Rosie Dutton, uma professora britânica, explicou de uma forma criativa e bem eficaz os efeitos do bullying.

Rosie apenas precisou de duas maçãs.

Por fora, as frutas eram aparentemente iguais: grandes, muito vermelhas, daquelas que escolhemos nos mercados.

Só que, antes de levá-las para a sala de aula, a professora bateu com uma delas no chão repetidamente, mas de forma delicada. As crianças não souberam disso.

Na sala de aula mostrou as duas maçãs aos alunos, e pediu-lhes que as descrevessem. As semelhanças entre elas eram evidentes.

“Peguei na maçã que tinha atirado ao chão e comecei a dizer às crianças o quanto eu não gostava dela, que eu a achava nojenta, com uma cor horrível e que o pincaro era muito curto. Eu disse-lhes que, por eu não gostar daquela maçã, queria que elas também não gostassem, então elas deveriam insultar a fruta.”

As crianças olharam para Rosie admirados, mas começaram a passar a maçã de mão em mão, e cada aluno fazia um insulto à maçã. “És feia!” “Cheiras mal” “Não prestas”

“Nós ofendemos mesmo aquela pobre maçã. Até me senti mal por ela.”

De seguida, Rosie pediu que passassem a segunda maçã de mão em mão e que todos a elogiassem: “Que maçã adorável”, “A casca é bonita“, “Tens uma cor linda”.

Depois a professora segurou as duas maçãs e, em conjunto com as crianças, falaram sobre as suas semelhanças e diferenças. Aparentemente continuavam iguais..

A professora cortou as duas maçãs ao meio. A maçã elogiada era clarinha, fresca e sumarenta por dentro.

A maçã insultada estava cheia de marcas, nodoas negras, e estava mole por dentro por dentro.

Acho que as crianças tiveram uma espécie de iluminação naquele momento. Entenderam que, o que vimos no interior das maçãs representava cada um de nós quando se sente ofendido, triste por alguém nos maltratar através de ações ou palavras“, explica no post que fez no Facebook.

Quando as pessoas sofrem de bullying, especialmente as crianças, sentem-se péssimas por dentro e muitas vezes não demonstram nem exteriorizam o que estão a sentir. Se não tivéssemos cortado aquela maçã ao meio, nunca teríamos percebido este efeito

Na semana anterior, Rosie havia partilhado com as crianças uma situação em que ficou triste com as ofensas de uma pessoa.

Nós podemos impedir que isso aconteça. Podemos ensinar às crianças que que não devemos insultar, maltratar, ou gozar com os colegas. Podemos ensinar que devemos sempre defender os coleguas e não colaborar com qualquer tipo de bullying, tal como aluna  hoje, que se recusou a insultar a maçã.”

A esclarecedora lição foi dada numa aula chamada Relax Kids. Nesta aula, a professora e a escola oferecem ferramentas e técnicas para as crianças lidarem com os seus sentimentos e emoções, e ajudam os alunos a aprender a lidar com o  stress ou ansiedade.

Rosie Dutton diz que esta postura é transversal a todas as aulas. Mas nesta disciplina, especificamente, fala-se sobre emoções e as atividades realizadas promovem o trabalho em equipa, o respeito, o apoio aos colegas, a resolução de conflitos, a auto-estima e a confiança. Neste espaço pretende-se ainda divulgar espaços e criar elos seguros com as crianças, para que saibam onde e a quem devem recorrer se sentirem que precisam de ajuda.

Esta valiosa lição pode e deve ser transmitida aos nossos filhos na escola, em casa, nas actividades, onde quer que vão. Quanto mais cedo as crianças perceberem o efeito do Bullying, mais depressa estarão atentas ao que se passa em seu redor de forma a poderem proteger alguma vítima, ou protegerem-se a si próprias. É importante que as crianças entendam que se forem postas de parte ou insultadas pelos colegas a culpa dão é delas. Mas deles. E que eles são os bullys.

 

LER TAMBÉM…

Bullying; O que posso fazer?

O que um filho ensinou à mãe sobre bullying e coragem

13 Anos para Sempre, Marion

 

imagem@depositphotos.com

Transformar a educação em Portugal. De uma vez por todas

Ao longo dos anos surgem, no nosso sistema de ensino, inúmeras mudanças e alterações que não reflectem uma verdadeira mudança de paradigma na educação. São quase sempre ajustes ou remendos a um funcionamento que está, por si só desgastado, antiquado e obsoleto. É preciso reconstruir, colocar em causa toda uma base que está frágil, virar do avesso, utilizar os avanços científicos e experiências diferenciadoras ao serviço de práticas educativas actualizadas, eficazes e que vão ao encontro das crianças e do respeito pelo seu desenvolvimento integral.

ASSIM, ambiciosamente mas realisticamente:

  • Queremos que as escolas e os professores tenham autonomia e liberdade para adequar as suas práticas às necessidades e características dos alunos, com a prioridade de seguir os seus interesses e motivações, por oposição ao seguimento cego de metas curriculares(…)
  • Queremos que as salas de aula deixem de ser mesas e cadeiras alinhadas, viradas para um quadro onde o professor é acima de tudo um transmissor inquestionável de conhecimentos. A evolução no acesso à informação faz com que as crianças não precisem que lhes transmitam saberes mas que as ajudem a estimular a criatividade, o pensamento crítico e a flexibilidade de pensamento. As crianças precisam de ficar viradas umas para as outras, em grupos heterogéneos dentro da sala de aula, de forma a aprenderem umas com as outras com o material que lhes é fornecido. (…)
  • Queremos que as avaliações sejam qualitativas, sem rankings ou exames que levam à comparação do que é incomparável, à frenética procura de melhorar a posição de uma escola e à destruição completa da intencionalidade educativa com números e médias. Os professores sentem-se obrigados a modular as suas aulas de forma a corresponderem a uma série de tópicos previamente estipulados e que fazem com as nossas escolas pareçam fábricas de conhecimentos que são iguais de Norte a Sul. (…)
  • Queremos que todos os espaços escolares deixem de ser edifícios rodeados de cimento, estéreis, demasiado planos e arranjados, sem terra, árvores ou elementos naturais que não respeitam as necessidades motoras e simbólicas das nossas crianças, tão essenciais para a integração das aprendizagens mais formais. Os recreios são pobres e cinzentos, sem riqueza de estímulos, possuindo apenas escorregas ou baloiços que levam à brincadeira programada e não permitem que as crianças acedem ao imaginário. (…)
  • Queremos que se pratique uma comunicação positiva por parte dos profissionais de educação. Não acreditamos em castigos, gritos, ausências de recreios, mesas viradas para a parede, tabelas de bom ou mau comportamento ou “palmadas pedagógicas”. A punição ensina a punir, não ensina a mudar. Acreditamos na autoridade do adulto, e não no autoritarismo, enquanto responsável pelo bem-estar da criança mas envolvendo-a no seu processo de socialização como um ser independente e com voz activa, nomeadamente construindo-se as regras do espaço escolar em conjunto com elas, com a nomeação do que é necessário para uma convivência saudável entre todos e com as consequências previsíveis quando isso não acontece.(…)
  • Queremos que a escola faça realmente parte da comunidade e que seja uma extensão das famílias. Que os pais que querem e têm disponibilidade para participar, possam ser envolvidos em actividades do quotidiano e que o acesso à mesma não lhes seja vedado. (…)
  • Queremos que os profissionais de educação tenham estabilidade profissional. Que sejam oferecidas condições para exercerem, sem concursos que os fazem leccionar longe da família e dos filhos e que a satisfação decorrente disso se reflicta na motivação para ensinar. Que seja retirada a carga burocrática e que se dê tempo e espaço para que possam fazer formação, nomeadamente tendo contacto com outras pedagogias alternativas. (…)
  • Queremos que as turmas sejam mais pequenas e que as crianças com necessidades especiais ou com dificuldades de aprendizagem tenham um acompanhamento diário no contexto de sala de aula e equipas multidisciplinares (psicólogos, terapeutas da fala, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais) com um rácio de alunos adequado para que possam intervir significativamente. Os professores de ensino especial passam muito pouco tempo com as crianças e estas acabam por não conseguir atingir o seu potencial pela impossibilidade do professor titular chegar a todos os alunos, que são numerosos e muito diferentes entre si.(…)
  • Queremos apostar nas competências sociais e emocionais dos nossos alunos, tanto quanto nas disciplinas propriamente ditas – não nos interessa formar crianças tecnicamente competentes que não se sabem relacionar e que saem de um sistema educativo que promove cada vez mais o individualismo;
  • Queremos dar mais foco a actividades artísticas, musicais, manuais e desportivas numa proporção semelhante à matemática, português ou ciências, mesmo porque as disciplinas estão todas interrelacionadas, e com vista a terminar gradualmente com as disciplinas fixas e estanques.(…)
  • Queremos cargas lectivas mais reduzidas e menos actividades programadas fora do tempo lectivo. Que o tempo livre seja isso mesmo, assente em brincadeira livre.(…)
  • Queremos afastar os argumentos constantes de que o ensino funciona melhor noutros países, nomeadamente nos países nórdicos, porque a cultura e mentalidade são diferentes e que não seria possível replicar no nosso país. (…)
  • Queremos que as famílias tenham maior liberdade de escolha na educação dos filhos, legislando-se práticas que actualmente não têm enquadramento legal mas que estão a proliferar pelo país, como as comunidades de aprendizagem constituídas por grupos de pais e/ou profissionais que querem oferecer às suas crianças uma maior diversidade de opções educativas. (…)
  • Queremos preparar e formar cidadãos para a vida prática, para a empatia, para a comunidade, para a honestidade social e empresarial – se formamos para a competição, formamos para o umbiguismo, para a acumulação de riqueza, para o fosso cada vez maior entre ricos e pobres, para o insucesso interior, para a noção de que a felicidade está intimamente relacionada com bens materiais e estatuto social.

Se concorda com o exposto, não continue de braços cruzados. 

Leia a petição completa aqui, e assine aqui.

Pelo futuro dos nossos filhos.

Esta petição foi criada por Ana Rita Dias e Membros do Grupo “Escolas Alternativas e Comunidades de aprendizagem em Portugal”

 

Ralhar ou não ralhar? Gritar ou não gritar? Eis a questão. 

Alguns pais dirão:
“Depende! Por vezes é importante!
Certos professores dirão:
“Não tenho sangue de barata. Há alturas em que é importante para impor a disciplina!“.
Outros, porém, confessarão:
Gostava de ralhar menos. Gostava de me controlar mais.

E é aí que surge a expressão “força de vontade”.

Sobre a “força de vontade” para não ralhar com os filhos ou alunos de forma injusta e descontrolada, muito se debate, muito se reflete. Mas quantidade, como se sabe, nem sempre é…isso mesmo…
Se há expressão que me tira do sério, é a expressão “força de vontade”.  Quem a usa, geralmente está a acusar alguém de não a ter, como se fosse algo simples, como se a pudesse adquirir numa loja de conveniência. Como se os que não a conseguissem exercer, fossem fracos.
Não é bem assim. Fico contente por poder partilhar uma definição de “força de vontade” que acho apropriada, porque estrutura este conceito. Uma definição que fui estudando, ao ler Daniel Goleman.
Primeiro, o pai que está prestas a ralhar, deve ser capaz de desviar de forma clara, intensa e construída, a atenção do mais simples, do mais “à mão”, do mais acessível, que é o tal ralhar…
Igualmente, o professor, perante uma turma “em ebulição” tem que ser capaz de desligar o foco da sua atenção daquela solução que surge cativante, e até, sedutora.
São uns segundos preciosos, onde se joga o desenrolar da situação.
Depois, quem deseja evitar ralhar, gritar de forma injusta, deve ir levando o foco da atenção para o objetivo futuro. Deve conseguir entender o orgulho que vai sentir no futuro, quando analisar o seu comportamento, quanto constatar o seu auto-controlo.
No fundo, deve conseguir trazer para o presente os frutos de uma educação mais pensada, menos gritada, com menos repelões. Deve imaginar a relação positiva com os filhos, e o sucesso de uma autoridade conquistada aos alunos, de forma natural.
Nestes momentos pode ajudar olhar para o infinito. Ou fixar um ponto distante na sala. Pode ser útil olhar pela janela. Cada um poderá desenvolver a sua estratégia. Há quem se concentre uns segundos na respiração.
Estas ideias têm por trás o período de tempo onde a frase (que pode ser dita interiormente!) fará toda a diferença:
Estou prestes a ralhar. Como me vou sentir depois? Quem estou a desiludir? Ralhar é a melhor solução?”
São estradas que nos podem levar ao objetivo do auto-controlo.
São caminhos no córtex pré-frontal que são úteis na educação, mas também, na gestão da alimentação, das finanças e das relações amorosas.
Força de vontade?
Tem muito que se diga. Mas vale a pena o esforço porque gritar, não é uma forma de educar.

Educar, ensinar e liderar – 6 Reflexões

Educar, ensinar, liderar, dirigir, todas são tarefas onde é muito importante as capacidades e os conhecimentos dos executantes. Podemos estar a falar de psicólogos, pais, professores ou de líderes empresariais.

É fantástico quando a arte e o engenho se fundem e temos bons profissionais. Nessas circunstâncias, as crianças ganham, os alunos melhoram as notas, o ambiente é mais positivo.
Mas desejamos ter mais do que apenas bons profissionais! Desejamos ter profissionais excelentes.
É um mundo mais brilhante que começa a emergir, quando os profissionais são excelentes. É ter cérebro, sim, o cérebro é importante. Claro. Mas é ter mais ! Mais alma, mais coração.
É que há algo ainda mais relevante do que as características de cada elemento que intervêm no processo pedagógico , psicológico ou relacional.
Poucos (nenhuns?) conseguem fazer alguma coisa brilhante de forma isolada, sozinhos, sem apoio. A vida não é estanque. Os processos contaminam-se, sofrendo influências de diferentes fatores. Uma criança não é só educada pelo pai. Também há a mãe (na maioria dos casos, claro). Uma criança não é só educada pela mãe. Também há o pai. O professor não ensina sozinho. A Escola está numa comunidade.
Um aluno tem família, avós, tios. Estes são mais ou menos participativos. Uma equipa de trabalho tem diversos atores, cada um com o seu papel.
Por isso, é fundamental saber trabalhar em equipa! Nas minhas (trans) Formações para professores, tentamos sempre dar ferramentas para a melhoria dos processos de trabalho de grupo. Uma andorinha não faz a primavera.
Como estamos todos longe de ser prefeitos, mas como grande parte de nós deseja melhorar, ofereço seis sugestões para reflexão, no sentido de sermos melhores colegas, trabalhando melhor em equipa.

1 – Inspiremo-nos no trabalho da Psicóloga Barbara Fredrickson.

Entre outras coisas, ela demonstra a existência de uma ponte entre as Emoções Positivas e outros comportamentos positivos, tais como a Curiosidade e a Criatividade. Se cada um de nós levar Emoções Positivas para a equipa de trabalho, estamos a melhorar a produtividade, ao incrementar indiretamente esses comportamentos positivos. Também o fazemos em família. E podemos fazer mais e melhor, tendo esta noção, tendo esta clareza.

2 – Há psicólogos que defendem que “as zonas de prazer, não têm ligação com as zonas de aprendizagem”.

Então? Com tanto terreno para ser desbravado sobre o conhecimento do cérebro, vamos aceitar este dado como uma verdade absoluta? Para quê? Para educarmos “à força”? Para gerir uma equipa através do medo? Pessoas com medo trabalham melhor? Há evidência que aponta para o contrário. Podemos fazer a experiência. Coloca-se um grupo de médicos a trabalhar num diagnóstico. A este grupo, ameaça-se com uma punição caso o resultado não surja. A um outro grupo oferece-se um bom ambiente, uma recompensa…e vamos ver os resultados. E cada um de nós pode avaliar também em que momentos da vida foi mais produtivo.
Quando tinha medo ou quando estava tranquilo e feliz no desempenho das funções? Para esta reflexão, é enriquecidor que as pessoas tenham tido experiências em diferentes projetos ou empresas.

3 – As equipas melhoram quando o líder é positivo.

Em casal, a liderança vai alternando. Os professores vivem diferentes momentos. Ora lideram, os são liderado. Tenhamos em conta o nosso papel. Desejamos equipas melhores, por isso, oferecemos o melhor de nós a cada momento da relação. Tentemos ser líderes positivos, com o objetivo final em vista. O objetivo não é ganhar uma discussão, não é ganhar mais um projeto ou ganhar dinheiro a todo o custo. O objetivo é ajudar a estruturar aquelas crianças, sejam filhas, sobrinhas ou alunas.

4 – Conheça as forças de cada elemento do casal.

Conheça as capacidades, de cada professor. Identifique as capacidades dos seus colegas de trabalho. Interesse-se por descobrir em que área cada um pode brilhar mais, trabalhar com mais empenho, explanar melhor as suas capacidades.

5 – Liberdade para agir sem uma visão, sem um foco, sem um plano previamente trabalhado, de nada serve.

O professor precisa conhecer o foco da Escola, o verdadeiro projeto capa de nortear tudo. Os pais precisam chegar a acordo sobre que tipo de família querem. A intervenção psicológica precisa de consenso entre os intervenientes. Os boicotes, as dificuldades de relação entre membros das equipas, surgem quando a liderança falha ao criar um foco. Um empresa sem visão, acaba por desaparecer. Um casal sem um plano para educação, corre o risco de educar ao sabor de uma maré ou corrente que não sabemos onde vai dar. No fundo, tem que estar escrito o que cada um deve fazer e o porquê. Depois é que surge a liberdade. Há casais que pensam nisto e chegam mesmo a colocar por escrito. Não é só nas (boas) empresas.

6 – Um desafio para terminar. Trabalha em equipa? É pai? É professor?

Então conheça a “Betari Box”! Se lhe interessa o tema, se deseja melhorar, faça a sua pesquisa sobre a “Betari Box“. É uma ferramenta muito útil. Pode ser adaptada para o trabalho com crianças e jovens. Pode ser útil se estiver numa empresa.
Para finalizar, uma DICA:
  • Diálogo, sincero e honesto com cada um dos membros da equipa. Fale à parte com cada um deles.
  • Ideias contam. Ouça-as. Se não ouvir as ideias dos seus  colegas, parceiros ou colaboradores, pode estar a perder o melhor…
  • Contribua com Emoções Positivas.
  • Aja com naturalidade, e, por vezes, com “saudável loucura” e irreverência, mas não esqueça de ter foco.

imagem@emaze

Não tens nada para dizer ao professor?

Há dias, o Miguel -7 anos, chegou à aula de Aikido. Como sempre, cumprimentou-me para, logo de seguida, ser interpelado pelo pai que nesse dia o acompanhava:

Não tens nada para dizer ao João?

Hesitou um bocado mas, sem que fosse necessário insistir, lá desembuchou:

Peço desculpa por me ter portado mal na última aula e ter ficado de castigo.

Confesso que fui apanhado de surpresa. Castigo é um termo que não costumo usar e, que me lembrasse, o Miguel não tinha feito nada de particularmente grave. 

Lembrei-me então do sucedido na aula anterior. Apesar de ser uma criança muito bem educada e bastante afectiva, o Miguel não resiste a dizer o que lhe passa pela cabeça. Depois de ter passado muito tempo a interromper a aula por tudo e mais alguma coisa, não se conteve e respondeu-me com uma piada mais atrevida a um reparo que lhe fiz. Nada de grave como já atrás referi mas, diz-me a experiência, que há alturas certas para interromper um crescendo de “criatividade” que, certamente, desembocaria em asneira…

Também não uso o conceito de castigo nas minhas aulas. O que fiz neste caso, e faço por vezes noutras ocasiões, foi pedir ao Miguel que se fosse sentar um bocadinho até eu dizer para regressar à aula. O seu regresso dependeria de um compromisso de nela querer participar. Passado um minuto, já o Miguel assumia insistentemente o dito compromisso e, portanto, regressou. Tudo bem, sem drama e com o habitual jogo no fim do treino.

Houve razão para que o pai do Miguel o obrigasse a pedir-me desculpa? Claro que não. Por duas razões: primeiro, o meu aluno não fez nada que não seja habitual em crianças de 7 anos e com que um professor, do que quer que seja, não esteja já habituado a lidar. Segundo, porque o espaço da aula de Aikido é da criança, dos seus colegas e do professor. Por mais que lhes custe, os pais devem aceitar que há espaços em que não devem interferir. Da mesma forma que não intervêm numa aula de matemática, os pais não devem intervir nas aulas ou treinos das actividades extra curriculares. É muito importante que as crianças saibam distinguir entre espaços: de casa, da escola e das outras actividades; que joguem com essas diferenças e adoptem diferentes atitudes em cada uma delas. Em cada espaço haverá regras diferentes e, se tudo correr normalmente, alguém empenhado no seu crescimento saudável e na sua felicidade. Alguma atitude menos correcta será tratada no momento; levá-la para casa será uma distorção do real valor do problema e poderá até criar resistências a um regresso no dia seguinte.

Há também os pais que não resistem a intervir durante o próprio decorrer da aula. Por norma, prefiro que os pais não estejam presentes durante o treino de Aikido, mas é razoável que por vezes gostem de assistir e não sou fundamentalista neste aspecto.

É no entanto muito importante que os pais se mantenham o mais neutros possível e não “participem”. Um pai ou mãe que constantemente interfiram na aula, alertando as crianças a partir de fora para “ter maneiras”, para ter atenção ou para estarem quietas, está não só a roubar-lhe parte de um tempo que é seu, como a transformar a hora da aula em mais uma hora igual às outras todas. Falo da minha actividade, claro, mas estou certo de que será igual em tantas mais: durante um treino de Aikido as crianças tomam decisões sozinhas, participam na organização do dito treino e são estimuladas a contribuir para o bom funcionamento do grupo.

Interferir na aula será, portanto, interferir na aquisição de instrumentos valiosos para uma educação mais completa.

Há muito tempo que os pais se queixam do excesso de TPC que as crianças trazem diariamente para casa. Se pensava que era um mal do ensino português, desengane-se, porque mesmo aqui ao lado no país vizinho os trabalhos de casa ocupam aos alunos uma média de 6,5 horas/semana, colocando-o como um dos países em que os professores sobrecarregam mais os alunos com os deveres.

Em reação ao cansaço extremo e falta de tempo em família e para brincar, a Confederação Espanhola de Associações de Pais e Mães de Alunos, Ceapa, que representa cerca de 12 mil associações, convidou as famílias das várias comunidades autonómicas espanholas a fazerem uma greve aos TPC´s durante o mês de Novembro.

Os argumentos da Ceapa é que os trabalhos de casa “invadem o tempo das famílias” e “violam o direito ao recreio, à brincadeira e a participar nas atividades artísticas e culturais”, tal como vem descrito no artigo 31 da Convenção dos Direitos da Criança.

O presidente da Ceapa, José Luis Pazos, declarou ao El Mundo que os pais querem “recuperar o tempo familiar dos fins-de-semana”. “Também queremos que o modelo mude e que se dê um salto qualitativo no sistema educativo. Escolas de outros países funcionam sem trabalhos de casa, sem livros de texto e sem exames e obtêm resultados magníficos“, realçou.

A OCDE alerta que os trabalhos de casa “reforçam a disparidade socio-económica entre os estudantes” e “aumentam o intervalo entre os ricos e os pobres”.

Se há profissão especial, essa profissão é a de professor.

São tantas as razões; As horas que passam com os nossos filhos, os segredos partilhados, a base do futuro, o exemplo, a esperança…

E as dificuldades? Imensas; O trabalho burocrático, as turmas demasiado grandes, tantos pais e encarregados de educação ausentes…

E sim, agora, os professores já devem estar de férias. Não, eles não entram de férias ao mesmo tempo que os alunos. Há vida e muito trabalho nas Escolas nas férias dos alunos. Ainda há pessoas que não entendem esta realidade. As reflexões sobre o professor do futuro, são os dados que levam os profissionais a quererem melhorar, são pensamentos sobre o trabalho que é feito em centenas de escolas em Portugal. Demasiadas vezes levado a cabo longe das “luzes da ribalta”, como se fosse um segredo. Segredo que agora revelo.

Reflexão 1

Como Hensel e Gretel fugiam da fome e da miséria, as nossas crianças precisam escapar-se de um tipo de futuro que todos tememos. A ameaça terrorista, as doenças mentais e a falta de felicidade, são os diferentes chapéus da bruxa. O século XXI exige toda a concentração. Exige profundidade nas análises. Também necessita de inspiração. Mas é no trabalho e na reflexão sobre os dilemas que estarão as soluções.

Neste particular, os professores têm essa responsabilidade. Quando a enfrentam, quando procuram ler, refletir, debater e ter formação, eles brilham de tão especiais que são. Quando estão atentos às inteligências múltiplas, às neurociências e à emoção na relação pedagógica, estes professores, por vezes com sacrifício, atingem um caráter particular. Um caráter especial.

Reflexão 2

Precisamos de professores que sejam capazes de educar crianças, de modo a que saibam sozinhas colocar bem as suas migalhas de pão. Precisamos de professores que inventem formas dessas migalhas não serem comidas pelos pássaros. Felizmente, em Portugal, há milhares destes professores.

Claro que também gosto do Cristiano Ronaldo. Claro que vibrei com as conquistas da selecção. Mas não posso de deixar de pensar que há aqui alguma injustiça. Quem são os verdadeiros heróis? Quem deveria ser reconhecido socialmente?

Reflexão 3

Não pretendemos colocar aqui as noções teóricas do trabalho que desenvolvemos com os professores na (trans)Formação “Os Sete Hábitos do Professor do Futuro”. Procuramos produzir sentimentos. Deixo os dados e as relações de causa efeito para o trabalho no terreno. Aí falamos na importância do professor do futuro estar atento à credibilidade das fontes. Aí ajudamos a pensar sobre as formas de lidar com a ansiedade e sobre formas de comunicação que agarrem as crianças e jovens.

Reflexão 4

Trabalhamos em muitas Escolas Públicas, como na EBI do Pinhal Novo e em Instituições como o Centro Comunitário de Carcavelos. Trabalhamos com professores em Colégios em Lisboa, como no “Colégio de Santa Doroteia” e em Escolas Públicas de norte a sul, como no Agrupamento de Escolas Morgado de Mateus em Vila Real.  Correndo o risco de deixar de fora muitos exemplos, arrisco citar alguns, porque é importante. É importante espalharmos a noção de que há muitos professores a fazer o que é certo! Eles já estão no futuro. As mudanças das crianças, as mudanças nos mercados de trabalho, as mudanças no mundo já estão aí. Os desafios já chegaram. E os professores já estão a dar tudo. Muitos professores já estão a dar tudo.

Confissão

As minhas lágrimas brotam no final do trabalho, quando sinto os professores envolvidos, quando os vejo serem agitados e quando eles próprios me agitam. A alegria invade-me quando chego ao carro e sinto que tocámos nas pessoas especiais. Aprendo sempre.

Um grupo de pessoas que trabalha em salas quentes, que trabalha fora da hora de trabalho, um grupo de docentes que investe para melhorar na relação com os alunos, um grupo de pessoas que canta o coro da escola numa manifestação esmagadora de espírito de grupo. Um professor que nos interpela dizendo “não concordo” só porque estava atento, só porque estava a pensar. Um professor que se chega à frente e organiza o evento, preparando tudo, desde as inscrições à marcação da sala.

Vibrei na Escola em Vila Real quando aplaudiram a diretora, a “charming red”.

Boas férias, aos que estão de férias, até breve para mais emoções, para mais trabalho. Há migalhas para ensinar a colocar, há pássaros para afugentar, há bruxas para colocar no forno. Estes são os nossos “golos do Éder”.

Vai visitar uma escola?

9 perguntas indispensáveis para fazer ao director

Embora a maior parte dos pais já tenham escolhido a escola onde irão colocar os seus filhos no próximo ano letivo, há também muitas escolas que já estão a para marcar visitas para o ano a seguir, aproveitando assim a interrupção letivas do verão.

Se ainda não tem uma opção definida para os seus filhos e vai visitar uma escola brevemente, este artigo é para si!

Escolher uma nova escola pode ser uma saga . Agora que domina a ciência complexa que está na origem desta decisão, queremos mesmo que faça boa figura no primeiro contacto com as escolas que seleccionou para o seu filho. São nove perguntas essenciais que o vão tornar um especialista na matéria aos olhos do director, e nove respostas que vão pesar na balança.

Ficam as nove perguntas indispensáveis a fazer ao diretor quando vai visitar uma escola:

1. O que distingue esta escola das outras?

Porque a resposta a esta pergunta pode ser vital na sua decisão, o director deve conseguir estruturá-la com a clareza e energia de um apaixonado. Uma escola segue o caminho que a direcção marcar.

2. Como asseguram a comunicação escola-família?

Este é dos aspectos interessantes de avaliar se pretende saber qual a abertura da escola à família. Há um sem número de ferramentas tecnológicas que permitem que os pais acedam com facilidade a tudo o que acontece na escola: visitas, actividades, projectos, avaliações, assiduidade. Não usufruir deste recurso é uma limitação séria a ter em conta.

3. Existe um programa de acolhimento para os novos alunos?

A integração numa nova escola pode ser problemática especialmente se não for planeada do lado de lá. No caso das crianças mais novas, deve existir uma forte articulação com a família. No das mais velhas, o envolvimento do director de turma e do representante dos alunos é essencial.

4. Qual o nível de rotatividade do corpo docente?

A estabilidade é fundamental para a qualidade do ensino. Uma instituição em que os professores estão constantemente a mudar de rosto talvez não os valorize tanto quanto deveria. Se o rendimento dos professores é afectado o do seu filho também, acredite.

5. Os colaboradores fazem formação contínua?

Uma escola lida com uma multiplicidade grande de serviços: alimentação, ensino, transporte, higienização dos espaços. É importante que cada área possa usufruir de um plano de formação planeado de acordo com as necessidades, e que contribua para a melhoria contínua das práticas.

6. A escola pratica inquéritos de satisfação com regularidade?

A opinião dos mais directamente afectados pelo serviço educativo não deve ser menosprezada. Por norma as crianças, os pais e os colaboradores reconhecem com bom rigor quais os pontos fortes e as práticas a melhorar numa escola. Este procedimento é também um bom caminho para fomentar hábitos de cidadania e para democratizar a gestão.

7. Em média quantos vigilantes existem por grupo?

O tamanho dos grupos e o ratio adulto-criança são elementos chave na manutenção da segurança física e emocional das crianças. Questione a direcção acerca dos recursos humanos que a escola disponibiliza para o nível de ensino que procura, e para os diferentes momentos da rotina: aulas, refeições e pausas.

8. Quantas vezes os alunos podem sair para o exterior?

Ter tempo e o espaço coberto que permita respirar ar puro ou esticar as pernas mesmo no Inverno, é muito importante para ter bom desempenho. Uma criança precisa de movimentar-se mais que um adulto e essa necessidade deve ser respeitada. Para além disso, as salas de actividade precisam de arejamento frequente durante estes intervalos para que sejam evitados os habituais contágios.

9. Que áreas são contempladas pela avaliação dos alunos?

Se é exigido aos estudantes que adoptem uma determinada linha de conduta ao nível do comportamento, da cidadania, dos valores e dos hábitos, não incluir esses elementos na avaliação é boicotar a sua importância na formação global do aluno. Que incentivo terão os mais novos em envolver-se em projectos sociais relevantes, se eles tiverem um efeito nulo nos resultados?

Eu sei. Estás preocupada.

Todos os dias o teu filho chega a casa com uma história sobre AQUELA criança.

Aquela que está sempre a bater, a empurrar, a beliscar, a arranhar e até a morder às outras crianças.
Aquela que tem de ir sempre de mão dada comigo na fila para a sala.
Aquela que tem um lugar especial no tapete, e às vezes senta-se numa cadeira em vez de se sentar no chão.
Aquela que teve que sair da sala de brinquedos, porque os brinquedos não foram feitos para ser atirados.
Aquela que trepou a cerca do parque exatamente enquanto eu dizia para não o fazer.
Aquela que entornou o leite do colega no chão num acesso de raiva.

De propósito. Enquanto eu estava ali, a olhar para ela. E depois, quando eu pedi que limpasse, acabou com o rolo de papel inteiro! De propósito. Enquanto eu observava. Aquela que diz PALAVRÕES à séria na aula de educação física.

Estás preocupada porque acreditas que esta criança poderá prejudicar a experiência de aprendizagem do teu filho.

Tens medo que esta criança ocupe grande parte do meu tempo e da minha energia, e que o teu filho não receba a atenção necessária e merecida.
Tens medo que esta criança  magoe alguém a sério um dia. E tens medo que esse “alguém” seja o teu filho.
Tens medo que o  teu filho também comece a ser agressivo.
Tens medo que o teu  filho possa ficar para trás porque eu talvez não consiga aperceber-me de que ele está com dificuldades a fazer a pega do lápis. Eu sei.

O teu filho, este ano, com esta idade, não é AQUELA criança.

O teu filho não é perfeito mas geralmente segue as regras. Ele é capaz de partilhar brinquedos pacificamente. Ele não atira os brinquedos. Ele põe o dedo no ar para falar. Ele trabalha quando é para trabalhar, e brinca quando é para brincar. Sempre que vai à casa de banho volta direto para a sala de aula sem se distrair. Ele nem conhece os palavrões. Eu sei.

Eu sei, e também estou preocupada.

Eu estou sempre preocupada. Com TODOS os meus alunos.

Preocupo-me com a pega do lápis do teu filho, com os sons das letras de outra criança, com a timidez do mais pequeno da sala e com a lancheira vazia de outros. Eu preocupo-me que o Lucas não venha suficientemente agasalhado e que o pai de Talita grite com ela por escrever a letra B ao contrário. Penso neles enquanto vou a conduzir para casa e quando estou a tomar banho de manhã, porque os meus pensamentos estão sempre com eles.

Mas eu sei, que queres falar sobre AQUELA criança.

Porque os Bs ao contrário de Talita não vão deixar o teu filho com um olho roxo. Eu também quero falar sobre aquela criança, mas há tantas coisas que eu não te posso dizer.

Eu não te posso dizer que ele foi adotado aos 18 meses.

Eu não te posso contar que está a fazer uma dieta de eliminação de possíveis alergias alimentares, e que por isso está SEMPRE com fome.

Eu não te  posso dizer que os pais daquela criança estão, neste momento, a meio de um divórcio horrível, e ela tem ficado com a avó.

Eu não te posso dizer que desconfio que a avó beba demais… Eu não te posso dizer que a medicação que toma para a asma faz com que fique muito agitado.

Eu não te posso dizer que a mãe daquela criança é uma mãe solteira, e deixa-a na escola todo o dia, desde que abre até fechar e que, de seguida, a viagem até a casa leva 40 minutos.

Eu não te posso dizer que aquela criança foi vítima de violência doméstica.

E tu entendes que eu não possa partilhar informações pessoais ou da família. Só queres saber quais as medidas que estou a aplicar em relação ao comportamento daquela criança.

Eu adorava contar-te. Mas também não posso.

Eu não te posso dizer que aquela criança recebe serviços fonoaudiólogos, porque numa avaliação apresentou um grave atraso na linguagem, e que o terapeuta sente que a agressão está relacionada à frustração por ser incapaz de comunicar.
Eu não te posso dizer que tenho reuniões com os pais daquela criança TODA as semanas, e que costumam chorar nessas reuniões.

Eu não te posso dizer que aquela criança e eu temos um sinal secreto para me dizer quando precisa de se estar sozinha por um tempo.

Eu não te posso dizer que aquela criança passa o intervalo enrolado no meu colo porque “me faz sentir melhor ao ouvir seu coração, professora“.

Eu não te posso dizer que tenho rastreado os seus incidentes agressivos meticulosamente, e que diminuíram de 5 incidentes por dia, para cinco incidentes por semana.

Eu não te posso dizer que a chefe da secretaria da escola concordou em deixar-me mandar aquela criança para o escritório para “ajudar” sempre que eu achar que precisa de “mudar de ares”.

Eu não posso te dizer que na última vez que tive de sair da sala, IMPLOREI de lágrimas nos olhos aos meus colegas que ficaram a tomar conta  para serem gentis com aquela criança, mesmo estando frustrados porque acabou de dar um soco a alguém OUTRA VEZ, e mesmo à frente do PROFESSOR.

A questão é, há TANTAS COISAS que eu não te posso dizer sobre AQUELA criança. Eu nem sequer te posso dizer as coisas boas.

Eu não te posso dizer que o seu trabalho na sala de aula é regar as plantas. Que ele chorou desconsoladamente quando uma das plantas morreu durante as férias de natal.

Eu não te posso dizer que ele dá um beijinho de adeus na sua irmã bebé todas as manhãs, e diz-lhe “és o meu sol” antes da mãe ir embora.

Eu não te posso dizer que ele sabe mais sobre as tempestades do que a maioria dos meteorologistas.

Eu não te posso dizer que muitas vezes ele me pede ajuda para afiar os lápis durante o intervalo.

Eu não te posso dizer que ele gosta de fazer cafuné no cabelo dos amigos no intervalo.

Eu não te posso que, quando um amigo está a chorar, ele é o primeiro a vir do canto de histórias com o seu ó-ó para o confortar.

A questão, querida mãe, é que eu só posso falar contigo sobre o TEU filho.

Então, o que eu posso dizer-te é o seguinte:

Se em algum momento, o TEU filho, ou qualquer um dos Teus filhos, se tornar NAQUELA criança…

Eu não vou partilhar os teus assuntos familiares com outros pais na sala de aula.
Eu vou comunicar contigo com frequência, de forma clara e gentil.
Eu vou certificar-me de que terei sempre lenços de papel por perto nas nossas reuniões e, se deixares, eu vou agarrar-te na mão enquanto choras.

Eu vou defender sempre o teu filho e a vossa família, para que recebam os serviços especializados de melhor qualidade, e eu vou cooperar com esses profissionais da melhor forma que for possível.

Eu vou certificar-me que o teu filho recebe sempre amor e carinho quando mais precisar.

Eu vou ser uma voz para a tua criança na nossa comunidade escolar.

Eu vou, independentemente do que aconteça, continuar a procurar e encontrar as coisas boas, surpreendentes, especiais e maravilhosas sobre o teu filho.
E eu vou-te lembrar dessas coisas boas, incríveis, maravilhosas e especiais, várias e várias vezes. Sempre que precisares.

E quando outras mães vierem ter comigo preocupadas com o TEU filho…

Eu vou dizer-lhes exactamente o que te disse.
Palavra por palavra.

Com amor,
A professora do teu filho

 

Publicado no Blog  Miss Night’s Marbles,
traduzido e adaptado por Up To Kids®

imagem@360doc.com

Se é verdade que não há pais perfeitos, é também certo haver professores com muito a melhorar. São 18 temas importantes, que às vezes ficam por conversar, 18 coisas que os pais deviam dizer aos professores:

  1. Quando leio as avaliações do meu filho sinto que preciso de saber mais ao nível pessoal e social. Como é o seu comportamento com os colegas, com os adultos, o que é que o apaixona mais na escola ou o que o torna mais desmotivado. Todas as coisas que os testes não dizem.
    2. Comece as reuniões por dizer o que os nossos filhos fazem bem e termine com uma mensagem de encorajamento. Se pelo meio tiver que nos puxar pelas orelhas, não será tão difícil lidar com os problemas.
    3. O dever de confidencialidade deve ser rigorosamente cumprido junto das crianças, dos pais e dos seus colegas professores. Debater em grupo os problemas que os mais novos têm em casa não é ético, nem profissional. Usar os alunos para satisfazer a sua curiosidade, menos ainda. Incomoda-me que o meu filho saiba pormenores (que ouviram dos professores) sobre outras famílias que eu não gostaria que soubessem da minha.
    4. Só reclamo quando a situação o justifica, por isso agradeço que me mantenha informado sobre o que está a ser feito para diminuir ocorrências graves. Os problemas não desaparecem só porque deixamos de falar sobre eles.
    5. As crianças precisam de aprender a brincar e isso poderia acontecer mais vezes. E também fora da sala de aula.
    6. A maioria dos conflitos entre as crianças surge em momentos como a entrada ou saída, os intervalos e pausas para almoço. Se a supervisão de um professor é suficiente o bastante para atenuar maus comportamentos, talvez fosse melhor agir por antecipação. De nada serve chamar o professor depois do pior já ter acontecido. Porque é que nunca se vê um professor no recreio?
    7. Nunca teci comentários sobre os TPC em frente ao meu filho, mas quando ele me diz que traz três fichas para fazer, confesso que respiro fundo.
    8. O meu filho é um excelente aluno, agradeço-lhe por isso. Pode encontrar outra forma de o desafiar que não passe apenas por ajudar os alunos com dificuldades? Ser solidário é importante, mas aprender coisas novas todos os dias também.
    9. Manter o controlo disciplinar do seu grupo é um investimento essencial. Esperar pelo momento de dar a nota para punir comportamentos é tarde (para quem não cumpre regras mas também para quem quer aprender).
    10. Os estudantes mudam a cada ano que passa, as formas de ensinar também. Acomodar-se a modelos de ensino desfasados da realidade não é vantajoso para ninguém. Atualize os seus conhecimentos.
    11. Por mais difícil que lhe possa parecer, por favor lembre-se que o meu filho é só uma criança. Na generalidade das situações, se ele não sabe é porque ainda não aprendeu – e todos temos o dever de lhe ensinar.
    12. Não confunda asneiras de criança com afrontas pessoais. Volte à sua infância e perceberá que os maiores disparates cometidos por si não foram premeditados com malvadez.
    13. Seja assertivo mas discreto nas reprimendas. Educar nada tem que ver com humilhar publicamente.
    14. Use o seu sentido de humor. Entrar na brincadeira pode fazer dos alunos seus parceiros em vez de opositores.
    15. A avaliação de desempenho promove a melhoria contínua e acontece em todas as áreas profissionais, independentemente do cargo que se ocupa. Resistir-lhe pode passar a mensagem de que há algo para esconder.
    16. Trabalhe em equipa com os vigilantes e operacionais de ação educativa e esclareça-os bem quanto aos seus deveres. Muitas vezes são estes elementos que fazem a ponte entre a escola e a família.
    17. Pertenço à associação de pais com algum sacrifício pessoal, para melhorar o serviço prestado aos alunos. Recorra a ela sempre que precisar de ajuda, mas saiba usar o dom da reciprocidade. Não há parcerias unilaterais.
    18. Não penso que os professores têm vida fácil, embora admita que todas as profissões causam desgaste. Ainda assim, peço-lhe um esforço para humanizar mais o ato de ensinar, sempre que lhe for possível. Assim vale bem mais a pena ir à escola.

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