Como mãe estou preparada, ou assim o espero, para ver a minha filha ganhar asas e voar livremente, sozinha, enquanto descobre o seu caminho por si.

Pretendo dar-lhe as ferramentas necessárias para que faça as suas escolhas, mas tenho alguns receios que acredito que são transversais à maior parte dos pais:

Não poder acompanhar o crescimento de um filho
Quero estar por perto para presenciar as conquistas, das mais pequenas às mais significativas, os erros em que todos caímos, as certezas que se irão solidificar, a pessoa em quem se vai tornar. A simples possibilidade de (uma de nós) estar ausente deixa-me um aperto no coração.

Que um filho fique verdadeiramente doente
Sempre admirei os pais que acompanham filhos doentes – seja qual for a doença – a sua devoção, fé, coragem, mesmo quando as perspectivas são más. Ninguém está preparado para não conseguir proteger um filho de algo grave, que foge ao seu controlo, ninguém ensina como se deve agir. A minha consideração é gigante e desejo do fundo do coração não ter de passar por isso e que um dia esta realidade seja uma raridade.

Ver um filho fazer (más) escolhas que lhe condicionem a vida
Os nossos filhos, por mais que sejam parte de nós e tenham o nosso sangue a correr nas veias, são (ou serão um dia) seres pensantes independentes, com as próprias dúvidas, convicções e vontades. Todos nós, mais tarde ou mais cedo, tomamos más decisões. Torço para que sejam sempre lições – para os filhos e para os pais – e que no fim haja sempre uma luz para iluminar o caminho.

Ter uma má relação com um filho
É daquelas ideias que parecem impossíveis, mas se olharmos em volta vemos todos os tipos de relações, das mais cúmplices às mais esvaziadas de sentimentos. Nenhum pai sonhou um dia não ter uma relação próxima com um filho, não ser procurado numa situação de aperto, não ser um bom ouvinte, um bom companheiro. A vida às vezes encontra maneira de dar a volta ao que tínhamos como certo e torço para que se consiga sempre dar a volta à vida e alimentar da forma mais saudável e verdadeira a relação mais importante das nossas vidas.

Ter um filho cobarde
A cobardia tem muitas faces: está na violência doméstica, está no bullying, na cumplicidade e silêncio de quem assiste a uma injustiça e nada faz, está no seguir os outros porque não temos coragem para mostrarmos quem realmente somos, etc. Espero que os princípios mais importantes fiquem sempre gravados na cabeça e no coração dos meus filhos, para que por mais que errem, nunca sejam os cobardes que infligem sofrimento propositado a quem os rodeia – e em si mesmos.

Não conseguir ajudar um filho
Seja em que situação for, por falta de dinheiro, de tempo, de sabedoria, de “ferramentas”… Que nunca falhe a um filho meu.
Não controlamos nada. Somos pais mas continuamos a ser filhos e temos uma rede de relações que se deve basear no amor. Acredito profundamente que quando há amor se encontra a força necessária para ultrapassar tudo. Os dias menos bons. Uma notícia inesperada. As saudades. Aquele telefonema que andamos para fazer há uma série de tempo. A falta de paciência nos dias longos, o cansaço nos dias mais intensos.

Tenho muitos mais medos do que os que aqui admiti, mas não deixo que estes condicionem a forma como vivo a minha vida. Quanto muito permito que me ajudem a valorizar o que tenho e a investir no que não quero perder.

Porque nenhum medo deve ter o poder de nos impedir de sermos melhores: pais, amigos, namorados, filhos, colegas, seres humanos.

Porque nenhum medo deve ser maior que a esperança.

Nenhum medo deve ser maior que o amor.

Por Marta Coelho, para Up To Kids®
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Ouvi este ditado da boca da minha mãe mais vezes dos que as que consigo enumerar.

Depois de ter tido a minha filha passei a compreendê-lo na perfeição. Como podemos não gostar de quem gosta dos nossos? Como podemos não ficar de coração cheio quando os tratam (quase J) tão bem quanto nós?

A creche da minha filha é a sua segunda casa. Foi escolhida com mil cuidados, com todo o coração, ainda não sabíamos o sexo do bebé que eu esperava.

Foi lá que a deixei com quatro meses e meio, nesse dia em que cheguei a casa e encontrei o meu bebé a dormir, cansado do dia agitado que tinha tido, e chorei. Foi a única vez que o fiz. De todas as vezes que a fui buscar à creche o meu coração encheu-se de ternura.

Na creche da minha filha todos se conhecem. De conhecer a sério, de saber os hábitos, os gostos, as manhas, as brincadeiras preferidas.

Na creche da minha filha todos se conhecem pelo nome. Mesmo os meninos mais crescidos sabem como se chamam os bebés.

Na creche da minha filha há uma horta, um jardim com árvores para trepar, relva e flores que ela adora cheirar.

Há educadoras com um colo enorme, auxiliares que dão a mão a todos, mesmo quando todos são muitos e todos querem ir de mãos dadas.

Há sempre música no ar, seja vinda da aparelhagem, seja das vozes de quem toma conta dos meninos.

Há choro, mas muitas mais gargalhadas.

Há, todos os dias, a conquista de algo (os primeiros passos, segurar os talheres e comer sozinho, pedir para ir ao bacio, lembrar-se de limpar a boca depois de comer).

Há o respeito pelo ritmo de todos.

Há paciência e amor para as pequenas falhas, entusiasmo e incentivo para que a palavra “desistir” não reine.

Há meninas que apanham flores e nos entregam, sem perceber como esse gesto é bonito.

Há rapazes que correm, tropeçam e disputam brinquedos mas ajudam os amigos a levantar-se quando estes caem.

Há sempre alguém ao pé destes meninos e meninas a ajudá-los a serem melhores.

Alguém que lhes conta uma história nova todos os dias.

Que brinca com eles sem olhar para o relógio ou revirar os olhos.

Que canta sem enfado.

Alguém que, mesmo que esteja a ter um mau dia, nunca o deixa transparecer.

Alguém que tem, mais do que um trabalho, uma vocação – e esta é uma das vocações mais importantes no mundo, porque só se é criança uma vez.

Estarei a descrever todas as creches do mundo? Se sim seria uma sorte. Porque considero uma sorte a minha filha estar numa creche que é uma casa, com uma “família” que cuida dela, que se preocupa, que se interessa.

As crianças são transparentes. Quando não gostam encontram maneira de o deixar bem claro. E quando gostam é impossível segurá-las. E é de coração cheio que vejo a minha filha a pedir colo às educadoras que passam pela sala para a espreitar, às auxiliares que tomaram conta dela quando ainda não tinha um único dente. É e está feliz.

Hoje entendo-te perfeitamente, mãe.

Quem a minha filha beija (todos os dias), a minha boca adoça (tranquilizando o meu coração).

 

Por Marta Coelho, para Up To Kids®
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Quando somos mais novos queremos crescer depressa para podermos andar de bicicleta sem rodinhas e ir para a piscina dos grandes.

Queremos que nas aulas o tempo voe, mas que nos testes se demore para termos tempo de os acabar.

Gostávamos que as férias de Verão durassem para sempre, mas mal aguentávamos as saudades dos amigos da turma.

Contávamos os anos para poder sair à noite, tirar a carta.

Depois para sairmos de casa, trabalharmos, sermos independentes.

Mais tarde gostávamos que o tempo não tivesse passado tão depressa, que os três meses de férias no Verão sabiam tão bem agora.

Apaixonamo-nos, o tempo passa a voar quando estamos juntos, devagar quando temos de estar afastados.

Juntamos filhos à equação.

O tempo nos primeiros meses de gravidez passa devagar, a barriga demora a crescer e só queremos conhecer o nosso rebento. De repente olhamos para baixo e mal vemos os pés, não aguentamos com as costas e temos mil e uma coisas para preparar antes de o bebé chegar.

O bebé nasce e o tempo, esse conceito tão elástico, continua a dar-nos luta.

Passa rápido quando finalmente conseguimos descansar. Passa lentamente quando o bebé tem cólicas. É implacável quando queremos que aquele primeiro sorriso dure para sempre.

Não há nada a fazer, é uma luta que nunca ganharemos. A consciência do tempo prende-se com o que sentimos. E o que sentimos é que devíamos ser donos do tempo, mas não somos.

Mas também não devemos ser escravos dele.

Há dias que são e serão sempre uma correria, mas cabe-nos a nós aproveitar bem o tempo que temos entre mãos.

Porque apesar de parecer que passa devagar quando os miúdos estão doentes, é nessas alturas que mais precisam de nós, que temos oportunidade de os mimar mais um pouco, de contar uma história nova, de os deixar adormecer no nosso colo.

Porque o tempo pode passar depressa nas férias, mas é durante esses dias que construímos memórias que ficam para o resto da vida.

Porque quando damos por nós os miúdos estão crescidos, a fazer perguntas para as quais não ensaiámos resposta. O tempo passa e traz coisas novas, coisas boas. Traz também coisas menos boas que nos fazem dar valor aos momentos melhores.

Não controlamos o tempo, ele escapa-nos por entre os dedos mas já nos trouxe tanta coisa boa, não foi?

Quando pensámos que aquela dor não ia passar e passou.

Quando acreditámos que por estarmos a correr nunca conseguiríamos fazer as coisas bem e até fizemos.

Quando estivemos menos tempo do que gostaríamos com os miúdos, mas eles só se lembram do que fizemos enquanto estivemos juntos.

A lengalenga diz “o tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem?”.

Eu respondo que o tempo tem tanto tempo quanto o amor de uma mãe.

 

Por Marta Coelho, para Up To Kids®
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Conheci-a à saída do supermercado.

Perguntou-me se queria comprar um marcador de livros. Era um trabalho notável e fiquei a saber que era seu.

Tem trinta e dois anos e está desempregada. Sem direito a qualquer apoio, faz o que pode para levar dinheiro para casa. O seu passado como ilustradora deu-lhe a ideia de desenhar pequenas peças, baratas, porque sabe que a vida está complicada para toda a gente. É bonita mas ainda fica mais bonita quando fala dos filhos.

É por eles que está ali. Quer trabalhar, que ser útil, mas acima de tudo, tem de ganhar dinheiro. Tem contas para pagar e filhos para alimentar.

Não quer levar os filhos à Disney nem comprar-lhe ténis de marca. Quer alimentá-los, que o resto, garante ela, arranja-se.

Perguntei-lhe se preferia dinheiro ou comida. Respondeu prontamente que comida, um pão que fosse.

Trouxe-lhe fruta, pão e carne. Ficou emocionada: “o Miguel gosta tanto de bananas, sabe? Tanto que, sabendo que não as pode comer sempre, quando há dou com ele a comer só metade. Guarda para a refeição seguinte. Acho isso muito bonito, mas fiquei de coração cheio quando o vi a dar a outra metade à irmã. Eles podem não ter muito mas têm-se um ao outro. Têm-me a mim e ao pai. E isso não há crise nenhuma que dê cabo”.

Emocionou-me a mim. Dei-lhe o que tinha ali e ela deu-me muito mais que isso. Deu-me em que pensar. Deu-me razões para agradecer ainda mais, para repensar o que é importante.

Não sei o que é não ter o que dar de comer a um filho.

Não quero saber mas fico, a cada dia que passa, impressionada com a força que existe dentro de nós.

Aquelas crianças levam, do seu crescimento, uma lição de vida. Uns pais que admirarão e com quem aprendem, todos os dias, aquilo que realmente importa.

Perdemos tempo. Perdemos demasiado tempo. Ficamos frustrados e queremos mais coisas do que as que precisamos para ser felizes. Passamos essa frustração aos nossos filhos, a maior parte das vezes involuntariamente.

Todos temos dificuldades nas nossas vidas. Fazem parte dela, ajudam-nos a crescer, a aprender, a melhorar. Acredito que, mais tarde ou mais cedo, as iremos ultrapassar.

Como me disse aquela mãe, se nos temos uns aos outros, a maior riqueza já é nossa.

Temos de nos lembrar disso mais vezes.

Por Marta Coelho, para Up To Kids®
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Tenho um irmão mais velho.
Quando nasci mudei o mundo dele. Estava habituado a ser o único e teve de aprender a ter-me por perto.

Não me lembro de o ter conhecido, para mim esteve sempre lá.
A fazer-me companhia quando víamos os desenhos animados sentados no penico em frente à TV.
A partilhar pipocas na cama dos pais.
A escrever com canetas de feltro na parede acabadinha de pintar.
A revirar os olhos quando fazia danças de menina.
A fazer-me rasteiras no corredor de casa só para me ver cair.
A soprar a minha ferida do joelho para ver se deixava de me doer.
A tapar os ouvidos quando cantava no carro e inventava uma versão penosa por não dominar o inglês.
A dar-me a mão para atravessar a estrada.
A ajudar-me na preparatória quando os rapazes mais velhos nos roubavam a bola.
A segurar-me as pernas para o meu primo me fazer cócegas nos pés com uma pena.
A irritar-se por ser tão bem comportada.
A mostrar-me como se jogava na Sega e, sem perder a paciência, explicar outra vez porque ia perdendo vida atrás de vida.
A desafiar-me, sempre (obrigadinha por me teres feito provar-te que conseguia fazer xixi de pé como tu, o resultado foi o óbvio…).
A fazer-me sentir integrada no grupo só de amigos, todos mais velhos como ele.
A dar-me boleias quando não conduzia.
A perguntar-me se a roupa ficava bem antes de sair de casa.
A escrever como ninguém (por que é que deixaste de escrever?).
A passar-me o bichinho pela língua inglesa.
A fazer-me saber de cor todas as músicas dos Queen.
A aturar-me a pedir para me gravar cassetes, depois mini discs, Cds e a sacar músicas e filmes da net.
A vê-lo crescer e amar e estar lá no dia mais feliz da vida dele – o casamento mais divertido a que fui.
A ser pai e dar-me o privilégio de ser tia da bichinha mais linda da minha vida.
A ser um tio babado, dos que brinca – que bom que é ver-vos juntos.
É bom ter um irmão mais velho.
Nem sempre andamos lado a lado mas, mais tarde ou mais cedo, sincronizamos os passos para voltarmos a estar onde devemos – presentes na vida um do outro.

Por Marta Coelho para Up To Kids®
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Quando tinha quinze anos estava convencida de que sabia tudo.

Mais tarde vim a aprender o quanto ainda havia para saber, como as minhas convicções precisavam de ser limadas, como não podia nem queria saber tudo.
Aos vinte e oito anos embarquei na maior viagem da minha vida, a maternidade, sem dúvida a maior escola que “frequentei”.
Há um ano tornava-me mãe. Há um ano acrescentava o ponto mais importante à minha folha de serviço. Há um ano redescobri os afectos, acrescentei-lhes novos dados, novas vivências.
Ser mãe é, para cada pessoa, uma experiência única, pessoal e intransmissível. No meu caso tem sido tudo isto:

Amor
Puro, sem cobranças, com alguns receios, mas sempre com toda a entrega.

Orgulho
De acompanhar o crescimento da minha filha, das pequenas conquistas que vai tendo, da personalidade que se vai formando.

Compaixão
Quando se magoa, quando faz algo que não compreende que vai correr mal, quando se exaspera porque está cansada.

Companheirismo
Passámos todos estes 365 dias juntas. Não houve nenhum dia em que não acordássemos com um abraço de bom dia, que fossemos para a cama sem um beijo de boa noite uma da outra. Desde os primeiros dias andei por todo o lado com a minha filha no sling, depois no carrinho e ao colo, agora pela mão. É a minha maior companheira, conhece-me no meu melhor e faz com que o meu pior não surja muitas vezes.

Partilha 
Falo-lhe de tudo, mesmo daquilo que não compreende. Dá-me os brinquedos, as bolachas, partilha comigo gargalhadas e choro. Dança quando canto. Sorri quando faço caras estranhas. Assusta-se quando estamos em silêncio e falo com ela sem estar à espera. Faz-me festinhas e chama-me “mamã”. Levanta-se de um pulo quando me vê chegar à creche. Lemos livros juntas. Apontamos os carros e os cães na rua.
Tocamos na superfície das árvores e descobrimos famílias de formigas que andam em carreirinhos. Cheiramos as flores, tocamos a areia da praia. Fazemos bolinhas de sabão à janela e vemos o vento ser implacável com elas. “Lutamos” uma com a outra para pôr a fralda com ela deitada (já só quer estar de pé), numa dança de paciência.

Paciência
Mesmo quando tudo indicava que não haveria tanta paciência assim. Para quando leva o seu tempo a adormecer. Para quando quer brincar em vez de comer. Quando quer brincar com algo que não pode. Quando chora sem razão aparente. Quando claramente está aflita com os dentes. Paciência dela quando estou mais stressada, com mais pressa, menos inspirada. “Apacientamo-nos” (acabo de inventar o verbo) uma à outra.

Diversão
Voltei a ser criança com a minha filha. A ver o mundo pelos seus olhos. A fazer cócegas desenfreadamente. A despentear o cabelo para a divertir. A divertir-me com a surpresa dela em relação ao mundo. A cantar em falsete e a dançar em cima do sofá com coreografias malucas.

Há trezentos e sessenta e cinco dias que acordo com um sorriso.
Que me tornei campeã olímpica na limpeza de bolsados e troca de fraldas
Que tenho preocupações realmente prementes.
Que uso menos saltos altos e brincos compridos.
Que faço sopas duas a três vezes por semana.
Que presto mais atenção à proveniência das frutas e legumes.
Que recordei músicas e histórias antigas.
Que amo ainda mais o meu namorado por ser o pai que é e pela família que temos.
Que amo ainda mais o meu pai e a minha mãe, que os compreendo melhor, que os admiro infinitamente mais (e eu pensava que não era possível).
Que compreendo o cansaço do meu irmão desde que foi pai – e também o admiro muito pelo pai que é.
Que vejo uma onda de amor à minha volta provocada por uma menina de olhos grandes e sorriso delicioso, que não faz a menor noção de quanto é amada.

Ser mãe ou pai não é para todos. Dá trabalho, precisa de tempo, de amor, de disponibilidade.

Gostava que o facto de alguém ter sido pai ou mãe tivesse o mesmo efeito nessas pessoas que teve em mim – sou (sinto-me) uma pessoa melhor.

É a minha filha que faz anos e todos os parabéns são mais que merecidos. Mudou completa e inequivocamente a minha vida para melhor.

Para sempre.

Por Marta Coelho, para Up To Kids®
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A minha filha tem um abraço que podia evitar guerras.
Um abraço puro, sem segundas intenções.
Ela abraça porque quer mimo – dar e receber.
Estende os braços, apoia a cabeça no nosso ombro e sorri.
Nos dias menos bons (desde que fui mãe não tenho dias maus, basta existir a Mariana para nada nem ninguém ter o poder de me estragar o dia), aquele abraço cura tudo.
Se pudesse reproduzir a receita do seu abraço mandava embalar e distribuía pelo mundo.
Já disse que a minha filha tem um abraço que podia evitar guerras?
É um abraço tão fofo que mesmo as pessoas que normalmente não exteriorizam carinho não conseguem resistir-lhe.
Os bonecos têm a sorte de ser abraçados põe ela. Alguns também levam umas trincas, mas é a lei da compensação.
Ela abraça a prima com tanta força que a põe a dizer “ai, assim não, Mariana!” – e depois a prima mostra-lhe como se faz com suavidade. Vai aprendendo aos poucos até ao abraço perfeito.

Felizmente, deixa-se abraçar.

Acha graça quando ponho os bonecos a abraçar-se uns aos outros.

Abraça-me quando está contente.
Abraça-me quando está com medo.
Abraça-me quando está feliz por me ver.
Abraça-me quando a faço rir.
Abraça-me quando se assusta ou magoa.
Abraça-me quando lhe limpo as lágrimas.
Dá os melhores abraços do mundo ao pai.
A minha filha tem mesmo um abraço que podia evitar guerras.

Nós, os adultos, perdemos aos poucos o hábito de abraçar. Temos demasiado pudor, demasiada pressa.
Conversamos menos do que podíamos, ouvimo-nos menos do que devíamos.

Reparo que até aos filhos os pais deixam de abraçar. Quando é que deixámos de dar valor ao amor que sentimos? Quando é que passámos a acreditar que não faz falta?

Faz falta. Faz demasiada falta. Mesmo que os miúdos sejam quase homens e tenham vergonha. Um abraço cura tudo. Um abraço lembra que estamos lá. Às vezes só precisamos mesmo de um abraço.

Já deu um abraço hoje? Não deixe para amanhã!

 

Por Marta Coelho, para Up To Kids®
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Tinha muitas dúvidas antes de te ter. Tentei não fazer grandes planos, a vida já me tinha ensinado que há momentos para tudo e este – o do teu nascimento – deveria ser recebido de braços abertos, com as expectativas onde deveriam estar, no coração.

Mas tinha dentro de mim uma vontade muito grande: amamentaria, a não ser que por qualquer motivo de saúde teu ou meu não fosse mesmo possível.

Mamaste nos primeiros minutos de vida. Não foi um momento fácil para ti, acabada de chegar ao mundo e rodeada de barulhos que há poucos segundos estavam camuflados por uma camada confortável de “água”, os teus lábios estavam dormentes do reforço das doses de epidural que eu tinha levado. Levaste o teu tempo e esse tempo foi respeitado.

Há muitas mães que passam verdadeiros tormentos na amamentação, que lutam diariamente para não desistir, que têm problemas dolorosos e, mesmo assim, continuam. Eu tive a sorte de tudo ser pacífico. O único percalço aconteceu ainda na maternidade, quando a enfermeira verificou a tua fralda e me comunicou que o teu xixi era muito concentrado e tinhas cristais na urina. Tudo o que não seja “ela está a evoluir bem, está tudo óptimo com ela” deixa o coração de uma mãe completamente em pânico. Era uma coisa normal, diziam, mas significava que não estavas a absorver a quantidade suficiente de líquidos e, por isso, teríamos de ter ajuda do suplemento.

Chorei. Achei que era o fim da nossa recente conquista. Que depois de te ser dado um biberon com leite docinho não ias querer o meu colostro para nada. Ainda tão levezinha e pequenina ensinaste-me a primeira lição – se não há alternativa, faz-se, mas assim que for possível volta-se ao normal. E assim foi. Já em casa, um dia depois de reforçarmos a tua alimentação com aqueles mini biberons que ainda hoje me fazem tremer apenas de os olhar, o teu xixi deixou de ter problemas e voltaste a ser alimentada apenas com mama.

Cresceste forte e saudável alimentada em exclusivo com o meu leite até aos quatro meses e meio (com muita pena minha não foram seis meses, mas o regresso ao trabalho complicava esse desejo) e até hoje, prestes a completar um ano, nunca bebeste outro leite, nem na creche.

Já ouvimos de tudo um pouco, não foi meu amor?

-“Mas ela já tem dentes e ainda mama?”

-“Não é mais prático fazeres um biberon e pedir ao pai para dar?”

-“Não vais dar de mamar agora, aqui na rua, pois não?”

-“Não gostas de dormir?” (esta é uma das minhas preferidas)

Ora bem, vamos por partes:

-Sim, tem dentes, seria estranho se com onze meses não tivesse e isso significa que está apta para cortar e mastigar alguns alimentos. Não deixa, apenas por isso, de precisar de beber leite, ou os bebés com dentes deixam todos de beber leite?

-Sim, era muito mais fácil dar uma cotovelada ao pai a meio da noite para preparar o biberon e dormitar mais um pouco mas parece-me pouco lógico que com o leite “feito” e pronto a usar se vá para a alternativa.

-Não vou dar de mamar agora, neste preciso momento, porque estamos a ter uma conversa e não tenho por hábito fazê-lo literalmente no meio da rua, mas faço-o com a maior das naturalidades onde for. Claro que respeitando os outros mas, acima de tudo, as tuas necessidades, filha, e a nossa privacidade – há hoje em dia espaços próprios para a amamentação em praticamente todo o lado e onde não há, improvisa-se.

Ler também Nutrição e amamentação: Factos e mitos

-Adoro dormir. Antes de ser mãe dizia que precisava de dormir oito horas seguidas para o meu cérebro funcionar. Oito? Que mimada que fui e que bem que aproveitei.

Agora não é assim. Sei que se te desse um biberon dormirias, muitos provavelmente, a noite toda. E isso quer dizer que aquele leite, feito para ajudar quem não pode ou não quer amamentar, é uma fórmula universal e, por isso, uma pequenina bomba.

Prefiro, já que posso, dar-te deste leite produzido exclusivamente para ti, que responde às tuas necessidades sem lhe escapar nenhuma. Mais tarde dormirei noites inteiras outra vez.

Nada se compara a esta partilha que só nós temos. É um privilégio, meu amor. E é como privilégio que sinto a tua mão a apertar a minha no escuro, a meio da noite, enquanto comes. Estás a dormir, mas sabes que estou ali. Ou quando me sorris, ainda a mamar. As conversas que temos em silêncio, na troca dos nossos longos olhares pautados por sorrisos ou línguas de fora, outras conversas mais audíveis mas que acabam por te distrair. Há noites exasperantes, não vou mentir (dentes malvados!), mas saber que basta dar-te de mamar para te acalmar e tranquilizar, é tudo o que preciso de saber. Haverá noites e dias em que a resposta não será assim tão simples e em que não dependerá de mim ajudar-te a ultrapassar certos obstáculos. Enquanto depende, estamos juntas e a minha querida.

Ler também Mais leite materno, Já!

Olham-me muitas vezes como se tivesse três cabeças e quatro olhos, mas também há quem dê valor e elogie.

Amamento porque quero e posso. Relevo as críticas e acolho os elogios com um sorriso mas não é para eles que vivo. Vivo para ti, meu amor. E enquanto for adequado e bom para ti e para mim, continuarei a amamentar – sem criticar quem não o faz.

Porque as mulheres têm o direito de escolher. Escolha essa que, hoje em dia, espero que seja informada e consciente.
Mulheres informadas e seguras das suas escolhas serão melhores mães.

Notas: Cumpre-se nestes dias a Semana Mundial da Amamentação (Aleitamento Materno). Estabelecida desde 1992 pela World Alliance for Breastfeeding Action (WABA), a Semana Mundial de Aleitamento Materno, que conta com o apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), tem o objectivo de facilitar e fortalecer a mobilização social para a importância da amamentação. Comemorada entre os dias 1 a 7 de Agosto, já envolve mais de 120 países, considerando-se as iniciativas e esforços globais relacionados com o tema.
O leite materno tem benefícios únicos, fundamentais para o crescimento e desenvolvimento saudável do bebé, especialmente durante os primeiros 1000 dias de vida. A OMS recomenda o aleitamento materno em exclusivo até aos seis meses e como complemento até aos dois anos de idade.

Por Marta Coelho, para Up To Kids®
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Queremos que digam de nós: “é boa mãe”.
Que não nos recordem apenas como a mãe de alguém.
Queremos ter paciência nos dias menos bons.
Energia mesmo quando as noites são más.
Um emprego estável e justamente remunerado.
Um horário que nos permita ser pais e não apenas quem dá o jantar aos miúdos antes de os ir deitar.
Ser boas profissionais, competentes e cumpridoras.
Ajudar os nossos filhos a aprender sem fazer os trabalhos de casa por eles.
Queremos ter tempo para brincar.
Ter tempo para sermos completas em todas as nossas vertentes.
Que os nossos filhos nos peçam ajuda quando precisam.
Que sejam autónomos.
Queremos estar por dentro, primeiro, dos bonecos e, mais tarde, de todos os assuntos de que eles falam.
Que o dia tenha mais quatro horas para nos podermos sentar a conversar ou a ler um livro.
Queremos fazer comida saudável e conseguir sempre variar.
Não queremos que os miúdos nos digam “outra vez” quando perguntam o que é o jantar.
Queremos ser sempre sinceras e que eles não nos mintam.
Que os nossos conselhos sejam válidos.
Que o nosso instinto esteja sempre certo.
Queremos ter jogo de cintura para quando não concordamos com os nossos filhos.
Queremos conseguir dormir mesmo quando eles saíram com os amigos e se esqueceram de enviar uma mensagem a garantir que está tudo bem.
Não queremos ter de dar ou receber más notícias – nem que o telefone toque a meio da noite, inesperadamente.
Queremos que os nossos erros não sejam irreversíveis.
Queremos não ter de levantar a voz em situação alguma.
Estar sempre disponíveis, mesmo quando a nossa agenda está um caos.
Ter sempre comida na mesa, saúde para estar por perto e, acima de tudo, respeito uns pelos outros.
Que a nossa família seja digna de uma série norte-americana, com os seus defeitos mas, no final, sempre unida.
Que os nossos filhos se orgulhem de nós.
Queremos erguer a cabeça quando alguém nos critica as escolhas relacionadas com os miúdos.
Relativizar os pequenos dramas para que não nos estraguem os dias.
Ter sempre as palavras mágicas para curar as feridas do nosso bem mais precioso.
Queremos estar na vida dos nossos filhos para sempre.
Não pedimos muito.
Queremos tudo porque damos tudo.
Sempre.

Por Marta Coelho, para Up To Kids®
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Vou avisando já, com muita antecedência (assim o espero) que, no que toca a herança o melhor é não esperares demasiado.

Não prevejo fazer uma grande fortuna nem ir acumulando casas de praia e grandes carros. Jóias? São poucas, mas com significado, como convém. A maior parte delas do espólio das bisavós e avós, todas elas com a sua história, de que te falarei mais lá à frente.

Deixo-te, ou irei deixar-te, livros. Muitos livros. Alguns deles herdados, outros oferecidos. Juntei parte de mesadas para comprar uma série deles. Há uns quantos com a capa dobrada, à força de serem lidos com demasiada descontração, outros com as páginas amareladas pelo tempo e ainda mais outros que nunca deixaram de cheirar a novo. De alguns gostei tanto que chorei, com outros fui acumulando conhecimentos e outros só me ajudaram a passar o tempo. Se olhares para a nossa estante verás uma colecção algo esquizofrénica, com livros de muitos géneros. Não sou indecisa, gosto é de variedade. E é esta variedade que quero que chegue até ti.

Para que me procures nas mesmas linhas que um dia li, para que me encontres inesperadamente dentro delas. Para que te questiones sobre o porquê de ter sublinhado aquela passagem ou por que será que aquele livro existe em três línguas e eu os li a todos (para que a mesma mestria me tocasse com diferentes sonoridades e as palavras se eternizassem numa amálgama de memórias).

Gostava que lesses os meus livros e, a partir deles, criasses a tua biblioteca, juntando depois as tuas escolhas, provavelmente tão diferentes das minhas. Que mais tarde te venhas a sentar com os teus filhos no colo e leias com eles, como fazemos – e gostas tanto. Quem sabe se daqui a duas ou três gerações não vai haver um nosso descendente a pegar num dos meus livros e a perguntar-se quem era aquela pessoa que tinha a mania de assinar a primeira página de todos eles.

Pode não ser muito, mas é isso que te deixo – os meus companheiros de noites frias e dias quentes, de tardes de vento na praia, de viagens intermináveis e viagens que acabaram cedo de mais, porque queria mesmo terminar aquele capítulo.

São histórias que me ensinaram, que me fizeram viver vidas incríveis, que me despertaram a paixão pela escrita e me deixaram a desejar um dia conseguir escrever assim.

Mas a minha obra-prima já está escrita e és tu. E perdoa-me por só escrever, ainda que com muito amor, os primeiros capítulos da tua existência. Os restantes já são contigo. Perdoa-me, também, por não poder estar ao teu lado para sempre, mas a vida é mesmo assim.

Quando um dia já cá não estiver e sentires saudades minhas, abre um dos meus livros, meu amor. Fecha os olhos e lembra-te das minhas palavras sussurradas ao ouvido. Porque eu vou sempre estar ao teu lado. Seja nos olhos grandes dos teus filhos, seja nas músicas que um dia lhes vais cantar e que aprendeste comigo, seja nos livros que ganham pó na estante da sala.

Mas promete-me que não ficas triste e que acrescentas um ponto ao conto da tua vida. Todos os dias um bocadinho, para que a tua história seja sempre interessante, até ao último capítulo.

Por Marta Coelho, para Up To Kids®

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