As mães também choram

A maternidade é uma das coisas mais universal do mundo.

Se, por um lado, isso nos ajuda a sentir que somos como tantas outras mães, muitas vezes também sentimos que por isso, por ser tão universal e tantas mulheres o viverem os nossos dramas nos isolam. Sentimos culpa, sentimos que não devíamos sentir coisas menos positivas, que não devíamos perder a paciência, que somos mal agradecidas em algumas ocasiões.

Sermos mais uma na maioria em alguns dias faz-nos sentir pequenas.

À conversa com a mãe de um amigo da minha filha senti mais uma vez a importância de sermos sinceras umas com as outras e partilharmos também as nossas derrotas. Ela contava-me que num final de um dia mais complicado, com birras, se tinha sentado na cama e chorado. E que o marido lhe tinha perguntado por que estava ela a chorar, porque não se tinha apercebido de nada de extraordinário.

Às vezes é assim, cumprimos esta nossa missão com tamanha assertividade que é uma surpresa para as outras pessoas quando nos vamos abaixo.

Mas isso acontece e é comum a todas as mais, numa altura ou outra do seu caminho.

Há as que choram no pós parto, as que choram quando amamentam, quando deixam de amamentar. Quando têm de pôr os filhos na creche, quando os vão buscar à creche mais tarde do que gostariam, quando vêem as contas a aumentar e têm de fazer ginástica para fazer face a todas elas. Quando se separam e percebem que a vida dos filhos nunca será igual (nem a sua) à que planearam, as que choram simplesmente porque estão cansadas.

Há alguns meses eram raros os dias sem incidentes à saída da escola da minha filha. Foi uma fase de birras feias em que a maior derrotada fui eu e a parentalidade positiva. Mas aí percebi que nenhum tipo de parentalidade resultaria porque simplesmente a minha filha entrava em modo automático e não via nem ouvia nada. Era exasperante e ela acabava por adormecer no caminho de casa, exausta. E não foram raras as vezes em que acompanhei o seu sono com lágrimas silenciosas. Lágrimas que me escorriam pelo rosto enquanto revia uma e duas vezes o que poderia ter feito de outra maneira, onde podia melhorar, o que poderia fazer no dia seguinte para evitar este desgaste.

Aos poucos as coisas foram melhorando, até porque as crianças vão crescendo de dia para dia, ultrapassando as suas próprias barreiras.

Chorei em frente à minha filha – contra o que algumas pessoas me disseram que deveria fazer “para ela não perceber o efeito que tinha em ti”. Permiti-me chorar exactamente pelo contrário, para que ela pudesse testemunhar que as suas acções têm consequências. Naturalmente que não chorei para lhe imputar um sentimento de culpa, num discurso de “vês como a mãe fica quando te portas assim?”. Chorei porque não aguentava mais e em vez de ir para o quarto esconder-me, deixei que ela visse. Abri a porta ao diálogo.

E senti a empatia dela.

Ajudou-nos a falar do que tinha corrido mal.

E foi a excepção, naturalmente. Não tenho qualquer memória de ver os meus pais a chorar. E não quero que essa seja uma memória activa da infância da minha filha. Mas ali foi orgânico. Porque ao pé dela já chorei de felicidade, de emoção.

Por que motivo nos escondemos quando as nossas emoções não são positivas?

E quando a mãe do amigo da minha filha, que eu considero uma super mãe, super assertiva e firme, sempre no controlo de tudo, me disse que tinha chorado eu senti-me abraçada. Acompanhada. Compreendida. Senti que fazia parte para todas nós.

As mães mais ou menos seguras.

As mães mais ou menos disciplinadoras.

As mães mais ou menos sensíveis.

As mães.

Porque as mães choram.

E não há mal nenhum nisso.

Este texto hoje é para ti.

Para ti que perdeste o bem maior e mais precioso que a vida te deu.
Para ti que enfrentas diariamente o maior medo e o pior pesadelo de todas as que, tal como tu, são mães.

Deixa-me começar por te dizer que tenho perfeita noção que não conheço a tua dor. E é com todo o respeito que tenho por ela e por ti que não arrisco nenhuma palavra acerca dela. Quero apenas escrever-te, hoje, aquilo que tantas vezes penso e nunca te disse.

Quero contar-te, hoje, que dou comigo, muitas vezes, a pensar em ti.

Penso em ti quando distribuo pelos meus os beijos de boa noite.

Penso em ti nas noites em que estou mais cansada e deixo a reclamação ocupar o lugar do amor que ambas carregamos no coração.

Penso em ti quando me assusto.

Penso em ti quando, mesmo com sono, o medo não me deixa adormecer.

Penso tantas vezes em ti.

Gostava de te abraçar com a mesma força com que tu carregas o teu mundo de saudade. Com um abraço que, mesmo só por um momento, aliviasse a tua dor. Ou quem sabe até com um abraço que te fizesse ir lá acima, onde tantas vezes te imaginas a chegar, para logo a seguir te fazer regressar.

Gostava de te pedir, e desculpa-me tanta ousadia, que aceites com amor os teus dias por cá. Mesmo aqueles que parecem não ter mais nada para agradecer.

Quero-te contar que as tuas pessoas estão sempre dispostas a ouvir-te.

Mesmo as que nunca te fizeram nenhuma pergunta. Peço-te que não tenhas nunca receio que as tuas doces memórias possam incomodar alguém. E não te inibas de sorrir quando decides partilha-las. Nem de chorar.

Gostava também que as tuas pessoas partilhassem mais contigo as suas alegrias. Não sei o que as impede de o fazer quando eu sei que tu continuas a sentir-te feliz pelos outros.

Sei que em dias de festa, nesta série de dias em que se transformou a tua vida, te falta sempre o actor principal.

Quero-te dizer que já chorei por ti.

E que vou continuar a chorar.

Este texto hoje é para ti.

Quis apenas escrever-te, hoje, aquilo que tantas vezes pensei e nunca te disse.

Os clássicos Disney e a mensagem para as nossas miúdas

Recentemente a actriz britânica Keira Knightely veio a público dizer que a sua filha de três anos está proibida de ver alguns clássicos da Disney, como a Cinderela, pela mensagem que passam, de que a mulher deve esperar que um homem venha salvá-la dos seus problemas.

Percebo o que ela quer dizer, é claro, mas acredito que esses filmes têm muito valor e são uma boa porta de entrada para a abordagem de vários tópicos e que podem ajudar a espalhar uma mensagem de igualdade de género, nem que seja pelo exemplo: viste o que ela fez e devia ter feito em vez disso?

Sou da opinião que o maior problema desses filmes é passar a ideia de um felizes para sempre, que bem sabemos não é assim tão plausível quanto isso. Porque a vida é feita de ciclos e depois de alguns obstáculos haverá outros e é isso que nos leva para a frente, nos fortalece ou nos machuca, faz de nós aquilo que somos. Nos ensina a valorizar a felicidade pelo que ela é, o que sentimos no momento – e isso deve ser mais valorizado do que a busca por uma felicidade inatingível que estará lá para sempre.

Ainda assim, aqui vai a forma como encaro os clássicos e como me ajudaram a conversar com a minha filha:

– A Branca de Neve e os Sete Anões: 

A vaidade é algo que tem o seu lugar mas se torna perigoso se se tornar uma obsessão. 

Se alguém vier ter contigo e te disser que alguém a mandou fazer-te mal, chama ajuda e não fujas. Não te escondas. Fala com alguém e conta o que aconteceu.

Nunca, mas nunca aceites coisas de estranhos.

Se alguém te disser “és tão bela, anda daí no meu cavalo em direcção ao horizonte” faz o favor de lhe perguntar primeiro o nome e de o conhecer antes de tomares qualquer decisão.

– A Bela e o Monstro:

A importância dos livros, porque ler é uma das maiores armas que uma mulher pode ter. Quando Gaston diz que não é certo para uma mulher ler porque pode ficar com certas ideias, não há nada mais certeiro que esse argumento para falar sobre a importância da cultura, da educação. Até mesmo da forma e do papel que a mulher teve na sociedade antes dos nossos tempos. De como as coisas mudaram. De como somos sortudas.

Não devemos ter vergonha de sermos diferentes, mesmo que isso faça os outros cochicharem sobre nós. Muitas vezes o problema está na pessoa que julga e não em ti.

A Bela era super especial por não querar casar com o rapaz mais bonito da aldeia só porque ele queria: ela não queria e isso basta. É importante saber dizer “não” mesmo quando há pressão para dizer “sim”.

Devemos sempre proteger os nossos pais, defendê-los e acreditar neles.

Devemos tentar conhecer as pessoas para lá da sua aparência – da boa (o caso do Gaston) e da má (o caso do monstro) e aí decidir se queremos que façam parte da nossa vida.

– Cinderela:

O nosso lado bom deve sempre prevalecer.

A maneira como os outros nos tratam não deve fazer com que nos tornemos maus como eles, nunca.

Devemos ser amigos dos animais.

Cantar pela manhã ajuda a começar o dia. ?

Se te disserem que não consegues fazer alguma coisa e acreditares que consegues, tenta até ao fim (se for bom para ti, se for bom para os outros e não faltar ao respeito a ninguém).

Se estiveres num sítio onde não te sintas bem nem feliz é legítimo que te vás embora. Talvez assim não vás àquela festa nem conheças o príncipe, mas o teu caminho pode passar bem longe daí.

– Pequena Sereia:

Nunca, mas nunca, abdiques da tua voz, seja qual for o teu objectivo, mesmo que ele pareça nobre e maior que tudo. A tua voz é a tua maneira de te fazeres ouvir e de continuares a ter um lugar neste mundo.

Aceita as tuas características, mas se sentires que elas te limitam não deixes de sonhar com um futuro em que é possível ultrapassá-las (sem nunca trocares esse sonho pela tua voz, mais uma vez).

Há coisas que manteremos sempre para nós. Há coisas que devemos contar aos nossos pais e falar com eles mesmo que tenhamos opiniões divergentes sobre os assuntos – esta partilha, esta comunicação pode evitar que nos metamos numa grande alhada.

Não é errado querer coisas diferentes. Mas sê cautelosa. E rodeia-te das pessoas certas. Sempre.

Sou apaixonada pelos clássicos da Disney e as interpretações que fiz deles tem mudado à medida que eu também mudo. E é por isso que não privo a minha filha de os ver, porque acho que a magia que transportam é essencial para os sonhos. E porque não sou antiprincesas, sou apenas da opinião de que nem todas deveremos ser princesas e não está escrito que todas queiramos o mesmo, vemos juntas. E conversamos.

Muito sobre como as coisas eram naquela altura, como são hoje.

O que mudou e o que ainda tem de mudar. Porque estes filmes são, acima de tudo, parábolas e se formos literais muitas vezes corremos o risco de perder o mais importante na mensagem.

A minha filha é uma princesa guerreira e tenho muito orgulho nisso.

É feio ser uma mãe real

É feio uma mãe dizer que está cansada e que precisa de tempo para si,

é feio fechar-se na casa de banho para chorar quando momentaneamente se sente saturada,

afirmar que tem alturas em que dá por si a sentir que não se devia ter metido nisto (maternidade).

É feio uma mãe gritar, ameaçar e punir,

é feio admitir que por vezes cede porque não se quer chatear,

deixar de cuidar de si e de se reconhecer enquanto mulher.

É feio uma mãe deixar o filho ver TV para ter uns momentos de sossego,

é feio não estar com o pai da criança,

não assegurar que o filho larga rapidamente as fraldas e a chucha ou que não lê assim que entra na escola.

É feio uma mãe não ser capaz de criar filhos que nunca gritam, choram e expressam frustração,

uma mãe assumir que mesmo na companhia do filho por vezes se sente só.

Numa sociedade cada vez mais hipócrita, que exige dos outros o que não tem em si – a perfeição – é feio ser uma mãe real que se cansa, que se questiona, que erra, que chora, que precisa de mais tempo para si.

Felizmente não estás só. Tal como tu, sou essa mãe que carregada de realidade age da melhor forma que sabe – com o coração carregado de amor.

 

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A mãe fica meu amor

Há catorze meses que este bebé está comigo. Nove meses na minha barriga, cinco no meu colo. Nunca me separei dele por períodos maiores que meia-dúzia de horas. Todas as manhãs o vi acordar. A maior parte dos meus dias é passada com ele no colo e, em dias mais difíceis, ando com ele na mochila para conseguir despachar as tarefas domésticas enquanto lhe vou cantando que “a barata diz que tem…”.

Conheço todas as expressões deste bebé.

Sei onde lhe tocar para o fazer rir. Sei o que lhe dizer para o acalmar. O cheiro dele é o mais perfeito dos cheiros mesmo quando se bolça e aquele travo azedo se cola na roupa. Os olhos dele são grandes, a pele absurdamente branca e o sorriso pura magia.

Sei que no momento do parto o corte do cordão umbilical separa o bebé da mãe e, em termos puramente físicos, essa é uma verdade indiscutível. Mas, para mim, o verdadeiro corte, aquele em que experimentamos pela primeira vez a angústia da separação, acontece no dia do nosso regresso ao trabalho.

É verdade que viver quase exclusivamente para um bebé é desgastante.

Mas isso não impede que o regresso à vida laboral seja de uma violência atroz. O coração de mãe aperta-se na hora do voltar à antiga rotina e a ansiedade transforma-se numa companhia permanente. Dói quase fisicamente termos que nos separar do nosso bebé, do nosso pequenino, daquele ser que é quase uma extensão natural de nós próprias.

O meu regresso ao trabalho está a chegar.

E a mãe que sou tem medo de não estar preparada. Tem vontade de bater o pé e dizer que não volta. Tem vontade de encher este filho de beijos. De o apertar nos braços e de lhe dizer ao ouvido “a mãe fica meu amor”. 

Quem me dera poder ficar.

O pai Natal é imortal

Nesta época de Natal tenho tido conversas incríveis com a minha filha sobre o universo do cristianismo e o universo pagão, que andam tantas vezes de mãos dadas.
No outro dia perguntava-me afinal o que é que Jesus fazia. E eu expliquei o melhor que consegui, que falava sobre as coisas, punhas as pessoas a pensar sobre os assuntos, dava exemplos e ensinava as pessoas sobre as coisas importantes na vida: a bondade, a partilha, etc.

E ela olhou para mim “e as pessoas ouviam?”.

E eu disse que sim porque ele falava de coisas que as pessoas não estavam habituadas a ouvir. E isso ajudava-as a tornarem-se melhores. E ela contou-me que tinha sido como Jesus, nesse dia na escola. Que tinha ensinado tal a um amigo, partilhado aquilo com outro e que o primo tinha aprendido Y e por isso continuavam a fazer como Jesus. E ali eu tive a verdadeira essência do cristianismo à minha frente. Deixei essa liberdade poética acontecer. Mais tarde teremos outras conversas, se ela as quiser ter.

Depois veio perguntar-me onde andava o São José. E eu expliquei que já não estava entre nós. Porquê, mãe? Porque já morreu. Morreu porquê? Porque já era velhinho. Já tinha vivido muito e tinha tido uma vida boa, por isso
aconteceu como acontece a toda a gente. Morreu e foi para o céu. A toda a gente não, mãe.
Olhei-a.

O Pai Natal não morre. O pai Natal é imortal.

E eu sorri e disse que não, sem grandes explicações. E o pai disse que era o pai Natal e o Duncan Mcleod dos Imortais, mas dei-lhe uma pisadela debaixo da mesa e ele mordeu os lábios a rir.

Noutra altura, no jardim de nossa casa onde há um presépio de luzes com formas em tamanho real, a minha filha perguntou por que é que São José tinha um cajado. Se era velhinho. E eu expliquei que não, que tinham feito uma caminhada muito grande, ele a pé e Nossa Senhora em cima de um burro e o cajado ajudava na caminhada. Ela ponderou e disse que podiam ter ido os dois
em cima do burro ou Maria podia ter trocado de vez em quando com ele. Disse que o burro não aguentava com duas pessoas e Maria precisava mais da boleia porque estava grávida e quase em fim de tempo. E que ela trocou algumas vezes com José para esticar as pernas e caminhar e ele descansar um pouco. Ela gostou da resposta.

Para ela as coisas são simples mesmo quando são complicadas. E desejo que o espírito do Natal se mantenha assim na vida dela.
Como o Pai Natal. Imortal.
Boas Festas para todos!

Tempo para estar doente

O Pedro trouxe para casa um daqueles bicharocos de creche que são apenas um bocadinho incómodos nas crianças mas que metem os adultos a pensar na conversa que estão prestes a ter com S. Pedro. Esse bicharoco, que dava náuseas, dores de estômago e diarreia, atacou-me de forma certeira e eu, que nem me acho uma pessoa particularmente piegas, vi o caso mal parado e pensei que, afinal, ainda tinha que voltar ao hospital onde trabalho antes de terminar a licença de maternidade.

Hoje, passada uma semana sobre esses dias negros, já estou completamente recuperada mas decidi pegar neste tema para vos confessar que senti saudades de ter tempo para estar doente. E se isto assim à primeira vista pode até parecer esquisito, tenho a certeza que, quem é mãe, vai perceber onde quero chegar. É que outra das coisas que ninguém nos diz quando engravidamos é que o conceito de doença muda (muito!) depois da maternidade.

Sabem aqueles dias que passávamos no sofá, enroladas numa manta, numa letargia induzida pela febre?

E aqueles em que tínhamos dores de garganta e tínhamos tempo para beber um chá bem quente de limão com mel enquanto víamos um episódio da Anatomia de Grey? Pois, vão deixar de saber. Porque quando temos filhos pequenos esses dias são luxos de que não dispomos.

Porque a mãe não tem tempo para estar doente.

Quando as mães estão doentes os pais continuam a trabalhar e as crianças continuam a precisar de jantar, de tomar banho, de ir à terapia da fala e de levar lanche para o colégio.

Quando as mães estão doentes as crianças continuam a fazer chichi na fralda, a mamar de três em três horas e a querer ouvir as músicas do Panda enquanto treinam coreografias que metem taças, chaleiras, jipes e muito “style”.

E as mães agarram-se aos comprimidos, melhores amigos de ocasião, e lá se vão arrastando de pijama pela casa, arrumando aqui e ali, brincando como podem enquanto a sopa para o jantar cozinha na panela e a Xana Toc Toc canta não sei quê sobre um papagaio trapalhão. À noite, quando todos em casa dormirem, as mães hão-de beber um chá, de pé, encostadas à bancada da cozinha, e a cada gole quente lembrarão, cheias de nostalgia, os tempos em que tinham tempo para estar doentes.

 

Photo by BRUNO CERVERA on Unsplash

O dia em que desenhei um coração para falar de amor

Continuas a testar limites, meu amor.

É assim que vais encontrando as balizas da tua acção, é assim que percebes até onde podes ir – até onde te deixo ir.

Às vezes com graça, outras só com muita lata, vais dando mais um passo, só para ver o que acontece.
E algumas vezes o que acontece é seres chamada à atenção, porque a situação assim o exige.

Digo-te sempre que o que mais quero é que sejas feliz e é verdade.

Mas também é verdade que quero que sejas bem formada, que tenhas valores, que respeites os outros e te respeites e isso só vai acontecer se cresceres para ser uma pessoa boa, decente. E é por isso que aqui estou, a chamar-te à atenção, a ralhar-te.

Por vezes percebes de imediato a asneira e ainda não olhei para ti e já estás a pedir desculpas. De outras precisas de uma longa conversa. E há ainda as outras em que tenho de subir de tom.

Tento ser sempre justa como foram comigo e se a minha argumentação é legítima tenho de enfrentar as consequências e muitas delas passam por ver-te a ficar desiludida ou triste. Sou tua amiga mas, acima de tudo, sou tua mãe. E não ponho esse papel em pausa só para te poupar a frustração.

E acontece também achares que por não estar a sorrir, fazer cara séria e colocar os pontos nos is, possa gostar menos de ti.

Foi por isso que desenhei um coração.

Grande, como eu. Onde cabem tantas coisas e tantas pessoas. Onde o teu lugar é cativo. Para que entendas, precisamente, que o teu lugar é cativo.

Desenhei o meu coração e preenchi-o. Mostrei-te onde estava o meu amor por ti. E depois desenhei um coração mais pequeno, igualmente cheio.

E expliquei que diminuiu de tamanho por estar triste angustiado. Como às vezes te digo que o meu coração está deste tamanho (mostrando o espaço entre o indicador e o polegar como exemplo) para que percebas como estou triste quando acontece algo que gostávamos que fosse de outra forma.

E disse-te que o meu amor por ti está lá dentro do meu coração e esse não diminui, não encolhe, preenche-o por completo, faças tu o que fizeres. Mas que coração de mãe não é de ferro e por isso não é duro: para o bem e para o mal.

Percebeste.

Quando te deitei há algumas noites disseste-me que o teu coração estava assim e mostraste os dois braços abertos. Querias dizer que foi um dia bom.

Que gostavas quando eu te cantava ao ouvido ao deitar, quando te fazia miminhos ao dizer boa noite.
E eu respondi que o meu também. Que são muitos mais os dias em que o meu coração mal cabe no peito do que aqueles em que está a precisar de aumentar de tamanho.

Falo-te de amor da melhor maneira que consigo, toscamente por vezes.

Porque o amor, mais do que ser falado ou explicado é para ser vivido.
E tento, dou o meu melhor, para que esteja em todos os gestos da nossa interação.

O coração de mãe não é de ferro, mas o seu amor é para sempre.

 

Photo by Andre Guerra on Unsplash

Sim, saímos sempre com as nossas filhas com autismo

“As nossas filhas serão pessoas autónomas com uma vida própria. Por isso, como todos os pais, queremos prepará-las ao máximo e daremos sempre o melhor que soubermos e conseguirmos.”

Muitas pessoas me têm indagado e questionado acerca das nossas saídas, em especial, no que toca à questão “piolhas”. E a todas respondemos: “não faz sentido, nesta fase, sairmos sem elas. Onde nós vamos, elas irão connosco, gostem ou não gostem.”

“Ah e tal, mas e não têm fins de semana a sós?”

Não. Para já, não faz sentido deixá-las algures para comemorar algo. Encaremos que deva ser comemorado em família. Além disso, quando elas tiverem aí uns 15 ou 16 anos não deverão querer andar com os cotas dos pais para todo o lado. Acreditamos que, nessa altura, já possam ficar com os avós sem lhes dar uma carga de trabalhos.

“Ah e tal, mas e por que não ficam com os avós?

Sim, ficam. Ficam com os avós umas horinhas ou um dia inteiro mas nunca passam a noite por lá para que nós possamos ir a algum lado. Nunca surgiu essa oportunidade. O marido trabalha por turnos, e, para já, não faz sentido.

“Ah e tal, como é que consegues que elas fiquem tão sossegadas e se portem bem?”

A verdade é que há aqui muito muito muito trabalho, muitos anos de treino e prática. Lembro-me que a primeira médica de desenvolvimento que nos acompanhou nos dizia em agosto de 2010 que, em dezembro iríamos conseguir ir a uma área de restauração com elas. E eu pensava que havia de ser dezembro mas sabia-se lá de que ano…

Mas há aqui três fatores chave: persistência e resiliência e negociação.

Nunca desistimos de as levar a todo (mas mesmo todo) o lado para que soubessem e conseguissem aprender o saber-estar em diversas situações e espaços diferentes.

Sim, saímos sempre com as nossas filhas com autismo

Inicialmente, levávamo-las nos carrinhos. Quando eu saía sozinha, iam num bengala com lugares lado-a-lado – parecia o circo, tudo a olhar – porque era-me impossível usar os meus únicos e insuficientes dois braços para as segurar. E trelas nem pensar – opinião do marido. Andámos nisto até quase aos 5 anos. Desenvolvi uns músculos dos braços fenomenais. Levava uma parafernália de brinquedos para que se sentissem acompanhadas por algo familiar. As suas mãos tinham de estar sempre ocupadas.

Depois começaram a ficar demasiado crescidas para andarem de brinquedos nas mãos e lá conseguimos negociar com o nosso telemóvel mas só quando se espera ou num local onde seja necessário muito silêncio. Com o passar do tempo e com aquele click maravilhoso da maturidade, até isso já se tornou desnecessário.

Passámos por muitas vergonhas, muitos espetáculos deprimentes, muitos apontar de dedo, muitos cochichos, muitos olhares de esguelha e sei eu o que mais. Passámos por muitos meltdowns nos momentos e locais mais inapropriados e pensámos que era daquela que nos fechávamos em casa até nos transformarmos em pó… Felizmente, o nosso mau feitio e teimosia não deixaram e levámos nós a melhor.

Agora sofremos da cura.

Se passarmos um dia num shopping, mesmo que depois fiquem rabugentas, estamos a dar-lhes a provar o sabor do arco-íris. O que acaba por nos facilitar a vida para outros contextos, como uma sala de espera num hospital ou uma repartição pública. As piolhas já estiveram na véspera de natal, durante 3h comigo, na loja do cidadão de Coimbra com gente até ao tecto… E no mês passado, com a avó, nos HUC, devido a um “problema no sistema” mais de 5h (só cedi o telemóvel quando uma delas começou a chorar de frustração, um choro baixinho e doloroso…).

Só as sujeito as estas esperas quando não tenho hipótese de as deixar com alguém. Mas não deixam de ser fatores de aprendizagem.

“Ah e tal, como é que fazes?”

Sempre que sei que vamos apanhar uma seca algures, vou preparando para o que se avizinha. No dia, reforço os nossos passos e o que faremos e preparo uma mochila com materias básicos de sobrevivência: cadernos, um estojo com lápis, borracha, canetas e afia, pequenos brinquedos do estilo Littlest PetShop ou Shopkins. O telemóvel com acesso à net e o  jogo Water Heroes de que tanto gostam só é dado em ultimo recurso.

Quando vamos de passeio, costumamos deixar que levem os tablets mas só podem usar em pequenas partes da viagem e só no carro (ou no quarto de hotel, por uns minutos, enquanto tomamos banho) e acedo a que levem, para dormir, uns My Little Pony miniatura de peluche. É algo que lhes traz conforto e familiaridade, por isso, para já, nesta fase, ainda não me importo e vamos cedendo.

“Ah e tal, e elas portam-se bem?”

Sim, na maioria das vezes, sim.

Mas é aí que entra a negociação: se souberem portar-se bem, se não houver birras nem fitas, se não fizerem barulho, no final, quando sairmos podemos… (exemplos: sair para comer um gelado, tomar um café fora, almoçar no Mc Donald’s, dar um passeio a pé, comprar um miminho, etc, dependendo da seriedade da espera/da saída/da situação). Há um incentivo e uma recompensa.

Nem sempre é fácil! Muitas vezes, passo o tempo todo tensa que nem uma tábua. Com mil olhos na cara e expressões de aviso que fariam um mimo morrer de inveja e chego ao final do dia cansadíssima.

Mas se não for assim, como aprenderão?

Se não sairmos, se não nos / as sujeitarmos, como saberão o que fazer? Por isso, vou arriscando. Vamos arriscando, gostem os outros ou não. Não é por eles nem para eles que fazemos o que fazemos. As nossas filhas serão pessoas autónomas com uma vida própria. Por isso, como todos os pais, queremos prepará-las ao máximo e daremos sempre o melhor que soubermos e conseguirmos.

Para já, todas as nossas saídas e planos incluem as piolhas. A curto prazo, estamos a planear conhecer o Algarve de ponta a ponta e fazer a rota da EN2. Com as piolhas, de carro, com planos bem definidos.

Conhecer a Escócia, viajar para a Irlanda e conhecer tudo de lés a lés com mochilas às costas.

O jantar romântico em Paris, fica para depois. Um dia as piolhas hão-de pedir para ir dormir a casa da tia ou para ficar com os avós. Hão-se achar que andar com os cotas não é cool. Hão-de ter vergonha de ver a mãe e o pai aos beijinhos :).

Por enquanto não gostam nada de caminhadas nem de dias demasiado cheios de estímulos. Claro que, se quiserem, levamo-las a todo o lado. Nessa altura, acredito que seja mais fácil negociar.

Até lá, vamos passeando bastante pois, já se sabe, #agentegostaédelaró

imagem@americawolf

Nunca gostei da expressão “mãe a tempo inteiro”.

Por um lado parece-me que subestima as mães que não trabalham fora de casa que, de repente, mais não são que os corpos que deambulam sem vontade própria de divisão em divisão da casa com biberões em punho e crianças ao colo.

Por outro lado fico sempre com a sensação de que as mães que trabalham fora de casa são como que excluídas da maternidade incondicional, quase como se fossem um bocadinho menos mães que as outras. Ora mãe é mãe. Sempre. Longe ou perto.

A trabalhar ou em casa.

Não se deixa de ser mãe quando se fecha a porta de casa.

E nessa medida somos todas “mãe a tempo inteiro”. Porque tempo nem sempre significa presença.

Durante os últimos cinco anos tive a sorte de não estar nem num extremo nem no outro no que à definição de “mãe a tempo inteiro” diz respeito. Sempre trabalhei mas com horário flexíveis que sempre me permitiram ir buscar os meus filhos à escola, almoçar com eles, acompanhá-los quando doentes, convidar amigos lá para casa ou vê-los partir na camioneta nos passeios escolares.

Ao mesmo tempo, tive tempo e oportunidade para continuar a explorar as minhas outras facetas e papéis sociais. Cresci muito profissionalmente. Ser mãe ajudou-me até a agarrar novos desafios e a desenvolver novas ideias.

Na mesma medida em que ser mãe me ajudou a ser melhor profissional. Ter um desafio profissional ajudou-me a ser uma mãe mais feliz. Um equilíbrio perto do perfeito (perto porque a vida não é, e ainda bem, perfeita).

Em Portugal são muito poucas as mulheres que têm esta possibilidade.

É o regime do “sim ou sopas”: ou trabalhas e definem-te como um bocadinho pior mãe que mal vês os filhos durante a semana, ou não trabalhas e levas com o rótulo da mulher pouco interessante que se refugiu na maternidade.

São muitos os bons os exemplos vindos dos países nórdicos onde as mulheres são chamadas ao mercado de trabalho sem que isso estrangule a vida familiar. E que bom seria que os pudéssemos replicar  no nosso país sem olhares reprovadores.

Estou certa de que não estou sozinha nesta vontade.

Se não nos empurrarmos, se não nos boicotarmos umas às outras – ora porque estas mães que não trabalham acham que tenho a vida delas e que posso preparar bolos caseiros para o lanche para os miúdos, ora porque aquelas mães priorizam o trabalho e mal conhecem a professora dos filhos – podemos ser todas mães na nossa mais incondicional forma de o ser. Longe ou perto. Porque lá está: mãe é mãe. Sempre. Eu diria mesmo: a tempo inteiro.