Frustração Positiva?

Como é que um sentimento que à primeira vista é tão negativo pode ser Positiva?

“Eu não gosto de me sentir frustrado!” – É o pensamento consequente a esta afirmação.

Pois bem… É mesmo sobre a Frustração Positiva que vamos falar neste artigo.

Sobre a frustração

No senso comum, a frustração é o sentimento que ocorre quando alguma coisa que era esperada devia acontecer e não aconteceu. Quer dizer: a nossa mente previa que que acontecesse determinada coisa, e não aconteceu contrariando assim a nossa necessidade de controlar tudo o que nos rodeia.

Nós adultos ainda sofremos muito ao nos sentirmos frustrados. É natural! No entanto, é preciso observar quais são as nossas atitudes depois da frustração pois seguramente, são estes modelos mentais de como lidar com a dor, com a perda e com o erro que estaremos a transmitir aos nossos filhos.

E não adianta pensar: “Que disparate! É só um bebé, nem se apercebe do que está a acontecer!”. Grande engano! As nossas crianças entendem e sentem tudo o que ocorre e acabam por refletir nos seu comportamento ainda que, num primeiro momento seja de forma inconsciente.

Mas se as as dores, desafios, perdas e obstáculos são inerentes à condição humana, como transformar estes acontecimentos em aprendizado?

É aqui que entra o nosso conceito de Frustração Positiva.

É a habilidade que os pais e educadores devem possuir para limitar o comportamento infantil, gerando um conflito que facilite a evolução. Em traços gerais trata-se de evitar a superproteção, não privando a criança de situações aparentemente mais difíceis.  São estas adversidades que as ajudam a crescer e que permitem a aprendizagem da tolerância à frustração.

A antropologia tem uma metáfora bastante pertinente sobre a Frustração Positiva: é a do sistema imunológico psicológico. Quando a partir da vivência de situações desafiadoras a criança desenvolve novos recursos e habilidades de adaptação. E isto é tão importante!

Como diz o provérbio, “A necessidade faz o engenho”

Por isto é que os limites são tão importantes no desenvolvimento psicológico das crianças. É a partir dos nãos que oferecemos aos nossos filhos, sempre somados ao nosso gigante amor de mãe, que os vamos preparando para receber com mais equilíbrio emocional, os nãos que chegarão no decorrer da vida.

Viver essa experiência, no reduto fraterno do lar é de grande valia para crianças e adultos. Ambos têm a possibilidade de (re)construir a sua relação com frustração, alterando padrões mentais enrijecidos, na constante aprendizagem de lidar com a dor de forma positiva, resiliente e empoderadora.

Em suma, devemos exercitar-nos no aprendizado de que nem tudo está sob o nosso controle. Nem tudo acontece como planeamos. Nem todas as nossas vontades são atendidas.

E quer saber mais?

Está tudo bem!

Photo by Caleb Woods on Unsplash

Esta é uma página do diário da Luísa. A Luísa tem dislexia.

“Quinta feira, Março

“Desligrar”.

Hoje desliguei o alarme ao primeiro toque mas estava cá com uma preguiça para me levantar da cama… Na verdade, não sei bem se era preguiça ou se não queria mesmo levantar-me da cama. É que desde que começou o ano que oiço comentários dos meus colegas sobre a minha leitura: “Estás a ler muito devagar!”, “Não é assim que se lê essa palavra!”, “Estás a fazer uma pergunta ou uma exclamação?”… Às vezes, só de pensar que tenho de ir para a escola dá-me um aperto no estômago. Que stress!

Às 9:30 tive aula de revisões de Geografia.

O professor tinha-nos dito que o trabalho de casa de ontem era muito importante para nos prepararmos para o teste que é já amanhã. Eu tentei acabar o trabalho de casa mas demorei tanto tempo que só consegui ler alguns parágrafos. Como se não bastasse, no fim acabei por não perceber o que tinha lido. Na aula, ouvi com atenção o que o professor estava a dizer e até tirei alguns apontamentos mas nem eu própria conseguia perceber o que tinha escrito. Não vai ser fácil o teste de amanhã…

10:20, aula de Matemática.

Eu gosto das aulas de Matemática menos de resolver problemas. Demoro uma eternidade a lê-los. E quando tenho de retirar os dados mais importantes e decidir o que fazer com eles é difícil. Faço sempre os mesmos erros quando os estou a resolver: ou troco os algarismos ou não sigo os passos como dever ser. Quando vou a escrever a resposta… Erro! Mesmo tendo percebido o que era para fazer…

Eram 12:30 e tinha chegado a hora do almoço.

Almocei rapidamente porque ainda queria estudar o vocabulário de Inglês que vai sair no próximo teste e às 13:00 tinha apoio extra de Português. Eu olhei para os cartões com as palavras em Inglês, insisti, tentei outra vez, mas parecia que estava a vê-las pela primeira vez. E o mesmo acontece para as outras disciplinas. Mas porque é que eu não consigo fixar as palavras na minha memória?

A aula de Inglês começou às 14:00.

Esta foi a pior! Se eu tenho dificuldade em ler e escrever em Português, como é possível eu conseguir ler e escrever numa língua diferente, com outras regras? Mais… todos tínhamos de ler em voz alta! Quando pensei que a professora me ia chamar para ler, inventei uma desculpa e saí da sala.

Às 14:50 tive aula de Piano.

Adoro tocar piano, é o que eu mais gosto de fazer na escola. É difícil ler as pautas das músicas, mas consigo aprender a tocá-las de ouvido. Sinto-me feliz quando as pessoas dizem que eu toco muito bem piano! Mas estou preocupada porque se eu precisar de mais algum apoio extra só existe este horário e se eu não puder tocar piano a escola será um desastre total! Terminaram as aulas, começaram as mensagens no grupo do whatsapp. Demorei imenso tempo a decifrar as abreviaturas que os meus colegas estavam a utilizar. E quando ia a responder a uma mensagem, já a conversa tinha acabado…

Eram 20:30 e eu ainda estava a escrever um texto de Português no computador.

A minha ortografia não é boa por isso utilizei o autocorretor. Rever os textos também não é fácil, não me apercebo dos erros, então os meus pais leem sempre o que eu escrevo depois de acabar. Depois do jantar, fui jogar computador. Às vezes, os jogos são o meu “escape”.

Já é tarde, 22:30, e estou cansada mas enquanto jogo esqueço.

Amanhã tenho um longo dia pela frente.”

Ser obediente, é bom?

Quando fazemos o exercício de pensar em crianças, por norma, imaginamos crianças com energia, a rir e a brincar. Por outro lado, dá-nos um sentimento de certa estranheza imaginar uma criança no seu cantinho quieta, como se, não existisse. Não raras vezes, estamos demasiado preocupados com as crianças ditas “hiperativas” e esquecemo-nos de olhar para as crianças “hiperpassivas”. Crianças que fazem os possíveis para serem invisíveis, que nunca perturbam e são, regra geral, extremamente obedientes.

Queremos crianças obedientes, desde que a acompanhar a obediência existam gestos espontâneos e a expressão daquilo que a criança sente e pensa. Aquilo que nos preocupa é quando a obediência vem tolhida de uma certa invisibilidade.  Quando a criança por tão assustada que se encontra, às vezes, faz os possíveis para ‘não existir’. E, ‘não existir’ é, muitas vezes, um reflexo de obediência com base no medo. Sempre que uma criança obedece com base no medo, está a distanciar-se de si própria e torna-se incapaz de respeitar o seu espaço e de apreender a noção de empatia e respeito pelos outros.

As regras e as recompensas

É essencial que as crianças sejam capazes de obedecer e ter um conjunto de regras que balizam os seus comportamentos, sem que vivam permanentemente sufocadas pelo que imaginam que esperam delas. Da mesma forma que, as crianças devem aprender que ter um bom rendimento escolar, ajudar nas tarefas domésticas, responder de forma adequada aos adultos. Estas são atitudes que devem ter porque estão correctas e são a base do respeito e não para serem recompensadas de forma directa e imediata. Pois, sempre que uma criança faz uma tarefa com a expectativa de ter uma recompensa, a noção de que o faz porque é assim que deve ser e porque é uma responsabilidade sua, perde-se e, a certa altura, temos crianças que só se movem com base nas recompensas.

É importante que a criança compreenda que tem deveres e que tem direitos e que entre eles, existe respeito, compreensão, empatia e amor.

Claro que, se uma criança consegue levar a cabo um conjunto de comportamentos e atitudes que até então não tinha conseguido, os pais podem e devem recompensá-la. No entanto esta recompensa deve funcionar como um reconhecimento e não como uma recompensa por si só. Isto é, a criança teve uma série de atitudes que deixaram os pais muito satisfeitos, então, os pais vão exercer um gesto de reconhecimento para com a criança. Este gesto acontece sem que a criança esteja a contar e se for imaterial tanto melhor. Se em vez de um brinquedo ou um jogo os pais proporcionarem à criança um momento relacional de que ela goste, como uma ida ao cinema, ou um piquenique a criança será capaz de ter uma linha orientadora que lhe sinaliza que está no caminho certo e que deve continuar desta forma.

Passo por passo, a criança vai adquirir valores que vão reger toda a sua atitude perante os desafios do seu dia-a-dia. Aprende assente nas linhas orientadoras dos pais sem que delas tenha medo, sem que para ser obediente precise de ser invisível.

Desta forma, é importante que as crianças riam com o corpo todo. Que as famílias permitam a liberdade de expressão e dêem espaço à individualidade de cada criança. Que eduquem praticando o amor, o afeto e o respeito, pois, só quando uma criança cresce num ambiente que é estruturante e que lhe permite a individualidade com a retaguarda do calor dos pais, se permite a existir em plenitude.

Todos somos mediadores da leitura

Há uns tempos a minha filha foi comprar uma garrafa de água e achou muita graça quando viu escrito no rótulo “és a melhor contadora de histórias mesmo que não saibas fazer as vozes” e claro que a guardou para me presentear com esta bela mensagem!

Adorei, rimo-nos todos, mas deixou-me a pensar.

Muitas vezes, nas minhas sessões com famílias, ou mesmo nas escolas muitas pessoas dizem-me “não tenho jeito para contar histórias”.

Eu sou contadora de histórias e mediadora da leitura por prazer, por vontade e com mais conhecimento, formação e experiência por o fazer profissionalmente. Mas, pais, educadores, professores e todos os adultos que contam histórias às crianças são mediadores da leitura.

Porquê?

Porque constroem pontes entre o livro e o leitor e todos aqueles que facilitam o acesso das crianças e jovens aos livros o são.

Uma das funções de um mediador da leitura é ajudar a ler por prazer, diferenciando a leitura obrigatória da leitura voluntária. Esta é uma tarefa sobretudo para pais, famílias, prestadores de cuidados, professores, educadores e comunidade escolar.

Como pais ou profissionais da educação há que estar atento na hora da escolha dos livros, escolher com critério e ter em atenção para disponibilizar às crianças e jovens livros diversificados e de qualidade. Mas, na hora de contar a história, é muito mais importante o empenho e a vontade com que se conta, o ambiente intimista e de afetividade que se cria, pois são essas as bases das pontes criadas entre o livro e o leitor. Mesmo que não saiba “fazer as vozes”, há que criar momentos de contacto entre a criança, o livro e o leitor, de afetividade e de partilha no dia-a-dia.

Boas leituras!

image@gettyimages

 

Desde há algum tempo, os quadros de honra fazem parte das escolas (felizmente, não de todas) e, consequentemente, das famílias (algumas!).

Instituiu-se este método como um reforço positivo às boas notas e um incentivo ao empenho, para quem não as alcança.

Atente-se ao facto de que pertencer ao quadro de honra implica nunca escorregar do patamar das “boas notas” abaixo, ou seja, não é permitido falhar – há uma nota mínima definida!

Esta modalidade das escolas, com o objetivo de promover e parabenizar a excelência de uns, e despertar o interesse e empenho de outros, é uma falácia! Nem os que conquistam o estatuto precisam da pompa com que são brindados, nem os demais se empenham mais para alcançar essa meta.

Educar para a excelência académica, sim ou não?

Os quadros de honra acabam por passar duas grandes e erradas mensagens. Uma é a de que não se deve falhar. Como se a vida se escrevesse toda em papel imaculado, sem nódoas ou riscos; como se fosse possível crescer, de modo harmonioso e sereno, sabendo que não pode errar-se.

A outra a é a de fazer estes miúdos acreditarem na excelência do seu potencial. É sabido que, para pertencer ao quadro de honra, têm de ter, no limite, a nota mínima, em todas as disciplinas. E é possível ser bom a tudo?

Alguns destes miúdos, na sua sábia capacidade de ler nas entrelinhas, percebem que a sua inclusão no quadro de honra, se deve a batotices dos professores que, naquelas disciplinas que são os parentes pobres do currículo académico (música, E.T., E.V., Educação Física, etc), sobem as notas dos alunos para compor o ramalhete junto dos “parentes ricos” (matemática, português, etc…).

Tendo o nosso sistema de ensino como lema privilegiar o “ouve, regista e repete” (promovendo mais papagaios do que seres pensantes), deixar os miúdos acreditarem na sua excelência, encerra o erro de os frustrar no futuro – fora da escola, o sucesso é ditado por uma maior multiplicidade de fatores, sendo que muitos desses fatores fogem do controlo de ação de cada um.

Educar para a excelência académica, é não preparar esses supostos excelentes a lidar com a frustração de errar.  E vive-se sem errar? Aprende-se sem falhar?

A competitividade promovida nos moldes errados

O que se ensinamos com estes quadros de honra? Preparamos as crianças para a vida profissional? Ou condicionamo-las a acreditar numa realidade ilusória que, quando confrontados com o mundo real, e com as vicissitudes do quotidiano, se amedrontam; se diminuem; se sentem invadidos por uma ansiedade para a qual, na maioria das vezes, não desenvolveram recursos para gerir?

Paralelamente, também não preparamos para o mercado de trabalho e para uma vida em sociedade mais equilibrada, quando, a título da excelência, se promove a competitividade em excesso.

O desejo de pertencer e manter este patamar de mérito, promove uma maior competitividade, o que acaba por perder-se em cooperação com os pares. O mais alarmante é perceber que se criam seres que olham muito para os outros, mas não pelos outros. Olham para os outros como se estivessem em constante corrida e tivessem de manter o rival debaixo de olho – porque quem baixa a guarda, perde velocidade.

A competitividade é importante e saudável.

Cria o desafio que nos impele a prosseguir caminhos e que, com isso, nos desenvolve; acrescenta conhecimento e fornece recursos. No entanto, a competitividade deverá ser estimulada do ponto de vista interno. Não tanto na comparação com os outros mas, antes, como posso desafiar-me a procurar novas metas.

Não será de maior louvor fazer com que os miúdos, por si, reconheçam as diferenças relativamente aos demais, e ajudá-los, individualmente, a quererem superar-se a si próprios, em vez de competir com a nota do colega? Despertar-lhes a motivação pela superação pessoal, conquistando o orgulho, mais do que a vaidade, como diz o professor Eduardo Sá. Até porque as notas não traduzem inteligência, nem conhecimento. E também não predizem o sucesso da caminhada profissional.

Reforço, reconhecimento e resultados

O reforço positivo deve sempre surgir como gratificação do esforço, refletindo-o. Na infância / adolescência, o reconhecimento dos adultos / cuidadores tem uma dimensão de relevo. Serve de fio condutor da postura a manter / ter / criar. Na escola, e falando especificamente sobre o desempenho escolar, o melhor reforço positivo a ter são as notas, somado ao apoio dos familiares próximos. E basta!

Verdade seja dita que, nem sempre a nota é diretamente proporcional ao empenho. Ainda assim, poderá servir de reflexão sobre o facto incontornável de as nossas vivências não estarem sob o nosso controlo total.

Devemos deixar de enaltecer resultados e focarmo-nos nos processos:

  • ensinar a escutar (a si e aos outros);
  • aprender o prazer da autonomia e da responsabilidade;
  • despertar a motivação pelo conhecimento. (Na humildade de que a diferença do outro é um valor acrescentado, e não o querer ser melhor);
  • promover a aprendizagem através do erro, em vez de querer colmatar a falha por antecipação (ex: fazer trabalhos pelos filhos; fazer-lhes os resumos…).

Mais do que preconizar quadros de excelência, urge que se preconize a inteligência emocional. Mais do que louvar o desempenho cognitivo em exclusivo, impera a importância de promover o equilíbrio entre a razão e a emoção.

De que serve o 20 a matemática se não tiver prazer num convívio social?

Precisamos com urgência que os miúdos desenvolvam a empatia  – que se reconheçam na felicidade e na dor do outro; que descodifiquem as suas emoções; que consigam parar para pensar, sem fugir para o evitar; que aprendam a respeitar o espaço dos outros, reservando o direito à opinião de cada um, sem que isso implique conflito; saber conviver com a diferença e aceitá-la pacificamente, seja de ordem física, atitudinal, religiosa, etc.

Neste mercado globalizado, a multiculturalidade das equipas, exige inteligência emocional. E, se o foco nas matérias escolares for excessivo, alguma coisa fica por aprender e por treinar… A base do trabalho em equipa é a capacidade de escutar os outros, compreender e saber dialogar e ceder. Isto requer discussão de diversas perspetivas / áreas. E não é uma competição!

Grandes empresas começaram já a cruzar informação dos resultados obtidos na avaliação de desempenho dos seus profissionais, contratados pelo mérito. A conclusão a que têm chegado é não existir qualquer relação entre o bom aluno e o bom profissional. Ou seja, enquanto têm passado uma vida a recrutar para os seus quadros com base na seleção dos melhores resultados académicos, percebem agora que este crivo tem conduzido os melhores profissionais para a concorrência.

Que propósito servem, afinal, os Quadros de Honra? Não sei!…

Estaremos a preparar os filhos para a adolescência?

Pensando nesta viagem entre o planeamento do nascimento (quando o há)  até à vida adulta dos nossos filhos…

Já pensaram nesta questão em voz alta? Ou mesmo em silêncio?

Acredito que a maternidade e paternidade são muito mais do que dois cromossomas unidos e sobre isso já teci várias considerações .

A primeira infância

A primeira infância passa a correr. Entre mudas de fraldas, as primeiras colheres de sopa, algumas quedas e visitas frequentes ao centro de sáude. As febres, viroses e afins, as birras e as noites sem dormir. Passa a correr. E quando finalmente desacelaramos, a criança atingiu os dois primeiros anos de vida. Se o trabalho de casa foi bem feito (e deve ter sido), ela tem em si muitas ferramentas que facilitarão a etapa seguinte. Estou, evidentemente, a falar da estimulação do desenvolvimento global do bebé, que é crucial para o desenvolvimento futuro.

Apercebi-me, há alguns dias, que está novamente em desuso contar histórias em ambiente familiar, falar com a criança ou cantar. Permitir a brincadeira ao ar livre, as quedas, o sujar e o brincar…

Isto preocupa-me.

Entrada para a escola e 1º ciclo

Numa segunda fase, a criança transita entre o pré escolar e o primeiro ciclo e inicia-se a fase das aquisições consideradas importantes. A educação do currículo evedencia-se em detrimento das artes. Pintar, desenhar, dançar ou cantar são atividades de preenchimento de horários. Com sorte, terão pais e mães atentos que lhes permitirão trabalhar estas áreas de expressão em casa ou noutros contextos.

Surgem as atividades extra-curriculares que dão aso à liberdade da criança quando estas têm a possibilidade de as escolher por iniciativa própria e não por imposição de elites sociais, caindo no erro de não contribuírem efetivamente para as necessidades da criança.

A adolescência

O tempo passa a correr e logo o segundo e terceiro ciclo chegam e o bebé, é de repente, adolescente. E agora?
Foram criados os laços afetivos necessários na infância?
O jovem adolescente  sente a sua casa como um lar onde poderá partir e voltar, sendo acolhido nas suas escolhas?
Poderá partilhar as suas ansiedades, dúvidas e questões?
Irão respeitar o seu espaço, a sua integridade física e moral? Os seus silêncios…

Às vezes sim , outras não…E assim vamos modelando adultos que nunca ouviram um Acredito em ti , És capaz, Estou aqui se não der certo, Tenho orgulho em ti, Gosto de ti, Apesar do teu comportamento estou aqui contigo!

O verbo amar nem sempre se resuma a: tens fome, tens sede, tens escola, tens roupa, tens dinheiro…

O tic tac do relógio está a contar, já pensou neste caminho?

É igual ao seu? Talvez sim, talvez não!

Ensinar os filhos a esperar

Atualmente, parece que tudo é difícil de aguentar, sob todas as perspetivas.

Os filhos passam por circunstâncias sobre as quais manifestam dificuldades em gerir. No outro ângulo, encontram-se os pais que ficam tão ou mais aflitos quando sentem as crias em apuros. E se o instinto natural impele a ajudar, é isso mesmo que deve ser feito. Já resolver tudo, de modo imediato, independentemente da idade, (e, por vezes até, oferecendo soluções antes de o problema ser manifestado), é ação merecedora de ocorrência no registo criminal da parentalidade.

Cultura do instantâneo

Nascemos todos sob o princípio do prazer, isto é, “tenho fome, alimenta-me já!”; “quero água, como é que ainda não está aqui?”; “a fralda está suja: a troca é para hoje ou amanhã?”. E, sem o domínio da comunicação verbal, o choro serve de alerta para todos os sinais que queremos dar.

Pressupõe-se que, com o desenvolvimento, entre outros aspetos, se desenvolva a capacidade de esperar. Ou seja, de conseguir aguentar os diversos desconfortos que vamos sentindo na vivência diária, sem almejar soluções instantâneas. No entanto, para alcançar esta capacidade de forma ajustada, requer-se que os cuidadores (pais, avós, tios, etc) possuam também esta capacidade. A de aguentar as manifestações de desconforto, por parte de quem cuidam, sem o impulso de querer solucionar, prontamente tudo.

Exemplos disto, relativos a uma fase mais inicial da vida, são a chucha que aparece rapidamente ao primeiro choro, e os avós que surgem como recurso imediato quando os pequenotes demonstram resistência em ir à escola.

Dar tempo para aprender a esperar

A questão fulcral reside no facto da reação-resposta não dar tempo para aprender a esperar. Não dar tempo para reconhecer o sentir, confrontando-o e suportando-o até passar ou ser resolvido. Ter a capacidade de parar para pensar o sentimento é imprescindível a um desenvolvimento mais harmonioso e equilibrado, mas não “nasce” sem treino.

Não pensar no que se sente, privilegia a fuga.

O evitamento; a incapacidade de olhar para dentro, pelo receio daquilo que possa encontrar-se. E, não conseguir olhar para dentro, é como estar na selva, em frente ao Cuquedo, a anunciar-lhe que ele – Cuquedo – é muito assustador, muito embora, na verdade, ele seja o oposto do susto (sendo que só assusta porque existe essa expectativa sobre ele). Isto é, pode avolumar-se como um perigo.

A verdade é que, não obstante as boas intenções dos cuidadores, um tempo de latência na resposta aos pedidos dos pequenotes (e mesmo dos “crescidotes”), só traz benefícios. Se, por um lado, os ensina a saber esperar; por outro, transmite-lhes a mensagem que quem os cuida está tranquilo. Que não se deixa abalar com o mal estar dos filhos, sendo, por isso, sentidos como uma fonte de apoio muito mais securizante. (É natural que os cuidadores se preocupem. Devem, no entanto, de forma verbal e não verbal, passar a mensagem contrária, para que possam ser vivenciados como porto de abrigo).

Na certeza que a vida não acontece ao sabor do tempo e vontade de cada um. É importante preparar para o desenvolvimento de recursos internos que permitam aguentar mais os “mal-estar” do quotidiano. Na tentativa de evitar que, mais tarde, perante as adversidades da vida, se manifeste a sensação de perda de controlo e, (por norma) consequentes, crises de ansiedade.

Receitas Especiais – Jogos de Ortografia para Crianças

As “Receitas especiais” são jogos de ortografia para crianças apresentados a partir de um modelo de receita de cozinha.

Foram especialmente escritas para os que se dedicam ao 1º ciclo de ensino e para os pais, podendo facilmente ser usadas na sala de aula e em casa.

Os principais objetivos das “Receitas especiais” são:

1. Aumentar a motivação dos filhos/alunos para escrever;
2. Proporcionar momentos a pares dedicados à ortografia;
3. Reforçar e desenvolver a competência de ortografia;

DOMINÓ ORTOGRÁFICO

INGREDIENTES: sílabas e palavras.

UTENSÍLIOS: folhas de papel, tesoura e lápis/caneta.

CUSTO: baixo.

PARA: 2 jogadores.

MODO DE PREPARAÇÃO: Primeiro, selecionam-se 20 palavras de acordo com o tipo de sílaba que se pretende praticar (ex: pra, pre, pri, pro, pru). Recortam-se 20 papelinhos de igual tamanho e traça-se uma linha vertical, de alto a baixo, que os divida em duas partes iguais. Pede-se à criança que escreva cada uma das cinco sílabas numa das partes do papelinho, repetindo-as quatro vezes. Na outra parte dos papelinhos, pede-se que escreva cada uma das palavras selecionadas. Baralham-se os papelinhos e distribuem-se os 20 papelinhos pelos dois jogadores. O primeiro jogador coloca um dos seus papelinhos em jogo e o outro jogador procura nos seus uma sílaba que emparelhe com a palavra ou uma palavra que emparelhe com a sílaba, e assim sucessivamente. Ganha o jogador que terminar primeiro os seus papelinhos.

TEMPO DE PREPARAÇÃO: variável.

GRAU DE DIVERTIMENTO: elevado

JOGO DO PEIXINHO DAS REGRAS ORTOGRÁFICAS

INGREDIENTES: palavras e regras ortográficas.

UTENSÍLIOS: folhas de papel, tesoura e lápis/caneta.

CUSTO: baixo.

PARA: 2 jogadores.

MODO DE PREPARAÇÃO: Primeiro, selecionam-se 10 palavras de acordo com as regras ortográficas que se pretendem praticar. Recortam-se 20 papelinhos de igual tamanho. Pede-se à criança que escreva cada uma das palavras num papelinho e a respetiva regra noutro. Baralham-se os papelinhos com as palavras/regras escritas voltadas para baixo. Cada jogador retira dois papelinhos. O primeiro jogador pergunta ao outro se tem a palavra ou a regra que pretende fazer par. Se o outro jogador tiver o papelinho pedido, entrega, se não tiver, o primeiro jogador tem de “ir à pesca”. Se conseguir fazer o par palavra/regra diz “peixinho” e retira outros dois papelinhos, continuando a jogar. Se não conseguir fazer o par, passa a vez ao outro jogador. No fim, ganha quem tiver mais “peixinhos”.

TEMPO DE PREPARAÇÃO: variável

GRAU DE DIVERTIMENTO: elevado

JOGO DE MEMÓRIA ORTOGRÁFICO

INGREDIENTES: palavras com correspondências múltiplas.

UTENSÍLIOS: folhas de papel, tesoura e lápis/caneta.

CUSTO: baixo.

PARA: 2 jogadores.

MODO DE PREPARAÇÃO: Primeiro, selecionam-se 10 palavras de acordo com a correspondência múltipla que se pretende praticar (ex.: s, c, ç, ss ou x). Recortam-se 20 papelinhos de igual tamanho. Pede-se à criança que escreva cada uma das palavras duas vezes, em dois papelinhos. Distribuem-se os papelinhos em 4 linhas de 5 papelinhos, com as palavras voltadas para baixo. Em cada jogada, a criança pode virar dois papelinhos: se encontrar o par joga novamente; se não encontrar o par, passa a vez ao outro jogador. No fim, ganha quem tiver mais papelinhos.

TEMPO DE PREPARAÇÃO: variável

GRAU DE DIVERTIMENTO: elevado

As “Receitas especiais” são atividades lúdicas, atrativas, simples de dinamizar e pouco dispendiosas que complementam outras estratégias, mais estruturadas, quando se pretende promover o desenvolvimento de competências de ortografia.

Este é um tema que gera muitas divergências de opinião. Se por um lado temos os defensores que acham que são uma tarefa bastante importante, por  outro temos os opositores, que acham que não ajudam em nada.

Mas para que servem os trabalhos de casa?

Quem defende, diz que o objetivo é consolidar os conhecimentos adquiridos ao longo do dia, encontrar um método de estudo, e promover a responsabilidade.

Esta prática, já antiga, conhecida por todos nós, que no entanto, nunca chegou a ser atualizada.

Hoje em dia, as crianças têm um horário mais prolongado, com muitas atividades, acabando por chegar a casa cansadas e sem qualquer motivação para se debruçar sobre os trabalhos de casa.

Esta tarefa, que deveria ser realizada com alguma estabilidade e motivação, acaba por ser executada com cansaço e consequentemente  encarada como um sacrifício.

As crianças, rapidamente ganham alguma aversão, e dificilmente criam empatia pela tarefa, e os resultados acabam por ser desastrosos.

Os pais, que por sua vez também estão cansados, vêem-se aflitos para conseguir ajudar os seus filhos, não conseguindo acompanhar da devida forma.

O ideal seria existir um equilíbrio. Trabalhos de casa, sim, aos fins-de-semana. Por exemplo, sob forma de responsabilizar a criança, fazendo com que possa consolidar os seus conhecimentos, mas em doses equilibradas.

É importante perceber que uma criança, precisa de brincar, precisa de ter tempo para ser criança, precisa de se sentir feliz e motivada.

Trabalhos de casa, podem ir muito além das fichas de trabalho. Podem ser feitos através de uma pesquisa, uma conversa com um adulto sobre um tema, a leitura de uma história, uma expressão dramática, uma ida a um supermercado.

Creio que existe uma grande preocupação em depositar conhecimentos numa criança, e não em ensiná-la nas suas mais variadas vertentes de uma forma mais prática e com empatia.

Uma das melhores maneiras de acompanhar o seu filho na escola é vigiar e rectificar a mochila do seu filho. É importante perceber o que é que se passa no seu dia-a-dia, conhecer a sua letra, se há ou não recados, se há trabalhos de casa, que matérias estão a dar, para que ele perceba que é importante ter essa responsabilidade incutida.
Desta forma, os pais estão mais presentes na educação escolar do do seu filho.

A grande importância dos três primeiros anos de vida

A ideia de que os bebés não ouvem, não veem e não sentem está ultrapassada.

Hoje sabemos que, logo na barriga da mãe, o feto ouve, vê e sente. E sabemos também que, os bebés são seres com inúmeras capacidades relacionais, motoras e cognitivas.

Hoje, sabemos ainda que, que os três primeiros anos de vida são fundamentais na formação da personalidade, nomeadamente que a qualidade das relações que é vivenciada nesta fase, será a base de todas as relações futuras.

O primeiro ano de vida (0-12 meses)

O primeiro ano de vida não é fácil, ao contrário do que vulgarmente se poderá pensar, as transformações que um bebé vivência neste período são árduas.

  • O bebé faz a transição de estar deitado para, a difícil tarefa que é caminhar sobre os seus próprios pés e ganhar autonomia.
  • Passa da ingestão de líquidos, para o complexo acto de mastigação de alimentos sólidos.
  • No sono, abandona progressivamente os curtos períodos de sono que tinha na barriga da mãe, ou seja, o seu ritmo de sono, para ter períodos de sono cada vez mais prolongados e mais aproximados ao ritmo de sono dos adultos.
  • Na comunicação, dão-se também grandes alterações. Antes de aprender a falar, o choro é a forma natural do bebé se expressar. Mais tarde, começa a dizer as primeiras palavras, o que por vezes acarreta uma enorme frustração até as conseguir verbalizar. A nível social, o bebé passa do seu mundo (eu e a minha mãe), para a noção de que existem outras pessoas em seu redor, que a amam igualmente.

O segundo ano de vida (12-24 meses)

No segundo ano de vida começam a surgir as birras, que se poderão intensificar mais tarde. A criança começa a brincar ao faz-de-conta (como por exemplo, brincar às papinhas), uma aquisição extremamente importante, visto que é através do brincar que a criança vai futuramente representar situações que vivenciou no seu dia-a-dia e reorganizá-las no seu pensamento.

O terceiro ano de vida (24-36 meses)

No terceiro ano de vida, a fase das birras atinge o seu auge – a “adolescência” da primeira infância. Esta é uma fase que pode levar os pais ao limite da sua paciência. Contudo, nada que não se ultrapasse com limites, amor e uma boa dose de paciência

É sobretudo importante olhar para este período com compreensão. A criança passa por uma fase de conflito interior em que, por um lado, já se sente autónoma para explorar o mundo, pois já caminha, mas por outro lado, ainda sente que precisa muito dos pais/cuidadores. A criança vivencia alterações bruscas de humor, uma vez que experiencia um turbilhão de emoções contraditórias ao mesmo tempo (Brazelton, 2013).

É também nesta fase que a criança começa a deixar as fraldas, o que é um enorme contributo para que se sinta cada vez mais segura de si e independente. O seu brincar ao faz-de-conta, torna-se cada vez mais elaborado, sendo que a promoção da imaginação e a fantasia são fundamentais para um desenvolvimento saudável.

Importa ressalvar que no desenvolvimento dito normativo, não existem apenas evoluções.

Por vezes, também existem regressões em algumas áreas, para que as outras possam avançar. Por exemplo, quando a criança começa a andar e a ter a capacidade de explorar o meio, esta aquisição torna-se demasiado interessante e a criança poderá começar a dormir pior, pois tem vontade de experimentar constantemente essa nova aquisição (Brazelton, 2013).

Apesar de estas serem competências que usualmente são adquiridas durante estas fases, cada criança é única e tem o seu próprio ritmo. Cada criança tem as suas potencialidades e fragilidades… como todos nós adultos!

Ser bebé não é fácil! E, apesar de não termos memória dos  como a conhecemos hoje, é durante estes primeiros três anos de vida que são construídas memórias sensoriais que perduram em nós para toda a vida.