E depois do duplo diagnóstico de Autismo? O que eu gostaria que me tivessem dito

Já passámos por tanta tanta coisa, já vivemos tantas coisas, já experienciámos tantas situações, já chorámos e rimos tanto, já aprendemos tanto…

Mas, ainda assim, há algumas coisas que eu gostaria de ter ouvido em 2010 e não ouvi. Coisas que tivemos de descobrir por nós mesmos.

Quando soube que estava grávida de gémeos e tinha 3 bolsas, na maternidade disseram que poderiam encaminhar-me para uma psicóloga, caso precisasse de apoio. Recusei, estava assustada mas feliz, apesar de tudo. Quando soube que as piolhas tinham uma Perturbação do Espectro do Autismo, não só estava sozinha (pois achei que seria uma mera consulta) como não houve ninguém para me ajudar,  apoiar, nem sequer explicar o que diabo era uma PEA…

A ajuda psicológica nunca surgiu.

Deixo algumas das coisas que muita gente deveria ter-me dito em vez das habituais tretas do “ai mas não parece autista”, “mas são tão bonitas” ou “mas são tão inteligentes” e outras pérolas do género, incluindo ” a culpa é vossa”.

O que me fez muita falta ouvir:

1. Antes de mais, a ter que atribuir culpas, o autismo não é culpa vossa.

Genético ou ambiental, hereditário ou circunstancial, não é culpa dos pais nem das crianças. Não se culpabilizem nem dispendam energia a pensar nisto pois vão precisar e muito dela em áreas bem mais importantes para o desenvolvimento das vossas crianças.

2. Mantenham uma vida dentro dos parâmetros normais, mas adaptem-se.

Ou seja, se antes de começarem a notar pequenos sinais de que algo estava errado, iam de férias para a praia ou iam ao restaurante 2 vezes por semana, mantenham. Independentemente de os vossos filhos entenderem ou não o que vocês lhes explicam, insistam e levem as crianças convosco. Haverá crises, haverá olhares parvos e comentários parvos, haverá momentos negros mas tudo compensará. Não há nada melhor do que sair e manter uma vida dentro de parâmetros normais para poder ensinar determinadas competências sociais que não se aprendem nas terapias nem na escola. Adaptem-se. Se antes iam a um restaurante com reservas porque estava sempre cheio, experimentem algo mais calmo noutra zona. Mas mantenham.

3. Terapia – em especial a da fala – para ontem.

As terapias são essenciais e o núcleo sobre o qual tudo deve girar. Agilizem a vossa vida, estabeleçam prioridades, cortem despesas se for necessário, não se coibam de questionar qualquer que seja o profissional que trabalhe com os vossos filhos, assistam à sessões sempre que possível, aprendam muito, estudem muito e peçam ajuda para reproduzir em casa no sentido de fazer um prolongamento das sessões, peçam TPC sem receios. Confiem na vossa intuição, escolham o técnico em quem mais confiem, questionem metodologias, estudem, leiam muito e debatam pontos de vista com os técnicos. Eles vão certamente ajudar.

4. Sintonia entre todos os intervenientes

É extremamente importante que todos falem a mesma língua, ou seja, que todos estejam em sintonia para que não haja discrepâncias entre metodologias e abordagens. Se na terapia da fala se começa a abordagem à linguagem através de gestos que vocês já aprenderam, ensinem também os mesmos gestos à restante família e amigos, na creche/jardim de infância, etc. Dá trabalho mas compensa.

5. A utilização de gestos ou de sistemas de comunicação visuais não é sinónimo de eternidade.

Por cá, as piolhas começaram com uma abordagem Makaton e PEC (Picture Exchange Communication) até desenvolverem a linguagem necessária para comunicar sem apoios ou muletas. Pode demorar, pode ser necessário conjugar imagens e linguagem verbal durante muito tempo mas não desmotivem nem achem que será algo para o resto da vida. Mas se tal acontecer também não é nenhuma tragédia. Recordemo-nos que muita da nossa linguagem informativa funciona por imagens (código de condução – sinais de trânsito, códigos de cores para daltonismo, etc.) e outra até é por caracteres (programação em computadores, por exemplo).

6. A evolução e o desenvolvimento levam tempo.

Às vezes, terão picos de evolução extremamente rápidos e ficarão surpreendidos com a quantidade de coisas que já conseguem fazer/dizer/aguentar; outras vezes, parece não haver evolução alguma e começamos a questionar se o que estamos a fazer até ao momento valerá a pena ou não. Por muito difícil e doloroso que seja, aguardem. Muitas das etapas que esperamos ver alcançadas pelos nossos filhos não dependem só das terapias mas do seu próprio desenvolvimento cognitivo e maturidade neurológica. É absolutamente normal desenhar um S ao contrário com 6 anos, por exemplo, mas demos-lhes tempo de amadurecer para que esse S passe para a sua posição correta.

7. A decisão de dar ou não medicação aos vossos filhos é só vossa.

MAS… ouçam o que vos dizem os especialistas de saúde, cruzem informação entre médicos e técnicos, analisem friamente o vosso caso e verifiquem se ganharão qualidade de vida/evolução da criança/redução de níveis de ansiedade/agressão/etc. Mais uma vez, tal como determinadas abordagens, a medicação não é algo que fica para toda a vida. As piolhas tomaram risperidona em doses mínimas mas as necessárias para que tivessem qualidade de vida (fim de ansiedade e transtornos intestinais, ausência de autoagressão, maior concentração, períodos de atenção e foco maiores) MAS já não tomam absolutamente nada (nem sequer vitaminas) desde outubro de 2016. Não se fiem em tudo o que leem no dr google: falem com outros pais que tenham crianças mais velhas no espectro, peçam segundas e terceiras opiniões e confiem na vossa intuição.

8. Não desesperem com a abismável montanha de informação que vão encontrar e não façam dos vossos filhos cobaias.

Por exemplo, um cão pode ser um aliado essencial ao desenvolvimento de uma criança com autismo mas se o seu filho em particular detesta ou tem medo de cães,nunca vai resultar. O que resulta num caso para uma criança no espectro pode não resultar para outra dentro desse mesmo espectro. Conheça o seu filho, para além do autismo. É uma criança inteligente, viva, ativa, enérgica? Bora brincar para a rua mesmo que isso implique andar a correr atrás dela ou subir ao mesmo escorrega 50 vezes. É uma criança mais apática e isolada? Vamos apostar nas novas tecnologias e treinar vocabulário e linguagem num jogo interativo. Ou vamos rodar peças de legos e imitar os nossos filhos e as suas estereotipias. Um dia conseguiremos trazê-los até nós, e eles farão o que estivermos a fazer, como montar esses legos que ontem andávamos a rodar.

9. Afastem-se de pessoas tóxicas.

Inicialmente vai custar, depois será instintivo. A vossa vida já é complicada q.b. sem que precisem de alguém a deitar-vos abaixo ou a diminuir a vossa dor e o vosso trabalho. E se for alguém da família? Vale o mesmo. Os avós paternos das piolhas já não estão com elas desde Maio de 2015, tirando 10 minutos em novembro de 2017. Não sabem lidar com elas e nunca quiseram aprender a entendê-las, escusaram-se a ouvir-nos e até nos culpabilizaram pelo autismo delas. As piolhas não sentem a falta de quem não se esforça para estar com elas; as piolhas sentem sim falta de quem as aceite e goste delas como são. Não pensem que ficarão sem amigos ou com uma vida social lastimável: quem fica é porque merece ficar e vos conhece para além disso tudo. Chama-se a isto seleção natural.

10. A vossa família – vocês – são quem melhor conhece os vossos filhos.

Não deixem que vos acusem de má-educação ou de negligência ou de sei lá mais o quê só porque naquele dia, no pior momento do vosso filho, um estranho qualquer decidiu arrotar uma posta de pescada para o ar. Cair-lhe-à em cima certamente. Estudem, informem-se dos direitos dos vossos filhos. Peçam ajuda a pais que já tenham passado por situações menos agradáveis. Falem com os técnicos da assistência social nos hospitais centrais. Leiam muito bem qualquer documento relativo à educação ou saúde dos vossos filhos. Organizem tudo em pastas que tenham sempre à mão.

Não imaginam a quantidade de vezes que já tive de recorrer a esses ficheiros para impedir que cortassem horas de terapia ou corrigir falhas em documentos escolares. As nossas crianças não têm mais direitos que as outras nem “roubam” direitos a ninguém mas temos que ter a certeza de que são cumpridos. E muitas vezes não são.

11. Não tenham medo de agir.

É suposto termos aliados ao desenvolvimento pleno dos nossos filhos como a escola ou o hospital. Às vezes, há falhas. É essencial perceber o que se passa e agir em conformidade, mesmo que isso passe por um louvor a quem apoiou e protegeu e ajudou os nossos filhos ou uma queixa contra quem desrespeitou direitos básicos e inalienáveis dos nossos filhos. Esqueçam a velha mentalidade do “tomar de ponta”. O desenvolvimento saudável dos vossos filhos depende da ação conjunta e da linguagem comum de todos os intervenientes na vida deles.

12. Consultas sim, sempre.

São importantes mesmo que saiam de lá com um sabor amargo na boca ou que achem que não aprenderam nada. Há sempre algo importante a discutir, exames ou avaliações a ponderar, uma ou outra estratégia a definir, uma evolução a traçar. Sejam estáveis e confiem. Procurem um especialista até confiarem, se for esse o caso, e mantenham uma rotina. Aqui costumamos ir ao Hospital Pediátrico às consultas de autismo e neurodesenvolvimento de 6 em 6 meses, aproximadamente. Nunca me coíbo de falar das minhas dúvidas, ânsias, desejos ou medos. Pode não resolver nada mas pode, ao mesmo tempo, ajudar muito a delinear um caminho.

13. Não desistam.

Não é fácil, nunca podemos tomar as coisas por garantidas. É injusto. Os nossos filhos têm de aprender até a brincar enquanto que aos filhos dos outros parece tudo fácil. É impossível não comparar. MAS não deixem que isso vos impeça de seguir em frente ou de continuar a trabalhar para que evoluam, para que falem espontaneamente e não ecolalicamente, etc. Irão ao fundo do poço muitas vezes mas mais vezes ainda subirão à superfície. Chorem muito e sempre que precisarem mas não deixem que o choro vos arraste para a apatia, não podem nem têm tempo para isso, porque os vossos filhos precisam de vocês.

14. Tirem tempo para vocês e para os vossos filhos.

Eles não estarão 24h convosco, por isso, quando eles estão na escola, durmam, trabalhem, saiam para um café, façam um desporto, vão mimar-se, etc. Não desistam de vocês porque precisam de energia e de motivação para continuar. Se está um dia de sol lindo, mesmo que fiquem cansados só com a ideia de sair e os piolhos até estão endiabrados, saiam. Sim, saiam. Vai fazer-vos bem mesmo que não corra muito bem. Mas, pelo menos, tentaram. Na próxima vez, correrá melhor.

15. Nem tudo é autismo.

Muitas vezes, são só os nossos filhos a serem parvos ou teimosos ou idiotas. É sempre difícil estabelecer a fronteira entre o que é um comportamento do autismo ou apenas uma parvoíce – ou até traços de personalidade. Mas, again, ninguém conhece os nossos filhos melhor que nós. Muitas vezes, eles estão apenas a ser crianças e a fazer os mesmos disparates que os outros fazem. Ou a puxar ao nosso mau feitio por eles herdado…

16. E, acima de tudo, arranjem tempo para brincar.

Nenhuma terapia do mundo vos pode ajudar se a vossa criança não tiver aquilo que qualquer criança precisa de ter: tempo para brincar. Mesmo que não saiba brincar da forma típica de outras crianças. Roda os legos? ‘Bora lá rodar também e começar a encaixar alguns. Riscar paredes é giro? ‘Bora para a garagem ou arrumo e rabiscar à vontade. Gosta de comer plasticina? ‘Bora fazer uma massa caseira com corantes naturais (sumo de beterraba para o vermelho, mirtilos/amoras esmagados para o azul, por exemplo) e fazemos plasticina que se pode moldar e comer. Pensem fora da caixa, inventem muito e vão ver que vai compensar e correr bem.

Para concluir, gostaria que me tivessem dito que iria ser muito doloroso e difícil. Que iria demorar algum tempo mas que chegaríamos longe (esta parte disseram-nos mas não nos explicaram como nem que podia demorar…).

Gostaria de ter tido alguém, profissional talvez, para me ouvir e não julgar…

Não há receitas infalíveis nem truques milagrosos.

Mas há vocês e todo um mundo para explorar e experimentar.

Vai correr bem.

 

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Adultos desatentos precisam de crianças atentas

Estava presente para o meu filho. Estava fisicamente presente, por isso estava presente. Chegava a casa e satisfazia as suas necessidades básicas. Significava que estava presente: atenta. Pensava eu.

Mas hoje sei que, na verdade, não estava presente, não estava atenta. Estava em casa, sim. O meu corpo realmente estava em casa mas a minha cabeça, o meu sentir, vagueava por outros lugares: o trabalho, os objetivos, as metas, as contas para pagar, a barriga gorda, os comentários dos outros e por ai fora. Encontrava-me entre os problemas do passado e as antecipações de cenários dantescos do futuro. Mas a verdade é que não estava em casa. Não estava ali, presente, inteira. Não olhava para os seus olhos, não conhecia os sinais o seu corpo, não me espantava com as suas conquistas, não me apercebia dos seus pedidos de ajuda. Estava desatenta. Não sabia quem era o meu filho. Não conseguia ver o que verdadeiramente importava. Só lhe dava ordens e lhe dizia como devia ser e fazer.

Um dia o meu filho mostrou-me um desenho e eu, de forma automática, disse – lhe “que bonito!”. E ele, muito dececionado, respondeu: “mãe, são só riscos!”. Acho que tive tipo uma mini epifania nesse momento porque ainda me lembro disto hoje. Tocou-me profundamente.

No infantário começaram os alertas que se prolongaram até à escola: o seu filho é muito agitado, impulsivo, ansioso, desatento. Fiquei fora de mim. O meu filho não podia ser assim. Não podia! Irritava-me tanto. Ficava fora de mim. “Tens estar mais quieto, atento, calmo!”.

A mãe desatenta precisava de um filho atento. À força! Sim, ele tinha de estar quieto, ser bem comportado e ter bom desempenho escolar. Ele tinha de mostrar que eu era a mãe perfeita e extremosa. (“O que os outros iam pensar?”). Mas não: ele mostrava o contrário. A minha autoestima ficou um caos. Mesmo. Mas a culpa não era minha, não, nem pensar, a culpa era dele. Especialistas, despistes, correrias.

Comecei a procurar fora uma resposta mas nenhuma me satisfazia por completo. Algo começou a corroer-me. Comecei a sentir que podia fazer algo mais do que simplesmente culpá-lo ou deixar o trabalho para as mãos de outros. Não ia abandonar a ajuda dos especialistas, é certo, mas senti que tinha de começar pelo princípio (que é como quem diz: olhar para mim).

Mas custava tanto…

No entanto procurei ajuda e assim comecei a desenrolar o novelo. E perguntas inconvenientes começaram a aparecer. Onde teria estado nos seus primeiros anos de vida? E como estava emocionalmente? Numa espiral de ansiedade, medo, culpa, irritação.

Até que percebi. Mãe Desatenta Precisava de Filho Atento. Aqui entre nós, que grande incongruência não é?

A criança precisa de alguém que a veja, que a ouça, que a reconheça, que esteja verdadeiramente presente! Que se ligue a ela. E assim sente-se segura e coopera. E assim sente-se vista, fica atenta e aprende. Esta foi a minha história. Esta é a história dos pais que acompanho.

Quando finalmente parei, despertei! Eu não estava atenta, eu não estava presente. Eu pensava que estava mas não estava. Eu estava em luta. O sofrimento tinha-se tornado a minha zona de conforto e eu pensava que a única saída que tinha era ficar por lá. Mas não. Existe outra: dá mais trabalho, é certo, mas é uma oportunidade maravilhosa. Uma oportunidade para nos voltarmos a encontrar.

Acredito que o primeiro passo para as crianças estarem atentas é olharmos para nós: que exemplo estamos a dar?. E às vezes até podemos estar a fazer tudo para ajudar os nossos filhos, mas mesmo essa ocupação de fazer tudo pelos nossos filhos, também nos leva a ficar desatentos, ou seja, andamos tão ocupados em ajudar, desvendar, resolver, fazer alguma coisa, que nos esquecemos de simplesmente ESTAR com eles de forma inteira, plena. Andamos em modo “Fazer” e esquecemo-nos de “Estar”.

Há algo que não nos podemos esquecer: comportamento gera comportamento, atenção gera atenção, desatenção gera desatenção.

E agora vamos para a escola, outro sistema importante que a criança frequenta. Vamos dar um passeio à escola. Ouve-se que as crianças estão desatentas, agitadas, mais violentas. É um facto. A questão é: o que é que estamos fazer para que elas aprendam a ser atentas, calmas, empáticas? Gritos, castigos, irritação, violência, cansaço são as palavras que se ouvem por parte dos que frequentam este ambiente. E atenção: a minha intenção não é culpar ninguém, acredito que todos estão a fazer o seu melhor que podem com os recursos que têm, mas a verdade é que, de uma forma geral, os adultos que por ali andam estão emocionalmente debilitados: esgotados, cansados, frustrados. Estão a precisar de ajuda! Estão todos a precisar de ajuda! A nossa forma de estar reflete-se nas crianças.

Esqueçamo-nos da guerra de quem tem culpa. Isso só nos desvia do que é realmente IMPORTANTE: o olhar para nós. Cada um de nós pode fazer diferença, cada um de nós terá a sua quota de responsabilidade. Na verdade estamos todos no mesmo barco, pais e filhos, professores e alunos: todos queremos ser vistos, ouvidos, reconhecidos, amados, olhados com Atenção. Certo?

Eu exigia ao meu filho atenção mas vivia desatenta. Acredito num caminho mais consciente para responder à desatenção e do que daí advém, como por exemplo, a chamada “má educação”. Se sempre consigo? Não, não consigo por isso continuo no caminho de reeducar-me para ser uma pessoa, mãe, mulher mais inteira e presente.

Não podemos exigir às crianças aquilo que não somos, simplesmente por uma razão, que apesar de óbvia nos esquecemos muito facilmente: Educamos Por Aquilo que Somos! Pelo exemplo!

O que estarão as crianças desatentas a precisar?

Crianças Desatentas precisam de Adultos Atentos.

Vamos olhar para nós sem julgamentos mas com verdade? À primeira vista pode até surgir o medo mas, acreditem, é tão libertador …

 

Por Carla Patrocínio do Blog Meus filhos meus mestres, visite a página do Facebook da especialista em Parentalidade Consciente

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16 mitos e perguntas frequentes sobre a dislexia

A dislexia é sinónimo de baixa inteligência? Quando se avalia a dislexia? Devo esperar até ao final do 2º ano? Só os rapazes têm dislexia? A dislexia é um problema visual? Tem cura? Quem faz o diagnóstico da dislexia? Neste artigo clarificamos os mitos e as perguntas mais frequentes sobre a dislexia.

MITO 1

Não existe diferença entre um aluno com Dislexia ou um aluno que tem dificuldades em aprender a ler 

Errado. Atualmente, a Dislexia é considerada uma Dificuldade de Aprendizagem Específica. De acordo com as definições mais recentes de Dificuldades de Aprendizagem Específicas, os alunos que as manifestam têm uma disfunção em um ou mais processos neurológicos básicos envolvidos na compreensão do uso da linguagem falada ou escrita, os quais podem resultar em dificuldades na capacidade de leitura, escrita, caligrafia ou cálculo. Por esse motivo, nem sempre é fácil distinguir um aluno com uma Dislexia de um aluno que aprende a um ritmo mais lento. Um aluno que tenha sido diagnosticado com Dificuldades de Aprendizagem apresenta um défice em uma ou em mais áreas, apresentando, contudo, sucesso em outras áreas. Além disso, as suas capacidades cognitivas estão acima do verificados nos seus desempenhos – discrepância entre a capacidade e o desempenho.

Deste modo, as dificuldades manifestadas por um aluno com Dificuldades de Aprendizagem não podem ser explicadas por fatores cognitivos, por acuidade visual ou auditiva não corrigida, ou por outras perturbações mentais ou neurológicas, ou ainda por uma adversidade psicossocial ou instrução educativa inadequada. A falta de proficiência na língua da instrução académica também não justifica uma Dificuldade de Aprendizagem Específica.

As Dificuldades de Aprendizagem Especificas apresentam um caráter permanente e, apesar dos alunos poderem ser alvo de intervenção psicopedagógica e melhorarem os seus desempenhos, terão sempre essa disfunção. É, contudo, de salientar que qualquer aluno, ao longo da sua vida escolar, pode experienciar algum tipo de dificuldade, não sendo tal facto um sinal evidente e exclusivo da existência de uma Dificuldade de Aprendizagem.

MITO 2

A Dislexia é sinónimo de baixa inteligência

Errado. São vários os estudos que demonstram que pessoas com Dislexia têm uma inteligência dentro da média ou mesmo acima dela. Ao nível dos critérios de diagnóstico, a Dislexia não é melhor explicada por uma incapacidade intelectual. Os alunos com Dislexia tendem a caracterizar-se por desempenhos abaixo do que seria de esperar, tendo em conta o seu perfil cognitivo, em uma ou em mais áreas em específico. No entanto, e apesar disso, crianças com Dislexia têm frequentemente elevado sucesso noutras áreas.

MITO 3

Devo esperar até ao final do 2º ano para o meu filho fazer uma avaliação em Dislexia

Errado. Embora o diagnóstico de Dislexia só deva ser formalmente fechado após dois anos de aprendizagem formal da leitura e escrita, não significa que o seu filho não possa apresentar sinais de alerta característicos da Dislexia. Nesse caso, faz todo o sentido que seja avaliado e, posteriormente, apoiado com intervenção terapêutica. Quanto mais cedo a criança iniciar o processo de intervenção, maior a sua probabilidade de sucesso.

MITO 4

O meu filho escreve a maioria das letras de baixo para cima, logo tem Dislexia

Errado. É comum, no ensino pré-escolar e no início da idade escolarização, as crianças apresentarem alguma dificuldade na escrita de letras e números, podendo escrever em “espelho” (ou seja, da direita para a esquerda ou mesmo de baixo para cima). A maior parte das crianças vai corrigindo estes erros à medida que vai sendo exposta à aprendizagem formal das letras, da leitura e da escrita.

MITO 5

O meu marido tem Dislexia, logo os meus filhos vão ter Dislexia

Não necessariamente. Existem, de facto, diversos estudos que comprovam uma elevada hereditabilidade tanto para a capacidade como para as incapacidades de aprendizagem. No entanto, apesar desta maior predisposição da presença da Dislexia em filhos de pais com a mesma dificuldade, a sua manifestação não terá que ser dada como certa. Caso o seu filho revele alguns sinais de alerta, e exista, de facto, um historial de Dislexia ou outra Dificuldade de Aprendizagem Específica na família (com ou sem um diagnóstico formal) recomenda-se que procure ajuda especializada. Felizmente, com a evolução dos estudos sobre a Dislexia e as Dificuldades de Aprendizagem Específicas no geral, existe hoje em dia um maior conhecimento sobre esta temática e as crianças conseguem obter ajuda mais facilmente do que na época dos seus pais, evitando-se assim o agravamento dos sintomas e as respetivas repercussões, sobretudo ao nível académico.

MITO 6

A Dislexia tem cura

Errado. A dislexia é uma Dificuldade de Aprendizagem Especifica de carácter permanente, logo não tem cura. No entanto, atualmente já existem diversas estratégias e métodos de intervenção psicopedagógicos que podem ser utilizados em crianças com Dislexia no sentido de as ajudar a ultrapassar ou a minorar as suas dificuldades. Quanto mais precocemente forem implementadas estas estratégias, melhores resultados a criança terá ao longo da sua vida e percurso escolar.

MITO 7

A Dislexia é um problema visual

Errado. A Dislexia é uma Dificuldade de Aprendizagem Especifica que tem origem no papel combinado de fatores genéticos e ambientais que resultam em alterações estruturais e funcionais do cérebro. Deste modo, a Dislexia não está associada a um défice visual, mas sim a causas essencialmente genéticas. No entanto, uma criança pode apresentar dificuldades de aprendizagem na leitura e na escrita em virtude exclusiva de um problema visual, não preenchendo, para o efeito, os critérios de um diagnóstico de Dislexia. Neste sentido, e com vista a um diagnóstico o mais rigoroso possível, antes de se iniciar uma avaliação psicopedagógica para despiste de Dislexia, dever-se-á efetuar previamente uma avaliação auditiva e visual, de modo a excluir as referidas hipóteses como causa das dificuldades manifestadas pela criança.

MITO 8

Não é possível ter sucesso escolar quando se tem uma Dislexia

Errado. Tem vindo a ser cada vez mais demonstrado que a implementação e desenvolvimento de estratégias psicopedagógicas na sequência de um diagnóstico, tem enormes probabilidades de permitir à criança corresponder às exigências das aprendizagens escolares e desse modo, obter sucesso, quer a nível académico, quer a nível profissional.

MITO 9

Só os rapazes é que têm Dislexia

Errado. Na realidade, não existem diferenças significativas entre rapazes e raparigas. A razão pela qual os rapazes são mais vezes referenciados pelos professores, parecem residir no facto de os rapazes terem, de um modo geral, um diagnóstico mais precoce, em parte devido a causas comportamentais, uma vez que parecem ter maior dificuldade em gerir a frustração nas situações em que as suas dificuldades específicas se tornam mais evidentes.

MITO 10

O meu filho é tem dislexia, logo não pode ter boas notas

Errado. Se o seu filho for ajudado com uma intervenção intensiva e adequada às suas necessidades, de forma a colmatar as dificuldades causadas pela Dislexia, se existir suporte por parte dos agentes educativos (pais, professores, entre outros), e se a isso se associar motivação e esforço, então estarão reunidas as condições para que seja bem-sucedido, quer académica, quer profissionalmente.

MITO 11

A Dislexia está relacionada com dificuldades de orientação-espacial e/ou com o “ser canhoto”

Errado. Não existe qualquer tipo de investigação que demonstre uma ligação entre orientação-espacial e Dislexia, nem entre ser esquerdino ou destro e a Dislexia. Existem disléxicos esquerdinos e existem disléxicos destros, tal como existem disléxicos que têm dificuldades ao nível da orientação espacial e disléxicos que não têm esse tipo de dificuldade. O único fator comum comprovado cientificamente entre as várias pessoas com Dislexia é um défice ao nível da consciência fonológica.

MITO 12

A Dislexia é um défice apenas da infância

A maior parte dos diagnósticos de Dislexia são realizados durante a idade escolar, pois é nessa fase que os sinais tendem a apresentar uma maior evidência. No entanto, há crianças que, utilizando estratégias compensatórias e um esforço extraordinariamente elevado, com o devido suporte social, conseguem manter um funcionamento académico aparentemente adequado ao longo de vários anos, até que os procedimentos de avaliação ou as exigências do sistema educativo/meio imponham barreiras à demonstração da sua aprendizagem.

Em termos globais, e no que respeita aos vários domínios académicos de leitura, escrita e de cálculo, as Dificuldades de Aprendizagem Específicas apresentam uma prevalência de 5%-15% entre crianças em idade escolar em diferentes culturas e línguas.

MITO 13

A Dislexia é um diagnóstico médico 

Errado. A Dislexia não deve ser considerada um problema médico, nem pode ser diagnosticada exclusivamente por um médico, uma vez que este não possui conhecimentos suficientes de avaliação da leitura e da escrita. Enquanto Dificuldade de Aprendizagem Específica, o diagnóstico da dislexia deverá ter por base a síntese do historial do desenvolvimento do individuo, contemplando a área médica, familiar e educacional, incluindo a análise detalhada de relatórios e avaliações escolares, e a realização de uma avaliação psicoeducacional.

MITO 14

Todas as crianças que têm dificuldades em aprender a ler são disléxicas

Não. A Dislexia é uma causa comum de dificuldades na leitura, no entanto, não é a única causa. As dificuldades gerais de leitura podem também estar associadas a outras causas intrínsecas como extrínsecas ao individuo. Nas causas intrínsecas podemos encontrar outras perturbações do desenvolvimento que comprometem igualmente a aquisição do processo de leitura. Nas causas extrínsecas poderemos encontrar fatores ambientais e educacionais que quando negligenciados poderão igualmente provocar dificuldades de leitura.

MITO 15

Se não ensinarmos uma criança com Dislexia a ler até aos 9 anos, será tarde demais para aprender a ler

Errado. Nunca é tarde para melhorar as capacidades de leitura, escrita e ortografia de uma criança com Dislexia. Claro que, quanto mais precoce for a intervenção, mais probabilidade de sucesso a criança terá.

MITO 16

As adequações curriculares para as crianças com Dislexia são uma injustiça para as outras crianças que não têm Dislexia

Errado. A abordagem de ensino mais justa é quando o professor consegue providenciar a cada aluno aquilo que é necessário para que este seja bem-sucedido em contexto escolar. Assim sendo, as adaptações que os professores fazem são uma tentativa de criar condições equitativas, quer em situação de teste ou num trabalho de casa, e não uma forma de atribuir vantagens aos alunos com Dislexia. Na verdade, um aluno com Dislexia terá que se esforçar tanto ou mais que outro aluno, mesmo com as adaptações individuais.

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