O que é a Psicomotricidade?

A Psicomotricidade é uma prática de mediação corporal que permite à criança reencontrar e desenvolver o prazer sensório-motor através do movimento e da regulação tónica, possibilitando depois a apropriação dos processos simbólicos, com forte acentuação da componente lúdica.

Que tipos de intervenção psicomotora existem?

  1. Preventiva: estimulação e promoção do desenvolvimento, em crianças sem problemáticas de desenvolvimento;
  2. (Re)Educativa: estimulação do desenvolvimento psicomotor e do potencial de aprendizagem;
  3. Terapêutica: intervenção nos problemas de desenvolvimento, de aprendizagem e/ou do comportamento.

Para que crianças?

A intervenção psicomotora, de carater reeducativo e terapêutico, é dirigida a casos em que os processos do desenvolvimento e da aprendizagem estão comprometidas e em que estão frequentemente implicados problemas psicoafectivos, de base relacional.

O Psicomotricista intervém essencialmente com crianças com perturbações do desenvolvimento e aprendizagem, que resultam, essencialmente, de condições, como:

  • perturbação da coordenação motora e outras limitações do movimento;
  • perturbações do espetro do autismo;
  • défices da comunicação verbal e não-verbal;
  • deficiência intelectual;
  • dificuldades na aprendizagem dos processos simbólicos (leitura, escrita e aritmética);
  • dificuldades na gestão dos processos de atenção (seleção, focalização e coordenação de estímulos);
  • problemas de memória e perceção (identificação, discriminação e interpretação de estímulos visuais, auditivos ou tácteis); mutismo seletivo;
  • perturbação da hiperatividade e défice de atenção;
  • perturbação da oposição ou conduta; problemas emocionais (instabilidade emocional, baixa autoconfiança, baixa tolerância à frustração);
  • problemas de autorregulação do comportamento (impulsividade, agitação, desinibição, agressividade, oposição) ou outras funções executivas (capacidade de planeamento, capacidade de síntese e analise) e problemas psicomotores propriamente ditos. Por exemplo, dificuldades na regulação tónica, no equilíbrio, na estruturação espácio- temporal, na noção do corpo, na lateralidade, na motricidade global, na motricidade fina e na oculo-motricidade).

Quais os objetivos gerais de intervenção?

A intervenção psicomotora tem como objetivo promover a vivência harmoniosa da criança no seu corpo, com os outros e com o meio envolvente, estimulando e facilitando o desenvolvimento global da criança e, consequentemente, os processos de aprendizagem.

Os objetivos de trabalho irão variar de acordo com a idade, o tipo e a gravidade da situação, sendo que se salientam alguns objetivos gerais:

  • Motivar as capacidades sensoriomotoras através das sensações e relações entre o corpo e o exterior;
  • Desenvolver a capacidade preceptiva através do conhecimento dos movimentos e da resposta corporal;
  • Organizar a capacidade dos movimentos representados ou expressos através de sinais, símbolos, e da utilização de objetos reais e imaginários;
  • Ajudar a mobilizar os seus recursos individuais, reforçar a sua identidade para reconquistar a sua autoconfiança;
  • Fazer com que descubram e expressem as suas capacidades, através da ação criativa e da expressão da emoção;
  • Melhorar as suas respostas motoras e a sua interação pessoal, fortalecer a aquisição de estratégias de resolução de problemas, de acordo com as suas capacidades e potencialidades;
  • Criar segurança e expressar-se através de diversas formas.

Que atividades/técnicas são utilizados?

Pode recorrer-se a:

  • Jogos de exercício, funcionais ou motores, com função de harmonizar os gestos e aumentar a sua eficácia;
  • Jogos simbólicos ou de imaginação, que favorecem a passagem do nível sensório-motor ao nível da representação;
  • Jogos de construção, que têm a sua fonte nos jogos simbólicos e evoluem para uma adaptação mais precisa à realidade;
  • Jogos de regras caracterizados por determinadas obrigações comuns permitindo o desenvolvimento da cooperação.

Em suma, o objetivo da prática de Psicomotricidade centra-se na globalidade da criança, tendo em conta quer os aspetos funcionais, quer os relacionais.

 

Por Mariana Silva, Psicomotricista

O meu filho é desajeitado…o que posso fazer?

Muitos são os pais que se perguntam o que fazer com o filho com dificuldades de coordenação motora. A verdade é que existem crianças que a certa fase do seu desenvolvimento começam a evidenciar algumas dificuldades. O que acontece é que muitas das vezes essas dificuldades têm um impacto nas actividades académicas (manusear o lápis, escrever, aulas de ginástica) e também nas actividades da vida diária (ex. vestir, calçar, etc) e os pais começam a ficar preocupados e sem saber muito bem o que pensar e fazer para ajudar o seu filho. E, com o passar do tempo, a criança vai crescendo e tal como as exigências funcionais em casa, na escola e na comunidade vão aumentando…também as dificuldades! Muitas vezes ouvimos expressões como “o meu filho é muito desajeitado”, “é trapalhão a vestir-se”, “parece que não consegue estar sentado à mesa sem deitar tudo ao chão” e na realidade é mesmo isso que acontece nas crianças com dificuldades na coordenação.

SINAIS

Existem alguns sinais que deve estar atento e que poderão indicar dificuldades do seu filho ao nível da coordenação:

motricidade_fina

O que posso fazer?

1º Esteja atento

  • Observe o seu filho e tente perceber se as dificuldades motoras têm impacto em casa (actividades da vida diária);
  • Comunique com a escola e perceba se essas dificuldades também se verificam na escola e se estão a prejudicar o desempenho académico do seu filho.

2º  Brinque com o seu filho, promovendo actividades lúdicas mas com uma componente mais motora

  • Actividades de motricidade global
  1. Correr, saltar, subir e descer escadas, trepar;
  2. Atirar e receber bola com as mãos e chutar;
  3. Imitar (ex: animais -caranguejo, sapo, elefante; super heróis- homem aranha, powerranger, etc);
  • Actividades de motricidade fina
  1. Desenhar livremente, desenhar figura humana, desenhar casa;
  2. Pintar dentro de contornos;
  3. Modelar plasticina (apertar, esticar, fazer formas, esconder objetos pequenos tais comofeijões ou missangas na plasticina);
  4. Recortar (linhas, círculos, várias formas);
  5. Actividades com pinças (ex. passar berlindes de um sítio para o outro com uma pinça);
  6. Actividades com molas (ex. montar sequências de imagens colocadas em molas numa corda).

2º Procure ajuda

  • Fale com o pediatra do seu filho explicando as dificuldades de coordenação do seu filho;
  • Procure um terapeuta Ocupacional

O que o Terapeuta Ocupacional irá fazer?

  1. Avaliar as dificuldades nas competências motoras (e outras áreas) bem como o seu impacto nas actividades académicas e nas actividades da vida diária;
  2. Desenhar um plano que pode incluir:
  • O desenvolvimento das competências motoras (e outras áreas) através de jogos/ actividades terapêuticas.
  • Treinar o desempenho das várias actividades da vida diária (autocuidados, brincar, aprendizagem);
  • Aconselhar mudanças no ambiente ou equipamento que facilitem realização das actividades;
  • Aconselhar pais e professores.

Referências bibliográficas:

  • Missiuna, C., Rivard, L. & Pollock, N. (2011). DCD – CanChild Centre for Childhood Disability Research. Canadá: McMaster University.
  • Ayres, J (2005). Sensory integration and the child: understanding hidden sensory challenges. USA: WPS
  • http://www.dyspraxiafoundation.org.uk
  • http://www.aota.org

 

Por Margarida Sabino, Terapeuta Ocupacional

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Brincar ao Faz de Conta

O faz de conta permite à criança resolver problemas presentes, mas também passados.

Servir chá às bonecas, brincar aos polícias e ladrões e fazer teatro de fan.oches.

Conversar com o amigo imaginário, trocar de papéis com os pais, fingir ser a personagem de desenhos animados que adoramos, cozinhar com lama,…

Quem nunca? Quem já não observou os mais pequenos a fazê-lo?

Embora manifestando-se de forma diferente, o faz de conta está presente nas crianças de todas as idades. E ainda bem! De facto, ele é fundamental para o crescimento e desenvolvimento da criança aos níveis intelectual, social e motor.

Ao recriar o “mundo real” no seu mundo imaginário, a criança está a compreendê-lo e a assimilá-lo da forma como o apreende. Ao simular situações, está a desenvolver a imaginação, a fantasia, a criatividade.

Ao imitar o polícia, o bombeiro ou outra qualquer profissão, está a assimilar os valores que lhes estão subjacentes e a criar o seu próprio “quadro ético”.

O faz de conta permite à criança resolver problemas presentes, mas também passados. Isto contribui para a aprendizagem da tomada de decisões, reforçando a sua autonomia e sem medo das imposições dos adultos.

A capacidade de planeamento é também reforçada, bem como a assimilação de regras sociais, familiares e/ou escolares que lhe são impostas.

Mesmo a simulação de lutas de faz de conta é muito importante para o desenvolvimento das crianças.

Canaliza a agressividade natural para uma experiência lúdica. E observar uma criança a brincar ao faz de conta é muito enriquecedor. Permite não só conhecê-la melhor, mas perceber como ela interpreta o mundo que a rodeia. Não raramente, permite também tomarmos consciência de como ela nos vê e aos nossos comportamentos.

Todos os pais e educadores deveriam facilitar e incentivar actividades de faz de conta.

Algumas brincadeiras estruturadas são muito importantes, mas fundamental mesmo é deixar a criança brincar livre e naturalmente, participando quando a tal é convidado.