Ser mãe de uma rapariga é mais do que esperar ganchos com borboletas, purpurinas, saias rodadas e personagens da Disney a ocupar o sistema de som do carro.
Ainda que se advogue o contrário, a verdade é que os pais têm tendência para educar as raparigas e os rapazes de forma diferente. Pode ser de forma mais ou menos intencional, mas a verdade é que a diferença existe: nas tarefas atribuídas, na postura esperada, mais tarde nas permissões dadas nas saídas com os amigos, na tolerância em relação ao número de namorados. É um sem fim de diferenças. Os rapazes e as raparigas não são iguais, é um facto. E a procura pela igualdade de direitos muitas vezes confunde os deveres de cada um.
Ainda assim, há desafios que se colocam diariamente. Quando estamos grávidas e ainda não sabemos o sexo do bebé é quase impossível comprar roupa. As únicas cores disponíveis são azul-bebé e cor-de-rosa. Só para idades mais avançadas começam a haver outras cores. Há dias em que as pessoas têm de olhar com muita força para a minha filha para perceberem que é uma menina. “É uma menina?”, perguntam a medo. “Ah, pois, a mantinha é cor-de-rosa”. Porque se não fosse talvez se tornasse impossível perceber. E há ainda uma censura muito grande, pessoas que mordem a língua para não criticarem o facto de vestirmos um bebé com cor de laranja, ou por estar sempre de calças quando é uma rapariga. As críticas vão existir sempre. E as crianças, ainda mais ou menos alheias às críticas dos adultos, vão ser criticadas pelos seus pares. Sempre foi assim, sempre será. Se não for por usarem óculos é por serem baixinhos, altos, gordinhos, terem sardas, serem ruivos, terem voz fininha, não usarem ténis de marca. Todos passámos por isso, mas a sociedade evoluiu de tal forma que a pressão em cima das raparigas é enorme.
Esta geração preocupa-se com celulite (onde é que eu com onze anos sabia sequer o que era celulite?), maquilhagem (essa coisa longínqua que existia apenas na casa da minha avó materna e que usávamos para brincar), roupas e mais roupas (por mais que quiséssemos as roupas não eram tão acessíveis quanto são hoje).
As raparigas perguntam-se se são suficientemente bonitas, magras, se se vestem tão na moda quanto precisam para serem gostadas. Vejo isso à minha volta todos os dias. Algumas perguntam em voz alta, as restantes procuram em silêncio, com inseguranças crescentes e muitas vezes alimentadas em casa, pelos pais, em relação à imagem que passam para os outros.
Há miúdas de onze anos a maquilhar-se como adultas em dia de festa – para irem para a escola. Na televisão, nas revistas, nos filmes, a rapariga ideal é a rapariga sem defeitos físicos, é magra, sem borbulhas, está sempre a sorrir e com um cabelo impecável.
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Todas nós, mulheres, crescemos com esse ideal mais ou menos implementado – tanto é que são as mulheres as maiores críticas umas das outras: “já viste bem como aquela se deixou engordar depois do segundo filho?”, “A sério, mas ninguém lhe diz que aquela roupa é simplesmente horrível?”, “Ui, alguém não tem um espelho em casa, aquelas calças a marcar a gordura da cintura?”. E também há o oposto, claro. “Aquela passa tanto tempo no ginásio que já nem deve reconhecer os filhos”, “Lembras-te da nossa colega? Vi-a no outro dia e estava toda maquilhada, impecavelmente vestida… Quem é que tem tempo para isso?”. Se uma mulher é descontraída, é porque é desleixada, se usa roupa curta é porque não tem noção da idade ou do corpo e é oferecida, se se maquilha muito é porque quer chamar à atenção, se é simpática com os outros é porque é dada, se é antipática é porque tem falta de amor na vida.
Como mãe não quero que a minha filha se sinta inferior a alguém por causa do seu sexo. Não quero que sofra discriminação no trabalho. Não quero que seja rebaixada por um namorado que a faz sentir pouco merecedora de ser feliz. Não quero que duvide das suas capacidades porque a sociedade diz que o seu sonho é “coisa de homens”. Quero que perceba que foi percorrido um caminho enorme por gerações e gerações de mulheres. Quero que perceba que é uma privilegiada. Que há neste mundo raparigas e mulheres que não podem caminhar de olhar erguido, vestir umas calças de ganga, votar, estudar. Não podem dizer em voz alta aquilo em que acreditam, não lhes é permitido discordar. Há mulheres que passam uma vida inteira condicionada, mulheres cujos sonhos são automaticamente esmagados no momento do seu nascimento, por serem mulheres. Mulheres que são maltratadas, abusadas, feridas. E é neste mundo que ela vive. Um mundo onde os problemas das mulheres são vividos à escala. No nosso caso podemos considerar-nos sortudos, mas há ainda muitas conquistas a terem de ser feitas.
Não há maneira de preparamos um filho para estes desafios. Não há, é a conclusão a que eu chego. Podemos acompanhá-los, lembrá-los que o seu valor não está associado à forma como se vestem, à roupa que usam, à “beleza” que têm, àquilo a que acreditam, a quem amam, ao seu género.
Vão ter de passar por tudo isso sozinhos. Os rapazes também têm os seus dramas, é claro. Mas, por ser mulher, por se esperar de uma mulher uma perfeição que nunca existirá, sei que a minha filha tem um caminho pela frente em que terá de perceber que por mais que faça, por mais que lhe exijam, deve lutar por ser fiel a si mesma. Deve acreditar em si e não deixar que nada nem ninguém a faça duvidar daquilo que deseja. Porque ser mulher não é uma fraqueza, é uma característica. E como todas as características que temos, deve ser respeitada e abraçada. Só assim continuarão a existir no nosso mundo grandes mulheres.
Por Marta Coelho,
para Up To Lisbon Kids®
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Queria dar os meus parabéns a Marta, porque o texto está excelente.
Como mãe de uma menina, revi me completamente. E como mulher também o sinto… O problema maior, que não foi falado neste texto é este problema dentro da própria família… Tem de se perceber que a criança quando anda sempre de saia, tambem tem menos a vontade, porque não se pode mexer nem brincar da mesma maneira… Ficam sempre muito mais confortáveis de calças.
Hoje em dia debato me contra as saias e vestidos que a avó vai oferecendo, porque nem vejo ocasiões para ela os usar…
Parabéns! E força para essa luta.
adoro o “m” na parede!! lol 😉 eu sou mãe de rapazes por isso compenso com piroseira à séria… mas em mim!
Concordo como mulher e mãe de uma menina. Contudo acho que o desafio se estende a mães de meninos também. Independentemente do género dos nossos filhos, somos responsáveis por educar e formar as novas gerações. Por um Mundo melhor