A minha filha tem fúrias

Faço esta pergunta como mãe e ainda estou à procura de respostas.

A minha filha tem 4 anos, é um amor, carinhosa e preocupada mas também tem fúrias. Há alturas em que passa para o lado de lá da força e nessas alturas vai tudo à frente.

Há uma tendência de os pais ficarem incrédulos porque não foi assim que educaram os filhos. Ou porque simplesmente foram crianças tão diferentes deles.

Cresci a ouvir dizer que nunca tinha feito uma birra e, bem, digamos que não somos minimamente iguais.

Conheço a minha filha como ninguém mas isso não significa que saiba tudo sobre ela ou que consiga perceber tudo o que está a sentir.

Tento, é esse o meu papel, e tento também orientá-la dentro da raiva e fúria que está a sentir, a frustração que transmite no seu comportamento.

Tento que perceba que pode comunicar de outra maneira.

Uma das estratégias que encontrei foi pedir-lhe que me tente explicar o que está a sentir usando palavras. Sei que isto, para quem está fora de si, dá vontade de chutar o balde e mandar o outro para um certo lugar. E às vezes não resulta. Noutras resulta e ela vai verbalizando e eu vou tentando ajudar a falar, a exprimir, a explicar.

Mas há alturas em que nem ela sabe já o que a deixou assim e, por isso, esta estratégia não resulta.

Já fiz este mundo e o outro e tento seguir o meu instinto no momento.

É cansativo, suga-me a alma e muitas vezes acabo derrotada e a chorar por dentro (até que posso chorar para fora), mas procuro fazê-la perceber que não é assim que se resolvem conflitos ou se manifesta tristeza ou raiva. Não deveria ser.

Já li que as crianças só têm maturidade emocional por volta dos 5 anos e estou a contar os dias para lá chegar, para provar a teoria, sabendo à partida como todas as crianças são diferentes e como os timings variam de umas para outras.

Quero que sinta que se pode exprimir. Mas que entenda que nesse processo não pode magoar os outros, verbal ou fisicamente – e não se pode magoar a si.

Este processo de não desistir dela e de não a deixar por sua conta dá-lhe a segurança de sentir que, apesar de às vezes errar, não está sozinha.

Porque não está e canso-me de lho dizer.

Às vezes termina a pedir-me desculpa e a dizer “vamos voltar a ser amigas”.

Explico-lhe que nunca deixei nem deixarei de ser sua amiga porque ela age de maneira errada comigo. Porque sou sua mãe e estou aqui para a ajudar. Mas faço questão de dizer que para as outras pessoas isto pode não ser válido, porque quero que compreenda que não se pode fazer tudo aos amigos. Há coisas que simplesmente não têm perdão e não podemos esperar que nos aceitem depois de errarmos. Podemos desejá-lo, trabalhar para isso, mas não exigir isso dos outros.

Porque este amor incondicional pertence aos pais. E nós somos os primeiros a terem de ser tratados como tal.

Se desse lado também há dias cinzentos, muita força. Às vezes temos de atravessar a tempestade de mãos dadas para conseguirmos chegar juntos até ao arco-íris.

Férias com filhos: expectativa vs realidade

Como eu queria (e merecia, porra) que fossem as minhas férias

Não ter hora para acordar. Uma praia paradisíaca com areia branca e água quente. O sol a queimar-me a pele. Almoços com vista para o mar. Uma pulseira de livre-trânsito para o bar no pulso e um cubano a servir-me daiquiris. Massagens relaxantes no spa do hotel. Jantares demorados, mergulhos na piscina fora de horas e sexo sem hora marcada. Muito sexo.

Como vão ser as minhas férias

Os miúdos vão acordar antes das sete da manhã. Eu e o meu marido vamos ver quem finge durante mais tempo que não os está a ouvir.

Não evitando o inevitável, levantamo-nos da cama, tomamos o pequeno-almoço, vestimos os fatos de banho, metemos protetor solar. Agarramos em dois chapéus-de-sol e chegamos à praia quando ainda está aquele friozinho da madrugada.

Estendemos as toalhas. Despimos os miúdos que vão gritar que está frio (eu não tinha reparado) enfiamos os chapéus naquelas cabeças e gritamos dezenas de vezes para que não os tirem.

Vamos estar em alerta constante para eles não correrem para a água sozinhos e para não falarem com desconhecidos. Não podemos esquecer-nos de reforçar o protetor solar enquanto os miúdos esperneiam que querem ir encher outra vez o balde com água e assim que começa a ficar aquele calor capaz de nos tirar a cor de lixívia das pernas, temos que pegar nas toalhas onde não sentámos o rabo, nos baldes e pás e ancinhos e o diabo que eles quiseram levar para a praia e regressar a casa a tempo de aturar várias birras de sono.

Um faz o almoço, o outro dá os banhos. Pomos a mesa, almoçamos com as birras a atingir o auge do cansaço e tiramos à sorte quem se vai deitar com eles a dormir a sesta até chegar a hora em que o sol já não queima para irmos para a praia outra vez.

Chegada a hora lanchamos, vestimos os fatos de banho, metemos protetor solar sabe Deus porquê, que a esta hora o sol já nem cócegas faz, pegamos num chapéu-de-sol e lá vamos nós.

Chegamos à praia cheia de miúdos a correr por todo o lado. Encontramos por milagre um espaço para estender as toalhas. Despimos os miúdos. Enfiamos os chapéus naquelas cabeças e gritamos dezenas de vezes para que não os tirem (onde é que eu já li isto?).  Vamos estar em alerta constante para eles não correrem para a água sozinhos e para não falarem com desconhecidos. Vamos estar de rabo para o ar a fazer piscinas à beira mar e com sorte damos um mergulho ou dois.

Quando até estamos a gostar de estar ali, os miúdos vão estar a arrastar-se de sono e pegamos nas toalhas onde não nos deitámos a ler um livro, nas bolas, baldes, conchas e quilos de areia e regressamos a casa para mais um dose de banhos, birras e o Deus nos ajude do costume.

Jantamos, adormecemos os miúdos e com sorte vamos sentar-nos no terraço a beber uma bebida qualquer que comprámos no supermercado. Porque não, não temos um cubano a servir-nos daiquiris, enquanto deitamos conversa fora até admitirmos que estamos exaustos e irmos dormir sem termos sexo.

Faltam quinze dias para as minhas férias.

Sim, estou a contar? Porquê? Porque sou parva, os pais não têm férias. A única diferença entre as férias e os dias normais é que aturamos os miúdos num lugar diferente.

Como evitar birras às refeições?

“Parece de propósito! Logo hoje que preciso de chegar a horas a um sítio é que decides fazer uma birra dessas!”

Cá em casa também era assim. Cada manhã, um suplício. Mas há poucas semanas, tudo mudou. O momento de viragem foi o dia em que a minha filha mais nova, que está quase a fazer 3 anos, fez a birra das birras ao pequeno-almoço: ela gritava, esperneava, nada a acalmava. Parecia que o mundo ia acabar. Tudo por causa de um simples iogurte, que era-mas-afinal-não-era-bem aquilo que ela queria para começar o dia. E eu atrasado para uma reunião…

Mudar o foco

A minha vontade, naquele momento, foi a de muitos pais nesta situação: ralhar (“come isso imediatamente!”), chantagear (“se não comeres…”, premiar (“se comeres dou-te…), castigar (“ai não comes? Então…). O espetáculo foi tal que me passou pela cabeça dar-lhe uma nada consoladora palmada no rabo! Mas, em vez disso, comecei a aplicar o que tenho aprendido com a Disciplina Positiva: respirei fundo (muito fundo!), mantive a calma e… mudei-lhe o foco, inventando uma brincadeira em que o iogurte (o tal que ela não queria…) era tão apetecido que o melhor seria que ela o comesse todo (e rápido) antes que… a Princesa Sofia acordasse e o comesse por ela. Resultou em cheio e, em menos de 10 minutos estávamos na rua.

Dias antes já tinha aplicado a mesma estratégia, com resultados idênticos, quando ela acordou em histeria a meio da noite, a chorar e a espernear como uma louca. Nessa madrugada só se acalmou quando consegui que prestasse atenção à sua boneca favorita, que lhe disse que acordou “assustada com a berraria” dela. Depois inventei uma história (sem grande nexo, porque estava meio a dormir) que só me lembro que metia um castelo e uma princesa, que estava doente e não podia ouvir o barulho de alguém a chorar à noite, porque senão acordaria no dia seguinte cheia de espirros…

Antecipar comportamentos e dar opções limitadas

Depois das duas situações que descrevi, passei a apostar ainda mais na prevenção. “Se o pequeno almoço é um momento de potencial tensão, porque não envolvê-la na sua preparação?”. Criámos uma rotina juntos e agora abro o frigorífico e dou-lhe opções limitadas: “o iogurte de banana ou de morango?”. O pequeno almoço passou a ser um momento divertido, sem stresses e que reforça os laços familiares. E nunca mais cheguei atrasado a lado nenhum pela manhã.

Promover a cooperação tem sido outro dos trunfos, para evitar fitas à mesa ao pequeno almoço (e também resulta noutras refeições). Por exemplo, deixo que seja ela a deitar e a mexer os cereais na tigela onde deita o iogurte. No início entornava bastante, agora raramente deixa cair mais do que um ou dois pedaços. Depois, dou-lhe um bónus: escolher a colher que quer usar: “a do Mickey ou a do Pluto?”. E voilá!

Desenganem-se os pais que acham que, com esta “estratégia”, a deixei “ganhar”, “levar a melhor”. Nada disso. Limitei-me a dar-lhe poder de escolha, mas dentro de soluções limitadas, aceitáveis e respeitosas para ambos. O que a longo prazo terá efeitos positivos, já que está a aprender a decidir por si, em vez de o fazer contrariada, porque é obrigada a tal.
O que faz toda a diferença.

Estava no hospital à espera da minha vez para uma consulta, a sala cheia, pessoas sentadas, pessoas em pé, umas a conversar, outras a tossir, outras a reclamar, o placard a anunciar o número das senhas e de repente o choro de uma criança fez parar o barulho ensurdecedor da sala. Estremeci. Reconheço de cor o som de uma birra. Olhei e vi uma mãe com olheiras até ao chão, cabelo apanhado à pressa, um ar que tanto podia ser de desespero, como de exaustão, como de loucura. Era a vez dela, senha quinze, guichet número cinco. A miúda a fincar os pés no chão, a mãe a arrastar a miúda pelo braço e o choro cada vez mais alto. O placard anuncia outra vez a senha quinze, guichet número cinco. A mãe chega finalmente ao guichet, pede desculpa, um sorriso amarelo, a miúda senta-se no chão, a mãe tenta tirar papéis de dentro da mala, a miúda deita-se no chão a chorar, a mãe entrega o cartão de cidadão, a miúda puxa o casaco da mãe, a mãe não aguenta mais e dá um berro:

– Estás a fazer birras deste que acordaste, acaba já com isso ou levas uma palmada no rabo!

A mãe olhou à volta, pegou na filha ao colo, baixou a cabeça e saiu da sala.

Tive vontade de me levantar e ir abraçar aquela mãe. Podia ser eu. Podia ter sido eu o alvo daqueles olhares reprovadores. Aquele cansaço e aquele desespero podia ser meu.

Dias mais tarde, novamente numa sala de espera, desta vez nas urgências do centro de saúde com o meu filho, enquanto esperava que o chamassem, uma miúda choramingou o tempo todo. Todo. Passava do colo da mãe para o colo do pai, levantava-se, sentava-se no chão, deitava a cabeça nas cadeiras, fugia para os gabinetes das enfermeiras, dava pontapés no caixote do lixo, o pai levou-a a apanhar ar, voltou para o colo da mãe, atirou o telemóvel da mãe ao chão, a mãe deu-lhe uma palmada no rabo, ela chorou ainda mais alto e a mãe saiu da sala com as lágrimas nos olhos perante o abanar de cabeça de quem lá estava.

Tive vontade de me levantar e ir abraçar aquela mãe. Podia ser eu. Podia ter sido eu o alvo daqueles olhares reprovadores. Aquele cansaço e aquele desespero podia ser meu.

Aquela mãe precisava de um abraço, de colo, de alguém que lhe dissesse que não é má mãe, que os miúdos fazem birras sabe Deus porquê e que a culpa não é nossa. Mas, tudo o que esta mãe e a outra mãe e todas as mães recebem quase sempre, é aquele terrível olhar reprovador que diz sem dizer que estamos a fazer tudo mal, que não prestamos neste trabalho de sermos mães dos nossos filhos, que os miúdos são mal-educados e a culpa é nossa. Não impomos respeito, não sabemos educar e não definimos limites.

Vejo isto a toda a hora e em todo o lado. Nas salas de espera das urgências, nas filas de supermercado, nas lojas, no cinema, na praia, nos parques infantis, nos transportes públicos, nos restaurantes, em nossa casa. Que os miúdos se livrem de se mexerem na cadeira do restaurante, de se rirem alto, de se meterem nas nossas conversas, que se livrem de chorar de aborrecimento, de cansaço ou de dor, que se livrem de fazer uma qualquer birra estúpida, que se livrem de serem pessoas em construção, com vontades, frustrações e tentativas manhosas de nos manipular. Que se livrem de serem crianças, porque se o fizerem a culpa é nossa. Das mães que aos olhos dos outros não sabem ser mães.

imagem@gettyimages

As Crianças Não Fazem Birras | M.J.Silva

Livro recomendado pela Up To Kids 

SINOPSE
Conhecer e compreender as crianças é um passo fundamental para conseguirmos agir e interagir com elas. Sem conhecermos o seu interior, a forma como vêm o mundo, como se movimentam no mundo, é o nosso estado de não-consciência que tantas vezes prevalece quando educamos os nossos filhos. 

Ao longo das páginas d’AS CRIANÇAS NÃO FAZEM BIRRAS vai percorrer juntamente com a autora os trilhos que M.J.Silva desbravou sobre o universo da criança, vão navegar juntos pela interligação entre a conexão, o amor e a empatia e outras emoções ligadas ao desenvolvimento saudável na infância. Alternando afirmações incisivas e outras provocatórias, desenvolvidas com a intenção de fazer reflectir, vai compreender como introduzir estes novos conceitos no seu dia-a-dia. E ao compreender as emoções, vai aprender a conseguir desenvolver mecanismos para melhorar a forma como lida com os seus próprios filhos.

AS CRIANÇAS NÃO FAZEM BIRRAS é um livro para ser lido, riscado, escrito, sublinhado. É um livro construído para tomar notas, registar os seus pensamentos, destacar com marcador, fazer desenhos à volta das palavras que lhe fizerem sentido. M.J.Silva convida-o a fazê-lo directamente aqui, de modo a que este livro se torne também um registo pessoal para si.

Este livro conta com o apoio da Associação Portuguesa para a Igualdade Parental e Direitos dos Filhos e da Up To Kids e está já disponível na Amazon.
as crianças não fazem birras

11 rastilhos para birras

Filha, vamos falar sobre as tuas birras.

Aquelas que rebentam com os nervos do pai e da mãe e te transformam num monstrinho que grita e dá pontapés no ar. Aquelas que nós pedimos tanto, mas tanto, para não as fazeres e mal acabamos de o dizer já estás tu a espernear ou a escorregar na cadeira enquanto jantamos.

Tu sabes que fazes muitas birras não sabes? Fazes birras por tudo e por nada, fazes birras de manhã, à tarde e à noite, fazes birras de sono, de cansaço e de aborrecimento. Na verdade eu acho que fazes birras porque gostas de te ver a chorar ao espelho, não é? Confessa, eu já te apanhei a sorrir para o espelho enquanto as lágrimas te caiam pela cara. Estás só a gozar comigo e com o pai, não é?

Se eu te disser alguns dos motivos das tuas birras vais-te rir ou vais fazer mais uma birra, que tu não gostas nem um bocadinho que gozem contigo, mas olha meu amor, birra por birra, que seja uma que eu já estou à espera.

Filha, tu fazes birras porque:

  1. querias os cereais na tigela roxa e eu dei-te os cereais na tigela cor-de-rosa; 
  2. pintei-te primeiro a unha do polegar em vez da unha do anelar;
  3. não vês o arco-íris há muito tempo;
  4. eu chego ao carro e digo-vos “Olá!” e vocês estavam a brincar ao silêncio;
  5. é de manhã;
  6. não te leio vinte histórias antes de dormires;
  7. o pai pegou primeiro no mano ao colo;
  8. queres comer chocolates ao pequeno-almoço;
  9. o vento despenteou-te o cabelo;
  10. se partiu o bico do lápis com que estavas a pintar;
  11. querias as batatas fritas em cima do guardanapo e não no prato.

E é isto, de manhã, à tarde e à noite, em casa, no carro e, na rua, todos os dias da semana. Tu sabes que nós somos os melhores pais do mundo, somos um nadinha nervosos e impacientes, mas somos sem dúvida os melhores, filha tem dó de nós, ouve o desespero da tua mãe, podes fazer menos birras por favor?

 

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O segredo das birras

As crianças não fazem birras

 

Estou sim, bom dia, daqui fala a mãe, em que posso ajudar?

Os filhos são muito parecidos com os clientes. Pensam que têm sempre razão e, quando os argumentos falham, fazem birras. Em desespero, usei com os meus filhos as técnicas de atendimento ao cliente que aprendi em tempos ao trabalhar num call-center. Continuou sem resultar, mas eu diverti-me. Deixo-vos alguns exemplos:

Autoridade

  • Lamentamos que as regras de adesão ao serviço Os Pais É Que Mandam não lhe tenham sido devidamente explicadas, mas podemos garantir que os benefícios associados ser-lhe-ão úteis a longo prazo.
  • Compreendemos o seu desagrado, mas o contrato que mantém com a empresa Pai & Mãe, Lda. tem a vigência mínima de 18 anos, durante os quais as condições do mesmo poderão ser alteradas sem aviso prévio. Caso pretenda, poderá encaminhar o seu pedido de esclarecimentos para o endereço de e-mail: naoqueremossaber@quemmandaaquisomosnos.pt.

Refeições

  • O que me está a indicar é que não vai comer os brócolos até que eu a obrigue, entendi bem?
  • Peço-lhe que não fale com a boca cheia, não consigo entender o que me está a indicar.

Hora do Banho

  • Infelizmente a campanha “Não tomar banho” encontra-se descontinuada, no entanto temos em vigor a campanha de última hora “Vai tomar banho já antes que eu te arraste por um braço”.
  • Compreendemos a sua insatisfação por ter de deixar de ver televisão para ir tomar banho, mas o nosso serviço não disponibiliza o jantar enquanto o banho não for tomado.

Dormir

  • Neste momento são 21 horas e não é possível aderir ao pacote “Não dormir e dar cabo da cabeça aos meus pais”. Pode, no entanto, escolher a opção “Adormecer com o pai em 5 minutos” ou, em alternativa, “Adormecer com a mãe em 3 horas e 15 minutos”.
  • Lamento informar que já esgotou o plafond de histórias, a partir deste momento as luzes serão apagadas e agradeço que durma uma noite descansada.

Birras

  • A Senhora M. é uma cliente muito importante da nossa empresa e temos como objetivo manter a sua satisfação. Garantimos que faremos o que estiver ao nosso alcance para ultrapassar os constrangimentos relacionados com o processo negocial em curso.
  • Compreendo que esteja insatisfeito, mas os seus gritos impedem-me de perceber a totalidade dos seus argumentos.

Vestir

  • Peço-lhe que aguarde um momento, voltaremos a esta discussão sobre que sandálias vai levar para a escola dentro de 5 minutos.
  • Agradecemos desde já que tenha sujado pela terceira vez a camisola que tinha vestida, nada nos deixa mais satisfeitos que ter de lhe mudar a roupa quando estamos com pressa para sair de casa.

Os porquês

  • Trabalhamos constantemente para dar resposta aos seus porquês e procuramos melhorar os tempos de espera. Contamos desenvolver a capacidade de resposta a trinta porquês por minuto dentro de duas a três semanas.
  • Terei de encaminhar a sua questão para o departamento técnico e dar-lhe-ei uma resposta ao seu porquê o mais breve possível.

 Doenças

  • Eu também preferia não ter de aspirar os macacos do seu nariz, mas se o deixar ir para a escola com o nariz cheio de ranho corro o risco de chamarem a Segurança Social.
  • Agradecemos o seu empenho em vomitar na sanita e não no chão, para mostrar o nosso apreço, vamos oferecer-lhe uma Barbie. Esteja atenta à caixa do correio.

 Irmãos

  • Solicitamos que não puxe os cabelos do seu irmão, as penalidades por incumprimento desta cláusula incluem não ver televisão durante dois dias.
  • O período de garantia do boneco da sua irmã já foi ultrapassado, se lhe arrancar a cabeça o mesmo não será substituído.

As possibilidades são infinitas, tal como as birras. Os resultados, esses, são quase sempre os mesmos: uma enorme dor de cabeça.

Perde a cabeça durante uma birra? A culpa é do seu cérebro

A caminho do metro cruzei-me com uma mãe que ralhava com o filho de 8 ou 9 anos. “Não voltas a falar assim, ouviste?”, ameaçou, fora de si. E antes que o menino dissesse alguma coisa, levou uma chapada na cara.

Segui viagem mas fiquei a pensar naquilo. Em como poderia aquela mãe ter (re)agido caso tivesse conseguido acalmar-se primeiro e voltado a reintegrar-se, acedendo à parte “racional” do cérebro. Parte “racional”? Sim…

E se eu lhe disser que a “culpa” das suas reações ao “mau” comportamento das crianças é, em primeiro lugar, do seu cérebro?

Perder a cabeça

O que é que acontece quando teve um dia complicado, em que discutiu com o colega do lado, levou uma reprimenda do chefe, não dormiu o suficiente ou, simplesmente, está cansada/o? E em que, para além disso, chegou a casa e os seus filhos fazem uma birra daquelas…? Perde a cabeça. Salta-lhe a tampa.

Isto acontece porque, nos momentos de tensão, não consegue aceder à parte “racional” do seu cérebro: o cortex pré-frontal. Que é a área que regula as emoções, as suas relações com os outros, a flexibilidade de resposta às situações, a moral e intuição, a forma como apreende o que a/o rodeia e a consciência de si mesma/o. Ao não ter a capacidade de regular tudo isto, nem sequer se dará conta do quanto está a ser desrazoável com os seus filhos.

Quando chega a casa naquele estado, o que é que se vai passar com os seus filhos? Que também podem ter tido um dia cansativo, como o seu. Entrarão em choque consigo, claro. Isto porque têm neurónios espelho, como todos nós. E refletem o que veem.

Essencial manter a calma!

E se em vez de reagir de forma intempestiva, conseguisse manter a calma? De que forma (re)agiria? E que atitude acha seria mais provável ver no seu filho?

Pense nisto: o que a/o ajuda a acalmar-se? O que pode fazer para se tranquilizar? Contar até 10? Ir à casa de banho? E por que não sair de cena durante uma birra, por exemplo?

Entender o que passa connosco quando nos tiram do sério, é meio caminho andado para melhorarmos a relação com os nossos filhos. E com os outros.

Ter a capacidade para se tranquilizar antes de (re)agir significa voltar a integrar-se. E permitir que o cérebro “funcione” novamente. Sei que nem sempre é fácil, mas é algo que pode treinar-se.

A ideia não é que não volte a perder a cabeça, porque isso é impossível. Todos continuaremos a fazê-lo. O desafio é darmo-nos conta do que está a acontecer, e de forma mais rápida, para depois atuarmos com firmeza e respeito ao mesmo tempo. São estes os conceitos-chave da Disciplina Positiva.

imagem@tickld

Com o início do novo ano letivo decidimos mudar os miúdos de escola. Seguimos o nosso coração e a nossa cabeça, eles precisavam de mais, não mudar era continuar a ignorar o óbvio.

Sabíamos que ia ser muito difícil para eles, a mudança de escola exige muito de qualquer um e querer que as crianças lidem com a mudança e com os sentimentos inerentes à mesma de ânimo leve é ser muito ingénuo.

Eu não fui completamente ingénua, fui talvez otimista demais. Estava preparada para a dificuldade, para choros e birras, para as emoções e para a insegurança, não estava era preparada para estas duas últimas semanas.

Foram duas semanas com birras demoníacas e se esperam que vos diga que já acabou, não, não acabou.

Passo os dias a repetir a mim mesma que vai correr tudo bem e que eles se vão adaptar à escola nova. Procuro dentro de mim a paciência que não tenho, invento a calma que acho que é precisa, a mãe que grita está escondida algures numa gruta para não piorar as birras e rezo a todos os santinhos em que não acredito, para que se faça luz e que isto melhore antes que eu fique completamente maluca. E juro que já não falta muito.

Toda a minha energia física e mental tem sido sugada para esta adaptação. São os choros desesperados das manhãs, são as birras do final do dia que mais parecem saídas de um filme de terror e eu sinto-me uma malabarista que em vez de bolas nas mãos, tem birras que vai fazendo girar no ar, para que nenhuma caia no chão e rebente como uma bomba atómica.

O meu cérebro está esgotado, não consegue juntar duas palavras sem enorme esforço, sinto dores no corpo como se tivesse sido atropelada por um camião, mas mesmo assim eu continuo a repetir sem parar que vai correr tudo bem, que os miúdos se vão adaptar e aproveitar ao máximo a nova escola.

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“Já tentei tudo e não consigo acalmar o meu filho quando está zangado!”, desabafou um pai desesperado, no final do workshop “Ganhar os miúdos versus Ganhar aos miúdos”, que dei no fim de semana passado.

Dei-lhe algumas sugestões e prometi que escreveria um artigo sobre o assunto, com dicas práticas para acalmar as crianças quando as palavras não funcionam. Aqui vai.

Cada criança é uma criança…

… e aquela solução que resulta com uma, pode não resultar com outra. E até pode resultar naquele momento mas não resultar no seguinte. Ou vice versa.

Se uma ideia não resulta, tente outra. Mas mantenha a primeira em aberto, pode sempre tentar usá-la novamente mais tarde. Em diferentes situações, as crianças podem responder de forma positiva a diferentes métodos.

Sem mais demoras, aqui ficam então as tais dicas práticas e para ajudar a acalmar os miúdos. Algumas poderão parecer-lhe desadequadas para um momento de conflito, mas sem tentar não vai saber se resultam ou não!

  1. Dê-lhe um abraço. Costumo fazê-lo com os meus filhos. Num momento de tensão, em que estão zangados, ponho os meus braços à volta deles e puxo-os para o meu colo, levemente. Dou-lhes um abraço apertado, mas não em demasia, deixando-os à vontade para me abraçarem de volta ou sairem dali se preferirem.
  2. Mude-lhe o foco. Resulta sobretudo com crianças mais pequenas. E passa por distrair, redirecionar o comportamento, com toda a calma, para algo de que a criança goste: um objeto, atividade, ou história, por exemplo. Mas cuidado para não transformar esta estratégia numa recompensa!
  3. Susurre-lhe. Segredar ao ouvido pode ajudar o seu filho a acalmar-se, por forma a que possa ouvir o que lhe quer dizer. Depois é preciso dar seguimento, empatizar, mostrar compreensão pelos sentimentos e procurar uma solução conjunta para resolver a situação.
  4. Cante e/ou dance! Seja criativa/o! Improvisar uma cantoria num momento de tensão vai surpreender a criança, que esperava uma reação diferente, provavelmente de censura ou ameaça de castigo. E pode ser suficiente para que ela troque o ar zangado por… um sorriso. O mesmo se passa com a dança, pode começar uma dança divertida e convidá-la para participar.
  5. Faça-lhe cócegas. Um clássico, que desmonta a birra de muitas crianças. Cá em casa resulta quase sempre com os meus filhos.
  6. Todos para o banho! Às vezes, um banho ou duche de água quente ou fria pode ajudar a acalmar a criança. E porque não tomarem banho juntos?
  7. Crie um ambiente. Difundir óleos essenciais pela casa, como Lavanda ou Camomila, ajuda a promover uma atmosfera calma, que pode ajudar ao “arrefecimento” da zanga.
  8. Seja paciente. Sente-se ao lado do seu filho e espere, simplesmente. Não diga nem faça nada. Deixe-o tentar encontrar o seu próprio modo de se acalmar. Tal como as anteriores, esta “técnica” não resulta em todos os casos, sobretudo naqueles em que a criança está mais alterada. Mas aqui fica à sua consideração. Afinal, não há quem seja maior especialista nos seus filhos do que você!
  9. Arranje-lhe um espaço seguro… para onde a criança possa ir acalmar-se. Assegure-se que não sairá do seu raio de ação e que está à vontade para voltar a si quando quiser.
  10. Leia-lhe uma história. Mesmo que a criança não se mostre disponível para ouvir ao início, escolha um local confortável e encorage-a a sentar-se consigo e a ouvir o que tem para contar.
  11. Faça-lhe uma massagem. Comece com um toque no ombro ou nos pés, para testar a recetividade. Uma massagem tranquila, com pouca pressão, pode ajudar a libertar a tensão acumulada na criança.

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