Foi amor à primeira vista. Se for rigorosa apaixonei-me por ti quando ainda tinhas apenas alguns milímetros mas já a força de mudar tudo à tua volta. Não me fiz de difícil, deixei-me arrebatar a cada mudança – e ainda o faço hoje, sou fácil e sei-o.

Não temos, ainda, o que se costuma chamar de um namoro longo.

Começou há treze meses (mais as trinta e nove semanas em que te carreguei dentro de mim) e, tal como nos namoros onde há amor, a cada dia que passa apaixono-me mais um bocadinho. Vamo-nos conhecendo cada vez melhor e temos sido exímias em comunicar sem palavras. Estas começam agora a chegar aos poucos e vejo-te ganhar asas para começares a voar.

Há alguns dias ficaste em casa por causa da febre desses quatro dentes que escolheram nascer todos ao mesmo tempo para te provocar. Houve rabugice, sono, brincadeira e muito mimo. Quando adormeceste na sesta fiquei a olhar-te na penumbra e deitei-me ao teu lado no sofá. Vi com o deleite que só uma mãe sente o teu peito subir e descer compassadamente, inspirei o cheirinho do teu cabelo encaracolado que me faz cócegas no nariz. Acho que nunca tinha visto algo tão bonito, tão pacífico, tão repleto de ternura. Fiquei assim, a ver-te, a sentir-te perto, a fazer-te festinhas, como quando eras recém-nascida e as horas eram todas nossas.

Estás a crescer e queres mimo, mas também queres outras coisas. Desafias, aprendes, erras, cais, levantas-te, acompanhas a música com a tua cabeça, experimentas brinquedos e brincadeiras novas. Eu entendo essa curiosidade, essa vontade de sugar o mundo e tento que esta fase de encantamento contigo não atrapalhe a tua crescente independência.

O nosso namoro sabe-me bem. Há alturas em que puxo por ti, outras em que és tu que o fazes por mim. Desejo que possas olhar para trás e lembrar a tua infância como a soma de momentos mágicos, repletos de afectos. És mimada, não com o mimo que deixa “danos” mas com o mimo que devia ser obrigatório todas as crianças receberem.

Vamos ultrapassando obstáculos um abraço de cada vez, até que os abraços não sejam suficientes e tenhamos de encontrar novas soluções.

Vou estar aqui para descobrir tudo isso contigo. Afinal é um namoro, não é? Com os seus altos e baixos, as surpresas, o tirar o fôlego, a saudade e a partilha.

Ainda vais ver tanto mundo, amar de tantas maneiras, sentir coisas fantásticas. Subir às árvores, fazer perguntas difíceis, correr de braços abertos, fazer “bombas” na piscina. Dançar com os teus amigos, ouvir uma música que te lembra algo bom.

Tudo começou quando tinhas apenas alguns milímetros e ainda tens tanto para crescer. Vai ser bom. Vai ser tão bom!

Promessa de mãe.

 

Por Marta Coelho, para Up To Kids®
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Penso muitas vezes, na bênção que é ser mãe.

Posso ter cometido alguns erros, mas se o meu maior ‘erro’ foi engravidar então sou a mulher mais abençoada que existe. Algumas pessoas podem pensar que engravidar quando se está a dar passos numa carreira que parece promissora, ou principalmente quando ainda não se é independente financeiramente seja uma loucura. Eu digo, esta é a minha história e estava escrito que a minha alma inquieta fosse encontrar a alma ponderada da minha filha, sensível e de uma empatia incrível. Costumo dizer-lhe enquanto conto a nossa história, que esta mesma história  já vem de outra dimensão, de outro tempo sei lá.

O meu amor pela minha filha é tanto que às vezes parece rebentar-me do peito. Não há nada nela que não me maravilhe. O seu olhar e introspecção, o seu amor pelo outro e como olha nos olhos um sem-abrigo enquanto lhe dá um sorriso e uma pequena esmola, O seu sentido de humor. O amor pelos animais, e como sofre quando o 10º peixe  dourado morre, dizendo ‘nunca mais vai haver um peixinho como este’. A importância de todos os momentos na vida, a família. Eu digo-lhe que ela é como o Olaf do Frozen, pois vê tudo pelo lado positivo principalmente nas pessoas. Não, não é perfeita. Mas é minha.

Esta semana uma amiga relembrou-me o caso de um pai que não esquece um filho, que é impedido de ver pela mãe. O Miguel e o Santiago. Quantos mais serão? Penso muitas vezes no que dirão essas mães e pais aos seus filhos enquanto lhe olham nos olhos para justificar essas ausências forçadas. Que não são amados? Que os pais/mães não têm tempo para eles? Para esquecer? São capazes esses pais de viver com o sofrimento dos filhos, por não serem eles mesmo felizes? Partindo do principio que estes pais não são autênticos monstros, daqueles que inundam o lado negro das noticias e que dizemos ‘isso não é um pai/mãe!’. Não, não são. Partindo do principio que a luta, é dos pais, e só dos pais, tal como a sua mesquinhez…que dizem estes pais?

Posso falar um pouco sobre isso. Quando engravidei, não foi planeado. Mas eu queria ser mãe. O pai foi convidado a participar, mas na sua cobardia e incertezas e dilemas de um ‘miúdo’ de 28 anos que só queria surf e uma guitarra, não foi capaz. Assustado, pediu-me em casamento, um pedido tão oco como a sua vontade de na altura assumir qualquer responsabilidade. Regressou ao seu país pouco depois.

Eu, não estava triste ou infeliz talvez ajudasse o facto de não o amar. Pensava que não era uma drama, e assumi tudo como se de uma produção independente se tratasse, com muito amor. Como se eu fosse de facto Islandesa, e não Portuguesa. Tive e tenho a sorte de ter tido uns pais que sempre me apoiaram, não só emocionalmente mas também financeiramente (mais do que queira admitir) e umas irmãs que têm sido mais que tias, umas mães para Ela. Mas Ela tinha e tem um pai.

Aos 3 anos, falei-lhe do pai pela primeira vez, Mostrei-lhe fotos nossas, e não fez muitas perguntas nem antes nem depois desta conversa. Dormiu com as fotos e mostrou-as a toda a gente. Era, tal como agora uma criança equilibrada e resolvida. Livre de qualquer drama sempre encarou a sua história como mais uma história e um tipo de família. Na escola haviam outros pais e mães, uns avós e outros tios. Há muitos tipos de família, a nossa, é só mais uma. O dia do pai não era especial, nem pela negativa, nem pela positiva. Era o dia em que trazia qualquer coisa da escola para o avô ou para a mãe. Simples.

Com o pai, eu ia tentando fazer a ponte, nunca fechei a porta (embora às vezes dissesse a mim mesma que não iria tentar mais). Mas não era a minha história, é a d’Ela. Nunca lhe disse que o pai não a amava, que não queria saber d’Ela, nem podia porque eu sabia que apesar de tudo essa não era a verdade. Embora aos olhos dos outros, essa fosse talvez fosse a verdade.

Quando eu falava com o pai, este dizia que a amava, mas não fazia nada para o demonstrar. A vida continuava feliz. Numa boa fase apresentei-a ao pai pelo Skype. Falaram tímidos, sorriram e riram. Mas não foi consistente. Apesar de tudo, as duas íamos falando, queria que me dissesse o que sentia e falavamos abertamente q.b. sobre o pai e eu dizia-lhe ‘sabes que ele ama-te mas é muito maluco’ e riamos de seguida quando eu imitava o seu suposto sotaque Brasileiro. Queria que soubesse, que poderia dizer-me tudo. Queria saber se sofria. Não sofria, porque eu assegurei-me de que não se tratava de um drama sem deixar de estar atenta às suas necessidades.

Nunca lhe falei mal do pai, como podia eu?  Nem eu, nem a minha familia. Ele, deu-me a maior prenda que alguém me poderia ter dado, a seguir ao meus pais terem me dado as minhas irmãs (com 11 anos de atraso diga-se!). A minha filha. Não há nada que ultrapasse isso, nada. Existe benção maior?

Em Abril do ano passado, uma nova tentativa (como podia deixar de continuar a tentar? fechar a porta? não me cabia a mim tal decisão). O pai que entretanto passara por uma experiência de vida e morte, começou a mudar. Sem interferir na nossa dinâmica, começou a falar semanalmente com Ela. Ela reagiu normalmente. Tudo isto é a sua realidade,  a sua normalidade. Embora para os outros possa parecer estranho. Não importa, cada um a sua história.

Falavam por skype, whatsapp e riam, trocavam fotos e piadas. Ás vezes não lhe apetece falar, não por o rejeitar, simplesmente porque está a dar a Violetta e nesse momento, essa é a prioridade. Entretanto, noto  que o pai quer fazer parte da sua vida embora vivam em continentes diferentes. Não faz mal, a mãe já viaja muito e isto também é normal. é como se o pai fosse emigrante. Como tantos outros.

Mas a verdade é que no Natal passado o nosso milagre aconteceu: O pai dela comprou-nos viagens.
Queria ver a filha ao vivo e a cores. No dia 1 de Janeiro o nosso milagre de Natal aconteceu. Pai e filha abracaram-se pela primeira vez.
Não importou se foi  com 9 anos de atraso, o que importa é o agora.
O que importa, é o amor.

Enquanto fazíamos as malas, nos dias que antecederam à viagem,a excitação era enorme e a alegria estava espelhada na sua carinha, afinal íamos fugir do frio a caminho do sol no Brasil onde vive o seu pai. Que criança não ficaria assim com esta possibilidade? Parece uma futilidade dizer isto assim, quando se está a falar da viagem mais importante até à data na vida de uma criança de nove anos. Sim é verdade, mas também é verdade que estamos a falar de uma criança super equilibrada, bem resolvida e de bem com a vida.

Passo a explicar o que não é nem soberba minha, nossa, nem leviandade pelos seus sentimentos. Muitas vezes ao longo destes nove anos, fui questionada inúmeras vezes, se ela não sentiria falta do pai, se perguntaria muitas vezes por ele. As pessoas que me questionaram isto apesar de bem formadas e bem intencionadas, estavam confusas e talvez perplexas pela forma como estava a criar a minha filha e como, apesar de muitas vezes ter dado jeito ter alguém extra para ajudar, éramos e somos felizes. Como é que alguém que é solteira e é mãe, pode ser assim tão segura? Ou criar uma menina, segura, equilibrada e feliz? Como é que eu não me estava a escavacar, apesar das dificuldades e golpes irreversíveis na minha carreira, por uma pensão qualquer? Como? Como é que eu tinha e tenho, o desplante de sorrir enquanto digo sou mãe solteira, sem pudor ou orgulho ferido? Como é que não ando curvada, e como me atrevo a ser tão independente de um homem qualquer? Do seu pai, ou de um outro qualquer que entretanto pudesse ter aparecido para eu em agarrar como se não houvesse amanhã? Porque, eu enquanto mulher sozinha tão desesperadamente precisaria com certeza. Com certeza, porque sozinha é difícil e a criança é coitada, Como? Como?

Eu respondo, como é que alguém sente falta de uma realidade que não é a sua? De algo que não conhece?

Quem é que sente falta de algo que nunca lhe tenha sido apontado como uma lacuna? Se sempre fomos ambas, o suficiente e mais além? O suficiente, repito. Acrescento, lamento mas estou a criar uma futura mulher segura de si, que se ama, que é mais que o suficiente, independente mas amada e com o coração no lugar certo.

Antes de partirmos disse-lhe várias vezes ‘Kika, já viste, vais conhecer o teu pai! Ao vivo!’ depois perguntava-lhe ‘O que achas de isto tudo? Pensas muito nisso?’, ela sorria-me enquanto respondia ‘não muito, mas acho que vai ser giro! Mas vou ter um bocadinho de vergonha.’. Uns dias antes, ouvira-a comentar com as amigas ‘vou até ao Brasil conhecer o meu pai’, fiquei surpreendida confesso com as reacções das amiguinhas ‘que giro!’ ou ‘que sorte!’ ou ‘ a sério?! Aproveita!’. Tão natural, como a nossa sede, mesmo. Afinal, somos nós os adultos que lhes vamos incutindo preconceitos, ou não.

No avião, estava eléctrica brincava com o Play-Doh depois com os livros, depois via os inúmeros filmes a escolher para ver durante o voo. Eu observava-a, tentava entrar na sua pele, imaginar o que sentia. De vez em quando apanhava-me a observa-la, sorria-me de volta e fazia-me uma festinha nas mãos, talvez pressentisse o meu coração de mãe que agora que se aproximava a hora H, estava mais apertado. Mas ela, ela estava tranquila e feliz. Como sempre. Tenho dúvidas, muitas vezes. Questiono-me, a toda a hora.

Mas depois ela surpreende-me com o seu carácter e força e um amor infinito pelo outro.

Quando aterramos no Rio, ambas estávamos vestidas de inverno quando nos vimos rodeadas de gente feliz e bronzeada que tinha há apenas umas horas recebido o ano novo na cidade maravilhosa. A esperança encheu-nos o coração, ano novo! Suadas fomos trocar de roupa, e agora que estava a chegar o momento, o seu semblante mudara ligeiramente. Sorria, mas estava a ficar ansiosa. Não sei o que estava a pensar, a sentir. Posso imaginar. Reverti para o humor, como sempre nas horas mais difíceis, entre piadas que íamos fazendo e rindo. O ambiente ficou mais calmo, mas o seu riso tornou-se mais nervoso, mais tímido. Quando chegamos ao destino, ao destino, depois de recolhermos as bagagens disse ‘Mãe! É agora.’ eu respondi ‘sim filha, coragem, eu estou aqui.’e ela disse-me ‘Sim, Como sempre.’. Saímos ao encontro do momento mais importante da sua vida.

Não houve lágrimas, houve risos nervosos e um abraço apertado e longo. Ambos estavam nervosos, boca seca, estavam curiosos e observavam-se. Agora pai e filha ganharam cheiro, cor e a vida não vai voltar a ser a mesma. Nada é perfeito, mas a vida é boa. A minha filha lembra-me muitas vezes disto mesmo, quando caio na realidade de adulta por vezes descrente (Graças a Deus, poucas! eheh) que há sempre o lado positivo em tudo. Esta pequena pessoa que saiu de dentro de mim, este pequeno maravilhoso milagre, esta-me sempre a surpreender, sempre a ensinar. E eu sempre a aprender.

Por Sónia Pereira de Figueiredo, originalmente escrito para o Blog Amniotico
sugerido para  Up To Kids®

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Não sou – reconheço – muito amigo de soluções mágicas e minimalistas que, com “gotinhas” para adormecer, “gotinhas” para aprender a controlar os esfíncteres e “gotinhas” para estimular a atenção tem vindo a transformar o crescimento numa espécie de felicidade sintética que me preocupa. Nem gosto por aí além das escolas para bebés, nem das escolas de pais, nem da densidade exorbitante por metro quadrado de crianças sobredotados e de crianças «cheias de personalidade» (ou com imensa autoestima, se preferirem) que faz do crescimento um furor pouco amigo da humildade e da sensatez. Em primeiro lugar, porque sinto que essa tendência é, em grande parte, decalcada no mundo dos adultos (que, à custa de não o gerirem, vivem – muitas vezes – intoxicados por efeitos especiais e inquinados por uma angústia que os corrói). E, em segundo lugar, porque, salvo circunstâncias muito excecionais, todo o tipo de soluções que contornem o tempo que a educação precisa de ter para se consolidar (a educação para a saúde, a educação para o amor, ou a educação para o conhecimento, por exemplo) têm uma fatura incalculável – no curto e no médio prazo – que quase nunca é estimada, de forma clara e ponderada, quando se opta por soluções rápidas, seja para o quer for. Afirmar que é urgente a educação pode parecer jurássico (reconheço) mas acaba por distinguir aqueles que delineiam um projeto de vida, e o tornam exequível, com atos de gestão (coerentes e constantes), daqueles que reclamam – agitadamente – por felicidade mais do que lutam, com determinação, por ela.

O crescimento tem vindo a tornar-se muito amigo do silêncio e da educação tecnocrática e as crianças são, sobretudo, educadas para a contenção. O que faz com que elas sintam, imaginem, fantasiem, estruturam uma leitura simbólica sobre tudo, à volta delas… mas não falem. E isso é mau! É por irmos da emoção à palavra, e dela à complexidade das operações mentais, que se geram os gestos empreendedores com que o mundo pula e avança. E é por casarmos complexidade e simplicidade, e por ligarmos singular e plural, que todas as revoluções nos apanham, justamente, desprevenidos.

Como, ainda por cima, cuidamos muito pouco da língua portuguesa e vivemos numa velocidade tão vertiginosa que, quando damos por isso, nos transformamos em ilhéus, numa permanente desertificação relacional, temos vindo a educar os nossos filhos para a iliteracia emocional. (Isto é: em consequência da forma menos hostil e autoritária como educamos, estamos a criar crianças que parecem mais precoces, mais inteligentes e mais personalizadas que os seus pais mas, por outro lado, essa fabulosa competência para a sensibilidade, para o afeto e para o pensamento é atropelada, a torto e a direito, por uma escola, por uma família e por estilos de vida infantil que transbordam em stress e em hostilidade e que, por isso, não escutam, não sentem, nem criam espaços para que essa competência se formate em palavras para que, de seguida, se traduza em gestos empreendedores. Iliteracia emocional é uma espécie de analfabetismo educado para tudo aquilo que compõe a natureza humana que, como se compreende, o futuro não merece.) Um bom exemplo desta atitude tão contraditória diante do crescimento surge quando se repete, com vaidade, que seremos A sociedade do conhecimento, embora as crianças, mal cheguem à escola, deixem de perguntar “porquê”… Ora, quanto mais iliteracia emocional mais angústia e mais hostilidade (que é um 2 em 1: depressividade, por desamparos cumulativos, e violência contida).

Por tudo isto, e embora não discuta a qualidade intrínseca da maioria deles, a maior parte dos pais – ao permitirem tudo isto, ao contrário daquilo que desejam – tem um potencial de bondade a perder de vista, mas… são maus pais.

De que modo podemos, ao mesmo tempo, reivindicar o direito à indignação e desenhar transformações que tornem o futuro das crianças melhor,  mais bonito e mais saudável?

A meu ver, chega-se lá com 10 mandamentos para o amor dos pais:

De que modo podemos, ao mesmo tempo, reivindicar o direito à indignação e desenhar transformações que tornem o futuro das crianças melhor,  mais bonito e mais saudável?

A meu ver, chega-se lá com 10 mandamentos para o amor dos pais:

  1. É urgente que os pais se deixem surpreender pela parentalidade. É precioso que se informem, claro, mas é indispensável que percam o medo dos seus erros (sem os quais  nunca passarão da intenção de serem pais à parentalidade).
  2. É urgente que os pais escutem as crianças mas que decidam por elas. É urgente que opinem mas que não vacilem quando se trata de as obrigar a ser autónomas. Pais presos na sua própria infância não são pais: são crianças à procura de colo. Não educam nem são educáveis. Replicam os erros e os enredos que os atormentaram toda a vida.
  3. É urgente que os pais admirem os filhos – o seu engenho, o lado afoito que eles têm  (que se renova, todos os dias) e a sua mais versátil manhosice – mas que não percam de vista que só a sabedoria dos pais os legitima para amar (e que a ela nunca se chega sem dúvidas, sem dilemas entre gestos de sentido contrário e sem contradições).
  4. É urgente que os pais olhem nos olhos, sempre que falam com a voz e com as mãos, ao mesmo tempo. E que chorem, sempre que lhes apeteça, e que resinguem e se lamuriem, que façam uma ou outra birra e, sempre que querem mimo, que intimem (sem mais explicações) um filho a dá-lo.
  5. É urgente que os pais dêem colo todos os dias. E que falem todos os dias. E que abracem e beijem todos os dias. Que se sentem no chão, inventem uma historieta e contem graçolas todos os dias.
  6. É urgente que os pais, quando não têm nada para falar, não perguntem como correu a escola. E que sempre que não gostam dum desenho não digam que ele é lindíssimo. E que – pelo seu nariz, que seja – quando sentem que uma criança está mais ou menos tristes, estão impedidos de fazer outra coisa que não seja apertá-la (caladinhos!) com muita força, 10 minutos.
  7. É urgente que os pais sejam tão reivindicativos como pais como eram como filhos – e que, apesar disso, sejam eles a Lei – e que exijam que as crianças participem, todos os dias, nos trabalhos da casa (sem os quais as crianças vão de principezinhos a pequenos ditadores).
  8. É urgente que os pais não estejam de acordo, entre si, em relação seja ao que for que represente mais um problema que um filho lhes coloque. Os conflitos dos pais são os melhores amigos de todas as crianças porque é com eles que os pais soltam a intuição e as convicções e deixem cair tudo aquilo que, parecendo compenetrado, não tem nem entusiasmo, nem alma, nem magia.
  9. É urgente que os pais falem sobre os filhos: que desabafem sobre os seus medos e compartilhem as suas dúvidas mais ridículas. E que percam a vergonha de falar das habilidades das crianças e de como se sentiram no céu ao serem lambuzados com um beijo. E que deixem de trazer, como se fosse por esquecimento, todas as fotografias que bem entendam dos seus filhos, sobretudo aquelas que mais os embaracem ou que mais os comovam.
  10. É urgente que os pais reconheçam que jamais deixam de ser filhos e de ser pais. E que se não tiverem tido, vários dias, em que resmunguem contra os filhos e se desapontem com eles é porque os estão a educar à margem da sensibilidade e da fantasia, do afeto e da sabedoria.
    E, se for assim, estão condenados a ler estes 10 mandamentos outra vez.

Por Eduardo Sá, publicado na Pais & Filhos a 06 Fevereiro 2012

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Como mãe estou preparada, ou assim o espero, para ver a minha filha ganhar asas e voar livremente, sozinha, enquanto descobre o seu caminho por si.

Pretendo dar-lhe as ferramentas necessárias para que faça as suas escolhas, mas tenho alguns receios que acredito que são transversais à maior parte dos pais:

Não poder acompanhar o crescimento de um filho
Quero estar por perto para presenciar as conquistas, das mais pequenas às mais significativas, os erros em que todos caímos, as certezas que se irão solidificar, a pessoa em quem se vai tornar. A simples possibilidade de (uma de nós) estar ausente deixa-me um aperto no coração.

Que um filho fique verdadeiramente doente
Sempre admirei os pais que acompanham filhos doentes – seja qual for a doença – a sua devoção, fé, coragem, mesmo quando as perspectivas são más. Ninguém está preparado para não conseguir proteger um filho de algo grave, que foge ao seu controlo, ninguém ensina como se deve agir. A minha consideração é gigante e desejo do fundo do coração não ter de passar por isso e que um dia esta realidade seja uma raridade.

Ver um filho fazer (más) escolhas que lhe condicionem a vida
Os nossos filhos, por mais que sejam parte de nós e tenham o nosso sangue a correr nas veias, são (ou serão um dia) seres pensantes independentes, com as próprias dúvidas, convicções e vontades. Todos nós, mais tarde ou mais cedo, tomamos más decisões. Torço para que sejam sempre lições – para os filhos e para os pais – e que no fim haja sempre uma luz para iluminar o caminho.

Ter uma má relação com um filho
É daquelas ideias que parecem impossíveis, mas se olharmos em volta vemos todos os tipos de relações, das mais cúmplices às mais esvaziadas de sentimentos. Nenhum pai sonhou um dia não ter uma relação próxima com um filho, não ser procurado numa situação de aperto, não ser um bom ouvinte, um bom companheiro. A vida às vezes encontra maneira de dar a volta ao que tínhamos como certo e torço para que se consiga sempre dar a volta à vida e alimentar da forma mais saudável e verdadeira a relação mais importante das nossas vidas.

Ter um filho cobarde
A cobardia tem muitas faces: está na violência doméstica, está no bullying, na cumplicidade e silêncio de quem assiste a uma injustiça e nada faz, está no seguir os outros porque não temos coragem para mostrarmos quem realmente somos, etc. Espero que os princípios mais importantes fiquem sempre gravados na cabeça e no coração dos meus filhos, para que por mais que errem, nunca sejam os cobardes que infligem sofrimento propositado a quem os rodeia – e em si mesmos.

Não conseguir ajudar um filho
Seja em que situação for, por falta de dinheiro, de tempo, de sabedoria, de “ferramentas”… Que nunca falhe a um filho meu.
Não controlamos nada. Somos pais mas continuamos a ser filhos e temos uma rede de relações que se deve basear no amor. Acredito profundamente que quando há amor se encontra a força necessária para ultrapassar tudo. Os dias menos bons. Uma notícia inesperada. As saudades. Aquele telefonema que andamos para fazer há uma série de tempo. A falta de paciência nos dias longos, o cansaço nos dias mais intensos.

Tenho muitos mais medos do que os que aqui admiti, mas não deixo que estes condicionem a forma como vivo a minha vida. Quanto muito permito que me ajudem a valorizar o que tenho e a investir no que não quero perder.

Porque nenhum medo deve ter o poder de nos impedir de sermos melhores: pais, amigos, namorados, filhos, colegas, seres humanos.

Porque nenhum medo deve ser maior que a esperança.

Nenhum medo deve ser maior que o amor.

Por Marta Coelho, para Up To Kids®
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(Advertência: Este texto não deve ser lido por todas as pessoas! É exclusivo e recomendado só para aquelas que serão, muito provavelmente, as melhores mães do mundo.)

Não, não é verdade que as mães sejam serenas, macias e bucólicas, quase sempre. E que, seja diante do que for, reajam num tom ameno, almofadado e cheio de açúcar, sem sequer gritarem, esbracejarem e esconjurarem todos os descuidos que, sempre que elas são dedicadas e atentas, abundam numa casa. As mães saudáveis têm o direito (milenar!) a esganiçar-se, sim senhora! (Aliás, mães esganiçadas são um património imaterial da Humanidade; como se sabe.) E têm o direito a ameaçar que, um dia, se vão embora e “aí sim, vocês vão ver a falta que vos faço!”. E por mais que não esperem que ninguém as leve a sério, como é óbvio, agradeciam que toda a gente da família ficasse, pelo menos, em… estado de choque (!!!) diante de um grito como esse, em vez de permanecer em silêncio – entre o divertido e  uma atitude do género: “Ela fica tão gira quando está com mau génio!” – como se nada, na gritaria duma mãe, valesse para o que quer que fosse! Aliás, as mães (saudáveis, é claro) estão fartas e saturadas da sua função de mãe nunca ter nem domingos nem feriados! Nem ser considerada para efeitos de reforma, de banco de horas – a reverter em seu favor, aos fins de semana – ou com mais dias de férias, como devia ser!

Afinal, quem é que levanta as crianças, todos os dias, e se dispõe ao papel (maléfico!) de as proibir de dormir mais cinco minutos, e se esgadanha contra os seus dedos papudos que reclamam “mais desenhos animados já!”? E quem é que as apressa a vestir e as obriga a engolir o pequeno almoço, quase sem respirar? E quem é que as intima a lavar os dentes (depressa!), antes de as ameaçar que vão de cuecas para a escola se não descerem (a correr!) para o carro para que, depois de esbracejarem contra o trânsito, irem numa correria deixar a miudagem, que cansa, só de ver? E quem é que deve sofrer de dupla personalidade e, depois dos ataques de nervos  de todas as manhãs, passa da fúria de leoa à maior de todas as ternuras e pespega um beijo inimitável, e dá um sorriso cheio de luz, e abraça, e diz “a mãe ama-te tanto!!!!”, enquanto aconchega os caracóis, e chama “príncipes” e “princesas” a crianças normais e ensonadas?  As mães!

E quem é que sai mais cedo do trabalho e, cidade acima/cidade baixo, anda numa “roda viva” entre a escola, a piscina, o inglês, o futebol e a música, e transforma o porta-bagagens dum automóvel numa parafernália de mochilas, flautas, chuteiras, lanches, touca, toalha e óculos, e ainda tem tempo para as perguntas mais tolas que só as pessoas bondosas conseguem fazer (como, por exemplo: “Como é que correu a escola?” ou “O que foi o almoço”) e – oh canseira! – fica parecida com a Cruela sempre que uma criança responde: “correu bem” ou “não me lembro”?… As mães!

E quem é que, depois do trabalho, barafusta o tempo todo contra os trabalhos de casa mas que, ainda assim, franze a sobrancelha e – com um orgulho mal disfarçado – diz, num tom solene mas, todavia, aconchegado: “Eu não sei como é… Se eu não estiver sempre ali ao pé, ele não faz nada!…”?
As mães?

E quem é que tem a mania de dizer: “O meu filho não gosta de ser contrariado!” para justificar as 200 vezes que se chama uma criança para saltar para o banho, as outras 200 que são precisas para a convencer a deixar os desenhos animados para vir jantar, não esquecendo mais 200 suplementares em que  repete, devagarinho: “Come a sopa!” e acaba a ribombar: “Despachas-te ou não?…” antes de lhe dizer: “Abre lá essa boca, já!” (enquanto despeja as últimas colheres de sopa pelas goelas dum filho)? As mães!

E quem é que, diante do lado mais demagógico duma criança (quando diz “Eu não sei” ou – “à Calimero” – se lamenta: “Eu não faço nada bem feito”) começa devagarinho: “Oh, meu pequenino: não sejas pateta… Vá… A mãe gosta tanto de ti!…” e, quando os interessados esperariam que em direitos adquiridos nunca se mexesse, e insistem só com mais um “não sou capaz” (é só mais um…) acaba a berrar, num tom amigo dos trovões: “Mas onde é que tu tens a cabeça?…” As mães!

E quem é que faz o jantar, e tem a mania de achar que a sopa é importante, e que o peixe torna as crianças inteligentes, e que os vegetais fazem os meninos crescer, e as cenouras tornam os olhos bonitos, e as batatas fritas não prestam, e que a Coca-Cola torna as crianças mais redondinhas, e que o açúcar faz cair os dentes, e não deixa comer bolachas antes do jantar, nem pizza dia sim/dia sim?
As mães!

E quem é que, enquanto apanha os brinquedos que se atropelam pelo chão, mais a roupa que se amontoa na cadeira, mais a outra que se escondeu, (por iniciativa própria, logo se vê…) atrás do armário, e fiscaliza a mochila e os cadernos, e põe a roupa, esticadinha, para o dia que lá vem, e descobre pacotes de leite vazio onde não deviam estar, e embalagens de bolachas que – vá lá saber-se porquê – se refugiam no quarto das crianças, e enquanto arruma tudo, um dia atrás do outro, repete e repete e repete:  “Mas será que tu nunca arrumas nada, é?..”   E quem é que nos seus piores dias de arrumadeira, pergunta, com um desvario quase sindical:  “Mas achas que há empregadas cá em casa, é?…”
As mães!

E quem é que vai à escola e, enquanto conversa com as outras mães sobre os caprichos das crianças (como se fossem toques muito pessoais que a personalidade “muito vincada” de cada uma as leva a ter) se prepara para ser repreendida, por alguns professores, e tem de ouvir: “ Mas… está tudo bem lá por casa?” (sempre que as crianças acham enfadonhas muitas aulas, por exemplo) ou, nas alturas de pior karma, é advertida para a necessidade de dar mais apoio à pequenada “porque eu tenho 28 alunos e não chego para tudo?…” As mães!

E quem é que não perde a compostura e, antes de fingir que deita os olhos para a televisão, enquanto pestaneja, ainda se esparrama na cama e conta histórias e, para se desintoxicar do papel de “chata oficial lá de casa”, sente que aqueles minutos de namoro, antes do sono, são os únicos em que não tem de ser mandona e refilona e tudo o mais que toda a gente espera que só as mães consigam ser e, quando dá conta, adormeceu, mais outra vez, na cama de um dos filhos, e é repreendida (e muito bem…) por esse desvario? As mães, claro.

Mas, afinal, o que é querem mais das mães? Que elas não se esgotem? Que não exijam ter o direito a ser mimadas e, por mais que ninguém diga isso, que queiram, pelo menos, mais um miligrama de amor e outro de carinho do que aqueles que as crianças dão ao pai? E que não sejam vaidosas? E que sejam discretas e se anulem com se o aquilo que mais desejassem é que ninguém desse por elas?

Por isso mesmo, que em relação a tudo o resto seja “ano nova, vida nova”, ainda vá. Mas em relação ao jeito muito especial de todas as mães eu espero é que nada deixe de ser como é. É claro que ninguém tem dúvidas que as mães “estragam” as crianças, sim! Mas que não haja quem ouse imaginar que as queremos doutro modo. Nós – os filhos, os pais e os avós, todos juntos, adoramos – no fundo – que elas sejam assim!

Por Prof. Eduardo Sá, na revista Pais & Filhos, em 9.06.15

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  • que fosse adorar o cheiro a cocó do bebé. – Sim, do bebé. Importante dizer de quem, para não haver mal entendidos. Não ficamos loucas por cocó no geral. Não começa a ser um fetiche e começamos a querer chafurdar-nos nuas na areia dos gatos. Gostamos quando eles fazem cocó (já sei que nem todas) e, principalmente quando não comem peixe e ainda estão a leitinho, o cheiro é bom. Cheira a iogurte.
  • que me passasse o mau feitio de ser acordada tão cedo. – Ser acordada às 5h da manhã e não ser mais ordinária ainda que o Fernando Rocha? Ou ter uma cara de tão mau feitio quanto o Miguel Sousa Tavares quando lhe falta o tabaco? Só mesmo com uma criança e minha. Se fosse a criança do vizinho, talvez me tentasse espetar contra os botões do fogão.
  • que fosse passar a adorar andar. – Eu? Andar? Ui. Até no trabalho designávamos uma pessoa para ir buscar o almoço de todos ou, então, eu nem ia almoçar só para não ter que andar uns metros. Agora é maravilhoso. Calma, não “maravilhoso” como aquela primeira sensação de que emagrecemos quando experimentamos umas calças de ganga e nos ficam mais largas, mas aquele “maravilhoso” de… “olha… não morri!”.
  • que fosse passar a ter tanta fruta e vegetais em casa. – As minhas refeições resumiam-se a cereais (porquê “cereais” e não assumir logo Chocapic?) ou a Bolas de Neve ou a um bife de frango/perú (nunca os consegui distinguir até estarem descongelados) com imensa massa. De repente, tenho pêssego, manga, courgete, abóbora, gengibre em casa. O meu frigorífico está em choque.  Não tanto quanto todas as esteticistas nacionais com o bigodinho da Mariana Mortágua (e não é que também se nota no cartaz? É um statement? Percebo pouco de política…).
  • que achasse graça ter alguém a chamar o meu nome 43 vezes num minuto. – Ui! Se fosse um colega de trabalho a fazer-me isso, era espetar logo com metade de um bloco a3 de papel cavalinho pelo esfíncter anal (ou outro qualquer à escolha) acima ou abaixo, depende se estiver a fazer o pino ou não.
  • que fosse por as minhas mamas de fora na rua. – Nunca tinha feito topless, muito à conta de ter umas mamas assim para o feiosas. Digamos que não me punham num calendário do barbeiro sem ser vestida com um kispo da Duffy. Agora, não quero saber. Mesmo quando a Irene não está em casa, faço questão de andar com as mamas de fora, fico mais fresca. A verdade é que, amamentando, não sinto que esteja a despir-me, sinto que estou a alimentar a minha cria. Nem me lembro que são as minhas mamas. Até porque já não o são. Digamos que são… as suas vizinhas de baixo. Muito de baixo.
  • que fosse ter sempre uma pessoa a todas as horas na minha cabeça.  – E que essa pessoa não fosse a filha da “dona” da Zara que deve ter um armário do caraças. Passa a ser uma constante no nosso cérebro. Somos nós mais um bocadinho, não parece ainda ser separado de nós. É incrível. É como se fosse um furúnculo, mas mais amoroso e sem nada a ver.
  • que voltasse a querer estar grávida um dia. – Mesmo depois das últimas semanas tãaaao chatas do final da gravidez, mesmo depois de estar prestes a rebentar, das dores, dos xixis, das contracções, do parto, das noites mal dormidas, das preocupações, do cabelo a cair, dos pontos no pipi, do baby blues, das crises de choro, das crises de cansaço… querer repetir tudo e acreditar ser capaz de ser ainda mais feliz.

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Por Joana Gama, no Blog A mãe é que sabe,
autorizado para Up to Kids®

 

Ouvi este ditado da boca da minha mãe mais vezes dos que as que consigo enumerar.

Depois de ter tido a minha filha passei a compreendê-lo na perfeição. Como podemos não gostar de quem gosta dos nossos? Como podemos não ficar de coração cheio quando os tratam (quase J) tão bem quanto nós?

A creche da minha filha é a sua segunda casa. Foi escolhida com mil cuidados, com todo o coração, ainda não sabíamos o sexo do bebé que eu esperava.

Foi lá que a deixei com quatro meses e meio, nesse dia em que cheguei a casa e encontrei o meu bebé a dormir, cansado do dia agitado que tinha tido, e chorei. Foi a única vez que o fiz. De todas as vezes que a fui buscar à creche o meu coração encheu-se de ternura.

Na creche da minha filha todos se conhecem. De conhecer a sério, de saber os hábitos, os gostos, as manhas, as brincadeiras preferidas.

Na creche da minha filha todos se conhecem pelo nome. Mesmo os meninos mais crescidos sabem como se chamam os bebés.

Na creche da minha filha há uma horta, um jardim com árvores para trepar, relva e flores que ela adora cheirar.

Há educadoras com um colo enorme, auxiliares que dão a mão a todos, mesmo quando todos são muitos e todos querem ir de mãos dadas.

Há sempre música no ar, seja vinda da aparelhagem, seja das vozes de quem toma conta dos meninos.

Há choro, mas muitas mais gargalhadas.

Há, todos os dias, a conquista de algo (os primeiros passos, segurar os talheres e comer sozinho, pedir para ir ao bacio, lembrar-se de limpar a boca depois de comer).

Há o respeito pelo ritmo de todos.

Há paciência e amor para as pequenas falhas, entusiasmo e incentivo para que a palavra “desistir” não reine.

Há meninas que apanham flores e nos entregam, sem perceber como esse gesto é bonito.

Há rapazes que correm, tropeçam e disputam brinquedos mas ajudam os amigos a levantar-se quando estes caem.

Há sempre alguém ao pé destes meninos e meninas a ajudá-los a serem melhores.

Alguém que lhes conta uma história nova todos os dias.

Que brinca com eles sem olhar para o relógio ou revirar os olhos.

Que canta sem enfado.

Alguém que, mesmo que esteja a ter um mau dia, nunca o deixa transparecer.

Alguém que tem, mais do que um trabalho, uma vocação – e esta é uma das vocações mais importantes no mundo, porque só se é criança uma vez.

Estarei a descrever todas as creches do mundo? Se sim seria uma sorte. Porque considero uma sorte a minha filha estar numa creche que é uma casa, com uma “família” que cuida dela, que se preocupa, que se interessa.

As crianças são transparentes. Quando não gostam encontram maneira de o deixar bem claro. E quando gostam é impossível segurá-las. E é de coração cheio que vejo a minha filha a pedir colo às educadoras que passam pela sala para a espreitar, às auxiliares que tomaram conta dela quando ainda não tinha um único dente. É e está feliz.

Hoje entendo-te perfeitamente, mãe.

Quem a minha filha beija (todos os dias), a minha boca adoça (tranquilizando o meu coração).

 

Por Marta Coelho, para Up To Kids®
Todos os direitos reservados.

 

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Dias em que, de repente, dás meia volta e desces da cama sem pedir ajuda, sem grandes alarmes.

Dias em que, de repente, passas a dormir sestas grandes, como os outros meninos da tua sala.

Em que quando chego à creche estás na sala dos meninos maiores a brincar com eles de igual para igual.

Em que tentas calçar os teus ténis e consegues.

Em que, no banho, descobres a maravilha de te levantares e voltares a sentar e as ondas que provocas.

Em que, de noite, choramingas só porque te destapaste e arrefeceste.

Em que acabas a sopa e ficas a pedir mais.

Em que descobres um livro que tinhas escondido na horizontal na estante e ficas radiante como se fosse a primeira vez que o tens na mão.

Em que percebes que, tal como tu, também os teus bonecos têm nariz, mão, pé e alguns também usam sapatos.

Em que me vês triste e viras a cabecinha, como se espreitasses para dentro de mim para perceber o que está errado.

Em que saltamos em cima da cama e ficamos com a barriga a doer de tanto rir – e tu com soluços.

Em que falas na tua língua misteriosa com os bonecos e te observo ao longe, imaginando o que se passa dentro da tua cabeça.

Em que cantas, sem te aperceberes.

Em que faço uma brincadeira esquecida (“eu mexo um dedo, diguidi, diguidi”) e me surpreendes com a coreografia da música.

Em que testas os limites, tentando subir à mesa de centro.

Em que estás tão cansada que adormeces na cadeira de refeições.

Em que a música de um anúncio na televisão te faz parar de brincar para veres de que se trata e dançares.

Em que mordes um balão (que ainda anda cá por casa depois da tua festa de anos) sem qualquer medo de que possa rebentar e assustar-te.

Em que pedes pão como uma menina crescida.

Em que andas pela casa a 50 km/h como se há um mês não fosses bebé de gatinhar apenas.

Há dias em que descobres o mundo e em que eu descubro mais mundo dentro do meu.

És tu, minha filha, meu amor, a causadora das maiores descobertas da minha vida, do reconhecimento das minhas limitações mas também das minhas maiores vontades.

Há dias difíceis, mas contigo aqui, com a tua inocência e a tua ternura, não trocava estes dias por nada.

Por Marta Coelho, para Up to Kids®
Todos os direitos reservados

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Quando tinha quinze anos estava convencida de que sabia tudo.

Mais tarde vim a aprender o quanto ainda havia para saber, como as minhas convicções precisavam de ser limadas, como não podia nem queria saber tudo.
Aos vinte e oito anos embarquei na maior viagem da minha vida, a maternidade, sem dúvida a maior escola que “frequentei”.
Há um ano tornava-me mãe. Há um ano acrescentava o ponto mais importante à minha folha de serviço. Há um ano redescobri os afectos, acrescentei-lhes novos dados, novas vivências.
Ser mãe é, para cada pessoa, uma experiência única, pessoal e intransmissível. No meu caso tem sido tudo isto:

Amor
Puro, sem cobranças, com alguns receios, mas sempre com toda a entrega.

Orgulho
De acompanhar o crescimento da minha filha, das pequenas conquistas que vai tendo, da personalidade que se vai formando.

Compaixão
Quando se magoa, quando faz algo que não compreende que vai correr mal, quando se exaspera porque está cansada.

Companheirismo
Passámos todos estes 365 dias juntas. Não houve nenhum dia em que não acordássemos com um abraço de bom dia, que fossemos para a cama sem um beijo de boa noite uma da outra. Desde os primeiros dias andei por todo o lado com a minha filha no sling, depois no carrinho e ao colo, agora pela mão. É a minha maior companheira, conhece-me no meu melhor e faz com que o meu pior não surja muitas vezes.

Partilha 
Falo-lhe de tudo, mesmo daquilo que não compreende. Dá-me os brinquedos, as bolachas, partilha comigo gargalhadas e choro. Dança quando canto. Sorri quando faço caras estranhas. Assusta-se quando estamos em silêncio e falo com ela sem estar à espera. Faz-me festinhas e chama-me “mamã”. Levanta-se de um pulo quando me vê chegar à creche. Lemos livros juntas. Apontamos os carros e os cães na rua.
Tocamos na superfície das árvores e descobrimos famílias de formigas que andam em carreirinhos. Cheiramos as flores, tocamos a areia da praia. Fazemos bolinhas de sabão à janela e vemos o vento ser implacável com elas. “Lutamos” uma com a outra para pôr a fralda com ela deitada (já só quer estar de pé), numa dança de paciência.

Paciência
Mesmo quando tudo indicava que não haveria tanta paciência assim. Para quando leva o seu tempo a adormecer. Para quando quer brincar em vez de comer. Quando quer brincar com algo que não pode. Quando chora sem razão aparente. Quando claramente está aflita com os dentes. Paciência dela quando estou mais stressada, com mais pressa, menos inspirada. “Apacientamo-nos” (acabo de inventar o verbo) uma à outra.

Diversão
Voltei a ser criança com a minha filha. A ver o mundo pelos seus olhos. A fazer cócegas desenfreadamente. A despentear o cabelo para a divertir. A divertir-me com a surpresa dela em relação ao mundo. A cantar em falsete e a dançar em cima do sofá com coreografias malucas.

Há trezentos e sessenta e cinco dias que acordo com um sorriso.
Que me tornei campeã olímpica na limpeza de bolsados e troca de fraldas
Que tenho preocupações realmente prementes.
Que uso menos saltos altos e brincos compridos.
Que faço sopas duas a três vezes por semana.
Que presto mais atenção à proveniência das frutas e legumes.
Que recordei músicas e histórias antigas.
Que amo ainda mais o meu namorado por ser o pai que é e pela família que temos.
Que amo ainda mais o meu pai e a minha mãe, que os compreendo melhor, que os admiro infinitamente mais (e eu pensava que não era possível).
Que compreendo o cansaço do meu irmão desde que foi pai – e também o admiro muito pelo pai que é.
Que vejo uma onda de amor à minha volta provocada por uma menina de olhos grandes e sorriso delicioso, que não faz a menor noção de quanto é amada.

Ser mãe ou pai não é para todos. Dá trabalho, precisa de tempo, de amor, de disponibilidade.

Gostava que o facto de alguém ter sido pai ou mãe tivesse o mesmo efeito nessas pessoas que teve em mim – sou (sinto-me) uma pessoa melhor.

É a minha filha que faz anos e todos os parabéns são mais que merecidos. Mudou completa e inequivocamente a minha vida para melhor.

Para sempre.

Por Marta Coelho, para Up To Kids®
Todos os direitos reservados

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Foi a pergunta que a minha filha me fez.

Como é que uma pergunta tão simples pode, de repente, parecer tão complicada de responder?

Nestes momentos os silêncios não podem ser longos.

É preciso dar uma resposta.

Mas qual será a melhor?

Não sei.

Respondi que o amor não é feito. Ele é parte de nós.

Que o sente por mim, pelo pai, pelos avós e pelos amigos. São todas formas de amar.

E como sabia que o que estava por detrás era o amor entre o pai e a mãe, pois antes estivemos a ver, a seu pedido, o vídeo do meu casamento, acrescentei:

– E um dia vais sentir outro tipo de amor. Quando tiveres de dar abraços mais prolongados e beijinhos na boca de alguém.

Sorriu.

A resposta que procurava estava dada. Ufa!

Fiquei aliviada e com sentido de missão cumprida quando ela me sorriu e disse:

– Obrigada, mãe. Eu sei que tu e o pai vão estar sempre comigo.

Abraçou-me.

Beijei-a e desejei-lhe bons sonhos.

Afinal, mesmo sabendo que a terei de ver tropeçar na vida, desejo-lhe uma vida cheia de todos os amores que existem.

Porque no fim de tudo, seja no que for, é sempre o amor que nos ilumina e nos faz seguir caminho.

 

Por Irina Gomes para Up To Kids®

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