Calma, calma! Não se virem já assim de repente contra mim… O Não tenham filhos tem um contexto e têm de ler até ao fim!

O que digo tem um motivo:
Ser mãe é espectacular… é fantástico todos os dias, é sentirmo-nos especiais e ter connosco um ser especial que foi gerado por nós! É um sentimento incontrolável… Mesmo que um dia os nossos filhos venham a ser tudo o que nunca imaginámos é impossível deixar de gostar deles como só uma mãe gosta!

Sim, só uma mãe!

Não há qualquer tipo de sentimento que se possa ter igual ao amor de mãe! Não há e pronto!
Porque é que eu recomendo que não tenham filhos?! Porque parte-nos o coração… Este sentimento incontrolável, esta sensação de pertença, este apegar tão forte, dá cabo de nós!

Mesmo… Senão vejam só:

  • Vacinas
    Começam cedo e custa imenso! Sabemos que estamos a fazer o melhor para eles, mas que lhes dói e que eles vão chorar e vão ficar super tristes com o que lhes estão a fazer. Ainda assim nós mães, temos que os levar às vacinas, e segurar neles e assistir aquela picada implacável…
  • O choro deles dói
    Das piores dores que se pode ter… Não há dor de parto comparável… o que dói mesmo é ouvi-los chorar, saber que não estão bem e não saber o que fazer… São facas espetadas no coração…
  • 1º Dia de Escola/Cresce
    Mais tarde ou mais cedo vai acontecer… O 1º dia de escola… O verdadeiro corte do cordão umbilical… Aquele primeiro dia em que não estamos com eles o dia todo para dar miminhos… Aquele dia em que os confiamos a estranhos e pairamos o dia todo a pensar se estarão bem, ou a chorar, ou coisa assim…
  • Eles vão ficar doentes
    Mais uma vez, é tudo uma questão de tempo… Vai acontecer… Eles vão ficar doentes e nós vamos desesperar por não conseguir transferir os seus males para nós! Sim, qualquer mãe tomaria o lugar do seu filho… Qualquer mãe lutava contra as piores doenças do mundo se isso garantisse que o seu filho nunca teria uma mínima febre…
  • Eles vão achar-nos chatas!
    Todos passam por esta fase… Nós mães temos esta cruz. Vamos ser as mães chatas que ditam a hora de ir para a cama, que obrigam a vestir o casaco, que se zangam para eles comerem, que decidem que já chega de brincar… Sempre a pensar no bem deles, cabe-nos este papel chato e eles vão ficar chateados connosco. E só de pensar que eles ficam chateados ou tristes connosco…
  • Eles vão cair
    Cair milhões de vezes de todas as formas e feitios… Desde as primeiras quedas que acompanham os primeiros passos, passando pelas quedas mais fortes nas macacas, até às “quedas” de crescidos quando não conseguem atingir um objectivo… Eles vão cair e vão precisar do nosso colinho e beijinhos mágicos para passar a dor… Mas vê-los cair é mais uma vez doloroso…
  • Eles vão voar: Sim voar!
    Quando olhamos para estes seres pequeninos e doces a quem demos a vida, nem nos lembramos que são pequenas pessoas que um dia seguirão o percurso normal da vida… Aquele que nós fizemos… Vão crescer, viajar, sair de casa e constituir a família deles… Vão deixar o ninho! E se custa o primeiro dia de creche em que estamos umas horas sem eles, chegará o dia em que estaremos dias a fio sem eles… É o decorrer natural da vida!
    Eles vão voar e deixar de ser nossos…

Ser mãe é uma dádiva e eu não a trocaria por nada, mas a verdade é que ser mãe parte-nos o coração aos pedaços milhares de vezes… Isto porque a entrega é total!
Ele não é MEU filho… Eu é que sou SUA mãe!
Toda e completamente SUA! Para sempre.

A ver uma fotografia minha e do pai:

– Onde é que eu estava quando tiraram aquela fotografia?

– Ainda não tinhas nascido.

– Estava na tua barriga?

– Ainda não.

– Então onde é que eu estava?

As questões existenciais têm sido uma constante. Onde é que ela estava quando eu nasci, para onde foi o gato que estava morto na rua, onde é que o irmão estava antes de estar na minha barriga, se há vida nos outros planetas ou só no nosso e porque é que o tempo passa. Diz também que a lua é o sitio onde está a avó do pai e que nunca vai querer morrer porque quer ficar com a família dela para sempre. Pede muitas vezes para eu a abraçar e prometer que a vou proteger de tudo. E eu digo que sim.

Ela ainda não sabe, mas eu sei que não a vou conseguir proteger de tudo, nem vou ter resposta para as questões que hoje vou respondendo como se estivéssemos num conto de fadas. A vida não é um conto de fadas, mas aos quatro anos ela ainda pode acreditar em sapatinhos de cristal, em princesas que com um beijo transformam sapos em príncipes, em bruxas más e meias-irmãs feias e malvadas.

Eu é que já não posso acreditar e penso muitas vezes naquele momento em que perdemos a inocência e a ideia da morte passa a viver connosco para sempre. Ainda me lembro da dor terrível e do desespero que senti da primeira vez que tomei consciência do fim, do meu e dos que amo. Um sentimento que só aliviou com o nascimento dos meus filhos e que me invade novamente com as perguntas feitas pela minha filha.

Eu não acredito em Deus, em igrejas ou religiões e talvez para quem não crê seja ainda mais difícil acalmar essa dor em nós e nos nossos filhos porque não tenho histórias bíblicas e paraísos para lhes oferecer. Talvez a religião sirva como um ansiolítico que nos acalma as angústias e torna o mundo um lugar mais fácil. Não sei, nunca experimentei esse sentimento porque, por muito que tente, não vejo mais do que aquilo que os meus olhos alcançam.

Um dia as perguntas dos meus filhos deixarão de poder ter respostas inocentes, o gato morto continuará morto para sempre e vai doer-lhes, como me doeu a mim e eu não poderei fazer mais que os amar e abraçar, como a minha mãe o fez a mim tantas vezes.

O amor não cura tudo, mas é a melhor ferramenta que tenho.

imagem@inforegi

Quando o Tiago nasceu, a Mariana tinha dois anos e dois meses.

Tem sido uma loucura ser mãe de dois filhos pequenos e com uma diferença de idades tão pequena. Há dias em que só o piloto automático me salva e em que basta só mais uma birra para começar a bater com a cabeça na parede, mas apesar do cansaço, do sono, da vontade constante de me atirar para o chão e por trás de uma mãe que às vezes é uma besta, existe um coração que ainda por cima é mole e no outro dia dei por mim de lágrimas nos olhos a ver os meus filhos a brincar um com o outro.

Ela do alto dos seus quatro anos dizia ao irmão ao que iam brincar e ele nos seus bem-dispostos dois anos respondia que sim. Ele era o médico, sentado na secretária pequenina, com o portátil do Ruca que nunca funcionou e ela era uma mãe que levava o seu bebé ao hospital. Ela dizia-lhe os sintomas, enquanto ele fingia que escrevia no portátil, depois examinou a bebé e no fim da consulta rabiscou um papel com a receita.

– Mano, agora sou eu a médica!

Estou a vê-los a brincar e de repente apercebo-me que já não são bebés.Como é que isto aconteceu? Os meus filhos cresceram e eu receio não ter reparado.  Este ano foi particularmente difícil, viroses a dobrar, fucking four em força, mudança de escola, birras e crises existenciais, noites sem dormir, eu a pedir socorro a toda a hora, mas o tempo não teve piedade de mim e os meus filhos cresceram.

E este sabor doce de os ver crescer, mistura-se com o sabor amargo de os ver crescer. De saber que um dia vou ter saudades do que hoje me enche de cansaço. Que a minha filha um dia já não vai fazer birras porque quer que seja sempre eu a adormecê-la ou que o meu filho já não vai acordar a meio da noite para vir para a nossa cama. Mistura-se o alívio de os ver crescer, com a tristeza de os ver sair devagarinho debaixo da minha asa até ao dia em que vão sair do ninho e voar.

Eu sei que estou a ser dramática, o meu filho ainda usa fraldas e a minha filha ainda precisa de ajuda para limpar o rabo, eles não vão já para a faculdade, nem me estão a pedir as chaves do carro para irem sair à noite, mas o tempo não tem piedade das mães e os filhos crescem sem darmos por isso.

Os meus filhos estão a crescer, juntos, ao ritmo das brincadeiras que me fazem chorar. Cresçam devagarinho meus amores.

Desculpa dizê-lo de forma tão dura, mas não encontro outra maneira de o fazer. Não interessa se tens 18 ou 50 anos, se sempre conviveste com crianças ou se nunca estiveste perto de uma, se te sentes imensamente motivada para esta fase de vida ou não, se é o teu primeiro ou o terceiro filho, se a maternidade estava nos teus planos,  se tens muitos ou poucos recursos financeiros, se tens tudo a postos para a chegada do bebé ou se ainda nem pensaste no assunto.

Nada disto importa, nem altera o facto de não estares pronta para ser mãe.

Simplesmente não estás pronta.

Para ver o teu corpo mudar, ganhar novos contornos, deixar de assentar tão bem nas tuas roupas favoritas.

Para sentir enjoos, dores de costas, dores nas mamas, sono, azia; todo um role de sintomas desagradáveis.

Não estás pronta para as dores do parto.

Não estás pronta para passar noites em branco a dar de mamar ininterruptamente, a mudar fraldas, a lidar com cólicas ou dentes a nascer.

Para lidar com o choro do bebé horas a fio.

Para lidar com a incerteza, com a frustração de não compreenderes o que se passa com o teu bebé, o que podes fazer para o ajudar.

Não estás pronta para constatar que jamais serás a mãe perfeita que sempre imaginaste.

Para deixar de pensar apenas em ti, no que queres fazer, no que te apetece naquele momento.

Não estás pronta para lidar com o peso de cuidar sem pausas, sem folgas, nem feriados.

Não estás pronta para perder a tua identidade.

Existem ainda outras experiências para as quais não estás pronta e sobre as quais ninguém te falou:

Não estás pronta para ver o teu corpo alterar-se de modo a que o teu bebé se encaixe perfeitamente nele e retire daí tudo o que necessita – alimento, contacto, conforto e amor.

Para perceber que o teu corpo está preparado e saberá o que fazer no momento do parto.

Para sorrir cada vez que os vossos olhares se cruzam.

Para ficar sempre em segundo plano, mas ainda assim sentires que tens um dos papéis principais, um foco de luz que provém dos olhos do teu bebé e te segue onde quer que vás.

Não estás pronta para descobrir uma nova forma de liberdade, em que não podes fazer o que queres, quando queres, mas em que aprendes a tirar o máximo de prazer de pequenos momentos.

Não estás pronta para esquecer o peso de cuidar sem pausas, sem folgas, nem feriados, com apenas um sorriso, um toque suave daquela mão pequenina no teu rosto, um “mamã” dito de olhos a brilhar.

Para te habituares a sair de casa cheia de mochilas, lanches e outros mimos, ao ponto de deixar de fazer sentido sair de casa só com a tua mala.

Não estás pronta para colocar tudo o que sempre acreditaste em causa e descobrir novas formas de agir e educar.

Para perceberes que não queres ser a mãe perfeita que sempre imaginaste mas sim a melhor mãe que consegues ser, aquela que o teu bebé precisa, uma mãe real que tem a humildade de aprender diariamente.

Não estás pronta para descobrir que tens em ti uma bússola valiosa – o teu instinto – que te irá guiar nesta aventura e conduzir a novos destinos (competências).

Para passar madrugadas a contemplar cada detalhe do teu bebé apesar do imenso sono.

Não estás pronta para ganhar um propósito na vida, encontrar resposta para aquelas dúvidas existenciais que sempre te assolaram.

Para perder a tua identidade, vê-la a transformar-se e a partir daí surgir algo novo que reúne maravilhosamente os teus papéis antigos e mais recentes.

Não estás pronta para perceber que tens junto a ti tudo o que precisas.

Para constatar que parte de ti passou a viver fora do teu corpo, e onde quer que vá tu também irás.

Não estás pronta para sentir tanto amor ao ponto de te doer o peito.

Não estás pronta para um simples abraço transformar os dias mais negros em dias luminosos.

Para passar o dia a pensar no quanto amas aquela pessoa, para sentires saudades mesmo quando a tens ao lado.

Não estás pronta para perceber que todo o teu percurso faz sentido – os talvez, as saborosas conquistas, as dolorosas perdas – tudo te conduziu a este ponto, a este lugar, a este grande amor.

Não estás pronta para ser mãe, na verdade não precisas de estar. É impossível sentirmo-nos preparadas para algo que não conhecemos. Além disso, o amor flui, não se treina nem se “prepara”.

imagem@wattpad

Escolher ser mãe

O cansaço das Mães acumula-se devagarinho, lentamente, noite após noite em que se dorme de forma intermitente, entre as refeições engolidas à pressa, em discussões diárias sobre assuntos pouco relevantes, insignificantes até, sobre o relógio que te apressa o passo e te acusa o constante atraso, com as palavras que se atrapalham umas sobre as outras e que te levam à dislexia que te tolda o discurso, nas birras exaustivas e frequentes, quando se trabalha dentro e fora de casa, quando tentamos cuidar de nós mesmas, quando chegamos ao ponto de esforço para conseguir alimentar o Amor.

Mas como gerir o efeito colateral deste Amor maior que é ter um filho? Porque o cansaço é nada mais, nada menos do que a consequência inevitável de uma escolha livre. Escolher ser Mãe!

E esta escolha faz-me viver sempre como se tivesse outros dois corpos para além do meu, corpos esses que também precisam de ser alimentados e cuidados, que me trazem angustia se ficam doentes, se não estão a respirar bem à noite, se não comem, se não estão a crescer como deveriam, outros dois corpos que tento proteger a todo o instante de toda e qualquer agressão, mas há ainda o meu corpo, que tem que existir e resistir porque aqueles outros corpos precisam de mim e às vezes o meu corpo não consegue acompanhar.

Não consegue porque as escolhas livres, às vezes, também são insidiosas, tal como o cansaço das mães é insidioso, suga-te por dentro e torna-se quase uma condição crónica, e às vezes és envenenada pela falta de paciência, pela frustração, pelo julgamento, pela falta de consolo, pela culpa, pelo descontrolo, pelos gritos, pela vontade de fugir, pelas respostas tortas e menos correctas, porque és humana e falível, e tudo isto porque simplesmente, estamos cansadas.

Mas às vezes, e independentemente da decisão de ter filhos ter sido minha, eu preciso de me permitir deixar de sentir este cansaço e preciso de um tempo.

Mas precisas de um tempo como? Mas não são os teus filhos o meu melhor da tua vida?

O Amor pelos meus filhos não tem limites ao contrário da minha energia que é tantas vezes levada pelo cansaço, quase como se o Amor fosse o motor da maternidade e a energia o seu combustível, e sem combustível todo o Amor que sinto não será suficiente para trazer sempre à tona o melhor de mim.

Sou mãe e as vezes tenho medo… Todas as mães têm medos dentro de si. Há quem os tenha adormecidos e há quem viva aos sobressaltos.
Ser mãe exige-nos esforços diários constantes que executamos com uma naturalidade tal que, por vezes, passam despercebidos à nossa volta. Temos um mundo ou vários mundos nas nossas mãos e cai em nós a responsabilidade de os segurar como fossem bolas de cristal.
Quando penso que posso adoecer e que a mão que segura a minha casa pode estremecer, tenho Medo!
Quantas vezes adoecemos e os filhos parecem perdidos pela casa. Não sabem da roupa, dos sapatos, dos livros e da alimentação… Parecem zombies que vagueiam pelo espaço, perdidos na luz. Exagerando nos meandros da escrita, mas confessem lá se não parecem!
Eu tenho um medo que me acompanha diariamente, luto contra ele constantemente, como os heróis lutam contra os terríveis.
Há dois anos adoeci e fiquei a morar no hospital apenas por nove dias, sendo os mais longos dias da minha vida. Imagino com frequência as outras mães que lutam diariamente contra doenças graves e que tem de proteger as suas casas com a força das leoas quando o seu corpo fraqueja e a alma sofre.
Penso nas mães que lutam para sobreviver e que têm a força de um vulcão equilibrando as emoções num corpo que sofre.
E quando o mundo parece que foge, aparece alguém que nos segura nas mãos e caminha ao nosso lado, ajudando a superar os medos que controlam os pensamentos e o corpo com uma habilidade assustadora.
Queridos filhos, espero não voltar a sentir este monstro perto de nós, no entanto, se ele ou outro aparecer por ai mantenham o lar unido e criem a tal corrente que o protege do mundo em constante correria.
A mãe tem muito medo e este medo visita-me frequentemente … não hoje!
Porque hoje tenho sede de viver e de estar aqui entregue ao amor que nos une incondicionalmente…

LER TAMBÉM…

Eu que não quero ser super mãe, dei por mim a pensar até me dava jeito ter um superpoder ou outro. As circunstâncias deste devaneio? Estava a conduzir, em plena auto-estrada, sozinha com os dois, quando começam os gritos vindos de trás. O costume. O cinto está apertado demais, a chucha caiu, querem bolachas, água, fazer xixi, moer-me o juízo.

O que me dava jeito naquele momento? Ser a mulher elástica. Segurar o volante com uma mão, esticar o outro braço, apanhar a chucha, espetá-la na boca do mais novo, tirar a água da mochila e dar à mais velha e pelo caminho ia-lhes dando uma belinha na testa para pararem de gritar.

Quando dei por mim estava a pensar em todos os superpoderes que me iriam facilitar a vida:

Invisibilidade
Para não ter de me esconder dos miúdos na casa de banho.

Invencibilidade
Para me ajudar a não sucumbir à tortura do sono a que sou sujeita vai para vinte oito meses e para resistir a todas as viroses que os miúdos trazem da escola.

Ler pensamentos
Para conseguir perceber o que raio se passa naquelas cabeças para que façam tantas birras.

Controlar a mente
Em conjunto com o anterior, para antecipar as birras, para não serem teimosos como uma mula, para deixarem de dizer que não e para me obedecerem imediatamente! Até fiquei cansada.

Visão noturna
Para não dar pontapés nos brinquedos e cabeçadas na parede, quando me chamam a meio da noite para virem para a nossa cama.

Visão raio x
Para ver onde enfiaram o boneco que tanto procuram ou para estar na cozinha e a controlar os disparates que estão a fazer na sala.

Metamorfose
Porque às vezes me dava jeito transformar-me no pai, principalmente na hora de adormecer a minha filha (com o pai a coisa corre sempre melhor).

Duplicação
Para conseguir responder aos dois ao mesmo tempo, principalmente quando o pai está fora. Duas de mim era o ideal, para dar banhos, jantar e adormecer os dois. Duas mães a gritar também havia de ser bonito de aturar. Aguentem-me.

(Super) Resistência física e mental
Para conseguir levantar-me da cama fresca como uma alface, mesmo sem ter dormido decentemente e para aguentar todas as birras com um sorriso nos lábios e os neurónios intactos.

Agilidade
Para aguentar uma hora com eles no parque, dos baloiços para o escorrega e do escorrega para os baloiços ou para agarrar o mais novo no ar quando está prestes a cair do sofá e a bater com a cabeça no chão.

A força do Super-Homem
“O pai é mais forte que tu!” O que a minha filha quer é que eu alombe com eles ao colo até ao terceiro andar como o pai faz e chama-me fraquinha. Machista!

Velocidade
Para ao fim-de-semana arrumar a casa em meio minuto e alapar o rabo no sofá como não faço há mais de quatro anos.

As garras do Wolverine
Para cortar o cabelinho às mamãs que me irritam no parque. Vocês sabem quais são.

Voar
Para ir para casa sem passar pela confusão do metro e o mau cheiro dos barcos, para abraçar os meus filhos e curar as frustrações do dia com os sorrisos deles. Até que comecem a fazer birras porque não querem partilhar os brinquedos, claro.

Telepatia
Para comunicar com o meu marido sem os miúdos perceberem, do tipo “Meu amor, hoje és tu que vais adormecer os dois que eu estou que não me aguento!”

Se continuasse a pensar nisto nunca mais acabava, queria poder estalar os dedos e deixar de os ouvir a chamar por mim de segundo a segundo, curá-los imediatamente quando ficam doentes, prever o futuro para ter a certeza que estou a fazer um bom trabalho, estalar os dedos e dar por mim deitada numa praia paradisíaca a saborear um gin tónico sem miúdos por perto. Como não tenho superpoderes para além da minha incrível capacidade de andar na rua em piloto automático, vou deixar-me destas tretas e acordar para a realidade.

imagem@andyshango

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Acredito que, no fundo, todos os pais dignos dessa designação amam os seus filhos.

Alguns serão melhores que outros nesta tarefa hercúlea de educar, nutrir e encaminhar uma criança, assim como outros serão melhor nas demonstrações de afecto.

Tenho vindo a testemunhar, quer no parque, quer nas escolas, quer nos transportes, onde consigo ser testemunha involuntária, que muitos pais têm a dificuldade de transmitir amor.

Falam, chamam à atenção, encaminham e orientam mas muitas vezes falta-lhes tacto. Falta-lhes carinho. Falta-lhes ter a correspondência do que dizem na forma como o dizem. Tantas vezes oiço pais chamarem nomes carinhosos como se chamassem o táxi, palavras vãs não de sentido mas de emoção.

Ao escrever estas linhas penso naquela geração que cresceu habituada a dizer “amo-te” como se fosse pontuação de uma frase. O amor, essa coisa tão complexa e impossível de descrever, passou a estar na boca do mundo mas de amor tinha pouco. Há muitas pessoas que cresceram a ouvir que eram amadas sem nunca o terem sido.

Daí talvez esta passagem de testemunho, em que as crianças poderão recordar uma infância em que as expressões carinhosas não são tabu e estavam muito presentes, mas no fundo fica um vazio.

E um vazio num ser humano em crescimento dá espaço a ser preenchido por bem ou por mal.

Não sou profissional e a minha observação é de mãe, muitas vezes eu própria falharei na arte de transmitir amor, principalmente quando estou exasperada a ralhar, em que a paciência já ultrapassou os seus limites e há só a vontade que o choro cesse, porque a pedagogia está a perder a batalha.

Não sou perfeita e sei que todos amamos de forma diferente. Recebemos, percepcionamos, transmitimos esta coisa do amor como sabemos e podemos, como conseguimos. Muitas vezes é uma herança, de outras uma descoberta.

Gostaria de, no futuro, ver mais amor nos olhos dos pais do que nas suas bocas: ou pelo menos que estivesse tudo ao mesmo nível. É um bocadinho como a humildade, de pouco adianta uma pessoa apresentar-se dizendo que é muito humilde, essa humildade já se perdeu algures no caminho.

Amo a minha filha como posso.

Digo-lhe que a amo e tento que este amor esteja presente nas nossas brincadeiras, nas nossas rotinas e até nas nossas zangas.

Porque isto de ser pai ou mãe (biológico ou não) não pode ser dissociado de amar.

O amor pode salvar uma criança de um futuro mais negro.

O amor pode tudo.

Amemos mais.

Demonstremos mais.

Sejamos todos melhores.

imagem@weheartit

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As coisas que as mães aturam

As mães têm de aturar muitas coisas. A opinião altamente especializada do resto do mundo é só uma delas. Quando damos por nós, estamos rodeadas de especialistas em tudo o que diz respeito aos nossos filhos, desde a cor e consistência do ranho ao cheiro e consistência do cocó.

Tudo começa com os filhos ainda na nossa barriga. O hospital em que decidimos parir, se optamos por parto natural ou por cesariana, o pediatra que escolhemos, o tempo que vamos estar de licença de maternidade, se vamos amamentar, a creche onde os vamos inscrever, como se as nossas escolhas tivessem algum peso físico, emocional e financeiro sobre a vida dos outros.

Estava eu grávida da minha filha mais velha e tinha uma amiga preocupada se eu punha creme na barriga, como se as eventuais estrias não fossem minhas por direito. Ou outra que me perguntava se as vitaminas que tomava seriam suficientes, porque não, elas não me tinham sido prescritas pelo obstetra.

As pessoas dizem tolices e nem dão por isso. Um dia ao mudar a fralda à minha filha mais velha, uma amiga incomodada com o cheiro disse-me que o cocó da filha dela não tinha cheiro. Acho que foi a primeira vez que fiquei sem resposta. Também há as especialistas em constipações, infecções respiratórias, bronquiolites e várias outras ites. Os meus filhos são esponjas, nas creches as doenças são uma ementa generosa e eles são uns glutões. Apanham tudo, incluindo piolhos. Ao desabafar com uma colega, disse que havia miúdos que nem um gorro na cabeça usavam no inverno e nunca estavam doentes, e os meus sempre bem agasalhados, bem alimentados, com as vacinas em dia estavam sempre com qualquer “ite”. Arrependi-me logo. Fui esclarecida que o mal era esse, os meus filhos andavam agasalhados demais.

Que meta o dedo no ar quem nunca ouviu que o seu leite era fraco, que a criança não estava satisfeita, que não sabia amamentar, que nessa posição o bebé não estava confortável ou que o filho não está a aumentar de peso.

No capítulo da amamentação o terrorismo psicológico é tanto, que há mães que desesperam se não conseguem amamentar ou sentem-se as piores do mundo se não gostam de o fazer. Eu amamentei a minha filha até ao primeiro mês. Nem eu nem ela tínhamos paciência para aquilo, ela não sabia mamar e eu só queria que ela ganhasse peso. Desisti e comecei a dar leite adaptado. Foi a melhor coisa do mundo. Amamentei o meu filho mais novo até ele ter cinco meses. Continuei sem paciência para aquilo, mas o miúdo gostava e crescia. Aceitei as condições.

Se a criança começar a andar depois dos doze meses logo vêm os avisos de que não está a ser estimulada o suficiente. Se não fala, precisa de terapia. Se é tímida, tem de socializar no parque infantil. Se não anda na natação desde que nasceu vai ser um fracasso. Se não sabe inglês aos quatro anos, Deus nos ajude!, vai ser burra. Se é menina e brinca com loiças, o lugar dela vai ser na cozinha. Se é rapaz e brinca com loiças, vai ser mole.

É cansativo ser imune às opiniões dos outros. Na maternidade não existem certezas absolutas, ser mãe é difícil para caraças. Ter alguém a questionar constantemente as nossas escolhas torna-nos propensas a desatarmos aos pontapés à primeira pessoa que abrir a boca para emitir uma opinião nada científica. Por isso, da próxima vez que tiverem uma opinião a respeito da idade com que a filha da vossa amiga devia deixar a chucha, calem-se e lembrem-se que as escolhas que a vossa amiga faz para os filhos dela, são dela e da família dela. Não têm necessariamente de coincidir com as vossas. Tomem as vossas decisões conscientes de que estão a fazer o melhor possível pelos vossos filhos.

Quanto às opiniões dos outros, evitem-nas, ignorem-nas ou, se preferirem, mandem alguém à fava. Pode ter um efeito libertador, sobretudo se for acompanhado pelo vosso mais belo sorriso. Mas isto é só a minha opinião.

imagem@nvnt

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Cada vez mais fartinha de Mães

Olha-me aquela mãe

Carta às mães mais que perfeitas.

 

 

De repente cresceste, meu filho

De repente cresceste. Tanto que me disseram que o tempo passa rápido, que passou mesmo. E de repente, estás um crescido.

Aproveitei cada minuto e cada segundo. Nunca te neguei mimo ou colo, e fiz tudo para estar cada minuto possível contigo, mas mesmo assim, o tempo passou rápido e tu cresceste.

De repente, já não eras um recém-nascido, tão pequenino, tão frágil e tão dependente de mim.

Já comias sólidos, atiravas a comida ao chão e sujavas tudo à tua volta.

De repente já escolhes o que queres comer, o que gostas e o que não gostas, e não há quem te demova dos teus gostos.

De repente sentaste-te e bateste palminhas… Gatinhavas e eu corria pela casa atrás de ti…

De repente já andas, corres e exploras o mundo, e deslumbras-te com tudo o que vês.

De repente trepas tudo, cais e esfolas os joelhos. De seguida levantas-te, sacudes as mãos e continuas a correr…

De repente disseste mãe, e de repente já dizes um monte de coisas …

De repente começaste a expressar-te. Tornaste-te consciente das tuas emoções, que são tantas e tão intensas e expressas o que sentes da forma que sabes.

De repente concentras-te. Sabes o que queres fazer, e sabes focar-te na tua tarefa abstraindo-te de tudo o resto.

De repente folheias um livro e rabiscas um papel, ou uma parede do teu quarto.

De repente adoras carros, bolas, adoras marcar golos e dizer os sons dos animais.

De repente fazes birras quando não tens o que queres. Gritas, choras, e empurras-nos para demonstrar o teu desagrado.

De repente dás-me um abraço só porque sim, ou empurras-me para que continues a brincar sem que os meus beijos te atrapalhem.

De repente já não és um bebé. De repente cresceste. O tempo passou e por mais que eu queira fazer o tempo parar, não posso. E tu vais continuar a crescer, a aprender, e definir quem és! De repente deixarás de ser o meu bebé pequenino porque de repente és um rapazinho.

E eu estou tão orgulhosa de ti! E eu gosto tanto, mas tanto de ti, mesmo que de repente… tenhas crescido!

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