Sesta? Sim, por favor!

As sestas são, para a grande maioria das crianças portuguesas com mais de três anos, um luxo.

As crianças que frequentam estabelecimentos públicos de ensino no pré-escolar não dormem sestas e isso sempre foi um dos pontos que mais me preocupava relativamente à minha filha.

No início do ano letivo que agora está perto do fim, a minha filha com três anos acabadinhos de fazer, conseguiu entrar para uma escola pública. Na reunião de início de ano com os pais e a direção da escola o pai dirigiu-se à coordenadora para perguntar como funcionavam as sestas, uma vez que a Mariana ainda tinha necessidade de fazer repouso. Como já sabíamos não haveria sestas. Mas na sua resposta, a coordenadora acrescentou: “mas sabemos que há crianças que precisam de descansar, por isso damos-lhes umas mantas e ele enroscam-se e encostam-se a um canto para dormirem, se conseguirem”. Pois. Eu sei. Estamos a falar de crianças e a imagem é de uns pobres miúdos a caírem de sono, com birra e exaustos a caírem contra as paredes porque não aguentam estar em pé.

Que pai gosta de ouvir esta resposta? Que pai, preocupado com as necessidades do seu filho ficaria tranquilo com este tipo de oferta da comunidade escolar.

A Mariana acabou por não ingressar na escola, por este e outros motivos, para nós igualmente relevantes mas não deixo de pensar neste assunto.

Ela está neste momento numa escola que faz o repouso depois do almoço, repouso esse que lhe é essencial.

Sei que todas as crianças são diferentes, nem todas precisam de dormir, nem sequer de dormir a mesma quantidade de tempo.

Na escola da minha filha as sestas vão de encontro a este facto: há crianças que dormem pouco ou quase nada e que se levantam e vão brincar, outras que precisam de dormir quase hora e meia para acordarem com energia renovada. Há espaço para todos.

Mas também isso termina este ano. Quando falo sobre esse assunto, seja na escola, seja com outros pais, refere-se o facto de estarem a caminhar para a escola primária, onde não se dorme a sesta.

Respiro fundo. A escola primária, para uma criança com três anos, está à distância de outros três anos. São três anos em que para se adaptarem a uma realidade que está no fundo do túnel faz com que sejam obrigados a descansar menos do que podem e deveriam.

“Ah, mas há escolas sem condições para deitar as crianças, há turmas heterogéneas, com crianças dos três aos cinco anos e não dá”. Aqui, como em tudo, o essencial é haver vontade. Os catres onde as crianças dormem não são caros e é um investimento que fica de uns anos para os outros, há com certeza espaço para os colocar nas salas.

E se há crianças que não dormem, então podem ser encaminhadas para outras atividades.

Há também quem diga que por causa do tempo letivo que se exige às educadoras que passem com as crianças, seria impraticável. Fico boquiaberta. Porque acredito (e sou apenas uma mãe a falar do pouco que sabe) – que poderia ter de haver um ajuste no planeamento dos dias, até porque com cinco anos o repouso não precisaria de ser longo, apenas o suficiente para as crianças descansarem – estas mesmas crianças estariam mais despertas e abertas a assimilar informação do que estando cansadas.

O sono é determinante para o desenvolvimento cognitivo e essencial para a sociabilização das crianças.

A Sociedade Portuguesa de Pediatria defende que, a curto prazo, a privação do sono na criança passa por distúrbios na modulação do humor e dos afetos, a perturbação da função neuro-cognitiva, alteração do comportamento e alteração motora.

Como já referi, sei que há crianças que não têm necessidade de descansar, têm pilhas intermináveis e é um tormento para os pais conseguirem que elas durmam uma sesta.

No caso da minha filha, mesmo com o repouso depois do almoço, em que em dias quase dorme a hora e meia, acontece adormecer no caminho para casa. Há dias em que chego à escola (e vou busca-la cedo) e ela está animada e a correr, mas assim que quebra noto o cansaço (também porque as noites têm sido complicadas, estamos numa fase em que precisa de um pouco mais para adormecer e isso rouba-lhe minutos preciosos de sono, mesmo fazendo eu um esforço para que ela se deite mais cedo para precisamente ela dormir tudo o que precisa).

Aquilo que eu defendo é que exista escolha. Que as escolas deem essa possibilidade às crianças. Porque há muitas que precisam. Porque há tantas que não dormem as horas suficientes à noite.

Mais uma vez não defendo que a escola substitua a responsabilidade dos pais, mas que seja um complemento essencial para que muitos miúdos possam crescer saudáveis.

A Academia Americana de Medicina do Sono (American Academy of Sleep Medicine – AASM) divulgou em Junho de 2016 novas recomendações onde estabelece períodos mínimos e máximos adequados a cada faixa etária, tendo sido esta declaração subscrita pela Academia Americana de Pediatria (AAP).

Novas recomendações para as horas diárias de sono:

– Lactentes dos 4 aos 12 meses: 12 a 16 horas por 24 horas (incluindo sestas)

– Crianças de 1 a 2 anos: 11 a 14 horas por 24 horas (incluindo sestas)

– Crianças de 3 a 5 anos: 10 a 13 horas por 24 horas (incluindo sestas)

– Crianças de 6 a 12 anos: 9 a 12 horas sono noturno por 24 horas

– Adolescentes de 13 a 18 anos: 8 a 10 horas sono noturno por 24 horas

Por cá, a Sociedade Portuguesa de Pediatria, no ano passado (2017), recomendou a realização de sestas das crianças no ensino pré-escolar. Alexandra Vasconcelos, médica da secção de pediatria social da SPP disse à Agência Lusa que  a falta da sesta nas crianças com idades a partir dos três anos representa um “grave problema de saúde pública”, acrescentando que “se as creches não fornecessem uma refeição toda a gente se indignava. A falta de uma sesta é igualmente grave”. A recomendação da SPP ressalva que, depois dos quatro anos, nem todas as crianças necessitam de realizar a sesta de forma regular pelo que “a família e a educadora de infância deverão avaliar, em conjunto, a necessidade da sua prática em cada criança”.

E é tão isto aquilo em que acredito.

Escolha.

Trabalho conjunto entre pais e educadores.

As crianças a serem avaliadas como indivíduos e não somente como parte integrante de um grupo.

Um futuro melhor.

Para todos e a começar na infância.

Para que possamos dormir todos descansadamente à noite, com a cabeça pousada na almofada.

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“A partir daqui dei-lhes todos os dias Melamil e foi um descanso.”

Eu dei Melamil aos meus filhos

Queridos pais:

Esta carta não pretende ser uma crítica em relação às vossas escolhas ou aos conselhos dos pediatras em relação ao sono dos vossos filhos. Pretende sim, ser um relato de uma mãe que se sentiu a perder o Norte e a afundar-se, numa zona sem pé.

Tenho 3 filhos e fiquei 6 anos sem dormir uma noite completa. Todos sabemos dos efeitos da privação de sono num adulto. Imaginem numa criança.

Os meus filhos mais novos sempre (desde os 4 meses) dormiram a noite completa, mas com a mais velha foi tudo diferente. Amamentei-a até aos 10 meses e, na altura, mamava a cada 4h durante a noite. A introdução de alimentos correu muito bem e as rotinas das refeições sempre foram muito regulares. Inicialmente, não estipulei um horário de sono rigoroso: aos 9 meses fazia 3 sestas por dia, e por vezes ficava acordada ao serão connosco. Era o tempo que tínhamos para estar em família e aproveitámo-lo muito bem. Depois mamava e adormecia. O problema é que, quando estava eu no 1º sono, ela acordava para mamar. Mais tarde, passou aos biberons, mas nunca deixou de beber o seu leite à noite.

Conto isto, porque acredito que se lhe tivesse “tirado” o leite à noite, talvez não crescesse com um ritmo de sono interrompido.

O sono é uma coisa muito estranha que precisa de ter uma rotina estanque.

Mesmo em adultos, nós sabemos que basta uma ou outra noitada para nos estragar o ritmo de sono de uma semana.

Quando a minha filha acordava à noite para beber leite, se não lhe desse o seu biberon chorava estridentemente. Nesta altura, já tinha uma irmã bebé, com quem partilhava o quarto. Sempre foi mais fácil dar o leite do que gerir o problema. Mas não me critiquem, eu já estava num grau de cansaço extremo. E estava grávida do meu 3º filho.

Quando os ia deitar, dava de mamar ao bebé e colocava-o no berço. Depois deitava as meninas. A mais nova adormecia enquanto rezávamos. A mais velha ainda bebia um biberão de leite sozinha e, já na cama, pedia-me que ficasse um bocadinho com ela. Eu sentava-me na sua cama ora a contar uma história, ora em silêncio. A sua dificuldade em adormecer era grande, e veio a piorar com aparecimento dos medos que desenvolveu depois dos 3 anos – da morte, do escuro, de estar sozinha e até medo de não conseguir adormecer. A hora de ir para a cama tornou-se também para ela um problema.

E eu ficava lá.

Porque ninguém quer deixar uma criança aterrorizada à noite. Porque seria pior se chorasse e acordasse os irmãos. Porque me sentia encurralada num túnel de um só sentido.

Deixei de ter serões com o meu marido porque quando acabava de adormecer a minha filha, já só tinha tempo para deixar roupas e almoços preparados para o dia a seguir. Eu chegava a ficar 1h30 ou 2h no quarto com ela e a luz de presença.

Inconscientemente, por cansaço ou preguiça comecei a deitá-los cada vez mais tarde. Acho que o antecipar daquelas 2h começava a deprimir-me. Os meus outros filhos, por consequência, começaram também a deitar-se mais tarde. O que eu não previ foi que, passando a “hora do sono”, vem a excitação. E quando me apercebi disso, tinha os miúdos com 4, 5 e 7 anos, a deitar-se tardíssimo. Passavam metade do dia a chorar por tudo e por nada, começaram a comer MUITO pior, caíam e magoavam-se mais vezes, estavam sempre distraídos na escola, enfim. O cansaço tornou-se visível a olho nu. Tornámo-nos numa família que andava sempre aos gritos. E os miúdos também já gritavam uns com os outros.

Eu estava desesperada e resolvi agir.

Já tinha lido sobre o Melamil mas estava renitente em relação a medicar os meus filhos para dormir. Para quem não conhece, o Melamil  é um “suplemento alimentar natural à base de melatonina que ajuda a diminuir o tempo necessário para conciliar o sono.”

Foi a parte do “natural” que me convenceu. Pensei que sendo natural, mal não iria fazer.

Nem falei com o pediatra. Já estava decidida e agora não queria argumentos para voltar atrás.

Falei com umas amigas que me explicaram: “é maravilhoso para ajudar a adormecer, mas se for uma criança que acorda várias vezes à noite, vai continuar a fazê-lo.”

Tranquila. Agora só queria pô-los na cama cedo. Avancei.

Comprar Melamil

Comprei na farmácia onde não me perguntaram nada – nem se era a primeira vez, nem se foi o médico que recomendou, nada de nada. Parecia  tudo muito natural.

Li a posologia onde indica as doses recomendadas de acordo com as idades e adverte que o suplemento não deve ser administrado sem aconselhamento médico. Por isso, dei a dose mínima à minha filha para ver se resultava: 4 gotas, meia hora antes de se ir deitar.

Diz também que deve ser administrado durante 3 meses sempre à mesma hora. Achei um exagero: só precisava que se voltassem a deitar a horas decentes, e não faria sentido um tratamento tão longo.

No primeiro dia, 15 minutos após tomar as gotas, a minha filha mais velha pediu para ir para a cama. Eram 20h45. Nem queria acreditar. Entre lavar os dentes, deitar-se e eu dar um beijinho, já estava a dormir. Nem rezou. Não fiquei lá até adormecer. Não fiquei sem serão (pensei eu). Eu parecia maluca de radiante. Depois, tinha os outros dois, agora já com horários trocados, ainda a pé. Achei que vendo a irmã a dormir conseguia metê-los na cama sem stress ou demoras. Mas não foi assim. Começaram a chamar-me por tudo e por nada: um quer água, o outro tem frio e foi mais uma hora nisto.

No dia a seguir nem pensei duas vezes: gotas para todos.

Foi a loucura, antes das 21h estavam os três a dormir. Eles nem aguentavam os tais 30 minutos.

A partir daqui dei-lhes todos os dias Melamil e foi um descanso.

Até que um dia o frasco acabou. Nessa noite, sem gotas, tentei deitá-los à mesma hora destas últimas semanas, mas o sono chegou ainda mais tarde do que antes.

Lembrei-me que o tratamento deveria ser de 3 meses, então comprei mais uma embalagem.

E voltou a resultar. Nós começámos a descansar mais, os miúdos ficaram mais bem dispostos porque já estavam a dormir um número de horas apropriado à idade, verificaram-se melhorias a nível de rendimento escolar (nem falo em termos de avaliações, mas o entusiasmo e a concentração eram outros).

As rotinas de sono na nossa casa passaram a ser tão rigorosas como sempre foram as das refeições. Sentia-me feliz e orgulhosa.

Embalagem após embalagem, passaram 3 meses. O tratamento acabou.

Percebi que o tratamento tinha acabado e, sinceramente, nem me preocupei. As rotinas estavam tão bem impostas que seria impossível voltar perder o ritmo. Na verdade eu já nem me lembrava de como era quando eles se deitavam tardíssimo. Que estupidez… nem percebi como é que cheguei a esse ponto. Fui mesmo descuidada.

Às 20h30 pedi-lhes que lavassem os dentes e as mãos para irem para a cama. Assim foi. Mas enquanto estavam na casa de banho, a festa era grande porque um deu um pum e uma delas salpicou o espelho de pasta de dentes com a gargalhada que deu. A excitação era grande, e obviamente,  quando chegaram à cama não tinham sono.

A mais velha, ao aperceber-se que não estava a cair para o lado voltou a pedir que ficasse no quarto a fazer companhia. Não quis voltar atrás, agora já adormecia tão bem sozinha. Disse-lhe que não. Passados 15 minutos estava a chorar de pânico porque não conseguia adormecer. Os outros, mantinham-se na cama mas iam falando entre quartos. E eu, a tentar que acalmassem! Percebi que a confusão estava instalada, e que já não poderia voltar a usar o Melamil. Dei copos de água, fiquei um bocadinho em cada quarto, tinham calor, depois outra coisa qualquer.

O mais novo foi o primeiro a adormecer, eram 22h30. As meninas, adormeceram quase à meia noite.

O suplemento alimentar com melatonina criou nos meus filhos uma habituação tal que deixaram de conseguir adormecer sem ele. Sim, eu sei que dei sem aconselhamento médico. Aqui pensei que se calhar deveria ter dado outra dose, ou ter feito o desmame antes de completar os 3 meses… Mas estava completamente às escuras.

Comecei a imaginar que toda a vida iriam precisar de suplementos para dormir, e que a culpa era minha.

Rotinas

Resolvi então mudar alguns hábitos nas suas rotinas, e ao mesmo tempo, arranjar maneira de começarem a produzir melatonina de forma natural.

Deixaram de ver televisão e brincar com gadgets depois da hora do jantar. Está provado que o uso excessivo de gadgets tira o sono. É chamada a “Insónia tecnológica”(dizem).

A luz, também diminui a produção de melatonina, por isso, passei a luz de presença para o hall e gradualmente fui diminuindo a abertura das portas para os quartos, até que se habituaram a adormecer totalmente à escuras, e sem medos.

Todos os dias à mesma hora, começaram a ir para a cama cada um com o seu livro, para 15 minutos de leitura.

Alimentação

Depois investiguei sobre a alimentação: o que poderia dar-lhes que aumentasse a produção de melatonina (que é o que faz o melamil)?

  • Abacaxis
  • Arroz
  • Aveia
  • Azeite
  • Bananas
  • Cebola
  • Cerejas
  • Cevada
  • Espargos
  • Gengibre
  • Laranjas
  • Milho doce
  • Nozes
  • Sementes de linhaça, sementes de abóbora, sementes de chia
  • Tomates
  • Uvas

Estes foram alguns dos alimentos que descobri que estimulam a produção de melatonina, e que dei aos meus filhos.

É importante ressalvar, que o ideal é dar estes alimentos em cru, para que sofram o mínimo de alterações e cumpram mais eficazmente a sua função.

Estas alterações resultaram e, hoje em dia, os meus filhos deitam-se a horas normais para as idades.

Mas este processo não foi do dia para a noite.

Passámos mais de 6 meses a cumprir rigorosamente uma rotina “tolerância zero” quer fosse fim de semana, férias, ou dia de escola.

Obrigou-me a repensar muitas vezes os menus, para conseguir incluir ao máximo os alimentos em questão, tanto ao almoço como ao jantar. A melatonina estimulada por alimentos não deve ser ingerida apenas ao jantar: “o organismo habitua-se a produzir a hormona e depois torna-se um acto continuado, que sincronizado com as rotinas e um ambiente propício, ajudará a criar e a manter um ritmo saudável do sono.”

Esta é apenas a minha história que já foi criticada por muitas mães de crianças que nunca foram um problema para adormecer e por tantas outras, que tendo o mesmo problema, deram Melamil aos filhos durante um curto período de tempo, e resultou. Sabemos que todas as crianças são diferentes, e o que funciona para umas não funciona para todas.

Por isso, antes de se porem a achar que fui má mãe saibam que fui a mãe melhor que consegui ser. E continuo.

 

Por Margarida Alvim, carta de leitora, para Up To Kids®

Crianças, pais e cama própria é um assunto tantas vezes abordado, mas sempre com questões intermináveis para os pais. Há mesmo quem afirme que os seus filhos não são capazes de dormir / adormecer sozinhos “eu sei que outros conseguem, mas o(a) meu (minha) não dá… já tentei e não funciona.”.

Todas as crianças conseguem adormecer sozinhas! Precisam de treino, de ser ensinadas – umas demoram mais tempo; outras demoram menos, mas todas são capazes. Muitas das vezes a dificuldade está nos pais. É aos pais a quem mais custa deixar os seus filhos sozinhos no quarto até adormecerem ou mesmo a dormir sozinhos. Quer por pensarem que os filhos podem não estar bem, sem companhia; quer por os próprios pais (entenda-se os dois ou só a mãe ou só o pai) não quererem estar sem a companhia da criança.

A questão principal deve centrar-se em “é importante a criança ter o seu próprio quarto / cama para dormir?”; “é importante a criança adormecer sozinha ou posso fazer-lhe companhia até adormecer?”.

As respostas: As crianças devem ter o seu próprio quarto, cama própria e adormecer sozinhas. É importante e saudável que assim seja. Naturalmente que poderão reclamar a presença dos pais; reagir por não quererem estar sozinhas; chorar, chamar… Os pais devem ir, apoiar, mostrar que estão presentes e atentos, mas voltar a sair até que a criança consiga adaptar-se ao seu quarto e ao facto de adormecer sem companhia. Os pais devem “aguentar” este choro / chamamento / reclamação sem cederem a passa-los para a cama dos pais ou a ficarem junto da criança até que esta adormeça.

O “contacto” com os seus medos, com o desconforto que poderá provocar a noite e o estar sozinha, proporciona à criança a possibilidade de poder confrontar-se com isso mesmo, aprendendo a geri-los interiormente e ultrapassá-los. Esta conquista favorece a sua autonomia emocional, o que é de extrema relevância no desenvolvimento emocional infantil. Isto proporciona à criança perceber que é capaz; que consegue transpor barreiras (neste caso as do medo, por exemplo) e a sentir-se segura, sem precisar para tal da presença constante do adulto. Isto é, neste confronto entre os seus receios, o estar sozinha num espaço e perceber que a presença do adulto é uma certeza – ainda que sem contacto visual – a criança cresce de forma mais autónoma e, portanto, necessariamente mais saudável. Este poderá ser entendido como um dos caminhos pelo qual os pais dão aos seus filhos ferramentas para se alicerçarem numa confiança e segurança evolutivas que vem de dentro, ao invés de crescerem a pensar que precisam sempre de um apoio; de uma bengala exterior (os pais, por exemplo), tal como acontecia quando nasceram.

 

O seu filho tem medo de ir dormir sozinho? 8 dicas para o ajudar

O medo de ir dormir sozinho está relacionado com os medos que a criança desenvolve sobre o mundo. Por vezes no seu imaginário, por vezes sendo medos reais.

O medo é um sentimento intrínseco ao ser humano, tal como a alegria ou a desilusão, por isso é normal todas as pessoas terem medo. Nas crianças o medo faz parte da aprendizagem, e constitui uma parte importante do seu desenvolvimento.

O medo do escuro desenvolve-se normalmente a partir dos 2 ou 3 anos. Mas antes dessa fase a criança já começou a construir o seu mundo através da exploração do imaginário, experienciando diversos sentimentos, incluindo o medo.

Durante a noite, na hora de ir para a cama, o medo apodera-se do seu filho. Primeiro porque se sente desprotegido por ter de ficar separado dos pais; 2º porque assim que as luzes se apagam tudo o que é palpável e que ele conhece desaparece, dando lugar a que criaturas estranhas saiam debaixo da cama alegremente, só para o assustar.

Ensinar o seu filho a lidar com o medo durante a infância é fundamental para prepara-lo para o futuro.

Se o seu filho tem medo de ir dormir sozinho, estas são 8 dicas simples, que são comuns à literatura especializada que foi por mim consultada:

  • Converse com o seu filho. Ouça-o e tranquilize-o.

Compreender a origem dos medos das crianças é essencial para os podermos ajudar. Desmistifique os medos reais: se o seu filho tem medo de cães, mostre-lhe na internet vídeos de cães a brincar com os seus donos. Por vezes esse medo é fruto do desconhecido e, quanto mais familiarizados com o objecto do medo, mais seguros ficam em relação ao mesmo. Tranquilize-o sempre que esteja com medo. Reforce a ideia do sentido de segurança sempre que ele precisar.
Converse com o seu filho sobre os seus medos durante o dia. Ajudá-lo a construir a sua autoconfiança à luz do dia, é meio caminho andado para fazê-lo sentir mais seguro à noite. E uma criança segura, irá tornar-se por certo mais autónoma.

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  • Seja criativo, use técnicas adaptadas à idade do seu filho.

Para combater medos imaginários, como monstros, extraterrestres e outros seres que, inexplicavelmente, teimam em habitar os quartos dos nossos filhos, seja criativo. Muitos Pais já aderiram ao “pulverizador antimonstro” por ser um sucesso para acalmar os mais pequeninos.
Os animais de estimação também são óptimos guardiões do sono e sonhos infantis. Até mesmo um aquário com peixes colocado no quarto, pode ajudar as crianças a controlar e dominar o seu espaço contra os seres imaginários.

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  • Nunca desvalorize os medos do seu filho.

Os medos de uma criança são reais, ainda que os monstros não sejam. Desacreditá-los e desvalorizá-los só implicará que os deixe de partilhar consigo. Já o mal-estar interior e a ansiedade vai reflectir-se fisicamente através de falta de atenção, tiques, mãos transpiradas, dores de cabeça ou de estômago, entre outras. As crianças precisam da protecção dos pais, para se sentirem seguras e perderem os medos. Não os deixe perder esse direito.

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  • Ajude a criar mecanismos de defesa e técnicas de relaxamento.

A coragem não é a ausência de medo: é sim saber enfrentá-lo. Partilhe episódios seus de medos que tinha quando era mais novo e como os conseguiu ultrapassar. O seu filho vai entender que, se os pais enfrentaram os seus medos e estão bem, também a eles nada lhes irá acontecer. As técnicas de relaxamento farão com que o medo não se apodere dos seus pensamentos na hora de ir dormir: por exemplo, treine-o a visualizar uma cena relaxante, como estar na praia, assistir a um pôr-do-sol ou a observar as estrelas. Isso vai ajudá-lo a ter a mente ocupada afastando os pensamentos que o inquietem. Além disso é fisicamente impossível estar relaxado e assustado ao mesmo tempo.

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  • Estabeleça limites, regras e rotinas

A coisa mais importante que podemos dar aos nossos filhos, além do amor incondicional, é a disciplina. De modo não fundamentalista, criar regras, estabelecer limites e seguir rotinas pode fomentar a criação dessa disciplina.
A rotina é essencial para que tudo aconteça de acordo com as expectativas geradas na cabeça da criança, criando a desejável habituação. Este ciclo fará com que a criança se sinta protegida, reduzindo-lhe a ansiedade e proporcionado uma hora de ir para a cama mais tranquila.

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  • Evite televisão em excesso durante o dia e mantenha-a desligada depois da hora de jantar.

Hoje em dia, os miúdos adoram passar horas em frente à televisão e a oferta de programas infantis é permanente. A todas as horas do dia há canais dirigidos ao público mais novo, fazendo com que desde muito cedo as crianças dominem os comandos da casa. A televisão estimula a criatividade e a imaginação das crianças, fazendo com que isso se possa reflectir na ansiedade gerada na hora de dormir. Aproveite os momentos antes de ir para a cama para passar tempo útil com os seus filhos. Leia uma história, façam jogos de palavras ou de tabuleiros, cantem em conjunto, ou simplesmente aproveitem para conversar.

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  • Peluches e ó-ós (bonecos de segurança)

Ajude o seu filho a ficar ligado a um boneco que lhe transmita a segurança que precisa. Normalmente as fraldas, óós e afins, aparecem e fazem parte da vida da criança desde que nasce. Se esse não é o caso do seu filho, ofereça-lhe um boneco macio de alguma personagem de que gosta muito. Fomente todas as noites a relação entre os dois, colocando esse boneco na cama do seu filho. Ele vai sentir-se mais acompanhado e relaxado e estará a pensar no boneco, desviando o pensamento dos assuntos que lhe criam ansiedade. (ler artigo sobre bonecos papa-medos)

 

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  • Luz de presença

Chega uma altura em que o seu filho lhe pede uma luz acesa. A luz é uma óptima companhia e solução para acabar com alguns dos seus medos. O facto de conseguir ver o quarto todo faz com que os monstros não consigam sair debaixo da cama e que os extra-terrestres não entrem no seu território, dando-lhe um sentimento de controlo e poder sobre o espaço que o rodeia. Isso deixa-o mais tranquilo e seguro.

Deve também deixar as portas e gavetas dos armários fechadas, para não dar azo à imaginação.
As luzes de presença, podem dar origem ao aparecimento de sombras que são tão assustadoras como a escuridão. Opte por deixar uma luz difusa, que vai tranquilizá-lo sem o prejudicar, até que seja mais velho. Um dia, há-de esquecer-se de pedir que deixe a luz, ou até dizer que já não precisa dela.Se o seu filho não tem medo do escuro e divaga pela casa a meio da noite, clique aqui

 

me·do |ê|
(latim metus, -us)
substantivo masculino
Estado emocional resultante da consciência de perigo ou de ameaça; reais, hipotéticos ou imaginários. = FOBIA, PAVOR, TERROR
[“medo”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa]

 

Bibliografia:

  1. Take Charge of Your Child’s Sleep: The All-in-One Resource for Solving Sleep Problems in Kids and Teens”.  by Judith A. Owens  and Jodi A. Mindell
  2. “O grande livro dos medos e das birras! de Mário Cordeiro
  3. outras fontes aqui e aqui