Não é normal

#nãoénormal

O Movimento Não é Normal (#nãoénormal) surgiu na sequência de um simples pedido do comediante Diogo Faro aos seus (suas) seguidores. Estava a preparar um vídeo sobre o assédio e a sua intenção era falar do tema usando a comédia. Pedia apenas que as pessoas interessadas em participar enviassem um e-mail com a palavra “eu” se tivessem passado por alguma situação deste tipo. Nas primeiras três horas recebeu mais de 700 e-mails com relatos chocantes que o fizeram querer chamar os holofotes para o problema. Juntou-se a alguns amigos e lançou o movimento que está prestes a chegar à fala com a Secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, Rosa Monteiro.

Uns dias depois partilhei com a minha mãe que fui uma das primeiras centenas de pessoas a responder ao apelo. Como resposta vi o choque no rosto dela, acompanhado pela pergunta “mas tu foste vítima de assédio?”. Imaginei que sentiu o que eu sentiria se fosse a minha filha a dizer-me o mesmo. E limitei-me a responder “mãe, conheces alguma mulher que não tenha sido?”. E ela sabia que era verdade e concordou. Disse que ela mesma tinha passado pela última situação há apenas uns dias.

Isto significa que o assédio e o abuso diário a que as mulheres estão sujeitas caiu numa certa normalidade. “Habituámo-nos” a que faça parte do dia-a-dia, do que somos. Se não tivermos experienciado situações extremas de abuso sexual ou violência doméstica (ou de qualquer outro tipo), a verdade é que não olhamos para nós como vítimas.

Tenho muitas histórias minhas, nenhuma delas que tenha chegado a extremos. E sei de mais histórias do que gostaria.

Como a daquela miúda que vi crescer e soube que aos 14 anos disse repetidamente ao namorado que não estava preparada para perder a virgindade e ele se cansou de “esperar” e a violou, tendo acabado a tortura apenas uns minutos antes de a mãe dela chegar a casa e ele a ter obrigado a limpar as lágrimas e a ajeitar-se para que a mãe não percebesse. Com a ameaça de que faria a vida num inferno se ela contasse o que acabara de acontecer.

Ou a da rapariga da secundária que engravidou e apanhou tanto do namorado (porque a culpa só podia ser dela por estar grávida) que acabou a fazer um aborto clandestino para seguir com a vida em frente.

Ou daquela vez que uma colega minha, aos 14 anos, chegou à escola afogueada e nos contou que estava com outra colega nossa na casa de um rapaz da nossa turma, casa essa onde tantas vezes convivemos todos. E os rapazes tinham começado a brincar e a querer tocar-lhes. E ela tinha dito que não queria. E eles não pararam. E a outra colega deixou-se ficar, petrificada e com medo, porque eles eram mais, e esta tinha fugido. Tinha ido para a varanda do primeiro andar e saltado cá para baixo numa das avenidas mais movimentadas da cidade.

Na altura houve indignação e choque mas não fizemos mais que isso.

Eu deixei de falar com os rapazes em questão durante duas semanas mas depois voltou tudo ao normal. Nunca, em altura alguma, nos juntámos para lhes dizer que era imperdoável o que tinham feito. Que tinha sido uma violação da dignidade e da vontade e liberdade daquelas duas raparigas, que eram amigas deles. Nunca guardámos esse rancor contra eles e eles cresceram para se tornarem homens e provavelmente nem se lembram desse episódio. Mas aposto que elas sim. Eu nunca esqueci, também muito por causa da culpa que sinto por ter deixado isso passar, mas na altura não soube fazer mais nem melhor. Não que isso seja desculpa.

Aquela situação em específico é muito demonstrativa das duas posições de vulnerabilidade em que as mulheres ficam em situações como estas: não conseguir fazer nada, por causa do medo, e arriscar fugir, pondo-se em perigo. Porque raramente há lugar para um meio termo.

Considero que tive uma infância e uma adolescência perfeitamente saudáveis mas quando penso nestas e noutras situações (ocupariam demasiadas páginas), algumas com quase 20 anos, tenho a certeza que me marcaram. Sei que sim.

Porque ser mulher não é efectivamente o mesmo que ser homem.

Porque quando ando de metro sozinha à noite vou o caminho todo a rezar baixinho, sem conseguir relaxar, até enfiar a chave na porta de casa. E até chegar lá acelero o passo, escolho os caminhos mais iluminados e respiro com mais tranquilidade se houver gente a passar.

Porque quando preciso que vá um técnico a casa (electricista, etc) tento usar a roupa mais desinteressante do mundo porque isso me dá uma segurança, apesar de ser totalmente contra a crença de que a roupa dita o consentimento: mas a realidade é que a minha maneira de pensar não é partilhada por muitos homens e isso coloca-me numa posição de risco.

Porque quando peço uma pizza e estou sozinha em casa deixo a tv da sala ligada e em bom volume para dar a sensação de que há vida algures nas outras divisões e não estou sozinha.

Porque foram demasiadas as vezes em que tive alguém a roçar-se em mim nos transportes.

Porque ao ir para a escola, em miúda, tantas vezes apanhei com a minha melhor amiga tarados a tocarem-se.

Porque quando peço um táxi ou um uber tento organizar-me mentalmente para abrir a porta e sair assim que possível se for necessário.

Porque quando saio à noite só com amigas sei que somos um alvo fácil e raramente voltamos para casa sem alguém nos ter importunado de forma inapropriada.

Porque li algures que a maior parte dos homens heterossexuais só dá valor ao consentimento quando entra num bar gay. E isso é demasiadamente triste e verdadeiro (e até um pouco absurdo e bizarro).

Sou mãe de uma menina e tento criá-la com os princípios básicos para que se torne um ser humano decente.

Sei que vai ter de enfrentar muitas mais barreiras do que se fosse um rapaz. Que vai viver situações horríveis para as quais não a vou conseguir proteger. Sei disso porque sou mãe mas também sou filha e a minha mãe só soube de algumas das histórias que vivi muitos anos depois. Porque simplesmente há muitas coisas que não partilhamos pelas mais variadas razões.

Disse num dos e-mails que enviei ao Diogo Faro que é mais “fácil” criar uma rapariga feminista do que um rapaz feminista, por motivos óbvios.

E é por isso que ele está de parabéns, porque está a dar a cara e a fazer chegar a mensagem a muitos homens que ainda vão a tempo de mudar a nossa realidade.

Como mãe faço o que posso e desejo que todos os que estão no meu lugar façam o mesmo.

Por um mundo em que as raparigas não andem com medo na rua. Num país sem guerra. Em Portugal.

Deixo-vos o manifesto do Movimento Não é Normal para reflexão. Que subscrevo na totalidade.

Tentarei ser melhor para que haja mudança à minha volta. Porque pura e simplesmente #nãoénormal.

“NÃO É NORMAL: Um Manifesto

Não é normal deixar as coisas mal, não querer evoluir, deixar andar.

Não é normal não querer ouvir, não querer saber, ignorar ou compactuar.

Não é normal não saber, perceber e aceitar que “não” é “não”.

Não é normal forçar, pressionar, chantagear.

Não é normal assediar, ameaçar, assustar.

Não é normal agredir, humilhar, violar.

Não é normal haver tantas vítimas. Por ano, por mês, por dia, por hora.

Não é normal homens estarem contra as mulheres, nem mulheres contra homens. Tão pouco o é homens contra homens ou mulheres contra mulheres.

Não é normal o ódio ser a solução. Não é, nunca foi, nunca poderá ser.

Não é normal confundir opiniões com verdades ou ideias com factos.

Não é normal ser do contra apenas por ser, nem ser a favor só porque sim.

Não é normal não pensar pela própria cabeça nem pensar apenas sozinho.

Não é normal crianças não saberem o que é igualdade de género. Nem jovens, nem adultos.

Não é normal saber e não querer lutar por ela.

Não é normal ser demasiado insensível, não ter empatia, ser tão egoísta.

Não é normal um assunto tão certo ter um caminho tão difícil.

Não é normal aceitar que o normal seja uma anormalidade.

Não é normal, mas acontece. E isso tem de mudar.”

Façam-se ouvir. Sempre.

Brindemos a nós, mulheres.

A nós, mulheres

Honremos a nossa condição de mulher dia após dia, todos os dias.

Quando vencemos preconceitos e assumimos a nossa verdade, sem considerar a opinião alheia.

Quando fazemos as pazes com a nossa gordura, a nossa magreza, a nossa altura ou o nosso tipo de cabelo. Quando realizamos os procedimentos estéticos que entendemos importantes para o nosso bem estar, ou quando preferimos manter-nos “ao natural”, por assim nos sentirmos melhor.

Quando nos impomos, de igual para igual, com qualquer homem, em qualquer situação, não permitindo discriminações ou abusos. Quando admitimos as nossas fraquezas e as nossas carências.

Quando procuramos ajuda para algo que já não damos conta sozinhas. Quando saímos de cara lavada e uns ténis e ficarmos à vontade assim, ou quando dedicamos tempo a arranjar-nos, enaltecendo a nossa beleza.

Quando nos damos um tempo, apenas para não fazer nada.

Quando aceitamos os ciclos do nosso corpo, e nos harmonizamos com as revoluções hormonais que eles ocasionam.

Quando resgatamos a nossa dignidade, e afastamos pessoas e situações que não nos fazem bem. Quando alimentamos a nossa auto-estima, dando-nos o devido valor independentemente do que os outros pensam.

Quando sentimos o nosso instinto maternal e damos vazão à maravilha da natureza que é gerar um ser. Ou quando reconhecemos e defendemos o nosso direito de não querer ter filhos, sem nos importarmos com o julgamento alheio.

Quando nos dedicamos ao auto-conhecimento e a identificar os nossos medos mais sinceros. Quando investimos em nós e nos tornamos prioridade na nossa lista de tarefas.

Quando mandamos o nosso cérebro tagarela “calar a boca” e paramos para ouvir o coração. Quando conversamos com a nossa criança interior, permitindo-nos voltar a ser inocentes e brincar perante a vida.

Quando nos autorizamos a dançar, a cantar, pular ou gritar, extravasando as nossas emoções.

Quando nos permitimos errar, cair e levantar, reconhecendo que somos humanas e, por isso, falíveis.

Quando perdoamos o nosso passado, libertando-nos (e aos outros) da responsabilidade de todas as coisas negativas que nos aconteceram. Quando nos reconhecemos como primeiras e principais responsáveis pela nossa felicidade. Quando arregaçamos as mangas e seguimos efetivamente atrás dos nossos sonhos.

Quando nos permitimos a ser delicadas e fortes, tolerantes e incisivas, solidárias e egoístas, cautelosas e corajosas, interessadas e indiferentes, consoante as circunstâncias da vida nos exigirem.

Quando vemos as outras mulheres como companheiras e não como rivais, enaltecendo de modo coletivo o sagrado feminino.

Brindemos mulheres, a todo o momento, o nosso corpo, as nossas emoções, o nosso eu, a nossa força, a nossa vida e a nossa conexão!

 

Artigo publicado em ContiOutra, adaptado por Up To Kids®

 

“Vou educá-la a ter esperança e força, mas a permitir-se ser frágil.
Vou tentar educá-la para que nunca se ponha numa situação de perigo.”

É cultural, foi assim que fomos ensinados e muitas vezes ainda é assim que agimos. O ditado reza “entre marido e mulher ninguém mete a colher”.

Mas os tempos são outros e se temos evoluído em tantas outras áreas porque continuamos a virar a cara em situações de abuso?

Do outro lado do oceano chegaram notícias e imagens chocantes de uma advogada, que foi filmada a ser agredida pelo marido dentro do elevador do prédio e no parque de estacionamento do condomínio enquanto gritava por ajuda. Esta mulher acabou por morrer, vítima de uma queda do quarto andar, do seu apartamento. Correcção, esta mulher acabou por ser assassinada pelo marido quando todos os vizinhos ouviram os seus apelos por ajuda. Ninguém, repito, ninguém, chamou a polícia. Entendo o medo, somos humanos e sentimos na pele o nosso medo, o medo pelos nossos, o nosso desejo de sobrevivência. Muitas pessoas tiveram receio que o marido estivesse armado e não foram até lá. Estiveram para chamar a polícia mas depois os gritos pararam. Pararam porque já era tarde demais.

Estou a relatar esta história a título de exemplo, como poderia contar outras. Todos nós conhecemos algum caso, infelizmente. E os que têm a sorte de não conhecer, leem notícias.

Como mãe de uma rapariga há muitas coisas que me apoquentam em relação ao seu futuro, mais do que se fosse um rapaz – e nisto tenho de ser sincera e crua, porque ainda é muito diferente ser rapaz e rapariga neste mundo.

Vou tentar educá-la para que nunca se ponha numa situação de perigo.

Vou educá-la para identificar uma situação de perigo caso já esteja envolvida nela. Vou educá-la a fazer ouvir a sua voz, apesar do medo – mesmo que para isso tenha de saber contornar situações de confronto e saiba pedir a ajuda a quem de direito na altura certa. Vou educá-la para não virar a cara quando for testemunha da dor de outra pessoa. A falar, mesmo que tenha medo, nem que seja para chamar a polícia. E se quando a polícia chegar ela sentir que “não serviu para nada”, que saiba que serve sempre. Nem que seja para que as pessoas envolvidas saibam que os outros sabem, reparam e vão andar de olho na situação.

Vou educá-la a ter esperança e força, mas a permitir-se ser frágil. Porque todos nós cometemos erros, porque todos nós, numa altura ou outra precisamos de ajuda, porque todos nós já recusámos ajuda quando soubemos que teria sido melhor se tivéssemos aceitado.

A violência transtorna-me e é-me difícil de compreender, mas a passividade do mundo perante a violência é algo que nunca aceitarei.

Não é esse o futuro e o mundo onde quero que os meus filhos cresçam.

Quero que seja um mundo onde se diz “lembras-te de antigamente quando as mulheres morriam às mãos dos companheiros/ex-companheiros/aspirantes a companheiros?”. Quero que sejam coisas de tempos que eles não recordam.

Educar uma criança é a missão dos pais. Estar lá, acompanhar, proteger. Mostrar a realidade e as soluções. E isto serve para os pais das vítimas e dos agressores. Quando há sinais de que algo possa não estar bem devemos ser os primeiros a agir.Para o bem dos nossos filhos e dos que com eles se relacionam.

Devemos ser o exemplo e ajudar quem precisa de ajuda. Se os nossos filhos nos virem a estender a mão, será para eles natural fazer o mesmo na nossa ausência.

Resta-nos ser bons exemplos.

Pedir ajuda.

Dar ajuda.

Ter medo e ir em frente mesmo assim.

Tornei-me mãe e esqueci-me de mim

Em boa verdade, não me esqueci… Permiti-me esquecer.

Sabia que era fácil…muito fácil.
Tinha em perfeita consciência de que após ser mãe seria muito normal esquecer-me de mim.

A mudança que um filho implica numa vida, faz com que seja muito provável que deixemos muitas coisas ficar para trás, como numa fila de espera. E nós, ficamos muitas (demasiadas) vezes no final dessa fila.

Tinha a perfeita noção de que me estava a deixar ficar para o final da fila. Fui ficando bem lá para trás, sempre consciente disso. Para mim, eu não era importante.

Fui-me esquecendo de me arranjar, de pintar o cabelo, ou tão pouco do “tratar bem”… limitei-me ao tão prático coque ou rabo-de-cavalo.

Esqueci-me de mim.

Esqueci-me de arranjar as unhas das mãos e dos pés, e de ir passando um creme aqui e ali.

Esqueci-me de ter cuidado com a alimentação, com o peso, com a forma física e o bem-estar.

Esqueci-me de comprar roupas para mim, ou sapatos, acessórios, tanto que deixei os furos das orelhas fechar…

Esqueci-me de ler um livro, ouvir uma música e de ver uma série.

Esqueci-me de ir ao cinema, a um restaurante ou a um bar apreciar uma cerveja fresca.

Esqueci-me do sabor do chocolate, do vinho e do mel.

Esqueci-me de me divertir.

Por momentos esqueci-me de mim, de cuidar de mim e de me colocar mais à frente na fila.

Não faz mal! Não tenham pena de mim… Sou feliz! Muito feliz! Durante um tempo, tudo o que precisava estava nele e não em mim.

Mas com o tempo tudo muda e voltei a “entrar no jogo.”

Agora, voltei a precisar de mim, e descobri que tenho muito para recuperar.

Pus uma pausa no meu ser, fi-lo de consciência e se voltasse atrás faria igual novamente, porque em momento algum fiquei menos feliz por não me colocar em primeiro lugar.

O primeiro lugar não voltou a ser meu… Acho que nunca mais será, mas para já, preciso de passar à frente alguns lugares na fila.

Inscrevi-me no ginásio, pintei e soltei o cabelo e arranjei as unhas.
Comprei roupas novas (e consegui não comprar nada para ele) e ando a namorar umas botas que vou acabar por ir buscar.

Recomecei a ler, oiço música todos os dias, e ando a pôr em dia as séries.
Não fui ao cinema, mas fui há pouco tempo a um restaurante e a um bar, tudo numa só noite.
Provei chocolate, vinho e descobri que já nem gosto de mel.

Voltei a divertir-me e aos poucos a lembrar-me de tudo o que sou.

E permaneço feliz! Tão feliz como desejo a quem gosta de mim. Relembrei-me de mim, duma altura em que precisei esquecer-me. Foi de me esquecer que precisei, e agora é de me relembrar que preciso.

Mas no fundo, tudo o que importa, é ser feliz, e isso, nunca deixei de o ser! Porque às vezes, não faz mal esquecermos-nos um bocadinho, desde que voltemos a lembrar-nos de nós enquanto mulheres.

imagem@istock

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