  11. querias as batatas fritas em cima do guardanapo e não no prato.

E é isto, de manhã, à tarde e à noite, em casa, no carro e, na rua, todos os dias da semana. Tu sabes que nós somos os melhores pais do mundo, somos um nadinha nervosos e impacientes, mas somos sem dúvida os melhores, filha tem dó de nós, ouve o desespero da tua mãe, podes fazer menos birras por favor?

 

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A profissão do meu marido obriga-o a algumas ausências, às vezes em Portugal, outras no estrangeiro, às vezes só um dia ou dois, outras vezes quinze dias. Ainda não recuperei da viagem que fez este ano à Índia e em que eu fiquei a enlouquecer quinze dias com os miúdos.

Podia falar-vos do amor, do meu coração adolescente que fica sempre amarfanhado de saudades, das camadas de nervos que apanho enquanto ele está a voar, da falta que me fez ter um adulto em casa para conversar e adormecer comigo no sofá, mas vou antes falar-vos de quanto me é difícil estar sozinha com os miúdos e o que faço para tentar sobreviver às ausências.

Nós não temos aquelas ajudas tão preciosas dos avós ou dos tios por perto, que podem dar apoio ao final do dia ou numa emergência irem buscar os miúdos à escola. Quando estou sozinha com os miúdos significa que estou sozinha com os miúdos. E não é nada fácil.

(Um parêntesis para dizer que todas as mães solteiras, divorciadas, com maridos que trabalham no estrangeiro ou que por outro motivo qualquer navegam o barco sozinhas, são as minhas heroínas!)

Não é fácil não só pelas nossas rotinas, o meu marido faz o pequeno-almoço, lava-lhes a cara e os dentes, penteia o cabelo da mais velha, desce as escadas do terceiro andar com os dois ao colo, leva-me aos barcos e depois os miúdos à escola, vai às compras, vai buscar os miúdos à escola, vai buscar-me aos barcos e faz o jantar todos os dias, (sim, o meu marido é maravilhoso!), mas também porque os miúdos ficam doidos de saudades, fazem muito mais birras, estão muito mais impacientes e eu também confesso e é preciso uma calma que eu às vezes não tenho, para gerir as minhas emoções, as deles e ainda evitar que o barco vá ao fundo.

O que é que eu faço para sobreviver às ausências do pai?

  • Penso em todas as refeições que vamos fazer, para comprar o que for preciso com antecedência e evitar idas ao supermercado com os miúdos
  • cozinho coisas simples para conseguir que jantem sempre cedo, para, claro, irem dormir cedo
  • a roupa deles é sempre preparada no dia anterior, desde as cuecas ao gancho que a mais velha vai meter no cabelo
  • não dou banhos desnecessários, se é sexta-feira só tomam banho no sábado, se não tiveram ginástica, passamos o banho para o dia a seguir, está frio e os miúdos são se sujam tanto como isso
  • adormeço os dois ao mesmo tempo na minha cama
  • de manhã peço ajuda à mais velha o que a faz sentir crescida
  • aos fins-de-semana tento esquecer que tenho a casa para arrumar, faço o indispensável e esforço-me para os entreter, vale tudo, filmes, aguarelas, plasticina ou bolas de sabão, se não estiver a chover, é obrigatório pegar neles e sair umas horas para gastarem energia e pararem de gritar um com o outro.

E agora o mais importante, tenho sempre vinho em casa, chocolate e pizzas congeladas. Depois de os deitar, sempre o mais cedo possível, despejo um pouco de vinho num copo (que isto não se pode abusar quando estamos sozinhas), meto uma pizza no forno e, com a televisão no silêncio, sento-me no sofá no meu momento zen à espera que a pizza faça. Depois de jantar, é a loucura total, procuro nas gravações automáticas uma série daquelas de que toda a gente fala e que eu nunca vi, deito-me no sofá cheia de boas intenções e adormeço no segundo a seguir.

E é isto, até que o meu marido regresse a casa, o lugar onde estamos completos e onde me faz o jantar todos os dias.

imagem@jbaobao

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A ver uma fotografia minha e do pai:

– Onde é que eu estava quando tiraram aquela fotografia?

– Ainda não tinhas nascido.

– Estava na tua barriga?

– Ainda não.

– Então onde é que eu estava?

As questões existenciais têm sido uma constante. Onde é que ela estava quando eu nasci, para onde foi o gato que estava morto na rua, onde é que o irmão estava antes de estar na minha barriga, se há vida nos outros planetas ou só no nosso e porque é que o tempo passa. Diz também que a lua é o sitio onde está a avó do pai e que nunca vai querer morrer porque quer ficar com a família dela para sempre. Pede muitas vezes para eu a abraçar e prometer que a vou proteger de tudo. E eu digo que sim.

Ela ainda não sabe, mas eu sei que não a vou conseguir proteger de tudo, nem vou ter resposta para as questões que hoje vou respondendo como se estivéssemos num conto de fadas. A vida não é um conto de fadas, mas aos quatro anos ela ainda pode acreditar em sapatinhos de cristal, em princesas que com um beijo transformam sapos em príncipes, em bruxas más e meias-irmãs feias e malvadas.

Eu é que já não posso acreditar e penso muitas vezes naquele momento em que perdemos a inocência e a ideia da morte passa a viver connosco para sempre. Ainda me lembro da dor terrível e do desespero que senti da primeira vez que tomei consciência do fim, do meu e dos que amo. Um sentimento que só aliviou com o nascimento dos meus filhos e que me invade novamente com as perguntas feitas pela minha filha.

Eu não acredito em Deus, em igrejas ou religiões e talvez para quem não crê seja ainda mais difícil acalmar essa dor em nós e nos nossos filhos porque não tenho histórias bíblicas e paraísos para lhes oferecer. Talvez a religião sirva como um ansiolítico que nos acalma as angústias e torna o mundo um lugar mais fácil. Não sei, nunca experimentei esse sentimento porque, por muito que tente, não vejo mais do que aquilo que os meus olhos alcançam.

Um dia as perguntas dos meus filhos deixarão de poder ter respostas inocentes, o gato morto continuará morto para sempre e vai doer-lhes, como me doeu a mim e eu não poderei fazer mais que os amar e abraçar, como a minha mãe o fez a mim tantas vezes.

O amor não cura tudo, mas é a melhor ferramenta que tenho.

imagem@inforegi

Não sejas a miúda que vai no metro, ao lado das amigas, mas não tira os olhos do telemóvel.

Não te preocupes mais com a selfie em que pareces mais gira do que com a maneira como falas com a tua mãe.

Não digas que sim ao teu namorado só porque não estás com cabeça para discutir.

Não tires fotos ao jantar no restaurante com uma hastag toda pomposa quando te esqueces de dizer ao teu pai ou a quem quer que tenha feito o jantar em casa que está delicioso.

Não vejas sempre o lado negativo das coisas, nem te vitimizes.

Não sejas demasiado cruel ou exigente contigo, as coisas acontecem quando têm de acontecer e se puderes ajudar a que aconteçam, melhor – se não puderes então não te preocupes.

Não sejas aquela miúda que se esconde atrás do manto da sinceridade para dizer tudo o que pensa (doa a quem doer).

Não faças planos irrealistas, mesmo que tendes a chamar-lhes sonhos.

Não esperes dos outros o que não estás disposta a dar.

Não sejas imodesta, mesmo que sintas que és boa naquilo que fazes.

Não faças coisas só para que os outros reparem e te dêem palmadinhas nas costas.

Não faças vista grossa em situações de injustiça por teres medo de te envolver.

Não escolhas o caminho mais fácil porque parece mais rápido.

Não te menosprezes só porque os outros não vêem as tuas capacidades.

Não tenhas medo de dizer o que pensas, mesmo que isso signifique perderes alguma “popularidade”.

Não concordes com os outros se não estiveres a par do que se trata. Reconhece que não estás por dentro – e se te interessar o tema, investiga.

Não mintas a ti mesma sobre o que sentes.

Não finjas que não estás a ver aquela senhora com bebé ao colo nos transportes ou o senhor que tem dificuldades em manter-se em pé em pleno metro. Levanta-te. Faz a coisa certa.

Não aspires a ser perfeita.

Simplesmente não sejas pior miúda do que podes ser.

Não é tão difícil quanto parece.

Tu consegues.

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Mariana, Filha da Alienação Parental

A consciência vem com o tempo. E Mariana, nome fictício, ainda tem 9 anos. Não sabe o que significa Síndrome de Alienação Parental (SAP). Nem tinha de o saber. Mas, sente, todos os dias, embora, não o admita. Não o faz de propósito. Ela, tal como muitas das vítimas deste distúrbio de comportamento, ainda não se consegue soltar das amarras que lhe toldam o comportamento e a condicionam na relação com o pai.

Mariana, Filha da Alienação Parental foi programada, de forma subliminal, para o menosprezar desde o dia em que o pai ganhou coragem para sair de casa e pôr fim ao casamento.

Da boca da mãe é frequente ouvir expressões que desqualificam o outro progenitor: “o teu pai abandonou-nos, a ti e a mim, ele não presta, é um bandido!” Uma campanha de difamação ao serviço de uma intenção clara com fins perversos: tentar afastar a filha do pai e destruir o vínculo afetivo entre ambos. Chega a ser tão intensa e descarada a manipulação que, na escola, Mariana até deixou de usar o apelido do pai.

Longe da mãe, a menina já aprendeu, todavia, que não tem de ser o que, na casa materna, exigem que seja. Um grande passo no patamar da consciência.

De quinze em quinze dias, ao fim-de-semana, quando está com o pai é uma criança, aparentemente “normal” e dá sinais constantes de felicidade. Brinca, abraça o pai, beija-o. Diz que o ama. Escreve-lhe cartas, às escondidas. A mãe não pode saber.

É domingo. E o dia está a acabar. Cheira a despedida. Mariana faz a mala para regressar. Aos poucos, vai incorporando a personagem do costume. Serão assim os próximos 15 dias. Antes do último beijo, deixa para trás, os novos brinquedos que tanto gosta, sempre esquecidos, de propósito, no carro do pai, para a mãe não ver. Parece um relógio suíço.

Os números ainda estão por revelar. Não há contabilização estatística. Em Portugal, não se sabe, ao certo, quantas crianças, como Mariana, são reclusas da manipulação parental. Sabe-se, no entanto, que há cada vez mais casos de SAP identificados pelas comissões de proteção de crianças e jovens (CPCJ).

O perfil do progenitor que aliena o outro é variável. Segundo alguns estudos, a maior parte das vítimas são homens. Mas, também há mulheres. A alienação parental sempre existiu. É um crime que, em Portugal, não raras vezes, resulta impune, por falta de mecanismos legais de prevenção e punição. E pode gerar, de facto, um efeito devastador na vida das crianças.

Os sintomas ansiosos e depressivos são cada vez mais comuns e acabam, depois, por se refletir, não só ao nível das alterações comportamentais e psíquicas, como também, no rendimento escolar.

Algumas crianças podem mesmo desenvolver distúrbios psiquiátricos: depressão; ansiedade; fobias e medos variados; doenças psicossomáticas; baixa auto-estima; dificuldades relacionais e na capacidade de estabelecer vínculos amorosos, transtornos de identidade, entre outros.

A exclusão de um dos progenitores da vida do filho, como referiu a pediatra e psicanalista francesa, Françoise Dolto, “constitui a anulação de uma parte dele, enquanto pessoa, representando a promessa de uma insegurança futura, já que somente a presença de ambos permitiria que ele vivenciasse de forma natural os processos de identificação e diferenciação, sem prejuízos emocionais na constituição da sua personalidade“.

Tal como muitas crianças, Mariana é usada como instrumento da agressividade alheia. Uma arma de arremesso. Um pequeno exemplo, de 9 anos, de uma triste realidade, cada vez mais comum.

 

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Quando somos mães deixamos de ser donas da nossa vida. É o lado B da maternidade. Para lá dos sorrisos desdentados, do cheirinho a bebé, das primeiras palavras toscas, dos abracinhos doces e da magia de os ver crescer, existe um lado obscuro.

Por trás de cada mãe radiante com os seus pequenos milagres, existe uma mãe esgotada, carregada de sono e com falta de tempo para cuidar dela.

Quando engravidamos deixamos de ser donas do nosso corpo, isso é logo evidente desde a primeira consulta no obstetra. Tudo o que importa é que a mãe enquanto receptáculo do ser que carrega na barriga, coma apenas o suficiente para o fazer crescer e não engordar como um rinoceronte, que não ajavarde em açúcar para não ficar diabética, que faça todas as ecografias e exames de rotina e que se habitue desde logo a não dormir.

E dormir nunca mais vai ser o mesmo. Eu abri mão desse departamento assim que o meu filho nasceu. O que (não) durmo é da exclusiva responsabilidade do meu benjamim. Os filhos decidem quantas vezes vamos ser acordados durante a noite, se ficamos deitados ao pé deles em camas minúsculas para que parem de chorar antes de acordarem os vizinhos ou se temos direito a ir para a nossa cama dormir as poucas horas que faltam para o despertador tocar.

Acordar depois das seis e meia da manhã também passa a ser uma lembrança longínqua. Quando é que isso aconteceu pela última vez? Noutra vida. Os miúdos acordam-nos antes do sol nascer, somos arrastados para a sala, sintonizamos o Canal Panda, que é particularmente irritante àquela hora da manhã, e ficamos a amaldiçoar as escolas que não estão abertas ao fim-de-semana.

A conta bancária que um dia foi nossa passa a ser a conta onde está o dinheiro para gastar com os filhos. O dinheiro que antes seria para umas calças novas, para um fim-de-semana romântico, para jantar fora ou imaginem, para poupar, é sugado para os pediatras, para as vacinas, para as fraldas, para a farmácia, para as creches, para a ginástica, para a roupa deles. O que eles precisam (e não precisam) está sempre em primeiro lugar.

E a nossa vida profissional? O que dizer dela? Fica completamente à mercê das viroses que eles apanham na escola. Se eles vão para a escola ficam doentes, se eles ficam doentes nós ficamos em casa, se nós ficamos em casa não trabalhamos, se não trabalhamos a empresa diz que não fazemos falta, se não fazemos falta… Se noutras alturas podíamos mandar tudo mais alto que as estrelas, recomeçar e arriscar, com filhos todas as decisões são tomadas em função do que é mais seguro para eles.

Com filhos não há planos a dois que resistam. Ao planearmos uma escapadinha de fim-de-semana, um jantar romântico ou uma ida ao cinema, para além de termos que encontrar uma avó ou uma tia com disponibilidade, temos também que baixar as expectativas porque, de um momento para outro, um deles, ou os dois, pode adoecer e lá se vai o romantismo. E o sexo!

As férias deixam de ser férias, porque acreditem, os pais não têm férias. Estamos sempre de serviço, prontos a servir, vinte e quatro horas por dia. As férias acabam e nós precisamos de férias sem filhos. E adivinhem? Já não temos mais férias.

Sim, não desanimem, os filhos são o melhor do mundo, mas como diz a minha filha, não é disso que eu estou a falar.

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Mariana,

Foste hoje para a escola depois de um mês em que estivemos juntas praticamente vinte e quatro sobre vinte e quatro horas por dia.

Primeiro as férias no Algarve, depois o regresso a casa e a procura de uma escola substituta para aquela com a qual não nos identificámos e que não queríamos que frequentasses.

Hoje, depois de te deixar na escola, regressei a casa e encontrei silêncio. Não sabia que me ia aperceber dele, mas habituei-me aos nossos barulhos.

À televisão sintonizada nos desenhos animados (só ao pequeno-almoço, depois disso só está ligada para ouvirmos música), às tuas conversas com os bonecos, aos ruídos que fazias quando deixavas cair uma caixa, quando pousavas mal a bicicleta, quando rias a ouvir uma história, a tua atenção e perguntas pertinentes quando fazíamos actvidades-a-fingir-que-estamos-na-escola, ou simplesmente quando subias para a cadeira para me ajudar a cortar os legumes para a sopa.

Não estou habituada a este silêncio e fez-me confusão.

Sem ti há pouca vida cá em casa, é como se a música estivesse no pause à espera que regressasses para podermos saltar para o sofá e dançar.

Foram dias cansativos, para as duas. Foram dias atípicos, mas uma mãe habitua-se a ter os filhos debaixo da asa.

Hoje está a sobrar-me tempo para o trabalho e estou a demorar três vezes mais a fazê-lo.

E depois, é este silêncio.

Já liguei a música, abri a janela para deixar os barulhos da rua entrarem, para me esquecer que posso estar aqui sem me preocupar com a hora da sesta ou com um almoço que complemente o jantar.

É bom estarmos de volta aos nossos devidos lugares e sei que vamos entrar nessa rotina bem depressa (já entrámos, de manhã estava já tudo oleado para tomarmos o nosso pequeno-almoço sentadas, com calma para depois sairmos sem pressas), mas sinto falta do movimento, da correria, de estares a perguntar “e depois, o que vamos fazer?”, que é agora a pergunta de eleição.

Sei que vou almoçar. E depois? Vou continuar a trabalhar. E depois? Paro para comer mais qualquer coisa. E depois? Depois trabalho mais um pouco até serem horas de te ir abraçar.

E aí a música, mesmo que em forma de barulhos que não se complementam harmoniosamente, vai voltar.

E dançarei contigo.

Em cima do sofá, no chão, no jardim, no elevador.

Até que a música seja silêncio outra vez e eu anseie por ela.

Seremos parceiras de dança, mesmo que a música passe a ser apenas um murmúrio: nunca te deixarei esquecer que até sem música somos capazes de dançar.

Para sempre, meu amor.

imagem@weheartit

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Ensina aos teus filhos o que mais ninguém lhes vai ensinar.

 

 

As 10 coisas que eu mais detesto que os meus filhos façam:

  1. Birras;
  2. Birras;
  3. Birras;
  4. Birras;
  5. Birras;
  6. Birras;
  7. Birras;
  8. Birras;
  9. Birras;
  10. Birras.

A minha filha mais velha sempre foi especialista em birras. Desde as birras que com um mês fazia para mamar e para adormecer, às birras que faz com quatro anos porque não vê o arco-íris há muito tempo ou porque não quer ir para a escola porque está chateada com as amigas. Acorda todos os dias de mau humor (herdou os meus genes) e qualquer rabanada de vento a faz desatar num berreiro com cascatas a escorrer-lhe dos olhos.

Passou em força por todas as fases ditas terrible: terrible one, two, three e está no auge dos fucking four. Que vos digo já que dão quinze a zero aos terrible two. A parte boa é que não há birra que me surpreenda, tudo é motivo e a qualquer momento.

O que me tem lixado verdadeiramente por estes dias é que o meu filho, que de terrível só tinha o não nos deixar dormir há dois anos (coisa pouca), entrou a pés juntos nos terrible two. Um miúdo que mesmo não dormindo acorda sempre bem-disposto, que leva o dia a cantar e que tem um sorriso que ilumina o dia mais cinzento que já possam ter visto, tem ensaiado umas birras que me deixam louca.

Se por um lado as birras dos quatro anos são monstruosas, cheias de porquês e eu quero porque quero e pés a bater no chão, por outro as birras dos dois anos têm muitas lágrimas, muita baba, muito ranho e poucas palavras e eu já me tinha esquecido como era isto tentar adivinhar qual é o raio do motivo da birra.

Já vos disse que detesto birras?

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