A maternidade tem esta faceta curiosa – quase ninguém está disponível para te elogiar nos vários momentos em que dás o teu melhor enquanto mãe, ao passo que para te apontar o dedo nos momentos menos bons são muitas as vozes que surgem.

Toda a gente vê muita coisa, só vocês vêem o essencial.

Ninguém estava lá quando adormeceste o teu bebé e durante vários minutos o contemplaste a dormir.

Ninguém te viu a levantar várias vezes durante madrugada para dar colo, para procurar a chucha no meio dos lençóis, para levar à casa de banho ou mudar a fralda, para dar mama ou aquecer mais um biberão com leite.

Ninguém assistiu ao esforço que fizeste de manhã para te levantar da cama e ires ter com o teu filho com o “bom dia” mais feliz do mundo.

Ninguém reparou na paciência com que o vestiste de manhã e lhe lavaste os dentes após várias tentativas.

Ninguém sabe como te controlaste para não gritar enquanto o tentavas colocar no carro.

Ninguém viu as lágrimas presas nos teu olhos quando o deixaste na creche/escola.

Ninguém presenciou as brincadeiras que inventaste com o teu filho no parque.

Ninguém imagina como corres entre banhos, jantares, tarefas domésticas e ainda assim arranjas tempo para beijos, abraços e mimos.

Ninguém te viu a ler a mesma história três vezes e a cantar a mesma canção outras quatro.

Ninguém sabe como te sentes cansada, mas ainda assim consegues contornar uma birra explicando e desenvolvendo soluções em conjunto.

Ninguém sonha como amas o teu filho com todas as tuas forças, até com as que não sabias ter.

Mas toda a gente viu como ralhaste no hipermercado quando o teu filho corria pelos corredores.

Toda a gente estava a observar-te quando reviraste os olhos depois do teu filho te perguntar pela quinquagésima vez se podia atirar pedras para o escorrega.

Toda a gente assistiu ao momento em que atingiste o teu limite e acabaste por gritar com o teu filho.

Toda a gente se apercebeu quando estavas com menos paciência naquele dia, devido ao cansaço acumulado.

A maternidade tem esta faceta curiosa – quase ninguém está disponível para te elogiar nos vários momentos em que dás o teu melhor enquanto mãe, ao passo que para te apontar o dedo nos momentos menos bons são muitas as vozes que surgem.

A verdade é que o que toda a gente vê representa muito pouco do que vocês vivem; ninguém está presente 24 sobre 24 horas para assistir a tudo e fazer uma avaliação justa. Desta forma, a única avaliação fidedigna é a que tu e o teu filho fazem, pois só vocês vivem esta relação.

Toda a gente vê muita coisa, só vocês vêem o essencial.

Ontem ouvi-te a falar com uma amiga sobre como são difíceis os dois anos!

Fiquei feliz. Pensava que não compreendias e fiquei muito feliz por saber que percebes o quão difícil são os dois anos.

Não é à toa que chamam a adolescência dos bebés, porque é mesmo isso. É uma fase de descobertas e de mudanças.

É a fase em que descubro que afinal também tenho vontades, também tenho direitos e acredita que é muito difícil para mim tentar controlar a forma como me expresso. E é por isso que há as birras, mãe.

É que, agora que descobri que posso fazer e mexer em muitas coisas, é quando me proíbem mais de as fazer e eu não percebo porquê.

Eu não te quero chatear…

Gosto muito mais quando estamos os dois a brincar em sintonia. Às vezes não percebo porque é que não posso brincar com tesouras, ou atirar água um ao outro… Fizemos isso na praia lembraste? E tu riste-te. Eu gosto tanto quando te ris comigo, mãe. Não percebo porque é que quando te atirei com a água em casa no outro dia ao jantar, ralhaste comigo.

Sabes mãe, também não percebo porque é que temos de ir para a cama. Estamos tão pouco tempo juntos. Gostava que ficássemos a brincar os dois para sempre, sem nunca ter de dormir.

Mas acho que isto faz parte da descoberta. Ainda estou a tentar descobrir o que posso ou não fazer para que fiques sempre a sorrir comigo sem te zangares.

Por isto é que fico feliz que percebas o quão difícil são os dois anos, e tudo aquilo que está a mudar.

Já queres que eu coma sozinho e sem entorna. Mas às vezes distraio-me e fico a brincar com a comida. Mas temos que comer depressa não é? Tu estás sempre a dizer para me despachar…

Agora também tenho que fazer xixi como tu e o pai, quando até agora podia fazer na fralda que simplesmente tu trocava. Eu tento mãe, mas às vezes quando estou a brincar não quero parar e depois zangaste comigo.

E antes, quando nos zangávamos, deixavas-me usar a minha chucha e o meu boneco. É que, sabes mãe, eles são meus amigos e ajudam-me quando estou triste. Ajudam para que tudo fique bem. Não percebo porque é que agora estás sempre a esconder a minha chuchinha e o meu boneco…

Ah e mãe, só mais uma coisa… Eu gostava tanto de beber o leitinho quentinho ainda na cama no biberon… Não me obrigues a ir para a mesa beber na caneca…

Não tenhas pressa que eu cresça. Não dizes sempre às tuas amigas que o tempo passa a correr? Então aproveita-o!

Mas, mãe, só queria dizer que fico muito feliz que percebas como os dois anos são difíceis para mim. Obrigada pela tua paciência!

 

Do teu filho

 

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Férias com filhos: expectativa vs realidade

Como eu queria (e merecia, porra) que fossem as minhas férias

Não ter hora para acordar. Uma praia paradisíaca com areia branca e água quente. O sol a queimar-me a pele. Almoços com vista para o mar. Uma pulseira de livre-trânsito para o bar no pulso e um cubano a servir-me daiquiris. Massagens relaxantes no spa do hotel. Jantares demorados, mergulhos na piscina fora de horas e sexo sem hora marcada. Muito sexo.

Como vão ser as minhas férias

Os miúdos vão acordar antes das sete da manhã. Eu e o meu marido vamos ver quem finge durante mais tempo que não os está a ouvir.

Não evitando o inevitável, levantamo-nos da cama, tomamos o pequeno-almoço, vestimos os fatos de banho, metemos protetor solar. Agarramos em dois chapéus-de-sol e chegamos à praia quando ainda está aquele friozinho da madrugada.

Estendemos as toalhas. Despimos os miúdos que vão gritar que está frio (eu não tinha reparado) enfiamos os chapéus naquelas cabeças e gritamos dezenas de vezes para que não os tirem.

Vamos estar em alerta constante para eles não correrem para a água sozinhos e para não falarem com desconhecidos. Não podemos esquecer-nos de reforçar o protetor solar enquanto os miúdos esperneiam que querem ir encher outra vez o balde com água e assim que começa a ficar aquele calor capaz de nos tirar a cor de lixívia das pernas, temos que pegar nas toalhas onde não sentámos o rabo, nos baldes e pás e ancinhos e o diabo que eles quiseram levar para a praia e regressar a casa a tempo de aturar várias birras de sono.

Um faz o almoço, o outro dá os banhos. Pomos a mesa, almoçamos com as birras a atingir o auge do cansaço e tiramos à sorte quem se vai deitar com eles a dormir a sesta até chegar a hora em que o sol já não queima para irmos para a praia outra vez.

Chegada a hora lanchamos, vestimos os fatos de banho, metemos protetor solar sabe Deus porquê, que a esta hora o sol já nem cócegas faz, pegamos num chapéu-de-sol e lá vamos nós.

Chegamos à praia cheia de miúdos a correr por todo o lado. Encontramos por milagre um espaço para estender as toalhas. Despimos os miúdos. Enfiamos os chapéus naquelas cabeças e gritamos dezenas de vezes para que não os tirem (onde é que eu já li isto?).  Vamos estar em alerta constante para eles não correrem para a água sozinhos e para não falarem com desconhecidos. Vamos estar de rabo para o ar a fazer piscinas à beira mar e com sorte damos um mergulho ou dois.

Quando até estamos a gostar de estar ali, os miúdos vão estar a arrastar-se de sono e pegamos nas toalhas onde não nos deitámos a ler um livro, nas bolas, baldes, conchas e quilos de areia e regressamos a casa para mais um dose de banhos, birras e o Deus nos ajude do costume.

Jantamos, adormecemos os miúdos e com sorte vamos sentar-nos no terraço a beber uma bebida qualquer que comprámos no supermercado. Porque não, não temos um cubano a servir-nos daiquiris, enquanto deitamos conversa fora até admitirmos que estamos exaustos e irmos dormir sem termos sexo.

Faltam quinze dias para as minhas férias.

Sim, estou a contar? Porquê? Porque sou parva, os pais não têm férias. A única diferença entre as férias e os dias normais é que aturamos os miúdos num lugar diferente.

Eu sou a mãe perfeita que comeu sushi e marisco na gravidez!

Eu sou a mãe perfeita que não amou loucamente o filho no segundo em que nasceu (ainda que o ame loucamente agora)

A mãe perfeita que só amamentou até aos 4 meses, e ainda assim lhe deu leite adaptado!

Eu sou a mãe perfeita que foi a correr para as urgências quando ele teve a primeira febre! Que chorou baba e ranho nos primeiros 15 dias!

Eu sou a mãe perfeita que viu o filho cair com a cara no chão, a centímetros das minhas mãos! Que já deu frutas de boião do supermercado (tantas vezes)!

A mãe perfeita que de vez em quando o deixa comer bolachas, estrelitas e pipocas!

Eu sou a mãe perfeita que já se chateou à séria com ele!

Eu sou a mãe perfeita que tem, quase sempre, a casa por arrumar, pó nas prateleiras e loiça por lavar! Que veste calças só para não ter que fazer a depilação! Que já esperou que o pai chegasse a casa para mudar a fralda! (enquanto não chegar aos joelhos, vale tudo)

Sou a mãe perfeita que já fingiu não o ouvir enquanto estava no banho, para que o pai fosse lá!

A mãe perfeita que já ficou na cama a dormir, enquanto o pai e ele se levantaram e foram brincar para a sala! A mãe perfeita que já o deixou com a avó para ir jantar fora!

Eu sou a mãe perfeita que o deixa comer terra ou areia e perceber por si próprio que não é lá muito agradável! Sou a mãe perfeita que nem sempre tem paciência para brincar! A mãe perfeita que, por vezes, quer apenas ficar a ver televisão.

Eu sou a mãe perfeita que às vezes o deixa dormir na minha cama só para não ter que o ir pôr na dele! Que nunca atinei com um marsúpio/sling  (ou lá o que chamam àquilo)! Sou a mãe perfeita que já o deixei dormir no carro!

Eu sou a mãe perfeita! E para quem tenha dúvidas perguntem-lhe a ele, quem seria para ele a mãe perfeita!

Aposto que a resposta, sou eu!

Às vezes basta estar presente

A felicidade da minha filha de quase quatro anos é algo “fácil” de alcançar. Basta a perspetiva de uma ida à praia, de um passeio de barco, de irmos visitar a bisavó, de iniciarmos a leitura de um livro novo antes de deitar, de contar os dias para os quatro anos para poder ter um passe para usar no metro…

Tento que a felicidade lhe surja devido aos sentimentos que tem quando está a fazer alguma coisa ou na presença de alguém.

Tento que valorize os abraços tanto quanto uma ida ao teatro.

Tento que goste de estar com as pessoas, mesmo que não haja grandes planos de saída de casa.

Gosto que venha brincar comigo para a cozinha quando preparo o jantar e, para isso, venha carregada com a artilharia de brinquedos para ficarmos bem rodeadas as duas enquanto conversamos.

Gosto que fique feliz quando me digo orgulhosa de uma sua conquista.

Quando me vê chegar à escola. Quando vê que o lanche é maçã, que era mesmo o que lhe estava a apetecer.

Quando consegue subir sozinha para o baloiço e baloiçar sem ajuda, ainda que não consiga chegar ao chão e me vê aplaudir e ficar feliz também.

Tento que se lembre que acordar de manhã junto a quem gosta dela, a abraça e a beija é suficiente.

Que entenda que nada lhe falta e, por isso, é sortuda.

Que é bom conversar, verbalizar o que sente, mas que não quero que se preocupe com o que não tem de se preocupar: para ser adulta estou cá eu.

Orgulho-me de a ver feliz a correr na relva, a subir às árvores, a comer um pedaço de pão. A encontrar um amigo no jardim e a fazer conversa. A oferecer os seus brinquedos e a combinar brincadeiras sem ser preciso incentivar.

A lembrar-se da prima quando lhe dou algo do Frozen e me pergunta se não posso comprar igual para ela, porque ela gosta mesmo muito da Elsa.

Que as pessoas que nos encontram no caminho para a escola sorriam ao vê-la cantar, alegre, logo pela manhã e lhe digam que esperam que ela continue bem disposta e feliz.

Porque ela é.

Com as pequenas e com as grandes coisas.

Espero continuar a ter um papel activo para que não se esqueça da importância das primeiras e a aprender a relativizar as segundas.

A felicidade está no que fazemos com o que temos, o que somos, o que a vida nos dá.

Às vezes bastava que nos lembrássemos de dar a mão a quem está ao nosso lado.

Porque tantas, tantas vezes, a felicidade é apenas estar lá.

Não tenhas medo…

De olhar para a barriga a crescer e de sentir que ainda não te sentes preparada. Que talvez devesses ter esperado mais tempo e que ser mãe talvez tenha sido um passo precipitado.

Não tenhas medo desabafar que o parto te assusta, que tens receio da dor e/ou da recuperação.

Não tenhas medo de admitir que não foi amor à primeira vista. Que não sentiste o que supostamente toda a gente diz sentir durante as primeiras semanas de convívio com o bebé. Que precisaste de tempo para que a relação se fosse construindo e para que o amor fosse crescendo.

De dizer que estás cansada. Que tens saudades de dormir, que te doem as mamas e as costas.

Não tenhas medo de expressar como por vezes (ou muitas vezes) te sentes só.

De dar colo e de deixar o bebé dormir junto a ti.  De o transportar encostado ao teu corpo, de criar recordações e permitir que ele saiba que o amas.

De nem sempre acertar à primeira, de enfrentar palpites alheios e seguir o teu instinto.

Não tenhas medo de chorar e expressar o teu receio em estar a falhar. De por vezes dares por ti a sentir que não foste talhada para ser mãe, de te sentires enganada por nunca ninguém te ter falado do lado menos cor-de-rosa da maternidade. A dada altura todas sentimos o mesmo, no entanto a maior parte tem medo de falar sobre isso.

De pedir conselhos, delegar tarefas e aceitar apoio. Não és nem serás menos mãe por isso, serás sim uma mãe sensata que poupa recursos e os despende naquilo que realmente importa.

Não tenhas medo de contrariar os modelos parentais com que foste criada se pelo caminho descobrires outros que te façam mais sentido.

Não tenhas medo de constatar que não és perfeita, és apenas uma mãe real.

Não tenhas medo de dar o teu melhor. De admitir que apesar de tudo nunca foste tão feliz. De abraçar os teus filhos e de lhes dizer que os amas eternamente.

Não tenhas medo de reconhecer que és a melhor mãe que os teus filhos podiam ter, pois só tu (e o pai) os conheces e os amas como ninguém.

Acima de tudo, não tenhas medo de ser mãe e de sentir e expressar tudo o que faz parte da maior aventura da tua vida.

Fármacos e Gravidez

IODO, ÁCIDO FÓLICO E AFINS

Normalmente, na gravidez, o que está padronizado é apenas a toma das vitaminas normais para esta fase da vida da mulher. São elas o ácido fólico. O ácido fólico ajuda na formação correta do sistema nervoso do feto. O iodo foi introduzido como suplemento há bem pouco tempo atrás, pois chegou-se à conclusão, depois de alguns estudos realizados que, em Portugal tínhamos algum défice de iodo. A falta de iodo é prejudicial para o bebé.

ENJOO

Por vezes, existe a necessidade da toma de anti-eméticos. Quando há muitos enjoo, normalmente no primeiro trimestre da gravidez. Mas estes devem apenas ser adquiridos quando o médico assim o aconselha.

FERRO E MAGNÉSIO

Depois, em algumas situações existe a necessidade da toma de ferro ou magnésio. Existem médicos que prescrevem estes fármacos. Normalmente, isto acontece, depois de analisarem os resultados das análises de sangue da grávida. O magnésio é prescrito normalmente para cãibras e também outras funções mais específicas.

AZIA

Noutra fase da gravidez, podem acontecer sintomas de azia. Existem médicos que, por vezes, aconselham os anti-ácidos quando a azia é muito intensa e incomodativa.

OUTRO FÁRMACOS

Posso também focar aqui algumas situações muito particulares. Há alturas, em que pode ser necessário uma grávida tomar um antibiótico, por conselho médico. Como, por exemplo, quando tem uma infecção urinária grave. Mas isso deixemos para a parte médica. Aconselhem-se com eles, só eles saberão analisar o vosso caso em particular. Outra situação particular prende-se com o facto de algumas grávidas, já para o final da gravidez, sofrerem de obstipação neste caso podem precisar de algum fármaco para as ajudar a evacuar.

Por isso, o que aconselho sempre, é que não se auto-mediquem.

Mesmo que a outra pessoa que conhecem também esteja grávida e também esteja a tomar aquilo não quer dizer que vocês o possam tomar. O melhor será sempre que se dirigir a um profissional de saúde e tirarem todas as dúvidas.

O estado de gravidez é um estado transitório que o nosso organismo passa e por isso deve-se ter cautela e antes de tudo devemos-nos informar com alguém que nos possa aconselhar convenientemente e em quem confiemos.

Sem tempo para ser mãe

Provavelmente sempre que te imaginavas a ser mãe projectavas-te a dar colo ao bebé. Vias-te presente nas suas primeiras conquistas, a alimentá-lo, a partilhar momentos de ternura e carinho. A incentivá-lo a explorar o meio, a protegê-lo nos momentos em que se sentisse inseguro, a consolá-lo quando chorasse.

Acreditavas que estarias sempre lá, para amar e cuidar, sem restrições.

Provavelmente à noite deitas a cabeça na almofada e choras por não estares a cumprir o que prometeste. Cada lágrima tem o seu motivo – uma por não estares lá quando deu os primeiros passos, outra por teres perdido aquele momento em que se riu vezes sem conta. Mais uma por não teres sido tu a dar colo quando se assustou e chorou. Ainda outra por teres chegado cansada e teres ralhado desnecessariamente. Por fim um mar delas por sentires que estás a falhar enquanto mãe. Sentes-te sem tempo para ser mãe.

Provavelmente acreditas que não estás a ser quem deverias ser. Que trabalhas demasiado, que estás sempre ocupada com outras coisas, que dás tudo de ti em tarefas que não são essenciais. Não estás onde queres, não vais para onde queres, não fazes o que queres, não és quem queres ser. És aquela mãe sem tempo para ser mãe.

Entre chegar a casa, dar banho, fazer o jantar e preparar as coisas para o dia seguinte, ficas com a sensação de que não estiveste verdadeiramente com o teu filho, quase como se vivesses a realidade em modo automático. Dás por ti a pensar que o tempo passa a correr. Que os momentos são únicos e que não podem ser recuperados. Que a melhor parte da tua vida não está a ser vivida. Que te está a escapar por entre os dedos, que estás a permitir que o dinheiro se sobreponha à felicidade.

Provavelmente és perseguida pela culpa, aquela que te bate constantemente à porta.

A que durante o dia te sussurra ao ouvido que, naquele exacto momento, o teu filho deve estar a aprender uma coisa nova e que, mais uma vez, não estás lá para assistir. Porque te sentes sem tempo para ser mãe.

Ao vê-lo dormir, tão sereno e inocente, sentes uma vontade enorme de lhe pedir desculpa por tudo e, ao mesmo tempo, por nada. A raiva apodera-se de ti – Estou farta desta vida injusta! Por que não tenho direito a viver o papel de mãe?

Provavelmente existe um desequilíbrio entre a mulher e a mãe. – A mulher, mais especificamente trabalhadora, está a sufocar a mãe, ocupando mais espaço e  roubando-lhe a oportunidade de se desenvolver e afirmar.  É esta repressão da mãe que faz com que te sintas insatisfeita. Afinal, não vives em pleno todos os teus papéis!

Provavelmente gostavas que no final do texto aparecessem algumas dicas mágicas de como mudar a situação.

A única coisa que está ao meu alcance é dar-te algumas certezas que talvez te aliviem.

A primeira é que somos muitas a sentir o mesmo, a pensar o mesmo e a viver o mesmo. Acho que esta é uma espécie de condição inerente ao papel de mãe – a culpa e a maternidade tendem a andar de braço dado.

A segunda certeza é a de que não estás a falhar. A culpa não é tua, fazes certamente o que tem de ser feito com as oportunidades que acreditas ter.

A última certeza, e na minha opinião a mais importante, é a de que quando estás com o teu filho dás o teu melhor e é isso, mais do que a quantidade de tempo que passam juntos, que fortalece o vínculo (relação) que vos une. É um cliché, eu sei, mas realmente aplica-se a velha máxima de que a qualidade é melhor do que a quantidade.

Acredita que se naquele tempo em que estão juntos, ainda que seja pouco, o teu filho sentir que as suas necessidades são escutadas, que as suas vontades são compreendidas (ainda que não sejam cumpridas),que as suas limitações são respeitadas, que lhe é dado incentivo para explorar o meio e ao mesmo tempo um porto seguro para onde regressar caso deseje, ele terá a confirmação de que realmente é amado e está seguro.

Tal como todas nós, estás a dar o teu melhor. Não te culpes por isso, orgulha-te!

Somos fruto de uma soma, não de divisão

Acredito que todos temos um propósito, que viemos ao mundo – seja por quanto tempo for – para o transformar de alguma forma.

Há quem passe uma vida inteira sem perceber qual o sentido de andar por cá, sem por isso se aperceber que provavelmente está a ensinar a alguém lições valiosas.

Somos a soma do amor que em nós foi depositado, dos planos que foram feitos, mesmo quando não fomos planeados ou “desejados”.

Somos a soma das nossas experiências, das nossas escolhas, das pessoas que tivemos e temos à nossa volta.

Somos para os nossos filhos muitas vezes mais do que os nossos pais foram para nós e, outras tantas, menos.

Ensinamos como sabemos, às vezes sem saber ensinar.

Lamentamos coisas erradas, agarramo-nos a sentimentos e por vezes a coisas. Deixamo-nos ir abaixo, erguemo-nos e caminhamos, mancos ou com energia, conforme a vida e o destino nos deixam.

Cometemos os mesmos erros repetidamente, conseguimos inclusivamente saber antecipadamente que o vamos fazer e gostaríamos de o poder evitar. Noutras alturas evitamos esses erros e sentimos alguma glória nessa conquista, que nos enriquece.

Fraquejamos, rimos, choramos. Muitas vezes sozinhos.

O nosso caminho é solitário, mesmo quando temos uma família grande, quando estamos rodeados de amigos e temos filhos, um, dois ou cinco. Porque o nosso caminho é feito pelas nossas pernas e os “pesos” que carregamos por vezes fazem-nos demorar mais um pouco em alguns lugares, outras vezes permitem-nos ficar onde somos esperados. Mas o nosso caminho só pode ser feito por nós.

Temos a responsabilidade de deixar aos nossos filhos algumas respostas que os nossos pais não nos deram.

Temos a responsabilidade de, à nossa maneira, deixar o mundo diferente do que o encontrámos, preferencialmente melhor.

Temos a responsabilidade mas também temos as recompensas, se as soubermos identificar, se com elas conseguirmos sorrir e agradecer.

Às vezes esquecemo-nos de valorizar as pequenas conquistas do nosso dia a dia.

De agradecer o que de bom temos, mesmo que seja muito pouco. Porque por mínimo que seja, está lá e faz de nós humanos. Faz de nós pais que querem o melhor para os seus filhos e eles só serão seres humanos melhores que nós se lhes mostrarmos o caminho.

Em muitos casos isso não será suficiente.

Haverá filhos que não deixarão os seus pais orgulhosos.

Haverá filhos que terão caminhos que são um “retrocesso” em comparação com o que foi trilhado pelos pais (e não, não falo de conquistas financeiras, de trabalho, estudos, casas ou número de carros na garagem e carimbos no passaporte).

Haverá filhos que vieram fazer uma viagem diferente da nossa.

Com outro propósito, com outras lições.

Com uma vida aparentemente triste, por vezes.

Mas enquanto mãe, se for esse o meu caso, quero sentir que a vida que trouxe a este mundo tem um significado e o sabe. Que sabe que foi amada e o será para sempre, enquanto viverem as pessoas que cresceram do seu lado.

Que mesmo que o seu percurso não seja tudo aquilo que está escrito nas estrelas ela viveu e não ficou presa às expectativas, aos sonhos alheios, ao que a sociedade esperava que fizesse só para se encaixar no padrão.

No fundo, acho que todos viemos a este mundo com a missão de nos encontrarmos.

E alguns, os mais sortudos de nós, encontram-se uns aos outros no caminho.

E isso já valeu a pena.

Mãe, estás contente?

Os nossos filhos vêem-nos como somos e não como achamos que somos.

Muitas vezes, ao longo da vida, enganamo-nos. Enganamo-nos para continuarmos o nosso caminho sem nos sentirmos tão culpados por aquilo que fazemos e que sabemos que deveríamos fazer de outra maneira.

Ao longo da vida enganamos os outros, voluntária ou involuntariamente, pelo simples facto de aceitarmos a opinião que os outros têm de nós sem a corrigirmos, principalmente quando essa opinião é positiva.

Com os filhos não há nada disso.

Podemos saltitar de pedra em pedra mas eles sabem que não estamos a voar.

Vêem-nos como super heróis por fazermos coisas que a eles ainda são inacessíveis, vêem muitas vezes as nossas qualidades quando duvidamos delas, e muitas vezes apontam os nossos defeitos quando menos esperamos.

“Mãe, por favor, não fiques zangada. Não quero que fiques zangada”.

Esta frase tira-me metade do coração quando a oiço.

E às vezes ela chega para me lembrar que quando chamo a minha filha à atenção ela vê o que eu não vejo, porque estou dentro de mim. Ela vê o cansaço, ela vê alguma impaciência, ela vê alguma tristeza.

Acho que é importante que ela perceba que os seus actos têm consequências, acredito que ela tem de perceber que quando me magoa deve ter à sua frente alguém que demonstra os seus sentimentos sob pena de crescer a achar que a mãe foi sempre um muro de aço perante as coisas menos boas da vida e que demonstrar os nossos sentimentos é uma fraqueza. Não é, pelo contrário.

Mas quando ela me vê naquela culpa e tristeza sinto ainda mais culpa e mais tristeza, essa sina eterna das mães.

Quero que perceba que as coisas não desaparecem segundos depois de acontecerem, mas não quero que tenha receio que eu me zangue. Quero que faça as coisas, tome as suas decisões pelos motivos certos e não com medo de me deixar triste.

Sei, também, que há alguma inevitabilidade em crescermos a não querermos desiludir os nossos pais e que isso faz parte.

E por isso, ao ver-me ao espelho quando me zango, através dela, através da forma como ela me vê, sei de imediato aquilo que tenho de tentar mudar.

E é por isso que o diálogo é tão importante.

E é por isso que a pergunta “estás zangada?” nunca é seguida de um “mas é claro que sim”, um virar de costas e ir embora.

Eu fico. Eu baixo-me para falar com ela a olhá-la nos olhos. Eu explico o que estou a sentir e porquê. Explico o que acho que devia ter acontecido de outra forma, muitas vezes inclusivamente falando do eu EU deveria ter feito de outra forma, porque aqui não há só um culpado.

E depois abraçamo-nos. E ela, sem falhar, pede desculpa se tem de o pedir e jura que não volta a fazer.

Já percebi que uma das coisas que mais desespera a minha filha é sentir que me falhou.

Mas ela não me falha. Simplesmente está a crescer. E crescer custa, dá trabalho e é um percurso recheado de bons e maus momentos.

Seguimos caminhos errados, testamos limites, somos diferentes do que esperamos que sejamos.

E isso não vai mudar, porque hoje, aos trinta e dois anos, continuo a fazer o mesmo que ela aos quase quatro.

E por isso quero que ela sinta que não vou fingir que não vejo quando ela age de forma errada, mas quero que saiba, que sinta, que não tenha  menor dúvida que, principalmente nesses momentos espero por ela para lhe dar a mão e encontrarmos uma maneira de melhorar. As duas.

Ser mãe não é fácil, principalmente porque também nós estamos a seguir o nosso percurso, a evoluir, a mudar, a encontrar novas ferramentas, novas convicções.

Ser mãe não é fácil pelo que se espera de nós, pelo que esperamos de nós.

Mas sabermos que não fazemos esse crescimento sozinhas ajuda.

E eu não estou sozinha porque a tenho a ela, a aprender comigo e a ensinar-me mais do que dezassete anos de escolaridade me ensinaram.

E não, meu amor, não estou zangada. E se estiver, passará.

Porque tudo passa, menos nós.

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