Tornei-me mãe e esqueci-me de mim

Em boa verdade, não me esqueci… Permiti-me esquecer.

Sabia que era fácil…muito fácil.
Tinha em perfeita consciência de que após ser mãe seria muito normal esquecer-me de mim.

A mudança que um filho implica numa vida, faz com que seja muito provável que deixemos muitas coisas ficar para trás, como numa fila de espera. E nós, ficamos muitas (demasiadas) vezes no final dessa fila.

Tinha a perfeita noção de que me estava a deixar ficar para o final da fila. Fui ficando bem lá para trás, sempre consciente disso. Para mim, eu não era importante.

Fui-me esquecendo de me arranjar, de pintar o cabelo, ou tão pouco do “tratar bem”… limitei-me ao tão prático coque ou rabo-de-cavalo.

Esqueci-me de mim.

Esqueci-me de arranjar as unhas das mãos e dos pés, e de ir passando um creme aqui e ali.

Esqueci-me de ter cuidado com a alimentação, com o peso, com a forma física e o bem-estar.

Esqueci-me de comprar roupas para mim, ou sapatos, acessórios, tanto que deixei os furos das orelhas fechar…

Esqueci-me de ler um livro, ouvir uma música e de ver uma série.

Esqueci-me de ir ao cinema, a um restaurante ou a um bar apreciar uma cerveja fresca.

Esqueci-me do sabor do chocolate, do vinho e do mel.

Esqueci-me de me divertir.

Por momentos esqueci-me de mim, de cuidar de mim e de me colocar mais à frente na fila.

Não faz mal! Não tenham pena de mim… Sou feliz! Muito feliz! Durante um tempo, tudo o que precisava estava nele e não em mim.

Mas com o tempo tudo muda e voltei a “entrar no jogo.”

Agora, voltei a precisar de mim, e descobri que tenho muito para recuperar.

Pus uma pausa no meu ser, fi-lo de consciência e se voltasse atrás faria igual novamente, porque em momento algum fiquei menos feliz por não me colocar em primeiro lugar.

O primeiro lugar não voltou a ser meu… Acho que nunca mais será, mas para já, preciso de passar à frente alguns lugares na fila.

Inscrevi-me no ginásio, pintei e soltei o cabelo e arranjei as unhas.
Comprei roupas novas (e consegui não comprar nada para ele) e ando a namorar umas botas que vou acabar por ir buscar.

Recomecei a ler, oiço música todos os dias, e ando a pôr em dia as séries.
Não fui ao cinema, mas fui há pouco tempo a um restaurante e a um bar, tudo numa só noite.
Provei chocolate, vinho e descobri que já nem gosto de mel.

Voltei a divertir-me e aos poucos a lembrar-me de tudo o que sou.

E permaneço feliz! Tão feliz como desejo a quem gosta de mim. Relembrei-me de mim, duma altura em que precisei esquecer-me. Foi de me esquecer que precisei, e agora é de me relembrar que preciso.

Mas no fundo, tudo o que importa, é ser feliz, e isso, nunca deixei de o ser! Porque às vezes, não faz mal esquecermos-nos um bocadinho, desde que voltemos a lembrar-nos de nós enquanto mulheres.

imagem@istock

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Quando o meu marido me disse que ia estar ausente em Fevereiro, fiquei no meu modo habitual de sofrimento por antecipação e à beira de um ataque de nervos, (não que as ausências sejam uma novidade), mas porque esta ausência ia coincidir com o aniversário do meu marido, que perante o meu espernear lançou calmamente a bomba atómica:

– Já está tudo pensado, no dia do meu aniversário vens com os meninos ter comigo.

Juro que pensei que o meu marido me queria matar. Ele sabe que eu sofro dos nervos.

– Eu, que fico com as pernas a tremer só de trazer o carro para Lisboa, (suburbana forever), vou conduzir mais de 380 km sozinha com os miúdos? Nem pensar.

Eu explico. Eu adoro conduzir, não se enganem, poucas coisas me dão tanto prazer como pegar no carro e ir, conduzo bem, também não se enganem, mas tirei a carta há quatro anos depois de a minha filha nascer, nunca tinha feito uma viagem tão longa e já é difícil trazer os miúdos da escola para casa sem berrar vinte vezes quanto mais meter-me nesta viagem.

A verdade é que seria impensável não celebrarmos juntos os quarenta anos do meu marido e eu soube logo naquele momento que sim, que eu iria fazer aquela viagem com os miúdos. Por isso, depois do choque inicial, respirei fundo, fui ver o percurso, reservei a casa para o fim-de-semana e não pensei muito no assunto até ao próprio dia.

Viajar sozinha com miúdos

O dia chegou e a primeira aventura começou mal fechei a porta de casa. Eu, os miúdos, as malas e como é que raio vamos descer três andares sem elevador? Vocês sabem, sair à rua com os miúdos para ir ao parque já é o que é, agora imaginem a quantidade de roupa para três dias. E se o miúdo se suja dez vezes por dia como é habitual? E se estiver muito frio? Se calhar é melhor levar mais um casaco para cada um. A minha roupa, sapatos, fraldas, toalhitas, produtos de higiene, medicamentos, brinquedos, comida e água para a viagem. Seja o que Deus quiser e foi tudo arrastado pelas escadas abaixo.

Malas no porta-bagagens, miúdos nas cadeirinhas, o destino no GPS, as recomendações para se portarem bem e não me enervarem, e cá vamos nós. A gritaria começou ainda não estávamos na Ponte Vasco da Gama e durou toda a viagem. Toda. Ela queria o brinquedo que ele tinha, ele queria o brinquedo que estava no chão, ela não queria a música que estava a dar na rádio, ele queria que eu lhe desse a mão.

– A sério, filho, como é que eu te vou dar a mão?

Chegamos a Lisboa e o GPS dá cabo de tudo, manda-me para um sitio que não era aquele que eu estava a contar, dou umas voltas inesperadas com as pernas a tremer e a amaldiçoar a ideia de estar a fazer aquela viagem, mas quando dou por mim já estou onde quero, rodeada de trânsito selvagem, camiões e carrinhas por todo o lado, confiante que afinal vai correr tudo bem, enquanto ignoro a confusão que vai lá atrás.

Não fossem os gritos deles, as birras, as dores de barriga da minha filha, os pedidos para eu apanhar coisas do chão ou para meter o CD do Marco Paulo (a minha filha é fã) enquanto conduzo e a viagem tinha sido suave, sem percalços. Mas quando fizemos a primeira paragem em Santarém a minha cabeça estalava e ainda faltavam mais de três horas daquilo.

À primeira paragem, outra dificuldade: irmos os três à casa de banho. Eu e o pânico de todas as mães numa casa de banho:

– Não toquem em nada!

Enfim, eles tocam em tudo. É esperar que não metam as mãos na boca ou nos olhos antes de as lavarmos. Primeiro foi ela, depois mudei-lhe a fralda a ele e finalmente eu e os miúdos enfiados no cubículo da casa de banho e a indignação da minha filha, como se em casa não passassem a vida enfiados na casa de banho comigo:

Mas, agora temos que estar aqui a ver-te a fazer chichi?

Seguimos viagem. A minha filha finalmente adormeceu. O meu filho não dormiu um segundo. A viagem estava a correr bem, sem muito trânsito e eu penso em não fazer a segunda paragem, para aproveitar que ela estava a dormir e ele relativamente calmo, ou seja, sem gritar. Enquanto penso, o meu filho chama-me e vejo que tirou os braços do cinto. Raios partam o miúdo. Fiquei em pânico, a mais de 10 km da próxima estação de serviço e o miúdo sem cinto. Eu grito, digo-lhe para se encostar, para meter os braços dentro do cinto, eu grito cada vez mais, a irmã acorda e estamos as duas a gritar e ele a rir-se. Foram os 10 km mais longos de sempre. Quando parei em Estarreja, dei-lhe um raspanete, vulgo palmada, ele riu-se, apertei-lhe o cinto o mais que consegui, ele riu-se, respirei fundo e continuei a viagem.

Quando chegámos ao Porto senti-me a maior, caraças, eu tinha conseguido, estava quase. Para contrariar este meu sentimento maravilhoso, a minha filha começou a gritar com dores de barriga. O meu filho começou a enfiar os dedos na boca. Apesar de todos os meus pedidos, a viagem até à Póvoa de Varzim foi feita com esta banda sonora: a mais velha aos gritos e o mais novo a agoniar-se.

A minha vontade foi meter os quatro piscas, parar o carro, sair e dar uma palmada a cada um. Não o fiz. Ignorei o mais que consegui, o meu filho acabou por tirar os dedos na boca e a minha filha, bem, a minha filha, a duzentos metros de chegarmos ao destino, disse-me que não aguentava mais e vomitou o carro todo.

Cheguei ao pé do meu marido exausta, descabelada, com a cabeça a estalar, a paciência toda rebentada e com o carro vomitado, mas voltava a fazer esta viagem de doidos outra vez. Acho eu.

Carta a um bebé que vai crescer sem a mãe.

Querida Maria,

Não me conheces mas tenho ouvido falar muito de ti.

Os teus avós e o teu pai têm feito os possíveis para que o teu início de vida seja o mais normal possível, dadas as circunstâncias. Mas o que já deves desconfiar é que não é natural que o ritmo do coração que ouves quando estás a tentar dormir, e às vezes não consegues, não seja o mesmo que te carregou durante nove meses. É no colo da tua avó que adormeces e te acalmas, comes, começas a sentir o mundo à tua volta e não no da tua mãe.

Não tens noção da diferença e ainda bem que assim é, porque partiria o coração da tua mãe saber que lhe sentes mais falta ainda do que o que é biologicamente esperado.

Nasceste há três semanas, um pouco antes do tempo previsto, porque a tua mãe não aguentou mais as dores. Nunca tinha sido mãe e diziam-lhe que a hora tinha chegado. Mas no fundo, ela sabia, sempre soube, que alguma coisa estava errada.

Meses antes de nasceres sentia dores fortes nos ossos, e queixou-se aos médicos, que desvalorizaram dizendo que eram apenas os ossos a alargar.

As pontadas nas costas eram de tal ordem que foram feitos exames e a tua mãe teve de fazer hemodiálise porque um dos rins estava a falhar. Era normal, disseram, acontece em muitas gravidezes. Impotente, a tua mãe aguentou, que poderia ela fazer? O que tinha a seu favor era apenas o instinto e ela não sabia que o seu instinto podia tudo.

Mais para o fim do tempo ela começou a perder as forças. O teu pai, desesperado, levou-a ao hospital e pediu ajuda. Não podia ser normal, aquilo não eram apenas contrações. No bloco operatório foi feita uma cesariana de urgência e a felicidade de te trazerem ao mundo foi manchada pelo choque pelo do que os médicos encontraram. Infelizmente havia tumores nos ovários, a tua mãe tinha um cancro que estava espalhado por todo o corpo. Sem forças, abriu apenas os olhos para te ver pela primeira vez. E te ouvir chorar. Esse facto tranquilizou-a e deixou-a lutar por si, definitivamente. Mas o tempo tinha passado e a situação era crítica e a tua mãe teve várias paragens cardiorrespiratórias.

Foste para a incubadora até teres autorização para ires embora, o que aconteceu mas a tua mãe ficou. Está medicada para aguentar as dores até que a sua hora chegue, porque agora não há nada que possam fazer por ela a não ser esperar.

O teu pai divide o tempo entre ti e a cabeceira da tua mãe, que lhe custa abandonar, porque não a quer deixar sozinha, porque não sabe quando será a última vez que lhe pode segurar na mão e segredar-lhe ao ouvido que estás bem, que ficas bem, que vai cuidar de ti como ela cuidaria.

Mas a tua mãe ainda não quer ir embora, acredito eu porque precisa de te sentir mais uma vez, mesmo que isso não seja possível pelo perigo que existe para ti ao entrares naquela ala do hospital. Está em suspenso e por mais cansada que esteja acredita num milagre, o milagre de acordar e poder ver-te crescer.

Mas o milagre que ela pede és tu, minha querida. Conseguiste crescer saudável apesar de tudo, nasceste e estás fora de perigo.

Infelizmente a tua mãe não tem todo o tempo do mundo e chegará o dia em que ela já não vai estar cá, muitíssimo mais cedo para ti do que para qualquer um dos amigos que terás na escola.

E tu, minha querida Maria, tens a sorte de ter a família do teu pai por perto, já que a da tua mãe não consegue viajar para Portugal para conhecer a neta nem para se despedir da filha. E todos farão os impossíveis para que cresças feliz e saudável e desta vez o destino há-de estar do seu lado.

Estás aqui também para lembrar a todas as mães, mesmo aquelas que ainda têm os seus pequenos bebés na barriga, que o seu instinto raramente está errado. Que devem lutar até terem uma resposta satisfatória. Que se não as ouvem num médico, deverão bater a todas as portas até que sejam ouvidas.

Não sabemos o que podia ter sido diferente caso o cancro da tua mãe tivesse sido diagnosticado mais cedo. Nunca saberemos. Mas sabemos que a tua mãe sabia que algo estava errado e podia ter lutado mais, se a tivessem deixado.

Por isso, a maior herança que terás dela é essa força, essa garra. É a lembrança de que mesmo medicada, afastada do mundo e de tudo o que acontece fora das quatro paredes do quatro onde ela ouve as malditas máquinas apitarem todos os dias, o seu coração bate fora do seu peito.

E assim será para sempre.

Que faças com esse coração sempre o bem, querida Maria, porque nem todos nós somos fruto de um milagre – mas graças a ti deixaremos de tomar tudo como garantido.

Prometo.

Detestei amamentar. Começo assim o texto para não o lerem ao engano.

Nunca pensei que a amamentação fosse um momento mágico em que ouvimos música celestial, enquanto as pequenas crias sugam o leite das nossas mamas e que o vínculo entre mães e filhos só se desse assim, ou que fosse imprescindível para as defesas dos nossos filhos, ou que todas as coisas que nos tentam enfiar na cabeça fossem a preto e branco, mas imbuída do espírito de sacrifício que toda a mãe deve ter, amamentei (ou tentei amamentar) os meus filhos.

Tive duas experiências diferentes e detestei cada uma delas.

Com a Mariana foi tudo difícil, ela nasceu antes das 38 semanas, era minúscula e fazia da mama uma chucha. Eu não o percebi e os enfermeiros que chamei trezentas vezes, enquanto estive na maternidade também não. O primeiro que me viu quando fomos para o quarto parecia uma criança maravilhada com um brinquedo novo, juro, mexeu-me nas mamas, espremeu os mamilos, eu tinha imenso leite disse-me radiante. Fiquei estupidamente contagiada com tanto entusiamo, só podia correr bem. Não correu. A Mariana passava horas na mama e quando eu os chamava todos me diziam o mesmo, que eu tinha muito leite, para experimentar dar mama deitada para um lado, depois para o outro, depois com a cabeça dela numa almofada, depois sentada no cadeirão, depois em pé, depois a fazer o pino e nada. Ralharam comigo, exigiram-me paciência. E eu tive. Eram eles que me davam as drogas para as dores e eu obedecia. Passava horas sentada num cadeirão e a minha filha passava horas irritada a tentar mamar e não se ouvia música celestial em lado nenhum. Piorou no dia em que devíamos ter alta. A pediatra informou-me que ela tinha perdido muito peso e que estava desidratada. O mundo desabou na minha cabeça. Vi-me inundada em culpa. A miúda só tem quatro dias e eu já estou a fazer tudo mal. Ainda na maternidade dávamos Leite Adaptado para ela ganhar peso e insistíamos na mama, mas a mama era o nosso momento de irritação, de frustração e de culpa. Continuava a não mamar e eu acabava por lhe enfiar um biberão cheio de LA goela abaixo. Ela ficava feliz e eu também.

Quando ela fez um mês desisti e passou exclusivamente a LA.

Com o Tiago foi tudo fácil. No recobro, assim que a enfermeira o meteu na minha mama, eu senti sem qualquer dúvida que ele estava a mamar. Aliás, aposto que se eu deixasse ele ainda hoje mamava. O meu filho nasceu de 41 semanas e três dias, era grande, e eu tal como da primeira vez, tinha muito leite e o meu pequeno bezerrito mamava de duas em duas horas. Era mamar, arrotar, mudar a fralda, mamar, arrotar, mudar a fralda, mas apesar da aparente facilidade, continuei a detestar com todas as minhas forças. Amamentar é muito doloroso, eu sei que depois melhora um pouco, mas enquanto não melhora dói, os mamilos estão gretados, sensíveis, as mamas estão sempre inchadas. Eu tinha leite para alimentar uma ninhada de gatos. Não havia discos de amamentação que aguentassem. Acordava sempre com o pijama molhado, cheguei a tomar banho durante a noite, nos intervalos em que ele me largava as mamas. Que era pouco tempo, porque acordava quatro e cinco vezes para mamar durante a noite. Era desconfortável. Sempre detestei amamentar fora de casa, sentia-me sem privacidade. E era uma prisão. A primeira vez que tirei leite com a bomba para poder sair, fui com o meu marido a um concerto, passei o concerto com as mamas a rebentar e quando cheguei a casa estavam cheias de caroços e eu chorei de dor. Eu detestava, mas o miúdo gostava e crescia e eu aceitei as condições. A única vantagem era ser grátis.

Quando ele fez cinco meses precisei de começar a tomar uma medicação e não pensei duas vezes, comecei imediatamente a dar LA em exclusivo. Como castigo, o meu filho não me deixa dormir bem até hoje.

Das duas vezes tomei a decisão de deixar de amamentar de forma consciente e sem culpa, sabendo que não estava a prejudicar os meus filhos. A amamentação está sobrevalorizada. Amamentar é alimentar e não tem que ser necessariamente com as nossas mamas. Este é um tema que gera muita discussão, não raras vezes acéfala, acusadora e fundamentalista. Existe muita pressão dos médicos, dos enfermeiros, da família e dos amigos, para que a mãe amamente, chega a ser terrorismo psicológico e pode ser demolidor para quem não souber lidar com isso. Como toda a gente sabe, ser mãe é uma condição cheia de sacrifício e se tu não sacrificas as tuas mamas pelos teus filhos, não podes ser boa mãe.

Detestei amamentar e esta é a minha experiência, não é um manifesto contra a amamentação, o que desejo é que cada mãe possa ter a sua experiência, fazendo as suas escolhas, sem culpa, sabendo que não é a amamentação que a define enquanto mãe.

De que são feitas as mães?

Que ingredientes colocaram na receita, para que o amor e a paciência estivessem em equilíbrio, quando tudo o resto parece ruir?
Poucas são as vezes que vacilo no Amor Maternal.

É certo que, algumas vezes, sou uma panela com pipocas a estalar e se se abrisse a tampa seria confetis em dia de festa!
Tenho aquele ingrediente secreto que me faz estar aqui sentada no carro durante duas horas a escrever, enquanto o meu filho luta pelos seus sonhos…
Tenho a poção que me permite dar voltas nas ruas, perdendo o número de quilómetros que faço mesmo quando o corpo grita pelo sofá e tantas vezes pela cama.
Tenho o comando que controla a voz quando a minha filha me tira do sério com as suas argumentações…

Quantas mães conhecem a experiência de dar e doar tempo envolvidas no amor incondicional?

O tempo passa e eles crescem mas as mães serão sempre o exemplo, o modelo. o guia dos pequenos e grandes passos.
Encarar a maternidade como uma etapa que passa, é iludir a vida!
Uma vez mãe, para sempre unidos pelo cordão que se corta mas que não se quebra, mesmo que a vida nos arranque os filhos e filhas dos braços. E quando partirmos estaremos pendurados nas asas dos anjos, para voarmos até eles, segurando cada passo num compasso de luta e esperança.

Os meus ingredientes são o Amor e a Paciência!

E os teus? Quais são?

Image@eyeni

Nunca fui uma pessoa que ambicionasse muito ser mãe. Não me via no papel de cuidadora, talvez por ter sido a filha mais nova e estar habituada a que tratassem de mim. Nunca gostei de brincar com bebés nem tão pouco aos pais e às mães. Gostava de aventuras, brincadeiras e ação. Obviamente que não tinha noção do que era ser mãe.

Hoje sou mãe de quatro. A aventura que tanto prezava em criança está claramente presente no meu dia-a-dia e não trocava um minuto da minha vida com com os meus filhos por nada deste mundo.

Tornamo-nos mães quando engravidamos. Não há nada que nos prepare melhor para a maternidade do que aqueles 9 meses de estágio onde percebemos que não só ficamos com uma barriga (muito) maior, mas que com ela cresceu também o nosso coração. Porque o coração de mãe é tão grande que cabe nele amor infindo.

Conforme o bebé vai crescendo na nossa barriga, uma mãe vai crescendo dentro de nós. Começamos a pensar por dois e alterar os nossos hábitos diários pondo sempre as necessidades e bem-estar do nosso filho em primeiro lugar!

Quando vemos o nosso filho a primeira vez e o põem junto ao nosso peito, descobrimos que é possível chorar por amor. Damos-lhe um beijo e sussurramos entre lágrimas que o vamos fazer feliz.

Ser mãe não se aprende na escola, nos cursos de preparação ou nos livros. Ser mãe aprende-se com os filhos, que nos orientam através das suas necessidades. Mas ser mãe não é só mudar fraldas, dar papas, e ajudar com os TPC até que sejam autónomos e saiam de casa.

É sorrir quando nada corre como previsto. É sentir o vazio quando os deixamos na escola nos primeiros dias. Ser mãe é nunca mais estar sozinha, nem nos nossos pensamentos. É querer proteger os filhos e querer que os filhos se tornem autónomos e custar-nos tanto que sejam.

Ser mãe é ter de ouvir conselhos (e até palpites!) mesmo sem nunca os pedir. É ter jogo de cintura para lidar com a opinião alheia.

Ser mãe é saber sempre como resolver as questões dos filhos dos outros e não saber o que fazer quando é com os nossos.

Ensina-nos a gerir o tempo, uma casa, uma família. Ensina-nos a lidar com birras e choros. Aprendemos a esconder legumes na comida, a montar legos e a tirar nódoas da roupa. Tornamo-nos mais altruístas para estar com os nossos filhos. Tornamo-nos capazes de enfrentar obstáculos pelos nossos filhos.

Ser mãe é voltar a jogar ao elástico, a brincar à apanhada, a inventar músicas patetas e dançar com os miúdos quando ninguém está a ver. É ter uma casa cheia de sorrisos e de brinquedos e pedir ora que os nossos filhos cresçam, ora que fiquem para sempre bebés.

Porque sabemos que a fase em que estamos é exigente, mas poderá ser a melhor da nossa vida.

 

Nota importante: O leite materno é a nutrição ideal para a seu bebé. Blédina é uma marca  que comercializa alimentos infantis, para alimentação complementar após os 4 meses de idade. Informe-se sempre com o seu Profissional de Saúde sobre a melhor forma de alimentar o seu bebé, em particular, sobre quando e como iniciar a alimentação complementar. 

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Estava no hospital à espera da minha vez para uma consulta, a sala cheia, pessoas sentadas, pessoas em pé, umas a conversar, outras a tossir, outras a reclamar, o placard a anunciar o número das senhas e de repente o choro de uma criança fez parar o barulho ensurdecedor da sala. Estremeci. Reconheço de cor o som de uma birra. Olhei e vi uma mãe com olheiras até ao chão, cabelo apanhado à pressa, um ar que tanto podia ser de desespero, como de exaustão, como de loucura. Era a vez dela, senha quinze, guichet número cinco. A miúda a fincar os pés no chão, a mãe a arrastar a miúda pelo braço e o choro cada vez mais alto. O placard anuncia outra vez a senha quinze, guichet número cinco. A mãe chega finalmente ao guichet, pede desculpa, um sorriso amarelo, a miúda senta-se no chão, a mãe tenta tirar papéis de dentro da mala, a miúda deita-se no chão a chorar, a mãe entrega o cartão de cidadão, a miúda puxa o casaco da mãe, a mãe não aguenta mais e dá um berro:

– Estás a fazer birras deste que acordaste, acaba já com isso ou levas uma palmada no rabo!

A mãe olhou à volta, pegou na filha ao colo, baixou a cabeça e saiu da sala.

Tive vontade de me levantar e ir abraçar aquela mãe. Podia ser eu. Podia ter sido eu o alvo daqueles olhares reprovadores. Aquele cansaço e aquele desespero podia ser meu.

Dias mais tarde, novamente numa sala de espera, desta vez nas urgências do centro de saúde com o meu filho, enquanto esperava que o chamassem, uma miúda choramingou o tempo todo. Todo. Passava do colo da mãe para o colo do pai, levantava-se, sentava-se no chão, deitava a cabeça nas cadeiras, fugia para os gabinetes das enfermeiras, dava pontapés no caixote do lixo, o pai levou-a a apanhar ar, voltou para o colo da mãe, atirou o telemóvel da mãe ao chão, a mãe deu-lhe uma palmada no rabo, ela chorou ainda mais alto e a mãe saiu da sala com as lágrimas nos olhos perante o abanar de cabeça de quem lá estava.

Tive vontade de me levantar e ir abraçar aquela mãe. Podia ser eu. Podia ter sido eu o alvo daqueles olhares reprovadores. Aquele cansaço e aquele desespero podia ser meu.

Aquela mãe precisava de um abraço, de colo, de alguém que lhe dissesse que não é má mãe, que os miúdos fazem birras sabe Deus porquê e que a culpa não é nossa. Mas, tudo o que esta mãe e a outra mãe e todas as mães recebem quase sempre, é aquele terrível olhar reprovador que diz sem dizer que estamos a fazer tudo mal, que não prestamos neste trabalho de sermos mães dos nossos filhos, que os miúdos são mal-educados e a culpa é nossa. Não impomos respeito, não sabemos educar e não definimos limites.

Vejo isto a toda a hora e em todo o lado. Nas salas de espera das urgências, nas filas de supermercado, nas lojas, no cinema, na praia, nos parques infantis, nos transportes públicos, nos restaurantes, em nossa casa. Que os miúdos se livrem de se mexerem na cadeira do restaurante, de se rirem alto, de se meterem nas nossas conversas, que se livrem de chorar de aborrecimento, de cansaço ou de dor, que se livrem de fazer uma qualquer birra estúpida, que se livrem de serem pessoas em construção, com vontades, frustrações e tentativas manhosas de nos manipular. Que se livrem de serem crianças, porque se o fizerem a culpa é nossa. Das mães que aos olhos dos outros não sabem ser mães.

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Desculpa, desculpa, desculpa filho! Milhões de vezes desculpa.

Até diria que nem mereço que me perdoes, porque tu, és tão puro e inocente que nem sentes que precisas me perdoar. Tu és tão incondicional que és meu, com todos os meus defeitos… Ainda assim, quero pedir-te desculpa!

Desculpa por todas as vezes que me pediste colo e eu não to dei. Nada justifica não o dar. Tu não vais ser mimado, não vais ficar mal habituado, e eu nem estou assim tão cansada. A verdade é que um dia muito em breve, já não vais querer o meu colo, e eu vou estar ainda mais arrependida pelas vezes que não to dei.

Desculpa por todas as vezes que te falei mais alto. Pela paciência que me faltou, pelos afazeres que me exacerbaram e que me fizeram falar-te mais alto e de forma impaciente. O certo é que tu recorreste a mim, e eu não te correspondi.

Desculpa pelo cansaço… pela exaustão que às vezes toma conta de mim e que não me deixa acompanhar as tuas correrias, as tuas emoções ou a tua alegria! Nunca deixes de ser assim. Mesmo que a mãe te diga que está cansada, não desistas de mim.

Desculpa por ter que trabalhar. Por te deixar a maior parte do dia com pessoas que não sou eu. Por apenas estar contigo um par de horas por dia. Por não conseguir estar mais tempo contigo e acompanhar mais o menino em que te estás a tornar. Eu prometo que tento, e que estou contigo todos os minutos que consigo.

Desculpa por ter sono quando ao Domingo de manhã queres ir jogar à bola. Por ir muitas vezes ainda meio ensonada e a esfregar os olhos, e muitas vezes tentar dissuadir-te da ideia.

Desculpa por ter muitas coisas para fazer. Roupa, loiça, pó… E ainda que tente sempre fazer disso uma brincadeira, se eu pudesse as nossas brincadeiras seriam sempre outras.

Desculpa filho, se a vida é injusta! Se o mundo não está preparado para me deixar ser completamente tua mãe! Muito disto não é a minha culpa, mas ainda assim, tu és o mais importante da minha vida, e o que lhe dá sentido. E por isso mereces o meu pedido de desculpa, hoje e sempre, mesmo que não o queiras.

A maternidade é como a idade – bonito é fingir que não passamos por ela

Recordo-me perfeitamente de estar no final da gravidez da nossa filha – inchada, com asma resultante da gravidez, um refluxo que só me permitia dormir sentada, pés que pareciam batatas – e de repente aparecer na televisão a Kate Middleton, poucas horas depois de dar à luz pela segunda vez, em pé, na rua, com o recém-nascido ao colo, num maravilhoso vestido amarelo, com ar sereno de quem não tinha feito nada de especial nas últimas horas.

Senti de imediato a pressão para ter um pós-parto igual, até me senti uma drama queen por estar estatelada no sofá a respirar com dificuldade, quando aquela mulher depois de um parto estava ali firme e hirta, penteada e maquilhada.

Quando a nossa filha nasceu voltei a sentir que era menos capaz do que a Kate – no dia seguinte ainda precisava de uns bons 10 minutos para me levantar, arrastava-me pelo quarto, usava uma mola que mal prendia o cabelo, estava pálida e olheirenta e o único vestido que me apetecia usar era o vestido de noite largo e manchado de leite da noite anterior. Estava exausta, não queria tirar fotos nem esboçar sorrisos forçados, apenas permanecer encostada à nossa filha, a apreciá-la, com direito a dormitar pelo meio.

Estive rodeada de pessoas fabulosas, mas com o regresso a casa começaram os zumbidos de “agora tens de recuperar a tua forma“, “em breve a tua vida vai voltar à normalidade“, “tens de voltar a cuidar de ti como antes”.

Por que é que temos de fingir que não mudámos, que não nos tornámos mães? Por que é que temos de “voltar à normalidade” como se nada tivesse acontecido? A que se deve tanta pressa?

A maternidade e o pós-parto tornaram-se uma espécie de capítulo curto na vida das mulheres que deve ser rapidamente lido e encerrado, sem tempo nem espaço para o viver. É como se existisse uma competição subtilmente incutida de “ganha quem recuperar mais rápido a forma, retomar a sua rotina e transparecer não ter sido mãe!”.

Ser mãe não é um capítulo, é a própria história, um aspecto que estará presente em nós pela vida fora, diria até uma característica. Não é uma fase passageira, é um modo de vida, uma escolha que fizemos e que merece ser plenamente experienciada. Ser mãe é uma eclosão! Como qualquer mudança de vida significativa, exige tempo para lidarmos com todas as transformações inerentes, emoções mais e menos positivas, certezas e dúvidas, derrotas e vitórias. Por que nos levam a pensar que devemos passar por cima disto todas apressadas? Desde quando uma mudança tão importante deve ser vivida com ligeireza?

Sou mãe, jamais serei a mesma, não me peçam para fingir que nada mudou! O meu corpo ganhou um novo formato, aquele que permite à nossa filha encaixar-se perfeitamente nele, a minha vida ganhou outras prioridades, o meu coração cresceu desmedidamente, o meu pensamento foca-se em fazer a nossa filha feliz pois essa é para mim uma fonte de satisfação.

Claro que aos poucos me vou recuperando enquanto mulher, ganhei vagar e motivação para cuidar mais de mim, para esporadicamente sair a dois. Ainda assim, nada será igual, não é suposto ser! A nossa filha existe e faz parte de nós SEMPRE, mesmo quando não está presente.

Sou uma menina-mulher que se tornou mãe e que dois anos depois continua a aprender a desempenhar este papel. Estou em constante reconstrução, ganhei responsabilidades e a bênção de criar uma família.

Onde quer que me vejam, irão ver uma mulher que nunca mais descansou o mesmo, que se questiona sobre as suas práticas parentais, que cuida menos de si, mas que transporta nos seus olhos o brilho próprio de quem reconhece o valor da honra de ser mãe – não nos tentem tirar isto!

Como mãe sinto muitas vezes frustração.

Não apenas quando não consigo acalmar uma birra ou quando não consigo dormir uma noite inteira sem interrupções, mas principalmente quando os meus filhos estão doentes.

Ontem, depois do jantar, dei por mim a caminho do hospital com a minha filha. Outra vez. O costume. Na sala de espera, já cansada, ela deitou-se no meu colo, encostou a cabeça no meu peito e adormeceu. Senti-lhe o cheiro doce dos cabelos, as mãos quentes da febre e, exausta, chorei.

Chorei de cansaço e de frustração.

Na semana passada estiveram os dois doentes (a bem da verdade, ainda não deixaram de estar doentes desde o Outono) e já estou outra vez sentada no frio da sala de espera da urgência pediátrica.

Conheço de cor a tosse, a respiração, com ou sem expectoração, os nomes dos medicamentos, a dosagem, sim, faz essa bomba todos os dias, vamos aumentar a dose, vamos experimentar estes comprimidos, este é de doze em doze horas, os sinais de alarme, sim, eu sei quais são, se não melhorar em dois dias volta cá, então adeus, até daqui a dois dias.

Posso gritar?

Com o tempo vai melhorar, eles vão crescer, vamos ter saudades: todas já ouvimos isto centenas de vezes, mas a verdade é que o aqui e o agora é feito de miúdos doentes o tempo todo e eu garanto que não vou ter saudades. Estou de rastos, pareço um pano velho que agora só serve para secar as bancadas da cozinha, quando os oiço tossir começo imediatamente a tremer, não durmo bem há cem anos, a tensão quer que eu pare para descansar e recuperar forças, mas vivemos num círculo vicioso interminável.

Abracei a minha filha com força, beijei-lhe a testa e limpei as lágrimas. A maior frustração da maternidade é a do colo da mãe não ser capaz de curar tudo.

 

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