É possível fazer mais pela escola pública

Sempre que ouço falar em projetos que ousam reinventar o ensino, mais acredito na necessidade de um ranking que sirva para valorizar as escolas inovadoras. Sobretudo se esse desejo de inovar servir para satisfazer uma vontade aflita,  teimosa, da escola em cumprir a sua utilidade, como aconteceu em Estremoz.

Descobri a Secundária Rainha Santa Isabel pelo livro “A Escola” de Paulo Chitas, um ensaio cuidadoso sobre o caminho que um conjunto de professores, pais e alunos percorreu no combate ao insucesso escolar.

O projeto surgiu no ano letivo 2002-2003, em resultado da inquietude de Teodolinda Magro, confrontada com a persistência dos maus resultados entre os alunos do 7º ano.”A única medida que existia para lidar com a perda de motivação deles era a repetição, o chumbo.” Determinada a provar que é sempre possível “aproveitar mais um aluno”, e sabendo que a composição das turmas era a razão da continuidade de maus resultados na escola, a professora expôs ao conselho executivo e a alguns colegas mais próximos, o plano que desenhara para recuperar os alunos em perigo de reprovação. “Eles não eram capazes, sozinhos. E um dia percebi que eles só eram capazes se fossem tirados dali. Se não os deixasse começar a fazer as coisas habituais. Precisava de os tirar de lá.” E tirou-os. Para a Turma Mais.

Ainda hoje a escola pratica com êxito o modelo de agrupar alunos numa turma extra, de acordo com o seu nível de desempenho. Durante 45 dias, dois professores em regime de codocência prestam apoio individualizado e centrado nas necessidades específicas do grupo. Fazem-se novas amizades.

A Turma Mais permite aos estudantes o direito a um período de recobro em que se minimizam assimetrias e compensam dificuldades pela poderosa cura do ensino refletido, planeado à medida da realidade. Os alunos voltarão à turma de origem já em condições de prosseguir as aprendizagens, numa lógica de igualdade que a ninguém abandona e a todos beneficia.

O tema intimida, não é confortável. Se nos apercebermos da relação existente entre os baixos recursos das famílias e a falta de rendimento escolar, diria que envergonha.

Esta mudança aconteceu à força dos muitos porquês que interrogam a desmotivação para o estudo. Cerca de 50% dos alunos que a secundária Rainha Santa Isabel recebe, é oriunda dos concelhos mais próximos cuja realidade socioeconómica impõe reflexão. Porque há envelhecimento, porque há desertificação, porque há franca diminuição do poder de compra. Porque o transporte disponível para quem vem de longe, deixa os miúdos na escola todas as manhãs às 7:15, quando a primeira aula começa às 8:30. Porque como estes casos há outros espalhados pelo país, muitos, perante os quais a escola não pode ficar alheia.

Teodolinda percebeu em boa altura que um aluno com mau desempenho urge ser tratado com melhor ensino. Que carregar nos ombros o peso do chumbo só o vai fazer parar mais vezes pelo caminho, levar o dobro do tempo, ficar pela metade.

A escola devia obrigar-se a fazer o contrapeso necessário para resgatar os alunos deste ciclo árido, infecundo, que os impede de evoluir, como faz Estremoz. Lá, as verdades simples são as primeiras a defender-se, até fora das muralhas: eles sozinhos não são capazes.

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Cuidar de Quem Cuida dos Nossos Filhos

Dizemos frequentemente que as crianças mudaram, mas ainda que isso possa ser em parte verdade, na realidade fomos nós, adultos, que passámos a ver a infância com outros olhos. Fomos nós que, revendo-nos em criança e perspectivando o nosso futuro, passámos a desejar mais e melhor.

Desta transformação nasceu uma sede de conhecimento, uma necessidade de tornar consciente o que se fazia por instinto, a ambição de desvendar os “segredos” dos nossos filhos, e de dominar as estratégias para o “perfeito” desenvolvimento da criança.

No percurso, por vezes, esquecemos a melhor e maior aprendizagem das nossas próprias histórias de vida, que é o que todas as pessoas que cruzaram o nosso caminho nos deixaram.

O que é que nos marca mais na infância?

Ainda hoje me recordo daquela professora de substituição, que vi poucas vezes, mas cujos cabelos longos de cor cinza nunca vou esquecer, “só” porque me disse, num tom doce, o contrário do que sempre ouvira até ali. “Tens uma letra tão bonita”. Essas palavras nunca mais me deixaram, nem a doçura e a sabedoria com que foram ditas.

O que mais marca as nossas crianças não são os conhecimentos e o domínio de todas as suas etapas de desenvolvimento. O melhor que lhes podemos dar, são experiências emocionais gratificantes, saudáveis e equilibradas. E isso só se consegue através de relações de afecto.

No momento de pensarmos em quem está a cuidar das nossas crianças, é certo que se devem valorizar requisitos gerais, como gostar de crianças, ser paciente, ser responsável, ser criativo e ter os conhecimentos necessários para exercer a profissão. Mas o que é que faz que cada um de nós esteja disponível para dar respeito, carinho e atenção a outra pessoa? O que nos faz ter a capacidade de ouvir? Se, por um lado, existem as características inerentes à nossa personalidade, a verdade é que podemos ser dotados das melhores “qualidades”, mas não estarmos capazes de fazer uso delas.

Quem Cuida dos Nossos Filhos

Quem trabalha com crianças, trabalha com a relação, e a nossa capacidade de nos relacionarmos é afectada pelo nosso bem estar geral e a nossa saúde mental em particular.
Para que uma pessoa se possa dedicar e realizar um bom trabalho com crianças, é importante que tenha condições físicas e ambientais para isso. É importante que o número de crianças pelas quais é responsável, seja adequado. É preciso trabalhar em sintonia com as famílias (demasiadas vezes pais e professores agem como se tivessem interesses opostos). É preciso reconhecer e ver reconhecida a importância do seu trabalho.

Assim como em muitas outras profissões, quem trabalha com crianças tem que gerir na sua dimensão profissional as relações (tanto com colegas e chefias, como com as crianças e suas famílias), o desgaste inerente à própria actividade, factores de realização e/ou falta de reconhecimento e valorização do trabalho, factores da vida pessoal (saúde, finanças, conflitos familiares, etc.). No entanto, acresce a isto, um trabalho que envolve gestão de afectos, disponibilidade emocional e um agir (inevitavelmente influenciado pelo estado em que se encontra o cuidador) que resultam num maior ou menor bem estar das crianças.

Os professores, educadores e auxiliares.

É por isso que acredito que professores, educadores e auxiliares que amam, cuidam e respeitam as crianças, só o conseguem fazer se os respeitarmos, valorizarmos e cuidarmos. Professores, educadores e auxiliares que humilham, batem e por vezes até aterrorizam crianças, não é uma opção, e só acontece sob um olhar pouco atento (e cuidador) de todos nós.

Hoje, ultrapassámos a visão meramente funcional dos cuidados à criança, e não vivemos tranquilos apenas com o facto de um filho estar entregue a um adulto.
Faz sentido que sejamos mais exigentes na sua protecção (que é também a do nosso futuro). No entanto, querer mais, deve estar aliado a dar mais. Parece-me incoerente a crescente valorização da infância, com  uma simultânea desvalorização da função dos “cuidadores de infâncias” (amas, auxiliares, educadores de infância, professores, e tantos outros).

É importante continuarmos a preocupar-nos com o desenvolvimento físico e cognitivo da criança, sim. Mas, fundamental, é não esquecer a importância de um desenvolvimento emocional saudável.

É por isso que cuidar das nossas crianças é, também, estar atento e cuidar de quem cuida dos nossos filhos.

 

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NOTA INTRODUTÓRIA: DESABAFOS DE UM PAI PREOCUPADO

Agora que a minha filha mais nova foi para o Berçário, é natural que eu esteja mais sensível a todo este universo. Este universo onde há um turbilhão de sentimentos no peito de milhares de mães e pais que todos os dias levam os seus filhos para o Berçário, Creche ou Pré-Escolar.

É o tal paradoxo: sabemos que estão bem, sentimos a importância, somos bem acolhidos, contudo, há separação, ainda que temporária.

Só que, como sabemos, o tempo é relativo. Uma hora com dor de cabeça parece uma eternidade. Uma hora a assistirmos à nossa série preferida, passa a voar. Afastados dos filhos, fazemos do tempo um inimigo. E lá vem com malícia a “dona  culpa”, e lá vem com estrondo o “senhor peso no peito”. E lá surge traiçoeira a “menina lágrima”.  

Para me ajudar (pode ser que também ajude a si) lembrei-me de uma história. Fala de um conjunto de Educadoras muito especiais. E elas andam por aí, espalhadas pelo país. Acolhendo os nossos filhos. Ajudando-nos a fazer as pazes com o tempo. Lutando para termos menos dores de cabeça.  Elas dão-nos lições.  

 

Era uma vez as princesas de hoje…,
ou
As lições mais importantes que as educadoras podem dar a um mundo carente de otimismos.

Era uma vez um conjunto de destemidas Educadoras que resolveram fazer uma reunião para melhorarem ainda mais as suas práticas. Estas são as verdadeiras heroínas. As “princesas” do século vinte e um. A bruxa má é o descrédito, o desistir, o trabalhar por trabalhar…

O castelo escolhido para a reunião, foi uma sala de formação. Curiosamente, ou talvez não, a sala era num farol! Não é preciso ser muito sensível para descortinar o simbólico na palavra farol, certo?

A reunião impunha-se porque a bruxa má criou um monstro chamado “estagnar na profissão”. A reunião visava aniquilar o monstro, destruir a bruxa e libertar do perigo centenas de crianças. E, como uma espécie de extra, libertar da angustia centenas de mães e pais. O plano tinha sido traçado. Para se atingir os objetivos, as armas usadas seriam as da Psicologia Positiva. O estudo científico das forças e das virtudes impunha-se para contrariar as más vibrações. O trabalho sustentado no otimismo surgia como resposta para constranger a crise, as crises e a descrença no futuro.

  • As Educadoras desejam actualizar-se para serem capazes de ajudar as crianças a abraçar a magnificência do mundo.
    O mundo muda a uma grande velocidade. A sociedade altera-se e as crianças também. É importante lembrarmos que, biologicamente, as crianças estão iguais às nascidas há milhares de anos. Só que o ser humano está longe de ser só Biologia. É aqui que entra a cultura. O mundo está em mudança e isso afeta as crianças. Quem trabalha na Educação deve estar atento e actualizado, caso contrário, corre o risco de ficar ultrapassado.

  • As Educadoras estão atentas às forças, às emoções positivas, ao optimismo, à psicologia positiva.
    A psicologia sempre estudou o que estava mal no comportamento humano, sempre se dedicou aos problemas, à depressão, ao comportamento agressivo e à toxicodependência, por exemplo. No entanto, também se dedicava a ajudar as pessoas. E não precisa só de ajuda quem está mal. Quem está bem, também pode precisar de ajuda para melhorar. Para crescer. Para desenvolver competências. Só que a determinada altura da história a balança ficou desequilibrada. Estudava-se muito a depressão e pouco a felicidade. Estudava-se o problema, as possíveis soluções e falava-se pouco do que nos faz ser felizes.
    A reunião mal tinha começado e foi notório que a maioria das Educadoras tinha ido em grupos formados por outras Educadoras. Mas uma das Educadoras, fez questão de trazer as pessoas com quem trabalhava, mesmo elas não sendo Educadoras.
  • As boas Auxiliares também nos dão lições. E as outras Educadoras, por serem brilhantes, foram para as suas instituições partilhar tudo com as Auxiliares.
    A equipa é fundamental ! Claro que há hierarquia, claro que deve haver liderança, organogramas bem definidos e noção do papel de cada um. Mas é fundamental o líder envolver. E por outro lado, é determinante a equipa querer colaborar. As Educadoras que nos dão boas lições, envolvem os elementos da Equipa. As Auxiliares que nos dão boas lições, também desejam melhorar.
    Durante os trabalhos, sentiu-se que uma das Educadoras foi sozinha.
  • As Educadoras têm coragem para enfrentar sozinhas as suas guerras.
    É confortável termos um parceiro, uma amiga para partilharmos momentos. Isso ajuda.  Mas a boa Educadora quando  acredita, vai. Se ninguém quer ir, ela vai sozinha. Se querem puxá-la para baixo, dizendo que não vale a pena, ela não deixa.
    Na pausa da reunião, duas das Educadoras que tinham chegado com bastante tempo de antecedência à reunião, voltaram a ser as primeiras a entrar. E com um sorriso. Sereno e sincero.
  • As Educadoras são pontuais, gostam de o ser, gostam de ter tempo para preparar os pormenores, a sala, a música que vão colocar. Gostam de confirmar se as janelas estão como devem estar e recebem com leveza e serenidade.
    Uma das Educadoras interrompia, questionava, punha em causa, dava as suas ideias e colocava o seu melhor ar crítico. A capacidade de refletir criticamente é essencial para avançarmos na profissão. Estar atento ao que se lê, ser capaz de lançar pedras ao charco, é estimulante.
  • Os pais e educadores também dão lições. Há um caminho a percorrer até se acertarem as práticas. Por isso, não podemos deixar de colocar em causa. Avançamos, somos proativos, mas não desligamos o cérebro. Assim também vamos ser um bom modelo para as nossas crianças. Elas vão precisar de alguém capaz de as inspirar a pensar pelas próprias cabeças.
    A determinada altura, surge a questão: estávamos a fugir do tema, por falarmos pouco de crianças? A dúvida era legítima. No entanto…
  • As Educadoras entendem que na Psicologia do Desenvolvimento, podemos falar de estágios, de marcas do desenvolvimento.
    Quando falamos de Psicologia Educacional, podemos falar de dificuldades de aprendizagem. Quando abordamos a Psicologia Positiva temos que falar muito do Educador. Estamos a falar de prevenção. De atitudes dos adultos. De atitudes que irão influenciar a forma como as crianças olham para os problemas. Por isso, necessariamente falamos muito do Educador. Da forma como o Educador pode colocar em prática a “educação positiva”. Da forma como o Educador pode ajudar a desenvolver a resiliência nas crianças.

Abordar a Psicologia Positiva não é uma moda. E tenho a certeza de que não é para todos. Temos que ter vida. Experiência. Temos que praticar. Não basta decorar conceitos. E devemos aplicar nas nossas profissões com crianças. E nas nossas casas, devemos aplicar também. E assim, morre a bruxa, foge o monstro e desaparece o peso no peito. Pelo menos uns gramas. Graminhas.

NOTA FINAL: VERDADES DE UM PAI ESPERANÇADO

As crianças, todas as crianças, têm as suas forças;
Ficarei sempre tranquilo, enquanto sentir que andam por aí as Educadoras que desejam conhecer formas de ajudar os meus filhos a desenvolverem essas forças;
As emoções positivas elevam a criança numa espiral (ver Dra. Barbara Fredrickson);
Preciso de Educadores mestres nas emoções positivas;
As Educadoras, algumas Educadoras, também são mães. É bom lembrar!;
Como pai, preciso ser mais positivo em relação ao trabalho realizado na Creche;
As Educadoras que nos dão lições, são pétalas da Chocolate Cosmos com perfume raro;
Tenho que lutar para transformar em quilos os gramas retirados ao peso no peito.

 

Por Alfredo Leite, para Up To Kids®
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P.R.O.F.E.S.S.O.R | Pessoa, resiliente, obstinada, forte, empenhada, sábia, sacrificada, orgulhosa e resistente.

É também Peça, Régua, Oráculo, Ferradura, Espelho, Sino, Saco, OVNI e Roda.

  • O Professor é a peça para completar o coração das crianças em risco de se tornarem futuras “Constanças” (de quem já muitos se esqueceram).
  • O Professor é a régua que nos vai fazer medir as palavras quando vemos agressões de polícias a pessoas inocentes, ou agressões de pessoas marginais a polícias.
  • O Professor é o oráculo que nos vai ajudar a reflectir sobre o futuro desejado para as crianças do nosso país.
  • O Professor é a ferradura. Não a da sorte. Nem a antiga, mas a ferradura inovadora. É uma ferradura de cortiça (invenção nacional), símbolo de que somos capazes de descobrir novos caminhos (novas práticas pedagógicas) e prevenir lesões (e indisciplina).
  • O Professor é o espelho do mundo, da sociedade, da participação dos pais e encarregados de educação na escola…mas às vezes é um espelho daqueles dos provadores de algumas lojas, já que tem a capacidade de alterar a imagem para melhor.
  • O Professor é o sino que alerta, acorda, inquieta, e ressoa bem no fundo da alma.
  • O Professor é saco. Saco do sport billy. Algumas vezes sem reconhecimento, tem de ter várias competências, diferentes materiais, algumas surpresas na manga,…
  • O Professor é OVNI. Poucos conseguem explicar o mistério: fazer tanto com tão pouco?
  • O Professor é roda. Por vezes está para cima, outras vezes para baixo. Em vários aspectos. Também nas suas práticas pedagógicas, tem altos e baixos. Mas o que nos dá esperança é que quer sempre melhorar.

P.A.I | Pessoa altamente importante.

É também Partícula, Ampulheta e Íman…

    • O Pai é a “partícula de Deus”. Também conhecida como bóson de Higgs, esta partícula determina as propriedades básicas da matéria. Ela é fundamental. Como também são fundamentais as regras, os afetos, a disciplina e a criatividade que os pais passam para os filhos.
    • O Pai é ampulheta. Não tanto pela grande capacidade de gerir o tempo de qualidade que passa com os filhos, mas porque já sabe que na vida as coisas são transitórias. A morte, essa inevitabilidade, leva os pais a darem o seu melhor, a passarem os melhores valores aos seus filhos e a ensinarem-lhes o valor da vida e da fé.
    • O Pai é íman. Podia ser por também ter dois pólos. Podia ser por ter o melhor e o pior. Preferimos dizer que é pelo campo magnético existente á sua volta. À volta dos pais sentimos a calma, a proteção e só vêem coisas boas. Bolachinhas, carinhos, beijinhos, miminhos, estórias de encantar,…

Por Alfredo Leite, Mundo Brilhante, 
para Up To Lisbon Kids®

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(Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar português. Divertimo-nos imenso, confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas, mas as ideias são todas deles. Aqui ficam, e espero que vocês também se divirtam. E depois de rirmos espero que nós, adultos, façamos alguma coisa para libertar as crianças disto.) Teolinda Gersão

Redacção
Declaração de Amor à Língua Portuguesa

Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito.”O Quim está na retrete” : “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas “na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.
No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum,o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento,e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.
No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.
No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?
A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português,que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo,  o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer. Dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)
Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou : a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens,ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.
E pronto, que se lixe, acabei a redacção – agora parece que se escreve redação. O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impôr a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.
E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.

João Abelhudo, 8º ano, turma C (c de c…r…o, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática).

Escrito por Teolinda Gersão, escritora
publicado no Facebook da autora a 11.06.12

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Há palavras que, pela sua importância, deviam ser ditas com o corpo todo. Professor é uma delas. Sim, sei que há exceções, mas não é delas que quero falar. Porque nos dias de hoje, precisamos de inspiração. Precisamos de alguém capaz de acreditar em nós. Alguém capaz de nos fazer ir buscar ao fundo da alma toda a nossa garra, todo o nosso esforço. Precisamos disto, quer sejamos pais ou sejamos técnicos. E precisamos ainda, mais se formos professores.

Nós, como pais, precisamos de professores no seu melhor. E os professores bons precisam de ser reconhecidos.

Imagine que vai num barco pequeno. Imagine que está em alto mar e começa uma tempestade. E imagine que tem dentro do barco algumas crianças e jovens a seu cargo. Esses jovens são seus filhos. Já entendeu. Vai fazer de tudo para que não sintam a dita tempestade. Vai fazer daquele barco um microcosmos. Vai protege-los com toda a força. E é assim em muitas das Escolas onde vou. Há um grupo de professores guerreiros que deixam o barco a navegar. Convenhamos que “cá fora” há muitas tempestades. E há milhares de crianças e jovens a passar horas nas escolas, conseguindo evitar os raios, a chuva e o frio. Estes são os melhores professores. Aqueles que protegem os alunos da tempestade.

Os melhores professores encetam conversas com vista a limar arestas.
Por vezes há sessões com os alunos que passam longe de serem brilhantes. Ou não estávamos nos nossos dias, ou o grupo de alunos não participou como devia. Custa-nos muito. E é aí que acontece algo extraordinário. Já depois da sessão ter acabado, sem ninguém a observar, sem ninguém a avaliar e, naturalmente, sem ninguém a valorizar, há professores que ficam na sala a debater as causas e as formas de melhorar. Uma conversa de quem verdadeiramente se importa com os alunos.

Os melhores professores vêem a floresta e não apenas a árvore.
Os alunos têm defeitos. Claro. Mas os melhores professores vêem para além disso e encontram também as áreas onde os alunos têm melhor desempenho.

Os melhores professores surgem do nada para saber se está tudo bem.
Se nós adultos temos os nossos dias, também as crianças têm momentos complicados. Muitas vezes encontro um ou outro aluno mais triste, mais cabisbaixo. E do nada, como magia, é comum surgir um professor que pergunta se está tudo bem. Uma palavra simples, um gesto, e logo aquele miúdo vê o dia com outros olhos.

Os melhores professores levam os pais às escolas.
Organizam acções, conferências, mandam convites, comunicam, disponibilizam-se, improvisam, mudam horários, fazem exposições, criam e levam os Pais à Escola.

Os melhores professores são um livro sobre atenção aos pormenores.
Os alunos são capazes de descobrir se a professora mudou de cor de cabelo, se o professor veio com um casaco novo. E o professor entende quando algo está diferente. Há cortes. Muitos. E há superação. Há refeições que são servidas, feridas desinfectadas, corações colados, cartões perdidos e achados. E há o descobrir quando algo está diferente.

Os melhores professores ensinam a aprender.
Ainda hoje, um professor dizia-me no final de uma sessão com alunos: “Gostava de saber como fez. Tem que vir cá para nós professores!”. Vejo o brilho nos olhos deles perante a novidade. Ensinar é aprender a vida toda. É saber colocar as questões certas. É colocar os alunos a pensar. E é tão difícil pensar com as ofertas tecnológicas, com o ritmo apressado das famílias, com as redes (demasiadas vezes) anti-sociais.

Os melhores professores inspiram a nunca desistir.
Há alunos capazes das respostas mais incríveis. Há respostas inconvenientes e inacreditáveis. E os melhores professores mantêm-se impávidos para não beliscar a auto-estima dos alunos. Conseguem rir depois, noutro dia, noutro contexto. Mas em frente ao aluno são capazes de o respeitar e de lhe dar força para mais uma tentativa.

Os melhores professores não vão em conversa de café.
No mini-mercado da esquina há sempre alguém capaz de acreditar no filho quando este diz ser alvo de discriminação, sem ouvir o outro lado da história. As profissões não são todas iguais. Se há uns anos havia um reconhecimento social em relação ao professor, parece que a situação está a alterar-se. Acusa-se de discriminação, de ter férias, de não ser dinâmico e de outras irrealidades, com demasiada imprudência.  Todos os dias há centenas de professores capazes de ultrapassar as críticas injustas, concentrando-se no essencial: os alunos.

 

Por Alfredo Leite, Mundo Brilhante, 
para Up To Lisbon Kids®

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